"Os espelhos estão cheios de gente.
Os invisíveis nos vêem.
Os esquecidos se lembram de nós.
Quando nos vemos, os vemos.
Quando nos vamos, se vão?"
Eduardo Galeano: Espelhos
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segunda-feira, 12 de junho de 2017

A importância da História

Clio, Giovanne Baglione

* As raízes do presente. A história faz-nos conhecer a nossa própria origem, revelando-nos assim uma parte considerável da nossa existência no tempo. O homem quer compreender-se a si mesmo: é o esforço constante do espírito humano. Quer saber, quem é, de onde vem, e para onde vai. Ninguém pode escapar por completo a perguntas dessa natureza. Mas o homem culto tem a obrigação de aprofundar-lhes o conteúdo e de estudá-las metodicamente. Ora, a filosofia, guiada ou não pela teologia, dá a esse respeito a última resposta ao alcance do homem. A história, porém, encara o homem na sua situação concreta no tempo, num plano inferior, ainda que muito real, mostrando-nos as numerosas raízes que nos prendem ao passado, deixando-nos entrever o caráter próprio da nossa situação atual. Com efeito, o mundo em que vivemos, é o resultado de vários fatores históricos. Pois não morreu o passado junto com os momentos fugidios que o constituíam, mas continua a viver em nós, quer o aceitemos e veneremos, quer o combatamos e rejeitemos. É uma força que não se deixa eliminar da nossa existência. Compreendeu-o muito bem a escola de todos os tempos: para formar cidadãos, para iniciar as crescentes gerações na tradição pátria, para integrá-las no conjunto social, político e religioso, tem-se valido, não só da literatura nacional, como também da história. [...] Evidentemente, são bem diferentes as preocupações das crianças e dos adultos, dos leigos e dos especialistas, ao se dirigirem à história: mas todos procuram nela melhor compreensão do presente, cada um de acordo com o seu grau de desenvolvimento. Talvez não haja outra ciência tão apropriada a popularizar, no sentido bom da palavra, os seus resultados.

* O passado por causa do passado. Não estudamos a história com o fim exclusivo de melhor compreendermos o presente: dedicamo-nos ao passado também por causa do próprio passado. Interessa-nos aí, principalmente a nós, os adultos, não só o factum, mas igualmente o fieri. Os conhecimentos históricos possuem valor intrínseco, podendo-nos livrar, até certo ponto, de uma mentalidade egocêntrica. O homem "a-histórico", encarcerado que está na atualidade, tende a tornar absolutas as normas que encontra no seu ambiente. É homem pouco "experimentado". Os melhores entre nós tentam, porém, escapar às limitações que lhes são impostas pelo espaço e pelo tempo. Já o sabia Homero: elogiava a Ulisses, porque este visitara muitas gentes, chegando a conhecer-lhes a mentalidade. A "esperteza" do herói homérico baseia-se na sua "experiência". Uma viagem por terras desconhecidas pode livrar-nos de certas preverções e alargar-nos o horizonte intelectual, contanto que sejamos abertos e sinceros. O estudo da história é, por assim dizer, uma viagem não pelo espaço, não "horizontal", mas pelo tempo, "vertical", - uma viagem interessante, instrutiva e esclarecedora. [...] Com efeito, pelo fato de nos descortinar a vida humana em tempos remotos, a história nos pode curar de certas tendências egocêntricas, proporcionando-nos um certo relativismo salutar, um bom antídoto contra os dogmas e os preconceitos da atualidade.

* E o futuro? A história esclarece, pois, as raízes do presente no passado. Mas, conhecendo-se bem o presente, que contém os germes do futuro, não será possível predizer-se o futuro, pelo menos nas linhas gerais? Assim a história, vindo a abranger as três partes do tempo, ganharia importância superior a todas as outras ciências. Mas exortam-nos à modéstia as palavras do Padre Vieira, apesar de ser ele autor de um livro que traz o título paradoxal: "História do Futuro", em que diz: "O homem, filho do tempo, reparte com o mesmo a sua ciência ou a sua ignorância: do presente sabe pouco, do passado menos, e do futuro nada". É uma verdade óbvia, entretanto, muitas vezes esquecida por aqueles historiadores e filósofos que sobrecarregam Clio com um ônus que lhe ultrapassa as forças. O político Bismarck, homem pragmático, motejava com as lucubrações dos historiadores-advinhos, dizendo: "Querendo saber com certeza o que não acontecerá, faço-me informar pelo sr. Mommsen do que deve acontecer." O historiador não pode predizer o que há de acontecer daqui a cinco minutos: não é profeta. Quando muito, está mais capacitado do que outros, - celeris paribus, - para fazer um prognóstico, não categórico, mas hipotético. Conhece bem, suponhamos, as tendências vivas do tempo atual em busca de efetividade; conhece muito bem numerosas analogias históricas que lhe mostram soluções possíveis de problemas semelhantes; em suma, entende bem o rumo geral do tempo. Mas aí pára irrevogavelmente a sua ciência do futuro. Pois das tendências atuais conhece forçosamente só uma parte mínima, sempre exposto a enganar-se na avaliação da sua força "existencial". Outrossim, o acaso e as livres decisões humanas, imprevistas e incalculáveis, podem sempre frustrar as tendências mais promissoras e fazer vencedoras as que neste momento se subtraem aos nossos olhos. A história é contrária a cálculos exatos sobre o futuro, porque não admite repetições mecânicas de casos idênticos, mas apenas conhece situações análogas, sempre suscetíveis de desfechos diferentes.

* A historiografia pragmática. Os laços, que prendem o historiador à moral, já datam da Antiguidade: lembremo-nos das palavras ciceronianas: magistra vitae. A historiografia "pragmática", inaugurada por Tucídides e prosseguida até nos tempos modernos, pretendia extrair dos fatos históricos exemplos concretos, inspiradores ou horrendos, para uso de príncipes, estadistas, governadores e militares.

Os modernos já não acreditam, como os antigos, no caráter imperioso dos exemplos tirados da história, porque ela, como diz muito bem Paul Valéry, nos ensina de tudo; estão mesmo compenetrados de que a história, por relatar acontecimentos únicos do passado, é incapaz de nos proporcionar regras de conduta, diretamente aplicáveis às circunstâncias concretas do momento atual.

Mas a história faz muito melhor. Não nos torna prudentes para certa ocasião determinada, ensinando-nos a repetir um ato prudente do passado: torna-nos sábios para sempre. A história é a experiência coletiva da humanidade: alarga-nos o terreno forçosamente limitado das experiências pessoais da vida e do homem. É uma escola de humanismo; nada mais interessante para o homem do que o homem. E a história, no fundo, não fala senão das formas variadas de que se tem revestido o Homem Eterno através dos tempos. Faz-nos assistir às peripécias dramáticas do homem que luta e sofre, vence e sucumbe, mas que, apesar das suas derrotas e decepções, sempre se obstina em nutrir esperanças e construir seu futuro. Na história desenrola-se o drama do eterno Lutador e eterno Sofredor, ao qual não podemos assistir sem experimentar em nós sentimentos e emoções semelhantes aqueles que Aristóteles designou com a palavra "catarse", isto é, "purificação". O júbilo e a miséria de outrora, as esperanças e os temores dos antepassados, as vitórias e as derrotas de gerações há muito falecidas, transformaram-se para nós, observadores das vicissitudes humanas, em conhecimentos e reflexão. Reflexão sobre o que? Sobre a riqueza e a pobreza da condição humana. [...]

Se já não podemos aceitar a história como a pedante, tal como a imaginavam nossos antepassados, ela continua para nós "a mestra da vida", num sentido talvez mais sublime ainda; alarga as nossas experiências e ocasiona nossa reflexão sobre a condição humana. Mas, infelizmente, a magistra vitae, também na sua forma moderna, nem sempre tem alunos dóceis.

