"Os espelhos estão cheios de gente.
Os invisíveis nos vêem.
Os esquecidos se lembram de nós.
Quando nos vemos, os vemos.
Quando nos vamos, se vão?"
Eduardo Galeano: Espelhos
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quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

A era dos missionários, dos traficantes e dos baleeiros no Pacífico

Os chefes Waikato e Hongi Hika com o missionário Thomas Kendall, James Barry, 1820

As ilhas esparsas no Grande Oceano, durante o século XIX, continuam a surgir aos olhos dos europeus como um mundo à parte, digno de nota pelo seu isolamento e pela singularidade de seus tipos étnicos. Multiplicam-se as conjeturas relativas às origens e às afinidades, tanto dos "negros orientais" - melanésios e micronésios - quanto dos "selvagens brancos", os polinésios. Cook referira-se aos aos "fenícios do mundo oriental": alguns seguiam as migrações polinésias desde o Egito e uma das hipóteses era de que tratava de algumas "tribos perdidas de Israel". Estas civilizações, em todo o caso, por mais adaptadas que fossem ao seu meio, não haviam ultrapassado o estágio da pedra polida.

Nas pegadas dos exploradores que descreveram um verdadeiro Éden, chegam, simultaneamente, homens persuadidos da existência de uma humanidade pronta a acolher a os recursos das ilhas. Os governos europeus observam uma prudente reserva; Guizot acaba renunciando à política de protetorados, praticada pelo Almirante Dupetit-Thouars, e os franceses conservam apenas Taiti. Aliás, os missionários protestantes pretendem agir como se fossem os próprios regentes das circunscrições indígenas.

A expansão cristã iniciara-se em 1797, em Taiti, com a chegada de Dulf, enviado pela Sociedade Missionária de Londres. Em breve, um pouco por toda partem os reverendos esforçam-se por conquistar os chefes em por seu intermédio, agir sobre as populações. Recomendam a destruição dos ídolos, a renúncia dos tabus, ao canibalismo e às guerras, denunciam a nudez, a tatuagem e as danças rituais, preconizam a monogamia e louvam as vantagens da família, abrem escolas; por vezes, nas Polinésias, investem contra os privilégios dos nobres. Nas ilhas Cook, a Sociedade das Missões estabelece um verdadeiro controle teocrático, transformando em crime a "coabitação fora dos laços do casamento", interditando a saída das choupanas durante a noite. Nas Gambier, o Padre Laval é denunciado pelas autoridades militares franceses como um déspota "ridículo". Há chefes que cedem por medo, mas outros o fazem por cálculo. Frequentemente, o indígena adota ritos mal assimilados. O tabu, por vezes, tivera por fim refrear instintos perversos, agora liberados. Debilitando-se a coesão do grupo, desorganiza-se, por vezes, a atividade social. Além disso, as missões não esquecem que devem subvencionar às suas próprias necessidades; entregam-se ao comércio, cobram direitos sobre a venda de roupas e objetos destinados a seus catecúmenos, não hesitam em fazer fortuna com o tráfico dos nácares perolíferos.

Toda uma fauna de aventureiros abate-se sobre as ilhas. Um dos comerciantes americanos que trocam, na China, peles por seda, fazendo escala no Havaí, tem a ideia de embarcar madeira de sândalo e oferecê-la a seus clientes asiáticos. Outro mercador interessado pelo tripango, uma holotúria apreciada pelos gastrônomos de Cantão, graças ao sabor e às qualidades afrodisíacas. Depois a atenção dos brancos volta-se para a casca de tartaruga e o nácar perolífero. Oferecem tecidos de algodão, facas, fuzis ou rum; mas chegam ao ponto de prender reféns para garantir a entrega das quantidades reclamadas. Todas as ilhas de recifes padecem mais ou menos com a presença das ostras perolíferas. Não é raro que, para cobrir os claros causados pelo escorbuto nas fileiras das tripulações, alguns indígenas sejam embarcados à força. Muitos potentados tiram proveito da cupidez dos brancos: tal é o caso do rei do Havaí que, forçando seus súditos a desleixar as culturas de gêneros alimentícios e a cortar madeira de sândalo, provoca a fome nas suas ilhas.

As visitas dos baleeiros que ali fazem escala não são menos desastrosas. Praticam a troca para conseguir víveres frescos, mas não deixam de abusar das populações, violando as mulheres, raptando ou matando os homens. Regiões como as ilhas da Sociedade, as Fidji, as Marshall e as Carolinas jamais se recompensaram destes estragos.

SCHNERB, Robert. O século XIX: as civilizações não-europeias; o limiar do século XX. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1996. p. 162-4. (História geral das civilizações, v. 14)

segunda-feira, 25 de janeiro de 2016

O termo "Tempos Modernos": uma visão eurocêntrica da História?

Embora, na França, a expressão "Tempos Modernos" seja empregada para, geralmente, designar os séculos XVI, XVII e XVIII, uma explicação é necessária. A consciência de se haver entrado numa era nova foi percebida na Europa Ocidental no decorrer do século XVI.

Todavia, os historiadores estão longe de concordar sobre os limites cronológicos desta era nova. Na França [...] fazemo-la iniciar-se, em geral, em 1492, com a "descoberta" da América. Esta data apresenta o inconveniente de situar-se no meio do Renascimento, que abre os "Tempos Modernos". Certos historiadores, considerando que a Renascença, principia com o despertar das civilizações urbanas no Ocidente se inclinariam por um corte situado no começo do século XIII. Por causa disto, na Inglaterra, prefere-se fixar o início dos "Tempos Modernos" apenas quando a Renascença é dado como realizada, ou seja por volta do ano de 1600.


Carta náutica de Fernão Vaz Dourado, (c. 1520 - c. 1580), integrante de um atlas desenhado em 1571.

Voltados para o progresso, os "Tempos Modernos" não deveriam ter um fim. Entretanto, a historiografia francesa ficou impressionada com o desmoronamento da antiga monarquia, caracterizada por um regime, não somente político, mas ainda econômico e social, que se torna o "Antigo Regime" em relação ao mundo que se crê nascido com a declaração dos direitos do homem de 1789. Para designar este mundo considerado como novo, foi preciso encontrar um outro termo. Os historiadores franceses empregaram o de "contemporâneo", palavra que adquire aqui um sentido particular. Destarte, o ponto de partida da época contemporânea permaneceu curiosamente fixo, ao passo que os "Tempos Modernos", fixados em 1789, se afastam cada vez mais no passado.

Conquanto menos marcados que os franceses pela Revolução, os historiadores dos outros países da Europa distinguem também, em geral, um antigo regime e uma época mais recente, mas as denominações são diferentes. Como é lógico, o termo contemporâneo, para eles, é móvel, pois liga ao presente um passado todo próximo. O termo "moderno" designa, então, um período não acabado, mas incessantemente prolongado. Por causa disto, foram levados a introduzir divisões nesses "Tempos Modernos" destinados a se prolongarem. Os alemães distinguem Frühere Neuzeit e Spät Neuzeit, e os ingleses Early Modern Times e Later Modern Times... Estes termos, certamente menos rígidos que os nossos, se aplicam de maneira precisa ao antigo regime e ao regime novo? Neste caso, sua delimitação variaria segundo os países: 1848, para a maioria dos países da Europa Central; 1860 ou 1917 para a Rússia... De fato, os historiadores ocidentais reconhecem, geralmente, que o fim do século XVIII marca uma etapa importante na história de seus países em consequência do contragolpe das revoluções americana e francesa.

