"Os espelhos estão cheios de gente.
Os invisíveis nos vêem.
Os esquecidos se lembram de nós.
Quando nos vemos, os vemos.
Quando nos vamos, se vão?"
Eduardo Galeano: Espelhos
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terça-feira, 14 de janeiro de 2014

O significado do nu na Idade Moderna

1500: Pleno desabrochar do Renascimento na Europa e chegada dos “alfacinhas” ao Brasil. Em 1566, é dicionarizada na França, pela primeira vez, a palavra erótico. Designava, então, “o que tiver relação com o amor ou proceder dele”. Na pintura, o humanismo colocava o homem no centro do mundo – e não mais Deus -, descobrindo-se os corpos e o nu. Nu que, hoje, associamos ao erotismo. Mas era ele, então, sinônimo de erotismo? Não. Isso significa que as palavras, os conceitos e seus conteúdos mudam, no tempo e no espaço; o que hoje é erótico, não o era para os nossos avós.

Comecemos por um exemplo bastante conhecido. Ao desembarcar na então chamada Terra de Santa Cruz, os recém-chegados portugueses se impressionaram com a beleza de nossas índias: pardas, bem dispostas, “suas vergonhas tão nuas e com tanta inocência assim descobertas, que não havia nisso desvergonha alguma”. A Pero Vaz de Caminha não passaram despercebidas as “moças bem moças e bem gentis, com cabelos muito pretos compridos pelas espáduas”. Os corpos, segundo ele, “limpos e tão gordos e tão formosos que não pode mais ser”. Os cânones da beleza europeia se transferiam para cá, no olhar guloso dos primeiros colonizadores. Durante o Renascimento, graças à teoria neoplatônica, amor e beleza caminhavam juntos. Vários autores, como Petrarca, trataram desse tema para discutir a correspondência entre belo e bom, entre o visível e o invisível. Não à toa, nossas indígenas eram consideradas, pelos cronistas seiscentistas, criaturas inocentes. Sua nudez e despudor eram lidos numa chave de desconhecimento do mal, ligando, portanto, a “formosura” à ideia de pureza. Até suas “vergonhas depiladas” remetiam a uma imagem sem sensualidade. As estátuas e pinturas que revelavam mulheres nuas, o faziam sem pelos púbicos. A penugem cabeluda era o símbolo máximo do erotismo feminino. A questão da sensualidade não estava posta aí.


América, artista desconhecido. Ca. 1650

Nuas em pelo, as “americanas” exibiam-se, também, nas múltiplas gravuras que circulavam sobre o Novo Mundo, com seus seios pequenos, os quadris estreitos, a cabeça coroada por plumagens ou frutas tropicais. Os gravadores do Renascimento as representavam montadas ou sentadas sobre animais que os europeus desconheciam: o tatu, o jacaré, a tartaruga. Mas, aí, a nudez não era mais símbolo de inocência, mas de pobreza: pobreza de artefatos, de bens materiais, de conhecimentos que pudessem gerar riquezas. Comparadas com as mulheres que nas gravuras representavam o continente asiático ou a Europa, nossa América era nua, não porque sensual, mas porque despojada, singela, miserável. As outras alegorias – a Ásia e a Europa – mostravam-se ornamentadas com tecidos finos, joias e tesouros de todo tipo. Mesmo a África, parte do mundo mais conhecida no Ocidente cristão do que a América, trazia aparatos, expondo a gordura. Gordura, então, sinônimo de beleza.

O retrato das americanas, além da magreza e da nudez, ostentava sempre um signo temido: os ossos daqueles que tinham sido devorados nos banquetes antropofágicos. Nudez, pobreza e antropofagia andavam de mãos dadas. As interpretações, então, se sobrepunham: passou-se da pureza à pobreza. E daí ao horror por essa gente que comia gente. Pior. À medida que os índios resistiam à chegada dos estrangeiros, aprofundava-se sua satanização. Para combatê-los ou afastá-los do litoral, nada melhor do que compará-los a demônios. A nudez das índias estava, pois, longe de ser erótica.

Desde o início da colonização lutou-se contra a nudez e aquilo que ela simbolizava. Os padres jesuítas, por exemplo, mandavam buscar tecidos de algodão, em Portugal, para vestir as crianças indígenas que freqüentavam suas escolas: “Mandem pano para que se vistam”, pedia padre Manoel da Nóbrega em carta aos seus superiores. Aos olhos dos colonizadores, a nudez do índio era semelhante à dos animais; afinal, como as bestas, ele não tinha vergonha ou pudor natural. Vesti-lo era afastá-lo do mal e do pecado. O corpo nu era concebido como foco de problemas duramente combatidos pela Igreja nesses tempos: a luxúria, a lascívia, os pecados da carne. Afinal, como se queixava padre Anchieta, além de andar peladas, as indígenas não se negavam a ninguém.

A associação entre nudez e luxúria provocava os castigos divinos. Ameaçavam-se as pecadoras que usavam decotes. Eis por que a luxúria foi associada a uma profusão de animais imundos: sapos, serpentes ou ratos que se agarravam aos seios ou ao sexo das mulheres lascivas. Nas igrejas, pinturas demonstravam os diabos que recebiam as almas pecadoras, nuas em pelo, com golpes de pá e tridentes. Nos livros de oração com imagens, o justo morria sempre de camisola. O pecador, despido! Enterravam-se as pessoas vestidas, para ressuscitarem com roupas que as identificassem.

Mas que significado teria o nu, na Idade Moderna? A nudez era erótica? Havia, então, uma grande diferença entre nudez e nu. A nudez se referia àqueles que fossem despojados de suas vestes. O nu remetia não à imagem de um corpo transido e sem defesa, mas ao corpo equilibrado e seguro de si mesmo. O vocábulo foi incorporado, no século XVIII, às academias de ciências artísticas, onde a pintura e a escultura faziam do nu o motivo essencial de suas obras.

A realidade, porém, era menos “artística”. Viajantes estrangeiros que passavam pelo Brasil, nessa época, ficavam chocados com a nudez dos escravos nas ruas. As poucas blusas que escorregavam pelo ombro, os seios nus, magros e caídos, escorrendo peito abaixo. E, contrariamente aos nossos dias, não havia lugar do corpo feminino menos erótico ou atrativo do que os seios. As chamadas “tetas”, descritas nos tratados médicos como membros esponjosos próximos ao coração, tinham uma só função: produzir alimento. Acreditava-se que o sangue materno cozinhava com o calor do coração, tornando-se branco e leitoso.

Os seios jamais eram vistos como sensuais, mas como instrumentos de trabalho de um sexo que devia recolher-se ao pudor e à maternidade. O colo alvo, o pescoço como “torre de marfim” cantado pelos poetas, pouco a pouco começa a cobrir-se. E isso até nas imagens sacras. Estátuas da Virgem Maria em estilo barroco, antes decotadas, ou a própria Virgem do Leite – que no Renascimento expunha os bicos -, desaparecem de oratórios e igrejas. Nossa Senhora passa a cobrir-se até o queixo, quando não era vestida pelas próprias devotas.

DEL PRIORE, Mary. Histórias íntimas: sexualidade e erotismo na História do Brasil. São Paulo: Planeta, 2011. p. 15-18.

NOTA: O texto "O significado do nu na Idade Moderna" não representa, necessariamente, o pensamento deste blog. Foi publicado com o objetivo de refletirmos sobre a construção do conhecimento histórico.

segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

Noção de intimidade entre os séculos XVI e XVIII

Podemos olhar pelo buraco da fechadura para ver como nossos antepassados se relacionavam? De fechaduras, não! Elas custavam caro e o Brasil, na época da colonização, era pobre. Podemos, sim, enxergar através das frestas dos muros, das rachaduras das portas. Por ali se via que a noção de privacidade estava sendo “construída”, estava em gestação. E construída em meio a um ambiente de extrema precariedade e instabilidade. Em terras brasileiras, colonos tiveram que lutar, durante quase três séculos, contra o provisório: o material, o físico, o político e o econômico. “Viver em colônias” – como se dizia então – era o que faziam. Sobreviviam... E sobreviviam sob o signo do desconforto e da pobreza. Habitavam casas de meias paredes cobertas de telhas ou sapê, com divisão interna que pouco ensejava a intimidade. Nelas faltavam móveis que oferecessem algum conforto, ou boa iluminação, devido à falta de vidros. Instaladas em vilarejos sem arruamento, ali os animais domésticos pastavam à solta e havia lixo em toda parte. A água, esse bem mais precioso em nossos dias, só aquela de rios e poços ou a vendida em lombo de burro ou de escravos. Privacidade, portanto, zero.

