"Os espelhos estão cheios de gente.
Os invisíveis nos vêem.
Os esquecidos se lembram de nós.
Quando nos vemos, os vemos.
Quando nos vamos, se vão?"
Eduardo Galeano: Espelhos
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segunda-feira, 30 de maio de 2016

Lamento do povo Azande

Mulher e criança Azande, Richard Buchta

O menino morreu;
cubramos nossas caras
com terra branca.
Quatro filhos pari na
choça de meu esposo.
Somente o quarto vive.
Quisera chorar,
mas nesta aldeia
está proibida a tristeza.

GALEANO, Eduardo. Memórias do fogo: Os nascimentos. Porto Alegre: L&PM, 2013. p. 266.

quinta-feira, 24 de abril de 2014

As epopeias do Ramayana e do Mahabharata रामायण और महाभारत के महाकाव्य

रामायण और महाभारत के महाकाव्य

Rama sentado com Sita , abanado por Lakshmana, enquanto Hanumam faz reverência. Artista desconhecido

Composta entre 400 a.C. e 400 d.C., as duas epopeias se tornaram rapidamente os relatos literários mais populares da Índia, e isso apesar de sua extensão monumental: o Ramayana (As Gestas de Rama), conta com 24 mil versículos, enquanto o Mahabharata (A Grande Gesta de Bharata), é, com quase 100 mil versículos, a maior epopeia de todas as literaturas. As condições de elaboração desses gigantescos poemas não gozam sempre de unanimidade entre os indianistas: para alguns, elas devem ser atribuídas a um único autor, para outros resultam de adições e remanejamentos sucessivos. Seja como for, sua transmissão, pela recitação, pela canção, pelo teatro ou pela dança, nunca foi interrompida até nossos dias.


Krishna e Arjun na carruagem. Artista desconhecido

Pela riqueza de seu conteúdo, de inspiração religiosa e filosófica, essa literatura se dirige a todos. As crianças se entusiasmam com as façanhas maravilhosas do "deus macaco", Hanumam, que ajuda o príncipe Rama a libertar a bela Sita. Os letrados encontram no Bhagavad Gita (Canto do Senhor), que constitui o episódio mais famoso do Mahabharata, do que alimentar sua reflexão sobre os deveres das diferentes castas e a conformidade necessária de sua ação com o Dharma, a ordem cósmica.

Se as duas epopeias são inesgotáveis em matéria de mitologia, é difícil extrair delas fatos de valor histórico. Ainda que certos especialistas tenham visto no Mahabharata  um reflexo dos enfrentamentos que ocorreram entre os árias (ou arianos) e as populações autóctones, no 2º milênio a.C., o significado histórico dessa obra reside sobretudo no fato de que é uma resposta - ou, melhor, uma réplica - dos brâmanes diante da expansão do budismo.

SALLES, Catherine (dir.). Larousse das civilizações antigas 3: das Bacanais a Ravena. São Paulo: Larousse do Brasil, 2008. p. 251.

NOTA: O texto "As epopéias do Ramayana e do Mahabharata रामायण और महाभारत के महाकाव्य" não representa, necessariamente, o pensamento deste blog. Foi publicado com o objetivo de refletirmos sobre a construção do conhecimento histórico.

quarta-feira, 1 de janeiro de 2014

Mundos imaginados: utopias e distopias

Procurando na história mundial os mundos imaginados, encontraremos as previsões de sociedades ideais tão antigas quanto as primeiras expressões do pensamento humano em tradições escritas e orais e nas artes. Os desenhos mitológicos das origens dos mundos natural e humano eram explicações, provenientes da experiência do mundo e da imaginação. Incorporadas nesses mitos estavam ideias de família e vida comunitária: como as pessoas deveriam viver juntas, compartilhar recursos e escolher líderes entre si. A religião inspirou a imaginação de mundos além do reino da experiência humana, e esses mundos incorporaram a completa realização do que significava ser humano, bem como as mais terríveis provações que um ser humano podia sofrer. Seja no budismo, no cristianismo ou no islamismo, a percepção de um paraíso e de um inferno encorajou as pessoas a acreditar e praticar suas crenças como indivíduos e como membros de uma comunidade.


A idade de ouro, Lucas Cranach

Visões religiosas também inspiraram movimentos milenares que projetaram esperança em uma nova era – a chegada do milênio que conduziria a um novo mundo – e exortava os seguidores a agir para chamar a nova era. Os movimentos milenares são encontrados ao redor do mundo em muitos contextos religiosos diferentes, incluindo budistas e cristãos, assim como em numerosas tradições sincréticas. Eles surgem das diferentes condições históricas e frequentemente tornam-se violentos, como resposta à opressão social, política e econômica. Houve movimentos milenares cristãos na Europa medieval e alguns movimentos budistas na China medieval. A grande Rebelião de Taiping, na metade do século XIX, na China – resultou na morte de, talvez, 20 milhões de pessoas – aglutinou-se sob a liderança de Hong Xiuquan (1811-1854), que teve uma visão de que ele seria o irmão mais novo de Jesus Cristo, enviado por seu pai para trazer o povo chinês de volta à sua crença original em Deus e para criar um “Reino Divino da Grande Paz (Taiping)”. Índios Arawakan, do noroeste da Amazônia, seguiram um xamã indígena e líder milenar, Venancio Kamiko, durante os anos de 1850, para resistir contra o controle colonial sobre seu mundo. No Congo, um movimento milenar originou-se com as reivindicações de uma jovem garota congolesa de que ela seria Santo Antônio, na primeira década do século XVIII. Beatriz Kimpa Vita anunciou que ela veio para ensinar a verdadeira religião: os padres eram impostores, Deus e seus anjos eram negros, e o reino dos céus era próximo da pátria congolesa, onde Cristo realmente havia vivido e morrido. Sugerir uma alternativa tão radical em meio ao confronto de culturas era algo perigoso, e o fundador do movimento foi executado. Contudo, o movimento sobreviveu e tornou-se a primeira Igreja sionista africana; o nome “Sião” refere-se à cidade bíblica que era um símbolo de esperança.

Juntos, visionários religiosos, filósofos, artistas, historiadores e escritores de todo o mundo produziram visões seculares de sociedades perfeitas. Em sua obra República, o filósofo grego Platão (427-347 a.C.) descreveu o Estado ideal como uma nação governada por um rei-filósofo. O mundo material dos fenômenos, acreditava Platão, é um mundo de sombras vagamente refletidas a partir do mundo real das ideias. É esse mundo das ideias que os reis-filósofos compreendiam e no qual estavam qualificados para governar. Além do mundo das coisas e das experiências, compreendido pelos sentidos, há outro, um mundo fundamental das formas e tipos eternos. Para tudo que experimentamos por meio dos sentidos há uma essência dessa realidade imutável, independente dos “acidentes” materiais que as cercam. Os “acidentes” da vida cotidiana são transcendidos por essências e formas eternas, as quais são objetivos de conhecimento. O rei-filósofo é, por educação, senão por desejo, capaz de guiar o Estado para sair desse caos e das ilusões do mundo externo dos fenômenos sentidos para a ordem e os modelos eternos.

O filósofo chinês Confúcio, no sexto século a.C., ensinou que a sociedade ideal existiu no passado, sob o governo dos reis sábios da antiguidade. A noção do Mandato Divino, que se desenvolveu como a sansão para governar na China imperial, significava que a responsabilidade do governante era de manter a ordem do Paraíso na sociedade humana; se e quando um governante falhasse, então o Mandato era declinado para um novo imperador. O essencial para a harmonia da sociedade, para Confúcio e seus seguidores, era a realização adequada do ritual e das práticas cerimoniais elaboradas em uma compilação de textos do final do primeiro século a.C. e do século I d.C. Nesse texto, o Livro dos Ritos, a sociedade sob os reis sábios da antiguidade é retratada como uma era de “Grande Harmonia”, na qual todos tinham suas próprias tarefas e seu lugar, todos eram cuidados de acordo com suas necessidades. Esse ideal foi ressuscitado, no final do século XIX, pelo reformador chinês Kang Youwei (1858-1927), que promoveu a sociedade ideal da Grande Harmonia como algo central ao pensamento confucionista. Ele argumentou que Confúcio teria dado apoio às reformas modernas de Kang, defendendo que eles teriam vivido na mesma época.

