"Os espelhos estão cheios de gente.
Os invisíveis nos vêem.
Os esquecidos se lembram de nós.
Quando nos vemos, os vemos.
Quando nos vamos, se vão?"
Eduardo Galeano: Espelhos
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sábado, 23 de janeiro de 2016

Lições do Mundo Antigo

Colheita, Pedro Weingärtner

Para alcançar o estágio de desenvolvimento que atingiu no século V da era cristã, a humanidade passou por períodos sucessivos de evolução marcados por eventos significativos. Na sequência cronológica, o primeiro evento foi o surgimento do bípede, há cinco milhões de anos. Há dois milhões de anos, a caixa craniana do Homo erectus alcançou o mesmo volume que a do homem moderno. A primeira ferramenta, uma pedra amarrada em um pau, foi uma conquista que pode ter ocorrido entre um milhão de anos e 500 mil anos. Esse evento marcou uma mudança radical naquele animal, pois foi seu primeiro ato de consciência. Ele associou ideias para criar um instrumento eficaz com objetivo preciso. A partir daí sua relação com a natureza mudou radicalmente. Não se sabe quando ele passou a usar o fogo ou começou a produzir a chama, com o choque de duas pedras ou a fricção de madeira. Há cerca de duzentos mil anos as ferramentas de corte já eram aperfeiçoadas com a manufatura de facas e de pontas triangulares para lanças e estiletes mantendo certo padrão.

O Homo sapiens aparece em Java pela primeira vez há cerca de 120 mil anos. As primeiras pinturas rupestres e entalhes em rocha representando animais aparecem há cerca de 30 mil anos. De 20 mil anos para cá há um aperfeiçoamento marcante na produção de artefatos, utensílios e armas de vários materiais, chifre de rena, osso, madeira e pedra, e o uso de madeira dura ou osso como broca, a primeira ferramenta para fabricação de instrumentos de pedra polida. A agricultura e a pecuária começaram há cerca de dez mil anos. Há nove mil anos o homem já trabalha o cobre, há cinco mil anos produz a roda e forja o bronze, constrói cidades e domina a escrita, e há quatro mil usa o arado na agricultura e fabrica instrumentos em ferro.

Observa-se que há uma aceleração crescente de um evento significativo para o seguinte. Foram três milhões de anos para a caixa craniana dos ancestrais do homem crescer, a partir do momento em que eles começaram a andar sobre dois pés. Mais um milhão de anos para construir o primeiro instrumento, Oitocentos mil anos para diversificar sua fabricação e estabelecer padrão de qualidade. Mais quase duzentos mil anos para gravar figuras nas rochas e polir a pedra. Há dez mil anos ele tornou-se agricultor e criador, constituindo grandes tribos nômades e aldeias diversificadas. Em seguida tornou-se minerador e metalúrgico. Há sete mil anos criou as primeiras aldeias fortificadas com muros de pedras e com casas construídas em tijolo cru. Há cinco mil anos construiu cidades e inventou a escrita, dando início às civilizações. Essas se fizeram impérios, alguns deles efêmeros, produzindo uma dança de poder e o caldeamento das populações e das culturas. Na primeira metade do primeiro milênio a.C. os gregos utilizaram a escrita para contar histórias, fazer poesia e textos de teatro, difundindo a cultura e dando forma definitiva a lendas e mitos. Isso possibilitou a crítica dos textos, o que deu origem à filosofia. No mesmo milênio, em vários locais do mundo, surgiram místicos e filósofos que são objeto de estudo e reverência de bilhões de pessoas na atualidade. Vejamos algumas lições que essa evolução nos deixou.

Os grupos familiares formaram-se naturalmente e se uniram para se defenderem das agressões externas, de animais ou de outros grupos. A ampliação dessa união deu origem às tribos. Estas cresceram, formaram-se castas, e a chefia tornou-se tirânica. Tolheu-se a liberdade dos excluídos das castas. O sedentarismo das cidades ampliou e consolidou as diferenças sociais. Surgiram a escravidão e o poderio militar. As necessidades e a complexidade das relações sociais, cada vez maiores, fizeram crescer ainda mais as diferenças sociais. Os ricos já não se contentam em satisfazer suas necessidades. Eles querem luxo, regalias e mais riquezas do que a cidade lhes pode dar. Isso gerou conflitos e insegurança. As castas já não podiam prescindir do trabalho escravo, então escravizam os inimigos presos. O passo seguinte foi a conquista de outros povos. Inicia-se o período dos impérios, nas suas diversas manifestações. Os teocráticos, como Acádia, Egito, Babilônia, nos grandes vales de agricultura irrigada. Os mercantis escravistas, como Assíria, Grécia, Cartago, Roma. E as chefias pastoris nômades, como hicsos, hititas, cassitas, ários, citas, hunos.

As cidades-Estado helênicas foram um avanço extraordinário na organização social, com a criação da república. Mas com seu desenvolvimento, dirigentes e grandes proprietários formam oligarquias, para exercer o poder e satisfazer suas ambições. Negligenciam os princípios republicanos que sustentaram o progresso da comunidade. Optam pela pilhagem na busca da riqueza. Invadem o território da cidade vizinha para ampliar o seu, gerando a guerra e a insegurança. [...]

[...]

Esse fenômeno da expansão da cidade sobre os domínios de outros, que já preocupava os filósofos gregos, aconteceu também com os reinos que englobavam mais de uma cidade, o que os fez tornarem-se impérios. A propriedade e a concentração de riqueza foram instrumentos de progresso material, mas foram também causas das guerras que abalaram o mundo antigo e nos atingem até hoje. As grandes extensões dos reinos e de impérios resultaram na sua instabilidade e, em muitos casos, na sua destruição. Assim, os reinos, impérios e as civilizações foram se sucedendo no processo histórico, cumprindo seu ciclo de nascimento, florescimento, decadência e morte.

