"Os espelhos estão cheios de gente.
Os invisíveis nos vêem.
Os esquecidos se lembram de nós.
Quando nos vemos, os vemos.
Quando nos vamos, se vão?"
Eduardo Galeano: Espelhos
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terça-feira, 2 de agosto de 2016

A sala de banho, um reduto burguês

Desde as termas particulares das villas romanas, o gosto pelas abluções a domicílio nunca abandonou o Ocidente. A Idade Média apreciava as viagens: o banho era o primeiro gesto de polidez para com o hóspede. Fosse ao mensageiro vindo de longe, como em Tristão e Isolda, ou a um convidado que se desejasse homenagear. Em 1467, Jehan Dauver, por exemplo, primeiro presidente do Parlamento de Paris, preparou quatro banheiras para a rainha Charlotte e seu séqüito, que convidou para jantar.

Aparentemente, o pudor parecia desprovido dessa polidez, no início. No castelo como na cabana, não havia salas de banho. Nenhuma intimidade era prevista: a tina era levada ao quarto e uma prancha, colocada de atravessado, servia de mesa para dispor os objetos necessários.

Na segunda metade do século XVI, foi a arte que por sua vez se ocupou do tema. Os quadros de “damas no banho” estavam na moda. Seria um agrado destinado aos maliciosos? A linguagem, em todo caso, parece cifrada: as jóias, sobretudo os anéis, os espelhos, as flores, a empregada ao fundo, são constantes que aparecem nos cerca de 40 quadros conservados. O de Gabrielle d’Estrées (condessa de Beaurmont e amante de Henrique IV) e de sua irmã é o mais famoso, mas devem ter havido outros: a acreditarmos em Brantôme, mesmo na época eles teriam chocado. O pudico século XVII destruiu um bom número deles.

Gabrielle d'Estrées e uma de suas irmãs, 1595: típico quadro "damas no banho". Artista desconhecido.


O século XVIII recuperou o convívio dentro da banheira. Ali, os grandes recebiam, tanto quanto o faziam em sua cadeira sanitária ou na cama, mas unicamente pessoas de condição inferior, pois o pudor era então hierarquizado. Eram as mulheres, em especial, que gostavam de receber socialmente dentro da banheira. O cardeal de Berris, embaixador em Roma, tratou de distrair dessa forma a senhora de Genlis, hospedada na Cidade Eterna. Por vezes, ia acompanhado de seu jovem sobrinho. Mas o pudor era no entanto preservado: a água do banho era turvada por cerca de um litro de leite.

Esse hábito cessou pouco a pouco no século XIX, na época em que a sala de banho ganhou as residências burguesas.

Jean-Claude Bologne, filólogo e historiador.

sábado, 25 de junho de 2016

Valores burgueses (1870-1914)

M. Jourdain, Le Bourgeois Gentilhomme, o personagem-título da peça de Molière

"Espetacular" parece ser a palavra correta para descrever os diversos aspectos do mundo público burguês. A sociedade nervosa e de estímulos contínuos se manifesta com especial intensidade no centro do capitalismo: o consumo de mercadorias. Através do consumo, ato final e ao mesmo tempo regenerador, é possível perceber traços e valores dessa "nova era".

O próprio ato de consumir mudou de sentido. Se tomarmos a Inglaterra como parâmetro, podemos notar que em Londres se realizava uma transformação que ainda caracteriza a cultura urbana contemporânea: o consumo como prazer, diversão e exercício de sociabilidade.

Durante quase toda a era vitoriana, consumir foi um ato associado ao desperdício, à indulgência e mesmo à imoralidade e à falta de controle. No entanto, desde os anos de 1860, restaurantes, hotéis, teatros, museus, exposições e clubes, associados à expansão do transporte público e ao advento da imprensa popular, alteravam gradualmente esse sentido negativo do ato de consumir.

Como componentes dessa "nova era de consumo" estavam as lojas de departamento. O auge do consumo como um ato refinado e seguro pode ser estabelecido com a fundação da grande loja de atendimento de massa por Harry Gordon Selfridge, na Oxford Street, em 1909. Em sua loja ele introduziu um restaurante, montou vitrines espetaculares, acreditou em uma decoração luxuosa e se amparou em um forte esquema publicitário. Nesse ambiente comercial, Selfridge esperava que seus clientes considerassem as compras não como uma ação econômica, mas como uma celebração social e cultural. Consumo como lazer era a nova tônica do mercado capitalista da virada do século XIX.

O consumo de massa não se limitou aos produtos feitos pelo sistema fabril. Ele se expandiu para áreas que também adotaram um modelo de produção massiva, mas que faziam parte de uma nova fronteira da indústria: a circulação de informações. Durante a guerra hispano-americana em 1898, o New York Journal, de propriedade de William Randolph Hearst, alcançou a cifra de um milhão de leitores. No mesmo ano era lançado na Grã-Bretanha o primeiro jornal popular: o Daily Mail.

Esses jornais apresentavam notícias e artigos curtos, notícias políticas e econômicas eram simples e informativas e os grandes espaços estavam dedicados aos esportes, às "fofocas" e aos assuntos "femininos". No entanto, a imprensa popular americana e depois a inglesa viviam alimentando uma indústria de notícias espetaculares. Campanhas moralizadoras, tragédias sexuais, crimes violentos, o cotidiano em forma de sensações exacerbadas eram os produtos dessa nova indústria que surgia. No novo capitalismo não apenas a mercadoria era o espetáculo, como na Selfridges, mas o espetáculo também era mercadoria, isso garantia as vendas e a publicidade que sustentava os jornais populares.

Em um mundo público tão intenso e espetacular foi impossível não ressignificar o espaço privado burguês. A casa tornou-se um refúgio, misto de isolamento e proteção em uma cidade cheia de ameaças e terrores, e a família, o conjunto de laços sociais estáveis impossíveis de serem mantidos na esfera da multidão urbana.

Acompanhando essa tendência de perceber a casa e a família como locais estáveis, podemos ver como se desenvolveu na sociedade burguesa um profundo fascínio pelo íntimo e pelo subjetivo. Cartas, diários e relatos em primeira pessoa fizeram um profundo escrutínio do mundo subjetivo. O indivíduo passou a ter suas sensações e seus sentimentos colocados em primeiro plano frente a qualquer outro problema.

[...]

A leitura como um ato de intimidade individual permitiu um "fervor" mais pessoal, uma "devoção" privada, rompendo com as mediações das regulamentações eclesiais da Idade Média e criando uma relação secularizada com o livro e a leitura.