Trata-se, poder-se-á dizer, de modos de ver europeucentristas. Povos que hoje constituem mais da metade da humanidade não foram, em absoluto, subvertidos, no fim do século XVIII e no princípio do XIX, pelos grandes movimentos que afetaram a Europa e seus prolongamentos coloniais. Devemos negligenciar sua presença numa periodização do passado? Eu não penso que este argumento seja de natureza a fazer afastar o fim do século XVIII como termo do nosso período. O Extremo Oriente ou a Índia não têm neste momento, e não terão durante algum tempo ainda, um papel propulsor de primeiro plano na evolução da humanidade.

Outra objeção: o começo do século XVI e o fim do XVIII não representam uma mudança importante na história econômica ou na das condições materiais da vida. O descobrimento da América e o acesso direto dos europeus às Índias só farão sentir seus efeitos no decurso do século XVI, e a revolução da máquina, exceto para a Inglaterra, se situa no decurso do século XIX. Podemos desprezar tais fatos?

É verdade que toda periodização é artificial. [...]

Quando abordamos [a] Antiguidade ou a Idade Média [...] sabemos de antemão que, para compreendermos, nos deveremos desterrar completamente, pois que nos acharemos em presença de um mundo em que os homens viam de maneira diferente da nossa o tempo, o espaço, o domínio da natureza, as relações entre gerações, famílias e classes sociais. [...] Ora, "o homem de Versalhes" está muito longe de nós. Que dizer do homem dos campos ou das pequenas cidades contemporâneas de Lutero? Pois não existe um homem dos Tempos Modernos. Estes três séculos vêem realizar-se uma verdadeira mudança da espécie humana, menos visível e menos precipitada, sem dúvida, que a que assistimos atualmente, porém assaz profunda, uma vez que é ela que prepara esta última. É preciso que nos submetamos a uma série de desterramentos para podermos compreender os homens destes três séculos [...].

Com efeito, no fim do século XV, entram em contato mundos que até então se tinham ignorado inteiramente. Ora, pela primeira vez na história, o homem constatou qual era a forma da Terra. Ele ainda não sabia que não mais havia descobertas a fazer no globo da mesma importância que a da América. Mas nós, que o sabemos, avaliamos melhor que os contemporâneos de Américo Vespucci a importância de seu tempo na História: o planeta realizou sua unidade.

CORVISIER, André. História moderna. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1995. p. 5-7.

sábado, 11 de outubro de 2014

Povos da Oceania: os polinésios

Um retrato de Heeni Hirini (também conhecido como Ana Rupene) e a criança, Gottfried Lindauer

[...] Ramo secundário dos europóides, com elementos mongolóides e negróides, eram de estatura elevada, com facies europeu, nariz fino, cabeleira lisa, tez morena, com a vista e o ouvido mais aguçados do que os europeus mas com olfato e gosto diferentes.

Navegadores incomparáveis, eram capazes de percorrer, sem escala, 2.500 quilômetros. Sabiam calcular a posição utilizando cabaças nas quais praticavam orifícios. Nas Samoas e no arquipélago Tonga, as pirogas duplas, com 30 metros de comprimento, chegavam a levar 140 remadores. Cada ilha possuía uma frota. Cook contou 220 unidades em Taiti, cuja população, segundo cálculos, atingia 200.000 habitantes.

Um retrato do Sr. Paramena, Gottfried Lindauer.

Os utensílios de que dispunham pertenciam à idade da pedra polida mas os seus objetos, principalmente os dos Maoris da Noza Zelândia, imitavam, segundo parece, os de metal. Seus antepassados haviam conhecido, ao que se julga, o metal e a cerâmica. Em todo o caso, estas artes haviam sido esquecidas, na Polinésia, quando os europeus chegaram, e é certo que os seus utensílios já haviam sido melhores, antes do século XVIII.

Seu vestuário era de Phormium tenax (linho) na Nova Zelândia. Entretanto, nas ilhas quentes haviam abandonado o tear de seus antepassados pelo trabalho com cascas de árvores, de que faziam saias enfeitadas com galões e triângulos. Usavam plumas brilhantes, folhas lanceoladas e finas tatuagens.

Um retrato da Sra. Paramena, Gottfried Landauer

Suas casas tinham como base plataformas de pedra, cobertas de esteiras. Nas Ilhas Marquesas atingiam um comprimento entre 20 a 100 metros, e tinham mosquiteiros e travesseiros de bambu. Os maoris possuíam fortes que podiam conter vários milhares de pessoas, com fossos, parapeito, paliçadas e plataformas mais elevadas para os defensores.

Estes povos encontravam-se no estágio da grande família de várias centenas de pessoas análogas à gens romana e aos genos gregos. A sociedade estava dividida em classes hierarquizadas, reis, nobres, homens livres e escravos. O rei, hereditário em linha masculina, por ordem de primogenitura, era uma encarnação da divindade e, por conseqüência, sagrada. Os nobres possuíam feudos e dominavam as assembléias deliberativas. Dispunham de toda a terra. Suas ossadas eram depositadas nos lugares sagrados e só eles tinham direito à sobrevivência. Escolhiam chefes locais que decidiam, com poder absoluto, sobre todas as empresas comuns e que eram substituídos se demonstravam indecisão ou má capacidade de julgamento. Os homens, teoricamente livres, eram, de fato, passíveis, segundo a vontade dos senhores, de talhas e corvéias.

Um retrato de Kewene Te Haho, Gottfried Landauer

A sua religião parecia conter elementos bramânicos, talvez persas ou babilônicos. Os maoris, por exemplo, acreditavam num Deus supremo, eterno, onipotente, justo, que habitava no duodécimo céu. Mas era tão sagrado que a maioria dos maoris morria sem saber que esta parte da sua religião existia. Tinham depois, todos, um panteão de grandes deuses do céu e de deuses locais, das florestas, das colheitas, da guerra, do mar, do mal, com toda uma mitologia explicativa do universo. Adoravam, além disso, uma multidão de espíritos espalhados por toda a natureza e os espíritos dos antepassados. A classe sacerdotal, recrutada entre os nobres, conservava as narrativas míticas e presidia às cerimônias, que compreendiam sacrifícios humanos. A Ilha Caiatia era a sede de sacrifícios comuns a toda a Polinésia. Empregava-se a magia. A religião provocara o aparecimento de uma poesia de grande beleza e de uma escultura de valor que muitas vezes visava apenas proporcionar prazer.

Um retrato de Taraia Ngakuti Te Tumuhia, Gottfried Lindauer

Havia continuamente guerras entre estes povos. As aldeias e as plantações eram incendiadas; comiam-se os vencidos, sendo o coração reservado aos chefes.

[...]

Nos séculos seguintes, em contato com os europeus, os oceaninos declinaram muito.

MOUSNIER, Roland; LABROUSSE, Ernest. O século XVIII: o último século do antigo regime. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1995. p. 377-379. (História geral das civilizações, v. 11)

NOTA: O texto "Povos da Oceania: os polinésios" não representa, necessariamente, o pensamento deste blog. Foi publicado com o objetivo de refletirmos sobre a construção do conhecimento histórico.

terça-feira, 7 de outubro de 2014

Povos da Oceania: os melanésios e os micronésios

Tohunga sendo alimentado no tapu (sagrado/proibido), Gottfried Lindauer. 

Os melanésios encontravam-se num estágio de civilização que recordava o período neolítico adiantado. Fisicamente mais evoluídos, de barba rala, o nariz mais reto, as arcadas supraciliares raramente proeminentes, usavam enfeites mais rebuscados: tatuagens para as mulheres, pinturas no corpo para os homens, deformação da cabeça ou da cintura, descoloração dos cabelos, ou pintura com ocre, colares e braceletes feitos de dentes e de conchas, plumas ou flores nos cabelos.