BESSELAAR, José van den. Introdução aos estudos históricos. São Paulo: EPU, 1973. p. 106-9.

sábado, 10 de junho de 2017

Civilização X

Cabeça.
Amedeo Modigliani

Os ataques de 11 de setembro de 2001 e seus desdobramentos impuseram renovadas pressões sobre a ideia confortável de que a vida dos cidadãos ocidentais podia melhorar indefinidamente. O perigo de novos ataques, as restrições às liberdades civis, as alegações em prol da tortura, a imensa superioridade militar de um país sobre todos os outros, o flerte com o uso prático de armas nucleares e as fissuras entre os países ocidentais e no interior deles em torno de questões como a "guerra preemptiva" têm gerado preocupações com a aparente fragilidade das instituições que se supõe serem os esteios dos valores ocidentais. Quem conhece a história dos valores democráticos há de lembrar o quão facilmente eles se desintegraram, nas décadas de 1920 e 1930, na imensa maioria dos países. Estamos começando a nos perguntar se a paz e a prosperidade das seis décadas que nos separam de 1945 são o produto da aplicação resoluta dos valores liberais ou apenas uma indulgência propiciada pela prosperidade contínua. Estaria o esmaecimento da lembrança da Segunda Guerra Mundial propiciando o ressurgimento da guerra como instrumento de política?

Onde, então, nessa nova visão do mundo, haveremos de colocar a arte, joia da coroa da nossa civilização? O que pensar quando já não cremos na confortante certeza de Kenneth Clark de que a "grande" arte é a manifestação suprema da civilização? Teria a predominância e ubiquidade das formas de arte popular, como a música pop, o cinema e a televisão, tornado redundante a chamada "grande arte"? Se a pintura, a escultura e a literatura parecem sempre inclinadas a criticar, ridicularizar e dar as costas aos valores predominantes da sociedade, em que sentido poderiam ser, se é que já foram um dia, a celebração da civilização?

[...]

A história, investigação e interpretação do passado baseada em evidências, é também um conceito peculiar ao Ocidente [...] a história depende dos pontos de vista do historiador e do próprio público leitor, cujos interesses influenciam os rumos da pesquisa e do consumo. Todavia, a despeito da recente expansão dos campos de interesse e das abordagens, a história é ainda escrita pelos vencedores. [...] A história do Ocidente escrita por um viciado em drogas condenado a quarenta anos de prisão na Califórnia depois de roubar, pela terceira vez, uma barra de chocolate ou por um lavrador que nunca saiu da sua aldeia na Galícia seria bastante diferente daquelas com as quais estamos acostumados. Tal documento nunca será produzido, tampouco é nosso desejo que exista, mas devemos estar cientes da sua ausência.

O mesmo se aplica à oportunidade da história. Wordsworth disse que a poesia "tem origem na emoção tranquilamente rememorada". A história, também, é escrita depois do fragor da batalha. Nós tampouco temos histórias da civilização ocidental escritas em Oradour-sur-Glane, em Auschiwitz-1944 nem no campo de trabalhos forçados de Kolyma. Como seria uma história cujo ponto de referência - o presente - fosse o portal do inferno? Nunca saberemos. Embora tenhamos relatos pessoais dos sobreviventes, a história não é escrita nesses momentos nem nesses lugares.

A história é também, como disse Harold Wilson a propóstio da política, "a arte do possível". Tudo o que é escrito ou dito pelos historiadores depende, em última instância, de provas materiais e, principalmente, de registros escritos. Sociedades e culturas que não tinham língua escrita estão virtualmente fora do nosso alcance. [...]

[...]

A história é seletiva em relação ao ponto de vista, formação e posição social do historiador, ao momento em que é escrita, à disponibilidade de documentos, à conexão com os grandes temas do passado e à possibilidade de novas revelações e descobertas. Se não há muito que possamos fazer para mudar o curso da nossa jornada através do passado, devemos ao menos estar conscientes das forças invisíveis que guiam os nossos passos.

OSBORNE, Roger. Civilização: uma nova história do mundo ocidental. Rio de Janeiro: Difel, 2016. p. 27-30.

quinta-feira, 8 de junho de 2017

Civilização VIII

A criação de Adão.
(Detalhe do teto da Capela Sistina)
Michelangelo

Se a ideia da "grande tradição" foi posta de lado, o que dizer da retomada, por Freud, da crença agostiniana de que a civilização domestica a fera interior da psique humana? O uso, por Freud, do comportamento do homem primitivo em apoio às suas teorias se revelou uma faca de dois gumes - profícuo no curto prazo, mas vulnerável à investigação sistemática, a qual demonstrou que a maior parte da antropologia eclética de Freud estava mal orientada. A promoção freudiana do inconsciente sofreu não porque o conceito estivesse errado, mas porque ele usou sua ideia do conteúdo do inconsciente para explicar todos os aspectos da vida humana. E embora a psicanálise tenha se mostrado popular entre pessoas moderadamente neuróticas e até aparentemente normais, embora bem de vida, a sua incapacidade de curar problemas mentais sérios prejudicou inevitavelmente a credibilidade das teorias freudianas da mente.

Se, no entanto, colocamos em dúvida as ideias de Freud a respeito da civilização, como explicar a brutalidade das guerras do século XX que ele parecia ter explicado com tanto sucesso? Embora a teoria da "fera interior" tenha auferido considerável prestígio com a carnificina da Primeira Guerra Mundial, uma nova abordagem da psicologia da guerra foi desenvolvida por historiadores recentes. John Keegan afirmou que, entre a derrota de Napoelão em 1815 e a eclosão da Primeira Guerra em 1914, a Europa foi tomando progressivamente o aspecto de um vasto acampamento militar. Não havia nenhuma razão geopolítica para isso, dado que em 1815 a Europa tinha em perspectiva um longo período de relativa paz. Cerca de um século depois, no entanto, "(...) às vésperas da Primeira Guerra quase todos os europeus aptos ao serviço traziam entre seus documentos uma carteira de identidade militar mostrando-lhe quando e onde se apresentar em caso de mobilização geral (...) no começo de julho de 1914 havia cerca de 4 milhões de europeus fardados; no fim de agosto eram 20 milhões e dezenas de milhares já haviam sido mortos".

A cultura militar que vicejava paralelamente à sociedade civil se tornara imensamente poderosa e a guerra surgia como uma resposta automática às dificuldades políticas. Quando, finalmente, as grandes potências foram às vias de fato em 1914, a disponibilidade de milhões de homens equipados com armas pessoais e de artilharia feitas com aço de alta qualidade significava inevitavelmente a destruição em massa de vidas humanas. Keegan mostrou também que o ethos do combate glorioso, da morte digna na batalha e da ânsia de destruir o inimigo faz parte de uma ideia peculiarmente ocidental da guerra - um conflito tão sangrento não teria surgido em outras culturas. Do ponto de vista dos historiadores, as guerras mundiais não foram um retorno da humanidade europeia a um estado primitivo de barbarismo, mas provieram de uma cultura deliberadamente cultivada e promovida durante todo o século anterior.

Esses novos modos de ver a história refletem o nosso entendimento modificado do mundo. Todavia, não apenas eludem a questão "O que é civilização?", como a tornam cada vez mais difícil de responder. A nossa visão de mundo nos apresenta algumas sérias dificuldades. Passamos a acreditar, por exemplo, que as sociedades ditas primitivas têm o direito de continuar existindo tal como são. Que dizer, então, de uma civilização que as destruiu rotineiramente com base em justificativas morais, religiosas e históricas? Se a nossa civilização contém a nossa história e é também a expressão dos nossos valores permanentes, o que nos resta quando esses se nos afiguram tão obviamente em conflito?

Podemos começar a responder a tais perguntas examinando em que nós, a geração atual, somos diferentes de nossos antepassados e por que temos uma visão de mundo tão diferente. [...] Quais são, então, as características particulares do presente a influenciar a visão que temos da nossa civilização?

Nas décadas de 1930 e 1940 era perfeitamente claro o que representavam a sociedade ocidental e a civilização ocidentais. Para um socialista como para um conservador, a civilização era tudo o que Hitler, Mussolini e o Japão imperial estavam tentando destruir, e sua tarefa era, indiscutivelmente, preservar-se. A crença no deus cristão deu lugar à crença no progresso até ser substituída pela urgente necessidade de derrotar o fascismo. Os que lutaram "do lado errado" também o viram claramente quando a guerra terminou. A tarefa imediata dos anos do pós-guerra não era reconstruir a sociedade preexistente - era criar um novo começo. Não obstante, a guerra cobrou daqueles que a viveram um imenso preço em energia emocional e cultural. Depois de um breve flerte com o radicalismo, o Ocidente se aquietou na década de 1950 como uma sociedade política e culturalmente conservadora, ávida por agarrar-se àquilo que já possuía, estática e temente a mudanças.