A literatura colocou o subjetivo no foco de sua preocupação narrativa, as artes plásticas passaram a investigar as "impressões" visuais, o século XX poderia ser chamado de a "Era do indivíduo". Nesse novo tempo as sensações e os desejos mais íntimos, progressivamente, irão interagir com a sociedade da mercadoria-fetiche e se tornarão parte integrante do mercado capitalista.

PARADA, Maurício. Formação do mundo contemporâneo: o século estilhaçado. Petrópolis: Vozes; Rio de Janeiro: Editora PUC, 2014. p. 25-7. (Série História Geral)

segunda-feira, 18 de abril de 2016

O Brasil vendido por 30 moedas



"A ditadura perfeita terá as aparências de uma democracia, uma prisão sem muros na qual os prisioneiros não sonharão sequer com a fuga. Um sistema de escravatura onde, graças ao consumo e divertimento, os escravos terão amor à sua escravidão."
Aldous Huxley, "Admirável mundo novo"


Em nome de Deus, da família e a da propriedade. Em nome do capital. Em nome do agronegócio. Em nome da grande tela. Em nome da revista. Em nome da igreja. Em nome da burguesia. Em nome da Fiesp. Em nome da República de Curitiba. Em nome do crime organizado. Em nome dos torturadores. Em nome da p.q.p. esses carrascos.

Um Congresso presidido por um réu. Um Congresso com 150 corruptos. Um Congresso que vendeu o país por 30 moedas. Um cheiro de enxofre. Cristãos hipócritas que depois de 2000 anos continuam do lado dos ladrões. Vitória dos lacaios e vendilhões do templo.

Não há muito o que dizer - as imagens falam: as falas infundadas, os discursos fascistas, os gestos, as expressões faciais mostraram claramente a disseminação do ódio aos movimentos sociais, o machismo, o fundamentalismo religioso dos deputados-pastores, a misoginia, a homofobia. Um espetáculo horrendo o Brasil mostrou ao mundo: o fascismo doentio e maléfico.

Aos que hoje - dia 18 de abril de 2016 - soltam foguetes, brindam com champagne e comem caviar, batem palmas e dão vivas a esse Congresso espúrio e sem ética são coniventes com a corrupção, o falso moralismo e a bandidagem. Todos. Máfia. Está registrado em imagens. Clio não perdoa.

2016 by Orides van der Maurer Jr.

sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

Maçonaria e descolonização

1. Maçonaria: História e Ideologia. As origens primeiras da maçonaria são remotas e um tanto obscuras, havendo notícias de caráter lendário que as situam no antigo Egito, e algumas notícias históricas que marcam sua presença na Europa da Baixa Idade Média. De uma maneira geral, congregava artesãos, principalmente ligados à construção ("masson" = pedreiro), que se uniam para defesa de seus interesses; ao longo do tempo, porém, passou a desenvolver ritos e símbolos secretos, esotéricos, só acessíveis aos iniciados, diferenciando seus membros do restante da população.

No entanto, sua presença mais evidente na Europa se daria a partir do século XVII, e sua irradiação "se insere num dado contexto social, mental e político, que se diria preparando para acolher a 'boa-nova' dos pedreiros-livres".

Durante o seu desenrolar a seita espalhou-se por toda a Europa, seguindo as rotas comerciais e fixando-se, primeiramente, nos portos e nas grandes cidades. Em pouco tempo, Londres, Roma, Paris, Berlim, Haia, Lisboa foram ligadas pela confraria laica dos irmãos, cujos propósitos se conformavam na contração da "cidade nova", figurada segundo o ideário burguês da Ilustração.


Iniciação de um candidato. 
Gravura do final do século XVIII

Impulsionada pelas tensões e questionamentos do Antigo Regime no século XVIII, a maçonaria logo se definiu como uma sociedade de caráter eminentemente político e prático. Enquanto os intelectuais da Ilustração mantiveram-se num debate ao nível das ideias, os maçons incorporaram seus valores e difundiram-nos através de uma organização que visava a transformação da sociedade. Das ideias à prática, entretanto, não deixou de assumir aspectos contraditórios, como notou, excelentemente, Paul Hazard: "Paradoxo: indivíduos que voltam as costas à Igreja frequentam uma capelinha escura. Indivíduos que não querem mais ritos ou símbolos recorrem aos símbolos e aos ritos: a iniciação, as colunas, a tela pintada que representava o templo de Salomão, a estrela flamejante, o esquadro, o compasso, o fio de prumo. Indivíduos que não querem mais mistérios, mais véus, que chegam a pedir que as negociações entre os Estados sejam feitas à vista de todos, comprometem-se ao segredo absoluto [...]. Racionalistas, vão procurar em épocas recuadíssimas os elementos de um misticismo que posteriormente, e nalguns deles, substituirá a razão. Anti-sectários, fundam uma seita. Todavia, para além das aparências, aquilo que neles se topa é o espírito do século." 

A maçonaria definiu-se pelo propósito de construir uma nova sociedade, mediante "a guerra sem quartel aos tiranos, aos déspotas e aos privilégios; pelo deísmo - e por esse culto 'iluminado' ao grande arquiteto do universo, a que Voltaire, entre outros, havia chegado já, muito antes de ter sido recebido, em apoteose, no grau de aprendiz, na loja parisiense das Nove Irmãs (1778). Identificando-se também com os princípios liberais, a seita encontrou um terreno fértil para sua expansão junto à burguesia em ascensão. De tal forma que "a maçonaria é adotada e aceita por todos os que não querem passar por reacionários em fins do século XVIII e princípios do XIX".

2. A Maçonaria em Portugal. O estabelecimento da primeira loja maçônica em Portugal deu-se entre os anos 1735 a 1743, pela ação de um suíço e um francês, Jean Custon e Jacques Mouton, que acabaram sendo sentenciados em 1744 pela Inquisição. Foi somente no governo de D. José I que se abrandou a repressão antimaçônica e pôde expandir-se ela para fora de Lisboa, em cidades como Funchal e Coimbra. No governo de D. Maria I, retornou a perseguição sistemática aos pedreiros-livres, quando as notícias da revolução francesa faziam tremer os monarcas absolutistas. Entretanto, por esse momento, sua penetração já se deva entre indivíduos das camadas mais abastadas e intelectuais, das quais não se excluía parte do clero. No decurso das invasões francesas (1807-1810), criaram-se as condições para a proliferação das lojas maçônicas na metrópole. Apesar de voltarem a sofrer novas perseguições e proibições em 1810 e 1818, homens importantes da política portuguesa já haviam sido ganhos pelos seus ideais, dentro de sua prática de não apenas transformar seus membros em revolucionários, mas também de atrair pessoas que detivessem parcelas do poder, ou, então, deixar-se utilizar por aqueles que viam nela a possibilidade de realização de seus propósitos.

