"Os espelhos estão cheios de gente.
Os invisíveis nos vêem.
Os esquecidos se lembram de nós.
Quando nos vemos, os vemos.
Quando nos vamos, se vão?"
Eduardo Galeano: Espelhos
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segunda-feira, 3 de abril de 2017

Billie Holiday, diva do jazz

Billie Holiday, 1949.
Foto Carl van Vechten

Na tarde de 1º de dezembro de 1955, os 50 mil habitantes negros do bairro de Montgmery, no Alabama, Estados Unidos, estavam em polvorosa. A secretária da National Association for the Advancement of Colored People (NAACP), que lutava pelo fim da segregação racial, Rosa Parks, tinha sido presa por ter utilizado um assento no ônibus, reservado por lei para brancos. Em 1954 o Supremo Tribunal dos Estados Unidos tinha declarado ilegal a discriminação racial nos colégios. Isso impulsionou a numerosa comunidade negra a empreender diversas lutas contra o racismo. O ápice desse processo se deu no dia do julgamento de Parks. Um boicote geral aos transportes foi marcado, contando com cerca de 90% de participação da comunidade negra local. Rosa Parks foi considerada culpada. O boicote foi ampliado. Nesse cenário, um jovem de 26 anos desponta como uma liderança capaz de aglutinar desejos, anseios por mudanças numa sociedade profundamente desigual. Seu nome era Martin Luther King, ou para alguns posteriormente, como o presidente Barack Obama, apenas o rei. Devido à forte atuação de Luther King, o boicote atingira seu objetivo, e em 13 de novembro de 1956 o Supremo Tribunal confirmava a decisão de um Tribunal Distrital transformando em inconstitucional a separação dos lugares dos ônibus de acordo com as raças. Essas vitórias judiciais vieram com duras e constantes lutas do movimento negro para se tornar reais, chegando ao ponto de o presidente D. Eisenhower ter de enviar tropas de paraquedistas para fazer cumprir o direito dos estudantes negros e brancos a uma educação comum. Foi nesse tumultuado contexto que a mais comovente cantora de jazz, Billie Holiday, narrou sua autobiografia.

Lançada nos Estados Unidos em 1956, a autobiografia, escrita com a colaboração do jornalista William Duft, da musa do jazz Billie Holiday, Lady Sings the Blues, foi fortemente influenciada pelo contexto das lutas raciais, da qual ela foi importante ativista. [...]

Com um estilo único e muito mais ligado ao jazz do que ao blues, a cantora americana Billie Holiday dava às músicas uma interpretação única que envolvia ao mesmo tempo uma técnica muito pessoal e uma dramatização vocal, transformando em belos sons músicas muitas vezes simples. Poucos foram os cantores ou cantoras que conseguiram influenciar músicos instrumentistas tão variados como os clarinetistas Artie Shaw e Tony Scott, o saxofonista Lester Young e os trompetistas Buck Clayton e Miles Davis, este último reconhecido como um dos principais músicos do século XX, além, é claro, de sua forte influência em cantores como Frank Sinatra e Ella Fitzgerald. Por não ter estudado música nem tampouco fazer leitura de partituras, talvez a única grande influência externa à obra de Holiday tenha sido o cinema, de onde tirou seu nome artístico em homenagem a atriz Billie Dove. Essa influência que o cinema exerceu no início desse modelo de canção não é perceptível apenas nas escolhas de Billie Holiday, podemos lembrar que Eunice Waymon adotou o nome Nina Simone em homenagem à atriz Simone Signoret.

Nascida no estado da Filadélfia em 1915, Eleanor Fagan, filha do músico Clarence Holiday e de Sarah Fagan, sua vida foi marcada por traumas e abandonos que a conduziram a um temperamento forte e, muitas vezes, impaciente e rude. Desde quando ainda era muito criança, seu pai saiu em excursão com sua banda e, a partir de então, ficou apenas com sua mãe, que ora a deixava com parentes, ora com vizinhos. Muito cedo começou a trabalhar como empregada e com 10 anos sofreu abusos sexuais de um vizinho, marcando para sempre sua vida. Aos 14 anos passou a morar definitivamente com sua mãe em Nova Iorque, onde começou a prostituir-se. Aos 15, então, começa seu contato mais próximo com a música. Desde cedo, quando trabalhava como empregada, Holiday pagava para escutar discos na casa de uma família. Seu dinheiro era gasto no aluguel de uma vitrola em que pudesse escutar seus discos prediletos, ou, em larga medida, os discos possíveis. Suas principais influências foram a popular cantora da década de 1920 Bessie Smith, conhecida como "A imperatriz do blues", e o trompetista Louis Armstrong, que, mesmo com estilos diferentes daqueles apresentados por Holiday ao longo da carreira, tiveram importância basilar em sua vida. Sua carreira teve início no Harlem, região com várias casas de música onde diariamente se apresentavam os mais variados músicos de jazz dos anos 1930. Depois de alguns anos cantando em casas noturnas, gravou seu primeiro LP com a banda do famoso clarinetista judeu Benny Goodman.

