"Os espelhos estão cheios de gente.
Os invisíveis nos vêem.
Os esquecidos se lembram de nós.
Quando nos vemos, os vemos.
Quando nos vamos, se vão?"
Eduardo Galeano: Espelhos
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sexta-feira, 9 de junho de 2017

Civilização IX

A Última Ceia.
Leonardo da Vinci

É difícil apreciar retrospectivamente a fé incondicional que, no imediato pós-guerra, a maioria das pessoas depositava nos pilares da sociedade e palpável sentimento de choque pessoal e coletivo à medida que, uma após outra, as instituições eram desmascaradas como hipócritas, egoístas e corruptas. [...] 

[...]

Enquanto a geração do pós-guerra se nauseava com a visão da velha ordem tentando calar o mundo, a anterior com certeza se consternava com as traquinagens de seus filhos - o desdém pelas lutas dos mais velhos, a alegre profanação de seus ícones e a suposição fácil de que a riqueza caía do céu. Um dos objetos cênicos mais importantes da peça What the Butler Saw, de Joe Orton, que lotou os teatros londrinos em 1969, era um jarro contendo o pênis conservado de Winston Churchill. Tal iconoclasmo se estendia a tudo que fosse antigo e venerável em se tratando de arte, cultura, educação, edifícios públicos, políticos, generais etc. Era como se os pecados do passado fossem tão grandes que só a faxina em regra e a fumigação da sociedade pudessem redimi-los. Era preciso jogar tudo fora para fazer outra vez.

Essa revolução social coincidiu com o súbito aumento da riqueza, particularmente na Europa Ocidental (os Estados Unidos haviam experimentado esse efeito na década de 1950). O desdém pela autoridade e o desejo de gratificação instantânea foram acicatados pela imensa quantidade de coisas novas e baratas subitamente disponíveis a todos - discos, automóveis, roupas, rádios transistores, máquinas fotográficas, telefones, revistas coloridas, jornais e, acima de tudo, a televisão.

A tecnologia dos anos 1960 não apenas proporcionou um conjunto de experiências melhor, mais colorido e mais interessante, como foi também um meio de evasão de uma sociedade comunal, harmônica e colaborativa. A família já não precisava se reunir à noite, ao redor da lareira, para "criar a sua própria diversão" [...] Com o aquecimento central e as vitrolas e rádios portáteis, cada cômodo da casa podia agora ser usado como um centro de entretenimento privado. De gélidos dormitórios em que só se entrava quando já era noite, os quartos dos adolescentes foram transformados em cálidos refúgios repletos de dispositivos de música, fotografia e emoções provenientes do mundo inteiro. A comunhão familiar foi trocada pela busca da gratificação individual e das novidades da experiência coletiva a distância. Mais tecnologia gerava mais produção e maior poder de compra, tornando as coisas cada vez mais baratas e acessíveis.

Em meados da década, o ardente desejo de ganhar e gastar dinheiro começou a arrefecer na mente de uma parte da juventude recém-liberada. A contracultura gerada em oposição à Guerra do Vietnã começou a virar as costas ao consumismo e ao individualismo e a buscar um novo tipo de comunhão e espiritualidade. [...] a contracultura não tinha muita chance contra os batalhões do mundo comercial e as alegrias mais imediatas de comprar e possuir. O apelo do movimento hippie por uma nova espiritualidade em face do consumismo desenfreado caiu em ouvidos moucos. Nós escolhemos comprar e é o que temos feito desde então. [...]

Essa combinação de consumismo, prosperidade material e desconfiança na autoridade estabelecida nos trouxe uma relação problemática com o nosso passado. É como se tivéssemos ganhado de presente as chaves da caixa-forte junto com o conhecimento de onde proveio o butim. Queremos desfrutar a nossa riqueza, mas também saber como foi construído o nosso mundo - e nos perturbamos com as respostas. Relatos da exploração assassina do restante da humanidade, do esmagamento de outras culturas, do genocídio de nativos por cobiça de suas terras - tudo isso foi absorvido por uma geração cuja desconfiança da ordem estabelecida a preparou para o pior. E o processo continua, inalterável. O genocídio dos quebecois nativos, o financiamento da revolução industrial por meio do tráfico de escravos, a tortura dos prisioneiros argelinos pelo exército francês, os maus-tratos de iraquianos na prisão de Abu Gharib - a cada semana uma nova revelação se soma ao que já sabemos, confirmando as nossas piores suspeitas. [...] Nosso passado guarda histórias individuais de bondade e salvação que, no entanto, só servem para reforçar o vazio moral do mundo em que essas histórias se passam. Na verdade, todo ato heroico engendra a suspeita de motivações ocultas [...] 

Mas o que mais influenciou, talvez, a mudança da nossa ideia de civilização foi a crescente desilusão com a mais poderosa de todas as crenças ocidentais - a ideia de progresso. Nos últimos sessenta anos, os países do Ocidente estiveram em paz uns com os outros e seus cidadãos se tornaram cada vez mais prósperos. Os desenvolvimentos científicos e tecnológicos proporcionaram facilidades de comunicação, comodidades diversas e a expectativa de uma vida mias longa e livre de doenças debilitantes. A legislação incentivou e refletiu uma crescente tolerância para com a diversidade de raças, gêneros e modos de vida. Mas, ao mesmo tempo que essas conveniências tornaram a nossa vida tecnicamente mais confortável, começamos também a entender melhor a natureza ilusória dos nossos ganhos. A degradação do ambiente natural, a destruição da família e das redes comunitárias, o surgimento de novas doenças, como a Aids, a obesidade e as doenças mentais cada vez mais disseminadas entre os jovens, o aumento persistente da drogadicção, a crescente disparidade entre ricos e pobres no Ocidente e entre o Ocidente e o resto do mundo, as incertezas da economia globalizada, tudo isso são claros alertas de que o termo progresso deve ser bastante relativizado. Certos aspectos da prosperidade econômica afetam de maneira ainda mais insidiosa a nossa vida cotidiana. Nas últimas décadas, a economia e a gestão de negócios têm sido aplicadas a todas as áreas da vida. Os governos, as escolas, as universidades, a política habitacional e os hospitais não são os únicos a se sujeitar a uma espécie de tecnogestão [...]; nós mesmos somos continuamente exortados a pensar em nossas vidas como um investimento a longo prazo. Devemos empenhar dinheiro e esforços em nossa educação para ganhar cada vez mais no futuro (e contribuir para a economia nacional) e trabalhar sem nunca perder de vista a necessidade de poupar para a velhice. Foram necessárias décadas de prosperidade econômica para que percebêssemos os custos da sua eficiência. Hoje, o que vislumbramos para os nossos filhos é uma vida inteira de trabalho incessante sem as compensações da vida comunitária e da relação com o mundo natural que pudemos, em nosso tempo, desfrutar. (Continua no próximo post)