Seus utensílios eram mais aperfeiçoados: achas de pedra polida, facas de conchas, limas em pele de raia, sovelas de ouro, armas variadas, compreendendo arcos e fundas. Eram principalmente excelentes marinheiros que sabiam construir e dirigir grandes pirogas e também hábeis agricultores que, com um simples pau para revolver a terra, cultivavam inhame e taro. Conheciam o sistema monetário, baseado em plumas ou em dentes, eram ávidos de lucro e alguns faziam belas fortunas, emprestando a um juro de 100%.

Sua sociedade era matriarcal. Eram os tios quem mandavam nos filhos da irmã. Os homens comiam e dormiam numa espécie de clube da aldeia e os dois sexos viviam quase sempre separados. O casamento fazia-se por compra e os ricos eram polígamos.

O Estado político era democrático, mas as sociedades secretas desempenhavam grande papel e nestas só os ricos, que podiam despender grandes somas e dar festas, ascendiam aos graus superiores. Estas sociedades aterrorizavam os não-iniciados por meio de agressões, multas e até a morte.

Suas crenças religiosas eram vivas, embora, ao mesmo tempo, de um nível inferior às dos outros povos precedentes, menos civilizados. Acreditavam no mana, virtude sobrenatural transmissível. Um bom pescador possuía o mana. Para triunfar em qualquer coisa era preciso mana, e este podia conseguir-se através da magia. Algumas formas de mana eram perigosas. Nessa altura o tabu (interdição) era lançado sobre as pessoas, os objetos ou os lugares que o possuíam. Todos eram animistas, isto é, acreditavam na existência de espíritos difundidos nas pedras, nas árvores, nas serpentes, em toda parte. Mas não se elevavam ao politeísmo; acreditavam na sobrevivência dos espíritos dos mortos. Entregavam-se a preces, sacrifícios, cantos ritmados e talhavam na madeira a figura do antepassado que participaria na vida de seus descendentes.

Os micronésios assemelhavam-se-lhes muito, embora num grau um pouco mais elevado. Navegadores notáveis, os seus comerciantes realizavam longas viagens em pirogas de balancim, servindo-se de mapas feitos de canos de bambu. Tinham uma nobreza e servos. Os navegadores mais peritos eram recompensados com a concessão de feudos. Certas ilhas haviam atingido o politeísmo e possuíam um rico panteão, dominado por um Deus.


MOUSNIER, Roland; LABROUSSE, Ernest. O século XVIII: o último século do antigo regime. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1995. p. 376-377 (História geral das civilizações, v. 11)

NOTA: O texto "Povos da Oceania: os melanésios e os micronésios" não representa, necessariamente, o pensamento deste blog. Foi publicado com o objetivo de refletirmos sobre a construção do conhecimento histórico.

sábado, 4 de outubro de 2014

Povos da Oceania: os australianos

Pōtatau Te Wherowhero, chefe Waikato, Giles e Merrett

Os australianos, que pertenciam a um nível um pouco superior, raça formada por uma mistura de elementos europóides e negróides, encontravam-se no estádio paleolítico europeu do Moustier. De pele morena, ou cor de chocolate, com o corpo coberto de pêlos, as arcadas supraciliares enormes, a testa deprimida e fugidia, os maxilares salientes, a boca grossa, o nariz largo, tinham um cérebro nitidamente inferior em peso e desenvolvimento ao dos brancos.

Vestidos sumariamente, sabiam, entretanto, construir cabanas de ramos, fazer fogo por meio da rotação rápida de um furador numa tábua. Dispunham de armas de pedra, desde o coup-de-poing lascado do Moustier com a lança neolítica, a azagaia e o famoso boomerang, mas ignoravam o arco e a flecha, assim como a cerâmica, aliás. Viviam da coleta e principalmente da caça: caracóis, ameijoas de água doce, lagartas, aves, cangurus, lagartos, opossuns e uma espécie de avestruz, a ema. Aliás, sabiam obrigar um canguru a correr e descobrir a pista da caça, farejando a terra.

A sua organização social era mais elevada. A tribo tinha chefes permanentes, os anciãos; dividia-se em grupos, com a regra imperiosa do casamento fora do grupo; possuía territórios de percurso distinto das outras tribos; havia, portanto, um direito internacional.

As concepções religiosas eram desenvolvidas. A crença na sobrevivência da alma era geral. Os espíritos dos mortos podiam reencarnar-se: os primeiros europeus, seres que saíram do mar, de pele pálida, olhos brilhantes (por causa do desenvolvimento maior do sistema nervoso), encheram os australianos de um terror físico e foram tomados por fantasmas. Os australianos prestavam regularmente honras fúnebres aos mortos. Algumas tribos até comiam os cadáveres para assimilarem o seu princípio vital. Todas possuíam o seu totem, ou antepassado comum, cujos descendentes celebravam fraternalmente cerimônias mágicas. Alguns concebiam um deus imortal que subira ao céu depois de ter vivido na terra e ao qual os iniciados iam juntar-se, quando morriam. Todos conheciam a magia. Os jovens ficavam aptos a casar-se e a exercer funções sociais mediante uma iniciação complicada que compreendia a extração de um incisivo superior, a circuncisão, apresentação de desenhos e narrativas míticas mantidas em segredo para as mulheres.

Os outros povos encontravam-se em níveis nitidamente superiores. Se excetuarmos os papuas, de nariz adunco, de ponta grossa em forma de bico e que pareciam uma raça pura, julga-se, hoje, pelo estudo das línguas e de certos hábitos materiais, como a piroga da balancim, que todos estes povos, apesar das suas diferenças, participavam da mesma cultura oceânica e tinham todos a mesma origem. Seriam provindos da Malásia, donde se teriam espalhado para leste, por todo o Pacífico e talvez até a América, a oeste de Camboja para Ceilão, Madagáscar (Hovas), assim como pela costa leste da África. As migrações desses povos teriam começado entre os séculos II e V d.C., atingindo o apogeu entre 900 e 1350. Seguidamente, verificou-se o declínio dessas populações, assim como de suas aptidões para a navegação.

MOUSNIER, Roland; LABROUSSE, Ernest. O século XVIII: o último século do antigo regime. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1995. p. 375-376. (História geral das civilizações, v. 11)

NOTA: O texto "Povos da Oceania: os australianos" não representa, necessariamente, o pensamento deste blog. Foi publicado com o objetivo de refletirmos sobre a construção do conhecimento histórico.

quarta-feira, 1 de outubro de 2014

Povos da Oceania: os tasmanianos

Dança da guerra, Thomas John Grant 

Os europeus, convencidos há muito tempo da unidade espiritual do gênero humano e da superioridade do estado da natureza pura, interessaram-se vivamente pelos indígenas da Oceania. Bougainville e Cook observaram-nos com um interesse apaixonado. Os dois Forster, que acompanharam Cook na sua terceira viagem, criaram assim, com Buffon, a ciência da formação e da classificação das raças, a etnologia.

Os europeus julgaram encontrar-se em presença de raças primitivas, das próprias origens da humanidade. É certo que as tribos se achavam em toda parte na idade da pedra e que os seus utensílios lembravam os dos tempos pré-históricos. Tratava-se, na realidade, não de primitivos, mas de povos que haviam sofrido uma longa evolução, e que, na sua maioria, já haviam conhecido uma civilização superior, encontrando-se em plena regressão à chegada dos europeus.

