"Os espelhos estão cheios de gente.
Os invisíveis nos vêem.
Os esquecidos se lembram de nós.
Quando nos vemos, os vemos.
Quando nos vamos, se vão?"
Eduardo Galeano: Espelhos
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sexta-feira, 28 de abril de 2017

A civilização neolítica

Imagem 1 - Estatueta feminina. Pré-cerâmica neolítica, com gesso, betume e incrustações de pedra. Ca. 9000-7000 a.C.

É que há nos invasores neolíticos um elemento de estabilidade: eles domesticaram animais e criam rebanhos.

Seus animais demoram-se nas terras boas, e voltam para a erva fresca de outra estação. O instinto do boi e do carneiro em busca de pasto e água leva atrás deles os homens; o movimento do rebanho alarga-lhes o domínio, mas torna lenta sua marcha: a captura da caça vai-se tornando menos indispensável. O clã se imobiliza e essa estabilidade relativa lhe permite melhorar seus utensílios. O homem se entrega a polir a pedra, a cinzelar os arpões, a cavar o solo para dele arrancar materiais.

Quando as pastagens se esgotam, é preciso partir: o gado dita a vida social. Esses nômades que vivem de seus animais só param quando a terra é bastante fértil para aliemntá-los sem sacrifício. Então o clã luta para nela se manter e pela posse das fontes indispensáveis aos rebanhos. O vencedor se tornará sedentário.

Depois de haver queimado a vegetação primitiva, ele semeia os grãos que viu germinar e espera a colheita. Coze tubérculos e planta árvores frutíferas. Cultiva os cereais, que ceifa, espiga por espiga, parte os grãos entre pedras chatas e os conserva em vasos de madeira, que produz em vime. Tece a lã e as fibras vegetais. Constrói cabanas de taipa e grupadas em acampamentos protegidos por paliçadas [...].

Imagem 2 - Estatueta masculina. Pré-cerâmica neolítica, com gesso, betume e incrustações de pedra. Ca. 9000-7000 a.C.

O clã se crê sob a proteção sagrada de um ser tutelar, senhor absoluto dos homens e dos bens e o poder divino desse animal faz dele a insígnia do clã, o totem, que dispõe de toda fonte de vida. Pela dança e pelo canto, o feiticeiro evoca suas energias sobrenaturais. O clã prossegue sua meditação do mistério. As planícies abertas liberam a imaginação humana e o céu ensina a noção da lei natural; as florestas concentram o espírito da observação. O culto dos mortos se desenvolve e também o da fertilidade. Para suas sepulturas, o clã levanta monumentos de pedra, dolmens, menires, ou cava abrigos artificiais; os costumes variam segundo os diversos focos de cultura neolítica.

Na mesma época coexistem já vários estágios de civilização e tais diferenças contribuem para acelerar as trocas entre os clãs, logo que o crescimento das forças produtivas lhes assegura um excedente de produção.

O objeto produzido torna-se objeto de troca: desde então, ele participa de relações sociais de uma natureza nova que sua função, por outro lado, vai modificar. É preciso primeiro produzir para depois trocar.

Imagem 3 - Cerâmica neolítica. Ca. 6200 a.C.

Os vencidos é que fornecerão o suplemento de trabalho que isso exige.

Outrora, abatiam-se os prisioneiros feitos nos combates pelo vencedor. Postos a serviço do clã vitorioso, seu trabalho contribuirá para enriquecê-lo. Não são as tarefas cada vez mais diversas? Com essa divisão constante do trabalho o encargo feminino passa a segundo plano.

A autoridade do dono dos rebanhos aumenta: ele submete a mulher e as noções de ligação de sangue cedem às de propriedade. Um duplo antagonismo dissolve a comunidade primitiva em proveito dos chefes de família e cinde a sociedade, ao mesmo tempo que a permuta regular de tribo para tribo cria diferenças de riqueza no interior do clã, onde desaparece o matriarcado.

Imagem 4 - Cerâmica do Neolítico. Ca. 6200 a.C.

À propriedade coletiva do clã tende a se sobrepor uma nova forma de propriedade: a desigualdade introduziu-se entre os homens. Depressa ela levará à propriedade individual que os chefes vigorosos reivindicarão, atribuindo-se mais prisioneiros e mais despojos.

[...] Com o crescimento numérico das populações humanas e de suas necessidades, a escravatura - essa domesticação de uma parte da humanidade pela outra - não deixará mais de se desenvolver.

[...]

Os detentores de escravos vão rapidamente beneficiar-se de uma situação privilegiada que procurarão estabilizar ajudando-se mutuamente para reforçar sua supremacia: uma classe dominante se constitui, saída diretamente das novas condições da produção.

[...]

No bem-estar em que melhoraram as condições de sua alimentação, os homens aperfeiçoaram suas técnicas. A tecelagem se torna hábil. Eles fabricam arcos e flechas, manobram suas pirogas a remo e - frágil símbolo dos sedentários - substituem os vasos de vime por uma louça de argila feita no tôrno, cozida e pintada com senso de simetria, em seus desenhos geométricos que reproduzem as fibras trançadas. [...]

Imagem 5 - A grande mãe do Neolítico. 

A reputação de seus trabalhos ganha o Mediterrâneo oriental, e encontra outras influências, que, do Golfo Pérsico, irradiam sobre o Oriente, o pé do planalto do Irã tardiamente liberto dos gelos. Também aí as inundações regulares dos rios asseguram abundantes colheitas aos nômades chegados da Ásia Central à Mesopotâmia. A cevada e o trigo aí nascem independentemente de cultivo. O solo argiloso permite construir casas de tijolos secos ao sol e de trançados de canas. [...]

Assim desabrocharam duas opulentas sociedades agrícolas, semelhantes pelos aperfeiçoamentos técnicos e pela qualidade humana: a tatuagem desapareceu no Egito e na Mesopotâmia, enquanto o resto da humanidade estava ainda na barbárie.

[...]

RIBARD, André. A prodigiosa história da humanidade. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1964. p. 10-3.

terça-feira, 21 de março de 2017

Onde há fumaça, há fogo 3

Três mil e duzentos quilômetros para o sul, onde hoje é Oregon, os mesmos gansos voam pelo vale do rio Wilamette. Abaixo, índios consertam uma armadilha para peixes - uma fileira de galhos fincados no fundo de uma corredeira de um rio. Os salmões subindo a correnteza só conseguem passar por umas poucas aberturas, e lá são capturados em cestas trançadas. O climea é mais ameno, e há muitas focas, lontras, moluscos, grandes botos e milhares de pequenos peixes tão gordurosos que podiam ser secos e usados como combustível em uma tocha.