OSBORNE, Roger. Civilização: uma nova história do mundo ocidental. Rio de Janeiro: Difel, 2016. p. 23-7.

quinta-feira, 8 de junho de 2017

Civilização VIII

A criação de Adão.
(Detalhe do teto da Capela Sistina)
Michelangelo

Se a ideia da "grande tradição" foi posta de lado, o que dizer da retomada, por Freud, da crença agostiniana de que a civilização domestica a fera interior da psique humana? O uso, por Freud, do comportamento do homem primitivo em apoio às suas teorias se revelou uma faca de dois gumes - profícuo no curto prazo, mas vulnerável à investigação sistemática, a qual demonstrou que a maior parte da antropologia eclética de Freud estava mal orientada. A promoção freudiana do inconsciente sofreu não porque o conceito estivesse errado, mas porque ele usou sua ideia do conteúdo do inconsciente para explicar todos os aspectos da vida humana. E embora a psicanálise tenha se mostrado popular entre pessoas moderadamente neuróticas e até aparentemente normais, embora bem de vida, a sua incapacidade de curar problemas mentais sérios prejudicou inevitavelmente a credibilidade das teorias freudianas da mente.

Se, no entanto, colocamos em dúvida as ideias de Freud a respeito da civilização, como explicar a brutalidade das guerras do século XX que ele parecia ter explicado com tanto sucesso? Embora a teoria da "fera interior" tenha auferido considerável prestígio com a carnificina da Primeira Guerra Mundial, uma nova abordagem da psicologia da guerra foi desenvolvida por historiadores recentes. John Keegan afirmou que, entre a derrota de Napoelão em 1815 e a eclosão da Primeira Guerra em 1914, a Europa foi tomando progressivamente o aspecto de um vasto acampamento militar. Não havia nenhuma razão geopolítica para isso, dado que em 1815 a Europa tinha em perspectiva um longo período de relativa paz. Cerca de um século depois, no entanto, "(...) às vésperas da Primeira Guerra quase todos os europeus aptos ao serviço traziam entre seus documentos uma carteira de identidade militar mostrando-lhe quando e onde se apresentar em caso de mobilização geral (...) no começo de julho de 1914 havia cerca de 4 milhões de europeus fardados; no fim de agosto eram 20 milhões e dezenas de milhares já haviam sido mortos".

A cultura militar que vicejava paralelamente à sociedade civil se tornara imensamente poderosa e a guerra surgia como uma resposta automática às dificuldades políticas. Quando, finalmente, as grandes potências foram às vias de fato em 1914, a disponibilidade de milhões de homens equipados com armas pessoais e de artilharia feitas com aço de alta qualidade significava inevitavelmente a destruição em massa de vidas humanas. Keegan mostrou também que o ethos do combate glorioso, da morte digna na batalha e da ânsia de destruir o inimigo faz parte de uma ideia peculiarmente ocidental da guerra - um conflito tão sangrento não teria surgido em outras culturas. Do ponto de vista dos historiadores, as guerras mundiais não foram um retorno da humanidade europeia a um estado primitivo de barbarismo, mas provieram de uma cultura deliberadamente cultivada e promovida durante todo o século anterior.

Esses novos modos de ver a história refletem o nosso entendimento modificado do mundo. Todavia, não apenas eludem a questão "O que é civilização?", como a tornam cada vez mais difícil de responder. A nossa visão de mundo nos apresenta algumas sérias dificuldades. Passamos a acreditar, por exemplo, que as sociedades ditas primitivas têm o direito de continuar existindo tal como são. Que dizer, então, de uma civilização que as destruiu rotineiramente com base em justificativas morais, religiosas e históricas? Se a nossa civilização contém a nossa história e é também a expressão dos nossos valores permanentes, o que nos resta quando esses se nos afiguram tão obviamente em conflito?

Podemos começar a responder a tais perguntas examinando em que nós, a geração atual, somos diferentes de nossos antepassados e por que temos uma visão de mundo tão diferente. [...] Quais são, então, as características particulares do presente a influenciar a visão que temos da nossa civilização?

Nas décadas de 1930 e 1940 era perfeitamente claro o que representavam a sociedade ocidental e a civilização ocidentais. Para um socialista como para um conservador, a civilização era tudo o que Hitler, Mussolini e o Japão imperial estavam tentando destruir, e sua tarefa era, indiscutivelmente, preservar-se. A crença no deus cristão deu lugar à crença no progresso até ser substituída pela urgente necessidade de derrotar o fascismo. Os que lutaram "do lado errado" também o viram claramente quando a guerra terminou. A tarefa imediata dos anos do pós-guerra não era reconstruir a sociedade preexistente - era criar um novo começo. Não obstante, a guerra cobrou daqueles que a viveram um imenso preço em energia emocional e cultural. Depois de um breve flerte com o radicalismo, o Ocidente se aquietou na década de 1950 como uma sociedade política e culturalmente conservadora, ávida por agarrar-se àquilo que já possuía, estática e temente a mudanças.

Os anos 1960 foram, em parte, uma reação contra a atrofia da sociedade subsequente à Segunda Guerra Mundial. A geração que viveu a guerra se sentia aliviada por haver sobrevivido e tido a chance de construir um mundo próspero e pacífico, mas seus filhos e filhas que chegavam à idade adulta queriam algo mais. O anterior sentimento de que fora necessário lutar para preservar a civilização se transformou na nova crença de que fora precisamente a sociedade existente, com suas hierarquias, sua rigidez, seu respeito pela autoridade, sua mentalidade de "o doutor é quem sabe", a responsável pela queda da Europa no turbilhão do conflito. Em Nuremberg, diante de um mundo que se perguntava como foi que cidadãos de um país civilizado como a Alemanha puderam cometer tais horrores, o tedioso bordão era: "Eu só estava cumprindo ordens." Essa frase cruciante se tornou o inverso do lema da nova geração - de agora em diante, ninguém mais devia dar nem receber ordens. A Europa se livrava do militarismo que assombrara o continente durante mais de 150 anos. (Continua no próximo post)

OSBORNE, Roger. Civilização: uma nova história do mundo ocidental. Rio de Janeiro: Difel, 2016. p. 21-3.

sexta-feira, 14 de abril de 2017

O grande medo: o pânico vermelho

"Haverá uma matança; nós não vamos nos esquivar; terão que acontecer assassinatos; nós mataremos porque é necessário; nós vamos destruir para livrar o mundo das suas instituições tirânicas."

