"Os espelhos estão cheios de gente.
Os invisíveis nos vêem.
Os esquecidos se lembram de nós.
Quando nos vemos, os vemos.
Quando nos vamos, se vão?"
Eduardo Galeano: Espelhos
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sábado, 17 de dezembro de 2016

A civilização micênica: organização política, social e econômica

Afresco representando guerreiros armados com capacetes de dente de javali em uma carruagem dual, ca. 1350 a.C., Pilos. Artistas desconhecidos

A importância da herança cretense recolhida pelos micênicos é de tal ordem que, para evitar as repetições inúteis, nos ateremos às diferenças, apesar de tudo sensíveis, entre as duas civilizações, isto é, limitar-nos-emos às novidades que constituem a contribuição dos Aqueus. Esses, com efeito, não as devem à região onde viveram. Entre a Grécia meridional e Creta, a natureza apenas introduz matizes, dos quais o mais importante provém dos rigores ocasionalmente mais acentuados do inverno: nada que pudesse modificar seriamente as condições de existência. Além disso, as civilizações que se haviam manifestado na Grécia até o momento de sua chegada transmitiram-lhes pouca coisa e não dispunham, aliás, senão de muito pouco para legar-lhes: nada que pudesse rivalizar com a civilização cretense. Se, nessas condições, eles se recusaram a calcar inteiramente sua organização e sua vida na dos cretenses, foi porque trouxeram consigo ideias, costumes e hábitos, ao mesmo tempo próprios aos indo-europeus e a homens que viveram longamente em outras áreas, sobretudo, nesse caso especial, nas regiões setentrionais.


Afresco de carruagem, ca. 1200 a.C., Tirinto. Artistas desconhecidos

* Os princípios belicosos. A novidade transparece, de início, na organização política e social, pois os vestígios materiais deixados pelos grandes deste mundo em nada se assemelham aos de Creta.

Os palácios e as grandes tumbas põem-nos em presença de uma pluralidade de príncipes. Esses existiam em Micenas e Tirinto, dois pontos da Argólia, pouco distantes entre si. Mas sua celebridade não deve permitir que esqueçamos a existência de outros, em lugares diversos: na própria Argólida, no oeste e no sul do Peloponeso, na Acrópole de Atenas, na Beócia. A esses estabelecimentos dispersos faltava um Cnossos, incontestavelmente superior a todos. A excepcional riqueza de Micenas em ouro talvez se deva apenas ao acaso dos achados arqueológicos, atestada somente pelos objetos, não é acompanhada de qualquer proeminência na arquitetura e na decoração; mesmo nos poemas homéricos, onde a lembrança da realidade é ampliada pela imaginação, Agamenon, rei de Argos, ou seja, de Micenas, é apenas temporariamente "rei dos reis", em vista de determinada expedição.

O contraste surge ainda mais nítido quando consideramos os palácios em si mesmos. Antes de tudo, são fortalezas, edificadas numa posição cuja defesa é facilitada pela natureza, mais frequentemente numa eminência que se eleva acima da planície local. O acesso é proporcionado por meio de rampas cortadas em ziguezague, portas, escadas cavadas na rocha e poternas secretas. Em parte alguma poupou-se a pedra para a construção desses muros que os gregos denominarão "ciclópicos", tão formidáveis lhes parecerão os blocos que os compunham: na Beócia, numa ilha (Gla) do Lago Copais, a muralha mede 3 quilômetros de periferia; em Tirinto, nos muros de 6 metros de espessura, abrem-se casamatas.

Impossível, em tais condições, pensarmos numa realeza única, ainda que essa concedesse a vassalos poderosos - senhores "feudais", diz-se frequentemente, porque as fortalezas evocam os burgos medievais - certas partes de seu território. Tanto em princípio como de fato, trata-se de príncipes independentes, entre os quais devemos imaginar rivalidades e, portanto, guerras. A hipótese de uma preponderância honorífica, reconhecida a um deles e que justificasse o seu comando nos empreendimentos coletivos, apóia-se apenas na Ilíada. É possível que a Argólida acabasse por predominar; mas Micenas e Tirinto subsistiram lado a lado, e sua coexistência duradoura, em tal proximidade, coloca um problema insolúvel.