A noção de intimidade no mundo dos homens entre os séculos XVI e XVIII se diferencia profundamente daquela que é a nossa do início do século XXI. A vida quotidiana naquela época era regulada por leis imperativas. Fazer sexo, andar nu ou ter relações eróticas eram práticas que correspondiam a ritos estabelecidos pelo grupo no qual se estava inserido. Regras, portanto, regulavam condutas. Leis eram interiorizadas. E o sentimento de coletividade, sobrepunha-se ao de individualidade.


Estudo de um homem nu, Auguste Jerndorff

Mas falar nesse assunto quando a América ainda era portuguesa implica compreender o que se entendia por privacidade há quase trezentos anos. Apenas em 1718 o conceito fará sua aparição. E foi o dicionarista jesuíta Raphael Bluteau quem, pioneiramente, esclareceu:

“Privado: uma pessoa que trata só de sua pessoa, de sua família e de seus interesses domésticos.” Mais tarde, em 1798, no seu Elucidário de palavras e termos, frei Joaquim de Santa Rosa de Viterbo definia que o verbete “privido” – palavra mais tarde substituída por “privado” – designava o que pertencia a uma particular pessoa. Quase cem anos foram necessários para que “privado” deixasse de significar o que fosse familiar e coletivo para se centrar no pessoal. Mas como fazer tal passagem e terras de escravidão e de pobreza material, onde, contrariamente à Europa ocidental, não havia muita separação entre privado e público? Como, num lugar onde todos sabiam de tudo e de todos?

Era diferente. Aqui, muitas pessoas andavam seminuas: sobretudo índios e escravos. As regras e os ritos da Europa não se tinham consolidado entre índios e africanos. Palavras como vergonha e pudor, recém-dicionarizadas no século XVI, continuavam ausentes dos “vocabulários” – nome que então se dava aos glossários -, até entre portugueses. Para os etimologistas, a palavra nasceu à época da chegada dos lusitanos às nossas costas. Antes, pudenda designava os órgãos sexuais, “vergonhosos”. Inicialmente associados à pudicícia, pudor e castidade eram sinônimos. Os primeiros dicionários deram o sentido atual ao termo, ligando-o à modéstia, decência e civilidade. Considerado natural nas mulheres, o pudor permitia afirmar que uma mulher nua podia ser mais pudica do que uma vestida. Isso, pois acreditava-se que, ao despir-se, ela se cobria com as vestes da vergonha.

O pudor que se definia nos dicionários não era um conceito espalhado na sociedade. Enquanto Isabel de Castela, em 1504, morria de uma ferida que não quis mostrar aos médicos, recebendo a extrema-unção sob os cobertores para não exibir nem os pés, muitos moradores da América portuguesa vestiam-se apenas com um minúsculo pedaço de tecido. Descobria-se, então, que existiam povos obedientes a diferentes noções de pudor.

Ora, tais noções foram pioneiras em esboçar a história do polimento das condutas, do crescimento do espaço privado e dos autoconstrangimentos que a modernidade foi trazendo. Daquilo que Michel Foucault chamou de cuidado de si; uma esfera cada vez mais definida entre o público e o privado. Esfera capaz de afastar, de forma progressiva e profunda, um do outro. E que conta a história do peso da cultura sobre o mundo das sensações imediatas. Cultura que nos levou da vida em grupo ou em família para o individualismo que é a marca de nosso tempo.


DEL PRIORE, Mary. Histórias íntimas: sexualidade e erotismo na História do Brasil. São Paulo: Planeta, 2011. p. 13-15.

NOTA: O texto "Noção de intimidade entre os séculos XVI e XVIII" não representa, necessariamente, o pensamento deste blog. Foi publicado com o objetivo de refletirmos sobre a construção do conhecimento histórico.

sábado, 4 de janeiro de 2014

Mudanças sociais e desafios culturais nos anos 1920 nos Estados Unidos

Apesar do abafado clima intelectual e social da década de 1920, as mudanças sociais e econômicas continuaram produzindo protesto social e cultural. Uma geração de escritores desencantados, como John dos Passos, Sinclair Lewis, F. Scott Fitzgerald, Ernest Hemingway e Gertrude Stein, criticou a futilidade da sociedade de consumo, as atitudes repressivas do Estado e das corporações e as francas limitações à liberdade individual e aos direitos sociais no país.

Reações à “sociedade moderna” não vieram somente da esquerda: americanos rurais e religiosos revigoravam a defesa de valores tradicionais. As religiões evangélicas, que insistiram na leitura fundamentalista da Bíblia, ganharam bastante apoio em alguns estados como Tennessee, em campanhas anti-seculares para, por exemplo, banir o ensino da Teoria da Evolução, de Charles Darwin.

O movimento antialcoólico convenceu o governo federal a proibir por lei, em 1920, a fabricação e venda de álcool (a proibição durou 13 anos), o que acabou fortalecendo o crime organizado e dando origem a um próspero mercado negro.

Uma tenebrosa ramificação da “defesa da tradição” foi o ressurgimento da Ku Klux Klan (KKK). Falida desde o fim da década de 1870, renasceu em 1915, no ambiente chauvinista dos tempos de guerra. Um dos primeiros produtos da nova indústria do cinema, o filme Nascimento de uma nação (1916), do diretor D. W. Griffiths, glorificou abertamente esse grupo racista. Preocupado primariamente com negros, a KKK ampliou sua mensagem de ódio e violenta intimidação nos anos 1920, denunciando imigrantes (especialmente católicos e judeus) e todas as forças (socialistas e feministas) que ameaçaram a “liberdade individual” e “o jeito americano de viver”. Até 1925, o grupo conseguiu recrutar quatro milhões de membros, muitos dos quais mulheres e “cidadãos respeitáveis” dos estados do Norte. Apesar do seu extremismo e posterior declínio no fim da década, o grupo, sem dúvida, refletiu sentimentos nativistas bem enraizados na sociedade americana.

A modernidade na comunidade negra expressou-se numa série de movimentos e tendências políticas radicais nesses anos. Como outros americanos, alguns negros também foram influenciados por ideias como anticolonialismo e solidariedade entre trabalhadores, decorrentes dos movimentos socialistas e da inspiração da Revolução Russa. Em 1919, o movimento “Novo Negro”, do socialista Hubert Harrison, visionou a emancipação do afro-americano como um projeto a ser levado a cabo por uma aliança multirracial e militante, ao contrário das campanhas meramente legais da NAACP. Embora os movimentos socialistas no país tenham ignorado ou marginalizado a luta contra o racismo, ideias em favor da sindicalização e da classe trabalhadora podiam ser amplamente encontradas nas páginas da imprensa popular negra.

A decepção diante das traições das promessas do governo americano em favor da autodeterminação e democracia para os oprimidos, depois da Primeira Guerra, impulsionou muitos negros ativistas em direção ao que chamavam de “nacionalismo negro” (black nationalism). A Associação Universal para o Melhoramento dos Negros (UNIA em inglês), fundada pelo imigrante jamaicano Marcus Garvey, argumentou que negros precisavam formar um movimento separatista para obter a liberdade. Em 1921, Garvey proclamou:

“Em todo lugar, nós ouvimos o grito de liberdade. [...] Desejamos uma liberdade que vai nos elevar ao padrão de todos os homens [...] liberdade que vai nos dar chance e oportunidade de subir até o ápice pleno da nossa ambição e que nós não conseguimos em países onde outros homens predominam.”

O líder negro rejeitou a assimilação como também a aliança com brancos e fomentou orgulho na “raça negra”. A UNIA montou uma rede de supermercados e outros negócios tocados por negros e aconselhou afro-americanos a voltarem para África, onde eles poderiam criar uma “nova sociedade”. A organização e sua influência perderam força quando Garvey foi condenado por fraude em 1923. Mas o apelo ao “nacionalismo negro” nas cidades do Norte, por alguns anos, mostrou a profundidade dos anseios da população negra por alternativas políticas e teria influência significativa mais tarde em movimentos sociais negros nos Estados Unidos e no Caribe.