An Indian Painting Pots, Henry F. Farny

Mais ao sul, pássaros atravessando o deserto de Sonora, onde atualmente fica o Arizona, podem ver linhas esculpidas na terra. Estas não são bifurcações de rios, pois as linhas correm retas demais. São feitas pelo homem. Nos séculos depois de 300 d.C., o povo hohocan cavou quase mil quilômetros de canais, alguns com mais de dezoito metros de largura, para trazer água para o feijão, a abóbora e o milho que cultivavam. Os pássaros em 1492 ainda podem ver os restos dos canais, mas os hohokan não estão em parte alguma. [...]

Aquatint by Karl Bodmer from the book "Maximilian, Prince of Wied’s Travels in the Interior of North America, during the years 1832–1834" by Prince Maximilian of Wied.

Em suma, os povos indígenas da América do Norte diferem muitíssimo uns dos outros, em parte porque o ambiente os forçou a inventar diferentes maneiras de sobreviver. No noroeste ameno e úmido à beira do Pacífico, quem pensaria em abrir canais para irrigar plantações? Por outro lado, nenhum índio do deserto inventaria canoas de tronco em uma terra onde não se conhecem árvores grandes.


Salmon Fishing on the Cascapediac River, Albert Bierstadt

O ambiente não é o único motivo pelo qual os índios de 1492 diferiam entre si. Mesmo em climas similares, humanos diferentes pensarão em soluções diferentes para os mesmos problemas. Em 1492, fazia milhares de anos que havia pessoas vivendo na América do Norte - tempo suficiente para desenvolver diferentes crenças, costumes e culturas. Nas terras áridas da Grande Bacia, onde a sobrevivência era difícil, cada pequeno bando era liderado por um caçador que houvesse demonstrado coragem e habilidade. As sociedades indígenas do sudeste tinham povoados muito maiores e sistemas políticos muito mais complexos. Os natchez, por exemplo, se dividiam em hierarquias diferentes, governados por um rei (conhecido como O Grande Sol) e seus parentes (Pequenos Sóis). Abaixo vinham os nobres, os honoráveis e, na base da pirâmide, uma classe mais numerosa chamada indesejáveis. Como o nome O Grande Sol sugere, o culto ao sol exercia um papel importante na vida religiosa dos índios do sudeste.

(Continua no próximo post)

DAVIDSON, James West. Uma breve história dos Estados Unidos. Porto Alegre: L&PM, 2016. p. 12-3.

domingo, 19 de março de 2017

Onde há fumaça, há fogo 2

Onde há fumaça, há fogo, diz o ditado. Bem acima do Mississíppi, a fumaça subia das fogueiras usadas na construção de canoas de tronco. O fogo queimava até que o interior do barco ficasse oco. No rio, dezenas de canoas brilhavam ao sol, com quarenta a sessenta homens em cada uma. Não era extamente uma pequena canoa de casca de bétula! Em um dia de cerimônia ou guerra, os barqueiros pintavam o rosto de marrom avermelhado, e muitas cabeças ostentavam cocares de penas brancas. Alguns índios se ajoelham ao remar; outros ficam atrás deles, seus escudos prontos para evitar um ataque. Uma cobertura na popa faz sombra para o comandante de cada canoa.


Indian Telegraph, John Mix Stanley

Nas Planícies, os índios fazem fogueiras para marcar búfalos e, na Grande Bacia, queimam pastos para eliminar lagartos do solo. Alguns povos queimam campos para encorajar o crescimento de mirtilos ou girassóis; outros tocam fogo para afastar hordas de mosquitos nocivos. Nas Rochosas. os índios usam fogo inclusive para celebrar. Abetos inteiros são queimados, seus galhos soltando fagulhas na noite como fogos de artifício. Humanos de uma ponta a outra do continente usam o fogo como ferramenta para moldar o território a seu gosto.

Equipment for curing fish used by the North Carolina Algonquins, John White

Em outros aspectos, os povos indígenas diferiam muitíssimo. De fato, podemos dizer que o lema da América do Norte em 1492 era o oposto de E pluribus unum. Não De muitos povos, um, mas De um continente, muitos povos. Dependendo de que pássaros você seguirt, verá enormes diferenças nas maneiras como os índios se adaptaram ao mundo à sua volta. Alguns viviam em bandos simples, caçando e coletando alimentos. Outras civilizações ostentavam campos cultivados, monumentos, templos, cidades, astrônomos, sacerdotes e governantes.


The Harvest Song, E. Irving Couse

Um bando de gansos partindo do Ártico ocidental avistaria grupos de inuítes caçando baleias em umiaks - embarcações abertas feitas de pele de morsa estirada sobre madeira flutuante. Os inuítes (também conhecidos como esquimós) possuem arpões fortes o suficiente para perfurar a pele grossa das baleias, uma fonte de alimento valiosa. (Gordura de baleia tmbém é um bom combustível em lamparinas a óleo). As mulheres inuítes desenvolveram a habilidade de costurar intestino de foca e pele de peixe para fazer roupas que se ajustam mais ao corpo e, portanto, aquecem melhor os que vivem nessas terras invernais.

(Continua no próximo post)

DAVIDSON, James West. Uma breve história dos Estados Unidos. Porto Alegre: L&PM, 2016. p. 11-2.

domingo, 11 de setembro de 2016

American way of life

A nova posição feminina expressava-se por meio de comportamentos considerados ousados e vistos pelos conservadores como mais uma "prova" de decadência nos padrões de convivência humana: encurtamento das saias até os joelhos, cabelo curto, hábito de frequentar bares e prática de danças como o foxtrote e o charleston. 
Foto: Inspeção de trajes de banho em 1919, Estados Unidos. Se o modelo fosse muito curto, a moça tinha que pagar multa

O milagre americano criou condições para que aflorasse, nas classes médias e na burguesia, um estilo de vida considerado modelo da moderna civilização ocidental: o american way of life (modo de vida americano). Tal como as mercadorias, ele foi exportado para o mundo todo¹.

* Prosperidade e liberdade. O modo de vida americano, tendo como base a riqueza, caracterizava-se pela construção de edifícios grandes e modernos, pela multiplicação de bairros residenciais cujas casas se ligavam por jardins e gramados, pelo aumento do número de carros e de aparelhos domésticos. Cada vez mais gerava-se a necessidade de consumir, alimentada pela propaganda e pelo crediário.

Na década da prosperidade presenciou-se também uma mudança na vida social e nos costumes, principalmente no que se refere à emancipação feminina. A mulher conquistou o direito de coto (1920), condição para a igualdade política. Nas décadas subsequentes, além de votar, as mulheres ocuparam cargos públicos e privados em vários escalões hierárquicos.