Vemos, na realidade, que esses príncipes amam e praticam com frequência a guerra. Fazem-se sepultar com suas armas, capacetes, pesadas espadas que feriam de ponta e de gume, adagas e piques; pelas representações figuradas, conhecemos também suas couraças e escudos, a princípio muito grandes, abrigando o homem como numa torre, e depois, mais manejáveis, arredondados e de menores proporções. Nos intervalos dos combates, exercitavam, assiduamente, a força física na caça, da qual bem mais do que a arte cretense, que já não as ignorava, a arte micênica da época nos transmitiu cenas de violenta energia. Seu ouro, ao menos em parte, provém de rapinagens. Tudo indica que esses indo-europeus, chegando ao sul da Grécia após mil aventuras desconhecidas, abrindo caminho entre povos há muito sedentários, conservam suas predileções belicosas, combinando-as apenas com o sentido de beleza luxuosa, adquirido no contato com os cretenses. Entre eles, o poder ostenta e usa a força, e das mais brutais.


Fragmento de mural representando guerreiros com capacetes de presa de javali, século XIII a.C., Orcomeno. Artistas deconhecidos

* A aristocracia e as classes trabalhadoras. A sociedade sofreu o contragolpe desse estado de coisas.

Apesar da manifesta vontade de imitação, as menos nas representações figuradas que podiam lançar mão de temas anacrônicos, a vida da Corte foi menos brilhante do que em Creta. As mulheres adotam, para suas vestes, penteados e enfeites, as modas de Cnossos e, em Micenas, um afresco mostra-nos algumas exibindo-se no teatro, no primeiro plano de seus camarotes. Mas abandonam as acrobacias e cabe pensar que diminuiu sua liberdade de atitudes exteriores. Na realidade, a vida no coração dos redutos fortificados que constituíam os palácios - menos de 150 metros de comprimento por menos de 50, em Tirinto - não devia ser alegrada por cerimônias muito galantes. Na realidade, também por causa de seu papel militar, o homem, isto é, o guerreiro, devia impor-se sem dificuldade na vida social. Por analogia com outras sociedades indo-europeias e guerreiras, transpondo-se igualmente alguns traços tomados às sociedades homéricas, imaginaríamos, de bom grado, a existência de grupos de "companheiros" ligados ao príncipe por amizade pessoal, quando não por juramento. Mas isso já seria ultrapassar os limites da nossa documentação direta.

O mesmo de verifica com as relações entre as classes dirigentes e as classes trabalhadoras. Encastelados nas elevações, os palácios lembram-nos abrigos de onde os senhores vigiam e exploram o trabalho de seus servos na planície. Tanto mais quanto surge o problema das relações com mas populações anteriores, cuja conquista não poderia determinar o seu total desaparecimento físico: somos tentados a representar seus sobreviventes e sua posteridade submetidos a um estatuto de estrita dependência. Mas a nossa única certeza é a de que uma muralha externa cerca ao mesmo tempo o palácio e a cidade. Ora, essa muralha possui, muitas vezes, um comprimento restrito (750 metros, em Tirinto; um pouco mais de 1200 em Micenas), o que reduz a pouco a superfície da cidade. Nessas condições, o restante da população dispersava-se pelo campo, ou antes, instalava-se no sopé da colina, correndo para trás dos muros em caso de alerta a fim de se refugiar.

A decifração das tabuinhas escritas em linear B veio ressaltar e completar uma imagem sobre a qual, em dúvida, haviam sido projetadas as recordações de Homero. Elas fazem aparecer uma sociedade hierarquizada, tendo a seu comando um Rei (wa-na-ha = anax em grego clássico e não basileus, que designa "funcionários" locais de escalão inferior) e um "comandante de tropas", mestres de impostos, altos dignitários e responsáveis locais, sacerdotes e sacerdotisas ligados aos santuários e, sem dúvida, comunidades aldeãs (damos). Detalham as tarefas dos escravos e as atividades das profissões (têxtil e couro, madeira e metais, armas e cerâmica, além de ungüentos e perfumes). Mostram os lugares de criação de gado ovino e uma agricultura cuja distribuição de tarefas é ainda discutida, mas que assegura aos chefes e ao clero importantes entregas de trigo e azeite.

* O comércio e a riqueza. O acúmulo desses produtos agrícolas e artesanais nos palácios explica como tais Estados e tal sociedade conheceram a riqueza e a expansão. Lentamente, é verdade, e segundo o exemplo de Creta, que acabaram por suplantar após cerca de dois séculos de aprendizado. Mas sua atividade econômica tomou grande impulso depois da destruição de Cnossos.