Vida noturna, Archibald John Motley

Nos anos 1920, o chamado “renascimento do Harlem” – o florescimento da arte e pensamento centralizado em um grupo de escritores, artistas, músicos e intelectuais negros de Nova York – explorou as possibilidades da ação cultural e política por meio de uma consciência positiva das heranças e tradições afro-americanas. Esses artistas inovadores desenvolveram a ideia de que a vida intelectual e artística era capaz de valorizar os afro-americanos, desafiar o racismo e promover políticas progressistas no país. Escritores como Jean Toomer, Zora Neale Hurston, Langston Hughes, James Weldon Johnson e Claude McKay e artistas plásticos como Richard Nugent e Aaron Douglas misturaram feições modernas e tradicionais de expressão artística, resgatando história e tradições da comunidade negra. Inspiraram gerações de artistas e ativistas pelos direitos civis e tiveram influência enorme na cultura afro-americana ao longo de todo o século XX.


Sean Purdy. Mudanças sociais e desafios culturais nos anos 1920. In: KARNAL, Leando [et alli]. História dos Estados Unidos: das origens ao século XXI. São Paulo: Contexto, 2010. p. 203-205.


NOTA: O texto "Mudanças sociais e desafios culturais nos anos 1920 nos Estados Unidos" não representa, necessariamente, o pensamento deste blog. Foi publicado com o objetivo de refletirmos sobre a construção do conhecimento histórico.

terça-feira, 13 de novembro de 2012

A Reforma e a Idade Moderna

Cena do filme "Lutero", dir. Eric Till (Alemanha, 2003)

À primeira vista, a Reforma parece ter renovado a ênfase medieval no outro mundo e invertido a tendência ao secularismo que se registrara na Renascença. Atraídos pela antiga doutrina estóica da vontade autônoma, os humanistas da Renascença haviam rompido com a rígida visão de Agostinho do pecado original - uma natureza humana corrupta e a incapacidade do indivíduo de alcançar a salvação mediante seus próprios esforços. Lutero e Calvino, no entanto, viam os seres humanos como essencialmente depravados e corruptos e rejeitavam por completo a noção de que os indivíduos pudessem fazer algo por sua própria salvação; tal afirmação da vontade humana, sustentavam eles, revelava uma perigosa presunção nos seres humanos.

Mas a Reforma contribuiu, em muitos aspectos importantes, para a formação da modernidade. Ao dividir a cristandade em católica e protestante, destruiu a unidade religiosa da Europa, a principal característica da Idade Média, e enfraqueceu a Igreja, principal instituição da sociedade medieval. Fortalecendo o poder dos monarcas às expensas dos órgãos religiosos, a Reforma estimulou o crescimento do Estado moderno, secular e centralizado. Os governantes protestantes repudiaram totalmente a pretensão do papa à autoridade temporal e estenderam seu poder sobre os protestantes recém-estabelecidos em seus países. Nas terras católicas, a Igreja, enfraquecida, relutava em desafiar os monarcas, cujo apoio ela agora necessitava mais do que nunca. Essa subordinação da autoridade clerical ao trono permitiu que os reis construíssem Estados centralizados fortes, um atributo da vida política do Ocidente moderno.

Embora a monarquia absoluta tenha sido o beneficiário imediato da Reforma, o protestantismo contribuiu indiretamente para o crescimento da liberdade política - outra característica do Ocidente moderno. Com certeza, nem Lutero nem Calvino defendiam a liberdade política. Para Lutero, um bom cristão era um súdito obediente. Assim, segundo ele, os súditos deviam obedecer às ordens de seus governantes. [...] Os calvinistas criaram em Genebra uma teocracia que regulava de perto a vida privada dos cidadãos, e Calvino condenava veementemente a resistência à autoridade política como iníqua. Sustentava que os governantes eram escolhidos por Deus e que a punição dos maus governantes cabia somente a Deus e não aos súditos.

Não obstante, a Reforma propiciou também uma base para se desafiar o poder dos monarcas. Alguns teóricos protestantes, sobretudo calvinistas, apoiavam a resistência às autoridades políticas cujos editos, na opinião deles, violassem a lei de Deus tal como expressa na Bíblia. A justificativa religiosa para a rebelião contra governos tirânicos estimulou nos calvinistas ingleses, ou puritanos. a resistência à monarquia no século XVII.

A Reforma promoveu a ideia da igualdade, que tem raízes na crença judaico-cristã de que as pessoas são todas criaturas de um único Deus. Em dois aspectos importantes, contudo, a sociedade medieval infringia o princípio da igualdade. Em primeiro lugar, o feudalismo reforçava as distinções hereditárias entre nobres e plebeus. A sociedade era hierárquica [...]. Em segundo, a Igreja medieval ensinava que somente os clérigos podiam ministrar os sacramentos, que era o meio pelo qual as pessoas podiam alcançar a salvação [...]; Lutero, por sua vez, afirmava que não havia distinção espiritual entre os leigos e o clero. Todos os crentes eram iguais em espírito [...].

A Reforma contribuiu também para a criação da ética individualista que caracteriza o mundo moderno. Uma vez que os protestantes, ao contrário dos católicos, não tinham nenhum intérprete oficial das Escrituras, ficava a cargo do indivíduo a terrível responsabilidade de interpretar a Bíblia de acordo com os ditames de sua consciência. Nenhuma igreja lhes fornecia segurança ou certeza, e nenhum clero interferia em sua relação com Deus. [...]

Para o protestante, a fé era pessoal e intrínseca. Essa nova ordem demandava uma relação pessoal entre cada indivíduo e Deus e chamava a atenção para as inerentes capacidades religiosas do indivíduo. Certos de que Deus os escolhera para a salvação, muitos protestantes desenvolveram a autoconfiança e segurança que distinguem o indivíduo moderno. [...] 

Ao ressaltar a consciência individual, a Reforma pode ter contribuído para o desenvolvimento do espírito capitalista, que fundamenta a economia moderna. [...] Os homens de negócio protestantes acreditavam  ter a obrigação religiosa de enriquecer, e sua fé lhes dava a autodisciplina necessária para isso. Convencidos de que a prosperidade era uma bênção de Deus e a pobreza sua maldição, os calvinistas tinham o estímulo espiritual para trabalhar com diligência e evitar a preguiça.

De acordo com a doutrina da predestinação de Calvino, Deus já determinava com antecipação quem seria salvo; nenhuma ação terrena poderia conduzir à salvação. [...] Com efeito, como argumentou Weber, o protestantismo, ao contrário do catolicismo, dava aprovação religiosa ao enriquecimento e ao modo de vida dos negociantes. [...]

PERRY, Marvin. Civilização ocidental: uma história concisa. São Paulo: Martins Fontes, 2002. p. 244-246.

quarta-feira, 4 de abril de 2012

Modernidade, ainda que tarde: a Semana de Arte Moderna de 1922

Enquanto as nossas poderosas elites políticas se negavam a reformular sua prática administrativa, as vanguardas operárias falavam numa revolução social e os tenentes agitavam os quartéis e as ruas com seus protestos, havia grupos de intelectuais que pensavam em um Brasil modernizado e que manifestasse sua identidade cultural. Entre eles discutia-se de que maneira se poderia construir a autonomia brasileira acompanhando os ares de renovação que atingiam os países desenvolvidos. Já era tempo de o Brasil deixar de simplesmente copiar modelos e construir uma maneira de ver o o mundo que caracterizasse nossa singularidade cultural. A modernidade deveria nos tirar do atraso sem contudo desprezar o passado histórico construído. A questão não era romper radicalmente com as tradições, mas começar a conceber uma nova identidade para o país.

Abaporu, Tarsila do Amaral

Na semana de 11 a 18 de fevereiro de 1922, no Teatro Municipal de São Paulo, realizou-se o grande encontro de muitos daqueles que desejavam transformar a pintura, a literatura e a música brasileiras. Do evento, denominado Semana de Arte Moderna, participaram, entre outros, Heitor Villa-Lobos, Menotti del Picchia, Mário de Andrade, Oswald de Andrade, Ronald de Carvalho, Cassiano Ricardo, Manuel Bandeira, Di Cavalcanti e Tarsila do Amaral. O encontro teve grande repercussão, causando surpresa, críticas, admiração. Ainda em 1922, foi lançada a revista Klaxon, produzida pelo grupo modernista. O movimento teve influência do futurismo, do expressionismo e do surrealismo europeus, que revolucionaram as concepções estéticas da época. Não havia um pensamento homogêneo entre os modernistas brasileiros. Suas manifestações tinham em comum a busca de renovação cultural e uma forte dose de nacionalismo. Os caminhos seguidos por eles aos poucos se diferenciaram, formando-se grupos.