Contudo, a discriminação nos salários continuaria por muito tempo. Apesar disso, em 1940 as mulheres constituíam 25% da mão de obra do país, quando, em 1900, não passavam de 17,7%. A saída da mulher do lar e o trabalho ao lado do homem trouxeram mudanças significativas nos costumes e hábitos sociais. Cresceram sobretudo as reivindicações por igualdade de direitos.

A maior utilização do automóvel também provocou mudanças sensíveis no comportamento cotidiano, principalmente dos jovens, que puderam manter relações mais abertas e livres, longe do controle dos pais.

* Intolerância e fanatismo. A década de 1920 também foi marcada por manifestações de crescente intolerância, fanatismo e chauvinismo entre todas as classes e em todos os setores da sociedade norte-americana.

A política do cordão sanitário imposta à Rússia fez aflorar o medo do comunismo. O exacerbado chauvinismo intensificou o anti-semitismo, e a legislação praticamente pôs fim à imigração da Europa Meridional e Oriental. Organizaram-se ainda campanhas contra católicos.

Tomava corpo uma ideologia que reconhecia como 100% norte-americanos apenas os brancos e protestantes abastados, justificando perseguições aos negros, às outras minorias raciais e aos pobres em nome da preservação de um hipotético ideal de vida norte-americano.

Passou-se a investigar o conteúdo de livros didáticos e manuais escolares, para abolir as obras que não contivessem a apropriada glorificação do passado norte-americano. Grupos paramilitares, contando com o apoio de uns e o medo de outros, dominaram virtualmente o panorama de alguns estados, sobretudo os sulinos.

Nesse contexto, surgiu, em vários estados, a temida Ku Klux Klan², organização que fazia violenta pressão em prol do norte-americano 100%. Em 1925, a organização contava com aproximadamente 5 milhões de membros, levando fanatismo, violência e corrupção onde quer que penetrasse.

Outro componente do norte-americano 100% foi a ênfase na moralização dos costumes. Surgiram, então, várias ligas que se arrogavam o direito de defender qualquer aspecto da "civilização norte-americana" considerado em perigo. De 1919 a 1933, por exemplo, proibiu-se a fabricação, venda ou transporte de bebidas alcoólicas. A chamada Lei Seca contribuiu para o aparecimento de contrabandistas de álcool, os gângsteres e suas quadrinhas, cujo representante mais famoso foi Al Capone. (NEVES, Joana. História Geral - A construção de um mundo globalizado. São Paulo: Saraiva, 2002. p. 434-435.)

 Agentes de proibição destruindo barris de álcool, Chicago, 1921

¹ Na década de 1920, os Estados Unidos estavam embriagados pelo elixir da prosperidade. O mundo não tinha visto nada parecido até então. [...] A família média americana vivia melhor, comia melhor, vestia-se melhor e usufruía mais da sociedade de consumo do que qualquer família média de outra parte do mundo. Eufóricos, os norte-americanos consumiam freneticamente relógios de pulso, geladeiras, latas de ervilhas, aparelhos de barbear, enceradeiras e tudo mais que o dinheiro e o crediário pudessem comprar. Enquanto na Europa a média era de um carro para 84 pessoas, nos Estados Unidos era de um para cada seis pessoas. (CAMPOS, Flávio de; MIRANDA, Renan Garcia. A escrita da história. São Paulo: Escala Educacional, 2005. p. 464.)

² A Klan foi organizada em 1915 pelo professor de história e pregador laico William J. Simmons. Adotou como modelo a organização de encapuzados que aterrorizava o sul do país depois da Guerra Civil. Os adeptos da Klan eram recrutados, principalmente, entre pessoas da classe média. Como só os protestantes brancos e nativos eram considerados capazes de compreender "racialmente" o norte-americanismo, a Klan deliberou a eliminação de católicos, judeus, negros e da maioria dos estrangeiros.

Referências:

CAMPOS, Flávio de; MIRANDA, Renan Garcia. A escrita da história. São Paulo: Escala Educacional, 2005. p. 464.
NEVES, Joana. História Geral - A construção de um mundo globalizado. São Paulo: Saraiva, 2002. p. 434-435.

quinta-feira, 21 de janeiro de 2016

Condições de vida dos homens livres na América colonial inglesa

Desembarque dos puritanos na América, Antonio Gisbert

Entre as massas trabalhadoras livres das colônias americanas a vida era dura, e a belicosidade generalizada. [...] Para os 70 por cento da população trabalhadora colonial livre as condições de vida eram melhores do que para seus irmãos de classe na Europa, e o grau de mobilidade social era de certo modo maior, mas os dois aspectos evidenciavam-se apenas num sentido relativo. No sentido absoluto, a vida era muito cara, pois os salários mal chegavam para levar mesmo a comida mais simples às bocas do produtor, sua mulher e seus filhos [...].

Nas cidades proliferava a prostituição, eram numerosos os mendigos, os abrigos de pobres viviam cheios, os cortiços já estavam presentes e as centenas de indivíduos que dependiam de ajuda pública para se manterem vivos tinham de usar um emblema denunciando sua condição "degradada".

Nas áreas rurais o passadio mais simples, o abrigo mais rude, a roupa mais grosseira eram a regra para quase todos os que labutavam com as próprias mãos. E nas cidades e nas fazendas os pobres livres trabalhavam como os pobres sempre trabalharam - muito e por muito tempo.

Os ricos viviam na América colonial como viveram em toda parte. Uma casa de cidade e de campo, centenas e milhares de acres; dezenas de empregados e/ou escravos; refeições lautas; festas incessantes; seda e cetim, veludo e pérolas; carruagens e baixela de ouro; peças da moda e música e livros; negócio, alianças, intrigas; altas e poderosas funções; e intensa preocupação com a conservação de tudo isso e em manter a "gentinha" em seu lugar.

Desembarque dos peregrinos em Plymouth, 1620, N. Currier

Essas diferenças eram a obra e a vontade de Deus, porque de outro modo não existiriam. Quem as põe em dúvida demonstra, portanto, sua falta de fé e de crença; quem as põe em dúvida pertence ao Diabo, e deve ser tratado de acordo com isso. Os pobres devem ser postos a trabalhar, e é o medo de morrer de fome que os fará trabalhar.

Quanto aos mendigos e desocupados, é bem verdade, escreve o Reverendo Cotton Mather em 1695 (Riquezas Permanentes), eles "vergonhosamente crescem entre nós, assim como os mendigos que nosso senhor Jesus Cristo expressamente nos proibiu de proteger". Daí sua palavra apostólica: "Que morram de fome".

APTEKHER, Herbert. Uma Nova História dos Estados Unidos Unidos: A Era Colonial. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1967. p. 53-54.

terça-feira, 28 de outubro de 2014

A criação de gado no Brasil colonial

Rancho dos tropeiros, Charles Landseer

“Eu venho desde menino
desde muito pequenino
cumprindo o belo destino
que me deu Nosso Senhor:
eu nasci para ser vaqueiro
sou mais feliz brasileiro
eu não invejo dinheiro
nem diploma de doutor...”