O termo “utopia”, usado para descrever uma sociedade ideal, foi cunhado, a partir do grego, por Sir Thomas Morus, ao escrever sobre um mundo imaginário em uma ilha, Utopia (1516), onde a propriedade privada não existia e a tolerância religiosa reinava. Como muitas utopias, essa foi inspirada pelas observações do escritor sobre seu mundo contemporâneo, mas também por relatórios do “Novo Mundo”. Escrito quase um século depois da Utopia de Morus, a peça de William Shakespeare, A tempestade (1611), ocorreu em uma ilha, referida como o “bravo novo mundo”, onde “não havia necessidade de trabalho, de ricos ou de pobreza”. Para os europeus, esse Novo Mundo era um espaço virgem, um paraíso preenchido pela promessa da possibilidade humana; para os povos indígenas do Novo Mundo, a presença europeia trouxe a morte e a destruição.


Mapa: ilha de Utopia

Fazendo par com o conceito de utopia está o de distopia, o mundo imaginado oposto, de total privação e miséria. Durante muito tempo sob o domínio de escritores de ficção científica, uma das mais conhecidas distopias é a de George Orwell, em sua obra 1984 (1949), na qual o personagem principal é gradualmente privado de sua humanidade individual para ser absorvido pelo “grande irmão (Big Brother)” do Estado totalitário do século XX. O romance distópico de Aldous Huxley, Admirável mundo novo (1932), retirou seu nome da frase utilizada por Shakespeare em A tempestade, e retratou um mundo onde todas as necessidades humanas são satisfeitas e não há guerra ou pobreza, mas também não há religião, filosofia, família ou diferença cultural para enriquecer a vida humana. Drogados em soma, as pessoas da obra de Huxley escapam de qualquer coisa desagradável, incluindo emoções e memórias dolorosas. Conforme o romance de Huxley Admirável mundo novo vai sendo esclarecido por meio da retração de um mundo utópico que, na verdade, é distópico, visões de sociedades ideais – libertação do desejo, da fome e do medo – nem sempre produzem resultados desejáveis. Os avanços tecnológicos que tornaram possíveis os mundos descritos por Orwell e Huxley foram um produto da Revolução Industrial, que gerou suas próprias visões paralelas de utopia e distopia.

GOUCHER, Candice; WALTON, Linda. História mundial: jornadas do passado ao presente. Porto Alegre: Penso, 2011. p. 340-342.

NOTA: O texto "Mundos imaginados: utopias e distopias" não representa, necessariamente, o pensamento deste blog. Foi publicado com o objetivo de refletirmos sobre a construção do conhecimento histórico.

terça-feira, 17 de dezembro de 2013

A cultura jovem dos anos 50: do rock' n' roll à geração beatnik

O consumo musical, nas décadas anteriores ao surgimento do rock' n' roll, dividia-se de maneira compartimentalizada no mercado: música para brancos [...] e música para negros [...]. Grande parte da população urbana branca consumia música erudita e/ou música popular romântica [...], ou, então, músicas mais rápidas no balanço diluído das grandes orquestras brancas de swing [...]. Até então, os filhos dessa classe média branca não diferiam grandemente dos pais quanto ao gosto musical e ao estilo de vida. Só a partir do surgimento do rock' n' roll é que, efetivamente, se nota a caracterização de uma cultura jovem.

Por volta de 1950, as pequenas gravadoras exploravam dois importantes mercados específicos: o rhythm and blues negro e a música dos brancos rurais - country-and-western -, também tão marginalizada quanto a música negra, pois era a música dos brancos pobres. Da união desses dois tipos de música surgiria o estilo chamado rock' n' roll, transformando todos os esquemas das grandes gravadoras [...] e, num sentido mais amplo, a própria cultura norte-americana e mundial.

Por ser um estilo composto de elementos de origem diversa - "música negra" e "música branca" -, o rock' n' roll também seria encarado, na racista sociedade norte-americana de então, como race music (música de negro). E, exatamente por essa qualidade, ele foi incorporado por outro grupo que começava a se manifestar no cenário dessa sociedade: a juventude.

[...] o rock' n' roll funcionou como uma inversão psicológica na relação entre dominador (branco) e dominado (negro) que prevalecia na sociedade norte-americana. A cultura promovida pela juventude, a partir do rock' n' roll, seria uma forma de os jovens de classe média branca se colocarem em relação à sociedade estabelecida por seus pais, assumindo, mesmo que inconscientemente, certos valores da cultura negra como bandeira.

Apesar do estilo contestatório do rock' n' roll, essa criação de base negra (blues e rhythm and blues) foi uma mercadoria estilizada pelas grandes gravadoras e vendida ao público branco a partir de meados da década de 1950. Na grande maioria dos casos, trata-se de cópias (covers) que cantores brancos fazem, "cobrindo" material originalmente de músicos negros [...]. São óbvias, portanto, as razões por que o primeiro rock de sucesso, "Rock around the clock" (1954), era de um simpático branco de cabelos louros chamado Bill Halley, o mesmo acontecendo com a superestrela do rock' n' roll, Elvis Presley. [...] Cantando com a voz rouca e sensual de um negro, abriu caminho para a aparição, em âmbito nacional, de rock' n' rollers negros como Chuck Berry, Little Richard e Fats Domino. O rock' n' roll branco, além de Elvis, apresentou também algumas figuras brilhantes como Carl Perkins, Jerry Lee Lewis e Buddy Holly, entre outros.


Elvis Presley

A partir de então, a indústria cultural norte-americana desenvolveu-se a mil por hora. Gravadoras, rádios, cinema e televisão, percebendo o mercado que se abria com o rock' n roll e seu estilo de vida, voltaram-se para essa emergente cultura jovem, estimulando cada vez mais o seu consumo.

[...]

Apesar de chocar os padrões morais da época, o rock' n' roll dos anos 50 não era uma música politicamente engajada. Muito pelo contrário, entre seus temas principais figurava a exaltação à dança e ao ritmo da música, às histórias de colégio, além da descrição de carros e relacionamentos amorosos com as garotas. [...]

Diante de tais incompreensões, alguns grupos de jovens optavam pela delinquência juvenil, fazendo disparar as estatísticas de crime e violência. Nascidos antes do ataque, pelos japoneses, à base americana de Pearl Harbor, no Havaí, [...] que provocou a entrada dos Estados Unidos na II Guerra Mundial, eles cresceram em meio ao conflito e, de certa forma, no seu prolongamento, evidenciado no fantasma da Guerra Fria. Mesmo gozando de todos os privilégios da classe média branca norte-americana, esses jovens não podiam escapar a um sentimento de vazio existencial, produto de uma sociedade consumista e materialista; ou a um sentimento de culpa, mesmo que inconsciente, pelas desigualdades sociais e raciais dessa sociedade. Outros, oriundos de lares desajustados, reflexo da própria guerra e da vida moderna norte-americana, eram incapazes de se enquadrar no estilo de vida americano. [...]


A situação de revolta da juventude forneceu farta matéria para o cinema da época, que criou uma galeria de tipos, desde o delinquente juvenil homicida (ou suicida) até o rapaz bem-intencionado, de boa família, que por forças alheias à sua vontade, era desviado do "bom caminho". Três filmes-chave refletiram com extrema atualidade esse problema. O selvagem, de 1953, com Marlon Brando, descreve os momentos vividos por uma pequena cidade subitamente invadida por um bando de motoqueiros. É, de certa forma, uma parábola do choque entre a sociedade organizada e o potencial "selvagem" de uma juventude sem rumo. Juventude transviada, de 1955, com James Dean, revela os problemas individuais dos "rebeldes sem causa" dos anos 50. Mas é Sementes da violência, também de 1955, que expõe de modo mais didático (o tema do filme é a educação) toda a carga de hostilidade no relacionamento entre a juventude marginalizada e a sociedade. A música que anuncia o filme é "Rock around the clock", o primeiro grande hit do rock' n' roll e um verdadeiro hino de guerra dos adolescentes de então. Essa música também é utilizada como uma referência ao conflito entre professores (que representam as regras estabelecidas pela sociedade) e alunos, numa cena altamente simbólica em que os jovens rebeldes quebram toda a coleção de discos com que o bem-intencionado mestre tenta iniciá-los no jazz tradicional.

