"Os espelhos estão cheios de gente.
Os invisíveis nos vêem.
Os esquecidos se lembram de nós.
Quando nos vemos, os vemos.
Quando nos vamos, se vão?"
Eduardo Galeano: Espelhos
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terça-feira, 7 de março de 2017

Os últimos búfalos do Norte

O último búfalo, Albert Bierstadt

O búfalo já é uma curiosidade em Montana e os índios black-feet roem ossos velhos e cascas de árvores.

Touro Sentado encabeça a última caçada dos sioux nas planícies do norte. Depois de muito andar, encontram uns poucos animais. Por cada um que matam, os sioux pedem perdão ao Grande Búfalo invisível, segundo quer a tradição, e lhe prometem que não desperdiçarão nenhum pelo do morto.

Pouco depois, a Estrada de Ferro do Pacífico Norte celebra o apogeu de sua via que chega de costa a costa. Essa é a quarta linha que atravessa o território norte-americano. As locomotivas de carvão, com freios pneumáticos e carros Pullman, avançam na frente dos colonos rumo às planícies que foram dos índios. Por todas as partes brotam cidades novas. Cresce e se articula o gigantesco mercado nacional.

As autoridades da Estrada de Ferro do Pacífico Norte convidam o chefe Touro Sentado para pronunciar um discurso na grande festa de inauguração. Touro Sentado chega da reserva onde os sioux sobrevivem por caridade. Sobe ao palco coberto de flores e bandeiras e se dirige ao presidente dos Estados Unidos, aos ministros e personalidades presentes e ao público em geral:

- Odeio os brancos - diz. - Vocês são ladrões e mentirosos...

O intérprete, um jovem oficial, traduz:

- Meu coração vermelho e doce vos dá as boas-vindas...

Touro Sentado interrompe o clamoroso aplauso do público:

- Vocês nos arrancaram a terra e fizeram de nós uns párias...

O público ovaciona, de pé, o emplumado guerreiro, e o intérprete transpira, gélido.

GALEANO, Eduardo. Memória do Fogo: As caras e as máscaras. Porto Alegre: L&PM, 2013. p. 501-2.

domingo, 5 de março de 2017

As terras sagradas dos apaches

Acampamento dos índios Crow, Joseph Henry Sharp

Aqui, no vale onde nasce o rio, entre as altas rochas do Arizona, está a árvore que deu abrigo a Jerônimo há trinta anos. Ele acabava de brotar do ventre da mãe e foi enviado numa manta. Penduraram a manta num galho. O vento acalentava o menino, enquanto uma voz suplicava à árvore:

- Que viva e cresça para ver te dar frutos muitas vezes.

Essa árvore está no centro do mundo. Parado à sua sombra, Jerônimo jamais confundirá o norte com o sul nem o mal com o bem.

Ao redor abre-se o vasto país dos apaches. Nessas toscas terras vivem desde que o primeiro deles, o filho da tormenta, vestiu as plumas da águia que tinha vencido os inimigos da luz. Aqui jamais faltaram animais para caçar, nem ervas para curar os enfermos, nem cavernas rochosas onde jazer depois da morte.

Uns estranhos homens chegam a cavalo, carregando longas cordas e muitos bastões. Têm a pele como se fosse dessangrada e falam um idioma jamais ouvido. Cravam na terra sinais coloridos e fazem perguntas a uma medalha branca que lhes responde movendo uma agulha.

Jerônimo não sabe que esses homens vieram medir as terras apaches para vendê-las.

GALEANO, Eduardo. Memória do Fogo: As caras e as máscaras. Porto Alegre: L&PM, 2013. p. 461-2.

sexta-feira, 3 de março de 2017

O Faroeste

Acampamento indígena, Jules Tavernier

E por acaso alguém escuta o velho chefe Seattle? Os índios estão condenados, como os búfalos e os alces. Quem não morre de tiro morre de fome ou de pena. Da reserva onde definha, o velho chefe Seattle fala na solidão sobre explorações e extermínios, e diz sabe-se lá o quê sobre a memória de seu povo circulando pela seiva das árvores.

Zune o Colt. Como o sol, os pioneiros brancos marcham rumo ao oeste. Uma luz de diamante os guia lá das montanhas. A terra prometida rejuvenesce aquele que lhe crava o arado para fecundá-la. Num piscar de olhos brotam ruas e casas na solidão habitada por cactos, índios e serpentes. O clima, dizem, é tão, tão sadio, que para se inaugurar os cemitérios o único remédio é derrubar alguém a tiro.

O capitalismo adolescente, atacante guloso, muda o que toca. Existe o bosque para que o machado o derrube e o deserto para que o atravesse o trem; o rio vale a pena se tem ouro e a montanha se contém carvão ou ferro. Ninguém caminha. Todos correm, urgentes, impedidos, atrás da errante sombra da riqueza e do poder. Existe o espaço para que o derrote o tempo, e o tempo para que o progresso o sacrifique em seus altares.

GALEANO, Eduardo. Memória do Fogo: As caras e as máscaras. Porto Alegre: L&PM, 2013. p. 459.