A partir de então sua carreira deslancha, chegando a gravar com as renomadas big bands de Artie Shaw e Count Basie. Seu sucesso passou a representar não só sua vitória pessoal, mas também a vitória do movimento negro contra o apartheid nos Estados Unidos, visto que ela foi a primeira negra a cantar com uma big band.

A música If my heart could talk fala de sonho, amor, e representa parte do que Billie Holiday sempre desejou. Ela teve relacionamentos com vários músicos, cineastas, artistas, e seu casamento foi um desastre, a conduzindo a um rude rompimento e uma profunda depressão. Na década de 1940, já estava presa ao mundo das drogas, sendo detida, processada, tendo shows cancelados e seu cabaret card cassado pela polícia, o que a proibia de cantar em bares que vendessem bebidas alcoólicas. O mundo das drogas, com uma constante pressão da mídia por conta de seus internamentos para tratamento, levou Holiday a um beco sem saída. O alcoolismo e a cocaína enfraqueceram sua já fragilizada saúde, levando Holiday a diversos problemas no fígado e coração. Com 44 anos, em 1959, o mundo perdia a voz mais singular do jazz, que morreu da forma como começou: simples, presa ao medo de não ser lembrada e amada. Holiday morreu com setenta centavos no banco e 750 dólares em notas grandes presos em sua meia. Junto com a cantora francesa Édith Piaf e com o pianista e cantor Ray Charles, foi uma das figuras mais polêmicas e discutidas de sua geração. Desde sua aparição no cinema em New Orleans, onde interpretava a empregada Endie, até suas canções de maior sucesso, como Strange fruit, que conta a história dos linchamentos sumários e das execuções públicas de negros nos Estados Unidos do século XX utilizando-se de metáforas extremamente singulares e chocantes, todos foram rodeados por muitas histórias de uma cantora que falou em forma de vida, uma vida contada e cantada. O compositor e ativista Josh White relembra o quanto Strange fruit era mais do que uma canção para Billie Holiday:

Ouvi o disco de Billie, e era algo tão forte que percebi que a canção [Strange Fruit] deveria ser usada para abrir os olhos das pessoas a certas coisas que não deveriam existir. Não queria lhe roubar nada. Amava sua interpretação da canção, mas queria apresentar Strange Fruit do meu jeito. Expliquei isso a Billie e acho que ela entendeu, depois veio frequentemente ao Café - em geral para o último espetáculo [...]. Por vezes arrastava-se e nem sequer entrava. Vinha de carro ao Village e sentava-se do lado de fora, ouvindo o rádio do carro, em companhia do seu grande boxer, Mister. Então começávamos a rodar de automóvel por todos os locais que ainda estavam abertos [...].

Falar de Billie Holiday, ou melhor, de Lady Day, como a chamava Lester Young, é ao mesmo tempo lembrar-se do quão popular foi o jazz e do quanto alguém conseguiu mergulhar em seu próprio tempo.

Mais do que uma singularidade complexa, Billie Holiday é, sem quaisquer dúvidas, uma das principais representantes da difusão do jazz e do blues nos Estados Unidos do início do século XX. Ultrapassando os núcleos de preconceitos raciais, Billie conseguiu atingir uma gama enorme de ouvintes ainda em vida e, a partir daí, demonstrar as fragilidades da sociedade americana. O famoso historiador inglês Eric Hobsbawn, em seu livro História Social do Jazz, estava correto quando afirmou que o jazz representou, em grande medida, uma forma de inserção social dos negros na preconceituosa sociedade norte-americana. O jazz em sua raiz é uma música popular tanto do mundo rural do sul quanto do urbano do norte. E, segundo o próprio Hobsbawn, algumas de suas caracterísitcas, mais no que concerne ao popular, foram mantidas por toda sua história: a importância da tradição oral na transmissão, a improvisação e velocidade de trocas e execução, dentre outros. Muitos desses aspectos podem até ser pouco reconhecidos no jazz contemporâneo, mas isso só comprova a tese de que é uma arte que não está morta, ao contrário, se mostra em constante desenvolvimento e dinamismo, ainda vinculada diretamente às percepções da sociedade nas quais está inserida.