Os anos 1960 foram, em parte, uma reação contra a atrofia da sociedade subsequente à Segunda Guerra Mundial. A geração que viveu a guerra se sentia aliviada por haver sobrevivido e tido a chance de construir um mundo próspero e pacífico, mas seus filhos e filhas que chegavam à idade adulta queriam algo mais. O anterior sentimento de que fora necessário lutar para preservar a civilização se transformou na nova crença de que fora precisamente a sociedade existente, com suas hierarquias, sua rigidez, seu respeito pela autoridade, sua mentalidade de "o doutor é quem sabe", a responsável pela queda da Europa no turbilhão do conflito. Em Nuremberg, diante de um mundo que se perguntava como foi que cidadãos de um país civilizado como a Alemanha puderam cometer tais horrores, o tedioso bordão era: "Eu só estava cumprindo ordens." Essa frase cruciante se tornou o inverso do lema da nova geração - de agora em diante, ninguém mais devia dar nem receber ordens. A Europa se livrava do militarismo que assombrara o continente durante mais de 150 anos. (Continua no próximo post)

OSBORNE, Roger. Civilização: uma nova história do mundo ocidental. Rio de Janeiro: Difel, 2016. p. 21-3.

quarta-feira, 7 de junho de 2017

Civilização VII

Casa.
Jožef Petkovšek

Se abordagens novas e mais transparentes de temas tradicionais se tornaram populares, o mesmo se deu com o estudo do obscuro e do absolutamente peculiar. A história do bacalhau, do comércio de especiarias, da obsessão holandesa pela tulipa, da busca do método de medição da longitude, do consumo de peixe na antiga Atenas e milhares de outras vêm encontrando públicos entusiásticos. Hoje consumimos avidamente histórias de culturas exteriores à grande tradição: Índia, China, América nativa, Polinésia e Austrália aborígene.

Desenvolvemos também um gosto pela arqueologia do passado histórico e pré-histórico que nos coloca em contato com a rica cultura dos nossos ancestrais até então desconsiderada. O estudo de objetos, como o DNA mitocondrial, os padrões climáticos e vegetativos da Antiguidade, os isótopos preservados na dentição humana e as anomalias geofísicas, revelaram novos e fascinantes aspectos da nossa história.

Quando pedimos aos historiadores que nos mostrem as provas materiais do seu trabalho e nossa ânsia de conhecimento do passado nos leva a tantos atalhos da história, o fio dourado começa a ganhar o aspecto de um rio de tempo com uma miríade de afluentes, córregos, remansos e súbitas corredeiras ou, quem sabe, se assemelhe mais a uma imensa rede de pesca, enrolada até formar uma esfera conectada em todas as direções. A noção de que a civilização europeia, ou antes, de que a própria existência da civilização dependeu da permanência de uma tradição particular estritamente definida começa, em face da multiplicidade do passado, a nos parecer um tanto absurda.

Uma resposta tem sido escrever e falar em civilizações no plural. Autores como Fernand Braudel (A History of Civilizations) e Felipe Fernández-Armesto (Civilizations) escreveram histórias de diferentes civilizações, evitando a tradicional obsessão pelos padrões subjacentes; livros como Worlds Together, Worlds Apart, de Robert Tignor et al., de 2002, se dirigem a um número crescente de cursos universitários norte-americanos de História Mundial que evitam deliberadamente os preconceitos do eurocentrismo. O Choque de Civilizações e a Recomposição da Ordem Mundial (1996), de Samuel Hutingdon, descreve um mundo com várias civilizações distintas e potencialmente poderosas. Em Europe: A History, também publicado em 1966, Normam Davies nos mostra como, passada apenas uma década do colapso da Cortina de Ferro, as histórias da Europa Oriental e Ocidental podem e devem ser unificadas.

O desenvolvimento da velha crença na superioridade moral e intelectual dos europeus ganhou um reforço intelectual com o surgimento do que podemos chamar de história ambiental. O cientista e historiador norte-americano Jared Diamond defendeu convincentemente que a geografia, a topografia, o clima, as correntes oceânicas e os litorais afetaram o desenvolvimento das distintas sociedades - não num sentido vago, mas em aspectos passíveis de investigação e mensuração. Sua pesquisa levou à conclusão de que os europeus se beneficiaram de uma localização que lhes propiciou desenvolver tecnologias com as quais puderam conquistar o mundo. (Continua no próximo post)

OSBORNE, Roger. Civilização: uma nova história do mundo ocidental. Rio de Janeiro: Difel, 2016. p. 20-1.

terça-feira, 6 de junho de 2017

Civilização VI

O gaulês moribundo (detalhe).
Escultura romana do século I a.C. 
Escultor desconhecido

As duas ideias dominantes de civilização - a "grande tradição" do século XIX e a domesticação freudiana, com reverberações da teologia cristã, da fera interior - permaneceram conosco no início do novo século. A imagem de um fio dourado civilizacional emitindo um brilho de luz em meio às sombras da barbárie provou ser, para os historiadores, um símbolo poderoso e duradouro. Em 1999, Christian Meier escreveu que o Estreito de Salamina, onde os atenienses derrotaram a frota persa, foi "o buraco da agulha pelo qual teve de passar a história mundial"; Kenneth Clark se referiu ao período em que o cristianismo "sobreviveu agarrado a lugares como Skellig Michael, um pico rochoso a 30 km da costa irlandesa", como a civilização atravessando "o esmalte dos nossos dentes". Em momentos como esse, o fio dourado se esticou de maneira alarmante, mas não se rompeu. Nossa ligação com a grande tradição foi assim tanto preservada quanto exemplificada.

Também os historiadores invocaram as teorias de Freud para explicar comportamentos brutais como manifestações da fera interior que rompe, de tempos em tempos, a frágil barreira da civilização. Numa recente discussão sobre a Revolução Russa de 1917 e a guerra civil subsequente, Orlando Figes escreveu: "Era como se toda a violência dos anos precedentes tivesse removido o fino verniz de civilização que cobria as relações humanas, deixando expostos os instintos zoológicos primitivos do homem. As pessoas começaram a gostar do cheiro de sangue."

Mas não foram só os historiadores que fizeram uso da noção de fera interior. Artistas, cineastas e, particularmente, escritores de novelas policiais são enamorados da visão freudiana de uma humanidade brutal sob controle das forças civilizatórias. Como comentou P.D. James, os escritores de novelas policiais "demonstram o quão frágeis são as pontes que construímos sobre o abismo do caos social e psicológico".

Nas últimas décadas, esses conceitos e as crenças que os sustentam parecem cada vez mais incertos. Nossas maneiras de estudar o passado mudaram radicalmente, e os modos tradicionais de aprender a história, tão brilhantemente satirizados, já em 1930, por Sellar e Yeatman em seu 1066 and All That, deram lugar a uma abordagem muito mais variada e rica do passado. Nós hoje consumimos história com crescente entusiasmo em livros, filmes, televisão e rádio, mas não queremos que nos digam sumariamente que Napoleão foi bom para a França, porém ruim para a Europa, que Stalin era um monstro e que Elizabeth I foi uma "grande" rainha. Queremos receber informação, narrativas, documentos e testemunhos do passado para então formar as nossas próprias ideias. Sabemos que os acontecimentos nunca são vistos com olhos inocentes e que o preconceito do historiador é a influência dominante na forma como a história é contada. Os historiadores responderam abandonando sua pretensão à imparcialidade e à objetividade; em vez de nos dar somente os resultados, eles agora nos mostram como trabalham e compartilham seus métodos, dificuldades, incertezas e entusiasmos. Num tal ambiente, a renovação da tradição dos "grandes homens" por Kenneth Clark perdeu credibilidade. O que em 1969 tinha o aspecto de uma ousada inovação parece hoje o último suspiro de uma elite aristocrática. (Continua no próximo post)

OSBORNE, Roger. Civilização: uma nova história do mundo ocidental. Rio de Janeiro: Difel, 2016. p. 18-20.