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017

Por ti América

Mulher índia, Orozco

ஐ Canto ancestral ஐ

Oh! Grande Espírito Manitu!
   Que nos presenteou com a
   cerimonial Teotihuacán
   imponente Tenochtitlán!

Terra de homens e deuses:
   Talude da Grande Serpente
   livro sagrado Popul Vuh
   “Filhos do Sol” da sagrada Machu Picchu

Nazca de mágicas linhas traçadas
    pueblos encravados
    petróglifos rasgados
    nos rochedos!

Quipus contam contas
   milhos abóboras batatas
   verdes chinampas
   codex de vidas cotidianas!

Sopro de Quetzalcoatl
   sangue para Huitzilopochtli
   luas e sóis piramidais
   portais de luas e sóis em cantares ancestrais.

ஐ Canto violado ஐ


Malinches oferecem corpos sedutores
   aos conquistadores
   encomenderos
   d’almas desfiguradas de profanadores!

Cicatrizes infinitas:
   filhos pisoteados por monstros de quatro patas
   guerreiros-jaguares atravessados pelo fio de espadas de aço
   plumas de quetzal adormecidas! 

ஐ Canto barroco ஐ

Desvirginizada pelas plazas
   erguem-se igrejas ornadas de ouro
   sob pedras imemoriais com sangue estuprado
   dos índios nas minas de Potosi!
  
ஐ Canto insurgente ஐ

Veias abertas
   corpos em transe nas santerias
   rebeliões haitianas
   idealismos sandinistas...

Centenas de Chiapas
   tenazes araucanos
   cotidianos maroons
   Black Hills de Cavalos Doidos...

ஐ Canto resistente ஐ

Mãos calejadas
   nos monumentais murais de Diego Rivera
   nas pinceladas coloridas de Frida Khalo ferida/dolorida
   na poesia de Neruda...

Corpos entrelaçados
   na sedutora rumba
   no erótico tango
   nas canções de Mercedes Sosa...

Corações pulsantes
   na luta mítica de Che Guevara
   na carta do Cacique Seatlle
   nas mães da Plaza de Mayo...

Por ti América
   na resistência dos povos ancestrais
   na mestiça afro americana dor
   Nuestra America de tantos gozos!

© 2016 by Orides Maurer Jr.

MAURER JR., Orides. O olhar do historiador: vidas cotidianas. Curitiba: Liberum, 2016. p. 126-9.

quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

Anúncios nos jornais uruguaios de 1840



Vende-se:

- Uma negra meio boçal, da nação cabinda, pela quantidade de 430 pesos. Tem rudimentos de costurar e passar.

- Sanguessugas recém-chegadas da Europa, da melhor qualidade, por quatro, cinco e seis vinténs uma.

- Um carro, por quinhentos patacões, ou troca-se por negra.

- Uma negram de idade de treze a catorze anos, sem vícios, de nação bangala.

- Um mulatinho de idade de onze anos, com rudimentos de alfaiate.

- Essência de salsaparrilha, a dois pesos o frasquinho.

- Uma primeiriça com poucos dias de parida. Não tem cria, mas tem abundante leite bom.

- Um leão, manso feito um cão, que come de tudo, e também uma cômoda e uma caixa de embuia.

- Uma criada sem vícios nem doenças, de nação conga, de idade de uns dezoito anos, e além disso um piano e outros móveis a preços cômodos.

(Dos jornais uruguaios de 1840, vinte e sete anos depois da abolição da escravatura)

GALEANO, Eduardo. O livro dos abraços. Porto Alegre: L&PM, 2015. p. 77.

sexta-feira, 3 de junho de 2016

Dos descobrimentos à colonização - Parte 3

[A colonização europeia do continente americano]


Carta geográfica da Nova França, 1612, Samuel de Champlain 

Foi nas Américas que a iniciativa colonizadora dos europeus tomou maior impulso. As riquezas procuradas nas Índias e finalmente descobertas no novo continente atraíram a Europa cada vez mais para as terras do Atlântico.

Franceses
Na América do Norte ocupam, no início do século XVII, regiões do atual Canadá. Posteriormente fundam Québec (1608) e Montreal (1642). Em meados do século XVII expandem-se em direção ao sul dos atuais EUA, descendo o rio Mississipi até o Golfo do México; fundam a colônia da Luisiana, em homenagem a Luís XIII, rei da França, e a cidade de Nova Orléans (1731).

Na América Central estabelecem-se, a partir dos meados do século XVII, nas Antilhas (atuais Haiti, República Dominicana, Guadalupe, Martinica e em outras pequenas ilhas).

Na América do Sul um grupo de protestantes franceses, fugindo a perseguições religiosas em seu país, tentam, sem êxito, estabelecer-se no Brasil fundando a França Antártica (1555) na Ilha de Villegaignon, na baía de Guanabara. Outro grupo análogo funda (1612), no Estado do Maranhão, a França Equinocial, na ilha que batizaram de São Luís em honra ao rei Luís XIII. Expulsos do Brasil, fixam-se na atual Guiana Francesa, fundando Caiena.