Capa da revista Klaxon, lançada em 1922

Oswald de Andrade, uma das lideranças expressivas do movimento, publicou em 1923 Memórias sentimentais de João Miramar, obra inovadora na prosa brasileira. No Manifesto Antropofágico, de 1928, o escritor deixava clara sua ligação com as vanguardas europeias, mas ressaltava também nossas raízes históricas: "Só a antropofagia nos une. Socialmente. Economicamente. Filosoficamente."

O ímpeto inicial que unia os modernistas era a renovação, a mudança, o rompimento com as regras acadêmicas. "Estamos fartos da Europa e proclamamos sem cessar a liberdade de ação brasileira", propunha em manifesto outro grupo modernista, o Verde-Amarelista, em 1929. Entretanto, tal união logo se estremeceu, pois alguns modernistas seguiram depois caminhos politicamente conservadores, como Plínio Salgado, ligado ao Verde-Amarelismo, que foi uma liderança importante do movimento integralista na década de 1930.

Na literatura modernista também se destacou Mário de Andrade, que em Macunaíma evidencia uma nova linguagem e o vínculo de sua obra com as raízes culturais brasileiras.

Merecem destaque os diversos ciclos de cinema que ocorreram na década de 1920 em várias cidades brasileiras. produto das importantes inovações técnicas da época, o cinema atraía as pessoas. Representando a modernidade na cultura, constituía os sinais evidentes de uma produção cultural voltada para o grande público. Os cinemas das cidades passavam os filmes famosos produzidos na Europa e nos Estados Unidos. No Brasil, nas primeiras décadas do século XX, foram realizadas no Rio de Janeiro, Recife, São Paulo e Minas Gerais produções cinematográficas de sucesso. A primeira filmagem de que se tem notícia em São Paulo data de setembro de 1889, ou seja, antes da virada do século XX. O Rio de Janeiro tinha, no começo da década de 1920, salas para cerca de trezentos espectadores. No Recife, filmes como A filha do advogado e Aitaré da praia, produções regionais, fizeram muito sucesso. São notícias de um Brasil ainda pouco conhecido e que buscava criar sua modernidade.

REZENDE, Antonio Paulo; DIDIER, Maria Thereza. Rumos da história: história geral e do Brasil. São Paulo: Atual, 2005. p.504-505.

sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

A vida na Europa e nos Estados Unidos no fim do século XIX: a ideologia do "progresso"

Uma das grandes novidades do final do século XIX: o cinema. Cartaz de 1896, desenhado por Henri Brispot. 

Lentamente, o cotidiano das pessoas, sobretudo das que moravam nas cidades, começou a sofrer a imposição de uma espécie de colonização microscópica e diária:

* a vida ganhou novos ritmos, baseados na rapidez, na tensão do dia a dia e na necessidade de deslocamento constante;

* as pessoas modificaram seus hábitos culturais - começaram a frequentar os cinemas, a escutar os fonógrafos, a falar ao telefone e a participar de manifestações públicas;

* foram criados vários padrões de consumo, como tomar café, trocar constantemente o vestuário, adquirir móveis modernos;

* hábitos de higiene e saúde ganharam importância no cotidiano - as pessoas passaram a ter banheiro interno nas residências, a estabelecer rituais de limpeza pessoal, a tomar remédios, a frequentar médicos, etc.;

* diferentes atividades esportivas conquistaram adeptos, desenvolvendo-se as regatas, o futebol e outros esportes coletivos.

"[...] os veículos automotores, os transatlânticos, os aviões, o telégrafo, o telefone, a iluminação elétrica e ampla gama de utensílios eletrodomésticos, a fotografia, o cinema, a radiodifusão, a televisão, os arranha-céus e seus elevadores, as escadas rolantes e os sistemas metroviários, os parques de diversões elétricas, as rodas-gigantes, as montanhas russas, a seringa hipodérmica, a anestesia, a penicilina, o estetoscópio, o medidor de pressão arterial, os processos de pasteurização e esterilização, os adubos artificiais, os vasos sanitários com descarga automática e o papel higiênico, o sabão em pó, os refrigerantes gasosos, o fogão a gás, o aquecedor elétrico, o refrigerador e os sorvetes, as comidas enlatadas, as cervejas engarrafadas, a Coca-Cola, a aspirina, o Sonrisal e, mencionada por último mas não menos importante, a caixa registradora". (Nicolau Sevcenko. Introdução. In: _____ (org.). História da vida privada no Brasil: da Belle Époque à era do rádio. São Paulo: Companhia das Letras, 1998. v. 3. p. 9-10.)

Os centros urbanos, nos quais se moldava toda essa modernidade, irradiavam para as demais regiões os valores e símbolos de rapidez, educação, cultura, saúde, abastecimento, trabalho e serviços. A transformação foi tão marcante que as ideias de progresso, modernidade e civilização se associaram intimamente às cidades, ao passo que as ideias de tradição, conservadorismo e rusticidade permaneceram associadas ao campo. As pessoas passaram a procurar ainda mais as médias e grandes cidades, impulsionando o crescimento urbano e populacional desmedido e a formação de grandes metrópoles.

Essas transformações científicas e tecnológicas, de acordo com o historiador Geoffrey Barraclough, atuaram ao mesmo tempo como "solventes da velha ordem" e "catalisadores de um novo mundo". Nesse período criou-se a ilusão de que a humanidade vivia um processo de avanço científico sem interrupções, sempre alcançando graus mais elevados de complexidade.

Argumentos como esse foram muito utilizados para justificar a escalada de ocupação territorial realizada pelos países europeus no restante do mundo: o "fardo do homem branco" seria levar a civilização e o progresso a todos os cantos do planeta. Porém, nem sempre o que se chama de "civilização" e de "progresso" significa um salto positivo compartilhado por todas as pessoas e por todas as sociedades.

No fim do século XIX havia sociedades - e ainda existem muitas - que partiam de princípios e de uma lógica de funcionamento distintos dos da sociedade europeia, para as quais a tecnologia e as máquinas tinham significado distinto ou nem mesmo representavam algo. As sociedades que, naquele período, não viviam de acordo com os princípios da "civilização" e do "progresso" acabaram sendo dizimadas (como ocorreu com os povos indígenas nos Estados Unidos) ou profundamente transformadas (como ocorreu na Índia e no Japão). Mas nada disso aconteceu sem resistência ou muita luta.

MORAES, José Geraldo Vinci de. História: Geral e Brasil. São Paulo: Saraiva, 2010. p. 195-197.

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

O Iluminismo: a modernidade arquitetada

Uma leitura de D'Alembert no salão de madame Geoffrin, Lemonnier

O convite dos livreiros Briasson, Durante e David para que o filósofo Diderot traduzisse a Cyclopaedia inglesa foi o ponto de partida para a produção da Enciclopédia, uma obra inteiramente nova que sintetiza o pensamento do chamado Século das Luzes. Com a ajuda do matemático D'Alembert, Diderot trabalhou incansavelmente, e os três primeiros volumes apareceram em 1753, com grande sucesso.

Além de receber insignificante recompensa financeira, Diderot ainda teve que suportar as pressões e censuras da Igreja e do Estado - o qual em 1759 chegou a proibir a circulação da Enciclopédia. Mas, com persistência, continuou seu trabalho, e em 1772 os 36 volumes da Enciclopédia estavam publicados. Para a realização dessa obra contribuíram grandes pensadores da época, como Rousseau, Voltaire, Montesquieu, Turgot, Holbach, e mais de uma centena de estudiosos de diversas áreas do conhecimento. As atividades dos filósofos e seus ensinamentos ganharam assim maior divulgação, o que tornou mais evidentes seus confrontos com o passado.

A Enciclopédia revelou quão expressiva era a produção de conhecimento no século XVIII. Embora poucos soubessem ler, a publicação de uma obra de tal dimensão era um exemplo claro de que as ideias circulavam e de que os intelectuais estavam empenhados na construção de novos projetos para a sociedade. Pensava-se agora não só em conhecer o mundo, mas também na possibilidade de transformá-lo. As ideias de liberdade e progresso estavam presentes nessa nova proposta social.

Os filósofos iluministas acreditavam que o homem era capaz de reformar a sociedade, libertar-se dos preconceitos, educar-se para uma realidade que o tirasse definitivamente das trevas. Para eles, a razão era a grande luz que deveria iluminar os caminhos da humanidade, daí o termo Iluminismo. O racionalismo proposto por Descartes no século anterior fazia adeptos, o materialismo atraía pensadores, a religião sofria abalos, a burguesia procurava se articular em torno das propostas de mudanças que a favoreciam.