Posteriormente, nas lutas liberais e, num outro estágio, republicanas, a maçonaria teve um papel vital pela sua contribuição ideológica e na formação de uma atmosfera intelectual propícia que tornou possível a instauração do liberalismo em Portugal.

3. A Maçonaria na América Colonial. Apesar da fraternidade universal apregoada pela maçonaria, ela sempre mostrou uma impressionante facilidade em nacionalizar-se, quer dizer, em adaptar sua ação às condições específicas regionais. Sua eficiência em boa parte se deveu a essa capacidade mimética ideológica e prática, como assinalou Joel Serrão: "As ideias aspirações dos pedreiros-livres concretizaram em obras - na efetiva construção política da cidade nova, talhada não só pelo figurino iluminista burguês, mas também de acordo com as raízes da histórica local em que se inserem [...] Ora, no momento em que procedem a tal inserção, os pedreiros-livres caem sob a alçada da história."

Também na América colonial a maçonaria soube dar um corpo próprio, ideológico e organizacional à luta dos colonos. Nessa região tornou-se ela eminentemente libertadora, embora com isso continuassem combatendo indiretamente o absolutismo das nações europeias. "O papel da maçonaria - sintetiza Caio Prado Jr. - foi articular uma situação própria e interna de uma colônia europeia à política geral da Europa. A Maçonaria só se interessa pela colônia na medida em que contribui para atingir um dos redutos do absolutismo europeu, contra quem, de uma forma geral, ela se dirigia. Tratava-se, no caso, da monarquia portuguesa. Coisa semelhante se passa, aliás, com as demais colônias americanas. Daí o interesse da maçonaria em apoderar-se e manejar uma situação que se desenhava nas colônias da América e que, de uma forma ou de outra, poderia servir aos seus propósitos."

Junto com as obras e com as ideias da Ilustração a maçonaria penetrou e expandiu-se por toda a América, e a ela filiaram-se libertadores, como Benjamim Franklin, Jefferson, O'Higgins, San Martín e Miranda. A Inglaterra esteve particularmente empenhada na difusão dessa sociedade nas colônias espanholas. Esse interesse não deixava de ligar-se ao de sua expansão comercial na região: "Não podemos nos esquecer que os interesses comerciais dos mercadores e fabricantes das cidades de Liverpool e Birmingham se achavam quase nas mãos da maçonaria inglesa. Aliás, a Inglaterra havia colocado representantes em quase todos os portos da América, mais ou menos encobertos, que constituíam verdadeiros agentes, ligados ao contrabando, introdução de negros e operações em diversos ramos." Isso era visível no porto de Cádiz: "Em tal cidade os ingleses haviam instalado a direção de suas relações mercantis com a América, na base de um regulado contrabando de permissões [...]. As lojas dividem-se e têm seus focos principais nos portos; entre os mercadores e marinheiros expande-se facilmente a maçonaria." Se em Portugal e no Brasil predominou a maçonaria francesa, na Espanha e suas colônias predominou a penetração das sociedades de origem inglesa, o que nos permite adiantar e ver a maçonaria também como um dos instrumentos utilizados pelas grandes nações competidoras (França e Inglaterra) para a disputa comercial, para furar os esquemas de alianças que se estabeleciam (como as existentes entre França e Espanha, e Inglaterra e Portugal) e para solapar as bases coloniais das nações rivais. Neste sentido, participou das lutas de independência da América espanhola: "Os grandes chefes maçônicos latino-americanos terão na Inglaterra e nas lojas inglesas a sua iniciação, bem como o apoio externo de que necessitam para a realização de seus fins. Apoio que não se processa de forma radical, pela posição da política inglesa, principalmente na fase de luta contra Napoleão, mas que se torna efetivo pelo fato de funcionarem livremente na Inglaterra, organizações ocupadas em fins libertadores."

4. A Maçonaria no Brasil. Em Portugal e no Brasil coube à maçonaria francesa a sua difusão, já que nessas regiões os interesses ingleses estavam assegurados, não encontrando quase obstáculos à sua penetração comercial, o que não quer dizer que não tenham surgido lojas maçônicas de influência inglesa. Alguns núcleos de orientação inglesa se implantaram no Brasil, porém, mostraram-se muito mais conservadores que os de orientação francesa, principalmente quanto às proposições de independência. As ligações políticas entre Grã-Bretanha e Portugal mantinham aquela afastada de uma intervenção direta na luta de independência, como fizera na América espanhola.

Vêm de mais ou menos 1788 as primeiras notícias de lojas maçônicas no Brasil. Introduziram-se elas com as ideias iluministas adquiridas por estudantes brasileiros na Europa. Estes, após concluírem seus cursos na Universidade de Coimbra, completavam os estudos na França e Inglaterra. Particularmente em Montpelier, que era considerada um dos focos maçônicos franceses e por onde passaram José Joaquim da Maia, Álvares Maciel, Domingos Vidal Barbosa etc.

Se na Europa a difusão da maçonaria coincidiu com um momento de ascensão da burguesia, e entre ela os pedreiros-livres ganhavam seus adeptos e se fortalecem, no Brasil foi entre os filhos dos grandes proprietários rurais, e pouco mais tarde entre eles próprios, que a seita teve êxito. À medida que os interesses da aristocracia rural brasileira conflitavam frontalmente com os metropolitanos, a maçonaria e ilustração puderam dar forma e conteúdo ideológico às suas aspirações de independência. Ocorreu aí "A nossa breve Época das Luzes, coincidindo muito felizmente com um momento em que a superação do estatuto colonial abriu possibilidades para realizar os sonhos dos intelectuais. Por isso, no Brasil, a Independência foi o objetivo máximo do movimento ilustrado e a sua expressão principal; por isso, nesse momento, o intelectual considerado como artista cede lugar ao intelectual considerado como pensador e mentor da sociedade, voltado para a aplicação prática das ideias [...] Em poucos momentos, quanto aquele, a inteligência se identificou tão estreitamente aos interesses materiais das camadas dominantes, (que de certa forma eram os interesses reais do Brasil), dando-lhes roupagem ideológica e cooperação na luta."