Construíram-se estradas e mesmo portos. Os habitantes das fortalezas, todas situadas a certa distância do litoral, não se encontravam tão afastados da costa que não pudessem vigiar a vida marítima e, até mesmo, dela participar. A princípio, praticaram a pirataria e, em seguida, dominaram o mar, passando as expedições comerciais a substituir as incursões de pilhagem. Viagens longínquas, por vezes, somado ao que provinha do Cáucaso e chegando em maiores quantidades, o estanho ocidental facilitou a fabricação do bronze; continuaram a importar - por intermédio de quem? - o âmbar do Báltico, ignorado pelos cretenses, mas cujo pálido e misterioso reflexo os indo-europeus aprenderam a apreciar no decorrer de suas permanências nórdicas. Mas os navios micênicos também singraram os mares próximos; os achados de objetos característicos, que nos fornecem informações seguras, atestam a importância e a ampla dispersão da produção metalúrgica e da cerâmica. Vindos do norte, de um clima mais rude, levaram à Grécia a fíbula metálica que lhes permitia prender as mais pesadas vestimentas: os mediterrâneos adotaram-na. Seus bronzes, suas jóias, suas pedras gravadas e, sobretudo, sua cerâmica com uma decoração cada vez mais estilizada, tendendo ao geometrismo, são encontrados em numerosos lugares: na Sicília e na Itália do Sul, nas Cíclades, na costa da Ásia Menor, em Chipre e, por fim, na Fenícia, onde Minet el-Beida, o porto de Ugarit-Ras Chamra, lhes servia de entreposto tão ativo, que nos é lícito considerá-lo uma espécie de colônia de onde a exportação atinge certos pontos do vale do Eufrates.

Espólio de guerra e pirataria, tributos, indústria e comércio: o resultado foi a riqueza. No mundo grego, nenhum lugar forneceu aos arqueólogos tanto ouro quanto Micenas (14 quilos antes dos achados de 1952). Os gregos guardaram a lembrança desse fausto: nos poemas homéricos, "rica em ouro" é o epíteto de Micenas, despojada com o tempo, transformada num simples povoado do território de Argos. De fato, só com o período helenístico e com o lançamento em circulação dos tesouros persas, verificar-se-á, numa região que o produz, um afluxo análogo do mais precioso dos metais.

AYMARD, André; AUBOYER, Jeannine. O Oriente e a Grécia Antiga: o homem no Oriente Próximo. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2003. p. 42, 45-9. (História geral das civilizações, v. 2)

segunda-feira, 24 de outubro de 2016

O eterno par de Alexandre Magno: amigos para sempre (Parte 3)

Funeral de Alexandre. Artista desconhecido

Nenhum destes episódios, nem outros que se sucederam durante os onze anos que durou a epopeia de Alexandre, conseguiram separar aqueles dois homens que tinham crescido e brincado juntos no palácio real da Macedônia. Heféstion continuou sempre a acompanhar o seu amigo, foi padrinho do casamento com Roxana, aconselhou-o o melhor que pôde e participou nas gloriosas batalhas, mas sempre vigiado por um chefe mais capaz. Esta posição de privilégio provocou muitas vezes a inveja e o ressentimento de pessoas próximas de Alexandre, como era o caso do excelente general Crátero, com quem Heféstion partilhou funções sem nunca chegarem ao entendimento. De acordo com algumas fontes, a diferença consistia em que Crátero era um philobasileus, ou seja, amante do rei e Heféstion um philoalexandrus, ou seja, amante de Alexandre.

Pouco depois, Alexandre nomeou o seu amigo como vizir, alto cargo dos reinos persas que equivalia a algo como primeiro-ministro. Seguindo a tradição da corte aquemênida, Heféstion passou a usar, a partir daquele dia, o báculo engastado de pedras preciosas para admiração da soldadesca e inveja do secretário imperial, Êumenes, cuja birra de zelo teve de ser firmemente reprimida por Magno.

Heféstion e Alexandre cavalgaram juntos, pela última vez, no Verão de 324, num passeio pacífico pelo Elão e pelo Sul da Babilônia para explorar os grandes rios da Mesopotâmia. O itinerário terminou em Ecbátana, capital da satrapia de Média. O sátrapa Atropates ofereceu aos ilustres visitantes um colossal banquete de boas-vindas, em consequência do qual Heféstion ficou gravemente doente. O vizir das argolas de ouro morreu em Outubro desse ano, proporcionando a inconsolável imagem de Alexandre e Dripetis, que choraram abraçados a sua perda. Êumenes, que procurava agradar ao imperador, propôs que o malogrado herói macedônio fosse homenageado como um deus (deve-se dizer que os Gregos nunca tiveram muito clara a ténue linha que separa os homens dos deuses). Comivido, Alexandre aceitou a ideia - quem sabe também a pensar na sua divinização - e Heféstion recebeu as honras sagradas bum funeral solene na Babilônia, até ao seu sumptuoso túmulo protegido por um enorme leão de pedra. O cadáver foi colocado no sarcófago, com o seu precioso báculo e os seus brincos de ouro e o cargo de vizir jamais voltou a ser ocupado por ordem de Alexandre.