Manifesto anarquista, 1919, EUA

Em 1919, chocados com a onda de atentados a bomba que se espalhou pelo país, promovida por anarquistas e outros simpatizantes comunistas, os cidadãos norte-americanos aceitaram que uma série de direitos e liberdades fossem momentaneamente suspensos ou limitados. Permitiram que o procurador-geral Mitchel Palmer agisse com mão de ferro na captura dos esquerdistas, prendendo-os em massa ou banindo-os da América. Tal como passou a ocorrer a partir dos atentados de 11 de setembro de 2001 ao World Trade Center e ao Pentágono, muitas das prerrogativas individuais dos norte-americanos começaram a ser desconsideradas em vista do clima de insegurança que pairou sobre a nação. Mas como indica a própria história e como os acontecimentos do passado mostraram, as infrações aos direitos lá são sempre temporárias, rápidas como uma chuva de verão.

Cartoon político, 1919. 
Alley

Nem bem Ethel Williams, a secretária de um senador sulista, abriu o pacote, o conteúdo explodiu-lhe no seu rosto. Perdeu os braços, e a vida por muito pouco também não se foi. Era o dia 1º de maio de 1919, data memorável, escolhida pelos anarquistas para darem início à sua grande ofensiva de primavera-verão contra o estado norte-americano. Trinta dias depois, no 2 de junho, foi o próprio procurador-geral da república, A. Mitchel Palmer, homem de confiança do Presidente W. Wilson, quem teve parte da sua casa em Washington atingida por um outro petardo. "Pois bem", teria dito Palmer, "se gostam tanto de Lenin e de Trotsky, vou mandar todos eles para lá."

A casa do procurador-geral A. Mitchell Palmer, depois de ser bombardeado por Galleanist Carlo Valdinoci.
Fotógrafo desconhecido

Entrementes, os Estados Unidos inteiros tremeram. Greves e motins raciais em Chicago tinham como pano de fundo um festival de explosões em Boston, em Nova York e mais seis outras grandes cidades americanas. Os acontecimentos pareciam ter fugido do controle. A vitória dos bolcheviques na Rússia, seguida da derrota dos exércitos contra-revolucionários, acendera a luz verde para toda a esquerda norte-americana. Alucinados, acreditaram que era possível reproduzir na América as jornadas de Petrogrado e de Moscou, onde os guardas vermelhos levaram tudo de roldão. Se bem que a esquerda pró-soviética em geral apostasse nos movimentos de massa, apoiando a formação de sindicatos e o sufrágio feminino (recentemente aprovado), eram os anarquistas quem lideravam os desatinos.

Cinco policiais e um soldado com rifle na comunidade de Douglas, Chicago, durante a revolta de 1919. 
Foto Chicago Daily News

Numa só batida, a polícia encontrou 38 bombas. O temor impregnou a sociedade americana; o Red Scare, o Pânico Vermelho, tomara conta dos espíritos. Não demorou muito para que Palmer concentrasse enormes poderes. Se bem que o Congresso tivesse rejeitado uma legislação que fixava em vinte anos de prisão e pena para quem atentasse contra instituições americanas, estabelecendo ainda uma multa de vinte mil dólares para quem atacasse prédios públicos, Palmer, em sua ofensiva, infringiu a I, a IV, a VI, a VIII, a IX e a XIV emendas. As tão celebradas garantias individuais, orgulho maior dos americanos, logo viraram letra morta. A polícia de Palmer, reforçada pela contratação do jovem Edgar J. Hoover, que mais tarde seria o mandão do FBI, não se embaraçava por nada. Portas arrombadas, invasões ilegais, tiros para todos os lados, detenções arbitrárias - não houve o que os caçadores de comunistas e anarquistas não infringissem. O procurador-geral não queria perder tempo em distinguir quem era um esquerrdista ativo ou não. Prendeu todos. Legalmente amparado nos porretes jurídicos do Spionage Act de 1917 e no Sedition Act de 1918, num só dos seus Palmer Raids, um arrastão policial feito no dia 7 de novembro de 1919 para "comemorar" o segundo aniversário da revolução russa de 1917, levou dez mil para as cadeias. Foi a maior detenção em massa ocorrida na história dos Estados Unidos em tempos de paz. No ano seguinte, em janeiro de 1920, chegaram a mais de seis mil os encarcerados. Nenhum deles fora acusado formalmente de nada. Bastava serem suspeitos.

Anarquistas, comunistas e radicais reunidos no porto de Nova York para serem deportados, 1920.
Fotógrafo desconhecido.

Pessoas comuns foram sentenciadas a vários meses de cadeia por delito de opinião, tal como elogiar Lenin numa conversa de bar. Algo até então inédito no país. Mas a mão do xerife Palmer não abateu apenas a esquerda. Como a maioria dos anarquistas eram imigrantes italianos e os comunistas eram de origem judaica, os bairros latinos e judeus foram devastados pela fúria policial, alimentada pela histeria dos cidadãos anglo-saxões. "Carcamanos", "traidores de Cristo" era o que se ouvia em todas as partes. Situação que de alguma forma criou o clima para o célebre caso Sacco-Vanzetti, que logo iria eletrizar os Estados Unidos e o mundo (os dois italianos anarquistas foram acusados de assalto seguido da morte de um policial num crime ocorrido em Boston, em 1920).

Protesto para salvar Sacco e Vanzetti, Londres, Inglaterra, 1921. 
Fotógrafo desconhecido

No porto de Nova York, em dezembro de 1919, 249 esquerdistas pró-soviéticos foram embarcados à força no Buford, um barco de transporte da marinha de guerra. Palmer cumpria a sua promessa. Que fossem para a Rússia. A bordo da "Arca Soviética", como logo a imprensa o denominou, estava a nata da inteligência anarco-comunista daquela época, gente como a líder feminista Emma Goldman, Alexander Berckman, Mollie Steimer e tantos outros. Era o presente de Natal, disse Palmer, que os Estados Unidos mandavam para lenin e seus comparasas. Que fizessem bom proveito dele.

Emma Goldman abordando uma multidão na Union Square, em Nova Iorque, 1916.
 Fotógrafo desconhecido.

Em 1921, a coisa acalmou. Gradativamente os direitos civis foram recuperados, e a ordem constitucional reassumida na sua plenitude. A era louca dos Anos de Jazz começava. O som do trompete e do saxofone, do piano e do banjo tomou conta dos salões de dança. Se bem que a Lei Seca começasse a vigorar em 1920, isto não pareceu ter estragado a festa de ninguém. O Grande Gatsby, o herói de Scott Fitzgerald, abria os salões na sua mansão em Long Island, mandando acender uma luz verde no embarcadouro na esperança de atrair para si a bela Daisy Buchanan. O perigo passara, a vida continuava. Mitchel Palmer, homem de ocasião, não foi adiante com sua carreira política. Pior deu-se com Emma Goldman. Ao ver a terrível máquina que os bolcheviques criaram, testemunha do aplastamento da revolta dos marinheiros anarquistas da Fortaleza do Kronsdat, deixou a União Soviética em 1921, apontando-a como "a maior desilusão da minha vida".