A ideia de revolução já circulava, parecia que a História tinha sido transposta para um futuro inevitavelmente superior ao presente que se estava vivendo. As ideias de Francis Bacon começavam a fazer sentido - constatava-se que o conhecimento não podia ficar restrito apenas ao deleite intelectual, pois cabia a ele a função de influenciar o desenvolvimento social, contribuindo para melhorar as condições da vida cotidiana dos homens.

* Novos espaços para o saber. Ainda no final desse século, embora a obra desses pensadores não tivesse alcançado ampla divulgação, na educação já se registravam conquistas importantes. As pessoas começaram a se interessar por aprender a ler e escrever. Segundo Roger Chartier:

No final do século XVIII, na Europa a escrita é corriqueira, de 60% a 70% dos homens sabem assinar o nome: 71% na França situada ao norte da linha Saint-Malo - Genebra, 61% nos Países Baixos austríacos. Para as mulheres, exceto a Escócia, as porcentagens se situam em torno de 40%: 44% no norte e nordeste da França, 37% nos Países Baixos, 40% na Inglaterra. (As práticas da escrita. In: Phillippe Ariès e Georges Duby, dirs. História da vida privada. São Paulo: Companhia das Letras, 1991. v. 3. p. 119.)

Ainda de acordo com Chartier, na França da época do Iluminismo, "a leitura em voz alta por quem sabe ler para os que sabem menos bem ou nada constitui uma prática habitual, na cidade e no campo, por trabalho ou por lazer, e ao acaso da rua ou entre companheiros de labuta". Os objetos de leitura eram os mais variados: textos religiosos, coletâneas, cartazes afixados nos muros das cidades, etc. Na Espanha dos séculos XVI e XVII, formavam-se auditórios para ler novelas de cavalaria em voz alta.

Novos hábitos começavam a se espalhar pela Europa, assinalando modos diferentes de conviver com a chamada privatização das condutas, isto é, com a importância atribuída aos espaços individuais, que começavam a ser considerados privilegiados. Saber ler era uma conquista fundamental, representava uma condição de maior autonomia e maior possibilidade de acesso ao conhecimento. Longe da dispersão que marcava as leituras coletivas, o leitor solitário podia concentrar-se nas suas dúvidas e descobertas, aumentando assim o leque de suas escolhas pessoais e a compreensão das mudanças sociais. Consolidava-se assim uma das práticas individualistas do mundo moderno.

Não se pode deixar de enfatizar o quanto a leitura e a escrita colaboraram para a construção da modernidade. Para os iluministas, o projeto de emancipação do homem passava pela relação com o saber produzido. Afinal, a razão era a luz. A leitura e a escrita assumiram um novo valor social: eram indispensáveis, de acordo com uma pedagogia que se propunha a libertar o indivíduo por meio da racionalidade.

* Divulgando as novas ideias. A movimentação intelectual da chamada Revolução Científica, no século XVII, colaborou para a derrubada de muitos preconceitos e redefiniu a formação dos estudiosos do século XVIII. Além disso, os iluministas dispunham em sua época de melhores condições para divulgar suas ideias, conseguindo por isso alcançar as elites pensantes das principais capitais europeias - especialmente Paris e Londres.

Muitas dessa ideias, no entanto, vinham do final do século XVII. O Dicionário histórico e crítico, do francês Pierre Bayle (1647-1706), publicado nos Países Baixos, questionava o clero e denunciava a tirania. Bayle, como todos os protestantes franceses seus contemporâneos, fora perseguido pela monarquia de Luís XIV e refugiara-se nos Países Baixos, onde a censura era menor rigorosa que na França católica.

A França, porém, continuou a ser o grande centro cultural da Europa. Na segunda metade do século XVIII, Paris foi a cidade em que os intelectuais iluministas tiveram atuação mais destacada, embora a Igreja, que em outros tempos fora o principal núcleo de produção do saber erudito, se posicionasse contra a renovação intelectual, o que a fez perder mais prestígio ainda.

Convencidos de que suas ideias trariam reformas significativas para o homem, vários iluministas foram severos críticos do catolicismo, e alguns chegaram a defender religiões baseadas na razão. Havia entre eles os deístas, que acreditavam em um Deus totalmente distante do homem, com o qual não havia nenhuma possibilidade de comunicação, e os panteístas, que sustentavam a presença de Deus em todas as coisas naturais. Tanto uns quanto outros negaram qualquer valor ao papel das instituições religiosas.

O inglês John Tholand (1670-1722) foi um dos defensores da ideia de que as religiões ultrapassavam os limites da racionalidade. Segundo ele, a razão era o único caminho do bom-senso, e não os mistérios religiosos revelados por profetas.

Como as universidades eram controladas pelo clero, os intelectuais procuraram novos espaços para divulgar suas ideias, livres de perseguições ou censura. Muitas sociedades ou clubes foram então organizados com esse objetivo. A maçonaria teve uma atuação destacada nesse sentido, e suas lojas constituíram importantes pontos de encontro para os simpatizantes do Iluminismo. Em meados do século XVIII, havia cerca de 50 mil membros de lojas maçônicas em toda a Europa.

[...]

A repercussão das ideias liberais ultrapassou as fronteiras da Europa, chegando também às colônias da América, onde deram grande alento aos movimentos de independência. No Brasil, fizeram parte dos ideais dos revolucionários mineiros, em 1789, e baianos, em 1798. A independência dos Estados Unidos da América (1776) antecedeu a Revolução Francesa (1789), a qual representava a maior vitória dos ideais ilustrados.

REZENDE, Antonio Paulo; DIDIER, Maria Thereza. Rumos da História: História geral e do Brasil. São Paulo: Atual, 2005. p. 279-282, 291.

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

"Entre o sagrado e o profano": Reforma e Contrarreforma

"O jardim das delícias terrenas", Hieronymus Bosch. "Inferno" (detalhe)

Em 1512, Jean Bouchet, em sua obra Lamentos da Igreja Militante, escrevia: "Nossos grandes abusos são tão públicos que lavradores, mercadores e artesãos os vão cantando com grande regozijo". (Citado por DELAMEAU, J. La Reforma. Barcelona: Nova Clio, Editorial Labor, 1973. p. 6.)


"Tentações de Santo Antão" (detalhe), Hieronymus Bosch. 

O que significavam todos esses "abusos"?

Eles eram reflexo de verdadeira ruptura com as estruturas tradicionais. Ruptura que afetava profundamente as consciências individuais.

[...]

Nesse período ocorreram grandes desgraças, como a Peste Negra, a Guerra dos Cem Anos, a fome... Os homens da época se perguntavam: por que tudo isto está acontecendo? Será que Deus quer nos castigar? A resposta que encontraram foi afirmativa. Sim, Deus queria castigá-los pelos muitos pecados que cometiam. A solução seria então a purificação dos sentidos humanos. O homem precisava lutar para atingir a perfeição, para se purificar, pois afinal era feito à semelhança de Deus e dele deveria estar mais próximo.

Era sob esse aspecto que os homens da Igreja viam os problemas. Todas as desgraças que se abatiam sobre os homens geravam um clima de insegurança e desordem, que no entender da Igreja eram "desrespeito e abuso".

Mas, o que realmente deveria estar acontecendo?

Essas explicações carregadas de religiosidade satisfaziam os homens da Idade Média, cujas estruturas ideológicas estavam dominadas pela Igreja.

Se "a sociedade rural da Alta Idade Média havia permitido o florescimento de uma cristandade comunitária dominada pela hierarquia eclesiástica e abadias", a Baixa Idade Média oferecia um clima de insegurança; e por quê? (DELUMEAU, J. op. cit., p. 13.)

O desenvolvimento do comércio e do artesanato citadinos modificou a vida econômica da Europa. À medida que a interligação cidade-campo fortalecia a economia monetária e as transações financeiras, as atividades comerciais e artesanais dificultadas pelo feudalismo entravam em choque com esse sistema, de cuja desagregação dependiam os progressos do capital.

Compreende-se o apoio que esse capital, isto é, que a burguesia, ansiosa de privilégios, dava às ideias centralizadoras dos monarcas. "Assim os novos e poderosos comerciantes - como os Médici, os Függer (...) - ousaram encarnar o pecado, frente à moral da Igreja". (DELUMEAU, J. op. cit., p. 13.) Era a cobiça o grande "mal" da época...