[...]

A partir dos personagens desses filmes, o cinema conseguiu retratar os dilemas de uma geração, ao mesmo tempo que ofereceu um modelo visual e ideológico para a juventude dos anos 50.

O ídolo da época foi James Dean, que fez os jovens do mundo todo imitarem suas caretas, trejeitos, roupas e corte de cabelo. [...]

O mito cinematográfico James Dean simbolizava tudo o que era jovem, moderno, norte-americano e diferente. Ele inspirava o traje (uniforme) dos jovens, que, com seu jeans apertado e sua jaqueta de couro preta, adotavam uma atitude de rebeldia contra a sociedade consumista, de resistência contra as rígidas convenções sociais do universo adulto, e se entregavam à violência, às bolinhas, ao rock' n' roll e às experiências sexuais.

Não é coincidência o fato de James Dean e o rock' n' roll terem invadido a imaginação do jovem dos anos 50. Esses dois elementos expressavam uma mudança no universo de valores da juventude, algo que esse público não entendia completamente, mas a que intuitivamente aderia, e que a indústria cultural da época começava a explorar na forma de mercadoria. [...]

Mas nem só de jovens transviados e rock' n' roll viveram os anos 50. A Guerra Fria e a cultura de consumo não contribuíram apenas para um sentimento de inquietação em relação aos adolescentes; elas também favoreceram o surgimento de um pequeno grupo de jovens universitários que, através de um movimento literário, tentavam oferecer um estilo de vida alternativo ao mundo materialista da sociedade norte-americana.

Em 1957, com a publicação de On the road (Pé na estrada), de Jack Kerouac, eclodiu no mundo burguês da América de Eisenhower um perturbador fenômeno que Kerouac chamou de beat. Esse termo podia sugerir a busca de uma "purificação do espírito" (beatitude), com influência das religiões orientais (budismo, zen-budismo etc.). Também se referia a um estilo de vida aventureiro adotado pelos que, sem eira nem beira, andavam à deriva pelas estradas da América, em busca de aventura, aproveitando-se da opulência material do estilo de vida americano. Por último, tinha ainda conotações musicais referentes ao be-bop e ao cool jazz.

Ser beat, por extensão, significava fluência, improviso, ausência de normas preestabelecidas na vida e na arte. Significava também a busca de um envolvimento profundo que traz música, balanço, liberdade e prazer, na procura da realidade marginal das minorias raciais e culturais no interior da sociedade norte-americana.

Dessa forma, o termo "geração beat" (beat generation), assim como a cultura produzida por ela, não designa um movimento estético-literário organizado em torno de um programa de objetivos preestabelecidos, mas refere-se a poetas e escritores (Jack Kerouac, William S. Burroughs, Allen Ginsberg, Lawrence Ferlinghetti, Gregory Corso, Gary Snyder etc.) que, em constante deslocamento, viviam a América dos anos 50.

[...]

Aparentemente afastados do rock (os beats nunca esconderam sua aversão pelo rock' n' roll adolescente dos anos 50), os autores beats seriam de grande importância para o rock dos anos 60, influenciando músicos como Bob Dylan, John Lennon e Jim Morrison, dados aos temas críticos do estilo de vida americano: drogas, bebedeiras, sexo livre, visões cósmicas, utopias e o cotidiano. Pode-se dizer que os poetas e escritores beats tentaram fazer a ligação direta entre a arte e a vida no mundo moderno, antecipando um dos princípios básicos dos movimentos jovens dos anos 60, que era obedecer aos instintos de uma cultura alternativa ligada ao cotidiano, independentemente do reconhecimento da cultura oficializada pela sociedade.


BRANDÃO, Antonio Carlos; DUARTE, Milton Fernandes. Movimentos culturais de juventude. São Paulo: Moderna, 2008. p. 26-34.

NOTA: O texto "A cultura jovem dos anos 50: do rock' n' roll à geração beatnik" não representa, necessariamente, o pensamento deste blog. Foi publicado com o objetivo de refletirmos sobre a construção do conhecimento histórico.


sexta-feira, 27 de setembro de 2013

Os Vedas, literatura sagrada da Índia

Críxena (à esquerda), a oitava encarnação de Vishnu, com sua consorte, Rada. Pintura do século XVII.

Os textos védicos são os primeiros monumentos literários da Índia. Considerados como "Revelação", constituem os textos fundamentais do hinduísmo. Os Vedas, palavra sânscrita que significa o "Saber" por excelência, cada uma das quatro grandes coletâneas de textos, entre os quais o Rigveda, o "Saber disposto em estrofes", que é o mais antigo. Se os Vedas só foram postos por escrito a partir de 500 a.C., concorda-se que esses escritos fixaram tradições bem anteriores.

Os primeiros textos foram compostos por volta de 1500 a.C., a seguir foram transmitidos oralmente durante gerações pelos árias (ou arianos), um povo originário da Ásia central que se estabeleceu na Índia a partir de 1000 a 800 a.C. Nada tem de surpreendente o fato de o período de transmissão oral ter sido tão longo - prosseguindo mesmo depois que a escrita entrou em uso: para os hindus, tal como foi transposto em palavras por sábios míticos, os Vedas, que são intemporais e de inspiração divina, devem ser "ouvidos". É por isso que Veda é também chamado de a "audição" e, hoje, ainda a regra é que seja aprendido de cor, da boca de um mestre.

Além dos conhecimentos relativos aos mitos e aos ritos sacrificiais, o Rigveda nos ensina que a religião védica preconiza uma sociedade ideal dividida em quatro grandes classes hierárquicas: no alto estão os brâmanes, sacerdotes depositários dos Vedas, seguidos dos guerreiros e dos produtores de bens. Vêm, por fim, os servidores, que não têm acesso aos textos sagrados. Essa estrutura sociorreligiosa está na base do sistema de castas que sobrevive até nossos dias.

SALLES, Catherine [dir.]. Larousse das civilizações antigas 1: dos faraós à fundação de Roma. São Paulo: Larousse do Brasil, 2008. p. 43.

sábado, 3 de agosto de 2013

A literatura medieval

A literatura medieval foi escrita em latim e no vernáculo. Grande parte da literatura latina desse período consistiu em hinos e dramas retratando a vida de Cristo e dos santos. Em suas línguas nativas, os escritores medievais criaram diferentes formas de poesia: canções de gesta, romances e trovas, que surgiram no auge da Idade Média.

As canções de gesta francesas - poemas épicos de feitos heroicos narrados até então em forma oral - foram escritas no vernáculo do norte da França. Esses poemas tratavam das batalhas de Carlos Magno contra os muçulmanos, dos nobres rebeldes e da guerra feudal. O melhor desses poemas épicos, A canção de Rolando, expressava a fidelidade dos vassalos a seu senhor e a devoção do cristão à sua fé. Rolando, sobrinho de Carlos Magno, foi morto em batalha com os muçulmanos. A canção dos nibelungos, a melhor expressão do épico heroico na Alemanha, é com frequência chamada de "a Ilíada dos germanos". Como sua correspondente francesa, tratava de feitos heroicos.

O romance - uma fusão de velhas lendas, ideais cavaleirescos e conceitos cristãos - combinava amor com aventura, guerra e o maravilhoso. Entre os romances estavam as histórias do rei Artur e da Távola Redonda. Transmitidos oralmente durante séculos, esses contos difundiram-se das Ilhas Britânicas para a França e a Germânia. No século XII foram colocados em verso francês.