A morte de Heféstion provocou mudanças no carácter de Alexandre, acentuando os seus devaneios de melómano e a sua instabilidade emocional. Comparou-se publicamente a Dioniso e a Héracles e exigiu aos seus vassalos o reconhecimento de sua divindade. [...]

"Plutarco escreveu que Alexandre tinha declarado uma vez que, sem Heféstion, nunca teria sido nada, E é verdade. Heféstion era um guerreiro competente, mas carecia do brilho de outros generais como Parménion ou Crátero. Apesar de tudo, ele estava mais próximo do coração do rei, o que tornou a sua vida difícil: todos os oficiais da corte o invejavam, E isso fez dele um homem solitário e completamente dependente do soberano. Por outro lado, Alexandre podia confiar totalmente em Heféstion." (Jona Lendering. Hephastion)

O imperador adoptou a austeridade espartana e nesse mesmo Inverno dirigiu ferozes expedições de castigo contra os rebeldes das montanhas de Luristão. Depois exigiu que todos os reinos, cidades e satrapias do seu império enviassem embaixadores a prestar-lhe vassalagem como divindade. Continuou a enviar tropas de reconhecimento com o objectivo de continuar a expandir o seu império até a Índia e a outras regiões do Oriente. Para estimular os seus generais e cortesãos, em Junho de 323, ofereceu um prolongado e esplêndido banquete na Babilônia, na sequência do qual ficou muito doente com um presumível delirium tremens alcoólico. Faleceu no dia 13 daquele mês, depois de dez dias de agonia profunda, aos trinta e três anos de idade e doze do glorioso reinado.

É interessante assinalar que, como só sucede em casamentos duradouros, Alexandre não sobreviveu muito tempo a Heféstion. Morreu oito meses mais tarde, de uma causa semelhante e em condições muito análogas às do companheiro de toda a sua vida. E se bem que Heféstion não teria sido ninguém sem ele, também é provável que, sem o afecto e a lealdade de Heféstion, Alexandre tivesse sido menos Magno.

TOURNIER, Paul. Os Gays na História. Lisboa: Estampa, 2006. p. 49-52.

sábado, 22 de outubro de 2016

O eterno par de Alexandre Magno: o amante desprezado (Parte 2)

Busto de Alexandre Magno. Escultura helenística. Artista desconhecido

Ambos os amigos já tinham passado dos vinte anos, o que, segundo os costumes gregos, extinguia a licença para brincar com o mesmo sexo. Estava na hora de assentar e procurar esposa. Alexandre, para ganhar tempo, ligou-se a uma amante persa chamada Bactrina. Heféstion passou discretamente a segundo plano não só na alcova do amigo, mas também pelas inócuas tarefas diplomáticas que este lhe atribuiu para o manter afastado.

Alguns autores registram um eventual ressentimento de Heféstion por essa indiferença do seu chefe e amante, que o teria levado a protagonizar um acto suspeito de deslealdade. O seu erro consistiu em receber um enviado de Demóstenes quando Alexandre se encontrava no Egipto. O político ateniense, entre outros assuntos, era um declarado inimigo de Alexandre e forte crítico do imperialismo macedônio, que provavelmente estava ao corrente do afastamento de Heféstion. A sua intenção não podia ser outra senão convencê-lo a revoltar-se contra Alexandre, obedecendo a um plano que Demóstenes urdia com outros chefes descontentes. Pelo menos foi o que disse mais tarde o mensageiro, embora não exista qualquer registro de que Heféstion tivesse aceitado juntar-se à conspiração, nem de que Demóstenes estivesse envolvido com a verdadeira conspiração que aconteceu em 330 a.C.

Nesse ano, um grupo de oficiais revoltou-se, mas foi rapidamente reprimido pelos chefes leais a Alexandre. Contudo, dois chefes das falanges da infantaria, Crátero e Ceno, acusaram Filotas, comandante-geral da cavalaria, de conhecer as intenções dos rebeldes e de não o ter revelado ao imperador. Numa primeira fase, Alexandre não deu importância ao assunto, mas Heféstion uniu-se aos denunciantes para exigir que o acusado fosse interrogado sob tortura. E Alexandre, que não quis infligir nova humilhação ao seu velho amigo, aceitou contrariado essa exigência. O tal Filotas, filho de outro brilhante general macedônio chamado Parmênion, era o comandante mais aguerrido e a sua cavalaria tivera um papel decisivo nos combates que proporcionaram a glória e o poder a Alexandre. Não era de estranhar, por isso, que os dois comandantes de infantaria e um amante desprezado o quisessem ver humilhado, torturado e, se possível, condenado à morte.