Algumas civilizações não foram vencidas por outras em competição ou guerra. Apenas se tornaram inviáveis, esgotaram-se por seu crescimento ou por seus vícios. Elas deixaram espaço para a formação de reinos menores que se ajustaram às novas circunstâncias. Observando cada período de evolução da humanidade, verificamos que os de maior prosperidade e crescimento ocorreram quando os impérios, por uma ou outra razão, estiveram contidos, como aconteceu depois da grande revolta dos povos dos mares por volta de 1200 a.C. Ausentes os impérios, o Mediterrâneo foi liberado para o comércio sob a hegemonia da Fenícia, um Estado pequeno com pequeno poder militar. Nesse período as cidades-Estado se organizaram, floresceram e se difundiram. O mundo passou por um grande progresso material e cultural.

Não podemos julgar a história, mas devemos analisá-la friamente para que possamos aprender com seus feitos e desfeitos. O processo histórico é uma sucessão de períodos de presença imperial forte, quando prevaleceu a tirania, e de relativa ausência desses impérios, quando floresceu a república e uma democracia incipiente, condicionadas pelas oligarquias nas cidades-Estado, mas com muito mais liberdade que sob o domínio imperial ou na presença dele. Esse processo cíclico de dominação e liberdade facilitou a integração das populações e o caldeamento cultural, ora em benefício dos impérios, ora dos povos.

Nos períodos imperiais desenvolveram-se as tecnologias militares e as forças produtivas, pois era necessário produzir armas e alimentos para as guerras e a sustentação do império. Nos períodos de autonomia das cidades-Estado, desenvolveram-se a cultura, nas suas diversas manifestações, a cidadania, a literatura e a poesia, as artes cênicas, a escultura e a pintura, o artesanato, a filosofia, a religião, a música e os conhecimentos em geral. As relações humanas e as ciências progrediram e o homem tornou-se melhor, mais sociável e mais amoroso.

Na Mesopotâmia, encontramos um período de autonomia das cidades-Estado e dos pequenos reinos, do ano 3000 a.C., no início das civilizações, até o Império Acádio, por volta de 2400 a.C. Depois da queda desse império, em 2150 a.C., houve autonomia e progresso em vários pequenos períodos, nas alternâncias entre os instáveis primeiros impérios, até que o império babilônico de Hamurábi se impõe em 1790 a.C. Muito mais tarde ocorreria no Oriente Médio um período muito importante para a evolução de todos os povos, de 1200 a.C. até cerca de 800 a.C., resultante do retraimento dos impérios que disputavam a região, em face da revolta dos povos dos mares. Já na Ásia Menor e no mar Egeu esse período de autonomia permaneceu até a invasão de Ciro II à costa jônica e às ilhas gregas próximas a ela, em 550 a.C.

As invasões persas ao mundo helênico não foram apenas uma questão geopolítica. Elas traumatizaram as populações invadidas, assim como as ameaçadas. O resultado foi um ódio de tal proporção, que esses povos apoiaram Alexandre nas suas ações de conquistas que destruíram seu inimigo. Esse fato deveria estar presente no pensamento dos líderes mundiais que não encontram limites morais nas suas ações dominadoras, que incluem o genocídio, a destruição de valores morais e de bens materiais.

O processo histórico há pouco referido, que alterna submissão e autonomia, ainda vigora até nossos dias. Hoje, entretanto, enfrentamos uma situação muito mais complexa e perigosa, pelo enorme poder de destruição acumulado e pelo esgotamento da capacidade da natureza em recuperar-se da ação predatória do homem. [...]

Quando Atenas foi invadida e destruída pelos persas, em 480 a.C., já havia sido constituída uma aliança, um ano antes, que criou o mais poderoso exército da Antiguidade. A Liga do Peloponeso, sob a liderança de Esparta, teve papel preponderante nesse acontecimento. Mas, disputas internas, e a visão imperial de Atenas, impediram que ela se consolidasse. Esparta continuou com seus aliados e Atenas formou a Liga de Delos, criando um foco de tensão que só cresceu, e teve seu ápice na Guerra do Peloponeso em 431 a.C. Esta durou 27 anos, destruiu a unidade helênica e permitiu a Filipe da Macedônia assumir o poder na Grécia.

Se houvesse um esforço no sentido da unidade, que suplantasse as disputas entre as aristocracias de Atenas e de Esparta, o mundo helênico poderia oferecer à humanidade um formidável exemplo de cooperação entre Estados independentes formando uma confederação forte, cultural, econômica e militarmente. Poderia tornar-se uma potência formidável, não imperial, a condição mais conveniente para ela estabelecer boas relações com os outros povos da região. Entretanto, o projeto imperial de Atenas era ambicioso demais, enquanto seus governantes eram frágeis discípulos dos sofistas, sem ética e sem compromissos maiores com a população grega. Quando usou o tesouro da Liga de Delos, destinados à defesa comum, Atenas manifestou sua prepotência, enquanto construía seu projeto imperial. Os recursos foram usados para fortificar e reconstruir a cidade e o Parthenon, gerando emprego e prosperidade apenas para ela.