SCHILLINGH, Voltaire. América: a história e as contradições do império. Porto Alegre: L&PM, 2004.p. 151-3.

sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

A arte homoerótica de Charles Demuth

Banho turco com autorretrato, Charles Demuth

Dois marinheiros urinando, Charles Demuth

Três marinheiros, Charles Demuth

Três marinheiros urinando, Charles Demuth

Um ar distinto, Charles Demuth [Um casal homossexual, composto por um marinheiro e um distinto cavalheiro emociona os visitantes pela "ousadia"]

Banho turco, Charles Demuth

Quatro figuras masculinas, Charles Demuth

Marinheiros dançando, Charles Demuth

A cantora de jazz, Charles Demuth

Banho turco, Charles Demuth

Quatro figuras masculinas seminuas, Charles Demuth

Dois marinheiros urinando, Charles Demuth

quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

Dos almofadinhas a Tarzã: ser homem!

Dois jovens descansando, Adolf Hölzel

Gilberto Freyre foi pioneiro em afirmar que, numa sociedade patriarcal, o corpo era marcado por diferenças de gênero. “Cada um como cada qual”, dizia o ditado popular. Nada de equívocos. Bordões como “a mulher que é, em tudo, o contrário do homem” sintetizavam as formas de pensar. Curvas, cabeleira comprida e adereços eram coisas femininas. Por seu lado, o homem moderno foi construir sua masculinidade. Masculinidade não mais fundada apenas na coragem e na honra, como no século anterior. Emergiam novos comportamentos: a palavra tomava o lugar do gesto, a competência se sobrepunha à dominação e a mediação substituía o confronto. Renunciava-se aos duelos, abandonava-se a faca, forjava-se um ideal novo: o homem educado, senhor de suas paixões, com hábitos burgueses deveria tomar a frente da cena, tornando-se um trabalhador útil ao país. Ele se vestiria de negro, impondo a formalidade. Acessórios? Só alfinetes de gravata, relógios, abotoaduras, chapéus e guarda-chuva. Nas mãos, a aliança. O bigode ou outras pilosidades faciais marcavam, nos rostos, a maturidade sexual. O esportista, no campo de futebol,  nas águas da piscina ou no ringue, ou o militar, em tempos de guerras, cada qual no seu uniforme, fazia suspirar as moças. Os espaços masculinos também se ampliavam. Escritórios, bares ou sindicatos alimentavam redes de sociabilidade e consumo. Jornais e revistas expandiam o espectro de possibilidades: idas ao Jockey Club ou aos estádios. Consumo de Dynamogenol ou NutrioN para aumentar as forças “nas lutas da existência”. Praias e piscinas esculpiam os corpos masculinos por meio do fisioculturismo, colorindo-os com “raios de sol”.

Levantando pesos com um braço, Eugène Fredrik Jansson 

A valorização da força física como fator de desenvolvimento da sociedade engendrava outras formas de práticas, agora também fundadas em conceitos estéticos. O corpo musculoso e forte tornava-se signo de beleza e era revelador de boa saúde. Entrava em cena halteres e pesos. Valores como resistência, autoridade e competição simbolizavam a afirmação da masculinidade.

Puxando peso com os dois braços, Eugène Fredrik Jansson 

Tais mutações escoravam-se nas mudanças econômicas. A prosperidade alimentava os sonhos de ascensão social. Junto a isso, havia a aspiração de alargar horizontes e formar melhores brasileiros. Na vida privada, a atenção crescente dada à família, aos filhos e ao casamento exige uma adequação entre a casa e a rua. Isso porque a imprensa promovia a nova masculinidade, associando-a a “caráter, trabalho duro e integridade”. O bom macho era também bom pai de família e provedor.

O trabalho, Pierre Puvis de Chavannes

Na contramão desse ideário encontravam-se os homens que fugiam às regras na conduta e na indumentária. Qualquer sugestão de feminilidade era ferozmente perseguida. Revistas como a Selecta ou a Fon-Fon, entre os anos 20 e 30, ridicularizavam as “figuras dúbias” de “almofadinhas e libélulas” com “cabelos lustrosos e rosto polvilhado”. Representantes de uma época decadente, tais homens eram vistos como doentios e indecorosos: “gostam de usar calças muito apertadas, para que lhes vejam o arredondamento das nádegas”, denunciava o médico Ernani de Irajá. Eram o oposto do “burguês bem-sucedido”.

Nu reclinado, Carlos Baca-Flor

Discussões sobre a origem ou as causas dos “estados inter-sexuais” apaixonavam médicos. Havia quem tentasse explicar os “missexuais” ou a mistura dos dois sexos em um. Mas não importavam as interpretações. A homossexualidade era considerada, além de imoral, uma anormalidade. Durante os anos 30, o médico Leonídio Ribeiro consagrou-se graças a estudos sobre endocrinologia, relacionando-a com as “anomalias do instinto sexual”. Estas seriam o reflexo de mau funcionamento das glândulas. O remédio era o transplante de testículos, inclusive de carneiros ou de grandes antropóides. Afinidades entre homossexualidade e criminalidade? Todas. O crime era uma decorrência da paixão que “invertidos” nutriam entre si. Num quadro de guerras mundiais e de reforço do nacionalismo, homossexuais transformavam-se em bodes expiatórios.

Nu masculino, Lucílio de Albuquerque

“O homossexualismo é antissocial. É a destruição da sociedade; é o enfraquecimento dos países [...] a maioria dos pederastas não se casa, não constitui família; portanto, não contribui para o engrandecimento, para o desenvolvimento da sociedade e do país. Se o homossexualismo fosse regra, o mundo acabaria em pouco tempo”, apregoava o médico Aldo Sinisgalli. A repressão e o preconceito contra a diferença só faziam aumentar.

O mundo masculino defrontava-se, assim, com novas dimensões que o obrigavam a adotar uma forma ideal. A exibição corporal incentivada pelos novos tempos deveria expressar os papéis sociais aceitos para homens e mulheres. Eles deviam demonstrar atitude, atividade, postura propositiva; elas, ao contrário, apenas leveza e suavidade. Elaborava-se a masculinidade contrastando-a com a feminilidade. E o cinema, notadamente o americano, só veio jogar água no moinho das diferenças de gênero. O espetáculo do herói e o culto ao corpo alimentavam códigos estéticos que bombardeavam os machos brasileiros com estereótipos.

Balneário naval, Eugène Fredrik Jansson

Segundo alguns autores, Hollywood ajudou a construir não só comportamentos adequados como também uma identidade nacional, no início do século X. Tratava-se da difusão de ideais e da utilização de heróis como força de expressão. Nas telas, eles encarnavam a revanche da guerra, a condenação aos desajustes da sociedade, os guerreiros virtuosos do esporte.