“O dono quer ver
a terra plantada
diz de mim que vou
pela grande estrada:
deixem-no morrer
não lhe dêem água
que ele é preguiçoso
e não planta nada!”

Aí estão alguns versos da música Sina, dos cearenses Raimundo Fagner e Ricardo Bezerra, e de Plantador, do paraibano Geraldo Vandré. Percebemos que a situação do vaqueiro é retratada de uma forma totalmente diferente da do lavrador. Haveria uma explicação histórica para a felicidade do vaqueiro, tão contrastante com a vida do plantador?

Sabemos que a ocupação econômica do Brasil foi feita, principalmente, à base da agro-manufatura do açúcar. A força de trabalho que ampliava os canaviais e movimentava os engenhos era a do negro escravo. Trabalho pesado, obrigatório, sofrido e muito lucrativo para os donos das terras. Trabalho tão explorado que fez muito plantador sair pela “grande estrada”, em busca de coisa melhor.

Nas fazendas de açúcar havia criação de gado, necessário para a alimentação da população local e como força motriz. Com o tempo, esse “gado de quintal” foi considerado antieconômico: ele exigia pastos, tomando terras que poderiam ser muito mais rendosas se cobertas de canaviais. Os rebanhos cresciam, os lucros com a exportação do açúcar também.

[...]

Resistindo ao clima semi-árido, procurando os barreiros de sal, o gado desbravava o agreste e o sertão do Nordeste. Abria caminhos, que se tornaram importantes meios de comunicação na época, como os “Sertões de Fora”, que ligavam a região próxima a Salvador com as imediações de Fortaleza, sem se afastar demais do litoral.

A criação de gado nessa área está muito ligada ao extrativismo salineiro, desenvolvido principalmente no litoral do atual Rio Grande do Norte. O gado fez a prosperidade de Aracati, no litoral do Ceará, com a exportação, no século XVIII, da “carne-do-ceará”. Por sinal, foi um tropeiro cearense, José Pinto, que difundiu no extremo sul as técnicas de charquear a carne, no sal ou no sol.

As fazendas do interior da Bahia articulavam-se com a região maranhense próxima a São Luís, através dos “Sertões de Dentro”, cujos caminhos acompanhavam o curso do “rio dos Currais” – o São Francisco -, e, também, o Canindé, o Parnaíba e o Itapicuru.

Junto com o gado, o dono do gado. Surgiram as feiras. Elas e as muitas fazendas, também chamadas no Nordeste de “currais”, acabaram por dar origem a vários núcleos de povoamento, como Feira de Santana, na Bahia, Pastor Bons, no Maranhão, e Oeiras, antiga vila da Mocha, no Pará.

Como no litoral, certos homens poderosos, requerendo sesmarias ao rei, iam formando enormes propriedades sertanejas, de léguas e léguas [...]. Guimarães Rosa [...] ao percorrer as veredas do grande sertão, conta que “cada lugar é só de um grande senhor, com sua família geral, seus jagunços mil, ordeiros”.

Onde estaria a felicidade do vaqueiro, cantada por Fagner? Talvez no fato de ele se sentir mais livre que o “cabra do eito” – o trabalhador dos canaviais do litoral. Talvez no fato de ele quase nunca ser escravizado e nem sempre estar sob a vigilância do proprietário. Além disso, “depois de quatro ou cinco anos de serviço começava o vaqueiro a ser pago; de quatro crias cabia-lhe uma; podia assim fundar fazenda por sua conta”.

Tropa de mulas, Jean-Baptiste Debret

Uma fazenda não exigia mais que dez ou doze “fábricas” (vaqueiros). Sempre um se destacava, principalmente quando o proprietário não morava na fazenda. Este “chefe”, além de participar do produto, podia receber um pequeno lote de terra para produzir gêneros necessários à sobrevivência e um salário fixo anual.

Conduzindo os rebanhos, a vida do vaqueiro tinha características de seminomadismo. Claro está que para os descendentes dos indígenas essas tarefas estavam mais próximas do seu mundo: muitos deles eram boiadeiros.

No século XVIII, com a descoberta de ouro no centro da colônia, o gado vacum do Nordeste desce pelo curso dos rios São Francisco, Araguaia e Tocantins para a área do novo extrativismo. O gado ia realizando a integração de diferentes regiões econômicas por ser a única atividade do período voltada para o mercado interno.

A pecuária também reduziu as disputas dentro da própria classe dominante: os proprietários que não conseguiam manter os engenhos tornaram-se fazendeiros de gado.

Nesse processo pecuarista de colonização do sertão ocorrem novos choques com os nativos. Os derrotados são, mais uma vez, os donos naturais daquelas terras. Interiorizaram-se ainda mais, foram escravizados, refugiaram-se nas missões ou tornaram-se capangas dos novos poderosos da região. Em suma, poucos restaram como índios.

Tropeiros negociando um cavalo, Nicolas-Antoine Taunay 

A vida dos primeiros sertanejos era dura: fartura só de carne e leite. A matéria-prima principal para quase todos os utensílios era o couro: nas portas das cabanas, nos leitos, nas mochilas, nas cordas, nas roupas, nos carros de boi que puxavam material de aterro para os açudes, nos recipientes para carregar água, guardar comida ou pisar rapé.

[...]

No Sul, no planalto Meridional, os bandeirantes que arranhavam o litoral logo se estabeleceram, apresando o gado cimarrón – que se reproduzia naturalmente – depois de destruídas as missões dos jesuítas espanhóis. Descendo de São Vicente a Laguna, formam estâncias – sempre maiores que as três léguas de sesmarias estabelecidos por lei... – nos campos de Paranapanema, Curitiba, Guarapuava, Lajes, Viamão e Vacaria.

Descanso de tropeiros, Johann Moritz Rugendas

A mineração atrai as tropas de muares vindas do sul, que serão vendidas em Sorocaba, feira importante localizada no interior do atual Estado de São Paulo, de lá seguindo até as Gerais. Com a introdução do charque, segue também a carne desde Pelotas.

Na pecuária sulina os peões tinham uma vida difícil. Oprimidos por rígidos capatazes – como bem retrata a lenda do Negrinho do Pastoreio – esses índios de origem charrua ou minuana, mestiços ou escravos negros que tinham que estar sempre prontos para lutar pela conquista de novas terras – as “califórnias” – ou contra os ataques de espanhóis, contrabandistas e índios submetidos. Trabalho e guerra eram a tônica das vidas dos primeiros cavaleiros gaúchos.