Esse exemplo é notável para a compreensão de como as classes dominantes colocam seus interesses acima dos do país e de seu povo. A desunião dos gregos e a fugaz existência do Império Greco-Macedônio abriram o caminho para Roma tornar-se o grande império que foi. Há muitas outras lições a aprender com a história do mundo antigo, na qual encontramos situações semelhantes àquelas vividas mais tarde pela humanidade, inclusive nos nossos dias. Compreender os fenômenos atuais por seu estudo direto é difícil, porque eles envolvem nosso interesse pessoal e nossas emoções. Nós somos parte deles, como autores, vítimas ou cúmplices. Mesmo descontentes, a mudança pode nos ser incômoda e a luta por ela perigosa. Teremos que enfrentar a opinião pública, formada pelos meios de comunicação para defender o status quo. Precisamos do nosso emprego que, mesmo precário, garante nossa subsistência e de nossa família. Nossos conhecimentos limitados bloqueiam nossa visão de conjunto da sociedade, necessária à compreensão do todo. A rotina e a inércia estão a favor do status quo, mesmo se injusto e doloroso.

A única dificuldade na análise dos fatos históricos são os dogmas de fé, Eles bloqueiam nossa mente. Estamos vivendo um momento em que todos falam em mudança, desfazendo-se de muitos dos dogmas do passado. Mas esses são substituídos por novos dogmas, como aqueles contidos no que os intelectuais apelidaram o pensamento único. Sem dogmas e mitos, e sem cumplicidade, podemos nos centrar nas questões essenciais para termos uma visão mais realista delas. Inclusive compreender que mesmo sem nos empenharmos na solução dos problemas a crise se encarregará de fazê-lo. Mas o preço da omissão poderá ser muito caro para todos.


Uma das consequências da nossa assimilação das lições da história é compreendermos a origem comum dos povos e nos certificar de que nenhum deles é mais importante, ou melhor, que qualquer outro. Todos tiveram seus momentos de dificuldades e souberam superá-las. Conheceram a glória, como senhores de impérios, e a humildade dos derrotados e dos escravizados. Não porque fossem mais fortes ou mais fracos, mais ou menos capazes, mas por circunstâncias favoráveis ou desfavoráveis. Foram poderosos por ocuparem terras férteis e dominarem tecnologias mais desenvolvidas e adequadas. Por serem, naquele momento, mais numerosos e disporem de tecnologia inovadora ou superioridade militar. Foram fracos quando vítimas de mudanças climáticas catastróficas, ou de lideranças corrompidas ou irresponsáveis, ou quando eram pouco numerosos e detinham pequeno efetivo militar.

A alternância de dominação que ocorreu em todo mundo ocidental conhecido na época, Oriente Médio, Ásia Menor, Egito e Mediterrâneo, demonstra que todos os povos são aptos para o exercício de qualquer atividade econômica, artística ou guerreira. A alternância no poder de comunidades nos países e destes como impérios, provam que o poder provém da produção material, terra, matéria-prima, tecnologia e massa crítica de população, e não das qualidades humanas que são, na média, iguais para todos os povos. O que realmente importa para a realização dos povos são seu nível de conhecimento e suas relações sociais equilibradas e harmoniosas. O reconhecimento do direito dos cidadãos é o principal quesito para a valorização de uma civilização.

A força e a bravura dos guerreiros são virtudes que podem ser determinantes na decisão de um conflito, mas os registros mais importantes da história não são os feitos bélicos, mesmo quando gravados em pedra pelos vencedores. São as obras de arte, a filosofia, a literatura, a poesia, as construções, sejam elas magníficas ou simplesmente úteis, e as ações e atitudes humanitárias, como o amor latente na pregação dos grandes líderes religiosos.

As diferenças genéticas ou culturais devem ser vistas como vantagem universal. A primeira favorece a sobrevivência de parte da humanidade em situações climáticas rigorosas. A segunda aumenta a probabilidade de um grupo possuir as qualidades adquiridas de adaptação às diferenças do meio, através dos seus hábitos, métodos de trabalho, estilo de vida, conhecimentos e crenças. E também de terem uma cultura mais adequada à adaptação a novas condições sociais e institucionais, em momentos de crise civilizacional. Assim, a humanidade pode seguir sua senda de experiências, dificuldades, sofrimentos, êxitos e realizações. A questão racial por conta da cor da pele é ridícula sob todos os aspectos, e já foi desmascarada pela ciência, sobretudo depois da descoberta do DNA. A migração para o norte no período glacial, por exemplo, favoreceu os albinos proliferarem e se mesclarem com os outros reduzindo a melanina do grupo. Como não existe uma raça albina, seus descendentes não podem alegar serem de raça distinta apenas pela menor quantidade de melanina na pele.

O conhecimento da história do mundo antigo é suficiente para ensinar à humanidade como proceder para uma vida melhor e uma maior realização humana. Ela nos mostra que o respeito ao próximo evita conflito e cria a cooperação, e a sinergia colabora para um maior desenvolvimento de todos. Já o conhecimento científico nos dá condições de saber mais sobre a natureza e o cosmos, e nos ajuda a comportarmos em consonância com as leis naturais que não podemos mudar. Mas a história sempre foi mal conhecida ou deturpada, no interesse daqueles que ocupam o poder. Estes criaram as castas e as tiranias, e construíram barreiras contra a difusão do conhecimento, que eles monopolizaram. O domínio da informação por uns poucos, obrigou aos que não se submeteram a criar o ocultismo e as seitas. A dominação também aprofundou a desigualdade, imobilizou um grande potencial de desenvolvimento humano, perpetuou a ignorância, o maior dos males.

As castas produziram as ideologias, corpos de ideias que buscam justificar seus interesses e as ações para defendê-los. Elas geraram a discriminação e toda sorte de desumanidade, a violência, a injustiça. Estigmatizaram adversários e concorrentes para que fossem desprezados. Incentivaram os conflitos para evitar a unidade das populações. Estabeleceram instituições manipuláveis e apropriadas à defesa de seus privilégios. Assim, o poder, seja qual for sua forma ou expressão, representa sempre esse corpo de ideias, a ideologia da classe dominante, que coloca os povos em camisa de força.