Não nos cabe aqui reproduzir toda a discussão que existe em torno da participação ou não da maçonaria nos primeiros movimentos de independência do final do século XVIII. Muitos historiadores, principalmente os de vínculos maçônicos, procuraram aproveitar-se da confusão que se criou entre sociedade secreta e maçonaria, ou então, da participação de algum maçom nesses movimentos, para propagandear a importância da sociedade nas conjuras. As sociedades secretas no Brasil são anteriores às seitas maçônicas. Como notou Antônio Cândido, as sociedades literárias do século XVIII recorriam "ao segredo, para preservar-se, repudiando a influência francesa e incorrendo na sua ira ao querer formular uma atitude moderna: laica, civil, interessada no progresso das luzes e da sociedade". Não tinham, porém, finalidades políticas explícitas como a maçonaria. Representaram, todavia, um momento de transição, "de passagem da gratuidade à participação na vida social e da subordinação clerical ao pensamento livre; passagem do escritor marginal que se justapõe à sociedade e procura congregar-se politicamente para, desse modo participar organicamente da vida nacional".

MENDES JR., Antonio; RONCARI, Luiz; MARANHÃO, Ricardo. Brasil História Texto e Consulta 2: Império. São Paulo: Brasiliense, 1983.

NOTA: O texto "Maçonaria e descolonização" não representa, necessariamente, o pensamento deste blog. Foi publicado com o objetivo de refletirmos sobre a construção do conhecimento histórico.

domingo, 15 de dezembro de 2013

Revolução Francesa (1789-1799)

A Revolução Francesa (1789-1799) foi o grande marco na história política da Europa moderna. Ela representou grandes rupturas com o poder real e o fim da sociedade estamental. Dela surgiram vocabulários, projetos políticos, códigos legais, novas noções de justiça, o voto universal masculino, a ideia de escola pública e até mesmo um novo sistema métrico.


Sans-culotteLouis Léopold Boilly. 
Os sans-culottes (literalmente, sem culote) eram assim chamados por não usarem as roupas típicas dos nobres, caracterizados por um calção curto (culote) e meias brancas até a altura dos joelhos. Eles andavam armados e tiveram grande importância em todo o desenvolvimento da Revolução Francesa. 
 
A crise financeira e as diferentes insatisfações sociais podem ser apontadas como pontos importantes do período pré-revolucionário. A estrutura da sociedade francesa apresentava um mundo “desigual em direitos”, separada em clero, nobreza e terceiro estado. A maior parte da população pertencia ao terceiro estado, responsável pela sustentação econômica do país. No entanto, o primeiro e o segundo estado detinham antigos privilégios, tais como direito a pensões e isenções de impostos, além de poderem ocupar cargos políticos.


Charge representando o terceiro estado carregando o clero e a nobreza nas costas.

Desse modo, a população custeava a França, seu aparelho burocrático, bancava o luxo da corte e patrocinara duas guerras em que o país se envolveu: a Guerra dos Sete Anos [...] e a Independência dos Estados Unidos [...]. Ao mesmo tempo, os membros do terceiro estado não tinham direitos políticos nem eram considerados cidadãos.

Luís XVI, rei desde 1774, consultou seus ministros. A solução era fazer o primeiro e o segundo estados pagarem impostos. Com o intuito de discutir esse problema, foi marcada a Assembleia dos Notáveis, em fevereiro de 1788. Sem que houvesse resolução, Luís XVI convocou os Estados-gerais, reunidos em maio do ano seguinte no Palácio de Versalhes.

Em junho de 1789, o terceiro estado se reuniu em Assembleia Nacional, e Luís XVI propôs uma reforma. A revolução já estava em curso. A proposta foi recusada, e uma Assembleia Constituinte foi formada. O historiador Georges Lefebvre batizou esse momento de “o grande medo”. No dia 4 de julho de 1789, houve a queda da Bastilha, em que a população invadiu uma antiga prisão, símbolo do poder real. No mês seguinte, no dia 26, foi publicada a Declaração de Direitos do Homem e do Cidadão, documento-chave que propunha a igualdade de direitos.


A tomada da BastilhaHenri Paul Perrault.
"[...] Em tempos de revolução nada é mais poderoso do que a queda de símbolos. A queda da Bastilha, que fez do 14 de julho a festa nacional francesa, ratificou a queda do despotismo e foi saudada em todo o mundo como o princípio da libertação. [...] a queda da Bastilha levou a revolução para as cidades provincianas e para o campo. [...]" HOBSBAWN, Eric J. A era das revoluções: Europa 1789-1848. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2001. p. 79-80.

Em 1791, ficou pronta a primeira Constituição revolucionária, marcada pelo fim dos privilégios feudais. Sem rumo e poder, Luís XVI tentou fugir, a fim de organizar exércitos e armar a contrarrevolução. No entanto, foi preso em agosto de 1792, em Varenne. Em setembro, foi organizada a República Jacobina, marcada pela figura de Robespierre e pela formação do Comitê de Salvação Pública. O regime do “Terror” usaria todos os meios para manter os jacobinos no poder. O uso da guilhotina e a morte de milhares de franceses marcaram a radicalização da revolução. O próprio rei foi julgado e executado em janeiro de 1793. A rainha Maria Antonieta, em outubro do mesmo ano. Danton e Marat, líderes revolucionários, também foram executados.

No ano de 1794, os girondinos retomaram o poder, e o próprio Robespierre foi executado. O governo do Diretório, entre os anos de 1795 e 1799, marcou a fase final do movimento, antes da ascensão de Napoleão Bonaparte, no célebre golpe de 18 Brumário.

A Revolução Francesa marcou o início da Idade Contemporânea, o fim do absolutismo e dos privilégios feudais e ajudou, certamente, a formar os alicerces do Estado liberal e democrático a partir de um novo conceito de revolução: a ruptura com a ordem e a proposta de algo novo.

Marcus Vinícius de Morais. Revolução Francesa. In: BETING, Graziella. Coleção história de A a Z: [volume] 3: Idade Moderna. Rio de Janeiro: Duetto, 2009. p. 59-60.