Também no extremo norte a atividade criatória se desenvolveu, dirigida por jesuítas e mercedários. O gado da ilha de Marajó (o búfalo só foi introduzido em 1870, trocado por bovinos de corte com as Guianas) abastecia a população de Belém e o criado em Roraima sustentava o povoamento fronteiriço, sob constante ameaça de incursões holandesas. No século XVIII, com a expulsão da Companhia de Jesus e a extinção da Ordem de Nossa Senhora das Mercês, essas fazendas passaram para o controle do Estado, que as vendeu a particulares.

Atividade constante, voltada para o mercado interno, com enorme irradiação espacial, unindo diferentes áreas geo-econômicas e quase não utilizando o trabalhador escravo, a pecuária diferiu muito de outras atividades do período colonial.


ALENCAR, Francisco [et all]. História da sociedade brasileira. Rio de Janeiro: Ao Livro Técnico, 1996. p. 53-56.

quarta-feira, 1 de outubro de 2014

Povos da Oceania: os tasmanianos

Dança da guerra, Thomas John Grant 

Os europeus, convencidos há muito tempo da unidade espiritual do gênero humano e da superioridade do estado da natureza pura, interessaram-se vivamente pelos indígenas da Oceania. Bougainville e Cook observaram-nos com um interesse apaixonado. Os dois Forster, que acompanharam Cook na sua terceira viagem, criaram assim, com Buffon, a ciência da formação e da classificação das raças, a etnologia.

Os europeus julgaram encontrar-se em presença de raças primitivas, das próprias origens da humanidade. É certo que as tribos se achavam em toda parte na idade da pedra e que os seus utensílios lembravam os dos tempos pré-históricos. Tratava-se, na realidade, não de primitivos, mas de povos que haviam sofrido uma longa evolução, e que, na sua maioria, já haviam conhecido uma civilização superior, encontrando-se em plena regressão à chegada dos europeus.

Com efeito, parece que todos estes povos constituem raças originárias da Ásia Meridional, as quais, vencidas por outras, teriam fugido na direção indicada pelas migrações de certas aves. Ao chegarem aos territórios onde se iam estabelecer, de recursos limitados por se encontrarem isolados há muito tempo dos outros continentes, dispunham de poucas espécies vegetais, de poucos mamíferos. Além disso, por causa da exigüidade das ilhas, teriam rapidamente deparado com obstáculos provenientes da superpopulação, da dificuldade de alimentação, e, portanto, achavam-se expostos a guerras contínuas, à prática do aborto, do infanticídio e do canibalismo, assim como às preocupações imediatas e absorventes com a comida. Foi neste estado que os europeus os encontraram, com tal receio da superpopulação que, em toda parte, o número de habitantes diminuía devido à restrição voluntária dos nascimentos. Não é de espantar, portanto, que as civilizações não se tenham desenvolvido ou hajam mesmo regredido. Levando em conta este declínio, assim como os cruzamentos e as influências recíprocas, pode admitir-se que a Oceania tenha sido, de certa maneira, um “conservatório de raças”.

Os únicos povos a que poderia atribuir-se, segundo parece, o nome de primitivos eram os tasmanianos e os australianos, que se encontravam nos escalões mais inferiores da espécie humana.

Grupo de nativos da Tasmânia, Robert Dowling

Os tasmanianos estavam no ponto mais baixo. Fixados na ilha numa época em que o Estreito de Bass era transponível mesmo pelos navegadores mais medíocres, no pleistoceno médio, antes do degelo dos glaciares que elevou o nível dos mares e quintuplicou pelo menos a largura dos estreitos, haviam vivido num estado de isolamento que é, para as civilizações, a causa mais eficaz de estagnação e de regressão. A sua população, de cerca de 5.000 negróides de cabelos crespos, maxilares muito desenvolvidos, crânios deprimidos, fortes arcadas supraciliares, constituía o conjunto de seres humanos mais próximos dos símios; o seu crânio apresentava a elevação mediana em forma de quilha que é uma das principais características simiescas. Os seus utensílios colocavam-nos no estágio dos paleolíticos inferiores da Europa Ocidental, chelense e acheulense. Ignoravam o vestuário, as casas, abrigavam-se atrás de anteparos de ramagens, viviam da coleta e da caça sem cão. A sua organização social era rudimentar: tinham apenas chefes temporários, eleitos. Acreditavam na sobrevivência da alma e temiam os mortos. Possuíam mesmo certos traços de uma religião superior, um monoteísmo: adoravam um espírito supremo, em relações mal definidas com o céu e os fenômenos naturais. Desapareceram no século seguinte.


MOUSNIER, Roland; LABROUSSE, Ernest. O século XVIII: o último século do antigo regime. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1995. p. 373-375. (História geral das civilizações, v. 11)

NOTA: O texto "Povos da Oceania: os tasmanianos" não representa, necessariamente, o pensamento deste blog. Foi publicado com o objetivo de refletirmos sobre a construção do conhecimento histórico.

sexta-feira, 24 de maio de 2013

O modo americano de viver

"Mãe migrante", Dorothea Lange. A outra face do "american way of life".

Vivemos nosso dia a dia geralmente sem nos perguntar de onde vieram nossos hábitos, nossa alimentação e ate mesmo nossas diversões. Mas tudo isso tem história. Hoje você come um hambúrguer no McDonald's, anda de skate, vai ao shopping center e fala as muitas palavras em inglês incorporadas ao nosso vocabulário, sem se dar conta de que esses costumes pertencem originalmente a uma outra cultura: a cultura norte-americana.

Ao longo de sua história, os norte-americanos criaram um modo de vida próprio - o American way of life (em português, o "jeito americano de viver") - e, convencidos de que ele era superior ao dos demais povos, procuraram difundi-lo pelo mundo afora, exportando seus ideais, comportamentos e produtos (entre os quais o hambúrguer), e consolidando-se como a maior potência mundial.

Comer hambúrguer pode parecer um ato normal, sem maiores consequências, mas, praticado em massa, faz parte de uma mudança de hábitos que atingiu os mais diversos países do planeta, fruto da curiosidade pelo que é diferente e "mais adiantado". Sua difusão ajudou a abrir as portas para a influência política e econômica norte-americana.

Assim, para entender como o American way of life se criou e se difundiu, dar uma passada num McDonald's pode ser muito esclarecedor. Vamos lá?

As lojas são facilmente identificáveis, por seu aspecto exterior chamativo. São todas semelhantes, por dentro e por fora, em quase todos os países do mundo. Isso acaba atraindo o turista, que se sente mais seguro comendo algo conhecido do que se aventurando com pratos típicos estranhos a ele. Pelo menos, é nisso que se aposta, servindo-se no mundo inteiro praticamente os mesmos lanches.