Esses ensinamentos estão todos lá no mundo antigo. Quando Jesus de Nazaré disse, conhecereis a verdade e a verdade vos libertará, ele talvez quisesse nos dizer que o maior inimigo do homem é a ignorância. O mesmo disse Buda. É da ignorância e da avidez que surge o mundo do erro, e suas causas e condições existem apenas dentro da mente, em nenhum lugar mais. Mas essas mensagens foram deturpadas e a verdade negligenciada. [...]

[...]

Há uma questão renitente na atualidade, que parece não ter solução, o propalado "ódio" entre árabes e judeus, Uma forma viciada de apresentar um conflito como se houvesse uma razão histórica consistente para isso. Não há nada que possa justificar esse conflito. Os dois são povos semitas, da mesma raiz linguística e que viveram lado a lado durante séculos. Muito menos no que concerne às relações entre judeus e libaneses. Estes são descendentes dos fenícios que conviveram com os hebreus e deram apoio ao seu Estado por séculos. Somente a partir da presença inglesa na região, depois da descoberta do petróleo, esse conflito foi alimentado e manipulado. Nem na história antiga, nem na religião, podemos encontrar explicações para esse impasse. O fundamento alegado é a diáspora dos judeus, no tempo de Roma, mas, hoje, sua causa é o interesse das potências modernas no petróleo.

MOURTHÉ, Arnaldo. História e colapso da civilização: é melhor o incômodo da advertência que a tragédia da ignorância. Rio de Janeiro: Editora Mourthé, 2012. p. 219-227.

sábado, 19 de setembro de 2015

O que aprendemos com os povos indígenas

Guerreiro cheyenne com cocar, escudo e lança, ca. 1915-1937. Monroe Tsatoke

Tomate, batata, feijão, milho, mandioca e cacau são algumas das dezenas de plantas descobertas e cultivadas pelos povos nativos da América, há milhares de anos. Hoje, a dieta básica de milhões de pessoas de todo o mundo contém espécies vegetais originadas do continente americano. Mesmo o chiclete, a goma de mascar popularizada pelos norte-americanos, foi tomado dos maias, inclusive seu nome; ainda hoje sua matéria-prima é extraída das florestas tropicais da Meso-América, onde estão os sapotis, a árvore de onde se extrai o "chicle". É igualmente grande o número de plantas empregadas na indústria que os antigos povos da América já utilizavam: borracha, palmeira, carnaúba, amendoim, castanha-do-pará, girassol, tabaco, algodão, juta e sisal são alguns exemplos. O conhecimento acumulado pelos ameríndios ao longo de muitas gerações está merecendo, atualmente, a atenção dos cientistas.


O presente, 1922. Ernest L. Blumenschein

Os grupos indígenas desenvolveram uma ciência própria. Alguns, por exemplo, classificam o solo de acordo com as plantas e a matéria inorgânica (areia e argila, por exemplo) que a compõem. Dão nomes específicos a cada tipo de solo e discriminam as plantas ideais para cultivar em cada um. Na mata virgem, identificam centenas de espécies vegetais, muitas das quais desconhecidas pelos botânicos. Além das alimentícias, os indígenas reconhecem plantas medicinais (curativas, anestésicas, antissépticas etc.), inseticidas, tóxicas, corantes, fertilizantes, lubrificantes, além daquelas usadas para cobrir casa, trançar cestos e esteiras, fabricar ferramentas e armas, conter encostas e barrancos.


Mestre de cerimônias, 1925. Gerald Cassidy

Alguns medicamentos da medicina ocidental foram feitos a partir de plantas há tempos utilizadas pelos indígenas, como o ipecacuanha (tratamento de infecções gastrintestinais), a capaíba (contra afecções das vias urinárias), a quinina (contra a malária), a coca (como anestésico local), o curare (em cirurgias cardíacas) e o peiote (em tratamentos psiquiátricos) - plantas perigosas que, entre os ameríndios, só eram manipuladas pelos curandeiros ou sacerdotes, pois o erro na dosagem podia matar o doente.

A indústria têxtil usa espécies de algodão há milênios cultivadas pelos indígenas da América e consideradas as melhores do mundo.

[...] astecas e incas, para aproveitar os espaços e ampliar as áreas de cultivo [criaram] as chinampas, os canais de irrigação e o uso de fertilizantes naturais. Muitos pesquisadores já demonstraram que essas técnicas são mais simples, baratas e tão produtivas quanto aquelas que utilizam as modernas e caras máquinas e fertilizantes químicos de hoje.


O cacique do pueblo, 1916. Walter Ufer

Outras culturas nativas americanas também desenvolveram eficientes técnicas agrícolas. Ao contrário do que muitos pensam, os indígenas interferiram na natureza, criando artificialmente terrenos propícios à lavoura. No Brasil, por exemplo, há grupos indígenas que espalham sobre a área de cultivo uma mistura de palha com terra de cupinzeiros e formigueiros esmagados. Colocam cupins e formigas vivas na terra recém-cultivada para que os insetos lutem entre si e não ataquem os brotos. Transplantam espécies vegetais para locais onde elas não são comuns.

Na Amazônia, onde o solo se esgota rapidamente e a camada de húmus é muito fina, os indígenas desenvolveram a agricultura itinerante. Uma família derruba apenas a área correspondente à sua capacidade de trabalho (em geral um hectare). A mata derrubada é deixada  para secar por dois ou três meses. Procede-se, então, à primeira queima, que é, depois, seguida de nova queimada com os galhos e folhagens que restaram.