segunda-feira, 5 de junho de 2017

Civilização V

A casa do Fauno.
Frank Fox

O significado da civilização para a cultura hoje dominante no mundo ocidental resta ambíguo em meio a todas essas mudanças. Os autores da Constituição dos Estados Unidos foram homens do Iluminismo totalmente impregnados da tradição clássica, ao passo que os colonizadores europeus usaram a ideia de "missão civilizatória" para justificar a tomada do continente americano e a destruição de sua população nativa. Contudo, os Estados Unidos da América foram fundados em oposição aos valores europeus estabelecidos, tornando-se, particularmente depois das migrações em massa de fins do século XIX, uma sociedade de tipo distinto. A civilização elitista e nostálgica de que falavam os europeus era, sob vários aspectos, uma afronta aos ideais norte-americanos, de natureza populista e progressista. Além disso, a cultura de massas e as formas de arte popular tão ridicularizadas pelos intelectuais europeus nos séculois XIX e XX foram, afinal de contas, criações fundamentalmente norte-americanas. Foi só depois da Segunda Guerra Mundial, quando os Estados Unidos assumiram a liderança política do mundo ocidental, que surgiu a possibilidade de resolução dessas contradições. A civilização se tornou um conceito mais democrático e menos elitista (giro reforçado pelo apreço dos líderes nazistas pela "alta cultura"), portador de um significado ao mesmo tempo vago e inclusivo - a sociedade inteira, não mais as formas de arte da elite, era agora a base da civilização ocidental. Essa abrangência um tanto ampla nos traz de volta ao lugar onde começamos. Retoma-se um conceito que, embora pareça ter perdido parte de sua clareza, conserva, nitidamente, uma extraordinária força política emocional. (Continua no próximo post)

OSBORNE, Roger. Civilização: uma nova história da civilização ocidental. Rio de Janeiro: Difel, 2016. p. 18.

domingo, 4 de junho de 2017

Civilização IV

Partenon.
Vasily Polenov

As teorias de Freud derrubaram a concepção decimonônica da civilização como uma força benigna e demoliram a noção de progresso humano. Embora controversas e tidas como novidade, suas ideias eram, na verdade, um retorno ao pessimismo radical de Santo Agostinho, o pai da teologia cristã no século V. A doutrina católica afirma que nascemos com os pecados herdados de Adão e Eva. Eles são lavados no batismo, mas a qualquer momento estamos prestes a pecar. As palavras de Santo Agostinho "Levantem-se as barreiras criadas pelas leis e a obscena capacidade que tem o homem de fazer o mal e se entregar à indulgência se manifestará com toda força" poderiam ter sido escritas por Freud, cujas ideias agostinianas sobre a civilização mudaram o foco da sociedade para o indivíduo. Desde então, a mente do indivíduo humano tem sido o foco principal das nossas indagações acerca das questões capitais da guerra, da crueldade, do progresso, do ódio, da criatividade e da destruição.

Historiadores mais convencionais tentaram explicar as convulsões europeias mapeando a ascensão e queda das civilizações mundiais. A Decadência do Ocidente, de Oswald Spengler, publicado em 1918, e a primeira parte de Um Estudo da História, de Arnold Toynbee, 1934, inspiravam-se ambos na crença decimonônica de que a história era guiada por leis universais e a tarefa do historiador era mostrar que essas leis se aplicavam a todas as civilizações.

O começo do século XX foi marcado pela chegada de uma nova força bárbara a enfrentar a civilização ocidental - a cultura de massas. Nas décadas de 1920 e 1930, os intelectuais europeus falavam e escreviam, desesperados, sobre o fim da civilização imposto pelas massas urbanas e seus execráveis gostos e hábitos culturais. A civilização só poderia ser preservada por uma pequena elite que produzisse e apreciasse obras de arte além do alcance da maioria. A civilização se tornou, aos olhos de alguns, território exclusivo de uma minoria.

Era de esperar que a Segunda Guerra Mundial, o Holocausto e o Terror stalinista tivessem liquidado, de uma vez por todas, qualquer ideia de progresso humano e dos efeitos benéficos da civilização. Na verdade, justo o contrário aconteceu. Os horrores do nazismo, embora nos tenham levado a questionar a nossa humanidade, deram um novo ímpeto à crença de que os humanos podiam e deviam encontrar o caminho para um mundo melhor. Encorajados pela derrota do nazismo e ávidos por acreditar num mundo de coisas boas, durante uma ou duas décadas os ocidentais retornaram às velhas receitas. Cuidando de evitar afirmações banais de progresso, os historiadores da cultura podiam uma vez mais compartilhar o seu deleite com a "grandeza" dos artistas e filósofos e a beleza das pinturas, afrescos e palácios sem terem necessidade de se perguntar a que preço haviam sido comprados. Ao dar à sua série televisiva de 1969 sobre a arte europeia o título Civilização, Keneth Clark assumiu como seus verdadeiros produtos os grandes artistas e seus magníficos artefatos, desviando deliberadamente a atenção da guerra e do genocídio. (Continua no próximo post)

OSBORNE, Roger. Civilização: uma nova história do mundo ocidental. Rio de Janeiro: Difel, 2016. p. 17-8.

sábado, 3 de junho de 2017

Civilização III

Uma mulher grega.
Lawrence Alma-Tadema

O conceito de civilização ocidental como uma cadeia histórica contínua (ainda que ocasionalmente interrompida) foi reforçado pelo renovado interesse pelos mundos clássico e renascentista. Os cavalheiros eruditos da Grã-Bretanha, França, Holanda e Alemanha dos séculos XVIII e XIX percorreram o continente e viajaram ao sul para desenterrar pessoalmente as maravilhas do passado. Vastas quantidades de cerâmica, estatuária, pedra talhada, pinturas e mosaicos foram recolhidas, e inúmeros museus, construídos nas cidades do Norte da Europa para acomodar as descobertas trazidas do Egito, Grécia, Roma e Florença. Europeus eminentes passaram a encomendar imagens pintadas ou esculpidas de si mesmos usando togas e lauréis romanos, suas casas imitavam os templos gregos, seus clubes e regimentos passaram a adotar lemas latinos. Luminares da filosofia política resgataram palavras gregas, como democracia, e J.S. Mill chegou a declarar que "a Batalha de Maratona foi mais importante do que a de Hastings para a história da Inglaterra". A construção da cadeia histórica desembocou no batismo das inovações da arte italiana do século XV como Renascimento ou Renascença, da cultura europeia, descrição confirmada pela obra magistral de Jacob Burchardt, de 1869, A Cultura do Renascimento na Itália. Com a espetacular expansão da colonização europeia na década de 1890, parecia provável que o mundo inteiro, em pouco tempo, sentiria os benefícios da civilização ocidental.

Essa confortadora concepção de civilização sofreu um forte abalo na Grande Guerra de 1914-18, quando a morte de 10 milhões de soldados e a mutilação e cegueira de incontáveis outros a desmascararam como uma grande ilusão. Conflito entre grupos de nações civilizadas ou entre nações civilizadas (França, Grã-Bretanha, Estados Unidos) e outras que, subitamente, deixaram de sê-lo (Alemanha, Áustria), a guerra de 1914-18 foi, sem sombra de dúvida, tanto quanto os trens a vapor e o David de Michelangelo, um produto da civilização ocidental.

Como pode a civilização chegar a tal ponto? Como foi possível essa quantidade de mortes desnecessárias? A resposta mais convincente a essas interrogações não proveio de historiadores e filósofos, mas de uma fonte totalmente inesperada. Sigmund Freud, cuja visão da psicologia humana começava a se difundir por toda a Europa, tinha uma mensagem alarmante e pessimista para a humanidade. Ele disse a propósito da Primeira Guerra Mundial: "Não se trata de que chegamos tão baixo, mas de que nunca chegamos tão alto quanto imaginávamos."

Os seres humanos, disse Freud, são vítimas dos instintos ignóbeis e brutais herdados de animais e humanos primitivos. A civilização domestica a selvageria animal que mora dentro de todos nós, mas não nos pode livrar dos nossos instintos, que de tempos em tempos rompem a fina camada de verniz e nos levam a cometer atos de extraordinária violência. A explicação de Freud para a carnificina da Grande Guerra forjou a relação entre a psicologia individual e a natureza da civilização e fez da psicanálise o método dominante de seus estudos. A fronteira da civilização já não era um círculo ao redor da Europa Ocidental e Estados Unidos, tampouco um espaço histórico ao redor dos antigos Egito e Grécia e Roma, mas algo que residia dentro de nós. Tornamo-nos, de uma hora para outra, ao mesmo tempo, civilizados e bárbaros. (Continua no próximo post)

OSBORNE, Roger. Civilização: uma nova história do mundo ocidental. Rio de Janeiro: Difel, 2016. p. 15-7.