Qual é a atração da loja? Um ambiente de eficiência, onde todo mundo, atrás do balcão, corre para servir o cliente. A comida chega rapidamente. Tudo é limpo e padronizado. O que se oferece é razoavelmente barato e nunca falta troco. A ideia é criar entre o cliente e a loja uma relação de confiança mútua. A rede está sempre oferecendo promoções, dando ao freguês a impressão de que, mesmo consumindo um pacote de batatas fritas e um copo de Coca-Cola cada vez maiores - e pagando mais por isso, evidentemente -, ele levou vantagem.

Ao lado do balcão, há sempre a foto do "funcionário do mês". O que ele fez para merecer esse título honroso? Foi o mais rápido, organizado e gentil com o público e, dessa forma, permitiu que o negócio andasse mais rápido, aumentando a produtividade da loja. E o funcionário, será que ele ganhou mais por isso? Certamente não. Ganhou apenas a promessa de uma promoção: se continuar assim, poderá chegar antes dos colegas ao topo de sua carreira na empresa. Ou seja: ele se fará por seu próprio esforço, em competição com o restante do grupo. Os menos dotados, ou menos obedientes aos métodos da empresa, vão ficar para trás ou desempregados. Essa é a fórmula do sucesso profissional.

Do lado de fora da loja está o Drive Thru, onde se pode comer sem sair do carro e, com isso, ganhar tempo. Mas por que é preciso comer tão rápido? Porque é preciso liberar o espaço para outros clientes que estão chegando apressados e também têm que retomar rapidamente suas outras atividades: o trabalho, a escola ou a academia, na qual se exercitam para ficarem mais rápidos, mais saudáveis. Para quê? Para trabalhar mais, comprar mais e ajudar a colocar em marcha esta máquina de reprodução incessante de trabalho e dinheiro: a máquina do capitalismo.

A preocupação fundamental é, pois, com a rapidez, que gera eficiência e permite maior produtividade: maior número de clientes atendidos e satisfeitos e, no caixa, cada vez mais dinheiro, aumentando o negócio e vencendo a concorrência. Quanto ao funcionário, a ideia é que ele se dedique o máximo possível ao trabalho e à empresa, que faça deles o centro da sua vida.

Essa forma de encarar o trabalho, baseada na competição e na necessidade constante de progresso, não existe por acaso nem é obra de um gênio do hambúrguer: trata-se apenas de uma das facetas do American way of life, que é a forma de vida que os americanos desenvolveram ao longo dos séculos, mas também o mito que construíram em torno desse jeito de ser, fazendo com que em todo o mundo se acredite que essa é a melhor forma de vida para o ser humano em todos os lugares do planeta.

SCHVARZMAN, Sheila. O modo americano de viver. São Paulo: Atual, 2011. (A Vida no Tempo das máquinas)

sábado, 22 de setembro de 2012

Culturas Hohokan, Mogollon e Anasazi: o "povo Pueblo"

Pueblo Anasazi: Mesa Verde

Texto 1

O espaço natural. [...] o sudoeste norte-americano é uma área de terras altas de cerca de quatro milhões de quilômetros quadrados, compreendendo a maior parte do Novo México, Arizona, sul de Utah e sul do Colorado, nos Estados Unidos, e o norte de Sonora e Chihuahua, no México. Entre seus emblemáticos elementos geográficos, estão as Montanhas Rochosas, ao sul, e o Planalto Colorado, ao norte, uma faixa vulcânica de terras altas que se estendem de leste a oeste e que incluem o Mogollon Rim, na área central, e dois desertos ao sul - o deserto norte de Sonora, de um modo geral a oeste da divisão continental -, e o deserto norte de Chihuahua, de um modo geral a leste da divisão. Dois sistemas fluviais drenam a região: o Colorado, a oeste da divisão, flui em direção ao Golfo da Califórnia e o Rio Grande, confinado ao Novo México pelas lavas de uma profunda falha geológica, flui para leste do Golfo do México. A elevação varia de cerca de 600 metros, no Deserto de Sonora, a mais de 4.000 metros, ao sul das Montanhas Rochosas. A precipitação anual varia de cerca de 15 a 30 centímetros nos desertos, de 25 a 45 centímetros no Planalto Colorado e de 45 a 76 centímetros nas terras altas. Dito isso, existem pelo menos sete zonas ecológicas diferentes separadas mais por distâncias verticais do que horizontais, sendo que cada uma delas possui seu próprio clima, geologia e vida animal e vegetal. Da perspectiva humana, cada uma é um habitat potencial com suas próprios oportunidades e perigos, exigindo soluções muito particulares para a sobrevivência em um ambiente árido.

O Planalto Colorado, com 1.500 a 2.300 metros acima do nível do mar, é uma terra visualmente espetacular, com um planalto escarpado de arenito colorido e plano no topo, cortado por profundos cânions e interrompido por intrusões vulcânicas. Chamamos os antigos criadores de cerâmica da região e partes adjacentes ao norte do Rio Grande de "Anasazi" (ou Pueblo pré-histórico). O Mogollon Rim apresenta uma queda súbita de cerca de 2.400 a 1.000 metros e é envolto pelo Planalto Colorado, ao norte, e por cadeias montanhosas vulcânicas, rios de lava, crateras e cones vulcânicos, a leste. Identificamos as cerâmicas antigas dessa área e áreas adjacentes aos dois grandes desertos ao sul como "Mogollon". O Deserto de Sonora também foi o lar de outros ceramistas que chamamos de "Hohokan", enquanto que no Deserto de Chihuahua haviam outros, chamados "Casas Grandes". Outros elementos geográficos regionais, como o Tonto Basin, no Arizona, e o Planalto Pajarito, ao norte do Novo México, definiam áreas de tradição cerâmica local que associamos com diferentes sociedades, chamadas "Salado", "Sinagua", "Mimbres Mogollon" e assim por diante.

Parque Nacional: Chaco Canyon


Fontes históricas. Relata-se pela tradição oral que muitas pessoas viveram no sudoeste norte-americano por pelo menos 10.000 anos, mais conhecemos os primeiros habitantes apenas de forma indireta, já que a história escrita teve início apenas no ano 1540 d.C., quando escrivões hispânicos registraram as primeiras observações da região feitas por europeus. Nós podemos apenas especular sobre os primórdios baseados nesses registros burocráticos, nas tradições orais dos índios Pueblo, registrados a partir dos anos 1880 e, principalmente, em uma crescente quantia de detalhadas evidências arqueológicas. A arqueologia do sudoeste depende de escavações sistemáticas de antigos sítios e da observação de perto de fragmentos do passado que são recuperados, incluindo inúmeras peças de cerâmica quebradas. Recipientes inteiros recuperados por arqueólogos são um pouco mais informativos que cacos, mas aqueles com contexto de descoberta desconhecido têm pouco valor, em termos de informação, para arqueólogos ou qualquer outro. O conhecimento mais certo que temos do passado vem de sítios que estão essencialmente intactos. Ironicamente, embora aprendamos a coletar mais e mais informações causando menos e menos dano, centenas de sítios arqueológicos estão sendo destruídos de forma ignorante para satisfazer uma fome contemporânea por belas cerâmicas.