Nas Colinas de Pé, 1896. John Hauser

Os indígenas que utilizam a técnica da coivara sabem quando é chegada a hora da queima. Observam a direção do vento e se orientam por alguns sinais da natureza. Os kuikuro, por exemplo, que vivem no Alto Xingu, só procedem à queimada quando a constelação do Pato aparece do lado leste do céu, antes do raiar do sol, e quando as tracajás desovam nas praias do rio Culuene. Não se sabe qual é a relação entre esses fenômenos e o sucesso da queima, mas sabe-se que os kuikuro nunca provocaram um incêndio na floresta.

A cinza obtida fertiliza imediatamente o solo e o carvão é enterrado para servir de adubo extra que a planta absorverá durante seu crescimento. Inicia-se, então, o cultivo de diversas espécies com alturas diferentes - o que reduz o impacto dos ventos e das fortes chuvas e evita a propagação de pragas. Pela mesma razão, o mato que cresce entre as plantas cultivadas não é arrancado. depois que a terra se esgota, ela descansa por dois ou três anos. Ali crescerão brotos e folhagens que alimentarão pacas, queixadas e caititus, transformando-se em uma área de caça para a tribo.


Dança do búfalo, 1860. Karl Ferdinand Wimar

As técnicas agrícolas indígenas, do tipo extensivo e policultor, têm a vantagem de manter a fertilidade do solo e permitir a rápida recuperação da floresta. Já as fazendas de gado da Amazônia mostram um resultado inverso. Uma única fazenda desmata cerca de 10 mil hectares num ano para formação de pastagens. O desmatamento é total, e a superfície do solo fica exposta ao calor do sol e às pancadas de chuva, provocando sérias alterações no meio ambiente. Além disso, cada hectare produz somente 30 kg de carne bovina ao ano. Isso significa que um boi come o equivalente ao que alimenta uma família indígena no mesmo período, com a agravante de destruir o solo.

RODRIGUE, Joelza Ester. História em documento: imagem e texto. São Paulo: FTD, 2002. p. 128-130.

sábado, 31 de janeiro de 2015

O espírito do Santo Ofício da Inquisição continua?

[...]


Durante três séculos, o Estado e a Igreja privaram o colono luso-brasileiro da livre crença e da liberdade de consciência, mantendo a colônia sem imprensa, sem universidade, sem ciência, sem novelas, sem arte e sem livros, a não ser aprovados pela Igreja. Foi a Inquisição responsável pela estagnação intelectual da vida colonial, centrando em torno da Igreja, da missa, do sermão, das procissões, todas as diretrizes da vida, e incutindo uma obsessão pelo sentimento de pecado, que marcou todos os homens com o estigma da culpa. [...]

Condenados pela Inquisição, Velázquez

Apesar de todas as promessas de punição, a Inquisição não conseguiu fazer calar as inquietações, a solidariedade e a busca de novas mensagens, e as heresias se propagaram por toda a América. As mais autênticas expressões de fé, não oficiais, permearam toda a história colonial, desaguando algumas fortes, outras apagadas, no próprio século XX.

A América colonial foi vítima da repressão, de perseguições, de extermínios. As políticas totalitárias da Espanha e de Portugal, que anteciparam cinco séculos os totalitarismos do século XX, não podiam reconhecer e tolerar diferenças de pensamento e de fé, uma vez que havia interesses econômicos envolvidos.

Mesmo sem sucesso, milhares de portugueses e espanhóis lutaram, silenciosos, num campo de batalha, espremidos entre um poder absoluto e um universo impregnado de fanatismos, superstições e crendices. A resistência dos colonos conversos, dos índios, dos negros, dos hereges e dissidentes à imposição forçada da religião, dos valores, dos costumes, foi calada e clandestina. Os hereges Garcia da Orca, Antonio José da Silva, Padre Antonio Vieira, Juan de Vives, Frei Luís de Leon, Fernando Rojas e tantos outros foram a verdadeira glória de Portugal e da Espanha, e não seus religiosos, guerreiros e governantes.

O recrudescimento em nossos dias dos nacionalismos, do antissemitismo, dos ódios raciais, dos antagonismos religiosos, da xenofobia, mostra que, apesar de todo o progresso técnico, os homens ainda carregam consigo, viva, a herança destrutiva do passado.

[...]

O Tribunal da Inquisição, Goya

O Santo Ofício da Inquisição, que queimou Giordano Bruno ¹ e perseguiu Galileu ², passou a denominar-se Sagrada Congregação para a Doutrina da Fé. Esta Congregação advertiu e puniu numerosos teólogos contemporâneos, que têm questionado diferentes aspectos da doutrina católica e a infalibilidade da Igreja.. Todas as medidas restritivas receberam a aprovação do papa João Paulo II.

¹ O que era semente faz-se erva, e do que era erva faz-se a espiga; do que era espiga faz-se o pão, do pão quilo, do quilo sangue, deste semente e desta embrião, deste homem, deste cadáver, desta terra, desta pedra. (Giordano Bruno, Diálogos)

² A filosofia está escrita neste imenso livro que se nos abre continuamente diante dos olhos (quero dizer o universo), mas não podemos entendê-lo, se antes não aprendermos a compreender a língua e a conhecer os caracteres nos quais está escrito. Está escrito em língua matemática, e os caracteres são triângulos, círculos, e outras figuras geométricas, sem os quais meios é impossível entender humanamente qualquer palavra sua; sem eles é um inútil vagar por escuro labirinto. (Galileu)

Os principais teólogos acusados de heresia foram Edward Schillebeeckx,  professor de Teologia da Universidade Católica de Nijmaegen, Holanda, e Hans Küng, professor de Dogma e Teologia Ecumênica da Universidade do Estado, Tubingen, Alemanha. No Brasil foi acusado e punido o teólogo Frei Leonardo Boff.