Com efeito, parece que todos estes povos constituem raças originárias da Ásia Meridional, as quais, vencidas por outras, teriam fugido na direção indicada pelas migrações de certas aves. Ao chegarem aos territórios onde se iam estabelecer, de recursos limitados por se encontrarem isolados há muito tempo dos outros continentes, dispunham de poucas espécies vegetais, de poucos mamíferos. Além disso, por causa da exigüidade das ilhas, teriam rapidamente deparado com obstáculos provenientes da superpopulação, da dificuldade de alimentação, e, portanto, achavam-se expostos a guerras contínuas, à prática do aborto, do infanticídio e do canibalismo, assim como às preocupações imediatas e absorventes com a comida. Foi neste estado que os europeus os encontraram, com tal receio da superpopulação que, em toda parte, o número de habitantes diminuía devido à restrição voluntária dos nascimentos. Não é de espantar, portanto, que as civilizações não se tenham desenvolvido ou hajam mesmo regredido. Levando em conta este declínio, assim como os cruzamentos e as influências recíprocas, pode admitir-se que a Oceania tenha sido, de certa maneira, um “conservatório de raças”.

Os únicos povos a que poderia atribuir-se, segundo parece, o nome de primitivos eram os tasmanianos e os australianos, que se encontravam nos escalões mais inferiores da espécie humana.

Grupo de nativos da Tasmânia, Robert Dowling

Os tasmanianos estavam no ponto mais baixo. Fixados na ilha numa época em que o Estreito de Bass era transponível mesmo pelos navegadores mais medíocres, no pleistoceno médio, antes do degelo dos glaciares que elevou o nível dos mares e quintuplicou pelo menos a largura dos estreitos, haviam vivido num estado de isolamento que é, para as civilizações, a causa mais eficaz de estagnação e de regressão. A sua população, de cerca de 5.000 negróides de cabelos crespos, maxilares muito desenvolvidos, crânios deprimidos, fortes arcadas supraciliares, constituía o conjunto de seres humanos mais próximos dos símios; o seu crânio apresentava a elevação mediana em forma de quilha que é uma das principais características simiescas. Os seus utensílios colocavam-nos no estágio dos paleolíticos inferiores da Europa Ocidental, chelense e acheulense. Ignoravam o vestuário, as casas, abrigavam-se atrás de anteparos de ramagens, viviam da coleta e da caça sem cão. A sua organização social era rudimentar: tinham apenas chefes temporários, eleitos. Acreditavam na sobrevivência da alma e temiam os mortos. Possuíam mesmo certos traços de uma religião superior, um monoteísmo: adoravam um espírito supremo, em relações mal definidas com o céu e os fenômenos naturais. Desapareceram no século seguinte.


MOUSNIER, Roland; LABROUSSE, Ernest. O século XVIII: o último século do antigo regime. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1995. p. 373-375. (História geral das civilizações, v. 11)

NOTA: O texto "Povos da Oceania: os tasmanianos" não representa, necessariamente, o pensamento deste blog. Foi publicado com o objetivo de refletirmos sobre a construção do conhecimento histórico.

domingo, 6 de julho de 2014

Influência da América sobre a Europa

Da América chegaram à Europa diversas plantas novas, que deviam contribuir para transformar a civilização européia, o milho, a batata, o feijão, que, até meados do século XIX, foi o único legume que na Europa nunca sofreu os ataques de praga, pois sua larva não o acompanhara na travessia do Atlântico, o morando graúdo, o tomate, a quina, o amendoim, que se desenvolveu em seguida na África tropical, a coca e finalmente um narcótico leve, o tabaco. Já no século XVII, entre seus intoxicados, gozava o tabaco a fama de afastar as preocupações, de franquear os condutos e facilitar a circulação dos humores, de preservar dos resfriados, de desopilar o baço etc. Em muitos países era um monopólio do Estado e fonte de apreciável recurso fiscal.

Pipestone Quarries, Catlin

Sobretudo, a América alterou profundamente a vida européia com seus metais preciosos e sua repartição, por meio do grande comércio marítimo, entre as sociedades européias ainda apoiadas sobretudo na terra e na agricultura. [...] Lembremos simplesmente que, por sua influência sobre o movimento dos preços, os metais preciosos da América ritmavam toda a vida econômica, social, política e, por intermédio desta, toda a vida intelectual e religiosa da Europa nos séculos XVI e XVII. Toda a vida da Europa ficou em função da atividade das minas da América.

O conhecimento dos índios americanos apenas lentamente difundiu-se e influiu no pensamento. Tomemos o exemplo da França. Inicialmente, os homens do século XVI estavam mal informados a respeito das descobertas. Informações orais chegam com a volta das expedições. Apresentavam um caráter prático, acima de tudo, e não ultrapassavam o setor das cidades litorâneas. Para além recebiam-se apenas vagos rumores. Maior influência tiveram os índios que todos os capitães, nomeadamente, desde 1504, Jacques Cartier e Villegaignon, levaram consigo para provar a veracidade de seus relatos. Em 1550, na festa brasileira dada por ocasião da entrada de Henrique II em Ruão, figuravam 50 Tupinambás e 250 marinheiros capazes de representar o papel de selvagens. Em 1557, Henrique II distribuiu, aos grãos-senhores, indígenas enviados por Villegaignon. Em 1562, em Ruão, três Tupis-Guaranis foram presenteados a Carlos IX. Montaigne tentou conversar com eles por meio de um intérprete. Em 1564, quando da entrada do rei em Troyes, figuravam no desfile os representantes de diferentes nações selvagens. Muitos índios ficaram na França, integraram-se na civilização cristã pelo batismo, na sociedade mediante o casamento. O filho do Rei Arosca, o brasileiro Essonerico, fixou-se na Normandia, herdou o nome, títulos e parte dos bens de seu padrinho Binot Paulmier de Gonneville. Tais fatos provam a aptidão intelectual dos índios para assimilar a civilização européia e testemunham a favor da unidade da espécie humana e de seu futuro. Isto não significa que, se os índios viessem em grande número, a sociedade branca deixaria de ter reflexos de defesa contra estes concorrentes às herdeiras, às terras e títulos, e que esta mesma sociedade não segregasse as raças. De qualquer maneira, estes índios divulgavam certo conhecimento relativo à sua região de origem.

Narrativas de viagem aparecem a partir de 1515. Mas não permitem distinguir claramente que se tratava de um continente novo e as assertivas pareciam confirmar, para o leitor, as narrativas da Idade Média. Jacques Cartier, provavelmente, sem se dar conta disso, sugeriu a Donnacona as afirmativas deste sobre as pessoas que não comem, só têm uma perna e voam de árvore em árvore. Em 1575, o cosmógrafo Thevet declarava que, na América do Sul, havia homens que atingiam 12 a 15 pés de altura. Descrevia, baseado nos companheiros de Magalhães, um animal com cara de criança que apenas se alimentava de vento. E chegava a afirmar ter possuído um destes animais, durante um mês. Tais relatos não exerceram qualquer influência sobre os escritores. O público preferia as lendas medievais ou as descrições do Império Turco e das Índias Orientais. Publicou-se o dobro das obras e dez vezes mais brochuras sobre os turcos, que então ameaçavam a Europa e a cristandade, do que sobre a América.