Outra forma de poesia medieval, que floresceu particularmente na Provença, no sul da frança, tratava da glorificação romântica das mulheres. Embora estas geralmente fossem consideradas pelos homens medievais como inferiores e subordinadas, a poesia do amor cortesão atribuía às damas nobres qualidades superiores de virtude. Para o fidalgo, a dama tornou-se uma deusa digna de toda a dedicação, fidelidade e culto. Ele a honrava e servia como fazia ao seu senhor; por seu amor, sujeitava-se a qualquer sacrifício.


Livro das horas de Hastings, século XV

As mulheres nobres tiveram influência ativa no ritual e na literatura do amor cortesão. Convidavam, com frequência, os poetas a suas cortes e também escreviam poemas. Exigiam que os cavaleiros as tratassem com gentileza e consideração, que se vestissem bem, se lavassem com frequência, tocassem instrumentos e escrevessem (ou pelo menos recitassem) poesias. Para mostrar-se digno do amor de sua dama, o cavaleiro tinha de demonstrar paciência, encanto, coragem e fidelidade. Acreditava-se que o cavaleiro, ao se dedicar a uma dama, enobrecia seu próprio caráter.

O amor cortesão não exigia uma relação marido-mulher, mas sim a admiração e o anseio de um nobre por outra mulher de sua classe. Entre os nobres, os casamentos eram arranjados por motivos políticos e econômicos. O ritual do amor cortesão, como dissemos, proporcionava um escoadouro para os sentimentos eróticos condenados pela Igreja. Também aumentava as habilidades e melhorava o gosto do nobre. O guerreiro sem refinamento adquiria espírito, boas maneiras, encanto e aprendia a usar as palavras. Transformava-se num cortesão e cavalheiro.

A maior figura literária da Idade Média foi Dante Aliguieri (1265-1321), de Florença. Dante apreciava os clássicos romanos e escreveu não só em latim, língua tradicional da vida intelectual, mas também em italiano, sua língua materna. Sob esse aspecto, foi precursor do Renascimento. Na tradição dos trovadores, Dante escreveu poemas à sua amada Beatriz.

Dante sintetizou, em A divina comédia, os vários elementos da perspectiva medieval e resumiu, com grande sentimento, a compreensão medieval da finalidade da vida. Escrita no exílio, A divina comédia descreve a viagem do poeta através do inferno, purgatório e paraíso. Dante divide o inferno em nove círculos concêntricos; em cada região, os pecadores são castigados de acordo com seus pecados na Terra. O poeta experimenta todos os tormentos do inferno - areias candentes, tempestades violentas, trevas e monstros terríveis que golpeiam, cravam garras, mordem e dilaceram os pecadores. O nono círculo, o mais baixo, é reservado a Lúcifer e aos traidores. Lúcifer tem três caras, cada uma delas de cor diferente, e duas asas como as de um morcego. Com suas bocas, vai mordendo os maiores traidores da história: Judas Iscariotes, que traiu Jesus, e Bruto e Cássio, que assassinaram Júlio César. Aos condenados ao inferno, é dito: "Deixai fora a esperança, ó vós que entrais". No purgatório, Dante encontra os pecadores que, embora sofram castigo, acabarão por entrar no paraíso. Aí, região de luz, música e delicadezas, o poeta, guiado por Beatriz, encontra os grandes santos e a Virgem Maria e, por um breve momento, tem a visão de Deus. Nessa indescritível experiência mística, o objetivo da vida é realizado.

Escritas em vernáculo, os Contos de Cantuária, de Geoffrey Chaucer (c. 1340-1400), são uma obra-prima da literatura inglesa. Chaucer tomou como tema 29 peregrinos que iam de Londres ao santuário religioso de Cantuária. Ao descrevê-los, o autor mostrou humor, graça e compreensão da natureza humana, bem como uma excepcional percepção das atitudes inglesas. Poucos autores nos deram melhor retrato de sua época.

PERRY, Marvin. Civilização ocidental: uma história concisa. São Paulo: Martins Fontes, 2002. p. 196-198.

sexta-feira, 5 de julho de 2013

Imigrantes 5: Vivendo a América

Mulher e criança japonesa na limpeza do cafezal. Interior do Estado de São Paulo. Museu Histórico da Imigração Japonesa

Texto 1. Do lado esquerdo, toda a parte em que havia varanda foi monopolizada pelos italianos; habitavam cinco a cinco, seis a seis no mesmo quarto, e notava-se que nesse ponto a estalagem estava já muito mais suja que nos outros [...]

Era uma comuna ruidosa e porca a dos demônios dos mascates! Quase que se não podia passar lá, tal a acumulação de tabuleiros, de louça e objetos de vidro, caixas de quinquilharia, molhos e molhos de vasilhame de folha-de-flandres, o diabo! E tudo isso no meio de um fedor nauseabundo de coisas podres que empesteava o cortiço. (AZEVEDO, Aluísio. O Cortiço. São Paulo: Abril Cultural, s.d. p. 203-204.)

Texto 2. "Dadas as condições de trabalho, e emigração para as fazendas pode convir só quando o camponês tem uma família numerosa, isto é, quando pode dispor de muitos braços e três ou quatro crianças que o ajudem na colheita, mas sobretudo quando tem uma mulher ativa e inteligente que saiba usufruir das vantagens que a fazenda lhe oferece: a horta, a lenha dos bosques, o pasto, que saiba fazer sabão, a charcuteria (linguiça, salame, etc.), criar porcos e galinhas; que saiba, ainda, sozinha educar, vestir e lavar a pequena família [...]". (G. Lombroso, 1908)

Entre quatro e meia e cinco horas da manhã começavam a trabalhar; às nove e trinta, a mulher do colono ou alguma criança levava o almoço, no qual se gastava meia-hora, pois às dez horas retornava-se ao trabalho. Ao meio-dia novamente um dos membros da família levava um pouco de café com pão e parava-se por mais quinze minutos. Em seguida, trabalhava-se até as dezessete e trinta sem nenhum descanso, para recomeçar tudo de novo no dia seguinte.

Nada se permitia além do trabalho, porque qualquer centavo dispendido a mais significava menos economia. (ALVIM, Zuleika M. F. Brava Gente! Os italianos em São Paulo (1870-1920). São Paulo: Brasiliense, 1986. p. 17 e 100)

domingo, 23 de junho de 2013

Ler, escrever e criar na Colônia

No mundo colonial foi graças à instalação de conventos de jesuítas, franciscanos, carmelitas e beneditinos, que brotou o primeiro embrião de vida cultural. Vieram com as ordens religiosas os primeiros livros. Livros capazes de instruir e de ensinar a rezar. Manuais de confissão, livros de novenas e orações, breviários relatando a vida dos santos e catecismos tinham por objetivo ajudar a catequese e pacificar as almas. Apesar da forte presença da literatura sacra, já quando das primeiras visitas do Santo Ofício da Inquisição às partes do Brasil, apareciam denúncias de outras leituras. De leituras proibidas. Proibidas, sim, pois Estado e Igreja sempre tomaram livros e saberes como fonte de inquietação e pecado, censurando-os e perseguindo quem os lesse. Um exemplo? Em 1591, vários moradores da Bahia foram acusados de ler o romance Diana, de Jorge Montemayor, um clássico profano do Renascimento europeu. Seu tema: um picante caso de amor. Entre seus leitores achou-se uma mulher: Dona Paula de Siqueira, que muito "folgava" com o tal livro! Certo Nuno Fernandes possuía As Metamorfoses, de Ovídio, enquanto seu conterrâneo, Bartolomeu Fragoso, para escapar ao controle da censura, preferia rasgar as páginas, depois de lidas, do seu exemplar do temido Diana. Apesar de encontrarem-se no distante sertão, em São Paulo também havia alguns leitores de obras como Os Mistérios da Paixão de Cristo, sermões e até mesmo Os Lusíadas, de Camões.

