"Os espelhos estão cheios de gente.
Os invisíveis nos vêem.
Os esquecidos se lembram de nós.
Quando nos vemos, os vemos.
Quando nos vamos, se vão?"
Eduardo Galeano: Espelhos
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terça-feira, 28 de fevereiro de 2017

Família

Dança da águia do povo Choctaw, George Catlin

Como se sabe na África negra e na América indígena, a sua família é a sua aldeia completa, com todos os seus vivos e os seus mortos.

E a sua parentela não termina nos humanos.

Sua família também fala com você na crepitação do fogo,
     nos rumos da água que corre,
     na respiração do bosque,
     nas vozes do vento,
     na fúria do trovão,
     na chuva que beija
     e na cantoria dos pássaros que saúdam os seus passos.

GALEANO, Eduardo. Os filhos dos dias. Porto Alegre: L&PM, 2012. p. 257.

sábado, 31 de dezembro de 2016

Somos de música

Retrato de Boabdil, último rei da Espanha muçulmana, século XV. Artista desconhecido


     Quando apuro o ouvido,
escuto músicas que vêm de muito longe,
do passado,
de outros tempos,
de horas que já não são
e de vidas que já não estão.

     Quem sabe as vidas nossas
estejam feitas de música.

     No dia da ressurreição,
meus olhos se abrirão novamente em Sevilha.

(De Boabdil, último rei da Espanha muçulmana)

GALEANO, Eduardo. Os filhos dos dias. Porto Alegre: L&PM, 2012. p. 408.

domingo, 25 de dezembro de 2016

Um pai que não ri nunca

Deus pai, Ludovico Mazzolino

Os judeus, os cristãos e os muçulmanos veneram a mesma divindade. É o deus da Bíblia, que responde a três nomes, Yahvé, Deus e Alá, conforme quem o invoque. Os judeus, os cristãos e os muçulmanos matam-se entre si dizendo que obedecem às suas ordens.

Entre as outras religiões, os deuses são ou foram muitos. Numerosos olimpos existiram na Grécia, na Índia, no México, no Peru, no Japão, na China. E ainda assim, o Deus da Bíblia é ciumento. Ciumento de quem? Por que se preocupa tanto com a competência, se Ele é o único e o verdadeiro?

Não te prostrarás diante de nenhum outro deus, pois Yahvé se chama Ciumento, é um deus ciumento. (Êxodo)

Por que castiga nos filhos, e por várias gerações, a infidelidade dos pais?

Eu, Yahvé, teu Deus, castigo a iniquidade dos pais nos filhos até a terceira e a quarta geração dos que me odeiam. (Êxodo)

Por que está sempre tão inseguro? Por que desconfia tanto de seus devotos? Por que necessita ameaçá-los para que o obedeçam? Falando ao vivo e diretamente, ou pela boca dos profetas, adverte:

Se não obedeces à voz de Yahvé, teu Deus, ele te ferirá de tísica, de febre, de inflamação, de gangrena, de aridez. Esposarás uma mulher; e outro homem a fará dele. Pó e areia serão a chuva da tua terra. Semearás em teus campos muita semente, mas a secará o gafanhoto. Plantarás vinhedos, mas não beberás vinho, porque os vermes os devorarão. Vos oferecereis à venda a vossos inimigos como escravos e escravas, mas não haverá comprador. (Deuteronômio)

Durante seis dias se trabalhará, mas o sétimo será sagrado para vós, dia de descanso completo em louvor a Yahvé. Qualquer um que trabalha nesse dia morrerá. (Êxodo)

Aquele que blasfemar o nome de Yahvé será morto. A comunidade inteira o apedrejará. (Levítico)

Mais eficazes são os castigos que as recompensas. A Bíblia é um catálogo de espantosos castigos contra os incrédulos:

Soltarei contra vós as feras selvagens. Vos açoitarei sete vezes mais pelos vossos pecados. Comereis a carne de vossos filhos, comereis a carne de vossas filhas. Desembanharei a espada contra vós. Vossa terra será sempre um ermo e vossas cidades uma ruína. (Levítico)