Os franceses interessaram-se mais pela América quando os projetos de Coligny a fizeram entrar nas lutas religiosas. Mas procuravam nela menos conhecimentos do que material para polêmica e continuaram a interessar-se ainda mais pelo Império Turco e pela Ásia. Entre 1580 e 1609, editam-se 80 brochuras sobre os turcos, 100 sobre os demais asiáticos e 40 sobre a América. Não obstante, as cartas de Nicolas Barre, companheiro de Villegaignon (1556), as obras do franciscano André Thevet (1557-1584), a Viagem, publicada em 1578, do pastor Jean de Léry, que se demorou dez meses na Ilha dos Franceses em 1557-1558, vulgarizaram as informações dadas pelos intérpretes, 20 a 25 franceses que haviam adotado os costumes indígenas e os apresentavam de maneira favorável. Obnubilados pela lenda da idade do ouro, desejosos de dar uma lição a seus compatriotas considerados maus cristãos, os humanistas buscaram nestes escritos, nos de Las Casas e de sua progenitura espiritual, nas conversas, falseadas pelos intérpretes, que puderam manter com os índios levados à França, os elementos da lenda do “bom selvagem”.

Montaigne é o mais notável desses autores. No capítulo “Do Costume”, utiliza os selvagens para mostrar as contradições humanas, escarnecer da família, da propriedade e da religião, declarar os costumes e a moral como outros tantos preconceitos. Recusa-se a ver que não existem contradições, mas simplesmente reações naturais a situações diferentes.

No “Dos Canibais”, declara a sociedade selvagem como a mais pura, por haver permanecido mais próxima das leis naturais. Escreve que os índios não se servem de vinho, que não praticam o comércio, que são dados ao ócio, que dançam para se distrair, que suas guerras são desinteressadas e empreendidas com o objetivo de conquistar glória. Esquece, é claro, sua tendência à embriaguez, sua sodomia, é indulgente para com seus incestos e desculpa sua antropofagia institucional, sob o fundamento de que os europeus, levados pela paixão, chegaram a queimar vivos os seus inimigos. Para ele, os selvagens deveriam servir-nos de modelos: nós é que somos os bárbaros.

O “bom selvagem”, este personagem mítico, que vive em liberdade, seguindo sua natureza, guiado por seu prazer, ocioso, despreocupado inocente, sem malícia, sem propriedade, sem governo, alegre, feliz, estava destinado a uma espantosa fortuna. Caber-lhe-ia abrir caminho para os libertinos Pierre Charron, La Mothe Le Vayer, contribuir para o abalo dos espíritos e para a crise do século XVII, inspirar em seguida os “filósofos” e os anticolonialistas do século XVIII, para triunfar com Jean-Jacques Rousseau. A corrente de ideias provenientes da América contribuiria para orientar a civilização européia, movida pelo ouro e pela prata americanos.


MOUSNIER, Roland. Os séculos XVI e XVII: a Europa e o mundo. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1995. p. 141-144. (História geral das civilizações, v. 10)

NOTA: O texto "Influência da América sobre a Europa" não representa, necessariamente, o pensamento deste blog. Foi publicado com o objetivo de refletirmos sobre a construção do conhecimento histórico.

sexta-feira, 4 de julho de 2014

Influência da Europa sobre a América

No fim do século XVII, a transformação da América pela Europa já era sensível. Os europeus haviam introduzido no Novo Mundo animais e plantas até então desconhecidos: pombos, galinhas, patos, vacas, cavalos, asnos, mulos, cabras, ovelhas, trigo, centeio, arroz, laranjeira, limoeiro, oliveira, vinha. Tinham transmitido o conhecimento de suas técnicas, especialmente a roda e os derivados, todos os instrumentos e mecanismos baseados no movimento circular, uma das bases da civilização do Velho Mundo, e a abóbada, condição das principais construções européias. O aspecto geográfico de muitas regiões americanas já se transformara. Não obstante, as lavouras, os rebanhos, os edifícios e as estradas dos europeus estavam ainda mal disseminados em faixas costeiras, em zonas restritas ou linhas dispersas. O homem branco limitara-se a encetar este gigantesco continente.

O homem branco levara para a América as instituições de seu torrão europeu. Mas, num meio e em circunstâncias novas, tais instituições transformaram-se, dando origem a sociedades diferentes da mãe-pátria, a verdadeiras nações que possuíam todas, em diversas gradações, seus costumes, maneiras próprias de acionar instituições aparentemente análogas às de suas regiões de origem, seus interesses, suas preocupações, um desejo de levar vida própria e de regular por si mesmas seus negócios, um espírito de particularismo e autonomia. Mas tais nações, segundo suas origens e circunstâncias de evolução, diferiam profundamente umas das outras. Desde as colônias espanholas, levadas pela recessão das correntes comerciais a voltar para um regime dominial, senhorial e vassálico, mais próximo da Idade Média europeia do que da metrópole no século XVII, até as colônias inglesas, onde as diversidades religiosas, a livre iniciativa e o grande comércio criaram todas as formas de burguesia, cadinho de experiências políticas que rapidamente ultrapassam as da metrópole, representativos e parlamentares do futuro, passando pelas colônias francesas e portuguesas, em estágios intermediários, estende-se um magnífico campo de pesquisa e reflexões experimentais para o historiador empenhado em compreender as condições de existência dos diferentes regimes políticos.

Incomparável é também o campo de pesquisa aberto pelo contato destas sociedades brancas com os índios e os negros. De fato, nenhuma sociedade branca teve êxito na assimilação e talvez nenhuma tenha verdadeiramente tentado. Negros e índios encontravam-se em níveis de civilização que os europeus haviam sucessivamente atingido na Europa. O problema consistia em levá-los, em algumas décadas, através de todos os estágios percorridos pelos europeus em mais de trinta séculos: e não houve solução para isto. Um resultado do contato das sociedades brancas mais evoluídas com as sociedades índias que o eram muito menos foi a desorganização e a desagregação destas, a redução do número ou o desaparecimento de seus membros. Outro foi a transferência de considerável número de negros da África, a constituição de uma raça inferior, escrava ou desprezada. Os negros puros passaram por incapazes de assimilar a civilização européia, por mansos e sem iniciativa. Aos mestiços, numerosíssimos, concedeu-se uma verdadeira inteligência, mas uma espécie de instabilidade mental. Um resultado considerável foi a transformação das sociedades europeias da América espanhola, portuguesa, francesa, inglesa nas Antilhas e na parte tropical da América do Norte, quer pelos cruzamentos e pelo afluxo de sangue novo, quer pela sua situação de senhores no meio de escravos, ou de senhores chefiando servos. Os hábitos novos daí resultantes e a influência dos povos de cor sobre seus senhores brancos constituem assunto ainda pouco estudado.


A cativa, Eanger Irving Couse

Já esteve em moda opor as colonizações espanhola e francesa, humanas, preocupadas com o indígena, e o seu progresso, o seu porvir, à colonização inglesa, brutal, orgulhosa destruidora do índio. É certo que o governo inglês não demonstrou o mesmo cuidado de assimilação que os governos espanhol e francês. É certo que os colonos ingleses mostraram ser menos aptos a abandonar seus hábitos de espírito e seu gênero de vida, a compreender os indígenas e possuir menos vontade de tentar algo neste sentido, menos facilidade de se unir pelo casamento às mulheres indígenas, uma repugnância em viver a vida dos índios, mais altivez e maior cupidez no lucro. O espírito puritano só complicava as coisas. Thomas Morton, fundador de Mont-Joyeux, foi expulso do Massachusetts porque seus colonos e ele se entregavam, juntamente com os índios, a bebedeiras e a danças endiabradas, à moda índia. O puritanismo viu facilmente nos índios representantes dos Madianitas e Amalecitas dignos de extermínio e no feliz usurpador das terras índias um eleito de Deus. Os franceses, portugueses, espanhóis conviviam de melhor boa vontade com os indígenas. A maleabilidade dos franceses, sua capacidade de adotar os costumes dos índios e para se tornarem bem-vindos em seu meio ficaram proverbiais.