SOUZA NETO, José Maria Gomes de [et alli]. Pequeno dicionário de grandes personagens históricos. Rio de Janeiro: Alta Books, 2016. p. 383-87.

quinta-feira, 19 de setembro de 2013

Homofobia: crimes de ódio

Toda homofobia tem em algum aspecto da heterossexualidade sua base fundamental. Contudo, a heteronormatividade não passa de uma crença. Uma crença convencionalizada e mal fundamentada construída no costume e em suas repetições acríticas. Nunca no conhecimento e na verdade. A simples existência dos homossexuais no mundo, por si só, comprova a contradição e o tendencionismo dessa crença. Inclusive, o preconceito faz parte do domínio da crença por ter base irracional.  Preconceitos não dizem respeito ao conhecimento – não usam de raciocínios, argumentos e evidências lógicas para se fundamentarem. Preconceitos não são justificáveis. Principalmente quando acompanhados de altas dosagens de violência, intolerância e discriminação. Discriminar alguém com base em sua orientação sexual é promover tratamento desigual – geralmente inferiorizando-o. E promover tratamento desigual é crime no Brasil.

Dois homens nus, François-Xavier Fabre

São indícios preocupantes em todo o mundo. Nosso país tem apontado graus de intolerância contra os homossexuais que estão além da imagem acolhedora que propagamos pelo globo. Em 2009, foram vítimas de homofobia no país em torno de 198 pessoas. Em 2010, nossa sociedade chocou o mundo com imagens de jovens homossexuais sendo agredidos gratuitamente e à luz do dia em plena Avenida Paulista – coração da maior e mais cosmopolita metrópole do país. Mas a homofobia não é peculiaridade brasileira. No país mais poderoso do planeta, os EUA, 17,6% dos crimes de ódio, em 2008, foram motivados por orientação sexual. Outras culturas também indicam intolerância e ignorância ao tratar do tema. Na China pós-Revolução Cultural, por exemplo, os homossexuais se tornaram alvo regular de perseguições policiais – acusados de vandalismo e perturbação da ordem pública. Na Coréia do Norte a homossexualidade é condenada enquanto vício promovido pela decadente cultura ocidental capitalista – supostamente deturpadora de caráter. Todavia, curiosamente, todos os dias noticiários estão abarrotados de casos de violência abusivos por parte de heterossexuais e nem por isso atribuímos tal violência e agressividade a essa orientação sexual. A verdade é que o suposto medo homofóbico desencadeia níveis de violência injustificáveis. Superiores a qualquer ameaça que os homossexuais possam vir a representar aos tradicionais costumes sociais.

Bacanal, Wilhelm von Gloeden

Em suma, a prática homofóbica se manifesta num conjunto de atitudes segregadoras, agressivas e discriminatórias de inferiorização dos homossexuais por parte dos heterossexuais. Trata-se de um preconceito fundamentado numa crença equivocada e irracional de que somente são possíveis no mundo aqueles que se atraem sexualmente pelo sexo oposto (heterossexualidade). Essa falsa crença deve ser sobreposta à conscientização de que homossexuais são seres vivos, seres humanos. Eles existem e estão ativamente dentro da sociedade. Pagam impostos como todo mundo, compram propriedades e se relacionam como todo mundo. Estudam, trabalham, amam, se frustram, possuem amigos e inimigos, são gordos e magros, bonitos e feios, gentis e sacanas, são tímidos e atrevidos como todo mundo. Se eles estão vivos é porque têm lugar para eles no mundo, caso contrário estariam mortos ou não existiriam. Mas existem. Eles existem. Existem. Nascem, têm vida própria, mães, pais e amigos. E, por existirem, seus direitos devem ser preservados e garantidos como os de qualquer outro ser humano, membro da sociedade civilizada e organizada legalmente.


A massagem, Édouard Debat-Ponson

Nossa constituição zela pelo bem-estar da população e prevê que o respeito pelo outro independe das suas escolhas afetivas pessoais. A Constituição Federal Brasileira define como objeto fundamental da República: “promover o bem de todos, sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor, idade ou quaisquer outras formas de discriminação”. A expressão quaisquer outras formas refere-se a todas as formas de discriminação não mencionadas explicitamente no artigo, tais como a orientação sexual, entre outras. Além de a Constituição proibir qualquer forma de discriminação de maneira genérica, várias outras leis estão sendo discutidas no Congresso a fim de se proibir especificamente a discriminação aos homossexuais. Vale lembrar também que países como o Canadá, a Holanda, Portugal, Argentina e Uruguai já legalizaram o casamento homossexual com o objetivo de reconhecer os direitos civis básicos dessa população.