Mesa Verde: pesquisa arqueológica


Modo de vida. O passado antigo é um território que, na melhor das hipóteses, apresenta limites ao conhecimento. Por exemplo, nunca saberemos qual das pioneiras tradições cerâmicas, se alguma, representou um grupo ou uma "cultura" consciente de sua identidade, tampouco o que esses grupos ceramistas se chamavam, nem qual língua eles falavam. O que sabemos é que em 1540 d.C., talvez cerca de meio milhão de pessoas tenha vivido no sudoeste, a maioria composta de agricultores cujas vilas variavam em tamanho, de pouco menos de cem pessoas a duas ou três mil. Os exploradores chamavam esses lugares e as pessoas que lá viviam de "pueblos" ("povoado" em espanhol) e seus descendentes desde então são o "povo Pueblo". Os Pueblo falavam pelo menos oito idiomas diferentes na época do contato e viviam em comunidades que eram essencialmente igualitárias, teocráticas e autônomas. Seu modo de vida era muito parecido de lugar para lugar e cerâmicas pintadas e moldadas a mão eram produzidas na maioria dos pueblos, se não em todos, em quantias relativamente grandes.

A maioria dos vilarejos Pueblo se agrupava em vales estreitos de rios, em estilo de oásis, ao longo do alto-médio Rio Grande e seus afluentes e a sul e a oeste do Planalto Colorado. Outros eram agricultores nas esparsas "rancherías" nos desertos do sul. A compreensão de que o universo Pueblo, historicamente conhecido, data em sua maior parte apenas do século XIV tornou-se mais ampla após o desenvolvimento de métodos de datação durante o século XX. Com o tempo, tornou-se amplamente aceito que vários das centenas de vilarejos, talvez a maioria deles, que foram abandonados há tempos no Planalto Colorado e nas terras altas Mogollon e abaico delas, foram de alguma forma ancestrais aos Pueblo pós-1300 d.C.

Produção de cerâmicas. A produção de cerâmicas teve início na região por volta do ano 100 d.C., nos desertos do sul, com contêineres de tom vermelho e marrom sem pintura, feitos de argilas vulcânicas locais ricas em ferro. Por volta de um século mais tarde, louças semelhantes, mas cinzas e brancas, eram produzidas no Planalto Colorado, onde a geologia local fazia com que a maior parte das argilas fosse pobre em ferro. Em ambas as áreas, a cerâmica florescia à medida que a população aumentava. Por volta dos anos 700 d.C., no sul, o povo Hohokan havia criado uma tradição de pintura em cerâmica em vermelho sobre marrom. Enquanto isso, muitas louças regionais em preto sobre branco eram produzidas em quantias crescentes no Planalto Colorado. Até os anos 1300, a maior parte das tradições cerâmicas do sudoeste, produzida por diferentes grupos praticando estilos de vida semelhantes, compartilhava de uma gama relativamente pequena de motivos e criava sutis variações dos poucos temas básicos. As tigelas tinham pintura na parte interna, as jarras na parte externa. As composições eram simétricas e organizadas de forma geométrica. Os padrões lineares predominavam. Eram comuns as inversões de figuras da base, o que resultava em ambíguos motivos positivos-negativos. Hoje em dia, essas variações são marcas que distinguem as tradições ancestrais de outras.

As secas e as variações climáticas rompiam a vida em toda a região, findando por causar enormes re-povoamentos durante os séculos XIII e XIV. Como as antigas terras foram abandonadas, o vale do Rio Grande e as terras fronteiriças Mogollon se tornaram os locais preferidos para novos povoamentos. As distinções entre as regiões de louça branca do norte e de louça vermelha no sul foram ofuscadas por uma explosão criativa de estilos de pintura em cerâmica inspirados por ambas as tradições, do norte e do sul. Novos e dinâmicos desenhos, que podiam ser assimétricos, novos motivos, combinações de cor e novas tintas, tudo parecia ser uma resposta visual ao fato básico de que esses ancestrais do povo Pueblo estavam criando um novo universo a partir dos fragmentos do velho. Enquanto isso, nos desertos do sul, outros Hohokan, Mogollon e Casas Grandes se dispersavam para pequenas rancherías e para vilarejos ocupados sazonalmente.

Cena de um pueblo: fotografia de Edward S. Curtis


A descoberta da cerâmica dos pueblos. A cerâmica do sudoeste norte-americano era virtualmente desconhecida antes dos anos 1880, quando os recém-chegados fazendeiros, criadores de gado e lojistas euro-americanos fizeram as primeiras escavações em sítios antigos, por curiosidade ou por diversão. Logo, alguns deles começaram a exibir seus achados em feiras industriais regionais e nacionais, onde eram vendidos como raridades e exemplares científicos. Até os anos 1890, os saques movidos pelo comércio formaram uma indústria no sudoeste, levando à proteção das terras nacionais pela legislação, em 1906. Meio século depois, houve pouco comércio de cerâmicas saqueadas, mas a bem-vinda transformação intelectual nos anos 1960, de "raridade" e "exemplar científico" para "arte", teve consequências inesperadas.

Cerâmica, cultura Anasazi


Uma nova e esclarecida audiência de colecionadores de arte cerâmica, e até mesmo alguns museus, começou a surgir. A admiração por essa maravilhosa arte estimulou uma nova geração de saqueadores. Hoje vemos a destruição mecanizada e em ataque de sítios arqueológicos por "caçadores de potes", bem capitalizados e ávidos por enriquecer com o fornecimento de beleza para o mercado da arte. Contudo, para cada sítio que se perde, perdemos conhecimento do passado Pueblo, bem como a perspectiva de nos aproximarmos mais de uma melhor compreensão dos artistas antigos como seres humanos e da sua arte como uma expressão da humanidade compartilhada. Nós devemos a eles, e à sua arte, um futuro melhor.

ANTIGAS ORIGENS DO SUDOESTE AMERICANO: 600-1600 AD. Curitiba: Museu Oscar Niemeyer, 2008.

Texto 2

No sudoeste da América do Norte, três civilizações pré-históricas - Hohokan, Mogollon e Anasazi - floresceram no período entre os séculos I e XV. As três foram influenciadas pelas civilizações mexicanas.

Os Hohokan eram agricultores habilidosos que irrigaram as planícies do sul do Arizona. Foram os primeiros a desenvolver uma técnica decorativa que usava o suco de cacto, um ácido suave, para gravar desenhos em conchas. 