Na América do Norte, no Canadá, incorporando à Coroa com o nome de Nova França, exploram intenso comércio de peles, a caça, a pecuária, a agricultura produzindo trigo e forragem (cereais) e gramíneas para alimentação de animais. Na Luisiana cultivam arroz e tabaco.

Nas Antilhas cultivam tabaco, cana-de-açúcar, algodão, em seguida café, cacau, anileira (para produção de substância corante), servindo-se, como na Luisiana, do trabalho de escravos africanos. O comércio de produtos coloniais era monopólio de portos franceses do Atlântico (Ruão, Nantes, La Rochelle e Bordeaux).

Ingleses
Na América do Norte fundam (1584) a primeira colônia que recebeu o nome de Virgínia em honra à rainha Elisabete I, cognominada a Rainha-Virgem.

Um grupo de protestantes ingleses, chamados puritanos, fugindo a perseguições religiosas em seu país, emigram para o continente americano fundando Plymouth e a colônia de Massachusetts. Sucedem-se vários grupos colonizadores, de católicos e de protestantes, dando origem a novas colônias, as quais se agrupam em uma confederação. Até meados do século XVIII a confederação englobava 13 colônias, controladas pela Coroa, mas com certa autonomia local. No século XVIII, como ocorreu na Ásia, os ingleses entram em choque com os colonos franceses e a França é obrigada a renunciar a suas pretensões na América do Norte.

Na América Central tomam pé, até o século XVIII, nas Antilhas ocupando Barbados, as Bahamas, as Bermudas, Jamaica, Antígua e outras.

Na América do Sul estabelecem-se no século XVIII nas Guianas.

Na América do Norte, nas colônias setentrionais (New Hampshire, Massachusetts, Rhode Island, Connecticut) desenvolvem, em pequenas propriedades, culturas várias (milho, trigo, legumes, macieiras). Dedicam-se à criação de gado, à pesca, à extração de madeiras, à produção de peixe salgado, carne-seca e rum. Nas colônias do centro (Nova York, New Jersey, Pennsylvania, Delaware) desenvolvem, em pequenas e grandes propriedades, o cultivo do trigo, a produção de farinhas, a extração de madeiras, a construção de navios. Nesta região estabelecem-se os comerciantes. Nas colônias do sul (Maryland, Virgínia. Carolina do Sul, Carolina do Norte, Geórgia) domina a grande propriedade, em base de trabalho escravo. Cultivam-se o tabaco, o arroz, mais tarde o algodão (séc. XVIII), e cria-se gado.

Nas Antilhas, com o concurso da mão-de-obra africana, desenvolvem as lavouras de cana-de-açúcar e mantêm intenso comércio com a América espanhola e suas próprias colônias na América do Norte.

Holandeses
Na América do Norte um grupo de protestantes, fugindo a perseguições religiosas nos Países Baixos, funda (1623) o núcleo de Nova Amsterdã (origem de Nova York), que perdem, logo depois (1664), para os ingleses.

Na América Central estabelecem-se nas Antilhas, na Ilha de Curaçao e em outras menores.

Na América do Sul, através da Companhia Holandesa das Índias Ocidentais, tentam estabelecer-se no nordeste do Brasil, antes na Bahia (1624), depois em Pernambuco (1630), onde fundam a colônia da Nova Holanda, de onde são expulsos em 1654. Os holandeses conseguem fixar-se nas Guianas (séc. XVII).

A base da economia holandesa era a cana-de-açúcar, cultura desenvolvida nas Antilhas.

Espanhóis
Na América do Norte, a partir da conquista de Cortés no México, penetram no século XVI em vastas zonas do sul e sudoeste dos atuais EUA (Califórnia, Novo México, Texas, Flórida), formando o Vice-Reinado da Nova Espanha, com capital Cidade do México.

Na América Central ocupam (séc. XVI) praticamente toda a área do continente, dominam nas Antilhas Cuba, Porto Rico, Trinidad e Jamaica (esta última perdida para os ingleses no séc. XVII).

Na América do Sul, a partir da conquista de Pizarro no Peru, ocupam todas as terras ao longo do Oceano Pacífico (à exceção da Patagônia), formando o Vice-Reinado do Peru, compreendendo territórios dos atuais Peru, Bolívia e Chile, com capital em Lima. No século XVIII criam o Vice-Reinado de Nova Granada, compreendendo territórios dos atuais Equador, Colômbia, Venezuela, Panamá, com capital Bogotá. Estabelecem-se em regiões dos atuais Argentina, Uruguai, Paraguai e Bolívia, formando o Vice-Reinado do Prata, com capital Buenos Aires.

A penetração do continente americano foi estimulada pela busca e exploração de jazidas de ouro e de prata. Já a partir do século XVI exploram em larga escala as minas de ouro do México e as de prata de Potosí (na atual Bolívia). Na região dos pampas argentinos introduzem o gado bovino e ovino (carneiros), desenvolvendo o comércio de lã e de couro. Desenvolvem também a agricultura explorando plantas nativas (tabaco, milho, mandioca, algodão) e outras provenientes da Europa (limoeiro, laranjeira, vinha, trigo, cânhamo) ou do Oriente (amoreira, cana-de-açúcar, cafeeiro).