sexta-feira, 2 de junho de 2017

Civilização II

Gladiadores depois do combate.
José Moreno Carbonero

No século XVIII, época em que se cunhou a palavra civilização, os intelectuais europeus experimentaram um momento de otimismo a respeito da bondade essencial do mundo, da graça de Deus e da capacidade do pensamento racional de classificar todo o conhecimento e resolver os problemas da humanidade. A noção de comportamento civilizado se firmou à medida que a politesse de inspiração francesa convertia proprietários de terras, mercadores e comerciantes (anteriormente dados ao mau hábito de morar e comer com seus trabalhadores) em uma elite portadora de maneiras corretas, quando não refinadas. A cultura cavalheiresca do século XVIII teve o aspecto de uma bem-vinda reedição do espírito de Atenas e Roma, e o otimismo do Iluminismo francês, acabrunhado com a guilhotina e o morticínio das guerras napoleônicas, floresceu novamente nos clubes de cavalheiros britânicos do século XIX. Durante a Era do Progresso e a expansão do Império Britânico, Macaulay, Carlyle e Buckle mostraram que as maravilhas da Grécia e Roma antigas, de Veneza e de Florença tinham uma natureza comum compartilhada com os prodígios da Grã-Bretanha industrial. O historiador vitoriano Henry Thomas Buckle arguiu, em 1857, que a civilização podia ser entendida como uma grande cadeia histórica cujo primeiro elo, a civilização do antigo Egito, "guarda um notável contraste com a barbárie dos demais povos da África". Do Egito, os elos da cadeia levaram à Grécia, depois a Roma, à Renascença, à Reforma, ao Iluminismo e, finalmente, às glórias da sociedade britânica de então. Os membros desse cortejo sagrado eram considerados civilizados; os estranhos, desavindos como bárbaros. O mundo civilizado da época de Buckle não apenas se definia por si próprio, como se dava a missão de "subjugar, converter e civilizar" o resto da humanidade, assim justificando a colonização europeia do mundo como uma salutar combinação de evangelismo e superioridade moral. A fronteira entre o civilizado e o não civilizado era fácil de traçar, embora fosse necessária certa destreza manual para lidar com os marajás mongóis e os imperadores chineses e japoneses: a civilização era branca e cristã; tudo o mais era barbárie. (Continua no próximo post)

OSBORNE, Roger. Civilização: uma nova história do mundo ocidental. Rio de Janeiro: Difel, 2016. p. 14-5.

quinta-feira, 1 de junho de 2017

Civilização I

Toalete de uma dama romana.
Juan Giménez Martín

O termo civilização surgiu na França do século XVIII, mas a ideia ocidental de sociedade civilizada vem da Grécia e Roma antigas. Durante o período clássico, os gregos começaram a se ver como não apenas diferentes, mas superiores a todos os outros povos. Quando, no século V a.C., Heródoto se referia aos "bárbaros", esse era apenas um termo genérico para designar os não gregos. Na época de Aristóteles, cerca de um século depois, os bárbaros e as nações bárbaras já eram definidos por atitudes - o modo de tratar os escravos, a economia baseada no escambo - vistas com reserva pelos gregos civilizados. Os costumes e as práticas culturais tornavam os bárbaros inferiores aos gregos, vistos por si mesmos e, mais tarde, pelos europeus como sinônimos de civilização.

Civilização deriva de civis, palavra latina que significa cidadão. Embora os romanos usassem, em lugar de civilização, a palavra cultura para descrever a sua vida espiritual, intelectual, social e artística, ser cidadão era participar dessa cultura. Tal como os gregos que, sob uma série de aspectos, tomaram como modelo, os romanos se consideravam singularmente cultos. Os conceitos de cultura e civilização se tornaram, pois, retrospectivamente sinônimos. Cercados por bárbaros, os romanos também se viram impelidos a levar aos outros a civilização. Como escreveu Virgílio: "Romanos, é vosso dever governar imperialmente as nações (...) impor o império da paz, poupar os humildes e esmagar os orgulhosos."

A definição de civilização foi recuperada no Ocidente pelos eruditos cristãos dos séculos VII e VIII, como Gregório de Tours e Bede, cujas narrativas dos séculos precedentes mostram o cristianismo seriamente ameaçado antes de triunfar, finalmente, sobre os pagãos. A organização da Igreja, sua cultura e sua aliança com Carlos Magno e quejandos propiciaram que a cristandade latina se tornasse um equivalente assumido da civilização ocidental.

O redespertar do interesse pelo mundo clássico antes e durante a Renascença reacendeu a ideia de uma civilização caracteristicamente europeia com existência anterior e paralela ao cristianismo. Os europeus ocidentais outorgaram a si próprios uma tradição nobre ao adotar a ancestralidade cultural de Sófocles, Platão, Virgílio e Sêneca, além de São Pedro e São Paulo. A descoberta de um Novo Mundo do outro lado do Atlântico e de uma miríade de povos aparentemente primitivos em todas as partes do mundo incentivou os europeus do século XVI a se identificarem ainda mais fortemente com os antigos gregos e romanos - povos civilizados cercados de bárbaros. (Continua no próximo post)

OSBORNE, Roger. Civilização: uma nova história do mundo ocidental. Rio de Janeiro: Difel, 2016. p. 13-4.

sábado, 6 de maio de 2017

La historia

Clio y los niños, Charles Sims

La historia versa sobre la secuencia de acontecimientos que conformaron las vidas que llevamos hoy en día. Es el relato de cómo llegamos a ser lo que somos. Su comprensión resulta clave para el descubrimiento de hasta qué punto podemos cambiar el mundo en el que vivimos. “Quien controla el pasado controla el futuro” es una de las consignas de los totalitaristas que controlan el Estado en la novela de George Orwell 1984: los habitantes de los palacios y los comensales de los banquetes descritos en las “Preguntas” de Brecht siempre se la han tomado en serio.

Hace unos veintidós siglos, un emperador chino decretó la pena de muerte para quienes “utilizaran el pasado para criticar el presente”. Los aztecas trataron de destruir las huellas de los estados anteriores cuando conquistaron el valle de México en el siglo XV, y los españoles intentaron destruir todas las huellas aztecas cuando, a su vez, conquistaron la región en la década de 1520.

Las cosas no han sido tan diferentes en el último siglo. Llevar la contraria a los historiadores oficiales de Stalin o Hitler comportaba penas de cárcel, exilio o muerte. Hace sólo treinta años, a los historiadores españoles no les estaba permitido hacer averiguaciones sobre el bombardeo de la ciudad vasca de Guernica, ni a los historiadores húngaros investigar los acontecimientos de 1956. […]

La represión estatal abierta puede parecer relativamente rara en los países industriales de Occidente. Pero hay métodos más sutiles de control, que son omnipresentes. […]

Los gobernantes llevan desde la época de los primeros faraones (hace 5.000 años) presentando la historia como una lista de “logros” propios y de sus antepasados. Son esos “grandes hombres” los que se supone que construyeron las ciudades y los monumentos, los que trajeron la prosperidad, los responsables de las grandes obras o victorias militares… mientras que, a la inversa, de todas las desgracias en el mundo se hace culpables a los “malos”. Las primeras obras de historia fueron listas de monarcas y dinastías, conocidas como “Listas de reyes”. […]

[…]

Existe otro modo de considerar la historia, en oposición consciente al enfoque “grandes hombres”. Se ocupa de los casos particulares y cuenta su historia, en ocasiones desde el punto de vista de los participantes corrientes. […]


HARMAN, Chris. Historia mundial del pueblo: Desde la Edad de Piedra hasta el nuevo milenio. Madrid: Ediciones Akal, 2013. p. 6-7.

segunda-feira, 10 de abril de 2017

Deodoro da Sicília: a utilidade da História



Em todas as circunstâncias da vida, dever-se-ia acreditar que a história é a mais útil das disciplinas. Aos jovens ela confere a prudência dos adultos. Em relação aos velhos, ela redobra e multiplica a experiência já adquirida. Ela torna simples particulares dignos de governar, e, em relação aos governantes, ela os inclina a façanhas admiráveis pela imortalidade advinda da glória! Graças aos elogios que estes merecerão depois de sua morte, ela predispõe mais os militares a correr os riscos pela Pátria! E desvia os criminosos da senda do mal pelo temor às ignomínias eternas!

Deodoro da Sicília. In: PINSKY, Jaime. 100 textos de história antiga. São Paulo: Contexto, 2009. p. 149.

quarta-feira, 25 de janeiro de 2017

A história da História Antiga 4: Um novo olhar para o passado

Escavação do Templo de Ísis em Pompeia, Pietro Fabris

Na segunda metade do século XIX, a História Antiga recebeu um novo impulso, proveniente da História Natural e do surgimento da Antropologia, da Sociologia e da Arqueologia. Abriram-se novos campos para o conhecimento das Ciências Humanas: a sociedade, a família, a comunidade, a economia, a cultura e a religião. O grande marco dessas concepções foi, sem dúvida, o livro de Charles Darwin, A origem das espécies, publicado em 1859. Mas Darwin era apenas parte de um movimento mais amplo.