E como se livrar desse mal?

"A cobiça era condenada pela Igreja. Mas a Igreja representava o velho (...) e agora (...), nesses novos tempos (...), a cobiça era a mola mestra do comércio que se desenvolvia. Quem estava tomado daquele mal tinha necessariamente possibilidades de ser rico. E os nobres e burgueses endinheirados faziam construir santuários privados, em que se rogava especialmente pelos mortos da própria família". (DELUMEAU, J. op. cit., p. 13.)

Crescia aí o germe de outro sentimento: o individualismo, que, em suas múltiplas formas, contribuiu para a ascensão da burguesia e, consequentemente, do espírito leigo.

"Nessa atmosfera de confusão de hierarquias e de valores, os fiéis já não eram capazes de distinguir com a clareza de outrora entre o sagrado e o profano, e entre o sacerdote e o leigo (...) Em canções profanas se mesclavam palavras litúrgicas, e se compunham missas com temas de canções profanas (...) Jean Michel, que narrou em 65 mil versos o segundo e o terceiro dias de 'La Pasión', de Gréban, não viu inconveniente em introduzir, para atrair a atenção do público, cenas cômicas e realistas, tais como as dos amores de Judas ou da vida mundana de Maria Madalena". (DELUMEAU, J. op. cit., p. 15-16)

Podia a figura do sacerdote conservar, em tal clima, pureza e seriedade, que eram a sua força?

Claro que não! E essa "crescente confusão entre o sagrado e o profano e a mútua influência entre ambos os domínios, religioso e civil", traziam consigo um clima de dúvida... (DELUMEAU, J. op. cit., p. 17.)

O que poderia salvá-los das desgraças terrenas e do julgamento divino?

"A Igreja ensinava que era necessário confessar e comungar para obter indulgências". No entanto, em meio ao desespero e à confusão de valores, temerosos e ignorantes, os povos do Ocidente medieval trataram de acreditar que podiam "comprar" sua salvação através de esmolas e doações para a Igreja. Os abusos não tardaram e a venda de indulgências, de cargos eclesiásticos e de imagens se tornou uma das vergonhas da Igreja.

Os humanistas se propuseram a solucionar esses males. Quiseram purificar a linguagem em que se transmitia a palavra de Deus, libertar as Escrituras do exclusivismo eclesiástico e apresentá-las sob uma nova visão. Pondo em dúvida a autoridade da Vulgata (versão latina da Bíblia, reconhecida como verdadeira pelo Concílio de Trento), e colocando as ciências filológicas acima de toda a autoridade dos bispos e papas, introduziram o método crítico nos temas religiosos. Insistiram na religião interior do homem, desvalorizando a hierarquia eclesiástica, o culto dos santos e as cerimônias.

A insegurança do homem aumentava. Ele começava a crer na compra da salvação. Mas a dúvida permanecia e, com ela, a angústia que Lutero, no século XVI, veio a amenizar, quando afirmou: "Só a fé salva".

"Aos que temiam o inferno, Lutero dizia: Deixai de vos atormentar! Deus não é um juiz severo, mas um pai compassivo. Fazei o que quereis, sois e sereis pecadores toda a vossa vida. Contudo se crerdes no Redentor, estais salvos. Tende confiança!" (Citado por DELUMEAU, J. op. cit., p. 12)

Começou com Lutero o movimento reformista. Foi na Alemanha, em 1517, que Lutero combateu duramente a Igreja Católica, dando origem à Reforma Protestante.

Se alguém lhe perguntasse quais as causas da Reforma Protestante, o que você diria?

Diante dessas questões muitos responderam que a Reforma surgiu porque a Igreja estava corrompida pela libertinagem, pelo abuso, desrespeito, enfim, estava dominada pela impureza.

Você concorda com essa explicação?

As causas da Reforma foram, então, mais profundas... Todas as inovações teológicas respondiam às necessidades da época, isto é, todas as transformações sociais, políticas e econômicas exigiam mudanças ideológicas.

Podemos dizer que a Reforma foi produto de uma multiplicidade de fatores políticos - oposição dos reis ao supranacionalismo papal -, econômicos - interesse da nobreza pelas terras da Igreja e da burguesia na extinção da doutrina do "justo preço" etc. -, e intelectuais - ação do Humanismo, na sua crítica à Igreja.

Sob um pretexto religioso, os interesses envolvidos no movimento levaram às Guerras de Religião, que ensanguentaram a Europa no século XVI. A Reforma se espalhou pelos países escandinavos (luteranismo), pelas cidades suíças (calvinismo) e pela Inglaterra (anglicanismo, presbiterianismo e puritanismo), chegou até a América do Norte através dos "Peregrinos do Mayflower", perseguidos na Inglaterra e que esperavam encontrar na América uma terra de liberdade e de tolerância... Nos Países Baixos e na Suíça, então colocados sob o domínio dos Habsburgo, a Reforma se mesclou com a luta pela independência nacional, de que resultou a formação da República das Províncias Unidas (sendo a Holanda a principal província) e a separação da Bélgica, que permaneceu católica e submetida ao Império dos Habsburgo.

A Igreja Católica reagiu ao movimento através da Contrarreforma, cuja expressão máxima foi o Concílio de Trento.

A autoridade real, o absolutismo, saiu reforçada com a Reforma, sendo exceção o imperador do Sacro Império Romano-Germânico.

Em última análise, significou um formidável golpe na superestrutura feudal, enfraquecida com a divisão da Igreja Católica.

Era o sinal de novos tempos...

AQUINO, Rubim Santos Leão de et al. História das sociedades: das sociedades modernas às sociedades atuais. Rio de Janeiro: Imperial Novo Milênio, 2010. p. 128-132.

sábado, 6 de agosto de 2011

Do mito à história das mentalidades

Helena (à direita, nas costas do jovem) sendo raptada por Teseu. Ânfora Ática, 510 a.C.


* A pré-história da história. "História" é uma palavra de origem grega, que significa investigação, informação. Ela surge no século VI antes de Cristo (a.C.). Para nós, homens do Ocidente, a história [...] iniciou-se na região mediterrânea [...].

Antes disso, porém, vemos que os homens, desde sempre, sentem necessidade de explicar para si próprios sua origem e sua vida. A primeira forma de explicação que surge nas sociedades primitivas é o mito, sempre transmitido em forma de tradição oral. Entre os conhecimentos práticos, transmitidos oralmente de geração a geração, essas sociedades incluem explicações mágicas e religiosas da realidade. [...]

O mito é sempre uma história com personagens sobrenaturais, os deuses. Nos mitos os homens são objetos passivos da ação dos deuses, que são responsáveis pela criação do mundo (cosmos), da natureza, pelo aparecimento dos homens e pelo seu destino.

Os mitos contam em geral a história de uma criação, do início de algo. É sempre uma história sagrada. [...]

Em geral o mito é visto como um exemplo, um precedente, um modelo para as outras realidades. Ele é sempre aplicado a situações concretas. Existem inúmeros mitos da criação do mundo (mitos cosmogônicos) que são vistos como exemplos de toda situação criadora. [...]

Conhecemos a existência, entre o IV e o III milênios a.C., de sociedades mais complexas, nas quais existe a escrita e um governo centralizado, que dirige uma sociedade organizada em uma hierarquia social. Nessas sociedades, as fontes históricas mais remotas são as inscrições, assim como os anais religiosos (listas de sacerdotes, cerimônias religiosas, etc.).

Esse governo é em geral monárquico, e a sua origem é sempre vista como divina. Os reis representam os deuses e são eles que tudo decidem, sendo seus atos registrados em anais. [...]

Entre essas civilizações destacam-se a egípcia e a mesopotâmica, duas das mais importantes na chamada Antiguidade Oriental.

[...]

Na Grécia, por volta do primeiro milênio a.C., o mito começa a ter uma conotação diferente: vamos encontrá-lo na poesia, por exemplo, na Ilíada, poema épico atribuído a Homero [...]. Nele encontramos lendas e mitos da época micênica, berço inicial da civilização grega. Entre outros mitos, lá referidos, encontramos o da origem da Europa. Europa era filha de Agenor, rei da Fenícia, país da Ásia Menor, no Oriente Próximo. Zeus, o principal dos deuses gregos, por ela se apaixona. Sob a forma de touro, vai seduzi-la e raptá-la, atravessando o mar Mediterrâneo e levando-a para a ilha de Creta. Lá ela vai se tornar a mãe de Minos e seu nome vai ser dado a uma das três partes do mundo antigo. É curioso notar que a civilização europeia é, em grande parte, herdeira da civilização grega. Por esse mito, vemos uma relação entre a Europa e a Fenícia; ora, os fenícios são os grandes navegadores que difundiram pelo Mediterrâneo a civilização do Oriente Próximo; a eles devemos, entre outras contribuições, o alfabeto europeu ocidental.