Porém, conspirava contra a presença de livros o elevado número de analfabetos - categoria da qual poderíamos incluir a quase totalidade dos escravos e escravas coloniais. Enquanto uns poucos leitores disputavam obras impressas ou cópias manuscritas dos mesmos, outros se debruçavam maravilhados sobre as aventuras narradas pelos folhetos de cordel, como a Donzela Teodora, a de Roberto, o Diabo ou a da Princesa Magalona, que ainda hoje circulam pelo Nordeste e eram então enviados nas naus que singravam o Atlântico em direção à América. Entre os que sabiam ler e escrever, também não faltou quem quisesse retratar a terra e seus moradores. Administradores e sacerdotes, magistrados e mercadores produziram relatórios, descrições ou mesmo poemas com um simples intento: descrever, dominar e tirar proveito do que os cercava. José de Anchieta foi pioneiro. Produziu um dos primeiros livros escritos entre nós [...]. Tratava-se de um poema épico sobre o governador Mem de Sá com cinematográficas descrições sobre suas crueldades em relação aos indígenas. O jesuíta escreveu, também, poesias e autos teatrais, sempre tendo em vista catequizar os infiéis [...]. Dentro da mesma linha de edificação religiosa, Simão de Vasconcellos escreveu posteriormente uma crônica sobre as atividades da Companhia de Jesus no Brasil.

Paralelamente à preocupação religiosa, os livros procuravam noticiar as riquezas da terra. A mais clara informação sobre a natureza e sobre os moradores da terra de Santa Cruz nasceu da pena de um sensível senhor de engenho baiano, Gabriel Gomes Soares de Souza. [...] Resultante de um pedido da Coroa espanhola que, então, subjugava Portugal, o livro narra com minúcias o lugar que o autor adotara (era português) e onde passara da pobreza à riqueza graças ao açúcar. Para redigir seu texto, Gabriel Soares se valeu de "muitas lembranças por escrito" que anotara ao longo dos 17 anos entre nós, relatando com absoluta graça e precisão a topografia da Bahia, as plantas do Novo Mundo, a zoologia americana, a agricultura que se praticava e até as formas pelas quais nossos antepassados indígenas exerciam a medicina. Seguindo essa mesma tradição, Diálogos das grandezas do Brasil, composto por volta de 1618, é outra obra com informações sobre a terra e sua gente. Seu autor é, mais uma vez, um plantador de cana, Ambrósio Fernandes Brandão [...]. Mal passado um século de colonização, o autor já percebia a indiferença dos funcionários metropolitanos frente às realidades coloniais, assim como a indolência dos emigrados que se negavam a trabalhar, tudo empurrando aos escravos. [...]

Pouco a pouco essas descrições da terra brasileira vão dando lugar a relatos históricos. O primeiro brasileiro a escrever tal prosa foi Vicente Rodrigues Palha, na verdade, frei Vicente do Salvador [...]. Concluiu sua História do Brasil em dezembro de 1627 [...]. Seu texto é revolucionário na medida em que introduz os verdadeiros personagens de nossa história: índios, negros, mulatos e brancos, cujas histórias são contadas em tom popular. Nele, anedotas e fatos folclóricos misturam-se a ditos do rei do Congo, às peripécias de seu escravo Bastião quando da invasão holandesa à Bahia e a explicações sobre a construção dos engenhos ou sobre a pesca da baleia. Frei Vicente foi o primeiro a criticar a posição dos portugueses, alheios, então, à conquista do oeste, deixado aos bandeirantes. Critica também os monarcas portugueses que pouco caso fizeram do Brasil [...]. Os comerciantes portugueses, por sua vez, eram acusados de só virem "destruir a terra, levando dela em três ou quatro anos que cá estavam quanto podiam". [...]

O século XVII trouxe outras novidades. A luta contra franceses e holandeses suscitou novos textos históricos. Valoroso Lucideno (1648), de frei Manuel Calado; Nova Lusitânia (1675), de Francisco de Brito Freire; e Castrioto Lusitano, de frei Rafael de Jesus (1679), entre outros tantos e menores, representam, de certa forma, o sentimento localista entre os colonos, sentimento este inspirado nas tensões militares contra o estrangeiro. Contudo [...] os holandeses contribuíram para recuperar a tradição lusitana seiscentista de descrições da natureza. Isso foi possível graças a Maurício de Nassau, que trouxera consigo uma pequena corte de cientistas, como o cosmógrafo Michiel de Ruyter, os médicos e naturalistas Wilhem Piso e Georg Marcgrav, assim como artistas do porte de Frans Post, Albert Eckhout, Zacharias Wegener e Pieter Post - arquiteto do plano geral do Recife. A profusão, o colorido e as dimensões de seres absolutamente novos não cessarão a despertar a curiosidade desses intelectuais, e seus textos vão-se cobrindo de sentimento entre o espanto maravilhado e o utilitarismo.

Apesar de alguns comentários de Anchieta, coube a Piso e Marcgrav dar início às investigações sobre as ciências naturais e físicas entre nós. Cada bicho, cada planta ou mineral era cuidadosamente descrito e acrescentado ao conjunto já conhecido pelos europeus. [...]

Além desses autores, surgiram na Bahia do século XVII dois grandes nomes: Antônio Vieira e Gregório de Matos Guerra. Não eram homens isolados, pois, na mesma época, outros poetas compunham o "grupo baiano". Entre eles, Bernardo Vieira Ravasco e Manoel Botelho de Oliveira. [...]

Enquanto alguns esculpiam as coisas da terra com palavras, outros o faziam na madeira e no barro. Dos mesmos conventos que abrigaram nossas primeiras bibliotecas, saíram nossos primeiros artistas. Tal como ocorria com a literatura, majoritariamente sacra,  nossos entalhadores, escultores e pintores se dedicaram, no século XVII, a pintar temas celestiais. [...]


A crucificação de Cristo, Manuel da Costa Ataíde

A vida cultural que vai timidamente se desenvolvendo também trouxe vitalidade à arquitetura em diversas regiões do Brasil. O "barroco mineiro" alternou fachadas sóbrias com interiores altamente trabalhados. A concorrência entre confrarias e irmandades religiosas pela decoração de suas igrejas traduziu-se em resultados suntuosos. [...] Na falta de azulejos ou outros materiais de luxo, artesãos brancos, negros e mulatos alforriados respondiam com inovações. O uso da pedra-sabão - que teve em Antônio Francisco Lisboa, o Aleijadinho, seu mais genial partidário - é um exemplo disso.

A pintura, por sua vez, deveria respeitar um adecedário do emprego das cores, fixada pela Igreja: branco e preto significavam severidade; pardo e cinza, desprezo e abjeção; azul e branco, pureza e castidade; vermelho, amor e caridade; verde, penitência e esperança; e roxo, luto. [...]

[...] A nova riqueza alimentada pelo ouro e pelos diamantes empurrou para o Sudeste boa parte da incipiente vida literária. O Rio de Janeiro, escoadouro das riquezas mineiras e capital colonial a partir de 1763, assim como as cidades mineradoras, passou a sediar novas expressões estéticas. Mariana, sede do bispado de Minas, tornara-se foco de instrução graças ao seminário aí instalado, por obra de ricos proprietários interessados em garantir estudo aos seus filhos antes de enviá-los a Coimbra. Fruto desse interesse por livros e por escrever, as academias literárias começavam a se organizar. [...]

[...]

A "escola mineira" produziu intelectuais bem mais expressivos, como Cláudio Manuel da Costa [...], Basílio da Gama [...], Tomás Antônio Gonzaga [...] e José de Santa Rita Durão [...]. Quando começaram a poetar, vicejava em Portugal um estilo, o arcadismo, cujos cânones recomendavam que, tal como ocorrera com os clássicos, a arte deveria imitar a natureza, identificando-se com a vida bucólica do campo; a obra de arte tinha também que possuir fim moral e edificante. Nossos líricos somaram a tais características um "nativismo comovido" [...]. A gente e a natureza americana seguiam sendo assunto, embora com sabor distinto. [...]

[...]