A partir dos anos de 1860, a própria noção de tempo sofreu uma mudanã drástica. Para fornecer um contraponto, em 1654, o bispo anglicano Ussher havia calculado a criação da terra no dia 4 de outubro de 4004 a.C. Foi essa noção de um tempo curto que as ciências, no final do século XIX, aniquilaram. Séculos e milênios se abriram. Não apenas para a evolução da vida, mas também para a transformação do próprio homem e da sociedade humana. O homem primitivo, que antes era visto apenas como um contemporâneo atrasado, passou a fazer parte da História de todos os homens. Toda a História passou a ser vista pelo ângulo da evolução, pelas etapas da evolução, pela noção de mudança e de progresso.

A própria ideia de evolução não era nova. Em 1774, o alemão Johann Winckelmann havia publicado sua História da arte da Antiguidade, influente até hoje, na qual organizava a arte grega em períodos e descrevia seu desenvolvimento até o que considerava seu ápice: a arte ateniense do período clássico (século V a.C.). Em 1825, um arqueólogo dinamarquês, Christian Thomsen, havia organizado as coleções de objetos do Museu Nacional da Dinamarca, recolhidas de sepulturas, segundo o que acreditava serem três períodos do desenvolvimento da tecnologia do homem pré-histórico: a Idade da Pedra, a Idade do Bronze e a Idade do Ferro. O catálogo de Thomsen foi extremamente influente, tendo sido traduzido para várias línguas. Criou uma forma de organizar o passado que [...] ainda é importante.

Essas ideias, no entanto, só se tornaram hegemônicas entre o final do século XIX e o início do XX. As mais importantes foram: a ideia de evolução, a de civilização, a de progresso e a da superioridade da Europa sobre o resto do mundo. Elas estão intimamente ligadas ao desenvolvimento tecnológico e à expansão imperialista das potências europeias sobre o planeta. Foi no bojo delas que se desenvolveu outra ideia, que teria consequências dramáticas: a da superioridade racial dos europeus.

Foi nesse período que a História Antiga se tornou o início de uma linha progressiva de civilização. Graças às descobertas arqueológicas no Egito e na Mesopotâmia e à decifração dos hieróglifos e da escrita cuneiforme, alguns estudiosos colocavam o início dessa linha no Oriente Próximo, como o grande historiador alemão Eduard Meyer. Sua História universal foi a última a conseguir reunir, num todo, as Histórias do Egito, da Mesopotâmia, da Grécia e de Roma. Outros historiadores, a maioria, preferiam iniciá-la com o "milagre" grego. Foi então que se consolidou a ideia de que a História do Ocidente era o centro da História Universal e que a Europa capitalista representava o ápice da História mundial, a verdadeira civilização, cujo destino era o de expandir sua cultura superior para o restante do planeta. O Império Romano foi também repensado como instrumento de civilização ocidental. Com suas conquistas, o Império romanizara antigas regiões bárbaras, levando a elas a possibilidade de receberem e aceitarem a civilização greco-romana.

GUARINELLO, Norberto Luiz. História Antiga. São Paulo: Contexto, 2013. p. 21-3.

segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

A história da História Antiga 3: O nascimento da História científica

O Panteão em Roma, Hans Ruzicka-Lautenschläger


O nascimento da História científica coincidiu com o nascimento da História Antiga. Representou a junção das teorias sociais e políticas da época com a leitura crítica das fontes escritas antigas e a sistematização dos repertórios de fontes recolhidas pelos antiquários. A primeira grande obra sobre a História Antiga foi O declínio e queda do Império Romano, do escocês Edward Gibbon, escrita entre 1776 e 1788, que encarava o século II d.C. como a época áurea da humanidade e atribuía o declínio do Império, ao menos em parte, à influência nociva do cristianismo.

Várias ideias novas confluíram na construção da História Antiga como disciplina científica e muitas delas afetam seu ensino até os dias de hoje. A exclusão do Oriente foi uma delas. Em muitas universidades, o estudo da Bíblia, do Egito, da Mesopotâmia e do cristianismo tornaram-se especialidades à parte. A História Antiga passou a ser obra de especialistas, quase sem comunicação entre si. E permanece assim até hoje. Além disso, impulsionada pelo romantismo, a História Antiga tornou-se uma História das nações. Uma nação era concebida como sendo formada por um mesmo povo, com uma mesma língua, uma só ancestralidade, uma cultura comum, um só Estado. Para a maioria dos estudiosos, a História das nações europeias começava na História da nação grega.

Ao mesmo tempo que os modernos Estados nacionais surgiam na Europa, os historiadores da Antiguidade buscavam Estados e nações na Grécia e em Roma. Era inevitável que assim fizessem, pois era assim que concebiam que toda sociedade devia ter se organizado. Mas, dessa necessidade, surgiram dois dilemas, que ainda se refletem no ensino. Nunca houve um Estado grego, uma Grécia na Antiguidade, cuja História pudesse ser narrada de modo contínuo. Os gregos podiam ser considerados como nação, mas sem um Estado único. E Roma era apenas uma cidade, em meio a tantas outras. E no período imperial, quando constituía realmente um único Estado, englobava muitas nações. A História do Império Romano tornava-se, assim, quase impossível, a não ser como a História da sucessão de imperadores individuais.

Essas questões conceituais apareceram nas primeiras Histórias da Grécia, como a escrita por George Grote (1846-1856), ou nas famosas Histórias de Roma, dos alemães Barthold Niebuhr, publicada entre 1812 e 1828, e de Theodor Mommsen (1854-1856). Ambos enfatizavam a História do Estado, dos grandes personagens e das grandes guerras. Não devemos considerá-las crônicas. Representam o conhecimento que se podia ter à época e foram verdadeiros marcos da História científica. Pela primeira vez, historiadores contemporâneos conseguiam interpretar fatos e acontecimentos de mais de dois milênios atrás com mais rigor e precisão que os historiadores antigos.

GUARINELLO, Norberto Luiz. História Antiga. São Paulo: Contexto, 2013. p. 20-1.

sábado, 21 de janeiro de 2017

A história da História Antiga 2: A criação do Antigo

Templo de Vesta, Heinrich Bürkel

A partir do século XII, esses textos passaram a ser cada vez mais procurados e difundiu-se, a partir da Itália, a ideia de que eles representavam algo dferente da cultura contemporânea: eram a herança escrita dos antigos. Muitos pensadores, poetas, artistas e curiosos da natureza começaram a debruçar-se sobre esses textos, extraindo os livros originais das grandes compilações manuscritas. A ideia de que tinha havido um mundo "antigo", anterior ao cristianismo, com uma cultura rica e singular, difundiu-se, aos poucos, pelas cortes europeias e pelos literatos. Essa cultura laica, livre do domínio da Igreja, parecia muito adequada aos novos tempos.

Fornecia novos padrões estéticos, novas formas de pensar as relações entre sociedade e Estado, de valorizar a riqueza e o comércio, de projetar novos futuros. Com a divulgação da imprensa, no século XIV, os grandes livros do "mundo antigo" foram reeditados e voltaram à vida. Autores como Homero, Virgílio, Aristóteles, Plutarco, Tito Lívio, Tácito e muitos outros passaram a fazer parte da cultura erudita por quase todo o oeste da Europa. A queda de Constantinopla para os turcos, no século XV, acentuou a redescoberta de textos gregos, ao mesmo tempo que colocou, de forma dramática, a oposição entre a Europa cristã e clássica e o mundo islâmico.

As antigas ruínas, às quais não se prestava atenção, passaram a ser consideradas testemunhos desse mundo "antigo". Edifícios  foram descritos ou desenhados, estátuas e pinturas foram resgatadas, inscrições foram copiadas, moedas foram colecionadas e formaram-se as primeiras coleções de objetos "antigos". O impacto da cultura erudita, dos sábios e das cortes europeias, foi imenso. É a esse processo que se dá o nome equivocado de Renascimento. Não foi um renascer passivo, mas uma reconstrução profunda da memória, com objetivos bem presentes: rejeitar uma parte do passado mais recente, definindo-o como "Idade Média" ou "Idade das Trevas", para construir uma nova identidade, voltada para o presente e para o futuro.