NOTA: O texto "Revolução Francesa (1789-1799)" não representa, necessariamente, o pensamento deste blog. Foi publicado com o objetivo de refletirmos sobre a construção do conhecimento histórico.

terça-feira, 10 de dezembro de 2013

Revolução Americana (1776-1783)

A Inglaterra se envolveu em uma série de conflitos, a maioria contra a França. Durante o final do século XVII e todo o XVIII. Em todas essas guerras, homens das 13 colônias inglesas na América foram requisitados para defender as possessões britânicas contra os franceses, que sempre buscavam alianças com nações indígenas, oferecendo terras a eles.

Um dos exemplos mais conhecidos foi a Guerra dos Sete Anos (1756-1763). Mesmo com a vitória inglesa, a guerra causou enormes prejuízos aos cofres britânicos. Para reequilibrar seu orçamento, a Coroa passou a cobrar pesados impostos das colônias.

Paralelamente, a Inglaterra iniciava a Revolução Industrial e necessitava, cada vez mais, de matéria-prima e mercados consumidores para seu crescente potencial produtivo, para o qual as 13 colônias tinham papel fundamental.

Como decorrência da Guerra dos Sete Anos, a Inglaterra iniciou uma política de repressão econômica que objetivava controlar a economia das colônias. Uma série de leis e taxações foi promulgada pela Coroa e amplamente questionada pela população das 13 colônias.

Para o professor Bernard Baylin, essas leis apenas contribuíram para instigar um sentimento de indignação que já existia entre os colonos. Por meio de panfletos que circulavam por todas as colônias, os principais intelectuais mostravam sua insatisfação contra a metrópole. Atos de protesto e boicotes a produtos ingleses ocorriam por toda parte. Ao contrário da Revolução Francesa, o objetivo não era instaurar uma nova ordem sociopolítica, mas manter as liberdades existentes antes do controle rígido da Inglaterra.


Boston Tea Party, Nathaniel Currier

Unidos mais por um sentimento anti-inglês que por nacionalismo, os colonos convocaram, em 1774, o Primeiro Congresso da Filadélfia. Diante da contínua negação de representatividade no Parlamento inglês e de ações militares intimidadoras, organizou-se um novo congresso, ainda na Filadélfia, onde foi assinada a Declaração de Independência, no dia 4 de julho de 1776.

Essa declaração, redigida por Thomas Jefferson, inspirada no teórico inglês John Locke e no Iluminismo, é uma manifestação da jovem burguesia, enfática nos direitos de liberdade, da busca da felicidade pessoal e da defesa da propriedade.


Declaração de Independência, John Trumbull

A luta de independência foi dirigida por George Washington e contou com o apoio de voluntários franceses e material bélico fornecido pela Espanha. Em 1783, a independência foi finalmente reconhecida pelos ingleses, por meio do Tratado de Paris.

Com o fim da Revolução Americana de Independência, era preciso organizar um novo país, juntando 13 estados no continente americano. A nova nação adotava como nome o princípio que a gerara: Estados Unidos da América. Mesmo assim, como escreveu Joyce Appleby, demoraria uma geração para criar a noção de ser americano e absorver os novos valores republicanos e de independência.


Luiz Estevam de O. Fernandes. Revolução Americana. In: BETING, Graziella. Coleção história de A a Z: [volume] 3: Idade Moderna. Rio de Janeiro: Duetto, 2009. p. 58.

NOTA: O texto "Revolução Americana (1776-1783)" não representa, necessariamente, o pensamento deste blog. Foi publicado com o objetivo de refletirmos sobre a construção do conhecimento histórico.

terça-feira, 26 de novembro de 2013

Revolução Inglesa (1640-1688)

Pensada originalmente como um termo astronômico por Nicolau Copérnico, a palavra “revolução” apareceu pela primeira vez no campo político, no decorrer do século XVII, a fim de designar o longo processo histórico iniciado na Inglaterra, em 1640, com a Revolução Puritana, seguido pela restauração monárquica de 1660 e concluído com a solução conciliadora da Revolução Gloriosa, no ano de 1688.

Por meio dessas três fases, a Revolução Inglesa trouxe consigo uma transformação sem precedentes na história da humanidade, liberando as forças modernizadoras do modo de produção capitalista das entranhas de um sistema feudal em decadência.

O processo revolucionário inglês apresenta-se, assim, como um modelo de transição ao capitalismo industrial, primeiramente de forma violenta, em 1640, logo depois, em 1688, de maneira conciliatória. Um processo que, ao término de meio século de lutas entre monarquia e Parlamento, por meio de uma solução monárquica constitucional, conseguiu criar a condição primordial para o crescimento econômico de orientação capitalista: a estabilidade política sob a nova direção de uma classe burguesa que tomou para si o poder estatal, fortalecendo-o em suas relações internas com outras classes sociais e em suas relações externas com outras nações.

Nesse contexto, realizando em termos práticos as orientações da teoria política liberal, a burguesia consolidou seus valores fazendo uso de uma monarquia limitada em seus poderes, isto é, o clássico mote do rei que reina mas não governa, pois quem dava as cartas a partir de então era a burguesia revolucionária.


Execução do rei Carlos I. Artista desconhecido.

E foi exatamente fundamentado no ideário liberal recém-nascido que os revolucionários ingleses do século XVII apresentaram ao mundo a primeira grande carta de direitos da modernidade – o Bill of Rights.

Por seu intermédio, a ideia de cidadania veio à tona, associada ao entendimento de que os indivíduos deveriam ter seus direitos garantidos e tutelados pelo Estado, sendo este responsável pela defesa e proteção das liberdades civis dos cidadãos: liberdade de pensamento e expressão, de ir e vir, religiosa, de propriedade etc.

Com isso, a Revolução Inglesa rompeu com a noção de que os indivíduos tinham apenas deveres a prestar ao soberano, inaugurando uma autêntica era dos direitos que seria devidamente ampliada em termos universalizantes com as duas outras grandes revoluções políticas que lançaram as bases da modernidade: a Francesa, de 1789, e a Americana, de 1776.


Marco Mondiani. Revolução Inglesa. In: BETING, Graziella. Coleção história de A a Z: [volume] 3: Idade Moderna. Rio de Janeiro: Duetto, 2009. p. 60-61.

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

As formas de controlar os costumes na Idade Moderna

A forma tradicional de controlar os costumes. Durante muito tempo era comum o controle dos costumes pela comunidade. A censura se manifestava particularmente nas ocasiões especiais, como nos casamentos. Mas o comportamento das moças solteiras e a relação entre marido e mulher, por exemplo, também estavam sob o olhar atento dos membros da comunidade. O indivíduo, mesmo depois da morte, não escapava de ser censurado publicamente nas cerimônias fúnebres.