Os cronistas não descrevem o tipo de tortura a que foi submetido Filotas, mas o pobre homem acabou por confessar que ele e o seu pai tinham organizado a revolta para ocupar o trono e o comando supremo, no lugar do imperador. O tribunal militar montado por Alexandre sentenciou a execução imediata do réu e Parmênion foi também assassinado após a sua captura pelos homens enviados para o perseguir. Independentemente da verdade desta história, o imperador decidiu que era melhor não alimentar as ambições dos seus subordinados com demasiado poder. E, por via das dúvidas, dividiu a prestigiosa cavalaria em duas partes. Uma ficou sobre o comando do eficiente general Clito e entregou a outra como prêmio a Heféstion, totalmente inexperiente no comando deste tipo de tropa.

Durante os três anos seguintes, batalhou-se pela conquista da Bactriana e da Sogdiana, onde os cavaleiros desempenharam um papel fundamental. Os correspondentes de guerra da época elogiam Clito repetidamente, mas não citam Heféstion uma única vez. Segundo parece, porque Alexandre, que nunca confiou nas aptidões guerreiras do seu amigo, entregou a outro chefe o comando efectivo dos combatentes cavaleiros. E, por fim, a sorte favoreceu Heféstion, porque durante um festim o imperador matou Clito sem qualquer motivo numa discussão de bêbados e ele acabou por comandar a cavalaria.

TOURNIER, Paul. Os Gays na História. Lisboa: Estampa, 2006. p. 47-8.

quinta-feira, 20 de outubro de 2016

O eterno par de Alexandre Magno: um amor na Macedônia (Parte 1)

Alexandre e Heféstion, Andrea Camassei

Alexandre III da Macedônia, apelidado de Magno (o Grande), exemplo insuperável do herói militar da Antiguidade clássica e protótipo da beleza masculina na arte de todos os tempos, foi também um perfeito exemplo de guerreiro bissexual. Os historiadores tradicionais apresentam-no como um guerreiro incansável, obcecado pela conquista do seu império. Os mais ousados chegaram a sugerir que mal tinha tempo para pensar em sexo e que os seus casamentos com várias princesas orientais obedeceram a interesses políticos. Todos são unânimes em afirmar que ele rapidamente se desembaraçava delas para partir para as suas campanhas e raramente voltava a visitá-las. A mais afortunada foi talvez Roxana, filha de um sátrapa de Sogdiana, de quem teve o único filho que se conhece.

Paralelamente a esta imagem de conquistador omnipresente, férreo e um tanto misógino, subsistiu uma discreta e interminável polêmica sobre as verdadeiras tendências sexuais de Alexandre Magno. Se bem que o cerne da questão surgisse da ambígua relação de Alexandre com o seu amigo íntimo e colaborador Heféstion, há quem acredite que também se ligou com outro camarada de armas ou que, em caso de urgência, recorria aos prisioneiros e aos escravos que estavam ao seu serviço. Se, por um lado, parecia que as ocupações da guerra afastavam o jovem imperador das mulheres, por outro, deixaram-no muito unido aos seus homens.

Alexandre nasceu em 356 a.C., em Pela, a antiga capital da Macedônia. Era filho do rei Filipe II, que também teve as suas histórias, e da bela e dominadora Olímpia, princesa do Epiro. O pai andava sempre em guerra, um pouco por todo o lado, para unificar e expandir o seu reino e, por isso, a criança foi criada numa relação muito estreita com a sua sufocante mãe, que o amava com um fervor edipiano. Olímpia, entre beijos e abraços, não podia ter tido melhor ideia do que arranjar-lhe Aristóteles como preceptor, homem tão sábio como disposto a instruir os seus discípulos na diversidade que a vida oferece. O filósofo educou o pequeno Alexandre entre os treze e os dezesseis anos, idade certamente delicada para um jovem que já então tinha como companheiro de estudos e de brincadeiras o seu inseparável Heféstion.