Todos os grandes cientistas e artistas da Europa moderna viveram intensamente esse processo e contribuíram para ele: Copernico, Michelangelo, Leonardo da Vinci, Cristóvão Colombo, Newton, Galileu, Thomas Hobbes, Camões, Shakespeare seriam impensáveis sem os "antigos". E a lista é infindável. A opção de reconstruir essa memória deixou uma marca profunda no que viria a ser a moderna concepção de Ocidente. A criação do "antigo" foi uma verdadeira revolução cultural que, aos poucos, atingiu todas as camadas da população. O "mundo antigo" tornou-se, assim, um participante ativo e necessário de outras revoluções: políticas, sociais e econômicas, cujas consequências sentimos até hoje.

A redescoberta do mundo dos antigos não conduziu, de imediato, à produção de uma História Antiga como a entendemos hoje. Um respeito profundo pelos textos em grego e latim, assim como pela Bíblia, impedia a leitura crítica dos textos antigos. Os famosos Discursos sobre a História Universal, escritos pelo francês Jacques Bossuet no século XVII, começavam com Adão e terminavam com Carlos Magno, com o qual findava a História Antiga. Não havia, ainda, uma História científica. Essa começou a se firmar entre os séculos XVII e XVIII. Primeiramente com uma batalha cultural: a dos modernos contra os antigos. Esta se deu em todos os campos do conhecimento, das ciências e das artes. Foi o período da cultura europeia que se costuma chamar de Iluminismo.

GUARINELLO, Luiz Norberto. História Antiga. São Paulo: Contexto, 2013. p. 18-20.

sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

A história da História Antiga 1: Introdução

Pompeia, Robert S. Duncasnon

O que hoje denominamos de História Antiga foi, no princípio, um movimento cultural e literário de produção de memória a partir de textos e objetos. Após a dissolução do Império Romano ocidental, a lembrança de um passado pré-cristão foi aos poucos se dissolvendo. Os vestígios materiais do Império eram como ruínas nas paisagens, espaços da vida cotidiana, mas não lugares da memória. Na própria Roma, que fora capital do Império, o fórum era um lugar para o pastoreio de animais e as antigas construções e estátuas eram dissolvidas em grandes fornos para produzir cal. O passado, mesmo o bíblico, parecia comprimido num eterno presente, sem profundidade ou mudança.

Testemunhos dessa visão do passado como imutável são as ilustrações de manuscritos medievais que mostram antigos personagens e feitos com a roupagem e os costumes de sua própria época. Mas o passado não fora simplesmente anulado. Por um lado, ele sobrevivia como trabalho morto, ou seja, como uma série de conhecimentos acumulados que nunca se dissolveram: na arte de forjar o ferro, na agricultura, na arquitetura, nos objetos artesanais da vida cotidiana, nos costumes. E isso, não apenas no que viria a ser a Europa Ocidental, mas por todo o espaço que fora ocupado pelo antigo Império Romano: tanto nas terras do Islã, quanto naquelas do Império de Bizâncio. Por outro lado, esse trabalho morto sobrevivia também como textos escritos, reproduzidos nos códices medievais e mantidos em diversas bibliotecas de particulares, de monastérios, ou mantidos na corte de Constantinopla, em grego, ou ainda preservados em árabe, circulando, sobretudo, no Mediterrâneo.

GUARINELLO, Norberto Luiz. História Antiga. São Paulo: Contexto, 2013. p. 7-8.

sábado, 14 de janeiro de 2017

Quem foram os bandeirantes? (Ou como eles foram vistos historicamente)

A morte do bandeirante, Antônio Parreiras

O imaginário social a respeito dos bandeirantes variou conforme o momento histórico. Nos primeiros tempos do século XVI, eles inspiraram um misto de respeito pela sua coragem, frugalidade e disposição de defender a sua vida contra ataques de índios e piratas. Por um lado, eram famosos pela sua dureza contra os índios que capturavam. Por outro, devido à sua ascendência, revelavam uma boa compreensão dos costumes indígenas e capacidade de se comunicar com índios. Quando foram necessários para as Guerras dos Bárbaros, foram bajulados pelos nordestinos e as autoridades portuguesas.

Bandeirante, Rodolfo Amoedo

A descoberta do ouro no fim do século XVII valorizou ainda mais sua imagem. Porém, esse prestígio logo se enfraqueceu em razão de inveja e competição pelas riquezas minerais. Os testemunhos oficiais do século XVIII os descrevem como “indomáveis”, “arrogantes” e “desobedientes perante a Coroa”.

O século XX reforçou a imagem heroica depois substituída pela de “cruéis destruidores de índios”. A ideia de heroísmo foi alimentada pelos paulistas, que, desde a virada do século XIX para o XX, ascendiam economicamente no Brasil com as lavouras de café e a industrialização; para coroar seu sucesso, resgataram a figura dos bandeirantes como “grandes desbravadores”, “homens corajosos e empreendedores” que, com suas expedições, ampliaram o território brasileiro.

Chefe bandeirante, Henrique Bernardelli

O desgaste da imagem dos bandeirantes no século XX decorreu da valorização dos grupos indígenas e de sua cultura nos meios acadêmicos e em certos órgãos governamentais.

Em termos históricos, o mais adequado é compreendê-los situados em seu tempo [...].


MESGRAVIS, Laima. História do Brasil colônia. São Paulo: Contexto, 2015. p. 34-5.

segunda-feira, 12 de outubro de 2015

Bayle, um historiador imparcial

Retrato do escritor e filósofo francês Pierre Bayle, Louis Ferdinand Elle, o Jovem

Todos os que conhecem as leis da História estarão de acordo em que um historiador, se quiser cumprir fielmente as suas funções, deve despojar-se do espírito de adulação e do espírito de maledicência e colocar-se o mais possível na posição de um estóico, a quem nenhuma paixão agita. Insensível a todo o resto, só deve estar atento para os interesses da verdade, sacrificando a essa o ressentimento de uma injúria, a lembrança de um benefício e até mesmo o amor à pátria. Deve esquecer que está num certo país, que foi instruído numa certa comunhão, que é devedor de gratidão a este ou àquele, que tais e tais são seus progenitores ou seus amigos. Um historiador, no exercício de sua função, é como Melquisedeque, sem pai, sem mãe e sem genealogia. Se lhe perguntarem donde veio, deverá responder: não sou francês, nem inglês ou espanhol; sou habitante do mundo, não estou a serviço do imperador, nem do rei da França, mas somente a serviço da verdade; essa é a minha única rainha, só a ela prestei juramento de obediência.

BAYLE, Pierre. "Projeto de um dicionário crítico". In: CASSIRER, Ernest. A filosofia do Iluminismo. Campinas: Editora da Unicamp, 1992. p. 281.

domingo, 1 de fevereiro de 2015

Visões da história: o Renascimento

Retrato de Fra Luca Pacioli com um aluno, Jacopo de Barbari

Texto 1
[...] Há certas tendências que parecem permear todas as manifestações da cultura renascentista, como um esforço de metodização e racionalização tanto do real quanto do campo simbólico: uma ênfase contínua nas potencialidades, nos recursos e nos limites do corpo e do espírito humanos, um sabor especial pela liberdade e pelo ato libertador. [...]

Mas o campo da divergência é também prodigiosamente rico. Diferença no espaço, entre o Quattrocento italiano antigótico e o Renascimento flamengo, todo assentado sobre o gótico. Diferenças no tempo entre, por exemplo, a produção da arte italiana dos séculos XIV, XV e XVI. Diferenças simultâneas entre homens contemporâneos e conterrâneos, como Leonardo e Michelangelo [...]. É possível considerar como unidade homogênea um movimento que incorpora tanto Giordano Bruno quanto Inácio de Loyola, Rafael quanto Hieronymus Bosch, [...] Maquiavel quanto Erasmo de Rotterdam, Erasmo quanto Lutero? [...]

Não há, portanto, uma experiência histórica renascentista, há várias. Não há um Renascimento, há múltiplos. [...] SEVCENKO, Nicolau. O Renascimento. São Paulo: Editora da Unicamp/Atual, 1987. p. 73. (Discutindo a história).