Portugueses
Na América do Sul possuem regiões do atual Brasil, com Salvador como capital. Até o fim do século XVIII ultrapassam a linha de Tordesilhas, penetram e ocupam vastos territórios, dando à colônia uma forma geográfica que correspondia aproximadamente à forma do Brasil atual, transferindo a capital para o Rio de Janeiro.

A base da economia portuguesa era essencialmente agrícola. De início a extração da madeira pau-brasil, em seguida o plantio intensivo da cana-de-açúcar. Desenvolvem o cultivo de plantas nativas (milho, mandioca, tabaco, algodão, cacau, baunilha, canela); introduzem o arroz e o linho. Desenvolvem também, a partir do século XVI, a criação de gado bovino e cavalar em várias regiões de sua colônia; iniciam o comércio de couros. No século XVII descobrem e exploram jazidas de ouro (no atual Estado de Minas Gerais) e de diamantes (nos atuais Estados de Goiás e de Mato Grosso).

HOLLANDA, Sérgio Buarque de (org.). História da Civilização. São Paulo: Nacional, 1974. p. 186-188.

quinta-feira, 12 de maio de 2016

O consumismo, a propaganda e a mulher na década de 1920

Na década de 1920 firmou-se não só um "estilo de vida americano", mas também a cultura de massas americana, graças à conjugação da produção em série, da propaganda e das vendas a crédito. O rádio, o cinema, os jornais e as revistas foram os grandes divulgadores do american way of life. O número de aparelhos de rádio nos lares americanos saltou de 100.000, em 1922, para 2 milhões, em 1925. A frequência semanal aos cinemas duplicou, atingindo no final da década 100 a 115 milhões de espectadores. As estrelas de cinema tornaram-se os grandes símbolos de sucesso e passaram a ditar moda e costumes.

[...]

Já no início do século XX, as cadeias de lojas e os catálogos de vendas pelo correio popularizaram os artigos fabricados em série (roupa pronta, comida enlatada, móveis, eletrodomésticos etc.) e difundiram informações e valores para muito além dos grandes centros metropolitanos. Contribuíram para um novo nível de estandardização da vida cotidiana e de homogeneização das das diferenças entre o campo e a cidade.



O sistema de pagamento a prestações encorajava as pessoas a consumir além das suas possibilidades. Em 1925, os consumidores americanos utilizaram a venda a prestações para comprar mais de dois terços dos móveis e eletrodomésticos e pelo menos três quartos dos automóveis, pianos, máquinas de lavar, máquinas de costura, geladeiras, gramofones etc.

[...]

Industriais e publicitários norte-americanos da década de 1920 usaram todos os meios para estimular no público o desejo de possuir bens. Anunciavam os aparelhos eletrodomésticos como equipamentos que poupavam trabalho e tempo à mulher. Seduziam o público com imagens de aspiradores, máquinas de lavar roupa e ferros elétricos associadas a figuras de mulheres modernas e elegantes, que mesmo na cozinha usavam salto alto e maquiagem. Os publicitários tornaram-se verdadeiros manipuladores do comportamento humano. Souberam explorar as descobertas da Psicologia sobre a motivação das ações, utilizando imagens e associações de ideias que despertavam emoções no consumidor, incitando-o a comprar. Aos poucos, a propaganda foi deixando de fornecer informações objetivas sobre um produto para transformá-lo em "necessidade que melhorava o nível de vida da família". Inventando necessidades, a propaganda impelia o consumidor a comprar.

Os publicitários logo perceberam que o mercado consumidor era predominantemente feminino, Na década de 1920, as pesquisas mostravam que 80% das compras nas grandes cidades dos Estados Unidos eram feitas por mulheres, Por isso, a maior parte dos anúncios passou a ser dirigida às mulheres, em especial às donas-de-casa. Criou-se a ideia de que o consumo era a tarefa primordial da dona-de-casa. "Ir às compras" era moderno, elegante e "importante" - dizia a mensagem subliminar dos anúncios nas revistas femininas. A nova imagem da mulher substituía a figura tímida, delicada e submissa de antes pela da mulher decidida e sociável. A mulher moderna ideal gostava de se divertir, mostrava-se atraente para os homens e sabia o que queria. A publicidade deu uma nova concepção consumista às propostas feministas, isto é, a mulher moderna "sabe o que quer" porque decide o que comprar. Um anúncio de produtos domésticos publicado no Chicago Times em 1930 proclamava: "A mulher de hoje obtém tudo o que quer. O voto. Finos forros de seda para substituir volumosos saiotes. Objetos de vidro em safira azul ou em âmbar resplandescente. O direito a uma carreira. Sabonetes combinando com as cores de seu banheiro".

[...]