Segundo Anábase, história das campanhas de Alexandre escrita por Arriano, Heféstion pertencia a uma família grega nobre, radicada na Macedônia. O pai, Amintor, fazia parte da colônia de gregos cultos contratados ao serviço do rei Filipe. Estes forasteiros notáveis recebiam tratamento de excepção, o que permitiu a Heféstion, apenas um ano mais novo do que Alexandre, ser educado com ele no palácio real. Filipe morreu em 336 a.C., depois de ter reinado durante duas décadas, e Alexandre sucedeu-lhe no trono com apenas dezanove anos. Incentivado pela sua impetuosa ambição, lançou-se numa vertiginosa campanha para submeter as cidades gregas, o que o obrigou a arrasar a emblemática Tebas. No ano seguinte, influenciados por tão impressionante exemplo, os chefes da Liga de Corinto concordaram em designá-lo comandante e estratego dos seus exércitos. Alexandre deixou como regente da Macedônia o maduro general Antípatro, que tinha sido lugar-tenente de seu pai, e empreendeu uma expedição para Oriente com o objectivo de se apoderar de tudo o que encontrasse pelo caminho.

Não existe notícia histórica de qual foi o papel de Heféstion nessa etapa, mas os cronistas voltam a mencioná-lo na Primavera de 334, quando Alexandre conquista a cidade de Tróia. Apenas o seu nome é citado, como se os contemporâneos já soubessem que era amigo de infância do rei da Macedônia, na época um de seus generais e, por assim dizer, o mais íntimo dos seus camaradas. Dizem as crônicas que Alexandre respeitou a lendária cidade homérica e que ofereceu um sacrifício no túmulo de Aquiles, enquanto Heféstion oferecia o seu próprio no de Pátrocles. Estas homenagens tiveram um curioso simbolismo, pois Homero já sugeria na Ilíada que os heróis troianos tinham sido amantes.

O nome de Heféstion volta a perder-se, enquanto a história registra o avanço de Alexandre na conquista das cidades costeiras da Ásia Menor, e reaparece na decisiva batalha de Issos, em Novembro de 333.

TOURNIER, Paul. Os Gays na História. Lisboa: Estampa, 2006. p. 43-44 e 46.

quarta-feira, 21 de setembro de 2016

Família e sexualidade na Europa Medieval: a família germânica

Antiga família germânica, Grevel

[...]

Os bárbaros germânicos se organizavam em comunidades agrícolas e pastoris com um mínimo de desigualdade social. As lideranças guerreiras gozavam de prestígio, mas este não resultava na dominação e na exploração econômica de um grupo social sobre outro. As terras eram periodicamente redistribuídas, o que impedia que as melhores terras se acumulassem nas mãos de algumas famílias.

Todavia o próprio contato com os romanos foi dissolvendo a organização comunitária germânica. A desigualdade econômica e social foi se generalizando: formou-se uma casta de guerreiros hereditários, com privilégios e riquezas.

Com essa mudança, o casamento passou a ter uma nova importância social e política entre os bárbaros germânicos, pois dele dependia a transmissão dos bens acumulados e do poder estabelecido.

Nessas sociedades bárbaras já transformadas pelo contato com os romanos, o casamento podia resultar de três processos: a compra, o rapto e o consentimento mútuo. Assim, do ponto de vista de seu pai, uma mulher era principalmente um bem móvel. Como tal, era vendida, perdida pelo rapto ou usada para fazer alianças. Uma vez constituído o casal, a mulher se tornava companheira do marido.

PEDRO, Antonio; LIMA, Lizânias de Souza. História por eixos temáticos. São Paulo: FTD, 2002. p. 222.

segunda-feira, 29 de agosto de 2016

Quando o amor vai à guerra

Três jovens espartanos praticando o arco, Christoffer Wilhelm Eckersberg

Esparta era um estado oligárquico e militar do Peloponeso dedicado quase exclusivamente a guerrear os seus vizinhos. Segundo Xenofonte, a homossexualidade era habitual no seu exército e entre jovens soldados era estimulada a formação de casais de amantes que iam unidos para a guerra. Um caso semelhante foi o chamado "Regimento Sagrado de Tebas", guerreiros beócios de elite que lutaram por vezes contra os Espartanos. As tropas homossexuais de Esparta obtiveram notáveis vitórias contra os Persas, entre elas a célebre batalha de Salamina, e um triunfo pírrico sobre a democrática Atenas, na Guerra do Peloponeso (431-404 a.C.), que significou o início da decadência do mundo grego.