* O aparecimento da história. A explicação mítica não vai, evidentemente, desaparecer, continuando até hoje em quase todas as manifestações culturais, não como a única forma de explicação da realidade, mas paralela a outras, como a história.

Ao recontar ou recopiar essas explicações, num certo momento, os homens passam a refletir sobre elas. É especialmente um estudioso dos mitos, Hecateu de Mileto [...], que vai, ao voltar do Egito, dizer:

"Vou escrever o que acho ser verdade, porque as lendas dos gregos parecem ser muitas e risíveis".

Na região onde Hecateu vive, cruzam-se muitas civilizações, e os viajantes, em seus contatos mútuos, vão-se esclarecendo.

A história, como forma de explicação, nasce unida à filosofia. Desde o início elas estão bastante ligadas [...]. São os próprios gregos que descobrem a importância específica da explicação histórica. Heródoto, de acordo com a orientação empreendida por Hecateu de Mileto, se propõe a fazer investigações, a procurar a verdade. Heródoto é considerado o pai da história, pois é o primeiro a empregar a palavra no sentido de investigação, pesquisa. Sua obra mais antiga começa assim:

"Eis aqui a exposição da investigação realizada por Heródoto de Halicarnasso para impedir que as ações realizadas pelos homens se apaguem com o tempo".

Ele e os primeiros historiadores gregos vão fazer indagações entre seus contemporâneos, aproveitando, para escrever a história, também, as tradições orais e os registros escritos.

Os cidadãos gregos querem conhecer a organização de suas cidades-estado, as transformações que elas sofrem. [...] Heródoto [...] estuda sobretudo a guerra entre os gregos e os persas [...]. Tucídides [...] vai estudar as guerras do Peloponeso [...].

[...]

A explicação não é mais atribuída a causas sobrenaturais, não são mais os deuses os responsáveis pelos destinos dos homens. Estes começam a examinar os fatores humanos, como os costumes, os interesses econômicos, a ação do clima, etc., embora ainda se encontrem referências aos mitos e aos deuses.

Há uma preocupação explícita com a verdade. Políbio [...] escreve:

"Desde que um homem assume atitude de historiador, tem que esquecer todas as considerações, como o amor aos amigos e o ódio aos inimigos..." [...]

[...]

A cultura romana é, em grande parte, herdeira da cultura grega. Às características da história na Grécia, os romanos acrescentam sobretudo uma noção utilitária, pragmática: a história exalta o papel de Roma no mundo, servindo ao seu imperialismo. [...] A história é vista como mestra da vida [...].

* A história teológica. A essa visão unificada da humanidade, os judeus, povo do Oriente Médio dotado de uma religião e uma visão do mundo específicas, atribuem um outro sentido. Com a difusão da religião judaico-cristã no Império Romano, durante o período da desestruturação deste, temos grandes mudanças. O processo histórico pelo qual passa a humanidade é então unificado não mais em torno da ideia de Roma, mas de uma visão do cristianismo como fundamento e justificativa da história. A influência do cristianismo é tão grande em nossa civilização que toda a cronologia de nosso passado é feita em termos do seu acontecimento central, a vinda do filho de Deus à terra. Cristo, tornando-se homem, possibilita a salvação da humanidade, meta final da história. [...]

A história continua tendo uma visão do tempo linear, cujo desenvolvimento é conduzido um plano da Providência Divina. É a volta a uma explicação sobrenatural, semelhante à do mito, e também cosmogônica. Ela se impõe no início do período medieval [...] perdurando como forma única por toda a Idade Média, quando se forma a civilização europeia ocidental.

A realidade agora está dividida em dois planos: o superior, perfeito (representado por Deus) e o inferior, imperfeito (representado pelos homens). [...] O plano superior da realidade é a Cidade de Deus, enquanto que o plano inferior é a Cidade dos Homens.

[...]

O sentido global da história da humanidade é revelado por Deus aos homens, e a Igreja é a responsável pela orientação da humanidade em sua busca da salvação.

[...]

Os séculos iniciais da Idade Média são de regressão demográfica e cultural; a população vive em sua maior parte no campo e quase ninguém sabe ler [...]. A Igreja, grande proprietária de terras, é quem registra a organização e as formas de trabalhar essas terras. [...]

Somente membros do clero sabem ler e escrever. A maior parte do que foi escrito nessa época é feita pelo clero. Grande parte das fontes são, por exemplo, vidas de santos. [...]

Os documentos leigos vão começar a aparecer só bem mais tarde, nos séculos XII, XIII, com o renascimento urbano e comercial; surgem como registros de comerciantes particulares, diários de escudeiros, de cavaleiros famosos, de menestréis, etc.

A história escrita nesse período [...] se compõe sobretudo das chamadas crônicas ou anais, em que se relatam fatos, mais do que outra coisa. [...]

A Idade Média é um período em que se vê, associada à predominância da fé, uma enorme credulidade geral. Acreditava-se em lendas fantásticas, no paraíso terrestre, na pedra filosofal, no elixir da vida eterna, em cidades toda de ouro, etc. Existem lendas sobre os mares estarem assolados por monstros, sobre a terra que terminava de forma súbita por ser plana, etc. Toda essa mentalidade reinante refletiu-se na forma de se escrever a história, na qual há uma grande presença do milagre, do maravilhoso e do impossível.

Aos poucos isso tudo vai sendo substituído por um melhor conhecimento do globo, que a Europa vai descobrir e explorar. São publicados estudos de geografia, mapas, há uma renovação da visão do mundo como um todo, e a história acaba refletindo essas alterações.

* A erudição, a razão e o progresso na história. A sociedade europeia ocidental está, no período que é considerado como o início da Modernidade (século XVI), em plena desestruturação do sistema feudal. As condições de sociedade em crise permitem que um grupo social em formação (a burguesia) [...] vá se impor [...] ao longo de alguns séculos, num fenômeno de urbanização [...] que se prolonga até nossos dias [...].

Um mundo real devido à expansão comercial se estende à frente dos homens da Europa Ocidental, e eles vão se dedicar à sua compreensão. Um humanismo que procura focalizar sua atenção no homem, como centro desse universo, se impõe lentamente desde o final da Idade Média. [...]

Aos poucos, assim, vai-se formando uma concepção não teológica do mundo e da história. O conhecimento não parte mais de uma revelação divina, mas de uma explicação da razão. [...]

Durante o Renascimento, a cultura europeia ocidental, desprezando os dez séculos medievais, procura retomar a Antiguidade greco-romana, seus valores, sua arte, etc. [...] Com a preocupação pelos textos antigos e por sua exatidão, com a pesquisa e a formação de coleções de moedas, de objetos de arte, de inscrições antigas, vai ser levantado um enorme material para a reconstituição desse passado. [...]

[...]

No século XVIII, numa sociedade em plena transformação, com a desestruturação final do sistema feudal e o avanço da ordem burguesa, surge o Iluminismo, corrente filosófica que procura mostrar a história como sendo o desenvolvimento linear progressivo e ininterrupto da razão humana. Para os iluministas, a Idade Média foi o período das trevas [...].

A burguesia [...] vai procurar reorganizar suas formas de pensamento, buscando explicar a nova realidade. Não são mais os teólogos que estão no comando dessa explicação, mas sim os filósofos. [...]

[...]

No século XIX, temos a afirmação dos nacionalismos europeus e conflitos daí recorrentes. Nesse sentido, os Estados em organização e estabilização [...] vão estimular o interesse pelo estudo de sua história nacional. Surgem inúmeras sociedades de pesquisa [...].

* O materialismo histórico e a história acadêmica. No século XIX, temos a efetivação da sociedade burguesa e a implantação do capitalismo industrial. Ora, desde meados desse século o capitalismo é criticado como forma de organização da sociedade; nessa linha, destacam-se dois pensadores, Karl Marx e Friedrich Engels. Ambos elaboram uma nova concepção filosófica do mundo (materialismo dialético), ao fazerem a crítica da sociedade em que vivem e apresentarem propostas para sua transformação. Seu método aplicado à história é o materialismo histórico.