Não se pode pensar a cultura de massas da década de 1920 como se fosse o padrão de toda a sociedade americana. O crescimento econômico e seus resultados materiais estavam distribuídos de forma desigual nos Estados Unidos. Até a década de 1930, as mulheres negras que trabalhavam nas plantações de tabaco em Durham, Carolina do Norte, por exemplo, lavavam a roupa de suas famílias em bacias no quintal, utilizavam latrinas fora de casa e cozinhavam em fogões a lenha. Além da diferença do poder de compra, havia outros elementos que mantinham as desigualdades: enquanto a maior parte das casas urbanas podia contar com energia elétrica, água canalizada e fornecimento municipal de gás, grande parte das áreas rurais não possuía esses serviços.

No Brasil, as revistas femininas da época já anunciavam as maravilhas domésticas para a mulher moderna. No entanto, mesmo nas residências de famílias ricas, o trabalho pesado era deixado à mão-de-obra barata de arrumadeiras e faxineiras, conforme lembra uma empregada doméstica: "Para limpar o assoalho eu espalhava areia nas tábuas e esfregava de joelhos, com um tijolo. Depois, varria, jogava água e puxava com um pano torcido, rodo não existia. Imagina como ficava o rim de quem esfregava o tijolo!". (Citado em BOSI, Ecléa. Memória e sociedade. Lembranças de velhos. São Paulo: Companhia das Letras, 1999.)

RODRIGUE, Joelza Ester. História em documento: imagem e texto. São Paulo: FTD, 2002, p. 102-4.

segunda-feira, 28 de março de 2016

1916, Nova Orleães: o Jazz

Louis Armstrong, Adi Holzer

Vem dos escravos a mais livre das músicas. O jazz que voa sem pedir licença, tem como avôs os negros que trabalhavam cantando nas plantações de seus amos, no sul dos Estados Unidos, e como pais os músicos dos bordéis negros de Nova Orleães. As bandas dos bordéis tocam a noite inteira sem parar, em palcos que as põem a salvo dos golpes e punhaladas quando o caldo entorna. De suas improvisações nasce a louca música nova.

Com o que economizou distribuindo jornais, leite e carvão, um garoto baixinho e tímido acaba de comprar corneta própria por dez dólares. Ele sopra e a música se espreguiça longamente, longamente, saudando o dia. Louis Armstrong é neto de escravos, como o jazz, e foi criado, como o jazz, nos puteiros. 

GALEANO, Eduardo. Memória do fogo: O século do vento. Porto Alegre: L&PM, 2013. p. 592.

terça-feira, 16 de fevereiro de 2016

1692, Salem Village

Bruxaria na Vila de Salem, Artista desconhecido

AS BRUXAS DE SALEM

- Cristo sabe quantos demônios há aqui? - ruge o reverendo Samuel Parris, pastor da vila de Salem, e fala de Judas, o demônio sentado à mesa do Senhor, que se vendeu por trinta dinheiros, 3,15 em libras inglesas, irrisório preço de uma escrava.

Na guerra dos cordeiros contra os dragões, clama o pastor, não há neutralidade possível nem refúgio seguro. Os demônios meteram-se em sua própria casa: uma filha e uma sobrinha do reverendo Parris foram as primeiras atormentadas pelo exército de diabos que tomou de assalto esta puritana vila. As meninas acariciaram uma bola de cristal, querendo ver a sorte, e viram a morte. Desde que isso aconteceu, são muitas as jovenzinhas de Salem que sentem o inferno no corpo: a maligna febre as queima por dentro e se revolvem e se retorcem, rodam pelo chão espumando e uivando blasfêmias e obscenidades que o Diabo lhes dita.

O médico, William Griggs, diagnostica o malefício. Oferecem a um cão um bolo de farinha de centeio misturada com urina das possuídas, mas o cão come, mexe o rabo, agradecido, e vai embora para dormir em paz. O Diabo prefere a moradia humana.

Entre convulsão e convulsão, as vítimas acusam.

Exame de uma bruxa, Thompkins H. Matteson

São mulheres, e mulheres pobres, as primeiras condenadas à forca. Duas brancas e uma negra: Sarah Osborne, uma velha prostrada que há anos chamou aos gritos seu servente irlandês, que dormia no estábulo, e abriu-lhe um lugarzinho na cama; Sarah Good, uma mendiga turbulenta, que fuma cachimbo e responde resmungando às esmolas; e Tituba, escrava negra das Antilhas, apaixonada por um demônio todo peludo e de nariz comprido. A filha de Sarah Good, jovem bruxa de quatro anos de idade, está presa no cárcere de Boston, com grilhões nos pés.

A bruxa nº 1, Joseph E. Baker

Mas não cessam os gemidos de agonia das jovenzinhas de Salem e se multiplicam as acusações e condenações. A caçada de bruxas sobe da suburbana Salem Village ao centro de Salem Town, da vila ao porto, dos malditos aos poderosos: nem a esposa do governador se salva do dedo que aponta culpados. Balançam na força prósperos granjeiros e mercadores, donos de barcos que comerciam com Londres, privilegiados membros da Igreja que desfrutavam direito à comunhão.