Outro aspecto da cultura que se desenvolveu, durante o setecentos, foi o teatro, na forma da diversão mais popular. Atores ambulantes percorriam cidades encenando, nas praças e nos mercados, autos como Inês de Castro, a Princesa Magalona e o gilvicentino Auto da Lusitânia, e reunindo entusiasmados espectadores. Atuava-se sobre tablados armados, aos domingos, dia em que as pessoas da roça acudiam aos centros comerciais e urbanos. Fantoches, circos de cavalinhos e mamulengos, com seus palhaços e dramatizações rudimentares, faziam parte do espetáculo. [...] 

PRIORE, Mary Del; VENÂNCIO, Renato Pinto. O livro de ouro da História do Brasil. Rio de Janeiro: Ediouro, 2001. p. 117-132.

sexta-feira, 8 de março de 2013

La literatura entre los mayas y los pueblos del Valle de México

Este es un fragmento del Códice Dresden, llamado asi porque se conserva en la Biblioteca Real de Sajonia, en la ciudad de Dresden, Alemania. 

Con la misma profundidad y magnificencia con que se esculpió la piedra, se erigió el monumento y se forjo el metal, los pueblos mesoamericanos trabajaron su lenguaje para producir notables piezas literárias. Gran parte de esa rica producción desapareció con la conquista. Sin embargo, algo pudo rescatarse gracias a la perseverante tradición oral y a la paciência de algunos frailes misioneros venidos de España, que tradujeron cantos y poemas al alfabeto fonético.

El principal documento literário de la cultura maya-quiché es el Popol Vuh, libro de carácter sagrado escrito por um indígena anónimo en alfabeto fonético poco tiempo después de la conquista. En este libro se cuenta la historia, las leyendas y los mitos de esse antiguo pueblo. Leamos un fragmento del Popul Vuh, el cual un intento fallido de los dioses por crear a los hombres y cuyo producto fueron los monos:

“Y al instante fueron hechos los muñecos labrados en madera. Se parecian al hombre, hablaban como el hombre y poblaron la superfície de la tierra.

Existeron y se multiplicaron; tuvieron hijas, tuvieron hijos, los muñecos de palo; pero no tenian alma, ni entendimiento, no se acordaban de sua Creador, de su Formador; caminaban sin rumbo y andaban a gatas...

En seguida fueron aniquilados, destruídos y deshechos los muñecos de palo, recibieron la muerte.

Una inundación fue producida por el Corazón del Cielo; un gran diluvio se formó, que cayó sobre las cabezas de los muñecos de palo.

Y dicen que la descendencia de aquéllos son los monos que existen ahora en los bosques; éstos son la muestra de aquéllos, porque solo de palo fue hecha su carne por el Creador y el Formador.” (Gabriel Zaid: Ómnibus de poesia mexicana, 12. Quiche.)

Otra importante muestra de la literatura maya son los 18 libros del Chilám Balám, en los que se recopilan cantos, poemas, profecias, historias y conocimientos de medicina, transmitidos durante siglos de uma generación a otra. También fueron escritos después de la conquista en lengua cakchiquel por un autor anónimo. Uno de los más divulgados es el Chilám Balán de Chumayel. Leamos un fragmento en el que se lamenta la llegada de los conquistadores:

“Los Buenos señores de las estrellas,
Todos ellos brancos.
Ellos teniam la sabiduria, lo santo,
no habia maldad en ellos.
Habia salud, devoción,
no habia enfermedad,
dolor de huesos, fiebre o viruela,
ni dolor de pecho ni de vientre.
Andaban con el pecho erguido.
Pero vinieron los conquistadores
y todo lo deshicieron.
Enseñaron el temor, marchitaron las flores,
chuparon hasta matar la flor de los otros
porque viviese la suya.
Mataron la flor de Nacxitl.
Ya no habia sacerdotes que nos enseñaran.
Y asi se assento el segundo tiempo, comenzó a señorear,
y fue la causa de nuestra muerte.
Sin sacerdotes, sin sabeduria, sin valor
y sin vergüenza, todos iguales.
¡Los conquistadores solo habian venido a castrar al Sol!
Y los hijos de sua hijos quedaron entre nosotros,
que sólo recibimos su amargura.”
(Gabriel Zaid: Ómnibus de poesia mexicana. 6. Maya peninsular.)

En el Valle de México la literatura en lengua náhuatl sobreviviente a la conquista es más abundante. En gran parte anónima, fue conservada por la tradición oral, por el trabajo de cronistas indígenas y por la recopilación realizada por frailles misioneros. Gracias a esto sabemos que la literatura náhuatl fue muy rica y que abarco casi todos los aspectos de la vida. Los antiguos mexicanos estaban orgullosos de su lengua, amaban sus libros, les agradaba la poesia sobremanera y la acompañaban con música.

Los cantos de Netzahualcóyotl (1402-1427), sábio gobernante de Texcoco, son un ejemplo de su gran inspiración; en el siguiente poema, Netzahualcóyotl expresa una visión nostálgica de la vida como producto de la conciencia de la muerte. Nada es eterno, la vida es breve parpadeo cuyo fin es inevitable:

YO LO PREGUNTO

“Yo, Netzahualcóyotl lo pergunto:
¿acaso de veras se vive con raiz en la tierra?
No para siempre en la tierra:
sólo un poço aqui.
Aunque sea de jade se quiebra,
aunde sea de oro se rompe,
aunde sea plumaje de quetzal se desgarra.
No para siempre en la tierra;
sólo un poço aqui.”
(Miguel León-Portilla: Xochicuicatl, Cantos floridos y de amistad.)

Sin embargo, junto con la visión nostálgica de la vida, floreció en la poesia náhuatl el canto a la amistad, a las cosas bellas del mundo y al arte miesmo como la huella que deja el hombre a su paso por la tierra. Muestra de ello es el siguiente poema, de autor anónimo:

CANTO A LA HERMANDAD

“He llegado oh amigos nuestros,
con collares os ciño,
con plumaje de guacamaya os adorno,
cual ave preciosa aderezo con plumas,
con oro yo pinto,
rodeo a la hermandad.
Con plumas de quetzal que se estremecen,
con círculos de cantos,
a la comunidad yo me entrego.
La llevaré commigo al palacio
hasta que todos nosotros,
algún dia,
todos juntos nos hayamos marchado,
a la región de los muertos.
¡Nuestra vida ha sido sólo prestada!”
(Miguel León-Portilla: Xochicuicatl, Cantos floridos y de amistad.)

GÓMEZ, Ortiz. Historia 3: A través de los Tiempos de México. México: Prentice Hall, 1998. p. 29-31.

segunda-feira, 19 de novembro de 2012

Do Romantismo ao Realismo

O Violeiro, Almeida Junior

O reinado de Dom Pedro II foi um período de calmaria social. Somente a partir das últimas décadas, começaram a surgir as tensões entre as camadas dominantes, enquanto nos livros de polêmica ou de poesia (nestes últimos, destacando-se a figura de Castro Alves, o último grande poeta romântico) manifestou-se a crise de transição política.

Na Europa, esgotaram-se o tema e a moda do romantismo. A burguesia - já instalada no poderio econômico - passou a ter sua expressão artística numa nova escola denominada Realismo. Artistas plásticos, poetas, romancistas e músicos procuravam livrar-se dos exageros românticos e instaurar uma estética mais adequada às exigências do progresso material que a industrialização trouxera. Paradoxalmente, se este propósito representou, na prosa de ficção, um surto de grandes obras realistas, na poesia o resultado foi o surgimento de um movimento ultraformalista: o Parnasianismo.