Os Mogollon tinham sua base nas montanhas do Novo México, onde viviam em casas subterrâneas. Produziam uma cerâmica típica, conhecida como mimbers, com puncturas rituais, possivelmente para permitir que o espírito do dono escapasse do corpo, ao morrer. Em cerca de 1500, a civilização Mogollon foi absorvida pela civilização mais sofisticada dos Anasazi, que dominou a região onde os estados de Utah, Arizona, Colorado e Novo México se encontram.

Cerâmica, cultura Mogollon

O maior empreendimento dos Anasazi foi a construção de pueblos - assentamentos complexos compostos de fileiras de quartos adjacentes, frequentemente com diversos andares. O maior, Pueblo Bonito, no cânion de Chaco, no Novo México, continha 800 cômodos. Outros pueblos, como Mesa Verde, foram construídos nos rochedos do cânion. 

Cada pueblo tinha algumas kivas - câmaras semi-subterrâneas onde os homens da comunidade reuniam-se e celebravam cerimônias. A rede de estradas a partir do cânion de Chaco sugere que era um importante centro comercial.

ANTIGAS CIVILIZAÇÕES. São Paulo: Ática, 1995. Série "Atlas Visuais".

quarta-feira, 26 de outubro de 2011

O povo de Luzia: os primeiros americanos

As imagens do crânio de Luzia foram processadas em computador por pesquisadores ingleses.
O crânio foi reconstruído em material sintético e a face de Luzia foi reconstituída em argila. Resultado: fisionomia com olhos arredondados, nariz largo e queixo proeminente. Ou seja, traços negroides.

A agricultura e a domesticação de animais surgiram no Velho Mundo por volta de 10 mil anos. Na América, a produção de alimento, através da agricultura e do pastoreio, surgiu de forma independente pouco mais tarde e só se generalizou por todo o continente nos últimos 4 mil anos. Mesmo assim, até hoje alguns grupos indígenas na América do Sul ainda vivem exclusivamente da caça e da coleta de vegetais silvestres. Exceto nos Andes, onde a lhama e o guanaco foram domesticados, a criação de animais como fonte de alimento não exerceu nenhum papel nas demais regiões do Novo Mundo.

Mesmo para os grupos que adotaram o cultivo de vegetais na América do Sul, a caça e a coleta não deixavam de ter importância. Até hoje os grupos indígenas que cultivam (principalmente a mandioca e o milho) nas terras baixas sul-americanas suplementam sua alimentação tanto com a caça e a pesca, principais fontes de proteína animal, como com a coleta de vegetais, importantíssimos como fonte de vitaminas e outros micronutrientes. O mel também é muito apreciado por esses grupos.

Na verdade, durante grande parte da trajetória evolutiva humana, nossos ancestrais viveram exclusivamente da caça e da coleta, sem produzir alimentos. [...] Por isso, é muito importante para a arqueologia e a antropologia entenderem os detalhes desse estilo de vida.

Existem grandes diferenças entre uma vida de caçador-coletor e uma vida baseada no cultivo de subsistência. Primeiramente, o grau de mobilidade. No geral, os primeiros são mais móveis que os segundos, tendo em vista que viver apenas da caça e da coleta exige grande mobilidade durante o ciclo anual e um território de captação de recursos significativamente maior. A alta mobilidade da maioria dos caçadores-coletores (ou forrageadores) impede a exaustão dos recursos naturais locais, sempre limitados, propiciando ao mesmo tempo grande complementaridade alimentar.

Mas aqui cabe uma ressalva. A maioria das pessoas acredita que o nomadismo, que caracterizava a vida de um grupo de caçadores-coletores, ocorre a esmo, dando a impressão de que eles não têm destino, que estão sempre se deslocando, ou que lhes falta o conceito de territorialidade. Tal cenário não poderia estar mais equivocado. No geral, esses grupos se deslocam dentro de uma macrorregião já conhecida e muito bem "mapeada", em termos de fontes de recursos. Estabelecem também uma relação mítica com alguns marcos desse território, relação esta construída em tempos imemoriais. [...]

Outra diferença, também determinada pela sustentabilidade do meio em que vivem, é de caráter demográfico. Grupos forrageadores, denominados bandos, são sempre muito menores que aqueles que vivem da agricultura, denominados tribos. A produção de alimento permitiu ao homem não só manter coeso maior número de pessoas por aldeia, mas também maior densidade demográfica regional. O cultivo de vegetais aumentou artificialmente (e continua aumentando) a sustentabilidade natural da paisagem, mesmo quando praticado em pequenas roças estabelecidas no meio da floresta.

A divisão sexual do trabalho também é distinta entre esses dois tipos de sociedade. Enquanto entre forrageadores os homens caçam e as mulheres (e muitas vezes as crianças) coletam, entre agricultores de subsistência os homens caçam e ajudam no trabalho mais pesado de preparação de roças (derrubada da mata, limpeza com fogo e destocamento). Já as mulheres cuidam do cultivo, da colheita e do processamento dos alimentos produzidos. A pesca é no geral praticada tanto pelos homens como pelas mulheres e crianças nos dois tipos de sociedade.

Entre os caçadores-coletores, o lascamento da pedra é tarefa exclusivamente masculina, ao passo que entre os cultivadores a fabricação de utensílios de cerâmica é atividade exclusivamente feminina. Salvo algumas exceções, no geral grupos caçadores-coletores não fabricam utensílios de cerâmica, tendo em vista que essas vasilhas dificultariam a mobilidade de que desfrutam, e também pelo fato de que processam muito pouco os alimentos oriundos da caça e da coleta. No geral, é na indústria lítica que os forrageadores imprimem sua identidade étnica. Já a esmagadora maioria dos grupos agricultores fabrica e usa intensivamente recipientes de cerâmica. Tais utensílios são essenciais para estocagem, o processamento e o cozimento dos cereais ou tubérculos cultivados. [...]

É muito difícil saber com exatidão o estilo de vida e como era o cotidiano de Luzia e de seus contemporâneos, já que até hoje nenhum acampamento com mais de 10 mil anos foi escavado em Lagoa Santa. [...]

Mas uma coisa é inquestionável: o povo de Luzia vivia exclusivamente da caça e da coleta, desconhecendo completamente o cultivo de vegetais e a fabricação de vasilhas de cerâmica. Sua indústria lítica era composta quase que exclusivamente de instrumentos de pedra lascada. Muito raramente, poliam uma das extremidades de um seixo, dando-lhe um gume, fabricando assim machados muito toscos.

NEVES, Walter Alves. O povo de Luzia: em busca dos primeiros americanos. São Paulo: Globo, 2008. p. 270-1.