Anuncia-se uma chuva de enxofre sobre Salem Town, o segundo porto de Massachusetts, onde o Diabo, trabalhador como nunca, anda prometendo aos puritanos cidades de ouro e sapatos franceses.

GALEANO, Eduardo. Memória do fogo: Os nascimentos. Porto Alegre: L&PM, 2013. p. 262.

sábado, 9 de janeiro de 2016

Povos do mundo: América

Galeria 1 - Povos indígenas

[Índios pampas, Carlos Morel]

[Mulher e criança indígena Secotan, Carolina do Norte, John White]

[Mulher índia puebla, Irving E. Couse]

[Índios simulando búfalo, Frederic Remington]

[Arapahos, Alfred Jacob Miller]

[Uma índia puebla pintando potes, Henry François Farny]

[Tipis sioux, Karl Bodmer]

[Dividindo a propriedade do chefe, Joseph Henry Sharp]

[Água para o acampamento, Charles Marion Russell]

[Fundação da cidade do México, José María Jara]

[Índios Apiaká no rio Arinos, Hércules Florence]

Galeria 2 - Afro-americanos

[Vestido para o carnaval, Winstow Homer]

[As catadoras de algodão, Winstow Homer]

[Lição de banjo, Henry Ossawa Tanner]

[Domingo de manhã, Thomas Waterman Wood]

[O jogador de osso, William Sidney Mount]

[Domingo de manhã na Virgínia, Winslow Homer]

[Um enterro na plantação, John Antrobus]

[A lição de dança (Menino negro dançando), Thomas Eakins]

[A carroça de algodão, William Aiken Walker]

[General Juan Manuel de Rosas no candomblé, Martín Boneoan]

Galeria 3 - Mestiços


[Um homem mestiço e sua esposa índia, Miguel Cabrera]

[Mestiços, Peru, Artista desconhecido]

[Castas na América Colonial, Artista desconhecido]

[Redenção de Cam, Modesto Brocos. Avó negra, filha mulata, genro e neto brancos]

[Mulato, Albert Eckhout]

terça-feira, 29 de dezembro de 2015

O Novo Mundo, o Paraíso Terrestre

Mapa da América, 1561, do cartógrafo Sebastian Munster

O Novo Mundo. Lugar onde se encontraria o Paraíso Terrestre. Terra de riquezas incalculáveis e cidades com telhados de ouro. Lugar de liberdade habitado pelo "bom selvagem". Campo virgem para serem lançadas as verdades evangélicas e para ampliar o mundo cristão. Lugar onde os projetos de enriquecimento e de enobrecimento podiam ser realizados. Esses eram os sonhos que povoaram o pensamento de descobridores, conquistadores e colonos que vieram para a América.

E os indígenas americanos? Qual o sentido que deram para a chegada de seres tão estranhos? Poderiam ser aliados importantes contra os inimigos tradicionais? Eram os inimigos que deviam ser combatidos, expulsos, devorados? Seriam os deuses há muito anunciados pelas profecias e presságios? Cada povo indígena entendeu essa chegada inusitada de acordo com a sua cultura.

Para os historiadores, que olham esse evento já de certa distância, a chegada dos europeus ao continente americano marcou o início de uma nova era. Milhões de seres foram exterminados e escravizados. Povos inteiros deixaram de existir. Onde só havia a floresta, surgiram imensas plantações. O solo foi rasgado e perfurado para arrancar ouro, prata e diamantes. A Europa acumulou riquezas como nunca havia ocorrido antes.

PEDRO, Antonio. LIMA, Lizânias de Souza. História por eixos temáticos. São Paulo: FTD, 2002. p. 62.

sexta-feira, 18 de dezembro de 2015

Descobrimentos e Renascimento

Francisco Pizarro na ilha de Gallo, convidando seus soldados para cruzar a linha traçada no chão, se eles desejassem continuar sua expedição para o Peru, Juan B. Lepiani


A suposição de que a Terra era redonda e a necessidade de comprovação dessa hipótese através de uma viagem são um projeto tipicamente renascentista. [...]

Ao descobrir outras culturas, o homem do Renascimento hierarquizou-as: da civilização à barbárie. Nesse sentido, o humanista constitui-se a partir de uma vontade de domínio e poder sobre todos os povos do mundo.

Desenhar um mapa, construir o império, destruir outras culturas, impor a fé cristã, assinar obras de arte eram atitudes renascentistas.

A América - destruída e construída a partir do padrão europeu - transformava-se em lugar de comprovação da superioridade da cultura europeia. Era necessário construir uma igreja em cima de uma pirâmide indígena. Não podia ser ao lado.

A invenção da perspectiva na pintura é contemporânea às Grandes Navegações. Ao mesmo tempo em que o pintor estudava as possibilidades de criar a perfeição (reprodução) em seus desenhos, os cartógrafos procuravam mapear, com observância rigorosa, todo o globo terrestre. [...]

Os descobridores, ao realizarem sua obra de colonização construindo igrejas e outras edificações necessárias à conquista, e os artistas, pintando ou esculpindo na Europa, consideravam a existência de um único padrão de beleza, uma única religião verdadeira, uma cultura superior a todas as outras. Descobridores e artistas olhavam o mundo de um único ponto e a partir dele destruíam e construíam. [...]