Amantes do sol, Henry Scott Tuke

No sentido de regulamentar os direitos civis dos homossexuais no Brasil, a partir de 2011 passamos a permitir a legalidade da união estável entre indivíduos do mesmo sexo. O que a legitimação desse tipo de união vem estimular é a defesa de que a união deve ser legal em função do afeto nela presente. Casamentos não são mais (desde o século XVIII) obrigações sociais, nem alianças sociais e políticas entre famílias, não são meios de salvação da alma nem garantias de renda e muito menos mecanismo para manutenção da espécie. Casamentos são celebrações do direito de união afetiva com parceiros de nossa livre escolha. Legitimar a união e, daqui para frente, o casamento entre os homossexuais é afirmar que seus direitos fundamentais estão preservados, bem como o de qualquer outro brasileiro. É uma questão de justiça. O texto das uniões estáveis padronizado nos cartórios brasileiros é enfático: uniões estáveis asseguram direitos civis e a constituição familiar (não a tradicional, mas todos os tipos de família). Afinal, quem é a favor da família – enquanto núcleos funcionais de afeto e compreensão – tem de ser a favor de todos os tipos de famílias possíveis no mundo.


Duas mulheres valsadoras, Henri de Toulose-Lautrec

Por fim, extinguir a homofobia e legalizar os homossexuais na sociedade são atos imperativos para a garantia da qualidade de vida de toda uma geração que está por vir. Seja por adoção, seja por inseminação artificial e uso de barrigas de aluguel ou ainda pela reprodução genética entre duas mulheres, o que importa é que novas famílias estão se constituindo a partir das relações afetivas homossexuais. Assim como no século XX, novas famílias também se constituíram a partir de relações afetivas oriundas de divórcios. E a nova geração de brasileiros que se forma agora não pode vir a sofrer com a homofobia lançada sobre seus pais e mães. Assim como filhos de mulheres e homens divorciados não mereciam sofrer preconceito nas décadas passadas, quando o divórcio ainda era tabu social. Temos de minar a homofobia agora, não só pelo movimento LGBT em si, mas para que as novas gerações não precisem viver marginalizadas e clandestinas dentro da sociedade. Os recentes debates – mesmo que 20 anos atrasados – sobre o assunto são frutíferos e necessários para o amadurecimento de toda a sociedade brasileira. Espera-se que seus resultados sejam racionais, tolerantes, imparciais e objetivos – como toda verdadeira Ética deve ser.

Ana Augusta Carneiro. Crimes de ódio. In: Filosofia. Ano VII, nº 83, junho de 2013. p. 49-50.

sexta-feira, 7 de junho de 2013

A passagem para a era de alta tecnologia


As pessoas de todas as épocas tendem a afirmar que a era em que vivem é a mais dramática, instigante e difícil de toda a longa história da humanidade. A ida do homem à Lua em julho de 1969 parecia marcar um novo estágio e um novo triunfo do engenho humano. A década de 1960 foi, no todo, um período de grande otimismo; a de 1970, não. Na década de 1970 e no começo da de 1980, até mesmo nossas maiores conquistas científicas mostraram seu lado negativo. E alguns dos problemas que desde sempre afligem a humanidade recusam-se obstinadamente a desaparecer. A prevenção da guerra nuclear e a proteção do meio ambiente talvez sejam os maiores desafios já enfrentados pelo homem.

Os espantosos progressos que a ciência deu aos países tecnologicamente avançados e às pessoas que têm dinheiro suficiente parecem não ter limites. Os caríssimos programas de exploração espacial dos Estados Unidos e da União Soviética continuaram. Ambas as potências enviaram naves espaciais para os confins do universo. Em 1970, uma dramática operação de resgate ocorreu no espaço depois que a explosão de um tanque de oxigênio a bordo da nave "Apolo 13" colocou em risco a vida dos astronautas. Alguns anos depois, uma nave não-tripulada transmitiu fotos tiradas nas proximidades do planeta Saturno, revelando alguns dos segredos de seus anéis. Essas naves viajam a uma velocidade de até oitenta mil quilômetros por hora. A "Viking I" pousou em Marte em 1976 e enviou fotos que foram mostradas nos noticiários de televisão. Tantos satélites circulam em volta da Terra que as pessoas que aqui ficaram talvez logo tenham de se preocupar com a queda de "lixo espacial". Os progressos dos programas espaciais russo e norte-americano talvez tenham sido empreendidos com um outro objetivo: a guerra, que transformaria numa aterrorizante realidade a popular série cinematográfica Guerra nas Estrelas e os videogames computadorizados das casas de diversões eletrônicas.