Esse Deus sempre zangado domina o mundo do nosso tempo através de suas três religiões. Não é lá um Deus muito amável, digamos:

Deus ciumento e vingador, Yahvé, rico em ira! Se vinga de seus adversários, guarda rancor de seus inimigos. (Nahum)

Seus dez mandamentos não proíbem a guerra. Ao contrário: Ele manda fazer a guerra. E a sua é uma guerra sem piedade por ninguém, nem mesmo pelos bebês:

Não tenhas compaixão pelo povo de Amalec. Matarás homens e mulheres, crianças e lactantes, bois e ovelhas, camelos e asnos... (Samuel)

Filha de Babel, devastadora: feliz aquele que agarrar teus pequenos e os despedaçar contra as rochas! (Salmos)

GALEANO, Eduardo. Espelhos: uma história quase universal. Porto Alegre: L&PM, 2015. p. 62-4.

sexta-feira, 23 de dezembro de 2016

A história que poderia ter sido

Desembarque de Colombo, John Vanderlyn

Cristóvão Colombo não conseguiu descobrir a América, porque não tinha visto e muito menos passaporte.

Pedro Álvares Cabral foi proibido de desembarcar no Brasil, porque podia contagiar de varíola, de sarampo, de gripe e outras pestes desconhecidas no país.

Hernan Cortez e Francisco Pizarro ficaram na vontade de conquistar o México e o Peru, porque não tinham licença para trabalhar.

Pedro de Alvarado bateu na Guatemala e voltou, sem entrar, e Pedro de Valdívia não conseguiu pisar terra do Chile porque não tinham atestado policial de nada-consta.

Os peregrinos do Mayflower foram devolvidos ao mar, porque na costa de Massachusetts não havia vagas de imigração disponíveis.

GALEANO, Eduardo. Bocas do tempo. Porto Alegre: L&PM, 2004. p. 214.

quarta-feira, 21 de dezembro de 2016

Emma Goldman

Emma Goldman discursando para uma multidão em Union Square, Nova York, 21/05/1916. Fotógrafo desconhecido

No final de 1919, duzentos e cinquenta estrangeiros indesejáveis partiram do porto de Nova York, com a proibição de regressar aos Estados Unidos.

Entre eles, foi para o exílio Emma Goldman, estrangeira de alta periculosidade, que havia estado presa várias vezes por se opor ao serviço militar obrigatório, por difundir métodos anticoncepcionais, por organizar greves e por outros atentados contra a segurança nacional.

Algumas frases de Emma:

A prostituição é o mais alto triunfo do puritanismo.

Haverá por acaso algo mais terrível, mais criminoso, que nossa glorificada e sagrada função da maternidade?

O Reino dos Céus deve ser um lugar terrivelmente aborrecido se os pobres de espírito viverem lá.

Se o voto mudasse alguma coisa, seria ilegal.

Cada sociedade tem os delinquentes que merece.

Todas as guerras são guerras entre ladrões demasiado covardes para lutar, que mandam outros morrer por eles.

GALEANO, Eduardo. Os filhos dos dias. Porto Alegre: L&PM, 2012. p. 397.

terça-feira, 13 de dezembro de 2016

Obrigado, senhor

A construção da Torre de Babel, Pieter Bruegel, o jovem

Na Babilônia, a cidade maldita, que segundo a Bíblia foi puta e mãe de putas, estava sendo erguida aquela torre que era um pecado da arrogância humana.

E o raio da ira não tardou: Deus condenou os construtores a falar línguas diferentes, para que nunca mais ninguém pudesse se entender com ninguém, e a torre ficou para sempre pela metade.

Segundo os antigos hebreus, a diversidade das línguas humanas foi um castigo divino.

Mas talvez, querendo castigar-nos, Deus nos tenha feito o favor de salvar-nos da chatice da língua única.