O resultado desse grande esforço renascentista, dessa "plenitude", foi suporem possuir domínio sobre a vida e a morte das populações que consideravam bárbaras. A América conheceu a expressão mais violenta desse sonho de dominação.

Aqui, nesse Novo Mundo, grande parte da população foi morta por aqueles que necessitavam esculpir a sua cultura sobre as populações pré-colombianas. Não foram anos fáceis para a América. [...]

O colonizador, como se fosse um escultor, talhou a América na forma em que havia imaginado. Destruía pirâmides para construir igrejas, derrubava habitações para obter o desenho da praça ou o traçado desejado para as ruas, jogava pedras nos canais para que os cavalos pudessem circular melhor na cidade. Reconstruía-se tudo o que era possível para que o núcleo urbano lembrasse a Europa. [...]

Os indígenas aprendiam a pintar e a construir para que a América, cada dia mais, se apresentasse com as formas, as cores e a vida europeia. Uma multidão de artífices indígenas se esforçavam para imitar o desenho que viam em precárias reproduções trazidas pelos europeus.

Por todos esses motivos analisados, a harmonia presente nos quadros renascentistas transformava-se em desarmonia no Novo Mundo.

SILVA, Janice Theodoro da. Descobrimentos e Renascimento. São Paulo: Contexto, 1991. p. 56-58, 63-64.

quarta-feira, 14 de outubro de 2015

Iconografia: Praça das três culturas

Praça das Três Culturas, Cidade do México

A foto retrata uma paisagem da Cidade do México. Nela podemos observar uma combinação ilustrativa das trocas culturais que ocorreram entre os colonizadores espanhóis e a civilização asteca. Em primeiro plano vemos as ruínas de um templo asteca, mantidos como objetivos culturais e turísticos. Mais ao fundo, a igreja barroca de Santiago Tlatelolco, a qual atesta a religiosidade católica do passado e do presente. Essa religiosidade é marcada por fortes influências das crenças tradicionais dos povos indígenas, resultando no sincretismo religioso que caracteriza o catolicismo latino-americano. Ao fundo e à esquerda vemos prédios modernos, de muitos andares, símbolos da modernidade capitalista, que abala não só os estilos de vida tradicionais, mas também a religiosidade de raízes coloniais.

PEDRO, Antonio; LIMA, Lizânias de Souza. História por eixos temáticos. São Paulo: FTD, 2002. p. 63.

terça-feira, 11 de agosto de 2015

Tituba

Tituba e as crianças, Alfred Fredericks

Na América do Sul tinha sido caçada, lá na infância, e tinha sido vendida uma vez e outra e outra, e de dono em dono tinha ido parar na vila de Salem, na América do Norte.

Lá, naquele santuário puritano, a escrava Tituba servia na casa do reverendo Samuel Parris.

As filhas do reverendo a adoravam. Elas sonhavam acordadas quando Tituba contava contos de fantasmas ou lia os seus futuros numa clara de ovo. E no inverno de 1692, quando as meninas foram possuídas por Satã e se reviraram e uivavam, só Tituba conseguiu acalmá-las, e as acariciou e sussurrou contos para elas até que adormecessem em seu regaço.

Isso a condenou: era ela quem havia metido o inferno no virtuoso reino dos eleitos de Deus.

E a maga conta-contos foi atada ao cadafalso, em praça pública, e confessou.

Foi acusada de cozinhar bolos com receitas diabólicas e a açoitaram até que disse que sim.

Foi acusada de dançar nua nos festins das bruxas e a açoitaram até que disse que sim.

Foi acusada de dormir com Satanás e a açoitaram até que disse que sim.

E quando lhe disseram que suas cúmplices eram duas velhas que jamais iam à igreja, a acusada se transformou em acusadora e apontou com o dedo aquele par de endemoniadas e não foi mais açoitada.

E depois outras acusadas acusaram.

E a forca não parou de trabalhar.

GALEANO, Eduardo. Espelhos: uma história quase universal. Porto Alegre: L&PM, 2015. p. 137.

quinta-feira, 9 de abril de 2015

A questão indígena na América 5: As políticas de proteção aos indígenas

"Quem é quem aqui na América? Não será aqui porventura o berço onde há cinco séculos se engendra e se forja no sangue que se mescla e se mestiça, não apenas nas cores e tons dos corpos e dos olhos, mas na herança coletiva de suas almas e culturas, de seus arquétipos milenares, mitos, valores, crenças e rituais? Não será aqui o berço de um Novo Mundo, como um dia ele foi chamado? Não como um retorno ao passado indígena da nossa América, mas pela fusão de dois mundos que há um tempo não tão distante se chocaram; pelo resgate de valores e modelos de uma civilização indígena que não morreu, mas permanece como potencial vivo em meio das ruínas de tantas Tenochtitlans.