De volta à terra firme, a revolução eletrônica, estágio mais recente da Revolução Industrial, modificou tremendamente a nossa vida, desde o modo como usamos os serviços bancários até o modo como cozinhamos nossos alimentos. Um computador que há vinte anos ocuparia praticamente todo o espaço de uma sala cabe hoje no seu bolso. Chegou a era do "computador pessoal". O conhecimento dos computadores ("alfabetização em informática") pode se tornar obrigatório para estudantes [...]. Os videogames computadorizados entraram na moda no final da década de 1970. Os aviões já são praticamente capazes de voar sozinhos. A telecomunicação instantânea e os "editores de texto" modernizaram os negócios e a educação, gerando amargas guerras econômicas entre a gigantesca IBM e suas concorrentes e entre o Japão e os Estados Unidos. Quando as pessoas pela primeira vez ouviram falar de computadores, na década de 1950, temia-se que a "era do botão" provocasse a deterioração do corpo humano por falta de atividade. Só nossos dedos se exercitariam, apertando botões. Agora, mais do que nunca, os computadores substituíram o trabalho manual em alguns campos. Robôs computadorizados quase dão realidade às antigas histórias de ficção científica, à medida que são instalados nas linhas de montagem de fábricas de automóveis em Detroit e no Japão. Poucos discordam de que os computadores contribuíram muito para tornar mais fáceis certos aspectos de nossa vida, mas os seres humanos também tiveram de pagar um preço por isso. A revolução da informática criou uma nova casta de trabalhadores de escritório formados em computação. Porém, o número de empregos na indústria diminuiu por causa do computador, o que contribuiu, em certa medida, para aumentar o desemprego em alguns setores. O computador "desumanizou" os negócios, pois reduziu o contato pessoal. Ao mesmo tempo em que aumentou muito a produtividade em certos setores, colaborou para que o poder econômico se concentrasse nas mãos de umas poucas empresas gigantes, uma vez que só as maiores têm condições de acompanhar os rápidos e dispendiosos avanços na tecnologia da computação. As que não conseguem competir acabam ficando para trás. Os progressos na eletrônica também tendem a aumentar a distância entre os países ricos e os países pobres. E certas pessoas se preocupam, não sem motivo, com o uso que o governo pode dar aos computadores - reunindo informações sobre os cidadãos com o apertar de um botão. Pode ser difícil proteger as informações computadorizadas armazenadas pelos governos, empresas, universidades e hospitais. O que acontece quando uma empresa rival ou uma potência estrangeira consegue entrar no computador de alguém? Será que as leis poderão ser reformuladas de modo que prevejam um castigo para o roubo de informações digitais, como prevê agora para o roubo de uma loja ou residência? Até hoje, o computador tem sido amigo do ser humano, mas pode também se tornar um seu inimigo se os cidadãos forem arbitrariamente sujeitos ao que um especialista chamou de "violência silenciosa" do computador.

A ciência genética progrediu de modo espantoso e permitiu que os cientistas compreendessem como nunca antes a constituição do corpo humano. Certas possibilidades são ao mesmo tempo reconfortantes e incômodas. À medida que compreendemos os genes humanos, torna-se mais possível prever quem pode herdar certas doenças dos pais ou quem vai correr mais risco de contraí-las no decorrer da vida. Ao mesmo tempo, os médicos podem determinar a constituição genética de um bebê antes de ele nascer; a descoberta do sexo do bebê e de certas deficiências mentais são só os primeiros passos. Pode ser que logo seja possível saber se um bebê será suscetível a doenças como a distrofia muscular e a hepatite. A detecção pré-natal dos defeitos genéticos fica a cada dia mais sofisticada.

Não obstante, à medida que os cientistas avançam na compreensão das origens e das características genéticas das doenças que afligem a humanidade, certas questões éticas se impõem naturalmente. Por acaso os médicos devem ter permissão para alterar certos aspectos da natureza humana? As famílias não se sentiriam tentadas a provocar o aborto de um feto que, segundo o parecer dos médicos, teria alguma probabilidade de desenvolver uma doença daqui a quarenta anos, por exemplo? Um indivíduo não poderia ter a sua proposta de emprego recusada porque um cientista determinou que a sua constituição genética acusa a possibilidade da ocorrência de uma doença no futuro? A manipulação genética já produziu um rato maior do que o normal; quais alterações não poderiam ser provocadas no próprio ser humano no futuro distante?