Tudo isso ecoou no Brasil. Não podíamos deixar de imitar o que se passava lá fora. E, nesse clima de imitação, evidentemente restava pouco terreno para a criação de obras originais. A produção literária dos últimos anos do império e dos primeiros da república foi marcada pela obra ficcional de Machado de Assis. Nos romances deste mulato genial aparece, de maneira sutil, irônica e mordaz, toda uma situação social de valores em decadência, toda uma crise que se insinuava sob a capa da polidez reinante. Machado refletiu uma contradição bem própria de sua época: como funcionário público que era, não podia assumir posições nitidamente contrárias ao regime, mas sua pena registrava implacavelmente, em artigos e crônicas, nos romances e principalmente nos magistrais contos, a falsidade do moralismo vigente. As histórias machadianas são relatos de adultério, de crise de consciência pequeno-burguesa, enfim, de vidas sem nenhum heroísmo, de homens mesquinhos e mulheres falsas, como o Bentinho e a Capitu de Dom Casmurro. Nesse sentido, além do especificamente literário - com seu estilo "clássico" - Machado de Assis foi realmente um autor original e pode até mesmo ser considerado um dos mestres mundiais d gênero conto.

Ainda na fase final do Segundo Reinado, começou a tomar corpo na literatura brasileira um tema que depois seria importantíssimo para a afirmação da arte nacional: o Regionalismo. Autores como Manuel de Oliveira Paiva (Dona Guidinha do Poço) e Domingos Olímpio (Luzia-Homem), embora pouco conhecidos, são muito importantes por seu caráter de precursores no gênero regional. Outros, mais conhecidos como Bernardo Guimarães (A Escrava Isaura) ou o visconde de Taunay (Inocência), na esteira de José de Alencar (O Sertanejo, O Gaúcho), praticaram um tipo de ficção em que o tema regional servia de pretexto para um moralismo de sabor romântico já ultrapassado.

Esses movimentos, da mesma forma que os das épocas anteriores, tinham pouca ou nenhuma correspondência em outras formas de arte que não a literatura. O próprio teatro (que, depois das comédias de costumes de Martins Pena, entrou num longo período de estagnação da criatividade) era considerado um subgênero das letras. Mesmo assim, Alencar e Machado escreveram comediazinhas que hoje pouco representam para nós. Artur Azevedo, com suas comédias satíricas, foi quem melhor cultivou esse gênero, aparecendo como o único autor expressivo na fase de transição republicana.

Como decorrência do Realismo e levando até as últimas consequências as próprias estéticas do movimento, chegou até nós, nessa mesma época, o Naturalismo, que procurava fazer um registro quase "fotográfico" da realidade social, principalmente de suas mazelas. O Naturalismo brasileiro significou um grande avanço, por ter sido o primeiro movimento literário a colocar como protagonista das narrativas uma camada social que até então permanecera ignorada pelos artistas: o proletariado urbano. Aluísio Azevedo, com o O Cortiço e outros romances, foi um naturalista de primeiro plano.

Na poesia [...] a direção seguida foi inversa. O culto da forma pura, dos sonetos com "chave de ouro" e "rimas ricas" levou a um verdadeiro afastamento da realidade social. Poetas como Olavo Bilac e Alberto de Oliveira buscavam sua inspiração em temas gregos clássicos, isto já no limiar do século XX, com a eletricidade, a industrialização, as novas classes sociais em emergência...

Este período de fim de século, contudo, foi marcado justamente por essa contradição estética que desembocaria em dois caminhos. Por um lado, um tipo de produção artística voltada para si mesma, satisfeita e bem-pensante - a arte e a literatura "sorriso-da-sociedade", o mundanismo e o cosmopolitismo. Por outro lado, um tipo de pesquisa mais séria, que o desenvolvimento dos estudos de nível superior já propiciava, com críticos e historiadores do quilate de um Silvio Romero e um Capistrano de Abreu; e, além disso, uma busca das raízes populares da nossa criação artística, através dos primeiros estudos mais sérios de folclore. Esta segunda vertente, aliás, correspondia ao maior grau de expressão alcançado pela cultura popular urbana. Organizavam-se os grupos de bairro que dariam origem às sociedades carnavalescas, às escolas de samba, aos conjuntos de chorinho. E começava a tomar impulso a prática daquele que seria o nosso grande esporte nacional: o futebol.

ALENCAR, Chico et alli. História da sociedade brasileira. Rio de Janeiro: Ao Livro Técnico, 1996. p. 193-195.

domingo, 1 de abril de 2012

A Ilíada e a Odisséia

η Ιλιάδα και η Οδύσσεια

Aquiles cuida de Pátroclo. Detalhe de vaso. C. 500 a.C. 

Destruída a civilização egéia, desaparece também o uso da escrita. Os helenos não sabem escrever e não deixam, portanto, documentos escritos, contemporâneos, deste primeiro período da sua história [...]. Mas a lembrança de importantes acontecimentos - do período creto-micênico - é transmitida, de geração em geração, por tradição oral.


Esta tradição oral, naturalmente, deforma os fatos e dá origem a lendas. Poetas (aedos) dão forma poética a tais lendas; e vão declamando esses poemas [...] de aldeia em aldeia. Mais tarde, os rapsodos, cantores populares, aprendem-nos de cor e continuam a recitá-los perante o público.

Ajax carrega o corpo de Aquiles. Detalhe de vaso.

No século X os fenícios levam seu alfabeto à Grécia asiática. Os helenos aprendem a usar o alfabeto fenício, aperfeiçoam-no (acrescentando-lhe as vogais) e começam a recolher e passar à forma escrita - aqueles poemas épicos. Entre esses cantares de gesta, os mais célebres são a Ilíada e a Odisséia, cuja autoria é atribuída ao aedo Homero (séc. XI?).

Os poemas homéricos são excelente material histórico. Contém, além das lendas fantásticas sobre deuses e heróis gregos:

1) tradições da época minóica, confirmadas, em parte, pela arqueologia;
2) quadros descritivos da primitiva cultura helênica (usos e costumes), contemporâneos de Homero.

Cena do filme Tróia, direção de Wolfgang Petersen (EUA, 2004)

* A Ilíada. A Ilíada conta alguns episódios da guerra de Tróia. "É indiscutivel, ensina Malet, que os reis da Ásia cometeram atos de pirataria, e que os gregos formaram coalizões para tirar vingança. A guerra de Tróia foi, provavelmente, uma expedição desse gênero." A lenda, porém, é outra:

Helena (esposa de Menelau, rei de Esparta) é raptada por Páris (filho de Príamo, rei de Tróia). Os gregos se unem, sob a direção de Agamenon (rei de Micenas e irmão de Menelau), a fim de vingar a afronta. Atacam Tróia (em grego Ílion) e a destroem, após 10 anos de sítio.

Cena do filme Tróia

A Ilíada narra breves episódios do décimo ano de guerra, sobretudo a cólera de Aquiles e o seu combate com Heitor. Aquiles é um herói (semideus), filho de Peleu (rei da Tessália) e da sereia Tétis. Heitor (filho de Príamo) é o mais valente dos chefes troianos. Os episódios principais são: desavença entre Aquiles e Agamenon; cólera e retirada de Aquiles; Pátroclo (amigo dileto de Aquiles) morre às mãos de Heitor; Aquiles retorna à luta e, num terrível combate, mata Heitor.

Cena do filme Tróia

Os sucessos dos anos anteriores, assim como a morte de Aquiles (flechado por Páris, no calcanhar) e o fim da guerra (ardil do cavalo de madeira) - constam em outras crônicas lendárias.

Cena do filme Tróia

* A Odisséia. O grego Ulisses (Odisseus), rei de Ítaca, é um dos heróis da guerra de Tróia, na qual se destaca pela sua prudência e astúcia. A Odisséia narra as aventuras de Ulisses, que - depois da queda de Tróia - fica a vagar durante dez anos até conseguir chegar à sua pátria. É uma série de peripécias, desgraças, dificuldades e triunfos.

Cena do filme Tróia

Enquanto isso, Penélope (a esposa de Ulisses) vive cercada de pretendentes à sua mão. Pensam eles que Ulisses nunca mais voltará. Mas Penélope responde negativamente a todos, durante os vinte anos da ausência de Ulisses. Penélope usa de um estratagema: promete escolher um dos pretendentes, quando ficar pronta a tela que está tecendo (mas desfaz, durante a noite, o que teceu durante o dia).