Essa censura pública era mais comum nos vilarejos, embora ocorresse também nos bairros urbanos.

A maneira mais comum de punir a infração ao costume era divulgá-la, realçá-la publicamente, expondo os infratores à jocosa censura pública. [...]

[...]

Viúvos e viúvas que se casavam novamente eram vítimas de uma série de ações coletivas: encenações maldosas, desfiles, zombarias variadas na porta das suas casas etc. O casal, por ocasião das núpcias, podia ser alvejado com excrementos de animais, ser atirado na lama ou obrigado a desfilar pela aldeia montado em um asno.

Condenáveis também eram os casamentos entre pessoas de diferentes estratos sociais. [...]

Condenava-se ainda o casamento de uma pessoa com forasteiros. Parecia haver um sentimento de que as mulheres de uma localidade pertenciam aos homens dessa mesma localidade.

Um outro casamento condenado e sujeito a situações constrangedoras e humilhantes era o de pessoas com grandes diferenças de idade.

O marido que apanhava da mulher ou por ela era dominado também sofria hostilidades da comunidade. A mulher que arrancava o marido que estava bebendo ou jogando na taverna e o arrastava para casa provocava igualmente uma reação da comunidade. Encenações do episódio eram feitas debaixo da janela do casal. Versos alusivos ao comportamento da mulher eram cantados e acompanhados de sons de cornetas e tambores.

O marido traído também era desprezado. Armavam-se verdadeiras "cortes" para encenarem julgamentos satíricos sobre os suspeitos. Promoviam-se também, em determinadas épocas do ano, desfiles com esses indivíduos pelas ruas do vilarejo e arredores.

As alcoviteiras sofriam a mesma censura. Sob apupos e acompanhadas de um ruidoso cortejo, eram obrigadas a desfilar pelas ruas montadas de costas em um asno.

O comportamento das jovens também sofria a censura popular. [...] Uma planta com muitos espinhos, transportada de outro lugar e fincada ao lado de uma residência, significava que a moça que ali morava era orgulhosa, não deixava ninguém se aproximar dela. [...]

Todos esses rituais, referentes ao comportamento das moças, à autoridade dos maridos e aos casamentos adequados e inadequados, lembravam aos membros da sociedade qual era o comportamento que se esperava deles. Os rituais expressavam uma indignidade sobre a qual a população estava de acordo. O rito denunciava o que, na verdade, todos já sabiam. A denúncia era ao mesmo tempo o castigo, e este se tornava mais rigoroso quando as vítimas se recusavam a negociar.

Negociar significava aceitar a censura, participar dela de uma maneira conformada. Uma dessas maneiras era convidar todos para beber. Pagar bebidas era uma maneira de mostrar que se aceitava a censura e de se confraternizar com os promotores do ritual. Assim, era possível transformar o ritual punitivo em festivo. Tornava-se festa sem perder o caráter punitivo.

Os agentes da censura. Quem eram os participantes desses rituais que ridicularizavam e censuravam as pessoas com comportamento considerado inadequado em relação ao casamento e à sexualidade?

A regra, não sem exceções, era que os agentes e promotores da censura ritual fossem os jovens. Eram eles que promoviam as algazarras, extorquiam as vítimas obrigando-as a pagar bebidas e comidas, encenavam os episódios que queriam ridicularizar, organizavam os desfiles satíricos, os rituais da morte e os tribunais que julgavam os maridos traídos.

Por que esse papel cabia aos jovens? Por que eram eles os detentores da expressão ritual da censura coletiva?

Os rituais, para terem o efeito de censura e punição, precisavam ser exagerados. Lembravam a ordem tradicional a ser seguida por meio da desordem momentânea. Os excessos necessários à eficácia do ritual são mais aceitáveis se forem feitos pelos jovens. A tolerância com a juventude se prendia ao fato de que ela faz algo que também já fizemos. O que é próprio da juventude não ficaria bem para o senhor respeitável da comunidade.

Dessa forma, a juventude era o agente da censura da comunidade contra os que ameaçavam a ordem tradicional com um comportamento inadequado. [...] Uma perversão da ordem na busca do divertimento e do prazer era uma norma de vida para os jovens, que, no entanto, se dedicavam a punir os outros.

De uma outra forma, as mulheres também desempenhavam um enorme papel no controle social. Grupos de mulheres funcionavam, por meio de sutis mecanismos de exclusão, como censores. A mulher de "má conduta" sofria múltiplas discriminações no sentido de excluí-la do convívio social mais amplo na comunidade.

Nesse sentido, as mulheres, alvos privilegiados da censura social, agiam como censoras de si mesmas, contribuindo para a manutenção de uma moral social da qual eram as principais vítimas.

A imagem mostra a ação coletiva de censura aos costumes. Vemos os maridos traídos sendo vítimas de um festivo ritual popular. William Hogarth


A reação contra a censura coletiva. Essa forma de controle social, com mecanismos criados pela própria comunidade, sofreu, ao longo da Idade Moderna na Europa, a concorrência do poder do Estado. Do século XIV ao XVIII esses ritos e práticas passaram a receber a oposição dos poderes religiosos e civis, ambos representantes do Estado. [...] durante o Antigo Regime, nos diversos países europeus, o poder religioso estava associado ao poder político do Estado, tanto nos países protestantes como nos católicos.

As autoridades civis e religiosas, principalmente a partir do século XVII, se uniram para, em nome da ordem e da decência, proibir as algazarras populares organizadas por ocasião dos casamentos, brigas entre maridos e mulheres, cerimônias fúnebres.

A família burguesa começou, cada vez mais intensamente, a apresentar queixa às autoridades contra a interferência em sua vida familiar e privada. Aos poucos ela parecia se convencer de que tinha direito a uma vida privada, longe da censura pública. Isso está ligado ao processo de urbanização e de fortalecimento do Estado. Os agentes da justiça, os padres e a polícia pouco a pouco substituem o controle coletivo do comportamento social pelo poder da lei, pela autoridade pública.

[...]

Pastor de almas e guardião das famílias. A tensão entre os costumes tradicionais e a nova ordem controlada pelo Estado se concentrou na figura do padre da paróquia, o vigário.