Outros grandes avanços da ciência e da tecnologia determinaram novas ameaças. Em 1979, um vazamento de água radioativa de uma usina nuclear situada em Three Mile Island, na Pensilvânia, ameaçou a segurança de toda a vizinhança. Por vários dias os especialistas buscaram esfriar o gerador nuclear para impedir o derretimento do núcleo do reator, cujo superaquecimento poderia espalhar materiais radioativos por centenas de quilômetros quadrados de uma região densamente povoada. Os habitantes das cidades próximas esperavam ansiosos, prontos para abandonar suas casas se o desastre ocorresse. Por sorte, os especialistas conseguiram evitar a catástrofe. Porém, esse quase-acidente suscitou novos questionamentos a respeito da segurança e da praticidade da energia atômica como alternativa ao petróleo. Alguns anos depois, os planejadores do governo começaram a tentar resolver o problema de o que fazer com as usinas nucleares depois de desativadas por obsolescência, consideração que provavelmente nem sequer foi levada em conta pelos que as construíram.

A corrida armamentista nuclear representa um perigo ainda maior para o nosso planeta, tanto mais que já não envolve apenas dois países, os Estados Unidos e a União Soviética. O Reino Unido, a França e a China certamente já são capazes de mover uma guerra nuclear, como também, provavelmente, a Índia e o Paquistão (países ferrenhamente inimigos), Israel, a África do Sul e talvez a Argentina. Todo ano, os sobreviventes das explosões atômicas de Hiroshima e Nagasaki, de 1945, se reúnem para lembrar o mundo dos inacreditáveis horrores que de novo podem acontecer. Só nos resta esperar que a humanidade tenha aprendido a lição.

Nos Estados Unidos e em outros países, o meio ambiente também sofreu na década de 1970. Descobriu-se que o lançamento de substâncias tóxicas e outros dejetos nocivos em aterros sanitários localizados em muitas cidades representava grave risco para a saúde, de tal modo que muitos bairros, até cidades inteiras, tiveram de ser evacuados. [...] A “chuva ácida” criou um atrito diplomático entre o Canadá e os Estados Unidos, pois poluentes produzidos neste país estão cruzando a fronteira e depositando-se nas terras canadenses através da chuva contaminada, matando peixes e plantas em lagos distantes. Até mesmo as viagens aéreas supersônicas suscitaram um dilema entre o avanço tecnológico e as necessidades humanas. [...]

Os franceses foram responsáveis pelo mais impressionante avanço no transporte ferroviário. Há muito tempo que o Japão tem um “trem-bala” que interliga suas maiores cidades, mas em setembro de 1981 os franceses inauguraram o TGC (“trem de grande velocidade”). O trem francês é ainda mais rápido do que o japonês e é capaz de deslocar-se com segurança a uma velocidade de até 350 quilômetros por hora. [...]

A chuva ácida, os efluentes tóxicos e a poluição sonora são problemas relativamente novos. Durante a década de 1970, a fome, que é o problema mais antigo do mundo, continuou grave como sempre foi. No final de 1974, as reservas mundiais de cereais chegaram ao nível mais baixo em vinte e seis anos. [...] Cerca de dez mil pessoas morriam a cada mês na África, na Ásia e na América Latina. [...] A chamada Revolução Verde havia aumentado a produtividade das safras agrícolas e a área de cultivo em muitas partes do mundo. Porém, nem essa boa notícia foi suficiente para atender às necessidades alimentares do planeta, em face do rápido crescimento populacional e das mudanças climáticas.

[...] Cidades como Cingapura, Cidade do México, Calcutá e Rio de Janeiro, cujos recursos já não davam conta de sua enorme população, foram tomadas de assalto por milhares de migrantes vindos da zona rural, muitos dos quais passam a viver em favelas construídas às margens da grande metrópole. [...]

[...]

O crescimento populacional, as mudanças climáticas e as limitações da Revolução Verde contribuíram para aumentar a distância entre os países ricos e os países pobres. As pessoas deixaram de se referir somente às diferenças entre “Ocidente e Oriente” e passaram a mencionar também as diferenças entre “norte e sul”, contrapondo os países do norte, mais ricos, aos seus vizinhos menos desenvolvidos do sul.

A fome quase precipitou um conflito global. [...]

[...]