Desde 1957 Hans Küng entrou em choque com o Vaticano, por ter posto em dúvida a infalibilidade da Igreja e criticado a debilidade da doutrina papal sobre o controle da natalidade. Küng acredita que a Igreja "devia aprender por seus próprios erros". Chamado a Roma em 1971, para justificar as suas ideias, respondeu que só iria se pudesse ver todo o seu processo e escolher seus próprios advogados. A Congregação recusou. Nessa atitude vemos a repetição do procedimento da Inquisição ibérica, na qual os réus não tinham conhecimento do seu processo e os únicos advogados admitidos eram homens internos da Inquisição. O próprio Küng acusou os membros da Congregação de agirem de acordo com o espírito da Inquisição. Küng também foi punido por dizer que a ressurreição não podia ser um acontecimento histórico, a virgindade de Maria era uma lenda, que não se devia identificar Jesus com Deus e que Jesus nunca se intitulou Messias. O próprio papa João Paulo II, em 18 de dezembro de 1979, declarou que Hans Küng, nos seus escritos, afastou-se da verdade integral da fé católica e portanto não podia mais ser considerado um teólogo católico, nem atuar como tal num papel de professor.

Os crimes contra a moral, que foram sempre preocupação central da Igreja, e deram motivo à constante pela Inquisição espanhola e portuguesa, também recebem atualmente, da Congregação para a Doutrina da Fé, um especial interesse. Autores como o reverendo Charles Curran, professor de Teologia Moral da Universidade Católica de Washington, D.C., autor de Sexual and Medial Ethics e Tradition in Moral Theology (Notre Dame University Press, 1978 e 1979, respectivamente), o jesuíta John J. Mc Neill, autor da obra The Church and the Homossexual (Sheed, Andrews and McMeel, 1976) e o reverendo Anthony Rosnik, coautor de Human Sexuality: New Directions in American Though (Paulist Press, 1977), foram seriamente advertidos e criticados pela Congregação.

Os pensadores religiosos estão divididos hoje, como estiveram divididos durante a Inquisição ibérica.

NOVINSKY, Anita. A Inquisição. São Paulo: Brasiliense, 2012. p. 7-9, 103-5. (Coleção Tudo é História, 49).

quarta-feira, 8 de agosto de 2012

Características da estrutura mental antiga

"Roma legou ao Ocidente sua estrutura política, administrativa e jurídica. Ela define as fronteiras, a articulação geográfica, a rede de comunicações, mas não trouxe nada de novo para a ordem intelectual e espiritual. A cultura grega, nascida da cidade, elevou-se com o Estoicismo e o Epicurismo, até o grau do Império. Os romanos não aumentaram esse tesouro, que assimilaram pelo direito de conquista. Na realidade eles foram bárbaros que galgaram uma posição. Mais dotados do que os que vieram depois, trouxeram a autoridade que dá a paz, a técnica que assegura a posteridade. Mas a grande organização romana conserva, quanto ao essencial, uma alma helênica." (GUSDORF, G. Introduction aux Sciences Humaines. Paris: Belles Lettres, 1960. p. 43.)


A Escola de Atenas (detalhe), Rafael. Ao centro, os filósofos Platão e Aristóteles

[...]

Na Antiguidade Clássica, a concepção que se tinha da relação entre o ser que compreende e os seres compreendidos se caracterizava por certa ausência de consciência que o sujeito possui nesta relação.

Vejamos o que isto quer dizer: de certa forma o Homem se sentia subordinado à Natureza. Para ele, a Natureza era uma presença e o sábio era, na verdade, apenas o guardião do que fosse revelado a ele pela Natureza. O sábio era, segundo os gregos, o guardião da alethéia, isto é, guardião da revelação da verdade.

Ora, devido a esses dois traços da relação sujeito-objeto da Antiguidade, qual seria a forma de fixar os conceitos?

Se a Natureza se revelava ao sujeito, o trabalho deste era apenas o de constatar o real e, portanto, os conceitos eram fixados de forma categorial, inquestionáveis. Eram como verdades absolutas, frutos de uma revelação, e, por isso, não competia ao sábio nem a ninguém questioná-las, mas apenas aprendê-las e transmiti-las.

[...] Esta forma de abordar a realidade fez com que durante muito tempo os estudiosos da cultura clássica teimassem em afirmar que na Antiguidade não houve experimentação - ou seja, segundo alguns, os gregos não se teriam preocupado em experimentar a exatidão das suas ideias, dos seus conceitos.

[...]

[...] A experimentação também existiu na Antiguidade, apenas de forma diferente, ou melhor, uma experimentação que estava de acordo com a forma de conceber a realidade e a relação sujeito-objeto e com a forma de fixar os conceitos. Entre os gregos, a experimentação tinha caráter probatório, ou seja, eles se voltavam para a Natureza apenas para ver mais uma vez o que já havia sido revelado, para comprovar o que já sabiam, para constatar uma presença, ou seja, para constatar o real, aquilo que se apresentava.

[...]

Hoje não nos é difícil compreender... Se tantos estudiosos cometeram esse erro é sinal de que estudaram a Antiguidade imbuídos da concepção moderna de Ciência. Ou seja, para esses estudiosos, experimentação era sinônimo de verificação e, por isso, não a encontraram na Antiguidade. Para eles a experimentação só podia ter o caráter de verificação.

Ora, certamente, você está raciocinando: para que esse tipo de experimentação existisse era necessário que a relação sujeito-objeto fosse outra, e, ainda, que a concepção que se tinha do real também fosse outra. Exatamente!