Cena do filme Tróia

Ulisses regressa, mas aparece disfarçado em mendigo. Penélope propõe a prova do arco e das flechas. Só Ulisses consegue disparar as 12 flechas. Ajudado pelo filho (Telêmaco), degola todos os pretendentes. Penélope acaba reconhecendo, nesse ancião, coberto de farrapos - seu marido. Atenéia, protetora de Ulisses, devolve-lhe o aspecto juvenil de outrora. Após novas lutas (contra os parentes dos mortos) sobrevém o triunfo definitivo de Ulisses.

Cena do filme Tróia

* Paralelo entre a Ilíada e a Odisséia. Ambos os poemas constam de 24 cantos. Possuem rasgos semelhantes, mas diferenças temáticas fundamentais: a Ilíada trata da guerra e de heróis, e descreve um estado mais primitivo da sociedade; a Odisséia pinta a vida pacífica, no mar e nos campos, de época posterior.

BECKER, Idel. Pequena História da Civilização Ocidental. São Paulo: Nacional, 1974. p. 96-98.

terça-feira, 27 de dezembro de 2011

"A canção do africano"

"Africanos", Amalia Traini

Lá na úmida senzala,
Sentado na estreita sala,
Junto ao braseiro, no chão,
Entoa o escravo o seu canto,
E ao cantar correm-lhe em pranto
Saudades do seu torrão...

De um lado, uma negra escrava
Os olhos no filho crava,
Que tem no colo a embalar...
E a meia voz lá responde
Ao canto, e o filhinho esconde,
Talvez p'ra não escutar! [...]

O escravo então foi deitar-se,
Pois tinha de levantar-se
Bem antes do sol nascer,
E se tardasse, coitado,
Teria de ser surrado,
Pois bastava escravo ser.

E a cativa desgraçada
Deita seu filho, calada,
E põe-se triste a beijá-lo,
Talvez temendo que o dono
Não viesse, em meio do sono,
De seus braços arrancá-lo!

CASTRO ALVES, Antônio de. A canção do africano. In: Esteira de espumas. Rio de Janeiro: Ediouro, 1997. p. 29-30.

sábado, 26 de novembro de 2011

Homoerotismo na Idade Média

Ilustração medieval que retrata clérigos sodomitas.

Para os antigos, o homoerotismo não constitui um problema. Eles pensam segundo conceitos que não são os sexuais, a saber, a liberdade, a atividade, a condição social: a homofilia ativa aparece tanto nos textos gregos como nos romanos. Durante a Alta Idade Média, o homoerotismo não foi condenado nem reprimido com dureza, ao contrário do que afirmaram outrora os historiadores. Com o renascimento carolíngio, o ímpeto de crescimento das cidades e o desenvolvimento da cultura eclesiástica, ele teria conhecido, entre os séculos XI e XII, uma expansão apenas comparável à de nossa época.

É bastante evidente que os meios monástico e cavalheiresco - os guerreiros vivem com muita frequência longe dos quartos das damas, e mesmo quando procuram compensações fora do lar - constituem terrenos propícios para a homossexualidade. Mesmo tomando conhecimento, com espanto, de que alguns monges praticam a sodomia, Carlos Magno não publica nenhum texto reprimindo o homoerotismo. Entretanto, um édito aconselha padres e bispos a suprimir esse comportamento sexual, sem indicar nenhuma sanção. Na mesma época, o homoerotismo se desenvolve nas cidades da Espanha onde são recenseadas todas as categorias de relações sexuais, da prostituição ao amor espiritual. A poesia hispano-árabe tem numerosos poemas eróticos celebrando relações homossexuais.

Alguns muçulmanos têm, inclusive, cristãos como amantes, como é o caso do soberano do reino de Sarogoça, no século XI, que se apaixona por seu pajem cristão. O homoerotismo se propaga com o renascimento das cidades, como atesta um grande número de escritos de clérigos fazendo alusão a sentimentos que às vezes permanecem no plano espiritual, mas também podem se concretizar de modo carnal.

Por volta de 1051, são Pedro Damião compõe O livro de Gomorra em que descreve detalhadamente vários tipos de relações homossexuais. Ele acusa alguns padres de serem homossexuais e se confessarem uns com os outros para evitar que fossem descobertos e para ter penitências mais leves. O papa Leão IX recusa-se, porém, a acatar seu pedido, qual seja, o de excluí-los da Igreja. O homoerotismo, aliás, não impede as promoções. Yves de Chartres assinala ao enviado do papa e, depois, ao próprio papa, que o arcebispo de Tours, Raul, persuadiu Felipe I a nomear um certo João como bispo de Orléans. Ora, trata-se de um amante do arcebispo.

Por ocasião da reforma gregoriana, que impõe o celibato aos padres, os contemporâneos observam que os padres homossexuais são mais ardorosos que os heterossexuais no seu cumprimento.

O homoerotismo não é exclusividade dos clérigos. Georges Duby, em sua obra sobre Guilherme, o Marechal - que estudou a partir de um texto em versos escrito por volta de 1230 narrando a história de um valoroso cavaleiro morto em 1219 - mostra bem o lugar do amor no universo cavalheiresco:

"Assim, tudo neste caso gira em torno do amor, mas não nos equivoquemos em torno do amor de homens entre si. Este já não nos espanta. Começamos a descobrir que o amor, aquele que cantavam, depois dos trovadores, os trouvères, o amor que o cavaleiro devota à dama, mascara talvez o essencial, ou melhor, projetava a imagem invertida do essencial dos intercâmbios amorosos entre guerreiros".

É preciso se perguntar, porém, se esse amor implica relações carnais. Para Yannick Carré, tudo indica que o amor masculino medieval constitui uma forma original de amor verdadeiro que o mundo atual não conhece mais. Os ritos de amizade, como beijar e compartilhar o leito, permitem a esse amor exprimir-se livremente quando ele é carnal. O homoerotismo está disseminado nos diversos países do Ocidente cristão como também nos países escandinavos, e inclusive na Terra Santa.

Uma literatura gay ressurge entre 1050 e 1150. A maioria de seus autores são eclesiásticos de posição elevada como Baudri, abade de Saint-Pierre de Bourgueil, depois arcebispo de Dol-de-Bretagne, ou Marbode, bispo de Rennes.

No começo do século XIV, o rei da Inglaterra, Eduardo II (1284-1327), marido de Isabel da França, que lhe deu muitos filhos, é reconhecido como um notório homossexual. Seu primeiro amante, um certo Piers Gaveston, que fora exilado pelo rei Eduardo I, é chamado de volta tão logo ele sobe ao trono; mas é novamente exilado pelo Parlamento antes de ser assassinado. Depois disso, Eduardo mantêm relações com Hugues, o despenseiro. Mas os dois amantes perecem de maneira trágica. Froissart relata que os órgãos genitais de Hugues são cortados e queimados publicamente antes de sua decapitação. Quanto a Eduardo, ele sofre um suplício bárbaro: introduzem-lhe no ânus um ferro em brasa.

Sodomitas queimados na fogueira. Ilustração medieval. Artista desconhecido.

Uma nova época se inicia. À tolerância, sucede a repressão. Todavia, essa regressão não põe fim ao homoerotismo. Além disso, para frear este último, a prostituição é encorajada em alguns casos. Assim foi na cidade de Florença, no início do século XV. Embora se encontrem homossexuais tanto em Nápoles quanto em Veneza ou Gênova, os sermões de pregadores toscanos como Bernardino de Siena, por volta de 1320, certas passagens de Dante em O inferno, as medidas repressivas tomadas pelas autoridades nos séculos XIV e XV mostram que as cidades toscanas, e Florença particularmente, são seus principais centros.

Desfaz-se, assim, a visão de uma Idade Média preocupada, sobretudo, em obedecer prescrições da Igreja.

Jean Verdon. Os bordéis, casas das mais toleradas. In: Revista História Viva. São Paulo: Duettoano 1, n. 5, mar/2004, p. 44-45.