Os direitos das mulheres passaram a ser mais respeitados na década de 1970, sobretudo nos Estados Unidos. Em 1972, o senado aprovou a Emenda de Igualdade de Direitos à constituição norte-americana, para pôr fim à discriminação por sexo. [...] Em 1973, a Suprema Corte legalizou o aborto nos primeiros meses de gravidez. Um número maior de mulheres passaram a trabalhar fora, também como advogadas, médicas, empresárias, executivas e professoras universitárias, muito embora as mulheres continuassem a receber menos do que os homens em muitos setores profissionais. [...] Margareth Thatcher foi a primeira mulher a ser primeira-ministra da Inglaterra, com a vitória do partido conservador nas eleições de 1979. Em 1983, Sally Ride foi a primeira astronauta norte-americana a ir para o espaço. [...] Tudo isso representou um excelente começo. Não devemos jamais nos esquecer que a história da humanidade é também a história das mulheres.

O movimento pelos direitos civis foi um dos acontecimentos mais significativos da década de 1960. Na década de 1970, os negros começaram a ser eleitos para cargos públicos, especialmente para as prefeituras de várias grandes cidades norte-americanas, como Detroit, Los Angeles e Atlanta. [...] Mas ainda havia muito a ser feito. A segregação continua em muitos sistemas escolares. [...] O futuro econômico dos jovens de raça negra permanece indefinido, pois ainda é entre eles que se constata a maior proporção de desempregados, num momento em que o governo cortou boa parte dos programas de seguridade social que ajudavam os pobres a subsistir.

Na década de 1970, os homossexuais começaram a exigir o direito a um tratamento justo. Apesar da reação conservadora, comunidades gays floresceram em muitas cidades, particularmente em Nova York e São Francisco; os gays também passaram a ser mais aceitos do que eram antes e encontraram meios de representação política.

Parada do Orgulho Gay. Nova York, 2008.
Foto: Chefe Tweed


A vida na década de 1970 e no princípio da de 1980 refletia uma combinação de mudança e continuidade. Orquestras sinfônicas, óperas e grandes exposições artísticas trazidas da Europa e alardeadas a toque de trombeta encontraram nas maiores cidades dos Estados Unidos um público interessadíssimo. Mas a televisão, o rádio, as gravações musicais em geral e os livros campeões de vendas – tudo incrementado pelo progresso tecnológico – continuaram a ser as principais fontes de entretenimento para o povo. A televisão a cabo levou muitos canais novos a um número cada vez maior de lares norte-americanos. [...] O desenvolvimento da eletrônica possibilitou que programas de televisão fossem gravados para ser vistos depois e criou o fenômeno do aluguel de filmes populares gravados em fitas cassete [...]. As emissoras de FM continuaram populares [...].

[...]

O tema da capacidade de sobrevivência do homem não é um tema novo na história da humanidade. Castigado pela crise econômica e pela deterioração do meio ambiente, vulnerável às ditaduras e ao terrorismo [...], o povo do nosso planeta é capaz de consolar-se por saber que a humanidade sobreviveu a outros perigos no passado. [...] Quanto mais difíceis forem os desafios que a humanidade terá de enfrentar no futuro, tanto mais teremos de trabalhar juntos.


VAN LOON, Hendrk Willem. A história da humanidade. São Paulo: Martins Fontes, 2004. p. 565-599.

quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

O "problema negro" nos Estados Unidos após a Guerra Civil

Marcha pelos Direitos Civis, Washington

O problema negro - a escravidão - não foi o cerne da Guerra de Secessão. Lincoln, apesar de ter horror à escravidão, era reticente quanto à igualdade de direitos entre brancos e negros, chegando a dizer que: "Se pudesse salvar a União, sem libertar nenhum escravo, o faria."

Os negros, libertados durante a guerra civil, ficaram sem propriedade porque não houve reforma agrária nos EUA, e nem a União cumpriu o que havia prometido: 40 acres de terra e uma mula para cada família.

Quando o exército nortista abandonou o Sul, os negros que haviam obtido o direito de voto, sem nenhuma propriedade, ficaram sem respaldo e se espalharam pelos Estados Unidos à procura de trabalho, migrando para Norte e Oeste, onde havia escassez de mão-de-obra.