Na modernidade, a experimentação verificadora era  a consequência lógica de uma nova relação sujeito-objeto: o Homem afirmou-se como o sujeito por excelência, como o elemento que avança em direção a alguma coisa e que se assegura dela - o Homem é o elemento que elabora o real, intervém no real e se assegura do real como um objeto. Em outras palavras, na modernidade, o Homem toma o lugar do sujeito, e isto é reconhecido conscientemente. Logo, o real passou a ser aquilo que se apresenta, aquilo que o sujeito procura conhecer e representar, e a todo instante deve verificar se os conceitos que emite sobre o real estão corretos, ou seja, se são a representação correta da realidade. Assim, a experimentação verificadora corresponde a uma fixação hipotética dos conceitos por um sujeito que se assumiu como tal.

[...] quando falamos em modernidade estamos nos referindo à Idade Moderna, período em que a estrutura mental do Mundo Ocidental passou por uma viragem importantíssima - o antropocentrismo pregado pelos humanistas (como reação ao teocentrismo medieval) foi integralmente assumido, e para isso muito contribuiu o Renascimento. Esse movimento intelectual, que buscou inspiração nas obras da Antiguidade Clássica, favoreceu o desenvolvimento da Ciência moderna, a qual, retomando os caminhos seguidos por Sócrates, Platão e Aristóteles, passou a supervalorizar a Razão.


[...]


No período medieval, durante o qual o Escravismo deu lugar ao Feudalismo, a Igreja Católica Apostólica Romana assumiu enorme poder econômico e político, o que lhe garantiu a predominância ideológica: a Igreja, para se estruturar ideologicamente, fundamentou-se no classicismo greco-romano e realizou a síntese teológica medieval, conciliando a fé cristã com a Lógica aristotélica. Os humanistas, no início da Época Moderna, como reação ao teocentrismo medieval - Deus como centro de todas as coisas - retomaram o estudo das obras greco-romanas, situando-as, porém, em uma perspectiva antropocêntrica - o Homem como centro de todas as coisas. [...]


A perspectiva antropocêntrica significaria retomar a forma de abordagem da realidade apresentada pelos Sofistas? O Homem é a medida de todas as coisas..., disse Protágoras. Essa perspectiva foi assumida, porém, enquadrada na linha do pensamento de Sócrates: valorizar o lado espiritual do Homem, valorizar o mundo das Ideias, valorizar no Homem, não a sua capacidade sensível de perceber a realidade mutável, mas a sua capacidade intelectual, capacidade de raciocinar sobre a realidade.


O processo se deu da seguinte forma: se o Homem é o centro de todas as coisas, e não mais Deus, precisa-se valorizar aquilo que faz o Homem, ou seja, aquilo que o distingue dos outros animais e que o assemelha a Deus. O que deve, então, ser valorizado? Isso mesmo, a Inteligência, a Razão.


O século XVII foi, então, a época do Racionalismo, escola filosófica fundada por Descartes que ainda hoje influencia, de maneira decisiva, nossa apreensão da realidade. Segundo Descartes, o Homem deve depurar-se de todas as sensações, atributos que são resquícios animalescos, para chegar à perfeição: só a Razão pura assegura o conhecimento da realidade.

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A própria ideia de "milagre grego", ainda que falsa, contribuiu para o desprezo de toda a produção intelectual daqueles gregos que viveram em épocas remotas e a expressaram na Mitologia. Os mitos agrários constituem exemplos da produção intelectual de homens cuja vinculação com a terra e com o duro trabalho diário era intensa: descrevem, através de alegorias, todo o processo de fecundação e nascimento das sementes.


Assim, se queremos realmente crescer em termos humanos, tanto individual quanto socialmente, não podemos desprezar a experiência sensorial do Homem, a pretexto de ela ter sido a base da apreensão mítica da realidade. Em nossa cultura, as sensações são relegadas a segundo plano e somente o racional tem absoluta prioridade cultural: "O conhecer reduziu-se a um saber, e o saber, a um teorizar. A compreensão sensível das coisas integrando experiência e inteligência, parece ter sido abolida [...] Não seria por acaso que, hoje em dia, as palavras poético, lírico, possam surgir até como conotações pejorativas, como visões desligadas da realidade do viver." (F. Ostrower)


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Ora, é natural que nos interessemos mais por compreender a nossa cultura, pois temos problemas sem soluções há séculos, mas é inadmissível que a coloquemos como superior a todas as outras. Ou, ainda, que desprezemos o conhecimento dos mitos por serem frutos de uma apreensão sensorial-afetiva do mundo, como forma de expressão humana que, longe de ter sido superada, ainda convive conosco e até norteia nossos atos... Na verdade, a apreensão mítica não foi superada, mas sufocada e, por isso, coexiste em nós, representando, é claro, uma de nossas inúmeras contradições.


Se você procurar conhecer o mito da origem dos deuses e dos homens na cultura grega, poderá perceber que eles eram concebidos como semelhantes na sua essência. Pense um pouco... Não teria o humanismo do pensamento grego - "O Homem como medida de todas as coisas" - também uma origem mítica?


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AQUINO, Rubim Santos Leão de et alli. História das sociedades: das comunidades primitivas às sociedades medievais. Rio de Janeiro: Imperial Novo Milênio, 2008. p. 384-390.

segunda-feira, 2 de julho de 2012

Chineses, indianos e árabes no ano 1000: todos mais sabedores do que os europeus

Mulheres chinesas preparam seda. Gravura do século XII

No mundo mediterrânico helenizado depois de Alexandre, os sábios gregos eram numerosos. Em seguida, os romanos instruídos tinham adoptado as ideias gregas. Mas, depois do desaparecimento do Império Romano do Ocidente e da revolta dos reinos romano-germânicos, os copistas de textos tornaram-se pouco numerosos. Só alguns indivíduos de grandes famílias romanizadas que se tinham tornado cristãos sabiam ainda alguma coisa dos escritos deixados pelos romanos e pelos gregos.