Os dois estudam sobretudo o capitalismo, a sociedade burguesa, suas leis de evolução e a transformação dessa realidade fundamental que, da Europa, se estende ao resto do globo. [...]

[...]

O materialismo histórico mostra que os homens, para sobreviver, precisam transformar a natureza, o mundo em que vivem. Fazem-no não isoladamente, mas em conjunto, agindo em sociedade [...]. O ponto de partida do conhecimento da realidade são as relações que os homens mantêm com a natureza e com os outros homens; não são as ideias que vão provocar as transformações, mas as condições materiais e as relações entre os homens.

[...]

Para Marx e Engels, a história é um processo dinâmico, dialético, no qual cada realidade social traz dentro de si o princípio de sua própria contradição, o que gera a transformação constante na história. A realidade não é estática, mas dialética, ou seja, está em transformação pelas suas contradições internas. No processo histórico, essas contradições são geradas pela luta entre as diferentes classes sociais. [...]

[...]

Na Europa, as primeiras universidades datam do século XIII, mas é somente no século XIX que o conhecimento histórico passa a ter uma presença específica em seus currículos. Daí em diante, o conhecimento histórico passa a ser produzido sobretudo no âmbito das universidades. [...]

[...]

É sobretudo na França que ocorrem as primeiras transformações dessa história. Os trabalhos iniciais que revelam essa revisão são os elaborados pelos historiadores franceses, professores universitários, da década de 30. Esses trabalhos são publicados na revista Anaes de História Econômica e Social, cujo primeiro número é publicado em janeiro de 1929. Esse grupo ficou conhecido como a "escola francesa" ou "escola dos Anaes"; seus grandes iniciadores foram Marc Bloch e Lucien Febvre. [...] Aceitam uma história total, que veja os grupos humanos sob todos os seus aspectos e, para tal, uma história que esteja aberta às outras áreas do conhecimento humano, numa visão global: economia, sociologia, política, etc.

* Perspectivas atuais. A expansão colonialista levou a Europa a entrar em contato com outros povos, outras formas de vida, outros costumes, outras instituições; mas essas outras formas de organização social eram sempre comparadas com a forma de organização europeia, que era considerada como o padrão. [...] O eurocentrismo, esse privilegiamento [...] continua. [...] a história é apresentada como um processo de desenvolvimento contínuo, desde a pré-história até o período contemporâneo; ela parece ter como meta final a civilização europeia ocidental [...].

A Segunda Guerra Mundial, ao projetar a importância dos EUA, da Rússia e do Japão, mostra aos historiadores a necessidade de rever suas posições eurocentristas. [...] A Europa não poderia mais ser vista como o centro do mundo; explicar a história em função da história da civilização ocidental não faz mais sentido. [...]

As maiores influências nos trabalhos de história, da metade do século em diante, são, portanto, no mundo ocidental, a visão do materialismo histórico e a visão da "história das civilizações", ligada à escola dos "Anaes" [...].

Os herdeiros da chamada "Escola dos Anaes", a partir dos anos 70, galgaram os mais importantes postos acadêmicos e editoriais; [...] procuram trabalhar a partir de objetos, abordagens, fontes e documentos utilizados por outras disciplinas.

[...] Há cada vez mais uma preocupação pelo que exista dentro da cabeça dos homens, em todos os seus aspectos; assim, alguns trabalham com a chamada "história das mentalidades", por exemplo, fazendo a história da morte, ou da alimentação, do sexo, ou do medo no Ocidente.

Há uma preocupação com os detalhes do cotidiano dos homens, em seus diversos grupos sociais. [...]

BORGES, Vavy Pacheco. O que é história. São Paulo: Brasiliense, 1998. p. 11-43.

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Cultura popular urbana no Brasil (1889-1930)

"São Paulo", Tarsila do Amaral

Os primeiros anos do século XX seriam justamente os semeadores de um novo modo de vida, cujos "frutos" seriam colhidos mais tarde, durante a década de 30. Nas primeiras décadas deste século, o processo de metropolização das grandes cidades e, principalmente, a modernização da vida de seus habitantes, se desenvolveram rapidamente, transformando seu cotidiano. Os modos de viver e conviver nas cidades, de maneira geral, estavam mudando nesses anos com as transformações modernizadoras, apesar da permanência de elementos do universo rural, cada vez mais rarefeitos.

No início deste século, o ritmo frenético das grandes cidades em formação reproduziu-se rapidamente por todos os cantos. Não eram apenas as indústrias que se multiplicavam, as populações e cidades que cresciam e se transformavam vertiginosamente e os serviços urbanos que se espalhavam nos centros urbanos. O dia-a-dia dos habitantes desses centros urbanos também começava a andar mais rápido, quer no trabalho, quer no lazer.

Para chegar aos seus empregos nas indústrias, casas comerciais, empresas e repartições públicas, as pessoas tinham o conforto da locomoção rápida, de bonde ou nos poucos automóveis que corriam nas ruas calçadas e nas grandes e espaçosas avenidas reformadas.

Diariamente, nos bondes, nas ruas e nas lojas, a multidão se defrontava com os reclames (propagandas) anunciando ou vendendo algo, desde a última novidade da moda a remédios milagrosos. Com linguagem telegráfica, atrativa e muitas vezes simbólica, essas propagandas deviam ser lidas rapidamente, no tempo em que duravam as viagens e a passagem por ruas e avenidas. Os telégrafos, telefones e trens suburbanos reforçavam esse universo da rapidez.

Nas ruas e calçadas, multidões de pessoas, automóveis e bondes precisavam ser educados por guardas, para que não se destruíssem uns aos outros nas inúmeras esquinas. O transporte público precisava cada vez mais indicar aos usuários, por meio de números, nomes e cores, seus inúmeros destinos pelos vários bairros e ruas das cidades que cresciam. [...]

Na realidade, as transformações modernizantes que ocorriam no Brasil nas primeiras décadas deste século também atingiram inúmeros setores da vida cultural do país. Em meados da década de 10, despontaram nas artes plásticas, na música, na poesia e na literatura tendências que sofriam influências das manifestações modernistas europeias, mas também buscavam referências para pensar e criar uma "cultura nacional" a partir dos elementos "tipicamente" brasileiros. Essas mudanças, projetos, contradições e angústias se manifestaram de maneira clara na Semana de Arte Moderna, em 1922, ocorrida em São Paulo, revelando a efervescência e as tensões sociais e culturais do período.

No entanto, a maior parte dessas transformações e manifestações (nas artes, na educação, nas ruas, nos automóveis e instrumentos eletroeletrônicos, enfim, o ingresso ao mundo moderno) permaneciam ainda bem restritas no seio da sociedade. Quem, na realidade, podia usufruir de fato essas transformações eram pequenas parcelas da população, principalmente a elite e os setores médios, que desfrutavam da ampliação das estruturas material, educacional e cultural e que lutavam para erguer a face moderna das cidades. [...]

Nas primeiras décadas deste século, inúmeras e novas formas culturais das classes subalternas se organizavam nos grandes centros urbanos. Essas renovadas situações ocorriam em teatros, cafés-cantantes, casas de dança, circos, serenatas, festas populares, futebol, restaurantes, bares, cinemas etc., que se multiplicavam e se misturavam pelos centros urbanos, movimentando dia e noite as grandes cidades. Nesses espaços de entretenimento, as manifestações produzidas localmente também se defrontavam com as estrangeiras. Na música, por exemplo, o cake-walk, o ragtime, o one-step, tangos e habaneras, veiculados pelo cinema, pelos teatros, pelos poucos fonógrafos e gramofones e, posteriormente, na década de 30, pelo rádio, ocuparam espaços consideráveis e confundiam-se com os já conhecidos fados, modinhas, polcas e valsas.

A canção o Pelo telefone, gravada em 1917 por Donga (Ernesto dos Santos - 1889-1974, RJ) e que alcançou sucesso no carnaval daquele ano, é considerado um dos primeiros sambas de características urbanas gravados em disco. [...] naquele momento os instrumentos de gravação e difusão do som (fonógrafo, disco) ainda engatinhavam e eram vistos como grande novidade. Por isso, um samba gravado e difundido por esses meios de comunicação de massa ganhava uma certa aura de modernidade. [...]

MORAES, José Geraldo V. de. Cidade e cultura urbana na Primeira República. São Paulo: Atual, 1994. p. 66-74.