O sucessor de Lincoln, Andrew Johnson, procurou restabelecer no Sul governos estaduais semelhantes aos que ali existiam antes da guerra. Os líderes confederados foram anistiados e quase nada mudou politicamente nos estados do Sul. É necessário dizer que, logo após a vitória, a ocupação militar do Sul implicou a alforria de todos os escravos e a proibição do direito de votar a todos os ex-líderes confederados. Os governos sulistas passaram a ser dependentes dos votos negros e dominados por brancos favoráveis à União. A partir de 1877, o governo federal foi retirando a sua força militar do Sul, e as comunidades brancas foram recuperando seu poder. Nesse mesmo ano, os sistemas político, social e econômico do Sul eram semelhantes aos de antes da guerra, com uma única diferença: o negro era agora um trabalhador sem terra e não mais um escravo. No dizer de McKitrick "no esforço geral para reconstruir a estrutura desmantelada pela guerra civil e pela restauração, até as pequenas conquistas do negro - para não falarmos nos direitos sociais mínimos que ele adquirira  [...]. - lhe foram sistematicamente retiradas". Os estados sulistas começaram a impor sistemas de segregação social e de abolição dos direitos civis dos negros. Mais ou menos no início do século XX, o processo de segregação do negro estava completado.

Os negros, quando queriam lutar por seus direitos civis, eram ameaçados pelas organizações terroristas que agiam implacavelmente no Sul, como a Ku-Klux-Klan.

Nos princípios do século XX, a mecanização da agricultura expulsou grandes massas de trabalhadores rurais negros para as cidades do Norte. Nessas cidades, ficavam segregados nos chamados guetos negros e ocupavam os serviços rejeitados pelos brancos. Os negros eram discriminados nos seus locais de trabalho, nos jardins públicos etc. Mas assim mesmo a vida nas cidades do Norte era melhor do que do Sul, onde eram surrados e ate linchados.

A situação dos negros nos guetos do Norte foi magistralmente descrita por Hughes, um poeta negro, nos seguintes versos:

"Que fazer?
Aqui ao lado do inferno
Está o Harlem
Que recorda as eternas mentiras
As eternas patadas no traseiro
O eterno sed pacientes
Que nos disseram tão amiúde
Por certo que o recordamos
Porém quando o garoto do bazar da esquina
Nos diz que o açúcar voltou a subir dois centavos
E o pão um centavo
E que há novas taxas para o cigarro...
Então recordamos o emprego que jamais tivemos
Que jamais podemos ter
E que agora não temos
Porque somos gente de cor
Então ficamos aí
Ao lado do inferno
No Harlem
E olhamos de costas o mundo
E nos perguntamos o que vamos fazer
Com todas estas recordações aí
Diante de nós."

Com a Primeira Guerra Mundial, que mobilizou toda a economia e força de trabalho americanas, o negro teve a sua primeira oportunidade de ascensão "à condição de operário e de cidadão". Não como eleitor, mas como soldado.

Finda a guerra, o negro perdeu todas as posições conquistadas.

Durante a grande crise econômica de 1929, devido ao desemprego em massa, os brancos passaram a ocupar os postos subalternos que antes recusavam. Os negros foram maciçamente desempregados e o número de negros desocupados era proporcionalmente maior ao de brancos.

A Segunda Guerra Mundial deu ao negro uma nova chance mais igualitária na luta e no trabalho. O negro comportou-se bravamente na guerra. Era a única forma de recuperar a dignidade que lhe haviam tirado. A Divisão Búfalo do exército americano, composta somente de negros, foi uma das melhores da Segunda Guerra Mundial.

Nos anos do pós-guerra recrudesceu a violência contra o negro altivo, que havia participado da guerra e trabalhado na grande indústria. A partir daí, os negros americanos se organizaram melhor do que nunca, para a conquista da igualdade social e dos direitos civis. Os negros e muitos brancos também haviam tomado consciência da injustiça que significa a segregação racial.

O novo negro, que lutava em grandes manifestações pelos seus direitos civis em 1960, tinha como motivação a independência das ex-colônias africanas, onde os negros derrotaram os ex-colonizadores brancos. O negro americano, com isso, sentiu-se forte para lutar contra a segregação. Segundo Darcy Ribeiro, "o negro americano passou a constituir a vanguarda do movimento revolucionário mais ativo dos Estados Unidos de nossos dias. Toma, desde então, em suas mãos, a luta pelos seus próprios direitos..."

Durante a década de 70 houve uma série de insurreições negras contra a segregação racial. Mas não só de insurreições passou a ser feita a luta dos negros. Utilizaram-se também de passeatas e boicotes às empresas que promoviam a segregação racial.

Devido à luta dos negros pelos direitos civis, o governo federal americano em 1966 elaborou e colocou em prática a Lei dos Direitos Civis, proibindo a segregação racial. Mas, na verdade, os direitos civis dos negros ainda não estão assegurados. No Sul a lei praticamente não é cumprida, e no Norte a comunidade negra é marginalizada econômica e socialmente.

CÁCERES, Florival. História da América. São Paulo: Moderna, 1986. p. 113-115.