Contudo, mais talvez do que do caráter e da religião, a atitude dos diferentes colonizadores dependeu das circunstâncias e do modo de produção. Nas Antilhas, frente aos negros, os franceses mostraram-se tão racistas quanto os ingleses, embora os negros, via de regra, gozassem de melhor sorte nas colônias francesas. Nas estepes mexicanas, os espanhóis trataram os Chichimecas de maneira semelhante à que os pioneiros ingleses adotaram com os Abenakis ou os Creeks e, mais tarde, os Sioux. No Canadá, os franceses entendiam-se com os índios e, em certa medida, uniam-se às suas filhas, mas os brancos constituíam um punhado apenas e necessitavam dos indígenas. Como teriam procedido, se se vissem, como no Massachusetts, por volta de 1670, em número de 80.000 contra 12.000 índios, com grande necessidade de terras e com os territórios de percurso dos indígenas encravados no meio das lavouras dos brancos? Os ingleses, relativamente numerosos, pouco a pouco repeliram e destruíram os indígenas, tanto mediante o desbastamento do território de percurso onde fugiam os animais de caça, como pela guerra. Os defensores da civilização agrícola multiplicaram-se e privaram de meios de existência, de espaço vital, os praticantes da civilização seminômade dos caçadores, destinados a desaparecerem paulatinamente. Mas os espanhóis, e mesmo os franceses, em geral, subordinaram mestiços e índios a uma sociedade branca dominante e, por outro lado, justapuseram no espaço estas sociedades estratificadas de predominância branca, com tribos indígenas assujeitadas ou protegidas, que permaneceram mais ou menos à parte. Os mestiços subsistiram como indivíduos de segunda categoria, batedores de floresta ou guardas de haciendas ou estâncias. A verdadeira assimilação, a que consistira, para os índios de puro sangue, na adoção de costumes, línguas, trajes, práticas, religião e espírito europeu, reduziu-se a exceções individuais. O problema mantêm-se de pé, para o historiador: a assimilação, desejada a distância pelos homens de gabinete por razões de princípio, crença cristã na igualdade fundamental dos homens, interesse nacional e monárquico, não foi levada avante seriamente, de fato, pelos coloniais. Seria possível?


MOUSNIER, Roland. Os séculos XVI e XVII: a Europa e o mundo. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1995. p. 138-141. (História geral das civilizações, v. 10)

NOTA: O texto "Influência da Europa sobre a América" não representa, necessariamente, o pensamento deste blog. Foi publicado com o objetivo de refletirmos sobre a construção do conhecimento histórico.

sábado, 10 de dezembro de 2011

África, berço da humanidade

Pintura nas rochas de Jabarén, no deserto do Saara, África. São reminiscências do período em que aquela região era fértil.

A mais marcante das singularidades africanas é o fato de seus povos autóctones terem sido os progenitores de todas as populações humanas do planeta, o que faz do continente africano o berço único da espécie humana. Os dados científicos que corroboram tanto as análises do DNA mitocondrial quanto os achados paleoantropológicos apontam constantemente nesse sentido.

Mulher e criança Khoisan

O continente africano, palco exclusivo dos processos interligados de hominização e de sapientização, é o único lugar do mundo onde se encontram, em perfeita sequência geológica, e acompanhados pelas indústrias líticas ou metalúrgicas correspondentes, todos os indícios da evolução da nossa espécie a partir dos primeiros ancestrais hominídeos. A humanidade, antiga e moderna, desenvolveu-se primeiro na África e logo, progressivamente e por levas sucessivas, foi povoando o planeta inteiro. Portanto, as atuais diferenças morfo-fenotípicas entre populações humanas - as chamadas "raças" - são um fenômeno recente na história da humanidade (presumivelmente do final do Paleolítico superior, 25000 a.C. - 10000 a.C.). E a ciência já descartou como anticientífica a ideia de que o morfo-fenótipo possa incidir de algum modo nos processos intelectuais de socialização ou de aquisição/aprimoramento de conhecimentos. [...]

Caçadores Khoisans

A história da espécie humana se confunde com a própria história da África, onde se originaram, também, as primeiras civilizações do mundo. Cada novo descobrimento da paleantropologia ou da antropobiologia no continente africano provoca novas ondas de choques e embates entre os cientistas, pois tais descobrimentos invalidam complexos esquemas teóricos até então tidos como definitivos, complicando ainda mais o quadro das interpretações sobre a evolução humana.

Mulher Khoisan de Botswana

As novas interpretações dos dados científicos remetem à grande complexidade do acontecer humano como um dado essencial e permanente da história. Ao mesmo tempo, geram a necessidade de realizar constantes atualizações da história do continente africano. Essa situação deve ser celebrada, pois enfraquece cada vez mais os velhos mitos e esquemas preconceituosos que chegaram até a colocar em dúvida a própria essência humana dos seres africanos. Ora, a história da humanidade começa precisamente com os primeiros seres humanos africanos, seres dotados de consciência, de sensibilidade, e não somente de inteligência.

Jovem Khoisan

Certa tradição eurocêntrica e hegemônica costuma alinhar o fato histórico com a aparição, recente, da expressão escrita, criando os infelizes conceitos de povos "com história" e de povos "sem história", que, eventualmente, o etnólogo Lucien Levy-Bruhl iria transformar em "povos lógicos" e "povos pré-lógicos". Mas a história propriamente dita é a interação consciente entre a humanidade e a natureza, por uma parte, e dos seres humanos entre si, por outra. Por conseguinte, a aparição da humanidade como espécie diferenciada no reino animal abre o período histórico. O termo "pré-história", tão abusivamente utilizado pelos especialistas das disciplinas humanas, é uma dessas criações que doravante deverão ser utilizadas com maior circunspeção.

WEDDERBURN, Carlos Moore. In: Brasil. Educação antirracista: caminhos abertos pela Lei Federal nº 10.639/03 - Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização e Diversidade: MEC/BID/UNESCO, 2005. p. 135-137.


terça-feira, 20 de setembro de 2011

Idade Média: conceitos e preconceitos

A colheita, Pieter Bruegel

"... não existe uma Idade Média: existem idades médias."
Henri Berr

"O quadripartismo tem como resultado privilegiar o papel do Ocidente na história do mundo e reduzir quantitativa e qualitativamente o lugar dos povos não europeus na evolução universal. [...] Os marcos escolhidos não têm significado algum para a imensa maioria da humanidade [...]". (CHESNEAUX, Jean. Devemos fazer tábula rasa do passado? Sobre a História e os historiadores. São Paulo: Ática, 1995. p. 26.)

De acordo com a historiografia tradicional, a Idade Média foi delimitada por dois grandes marcos, ou fatos históricos, definidos por alguns estudiosos: a "queda" do Império Romano do ocidente em 476 e a "tomada" de Constantinopla, ou Bizâncio [...] pelos turcos otomanos em 1453.

Assim, o período medieval se insere no modelo tradicional de periodização  [...] que se fundamenta numa perspectiva eurocêntrica ocidental. Esse modelo foi elaborado, inicialmente, na modernidade europeia [...], no contexto do Renascimento e do Iluminismo.