A disciplina dos seminários da Contrarreforma conseguiu unificar a posição desses padres sobre a religião e os costumes. Eles se colocavam, portanto, como os principais adversários das formas tradicionais de controle. Desde o final do século XVII o vigário de aldeia acumulou à sua função de ministro religioso a de representante da Monarquia. Ele registrava os batismos, casamentos e óbitos, tendo o dever de guardar essas informações de interesse do Estado. Além disso, depois da missa, lia para os fiéis os decretos e regulamentos governamentais, lembrando aos ouvintes o dever de obediência às determinações legais.

Nas regiões protestantes o ministro religioso assumiu funções semelhantes, funcionando como agente do poder do Estado e como pastor das almas. Assim, mantinha sobre os fiéis uma dupla vigilância, a civil e a religiosa.

Esses religiosos tinham ainda nas mãos vários instrumentos punitivos. Podiam recusar a comunhão aos depravados e imorais, assim como interditar o cemitério ao sepultamento do libertino e do mau cristão.

Além disso, como instrumento de controle e como meio de intervir nos segredos da intimidade e do lar, havia o confessionário. Nesse espaço, principalmente por meio das mulheres e das jovens, o religioso tinha a dimensão dos perigos que ameaçavam a moral e a ordem pública.

[...]

O controle exercido pelos agentes do Estado e da religião era muito mais abrangente. Como adversários e concorrentes da censura tradicional, eles ampliaram, sistematizaram e intensificaram o controle sobre a vida privada dos indivíduos e das famílias.

Assim, o poder público embrenha-se cada vez mais nos segredos familiares. Além da censura à imoralidade, ao adultério e à ligação amorosa proibida, eram também passíveis de condenação a homossexualidade, o incesto, o concubinato, a poligamia e a sodomia.

Por tudo isso, a censura ritual se voltou contra o vigário e o ministro religioso, vistos como ameaça aos costumes tradicionais, na medida em que criavam novas formas de controle social.

A reação da juventude contra esse processo foi ostensiva. O padre e o ministro foram sumariamente vigiados pelos jovens, como também mais tarde o mestre-escola, outro agente do poder estatal. Com isso, procuravam encontrar deslizes sexuais ou de qualquer outra natureza que servissem para desmoralizar esses agentes. Esses deslizes eram temas para os ritos de censura tradicionais: desfiles, canções satíricas, encenações, julgamentos burlescos.

[...]

PEDRO, Antônio; SOUZA LIMA, Lizânias de. História sempre presente. São Paulo: FTD, 2010. p. 284-289.

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

O processo de unificação da Itália e da Alemanha

Napoleão III e Otto von Bismarck na manhã seguinte à Batalha de Sedan, Wihelm Camphausen

O mapa político da Europa foi redefinido no contexto do Congresso de Viena, quando prevaleceu uma política "de compensações territoriais" às grandes potências, que não levou em consideração as aspirações emancipacionistas de determinadas nacionalidades e, muito menos, as das minorias nacionais.

A Polônia, por exemplo, foi incorporada ao Império Russo czarista desconsiderando-se antigas configurações geopolíticas e a especificidade cultural dos poloneses. Apenas no contexto do pós-Primeira Guerra, é que a Polônia emergiu no cenário político europeu como um Estado Nacional de fato independente.

Assim, entre 1815 e 1871, verificaram-se profundas transformações de ordem geopolítica no continente, em especial na Península Itálica e na Europa Central. Também no século XIX, a questão das nacionalidades europeias foi uma das razões mais significativas para a "explosão" de uma série de movimentos de caráter revolucionário, como os ocorridos em 1830 e 1848.

Conforme observou o historiador René Rémond, "esse século, por direito, pode ser chamado 'o século das revoluções', porque nenhum - até agora - foi tão fértil em levantes, insurreições, guerras civis, ora vitoriosas, ora esmagadas. Essas revoluções têm como pontos comuns o fato de quase todas serem dirigidas contra a ordem estabelecida (regime político, ordem social, às vezes, domínio estrangeiro), quase todas feitas em favor da liberdade, da democracia política ou social, da independência ou unidade nacionais." (RÉMOND, René. Introdução à História de Nosso Tempo. O Século XIX: 1815-1914. São Paulo: Cultrix, 1976. v. 2, p. 13.)

Na década de 1870, ocorreram os processos de unificação da Itália e da Alemanha, que, até então, eram constituídas por várias unidades políticas. Essas denominações (Itália e Alemanha), eram apenas expressões geográficas e culturais. A fragmentação política dificultava o crescimento econômico, uma vez que existiam várias legislações, diversas moedas e barreiras alfandegárias internas que dificultavam a livre-circulação de mercadorias.

Tanto na Itália como na Alemanha, a unificação foi liderada pelos estados mais industrializados: o Reino de Piemonte-Sardenha, na Itália; e o Reino da Prússia, na Alemanha. Nesses reinos, uma rica burguesia (grandes comerciantes e industriais) tinha interesse na criação de um mercado nacional devidamente protegido por tarifas alfandegárias para seus produtos.

Em ambos os casos verificou-se uma conciliação entre burguesias industriais emergentes e aristocratas - na Alemanha, representada pelos junkers e, na Itália, por latifundiários sulistas.

Através de bem sucedidas alianças políticas e de conflitos militares contra países vizinhos poderosos, os reinos de Piemonte-Sardenha e da Prússia lideraram a unificação e, ao mesmo tempo, desenvolveram um projeto político de caráter conservador a fim de evitar a emergência de movimentos sociais de perfil mais democrático e igualitário.

Por isso, nesses dois casos, afirma-se que as unificações foram realizadas "de cima para baixo", com um claro caráter excludente.

Esse caráter conservador das unificações ficou evidenciado no romance O Leopardo, escrito pelo italiano Giuseppe Tomasi di Lampedusa (1896-1958), em 1956. Nessa obra, o autor aborda o processo de unificação italiana a partir da perspectiva de uma família aristocrática decadente da Sicília, cujo patriarca (Dom Fabrizio, Príncipe de Salinas) se mostra apreensivo com a aparente ascensão da classe média e das camadas populares, simbolizadas pelos "camisas vermelhas" liderados por Garibaldi na década de 1860.

Numa passagem do romance, seu sobrinho Tancredi, no entanto, revela o caráter moderado, excludente, antidemocrático e conciliador (aristocracia e burguesia) desse processo histórico por meio de uma frase lapidar: "Se queremos que tudo fique como está, é preciso que tudo mude".