Atletas começam a participar de filmes como atores, entre os quais Johnny Weissmuller, ex-atleta de natação e o mais famoso Tarzã, além de alguns famosos lutadores de boxe. Encarnando a imagem de “lutadores”, ainda tinham que ser sexualmente ativos e sustentar financeiramente a família, exercendo a autoridade e o poder – quando não a força e a violência física – no meio familiar e no trabalho. Marcas corpóreas como cicatrizes, cortes, arranhões, tatuagens, mutilações comprovavam o desempenho do homem em sua trajetória de heroísmo; eram provas de uma história exibida com orgulho, impondo respeito. Eram as demonstrações concretas da valentia e da luta, base da cumplicidade entre machos e contraste com os corpos de pederastas e “missexuais”.

Nu masculino, Lucílio de Albuquerque

A questão da virilidade associada às lutas físicas ou morais expandia-se nas metáforas lingüísticas utilizadas constantemente nos conflitos: “mostrar o pau”, “meter o pau”, “botar o pau na mesa”. O órgão masculino era comumente definido como “pau”, “porrete”, “pistola”, “canhão”, “espada”.

Ginasta de anel, Eugène Fredrik Jansson

Essa ideia de virilidade surgia ainda nos esquemas maniqueístas típicos dos filmes de então. Neles, o oponente, representado como cruel, desonesto e supostamente mais bem treinado, mais forte e com mais condições de vitória, desfilava com um sem-número de mulheres retratadas como fúteis, mais interessadas em seu físico e em seu dinheiro do que em algo “sério”, como a constituição de um lar. Ao mesmo tempo, as mulheres “honestas” sabiam que seu papel era servir de apoio para a carreira do marido, um herói, e não se prestar ao papel de “pistoleiras”. Para a figura feminina, recuperava-se a velha oposição entre mães e prostitutas, dualidade característica da sociedade patriarcal.

Homem jovem nu, Eugene Frederik Jansson

Isso não foi tudo. A partir dos anos 40 e 50, revistas como O Cruzeiro apostavam nas notícias sobre esse novo homem identificado com as mudanças do tempo. Tópicos sobre concursos de fisioculturismo pipocavam: “Bonitões em desfile”, anunciava o Campeonato Nacional de Melhor Físico de 1949. A manchete “Músculos em revista” tratava do 1º Campeonato Nacional de Levantamento de Pesos e a escolha do Melhor Físico de 1950. As matérias eram ricamente ilustradas com fotos, ressaltando-se os “atletas” em diversas poses e em trajes mínimos, impressionantes até para os dias de hoje. A intenção da revista era explorar a sensualidade de corpos masculinos, algo, diga-se, definitivamente novo!

PRIORE, Mary del. Histórias íntimas: sexualidade e erotismo na história do Brasil. São Paulo: Editora Planeta do Brasil, 2011. p. 155-159

domingo, 11 de maio de 2014

A 1ª Guerra Mundial: As batalhas nas negociações de paz [Parte VIII]

A chegada dos alemães, George Wesley Bellows

A paz havia chegado, mas o que isso significava Todas as nações a desejavam, cada uma em seus termos. Mais de um ano antes do fim da guerra, os planos de paz começaram a surgir. Em agosto de 1917, o papa Bento XV esperava que as fronteiras voltassem a ser as mesmas que existiam antes dos conflitos. Em janeiro de 1918, o presidente Wilson apresentou em Washington seus Catorze Pontos (e uma piadinha da época dizia que só um professor exigiria tantos pontos assim). Wilson queria um parlamento mundial permanente e uma Liga das Nações que pacificasse e sanasse problemas. A ideia não era originalmente sua, mas ele lhe deu força. Queria uma paz branda, para o perdedor.

Oito meses mais tarde, na casa de ópera de Nova York, com milhares de rostos ansiosos diante de si e o fim da guerra quase à vista, Wilson apresentou sua opinião que certamente não impressionou os franceses. Deixando implícito que a França, em especial, deveria perdoar e esquecer, defendeu um tratado de paz em que houvesse clemência. Conclamou as grandes nações vitoriosas a, uma vez terminada a guerra, oferecer “justiça imparcial” e rejeitar o egoísmo econômico. Por alguns meses, aos olhos de centenas de milhões de pessoas, ele pareceu falar em nome de quase todos os povos do mundo e até mesmo dos muitos soldados que jaziam silenciosos em seus túmulos.

Um mês após o fim da guerra, o presidente partiu para a Europa. Louvado como o estadista que distribuía remédio para um mundo doente, foi bem recebido na França e depois na Inglaterra, mesmo por aqueles que não entendiam perfeitamente o conflito entre aquela mensagem e suas próprias atitudes. Ao chegar a Roma e Milão, Wilson viu cartazes que diziam “Boas-vindas ao deus da paz”. Quando, por fim, o poderoso líder chegou à conferência de Paris, era como se um halo brilhasse em torno de sua cabeça. Esse halo, no entanto, não era visível para outros grandes estadistas. Clemenceau, a voz da França, então com 77 anos de idade, apesar de tratar o visitante de maneira cortês e mesmo afetuosa, achava que a mensagem de Wilson nada tinha a dizer ao povo sofrido da França.

Líderes das nações vencedoras, reunidos em Paris para longas discussões, estavam menos interessados do que Wilson em sua ideia de uma paz justa e boa. Tendo carregado o fardo e sofrido as dores de uma guerra longa, queriam uma compensação consistente da Alemanha e da Áustria. Em Paris, os vencedores queriam dividir a área central da Alemanha, o que acabaram fazendo. E desejavam tomar todas as suas colônias, o que também fizeram. Tendo confiscado sua marinha e dispersado seu exército, impuseram uma imensa multa à Alemanha, chamada de reparação, como reembolso de parte dos custos da guerra. Como, em 1871, a Alemanha tinha imposto uma paz cruel à derrotada França, esse novo tratado de paz assinado em Versalhes em 1919 repetia o mesmo espírito punitivo. A pena de 1919, no entanto, foi ainda mais severa.

O tratado de paz insistia – de maneira não muito lógica nem justa – em que a Alemanha e o imperador Wilhelm II eram os únicos culpados pela guerra. Muitos alemães sentiram-se traídos, e como razão. Lembravam-se vivamente de que, antes da assinatura do armistício, o próprio Wilson lhes havia prometido uma paz justa. Essencialmente, em sua fala expressiva, o presidente havia feito uma série de promessas sinceras, mas irresponsáveis, as quais suas mãos atadas não poderiam cumprir.