Inicialmente, essa divisão [...] apresentava apenas três períodos: Antiga, Medieval e Moderna. A origem dos termos utilizados é filológica [...] e não histórica. O humanismo renascentista do século XV dividiu o latim em três categorias: o latim clássico, o latim bárbaro e o latim dos humanistas. Isso significa dizer que, entre o latim clássico e a sua redescoberta no século XV, houve um período de existência de um latim que fugia dos padrões da Antiguidade Clássica (foi "distorcido" pelos dialetos "bárbaros". Ele foi denominado de latinitas media).

Em pouco tempo, a expressão medievo passou a designar todo o período compreendido entre os séculos V e XV, tornando-se comum a sua utilização entre os humanistas, que não menosprezavam apenas o latim do "período intermediário". Criticavam e contestavam também a arte, a vida religiosa, a filosofia e a organização política e social. [...] toda a Idade Média, a partir de então, foi, de uma maneira geral, percebida de forma preconceituosa, como um período marcado pela superstição e pela ignorância, uma verdadeira "idade das trevas" ou uma "noite de mil anos".

A consagração da expressão Idade Média ocorreu em 1688, quando o humanista alemão Cellarius (C. Kepler) publicou um livro dedicado ao período [...].

As visões que foram construídas sobre a Idade Média variaram ao longo do tempo e modificaram-se de acordo com as premissas de cada época. Assim, para os homens do Renascimento, o medium aevum representou uma longa interrupção no progresso da humanidade.

Esse conceito, predominante nos séculos XVII e XVIII, na verdade um preconceito, resultou da percepção de múltiplos sujeitos históricos da época (religiosos protestantes, soberanos absolutistas, burgueses e intelectuais).

Ainda na segunda metade do século XVIII, à luz do racionalismo iluminista, criticou-se a influência da Igreja Católica no campo político e o forte apelo religioso da época medieval. Voltaire [...] afirmou que "as religiões são como pirilampos, só brilham onde há escuridão". O forte anticlericalismo de vários pensadores iluministas [...] explica, em boa parte, o reforço ao preconceito contra a Idade Média.

Foi apenas no século XIX, no contexto do Romantismo, que se iniciou a "reabilitação" do período medieval, pois as identidades nacionais, tão caras aos românticos, encontravam aí suas raízes.

No entanto, é importante destacar que essa "reabilitação" também foi marcada pelo preconceito, uma vez que se idealizou a Idade Média como a época dos "grandes cavaleiros" e da "nobreza", de seus valores, princípios e sentimentos; do "amor cortês"; da ação "descomprometida" da Igreja Católica, que impunha a ordem através da "trégua de Deus" e amparava os "fracos e oprimidos"; dos "heróis nacionais", etc. Construía-se, dessa forma, um "preconceito às avessas", já que a Idade Média era concebida de forma idealizada [...].

Conforme observou o filósofo alemão Walter Benjamin, "o passado estudado está carregado do presente em que vivem os historiadores".

No século XX, particularmente nas últimas décadas, muitos historiadores se preocuparam [...] com os estudos referentes à Idade Média. Os medievalistas [...] têm sido responsáveis pela revisão de conceitos e pela abordagem de temas até então inexplorados pela historiografia tradicional, tais como a sexualidade, a relação dos homens com a morte, a condição feminina, a infância, os cultos agrários, a religiosidade popular, a feitiçaria, a loucura, etc.

Nessa perspectiva, tem-se construído uma nova visão da Idade Média, sem os preconceitos característicos que até então permeavam [...]. (BERUTTI, Flávio. Caminhos do Homem. Curitiba: Base, 2010. p. 102-104, 107-108.)


Menestréis da Cantiga de Santa Maria. Anônimo espanhol.

"Esta longa Idade Média é [...] o contrário do hiato visto pelos humanistas do Renascimento e [...] pelos homens das luzes. [...] Criou a cidade, a nação, o Estado, a universidade, o moinho, a máquina, a hora e o relógio, o livro, o garfo, o vestuário, a pessoa, a consciência e, finalmente, a revolução". (LE GOFF, Jacques. Para um novo conceito de Idade Média. Lisboa: Estampa, 1980. p. 12.)

sexta-feira, 2 de setembro de 2011

Pizarro: analfabeto, sanguinário e audacioso

Pizarro: analfabeto, sanguinário e audacioso

"A espada, a cruz e a fome iam dizimando
a família selvagem".
(Pablo Neruda, poeta chileno)

Os eurocentristas procuram evitar qualquer tipo de identificação com a América pré-colombiana, apelando para as carnificinas patrocinadas pelos astecas ou pelos incas, à sua impiedade com os inimigos, aos rituais de sangue, colocando a violência dos espanhóis como uma resposta à violência dos americanos.

Os conquistadores passavam o tempo assando prisioneiros em grandes grelhas instaladas em praças públicas, brincavam de tiro ao alvo em crianças, enforcavam os índios nas comemorações religiosas (quanto mais importante era o santo, maior o número de mortos nesse ritual macabro).

Faziam despedaçar mulheres vivas pelos selvagens cães de guerra, mediam o peso e o fio da espada cortando as cabeças dos indígenas, gastavam o ouro e a prata roubados durante os saqueios das populações indígenas apostando quem conseguiria abrir um índio, vivo e de pé, ao meio.

Que tipos de homens eram aqueles que matavam num piscar de olhos, mas eram capazes de penetrar e sobreviver em plena selva amazônica procurando o El Dorado, uma mítica fonte de ouro líquido, protegida supostamente por belas e virgens mulheres guerreiras?

Aqueles homens, famosos por suas perversões sexuais, que faziam com que as mulheres preferissem se suicidar a cair em suas mãos, pois seriam repetidamente violentadas pelas tropas invasoras, suportavam os ventos gelados dos Andes ou o calor sufocante das selvas. Aquelas pessoas venciam a sede, a fome, as flechas dos índios, procurando um metal amarelo, sem muita utilidade para os americanos.

Os conquistadores transportavam a cruz e a espada através da América. A cruz para catequizar pagãos, para afugentar o diabo, para crucificar os índios. A espada para vencê-los. É difícil encontrar uma definição para aqueles homens que, em nome da religião e levados por uma cobiça de aves de rapina, destruíram povos e civilizações em território americano.

O mais sanguinário dos conquistadores espanhóis chamava-se Pizarro. Parte para o Panamá com mais de 50 anos para fazer fortuna, decidindo-se pela conquista do Peru. Será acompanhado por Almagro, que fora abandonado pela mãe na porta de uma igreja. Ignorante como Pizarro, fazem uma dupla perfeita: audaciosos, ambiciosos, valentes, inescrupulosos, dispostos a tudo. O Peru encontra-se numa guerra civil entre dois irmãos que pretendem o trono, o que facilitará a conquista.

Na primeira grande batalha contra o vencedor da guerra civil, Atahualpa, inexplicavelmente, ignominiosamente, tendo tudo a seu favor, rende-se sem lutar, repetindo as atitudes de Montezuma. Pizarro efetua a primeira carnificina. Cento e oitenta homens, com armas de fogo, sacrificam dez mil índios para servir de exemplo. O Império Inca, extremamente centralizado, derruiu quando o poder foi transferido do Inca para Pizarro.

O resto da história é bem conhecido. Primeiro, Pizarro promete ao Inca sua liberdade em troca de uma sala repleta de ouro. Apesar da entrega do metal precioso, o imperador é queimado na fogueira. Seu sucessor, Manco-Capac, se refugia nos Andes e mantém a resistência até 1537. Somente em 1572 a ocupação é garantida com a execução de Tupac-Amaru, sucessor de manco-Capac.