[Poucos textos] Finalmente, os próprios textos quase deixaram de ser copiados. Alguns acabaram por ser "esquecidos".

Carlos Magno protegeu os mosteiros (propriedades que agrupavam religiosos ao serviço de Deus) e criou escolas de copistas. Mas os religiosos cultos interessavam-se sobretudo pela gramática e pela língua latina.

O progresso do saber científico parou no Ocidente cristão. Mas, noutros lados, os conhecimentos evoluíam e as invenções continuavam.

Cerca do ano 1000, os chineses, os indianos e os árabes eram muito mais informados do que os europeus.

[Os chineses, inventores surpreendentes] Os chineses foram os primeiros a fabricar papel. Era a época em que o Império Romano dominava o Mediterrâneo. Será necessário esperar 1200 anos, após a sua invenção na China, para que os italianos se ponham, por seu turno, a fabricá-lo pela primeira vez na Europa.

Desde a época Shang, os chineses sabiam utilizar um arnês com peitorais para os seus cavalos, ou seja, uma coleira que não magoava o pescoço dos animais. Mais tarde, utilizavam um arnês ainda mais aperfeiçoado e também inventaram o carrinho de mão. Pensamos que essas invenções se explicam por os chineses não disporem, como os egípcios ou os romanos, de uma mão-de-obra escrava. Foram assim obrigados a encontrar soluções engenhosas.

O carrinho de mão apareceu no século III a.C., mil anos antes de ter aparecido na Europa! E os arneses dos cavalos foram aperfeiçoados entre o século V e IX d.C.

A invenção chinesa do "pó de fogo", a pólvora para canhão, e a do fogo de artifício são bem conhecidos. Esse começo de guerra química não tem nada de entusiasmante. A invenção da imprensa com caracteres móveis, 400 antes dos europeus é mais fascinante.

Os sábios chineses já pensavam que o "céu" não tinha limites, que era infinito. Os sábios europeus continuavam a acreditar, tal como o grego Aristóteles, que o "céu" era formado por três camadas circulares que rodeavam a Terra.

Os chineses também foram os primeiros a inventar o íman - que, para eles, indicava o sul! Fabricaram relógios mecânicos 600 anos antes dos europeus.

[Os indianos, fabulosos matemáticos] Os nove algarismos que utilizamos, assim como o zero, foram inventados pelos indianos de um reino no vale do Ganges. Tinham inventado as bases do cálculo que hoje ainda é utilizado.

Esses números ou algarismos indianos, inventados cerca de 400 d.C., foram conhecidos na Europa cristã através dos sábios árabes-muçulmanos do Oriente Médio. Por isso lhes chamamos algarismos, ou seja, números árabes!

[Os árabes muçulmanos, conquistadores e conhecedores] No Império Bizantino (o antigo Império Romano do Oriente), os cristãos instruídos, contrariamente aos do Ocidente, eram numerosos. Os textos que tinham sido legados pelos gregos continuavam a ser conhecidos.

Depois, os árabes muçulmanos conquistaram o Egipto e a Ásia ocidental aos bizantinos, assim como a Espanha aos visigodos. Em torno dos novos soberanos árabes - os califas -, havia inúmeros filósofos e poetas que trabalhavam e escreviam. Na Espanha muçulmana, muitos sábios e filósofos eram judeus e mantinham óptimas relações com os intelectuais muçulmanos.

Ibn Siná, ou Avicena, falecido em 1037, originário da Pérsia, foi um grande pensador muçulmano.

O filósofo Ibn Rochd, conhecido pelo nome de Averróis e que vivera em Espanha, era outro desses intelectuais muçulmanos. Morreu em Marrocos em 1198.

Nessa altura, vivia em Espanha um grande pensador judeu, Moisés ben Maimon, conhecido pelo nome de Maimónidas. Tinha nascido em Córdova, na Espanha, e morreu no Cairo, no Egipto.

[Como se transmitiu o saber?] Passaram-se então coisas surpreendentes: os intelectuais muçulmanos do Médio Oriente transmitiram seus conhecimentos aos intelectuais judeus e árabes da Espanha muçulmana. E os intelectuais cristãos foram informados em seguida. Textos gregos foram traduzidos do grego para o árabe pelos intelectuais árabes do Oriente. Estes transmitiram-nos aos intelectuais de Espanha. Os filósofos judeus de Espanha conheciam o árabe e tinham contactos com intelectuais cristãos. Foi assim que os textos e as ideias dos filósofos gregos Aristóteles e Platão foram "encontrados" por intelectuais cristãos da Europa.

No século XIV, os intelectuais árabes ainda eram muito activos. Ibn Batuta, o "viajante do Islão", nascido em Tânger, em Marrocos, visitou por terra e por mar o mundo muçulmano na sua totalidade. Percorreu o equivalente a mais de três vezes uma volta ao mundo. Ibn Khaldun, originário de Tunis, falecido em 1406, foi um grande historiador, muito "moderno" na sua maneira de compreender e de explicar os acontecimentos.

Mas, nos começos na Idade Moderna, a Europa teve numerosos e inventivos intelectuais, enquanto o pensamento árabe pareceu cair numa espécie de longo sono.

CITRON, Suzanne. A História dos Homens. Lisboa: Terramar, 1999. p. 125-129.