TOURNIER, Paul. Os Gays na História. Lisboa: Editorial Estampa, 2006. p. 43.

quarta-feira, 6 de maio de 2015

Mundurucus: os grandes guerreiros da Amazônia

Índios mundurucus, Hércules Florence

Os mundurucus, como seus antepassados por centenas de anos, se pintaram para a guerra. Esses índios de porte altivo, considerados outrora como os mais belicosos dentre os que habitavam a Amazônia e que muito trabalho deram para os brancos que os tentaram subjugar, têm orgulho de seu passado guerreiro. "Se eles insistirem na construção de hidrelétricas nas nossas terras, vamos atacar", garantiu Josias Manhuary, um de seus líderes, à repórter Aline Ribeiro, da revista Época. O guerreiro das margens do Tapajós, revoltado com os planos de aproveitamento do potencial hídrico do rio que dá ao seu povo o peixe diário e a possível inundação das terras em que estão enterrados os seus antepassados, afirmou: "Somos cortadores de cabeças!".

E é fato. A captura de cabeças humanas era o motivo que levava os mundurucus, que, provavelmente, já habitavam a região do Tapajós mil anos antes da chegada dos europeus, a organizar sua sociedade em função da guerra, "Ainda hoje eles têm essa tradição de povos guerreiros, apesar dos constrangimentos da colonização, da catequese e da relação com o Estado", explica o antropólogo [...] Florêncio Almeida Vaz. Como ativista indígena da etnia maitapu e frade franciscano, frei Florêncio, como é mais conhecido, estuda o encontro dos povos indígenas no baixo e médio Tapajós com os colonos portugueses e como se deu o acordo que selou a paz entre índios e lusos no final do século XVII, mudando a história da região.

Uma rica fonte documental sobre os mundurucus foi deixada por cronistas e viajantes do século XIX, como os naturalistas alemães Spix e Von Martius, que visitaram a região do Tapajós entre 1817 e 1820. Em seus relatos, eles descrevem que os "mundurucus, mundrucus ou muturicus, antes do ano de 1720, mal eram conhecidos no Brasil pelo nome; mas, daí em diante, irromperam em numerosas hordas, ao longo do rio Tapajós, destruíram as colônias e tornaram-se tão temíveis que foi necessário mandar contra eles tropas, às quais se opuseram com grande audácia."


Guerreiro mundurucu com cabeça como troféu, Johann Spix and Carl Martius

Chamados pelos indígenas de tribos rivais de paiquicé, ou corta-cabeças, o povo mundurucu atribuía grande significado ritual às cabeças capturadas e cuidadosamente preservadas por um meticuloso processo de mumificação. Todos os inimigos homens adultos de uma tribo atacada eram mortos e suas cabeças, mantidas como troféus de grande valia. Os guerreiros acreditavam que, com isso, adquiriam poderes mágicos que garantiam a fartura e a sobrevivência de seu povo.

A cosmologia desse povo - pertencente ao tronco linguístico tupi -, responsável por sua atitude belicosa, levou à perseguição e ao extermínio de povos como os jumas e os jacarés, tendo influenciado também no deslocamento dos parintintins e dos kawahivas em direção aos rios Juruena e Teles Pires. Os mundurucus perseguiram ainda os muras e lutaram contra os maués, araras e apiacás. "A guerra fazia parte do cotidiano. Eles tiveram de adaptar esse valor para outras formas rituais, como o xamanismo e outras crenças que continuam associadas à guerra", diz frei Florêncio.

O primeiro relato que se tem acerca da existência do povo mundurucu remonta a 1542 e é do cronista e padre espanhol Gaspar de Carvajal, que integrou a expedição de Gonçalo Pizarro (irmão de Francisco Pizarro), de Quito à foz do rio Amazonas, passando pelo baixo Tapajós. "Ele já fala da característica de pintar o rosto de preto", conta frei Florêncio. "Guerrear, para esse povo, era afirmar-se como gente. Além de lutar contra outros povos indígenas, o inimigo passou a ser também os portugueses", diz Almeida Vaz.


Criança e mulher mundurucu, Auguste François Biard

Por volta de 1770, os mundurucus fizeram uma série de ataques aos povoados localizados à beira do Tapajós, ponto de exploração de colonos luso-brasileiros e aldeias missionárias que haviam sido estabelecidas pelos jesuítas. Em 1773, foram responsáveis pelo assalto à fortaleza do Tapajós, em Santarém.

"As incursões pela floresta em busca das cabeças-troféu eram longas. Há registros de que estes índios tenham chegado até o Xingu", destaca o historiador e indigenista André Ramos. [...] Ramos viveu uma década na aldeia Waro Apompo, no rio Cururu, um dos afluentes do Tapajós, na parte alta. "A guerra tem uma função de renovação de vida, as cabeças tinham um papel importante nessa organização", explica o pesquisador.

O padre português Manuel Aires de Casal, em 1819, chamava a área ocupada por esse povo de Mundurucânia, um território que comprrendia os rios Jurena, Amazonas, Madeira e Tapajós. Em razão da ocupação portuguesa dos brancos, os mundurucus acabaram se refugiando no alto Tapajós, onde permanecem até os dias atuais.