Cortés, dono de grandes minas e latifúndios, morrera na velhice, "multimilionário" como se diria hoje em dia. Cristóvão Colombo terminara velho e esquecido. Pizarro será assassinado por Almagro (que será posteriormente enforcado por esse ato) numa disputa pelo poder e pela repartição de um botim feita irregularmente pelo governador e capitão-geral do Peru.

Ainda que criticando as mortes "desnecessárias" provocadas por "alguns" conquistadores, os eurocentristas continuam insistindo na acidentalidade desses fatos, no saldo positivo, mais que negativo, da colonização europeia.

Defendem que nenhum americano inteligente se identificaria com seres que, supostamente, comiam seus prisioneiros, preferindo carne de crianças inocentes e que, segundo as fantasias de alguns autores, mantinham açougues públicos nos quais vendiam pedaços de carne humana.

Os eurocentristas são incapazes de entender o pensamento pré-colombiano, no qual a natureza devia estar numa perfeita sincronia com os homens e suas instituições. Quando não chovia o suficiente, significava que as autoridades não estavam cumprindo corretamente sua função social, motivo pelo qual deviam ser substituídas. O direito à rebelião contra um governo injusto, defendido na Revolução Francesa, existia desde muito tempo atrás na América.

A ordem jurídica, o movimento do tempo, a fertilidade dos campos, a justiça social, o desempenho do Estado, fazem parte de uma unidade, de uma harmonia geral que devia ser mantida para conseguir paz e prosperidade.

Por que os terceiro-mundistas insistem em identificar a América com esses índios "inertes, indiferentes, sonolentos, tristes, com um claro atraso mental"? Respondem os eurocentristas: por puro populismo demagógico, com claros interesses políticos de ganhar a confiança dessa massa amorfa e tirar seus votos em dias de eleições, ou sustentar através de mitos governos autoritários e corruptos, porque de fato a América teria adquirido consciência de si mesma somente a partir da colonização, quando entrou para a história da civilização abandonando a barbárie.

PEREGALLI, Enrique. A América que os europeus encontraram. São Paulo: Atual, 2011. p. 80-82.

Cortés: um intelectual na conquista da América

Cortés: um intelectual na conquista da América

"E eu vejo que o Reino em breve será destruído
Terá fim do México a soberania!
Eis que me afasto e choro
por ter decretado a este país
ser subjugado e totalmente aniquilado".
(Antigo canto fúnebre mexicano)

O continente americano não terá o nome de seu "descobridor". Tomará o seu de um gerente de banco chamado Américo Vespúcio, que entusiasmado pelo novo mundo passou a se dedicar a escrever sobre as terras encontradas por Colombo. Em 1502 o alemão Martin Waldseemuller fez o desenho do primeiro mapa designando como América o novo continente, nome que se generalizou posteriormente.

Na América confrontaram-se muito mais que duas civilizações materiais; defrontaram-se dois tipos de mentalidade. Quando Colombo se negava a compreender a língua dos indígenas (pensava que esses deviam falar a língua dos europeus e não vice-versa), estava bloqueando qualquer possibilidade de entendimento, de diálogo, de comunicação entre os dois mundos. E quando Montezuma, imperador dos astecas, negou-se a se comunicar com Cortés, que tinha desembarcado em Veracruz, no México, para conquistar seu reino, duas concepções de mundo, duas lógicas de pensamento se afastavam uma da outra.

Por que a conquista deixou os povos pré-colombianos sem história? Nessas sociedades, a memória era preciosa porque nela estavam contidas as técnicas agrícolas, fundamentais para a manutenção e a reprodução da comunidade, bem como o destino de cada um dos indivíduos e do próprio grupo, determinado através de advinhações (o famoso horóscopo) no dia do nascimento, no qual o sacerdote determinava obrigatoriamente qual seria  o destino daquela criança.

Para os astecas a história de sua civilização, que enfrentava os recém-chegados, já estava escrita. O futuro estava preestabelecido: os deuses estavam voltando, fechando-se um ciclo com a destruição inevitável de um tempo e o surgimento de outro.

A destruição dos astecas era inevitável segundo sua religião, fato que teria levado o último imperador, Montezuma, a um imobilismo fatalista, deixando entrar os espanhóis na capital, tornando-se seu prisioneiro quase voluntariamente.

Para eles a interpretação da realidade estava baseada nas advinhações e profecias cíclicas, pontuais, feitas através de técnicas dominadas pelos advinhos profissionais. O horóscopo feito a toda criança que nascia não se destinava a pesquisar seu futuro, mas a determiná-lo. Toda sua vida estaria dirigida para a concentração dessa previsão.

Não existia nesse mundo uma escrita de livre acesso, porque sua leitura exigia uma complexa interpretação de símbolos efetuada somente pelos sacerdotes. Sem eles, mortos pelos espanhóis, os deuses se calaram porque não existiam homens capazes de interpretar suas mensagens, e a sociedade sofreu uma profunda transformação mental. O silêncio significava o fim de um ciclo: a morte dos deuses de Montezuma e a vitória dos deuses de Cortés.

Sem as misturas científicas e religiosas de Colombo não teríamos o descobrimento, e sem Cortés, a conquista. A personalidade desse conquistador é bem diferente da do descobridor. Fidalgo, estudou Latim e Direito na Universidade de Salamanca. Lutou nas guerras da Itália. Vai às Índias em busca de aventura, fortuna e honra. Político, com plena percepção de seus atos, era um homem que sempre procurava informações antes de atuar.

Certamente o pequeno exército espanhol, ainda que mais bem armado, obrigava Cortés a utilizar todos os recursos não militares disponíveis em cada momento de sua viagem rumo à capital dos astecas. Sua firme decisão de não retroceder ficou demonstrada com seu primeiro ato ao pisar o México, que foi queimar os navios e enforcar alguns homens suspeitos de "traição" para evitar toda possibilidade de retorno.

Contara ainda com duas ajudas inestimáveis. A primeira chamava-se Aguilar, náufrago de Colombo que, salvo pelos maias, viveu alguns anos entre eles, e a outra, Malinche, ou Mariana, uma mulher que não somente traduzia como interpretava para Cortés a língua e as atitudes dos astecas.

Mariana, como Colombo, situa-se no meio de uma acalorada polêmica entre eurocentristas e americanistas. Para os primeiros é o símbolo de uma perfeita mistura racial (será amante de Cortés?), o símbolo dos americanos que "inteligentemente" se entregam de corpo e alma à civilização, abandonando o antigo estado de barbárie. Para os americanistas, essa mulher é o símbolo dos traidores de sua raça, que coloboraram com os invasores vendendo sua alma ao diabo.

A vitória militar de Cortés foi favorecida pelo conhecimento prévio das atitudes e comportamentos militares dos astecas, que repetiam sempre o mesmo ritual, mostrando suas armas, o número de homens, seu posicionamento no campo de batalha, tentando persuadir o inimigo a se render sem lutar. Para os astecas o derramamento de sangue era a última opção de uma conquista.

Cortés enfrentara a sempre previsível movimentação das tropas astecas com uma ágil e criativa guerra de movimentos, que se adaptava facilmente ao terreno desconhecido, penetrando em terras sagradas onde os americanos não ousavam penetrar, aumentando suas suspeitas que eram deuses. A percepção clara daquilo com que estava lidando permitiu-lhe direcionar a guerra, proporcionando uma vitória material e subjetiva ao mesmo tempo. Cortés é classificado pela historiografia como o primeiro geopolítico das Américas.

PEREGALLI, Enrique. A América que os europeus encontraram. São Paulo: Atual, 2011. p. 77-80.