Paisagem com  a queda de Ícaro, Pieter Brueghel, o Velho

Texto 2
Na Idade Média, ambas as faces da consciência - aquela voltada para o mundo exterior e a outra, para o interior do próprio homem - jaziam, sonhando ou em estado de semivigília, como que envoltas por um véu comum. [...] o homem reconhecia-se a si próprio apenas como raça, povo, partido, corporação, família ou sob qualquer outra das demais formas do coletivo. Na Itália, pela primeira vez, tal véu dispersa-se ao vento; desperta ali uma contemplação e um tratamento objetivo do Estado e de todas as coisas deste mundo. Paralelamente a isso, no entanto, ergue-se também, na plenitude de seus poderes, o subjetivo: o homem torna-se um indivíduo espiritual e se reconhece como tal. BURCHARDT, Jacob Christoph. A cultura do Renascimento na Itália: um ensaio. São Paulo: Companhia das Letras, 2009. p. 145.


O festim dos deuses, Giovanni Bellini

Texto 3
Embora o termo Renascimento subsista, aplicado a um momento ou a um conjunto de manifestações da cultura ocidental, existem hoje mais dúvidas quanto à sua precisão do que no século passado. A tendência atual dos historiadores orienta-se para uma desconstrução desta unidade conceitual e para a análise de suas contradições. [...]

Uma das primeiras dúvidas que surgem no estudo do Renascimento é a da cronologia. Rupturas radicais entre Idade Média e Renascimento, Renascimento e Reforma, Renascimento e Contrarreforma, Renascimento e Barroco, Renascimento e Maneirismo tendem a ser amenizadas. [...]

[...] Se o único sentido do Renascimento fosse o da aproximação do Ocidente cristão com a Antiguidade, esse período não se diferenciaria em nada da Idade Média.

A Antiguidade greco-romana nunca se ausentou do imaginário medieval. [...]

Fundamental, no entanto, é o fato de a sociedade europeia dos séculos XIV ao XVI ter sido suficientemente criativa e peculiar para não necessitar impor-se através de mitos póstumos. Ela própria gerou sua mitologia, numa interação de novidades e continuidades, mais nascimentos do que renascimentos. Michelangelo não vivia em Roma a.C. e sabia muito bem disso. QUEIROZ, Tereza Aline P. O Renascimento. São Paulo: Edusp, 1995. p. 15-16, 20. (Acadêmica, 2).

domingo, 8 de dezembro de 2013

De heróis e de História

Manifesto publicitário da Exposição Internacional de Torino, 1911. Adolfo de Carolis.

Que seria dos americanos sem os heróis da conquista do Oeste? Não a conquista de verdade, aquela que foi feita à custa da devastação de planícies, búfalos e índios, da vitória dos fortes sobre os bons, e dos espertos sobre os cultos, mas aquela que está colada no imaginário das pessoas, a da conquista do indivíduo sobre a massa, do destemido sobre o fraco, do vencedor sobre o fracassado?

Que seria da França sem Joana D’Arc? Não a mocinha esquizofrênica, que ouvia vozes, foi manipulada pelos poderosos e morreu queimada na fogueira depois de ser torturada pela Igreja, mas a “Virgem de Orleans”, cuja pureza é reverenciada até hoje pelos nacionalistas franceses e provocou seguidores tão improváveis como o próprio De Gaulle, que se sentia uma espécie de reencarnação dela.

Nações, religiões e até famílias buscam legitimar, por um passado suposto, seu presente desejado utilizando-se de um recurso que chamamos “uso da História”: se aquilo que de fato aconteceu não é o que se deseja, inventa-se um outro passado... De uma forma até comovente, pelo patético da situação, famílias de imigrantes enriquecidos e celebridades do momento correm atrás de árvores genealógicas transgênicas, que têm por função encontrar uma certa nobreza – acompanhada pelos inevitáveis brasões – entre descendentes de comedores de polenta do Vêneto, camponeses alemães, ou carroceiros poloneses.

As religiões agem mais ou menos do mesmo modo. Não por acaso, tanto Moisés entre os hebreus como Gilgamesh entre os babilônios teriam sido salvos das águas por alguém que lhes propiciou um grande futuro e se tornaram heróis e líderes de seu povo. Não por acaso, no mito da fundação de Roma, a mesma história é recontada com relação a Rômulo e Remo, até na versão irônica de Tito Lívio. A ideia de que a divindade em que acreditamos correu sério risco de vida na infância, ou renasceu após a morte, é um aceno de algo sobrenatural, um milagre que tem por função impressionar as pessoas e levá-las a aceitar as supostas verdades e os dogmas descritos pela religião. Se ela é tão poderosa a ponto de fazer com que mortos renasçam, talvez seja prudente acreditar nela...

Mitos de origem não são, pois, privilégio das nações – já que ocorrem nas religiões e nas famílias -, mas é aí que vemos o passado idealizado ser mais cultuado. Grandes nações não se conformam com um presente brilhante, precisam elaborar uma origem diferenciada, especial. Histórias fantásticas são criadas para sustentar passados desejados, nomes de pais e mães da pátria são repetidos geração após geração, a ponto de fazer parte do imaginário coletivo. Heróis são glorificados (até santificados, como no caso de Joana D’Arc), sua presença é tão viva e próxima que questionar a perfeição deles provoca comoção e revolta entre a maioria de seus adoradores incondicionais. Há mesmo que se tomar certo cuidado ao se discutir a humanidade -, e, portanto, as falhas – desses heróis.

E no Brasil? Os mais velhos haverão de se lembrar de uma série de atividades assim chamadas “cívicas” que permeavam a vida dos estudantes há mais de quarenta anos: estudavam-se os hinos, não só nosso belo, mas longo hino principal, como os da bandeira, da Independência e muitos outros. Nosso pendão (ou lábaro, como se dizia) era hasteado em diversas ocasiões, e as pessoas sabiam de cor o hino apropriado a cada solenidade. [...]

O regime militar, instaurado em 1964, levou esse “civismo” ao extremo, diminuindo as aulas de História e criando uma aberração típica de ditaduras chamada “educação moral e cívica”. Como dizia o nome, o conceito era inculcar aquilo que os militares e seus aliados consideravam moral e cívico, com destaque para a comemoração dos feitos de Caxias e do aniversário do que chamavam de “Revolução” de 31 de março. A imposição criou tal antagonismo que só os puxa-sacos descarados do regime vigente se submetiam ao ridículo de desenvolver o programa “sugerido”, sendo que muitos mestres aproveitavam-se do espaço para, dentro do possível, trabalhar com temas históricos. A tentativa de militarização do civismo resultou, a médio prazo, na negação do próprio civismo, tido e havido como coisa de militares reacionários e chauvinistas. O resultado da ópera é que, confundindo o bebê com a água do banho, as escolas e a população, como vingança, desenvolveram pouco apego à bandeira, não sabem cantar sequer o Hino Nacional e as pessoas acabam não cultivando as representações de identidade nacional. São, de fato, poucos os momentos em que nossa identidade é sentida e exaltada, a não ser por ocasião das finais da Copa do Mundo de futebol ou na última semana de uma telenovela popular (quando todos choram juntos diante da TV). A procura de heróis é tão desesperada que até tentaram transformar um medíocre corredor de fórmula 1 em substituto de Ayrton Senna, tentam transformar ginastas e maratonistas em figuras pop e até modelos de tipo escandinavo em protótipo de beleza brasileira.

Afinal, com todos os defeitos que possam ter tido, figuras como Tiradentes e José Bonifácio dedicaram grande parte do seu tempo e energia em favor de interesses coletivos. Suas figuras podem voltar a funcionar como elementos definidores do nosso passado comum – e a consciência do passado comum é que identifica os cidadãos de uma nação. Claro que junto a esses devemos trabalhar com figuras igualmente representativas de diferentes setores de nossa população, talvez alguém como Zumbi, Anita Garibaldi, elementos representativos das culturas indígenas e dos imigrantes que ajudaram a construir este país, assim como gente de cultura tipo Carlos Gomes e Villa-Lobos, Machado de Assis e Graciliano Ramos, e por aí afora.

Agora, em pleno estado de direito, já é hora de repensar nossos símbolos. Exaltar nossos heróis, oferecê-los como traço positivo de união nacional e motivo de orgulho não precisa ser algo que faça referência a governantes ou mesmo ao Estado. Pode, simplesmente, estreitar os elos entre o povo e sua nação.


PINSKY, Jaime. Por que gostamos de História. São Paulo: Contexto, 2013. p. 43-46.

NOTA: O texto "De heróis e de História" não representa, necessariamente, o pensamento deste blog. Foi publicado com o objetivo de refletirmos sobre a construção do conhecimento histórico.