Os jesuítas cumpriram importante papel na ocupação do Tapajós. Para expandir a catequese, instalaram-se em aldeias como a de São José ou Maitapus, em 1772; a de Santo Inácio ou Tupinambaranas, em 1737; e, em 1738, as de Borani e Arapiuns, que se destacaram pelo desenvolvimento, todas localizadas no baixo e médio Tapajós.


Mundurucus, Auguste François Biard

Vendo o avanço do inimigo, os mundurucus passaram a atacar sem descanso os assentamentos dos colonos a partir da última década do século XVIII. Na tentativa de conter a ameaça indígena, o poder colonial enviou, em 1794, uma força com cerca de 500 soldados com a missão de atacar os mundurucus até em suas aldeias do alto Tapajós, no atual rio das Tropas.

Nesse momento, acontece a reviravolta. Índios e colonos passam a conviver em paz, no processo que ficou conhecido como a "pacificação dos mundurucus". Não existem ainda versões conclusivas sobre como isso se deu. André Ramos acredita que o contra-ataque perpetrado por tropas portuguesas no alto Tapajós tenha sido decisivo. "Os portugueses sobem o Tapajós, adentram o Jurupari e vencem a batalha. A partir de então, se estabelece uma relação apaziguada", diz.

Frei Florêncio defende a tese de que os próprios indígenas tomaram a iniciativa de estabelecer relações pacíficas com os colonos da região. Uma visita à Vila de Pinhel, em 1795, para encontrar-se com o tuxáua (chefe), quando foram acompanhados até a fortaleza de Santarém, teria selado um pacto de paz.

Em 1795, o governador Manuel da Gama lobo d'Almada adotou a estratégia de pôr fim às hostilidades. Uma vez que o poder colonial não contava com um contingente de homens suficientes para confrontar os termos indígenas, o mandatário enviou um grupo de soldados que capturou dois índios mundurucus, que ficaram por quatro meses na fortaleza da Barra do Rio Negro, na atual cidade de Manaus.

Cerca de 140 índios mudurucus se reúnem em Brasília com o ministro da Secretaria Geral da República, Gilberto Carvalho e representantes de outros órgãos do governo para discutir a suspensão de empreendimentos energéticos na Amazônia e outras reivindicações indígenas, em 4 de junho de 2013. Foto: Fabio Rodrigues Pozzebom / Agência Brasil

Ali, os índios teriam sido bem tratados e receberam inúmeros presentes. Reconhecendo a boa vontade dos raptores, os dois índios teriam se comprometido a retornar e avisar aos outros que os brancos não eram seus inimigos. A partir de então, os conflitos teriam cessado e os mundurucus tornaram-se aliados dos brancos, passando até mesmo a operar como força militar para "pacificar" outros grupos indígenas. "A primeira vila onde os mundurucus se voltaram para a vida colonial foi Pinhel, comunidade de onde venho. Eles estavam ficando enfraquecidos, era uma estratégia. Mas grupos isolados continuaram guerreando no alto Tapajós", comenta frei Florêncio.

Após selada a paz, os mundurucus começam a manter um estilo de vida sedentário nas vilas. "Eles passaram pelo processo de caboclização, que fez com que praticamente desaparecessem como etnia. Foram se tornando cada vez mais ligados e defendendo os interesses dos portugueses. Lutaram, inclusive, ao lado dos portugueses contra os cabanos (entre 1835 e 1840)", ressalta o antropólogo.

Os mundurucus são uma etnia que conseguiu preservar de alguma maneira a sua cultura, até mesmo pela dificuldade de acesso e pela própria belicosidade. Ramos diz que, para além da versão oficial construída pelas missões evangelizadoras ou pelo Serviço de Proteção ao Índio (SPI), primeiro órgão indigenista brasileiro, fundado em 1910 sob uma ótica positivista, uma história indígena ainda está por se fazer. "O que predomina é a visão de que os mundurucus teriam sido atraídos para as margens dos rios pelas mercadorias dos brancos e benesses que chegariam com o contato. A versão dos mundurucus não é essa", argumentou. Frei Florêncio também segue nessa linha, ao salientar uma mudança de perspectiva. "Os indígenas deixam de ser vítimas que foram quase exterminadas. Hoje, eles se veem como povos florescendo", destacou.

Fabíola Ortiz. Os grandes guerreiros da Amazônia. In: Revista História Viva. Ano XI / Nº 127 / p. 40-43.