Porventura, não seria aqui, esta parte adormecida do mundo, o palco de um "Novo Renascimento", no qual os modelos não seriam mais Zeus, Apolo ou Afrodites, mas Quatzalcoatl, Huitzopochtli, Wuiracocha, Tonatzin e Sumé?

Que o anunciem do alto das pirâmides e cordilheiras os deuses-heróis e todos os morubixabas, com todas as quenas e muirakitãns.

Que o revelem, o canto das cachoeiras, o grito das araras e o farfalhar das palmas de buriti. Que todos possam escutar no rufar dos tambores, dos maracás e dos rituais da História, sintetizadores sonorizados cantando sons ancestrais.

Que possamos pressentir nos subterrâneos da Terra-mãe as raízes milenares de povos inacabáveis, sementes de uma humanidade renovada, senhora de um futuro que não podemos ainda perceber.

E que dê um toque de urucum em seu rosto mestiço e comece a ouvir uma canção cheyenne". (BARCELLOS, Maurílio Pereira. América indígena: 500 anos de resistência e conquista. São Paulo: Paulinas, 2002. p. 81-82.)

O discurso da "pacificação" e a defesa da aculturação dos indígenas fizeram parte de sucessivas políticas governamentais, até o início do século XX, quando a discussão sobre a situação do indígena no continente ganhou novos contornos. Intelectuais, movimentos políticos e sociais e as comunidades indígenas se manifestaram exigindo respostas dos governos a problemas que se arrastavam havia séculos.

Um evento que deu visibilidade a esse tipo de manifestação foi o XVI Congresso Internacional de Americanistas, realizado em 1908, em Viena, na Áustria, no qual foram denunciados massacres sistemáticos de indígenas no Brasil. Diante disso, o governo brasileiro se viu pressionado a implantar ações de assistência e proteção às populações indígenas. Para tanto, fundou o Serviço de Proteção ao Índio (SPI), em 1910, órgão cuja incumbência era evitar o extermínio dos povos indígenas e solucionar os conflitos.


Cândido Rondon com índios Paresi. Imagem do documentário do Major Thomaz. Sem data.

A direção desse organismo foi assumida por Cândido Mariano da Silva Rondon (1865-1958). Militar adepto das ideias positivistas, Rondon havia se destacado pelo sucesso na instalação de redes telegráficas no centro-oeste do país, durante a qual estabelecera contato com diversos povos indígenas considerados hostis, pondo em prática medidas assistencialistas e declarando-os "pacificados". O SPI atuou de forma semelhante, prestando assistência médica, instalando escolas e procurando demarcar terras a fim de minimizar os conflitos. Esse organismo foi extinto em 1967 e deu lugar à Fundação Nacional do Índio (Funai), até hoje atuante.

O Peru também assumiu, oficialmente, uma política de proteção aos indígenas nas primeiras décadas do século XX. Em 1920, a fundação do Comitê Central Pró-Direitos Indígenas e a promulgação de uma Constituição nacional na qual se reconheciam as terras indígenas representaram conquistas importantes para os povos que constituem esse país.

Os Estados Unidos, por sua vez, tornaram-se referência, nesse mesmo período, ao criar leis que favoreciam a autonomia das comunidades indígenas. Em 1934, o governo decretou a Lei de Reorganização Indígena, que incentivava as comunidades a escrever suas constituições e a se autogovernar, ainda que devessem se subordinar a um organismo federal, o Burô de Assuntos Indígenas. Essa medida contribuiu para conferir legitimidade às tradições e aos costumes indígenas.

Em 1940, foi realizado no México o Primeiro Congresso Indigenista Interamericano, que teve o papel de propor diretrizes e princípios norteadores para as ações governamentais voltadas aos indígenas. Tais princípios passaram a ser seguidos por governos de diversos países latino-americanos e orientaram a fundação de alguns institutos indigenistas, como o da Bolívia, em 1941, e o do México, em 1948.

Apesar dessas iniciativas, a proteção aos indígenas, até então, estava vinculada à ideia de aculturação, de acordo com a qual os indígenas deveriam ser educados nos moldes "civilizados" e inseridos no mercado de trabalho, ainda que isso conduzisse ao abandono gradual de suas tradições.

É consideravelmente recente a concepção de que a organização social, a cultura e os distintos modos de vida dos povos indígenas devem ser reconhecidos e respeitados, não cabendo à sociedade envolvente transformá-los ou moldá-los segundo valores que não fazem parte de sua identidade. Em todo o continente, atualmente, há organizações de povos indígenas que lutam por seus direitos, discutem os problemas e as possíveis soluções para garantir a melhora da qualidade de vida e a sobrevivência das novas gerações. (NAPOLITANO, Marcos; VILLAÇA, Mariana. História para o ensino médio: volume 2. São Paulo: Saraiva, 2013. p. 217-218)

Referências:

BARCELLOS, Maurílio Pereira. América indígena: 500 anos de resistência e conquista. São Paulo: Paulinas, 2001. p. 81-82.
NAPOLITANO, Marcos; VILLAÇA, Mariana. História para o ensino médio: volume 2. São Paulo: Saraiva, 2013. p. 217-218.