A assinatura da paz no Salão dos Espelhos, Versalhes, 28 de junho de 1919. William Orpen

A Europa se alegrava com a paz, mas esta era diferente da que havia antes de 1914. A guerra tinha desfeito as ligações de comércio, destruído milhares de vilarejos rurais, devastado extensas áreas de pasto e plantações, matado milhões de cabeças de gado, avariado centenas de ferrovias e pontes e afundado mais navios cargueiros do que existiam no mundo em 1900. Os problemas se manifestavam em todas as facetas do dia a dia, especialmente no Leste Europeu. Em 1919, o leite era tão escasso nas cidades que crianças pequenas morriam e a alimentação da maior parte das pessoas não continha gordura. Em muitos distritos, não se semeava. No primeiro inverno pós-guerra, muitas pessoas não possuíam botas nem sapatos e não conseguiam comprar carvão para seus fogões, uma vez que pouco transporte era feito nas ferrovias danificadas. Essas foram observações extensivamente registradas pelo diretor britânico de auxílio humanitário, sir William Goode, que trabalhou no Leste Europeu em 1919. Ele percebeu o contraste entre "os ricos nervosos e os pobres esfomeados", especialmente em Viena.

Ao mesmo tempo, outro mal ainda mais devastador ocorria. Um novo surto de gripe, iniciado nos campos de batalha da França em 1918, espalhou-se pelo mundo. Atingiu até mesmo grupos de aborígenes, em lugares remotos da Austrália, e assentamentos nas selvas africanas e sul-americanas. Matou milhares de pessoas na Índia. Apareceu em navios em alto-mar. Chamada de gripe espanhola, fez mais vítimas do que a Primeira Guerra Mundial.

Um tratado de paz desenhado a muitas mãos - e punhos também - é inevitavelmente um labirinto de meios-termos e um conflito de princípios. Uma vez assinado o tratado em Versalhes, Wilson teve de convencer os próprios compatriotas a acatá-lo. Teve de persuadir a população de que a Liga das Nações, prestes a ser constituída, seria benéfica para os Estados Unidos tanto quanto para a Europa e o resto do mundo. Aos olhos de uma nação com forte tradição de isolacionismo, orgulhosa de haver crescido graças principalmente aos próprios esforços e desejosa de permanecer dona de seu nariz, a liga parecia um tanto ameaçadora.

Wilson voltou para casa confiante de que seu país seria o mais influente na Liga das Nações. A opinião pública em geral estava com ele, e 33 governadores o apoiavam, mas os céticos se multiplicavam. Ele não era mais o rei em sua terra, tendo perdido o controle do senado e do congresso. Viajando de trem pelo país, apertando mãos estendidas desde as cidades atlânticas até o porto de San Diego, no Pacífico, dirigindo-se inflamadamente às milhares de pessoas que se reuniam em seus discursos ao ar livre, Wilson se esgotou. Os músculos de seu rosto começaram a se contrair em espasmos. Em 2 de outubro de 1919, de volta a Washington, sofreu um derrame que lhe deixou o lado esquerdo do corpo paralisado. Sua segunda mulher, Edith, assumiu muitas das responsabilidades cívicas do marido, até que, cerca de um ano mais tarde, o mandato chegou ao fim. O legado de Wilson foi uma Liga das Nações da qual seu país se recusou a participar.

A liga, cujo primeiro encontro se deu em 1920, parecia ser o farol do mundo. Seu objetivo era prevenir guerras e impor a justiça social. Pretendia proteger os povos que viviam sob o domínio europeu, acabar com os resquícios da escravidão e suavizar o fardo dos que trabalhavam duro todos os dias. Era como um parlamento com duas câmaras: uma pequena e poderosa, que se reunia com mais frequência, e uma assembleia geral de todas as nações participantes, que se encontrava anualmente.

O conselho inaugural era composto de quatro membros regulares - Grã-Bretanha, França, Itália e Japão -, complementado pelos representantes eleitos dentre os componentes da assembleia. A ausência de Estados Unidos, China, União Soviética e Alemanha foi um rude golpe no prestígio e na influência do conselho. Dois desses quatro países estavam ausentes simplesmente porque os derrotados na guerra não tinham o direito de participar da nova liga. Além disso, os participantes da assembleia não representavam o mundo todo, sendo esta composta predominantemente por países europeus e suas antigas colônias de além-mar. O Império Britânico se destacava particularmente, pois os 29 membros iniciais da liga incluíam Grã-Bretanha, Canadá, Austrália, Nova Zelândia, África do Sul e a Índia britânica.

A liga tinha como objetivo solucionar desavenças que, do contrário, poderiam resultar em guerra. Inicialmente, essa meta parecia atingível. Os finlandeses e os suecos, que disputavam algumas ilhas bálticas, concordaram que a liga deveria resolver o problema e, consequentemente, aceitaram que tais ilhas fossem anexadas à Finlândia. A questão mais preocupante era se as potências aceitariam tais decisões. A Itália de Mussolini deu a resposta esclarecedora: em uma disputa pela ilha grega de Corfu, em 1923, o país inicialmente desconsiderou a sentença da liga.

BALINEY, Geoffrey. Uma breve história do século XX. São Paulo: Fundamento Educacional, 2011. p. 71-75.

NOTA: O texto "A 1ª Guerra Mundial: As batalhas nas negociações de paz [Parte VIII]" não representa, necessariamente, o pensamento deste blog. Foi publicado com o objetivo de refletirmos sobre a construção do conhecimento histórico.

sábado, 10 de maio de 2014

A 1ª Guerra Mundial: Os Estados Unidos na guerra [Parte VII]

Soldados na floresta, Vilmos Aba-Novák

A revolução na Rússia agradou a Alemanha. A notícia de que um de seus três principais oponentes havia deposto armas era a mais animadora que se ouvia em Berlim, desde 1914. A paz no leste permitiria que um enorme número de soldados alemães se deslocasse para o front ocidental. Lá, finalmente poderiam vencer a França, onde o entusiasmo inicial pela guerra vinha se esgotando.

Presidente Woodron Wilson pedindo ao Congresso para declarar guerra à Alemanha, fazendo com que os Estados Unidos entrassem na guerra. Artista desconhecido

Naqueles meses de tumulto na Rússia, outra incerteza dizia respeito à neutralidade dos Estados Unidos. Seu presidente, Woodrow Wilson, era imprevisível. Muito talentoso, Wilson era filho de um clérigo presbiteriano e de uma mãe devotada que, assim como suas duas filhas mais velhas, dedicava cuidados um tanto exagerados ao garoto. Cresceu nos estados do sul durante e após a Guerra Civil norte-americana, mas seu talento não foi detectado prontamente, devido a doenças que tivera durante a infância. Na Princeton University, deu sinais de originalidade (característica que os examinadores nem sempre reconhecem), mas nenhuma amostra de brilhantismo. Quase foi advogado em Atlanta, na Geórgia, retornando porém como professor a sua antiga universidade, onde assumiu em 1902 o cargo de reitor. Pregador leigo, quase seguindo os passos do pai, Woodrow demonstrava fluência, sinceridade, empatia e um leve nervosismo que, disfarçando a confiança suprema em suas opiniões, atraía os ouvintes. Como democrata, tornou-se governador de New Jersey em 1900. Menos de dois anos mais tarde, venceu a corrida presidencial dos Estados Unidos. Na política, havia subido como um foguete - foguete, como ele às vezes mencionava, guiado por Deus.