BERUTTI, Flávio. Caminhos do homem. Curitiba: Base Editorial, 2010. V. 2. p. 78-79.

sábado, 16 de junho de 2012

Público e privado no mundo burguês da "belle époque"

"O século burguês foi uma era de melhoramentos, mais para os burgueses, talvez, do que para qualquer outro grupo de pessoas. Sua ideologia carregada de esperanças não era apenas uma máscara para encobrir o desespero, mas uma crença sincera no progresso." (GAY, Peter. A experiência burguesa da rainha Vitória a Freud: a educação dos sentidos. São Paulo: Companhia das Letras, 1988. p. 55.)

O Palácio de Crystal no Hyde Park foi uma imensa estrutura de ferro e vidro que abrigou a grande exposição de 1851. Ele simbolizava as glórias burguesas do progresso e da industrialização. Litografia de Louis Haghe.

A partir de 1848, uma nova era de expansão capitalista entrou em vigor. Mesmo com oscilações políticas, a sociedade europeia, desse período até a Primeira Guerra Mundial, assistiu ao triunfo dos valores burgueses. Uma minoria de países tornou-se potência industrial e lançou as bases de uma economia mundial sob sua influência. Internamente, essa expansão econômica garantiu uma alta taxa de emprego (amenizando, por certo tempo, o descontentamento popular e diminuindo os movimentos revolucionários) e uma situação mais próspera às classes médias.

Apesar de a maioria da população europeia da época se concentrar no campo, era no mundo urbano, em crescimento constante, que irradiavam novos valores sociais e formas de viver. A razão, a ciência, o progresso e a ética do trabalho tornaram-se bases sólidas dos discursos políticos e as máximas expressões de uma burguesia orgulhosa de seus sucessos. [...]

Esse foi um período de confiança no liberalismo econômico e político. À maior igualdade de direitos e oportunidades e ao governo representativo somavam-se a busca do lucro e a defesa da livre iniciativa competitiva e de sua metáfora da guerra: a luta pela existência e sobrevivência dos melhores. [...]

[...]

Como ponto mais visível, o desenvolvimento técnico e científico tornava-se a expressão simbólica e material de toda essa força econômica europeia. [...] A máquina e a produção em massa proporcionavam a vulgarização dos produtos industriais, tornando-se acessíveis a um conjunto maior da população. [...] Às locomotivas e navios a vapor juntavam-se a fotografia, o telefone, a bicicleta e, no final do século, os automóveis, o gramofone e a lâmpada elétrica. Inaugurando a era da propaganda industrial e, ao mesmo tempo, celebrando os progressos técnico e científico, a partir de 1851, grandes exposições universais de novidades industriais passaram a acontecer em diversas cidades, como Londres, Viena, Paris e Filadélfia.

Enfim, aos olhos de boa parte da sociedade, o progresso não era uma evidência apenas pela sua produção técnica. A maior produtividade no campo trouxe a melhoria da nutrição e as pesquisas científicas propiciaram avanços também no campo da saúde. Com elas, vieram o declínio da mortalidade infantil e o aumento da expectativa de vida para muitos europeus.

No final do século, os progressos técnicos e uma relativa paz e estabilidade social marcaram uma época que ficou conhecida como Belle Époque, em que o otimismo e o luxo refletiam uma burguesia confiante em si mesma e no seu futuro.

O novo mundo burguês veio acompanhado por uma separação mais profunda entre o público e o privado. O mundo privado e a subjetividade foram consolidados por uma avalanche de diários, biografias e confissões e pelo novo "sonho de consumo" do século XIX: a possibilidade de se ter um quarto próprio. Os avanços da higiene e da medicalização da família influenciaram na distinção entre o dentro e o fora de casa e na consolidação da ideia de mundo privado do "lar, doce lar".

A moradia passou a ter um peso importante tanto como confinamento residencial e apresentação pública do status quanto como fundamento material do ideal de família. Ter uma casa com jardins, rodeada de verde e afastada do centro da cidade, tornou-se um ideal para a burguesia europeia ascendente. Internamente, os objetos e a decoração demonstravam e possibilitavam a aspiração a um lar harmonioso, cercado por símbolos de status e sucesso. Enfeites, tecidos, cortinas, almofadas, papéis de parede e, para os mais abastados, um piano e uma pequena biblioteca compunham um ambiente acolhedor. Esses objetos, somados aos novos costumes de higiene (sabonete, latrina e banheira), propiciaram algum conforto aos burgueses, segundo Eric Hobsbawn, somente no final do século.

Essa sociabilidade mais íntima dos espaços domésticos veio acompanhada por um discurso que revalorizava a família como unidade social básica. Nos discursos do século XIX, a família nuclear, que  emergia de sistemas de parentesco mais amplos, era fortalecida em sua dignidade e seu poder. Era dela que dependiam a transmissão de todo um patrimônio material e simbólico de reputação e, ao mesmo tempo, o funcionamento de toda a sociedade, pois o lar era a representação do acolhedor lugar da felicidade e da paz, em oposição à competição constante do mundo externo.

Como chave da felicidade universal e do bem público, a família foi projetada sob uma autocracia patriarcal. [...] O ideal de mulher burguesa passou a preconizar, então, um estilo de vida essencialmente doméstico, em que a feminilidade estava assentada na dependência econômica do marido.

Entretanto, foi no seio dessa mesma sociedade burguesa que os ideais de emancipação das mulheres se desenvolveram. O crescimento do planejamento familiar, com a diminuição do índice de natalidade e o aumento do espaço feminino no mercado de trabalho - em lojas, escritórios e no magistério do ensino primário -, no final do século, criou novas oportunidades para as mulheres da pequena burguesia.

Embora a condição para a maioria das mulheres não tenha mudado intensamente no século XIX, nesse período, assistiu-se aos primeiros passos do desenvolvimento do feminismo sistemático, que lutava especialmente pelos direitos de participação política. [...]

A nova realidade da família proporcionava também um investimento maior - afetivo e, principalmente, econômico e educativo - nos filhos. Com um ensino primário, financiado ou promovido pelo Estado, cada vez mais universalizado, a continuidade da educação formal tornou-se um sinal de distinção para aqueles que tinham condição de adiar a tarefa de ganhar a vida.

De fato, a educação secundária e, depois, a universitária cresceram rapidamente entre a classe média e o grau de instrução somava-se à prática do esporte, às ligações sociais e às propriedades como mais um fator de diferenciação em tempos de direitos iguais perante a lei.

MORENO, Jean; VIEIRA, Sandro. História: cultura e sociedade. O contemporâneo: mundo das rupturas. Curitiba: Positivo, 2010. p. 37-39.