Trico para os soldados: High Bridge Park. George Luks

Em 1916, Wilson novamente disputou e venceu as eleições presidenciais. Tentou manter seu país neutro na guerra, mas não resistiu às frequentes provocações da Alemanha. Em abril de 1917, o Congresso concordou em declarar guerra contra os alemães. O exército norte-americano era pequeno e foi necessário treinar muitos recrutas. No começo de 1918, que acabaria sendo o último ano da guerra, apenas 175 mil soldados haviam chegado à França.

"A comida vai ganhar a guerra, não desperdiçe-a". Nova Orleans. Foto: Charles L. Franck

A Alemanha ainda podia vencer o conflito. Após os russos terem apelado por paz, o país transferiu soldados do front leste para o oeste, onde lançou uma ofensiva feroz que chegou a 70 quilômetros de Paris e então parou. Depois disso, suas chances de vitória foram se extinguindo lentamente. Talvez nenhum fator isolado tenha colaborado tanto para convencer os alemães de que a guerra estava perdida quanto um exército norte-americano que então totalizava 1,5 milhão de soldados. Tal tropa foi um fator decisivo para a derrota da Alemanha - não por aquilo que fez, mas por aquilo que poderia fazer.

Mulheres trabalhando em fábrica de material bélico, Midvale Steel, Nicetown, Pensilvânia, 1918. 
Fotógrafo desconhecido

Em setembro de 1918, os aliados da Alemanha decidiram que estavam fartos. A Bulgária assinou um armísticio separado, A monarquia austro-húngara estava em pedaços, e os iugoslavos, tchecos e húngaros formavam as próprias nações. No fim de outubro, os turcos firmaram uma trégua. Alguns dias mais tarde, o pedido de rendição do Império Austro-Húngaro foi aceito.

A Alemanha estava sozinha. Seus soldados ainda lutavam bravamente no front ocidental, mas nos primeiros dias de novembro de 1918 a vida civil na Alemanha se despeda;ava diante de tensões, privações e desesperança. No porto de Kiel, marinheiros alemães se amotinavam; na Bavária, ocorreu uma revolução socialista bem-sucedida; em Berlim, o imperador Wilhelm II abdicou. Em 11 de novembro – um dia de ignomínia para a Alemanha, porém desejado havia muito por outros países – um armistício foi assinado.

BLAINEY, Geoffrey. Uma breve história do século XX. São Paulo: Fundamento Educacional, 2011. p. 69-71.

NOTA: O texto "A 1ª Guerra Mundial: Os Estados Unidos na guerra [Parte VII]" não representa, necessariamente, o pensamento deste blog. Foi publicado com o objetivo de refletirmos sobre a construção do conhecimento histórico.

quinta-feira, 8 de maio de 2014

A 1ª Guerra Mundial: As revoluções [Parte VI]

Cartaz bolchevique, 1922

No final de 1916, muitas das forças em guerra passavam por um momento de descontentamento tão generalizado que havia a possibilidade de motins. O número de baixas aumentava, as trincheiras no inverno tornavam-se abomináveis e uma vitória absoluta já não parecia ao alcance de nenhuma das partes. O moral baixo das forças armadas contaminava a população civil, e as cartas escritas pelos soldados - mesmo quando censuradas - aumentavam ainda mais as dúvidas em seus lares. O primeiro exército a desintegrar-se poderia determinar o resultado da guerra.

As forças russas foram as primeiras a se enfraquecer. A perda de oficiais no primeiro mês de guerra havia sido alta. Devido ao bloqueio nos Bálcãs e no Estreito de Dardanelos, não chegavam a elas os suprimentos necessários, enviados por seus aliados do além-mar. Muitos soldados russos não possuíam rifles nem calçados e, em diversos pontos da extrema fronteira que ia dos Bálcãs ao Mar Negro, estes vinham sendo obrigados pelos alemães e pelos austro-húngaros a recuar lentamente. A imprensa em Paris e Londres raramente relatava notícias perturbadoras, como o fato de soldados russos, aliados seus, ficarem contentes por tornarem-se prisioneiros de guerra e de quase 1 milhão ter desertado.

Czar Nicolau II revista suas tropas durante a 1ª Guerra Mundial. Foto: Foto: Bruckmann, F

O enfraquecimento do exército agravava a terrível atmosfera de medo e descontentamento na Rússia. O povo, como um todo, era muito patriótico, mas via a nação diante da perspectiva de ser derrotada no terceiro conflito seguido. Após perder a Guerra da Crimeia, na década de 1850, e a guerra contra o Japão, em 1905, a Rússia enfrentava uma situação ainda mais triste. Nenhuma grande nação, no último século, havia sofrido uma derrota tripla.

A família real, foco tradicional da lealdade, desapontou os legalistas. O czar Nicolau II, comandante-chefe das forças armadas, perdia a popularidade a passos largos. Sua mulher, Alexandra, a czarina, também cada vez menos popular, era cativa voluntária do carismático monge Rasputin, cujos poderes curativos pareciam surtir efeito sobre o filho dela. Nas cidades, os suprimentos de comida e combustível eram irregulares. No final de 1916, levantes ocorridos nas indústrias eram frequentes.

Revolucionários protestando, fevereiro de 1917. 
Fotógrafo desconhecido

Com tantos homens no front, a quebra na rotina das atividades econômicas diárias tornou-se aguda. A inflação crescia muito mais do que os salários. Entre 1913 e 1917, o preço da farinha triplicou, o do sal quintuplicou e o da manteiga aumentou mais de oito vezes. Muitas famílias passavam ainda mais fome do que nos períodos de paz, em parte porque as estradas de ferro não davam conta de carregar, ao mesmo tempo, comida e suprimentos de guerra.

Tropas russas esperando um ataque alemão em uma trincheira. Foto: George H. Mewes

Era comum ver longas filas de donas de casa, empregadas e crianças esperando sob neve e granizo no lado de fora das padarias, na esperança de comprar pão. A comida era também escassa na Alemanha e na Grã-Bretanha, mas esses países haviam sabiamente delineado sistemas de racionamento que incluíam todos os cidadãos. A Rússia era diferente. Habilidosa no racionamento da liberdade, a nação foi incapaz de lidar com a tarefa mais simples de racionar farinha e açúcar de modo que todos pudessem ter sua parte. A inaptidão administrativa em muitas esferas da vida nacional causava descontentamento.

O czar tentou suprimir os sinais da revolução retirando oficiais e soldados leais da linha de frente do combate. Os ferroviários se negaram a transportá-los. Em março de 1917, Nicolau II foi obrigado a abdicar. Uma coalizão de cidadãos, incluindo um dos homens mais ricos da Rússia, formou um novo ministério na esperança de vencer a guerra e revitalizar a nação. Reformistas - e não revolucionários - ofereceram esperança. No entanto, seus principais oponentes, membros do extremamente organizado partido bolchevique, haviam decidido que seriam os únicos a dar esperança ao povo.

O líder dos bolcheviques, o intelectual conhecido como Lenin - pseudônimo adotado em 1901 - estava exilado, tendo vivido por períodos variados na Inglaterra, na França, na Áustria e na Suíça. Forte e elegante, era um homem de altura pouco abaixo da média, com testa larga, queixo firme e talento para discursos vigorosos. Lenin traçou estratégias astutas para seu partido e tirou vantagem das poucas oportunidades que se lhe apresentaram. Porém ainda não ousava retornar à Rússia em carne e osso.

Lenin discursando para as tropas do Exército Vermelho, Sverdlov Square, Moscou, 5 de maio de 1920. 
Foto: Goldshtein G.

Por fim, em abril de 1917, com o dinheiro e a bênção oficial da Alemanha, Lenin e alguns companheiros viajaram em um vagão ferroviário protegido, deixando o exílio na Suíça, passando pela guerra na Alemanha, atravessando os Bálcãs em uma balsa até a Finlândia russa e chegando de trem a São Petersburgo, onde foram recepcionados alegremente pelos bolcheviques. Liderando as manobras políticas, Lenin trabalhou diligentemente para fundar o que chamava de "uma ditadura revolucionário-democrática do proletariado e da classe camponesa". Seu desejo era realizar uma revolução em seu país natal, para depois estendê-la a outros países. Prosseguir com a guerra não era de seu interesse: na verdade, ele a via como uma distração perigosa. Por isso, o governo alemão secretamente lhe dera dinheiro e o mandara para casa: o sucesso de Lenin serviria a seus propósitos.

Lênin na fábrica Putilov em maio de 1917, Isaak Brodsky

Kerensky, o ministro da Guerra do novo governo, esperava que um último apelo ao patriotismo russo resultasse em vitórias no front oriental. Até mesmo viajou de automóvel com o general Brusiloff pelas linhas de combate, na esperança de incentivar os soldados russos a repelir o inimigo em uma última ofensiva triunfante. O contra-ataque russo falhou. Os alemães avançaram, encontrando cada vez menos resistência. Muitos soldados russos simplesmente se desfizeram de seus rifles. Muitos nem sequer possuíam um rifle.

Na França e na Grã-Bretanha, havia a preocupação de que os bolcheviques pudessem tomar o controle e retirar as forças russas da guerra. Mas talvez a balança pudesse ser desequilibrada se os judeus russos, em grande número e alguns dos quais poderosos dentro dos novos movimentos políticos, fossem convencidos a continuar lutando contra a Alemanha. Uma oferta tentadora foi feita. Em 2 de novembro de 1917, pouco antes de os bolcheviques tomarem o poder, o secretário do Exterior britânico Arthur Balfour declarou que, depois que a guerra terminasse, seu país apoiaria a criação de uma nova pátria judaica na Palestina. Delegados judeus foram enviados a São Petersburgo para anunciar o que mais tarde viria a ser conhecido como Declaração Balfour. O Oriente Médio jamais seria o mesmo, pois Balfour cumpriu a promessa.

Ataque da polícia czarista durante os primeiros dias da revolução de março de 1917. 
Foto: Autor desconhecido

O comandante das forças russas não conseguiu controlar os bolcheviques e outros agitadores, que, em seus dias de maior eficácia, praticamente tomaram as ruas da capital. Lenin, que durante o tumulto retirara-se para um esconderijo na Finlândia, preparou-se para aproveitar o caos que havia ajudado a criar. Retornou a São Petersburgo disfarçado, com a barba cortada e uma peruca cobrindo a calvície. Na noite de 6 de novembro, escreveu uma mensagem urgente aos camaradas mais experientes: "Precisamos a todo custo, na noite de hoje, tomar o governo."

Ao longo da noite, seus homens - preparados pelo hábil Leon Trotsky - tomaram estações de trem, correios, a companhia telefônica, bancos, centrais elétricas, pontes importantes sobre canais e rios e todos os centros nervosos da capital. Em Moscou, o Kremlin foi dominado. No controle de muitas cidades, Lenin se tornou oficialmente o líder do primeiro Conselho de Comissários do Povo.

Embora ela tivesse vencido, o perigo de um contra-ataque por parte de seus inimigos era grande. Os camponeses - os quais formavam a maior parte da população russa - provavelmente se oporiam a um governo comunista. Mas o líder estava um passo à frente. Havia prometido a eles terras gratuitas, embora não acreditasse na propriedade privada. Ao oferecer terras e ao mesmo tempo deixar de pagar aos grandes latifundiários pelas propriedades confiscadas, agradava aos camponeses e aos radicais da cidade. Assim, os comunistas, como passaram a se denominar, tornaram-se promotores do capitalismo rural.

Lenin estava determinado a tirar a Rússia da guerra. Queria paz, para poder construir uma sociedade revolucionária que inspirasse os socialistas de toda a Europa. Ainda assim, a assinatura de um tratado de paz com a Alemanha e a Turquia, em março de 1918, na cidade de Brest-Litovsk, no oeste da Rússia, representou um golpe humilhante para os patriotas russos. Partes do território do país passaram às mãos da Alemanha, da Romênia e da Turquia. Por algum tempo, até mesmo a Ucrânia e a Geórgia foram perdidas, embora tenham sido mais tarde retomadas. Logo a Polônia, a Finlândia e as três províncias bálticas de Letônia, Estônia e Lituânia se tornaram nações independentes. O fato de uma vasta extensão de áreas produtoras de grãos ter saído do domínio de Lenin agravou a escassez de comida na nova terra dos experimentos.

BLAINEY, Geoffrey. Uma breve história do século XX. São Paulo: Fundamento Educacional, 2011. p. 65-69.

NOTA: O texto "A 1ª Guerra Mundial: As revoluções [Parte VI]" não representa, necessariamente, o pensamento deste blog. Foi publicado com o objetivo de refletirmos sobre a construção do conhecimento histórico.