GALEANO, Eduardo. Espelhos: uma história quase universal. Porto Alegre: L&PM, 2015. p. 38.

sábado, 14 de maio de 2016

As idades de Touro Sentado - Tȟatȟáŋka Íyotake

Touro Sentado, ca. 1881. 
Fotógrafo: Orlando Scott Goff

Aos trinta e dois anos, batismo de fogo. Touro Sentado defende sua gente diante de um ataque das tropas inimigas.

Aos trinta e seis, sua nação indígena o elege chefe.

Aos quarenta e um, Touro Sentado senta-se. Em plena batalha, nas margens do rio Yellowstone, caminha até os soldados que disparam e senta-se no chão. Acende seu cachimbo. Zunem as balas, feito vespas. Ele, imóvel, fuma.

Aos quarenta e três, fica sabendo que os brancos encontraram ouro nas Black Hills, em terras reservadas aos índios, e começaram a invasão.

Aos quarenta e quatro, durante uma longa dança ritual, tem uma visão: milhares de soldados caem do céu feito gafanhotos. Naquela noite, um sonho anuncia: Tua gente derrotará o inimigo.

Aos quarenta e cinco, sua gente derrota o inimigo. Os sioux e os cheyennes, unidos, dão uma tremenda coça no general George Custer com todos os seus soldados.

Aos cinquenta e dois, após alguns anos de exílio e cadeia, aceita ler um discurso de homenagem ao trem do Pacífico Norte, que terminara a construção de suas vias. No final do discurso, põe os papéis de lado e, encarando o público, diz:

- Os brancos são todos ladrões e mentirosos.

O intérprete traduz:

- Nós agradecemos a Civilização.

O público aplaude.

Aos cinquenta e quatro, trabalha no show de Búfalo Bill. Na arena do circo, Touro Sentado representa Touro Sentado. Hollywood ainda não é Hollywood, mas a tragédia já se repete como espetáculo.

Aos cinquenta e cinco, um sonho anuncia a ele: Tua gente vai te matar.

Aos cinquenta e nove, sua gente o mata. Índios que vestem uniforme de policial trazem uma ordem de prisão. No tiroteio, ele cai.

GALEANO, Eduardo. Espelhos: uma história quase universal. Porto Alegre: L&PM, 2015. p. 228.

terça-feira, 3 de maio de 2016

Pregões do mercado em Santiago do Chile

A rainha do mercado, Rugendas

- Cravo e canela, para a moça mais bela!
- Suspiiiiroos!
- Lindos botões, um real a fieira!
- Broiiiinhas!
- Correias, correias para selas, maciinhas feito luva!
- Uma esmola pelo amor de Deus!
- Carne de boi!
- Uma esmolinha para um pobre cego!
- Vassoooouras! Tá acabando!
- Fumo de rolo! Fumo de rolo!
- Medalhas milagrosas, vai uma ou vão dez!
- Olha a pomada negra, olha a pomada negra!
- Facão pra segurança do cidadão!
- Olha que brilho!
- Quem vai levar este laço?
- Olha o pão!
- Um chocalhinho, é o último!
- Melâncias do céu!
- Olha o pão amassado só por mão de mulher!
- Melanciiiiias!
- Olha o pão, olha o pão! Quentiiiinho!

GALEANO, Eduardo. Memória do fogo: As caras e as máscaras. Porto Alegre: L&PM, 2013. p. 423-4.

quinta-feira, 28 de abril de 2016

A herança negada

No Alhambra, Rudolf Ernst


Uma noite, em Madri, perguntei ao taxista:

- O que os mouros trouxeram para a Espanha?

- Problemas - respondeu ele, sem um instante de dúvida ou de vacilação.

Os chamados mouros eram espanhóis de cultura islâmica, que na Espanha tinham vivido durante oito séculos, trinta e duas gerações, e ali haviam brilhado como em nenhum outro lugar.

Muitos espanhóis ignoram, até hoje, os resplendores que aquelas luzes deixaram. A herança muçulmana inclui, entre outras coisas:

* a tolerância religiosa, que sucumbiu nas mãos dos reis católicos;
* os moinhos de vento, os jardins e os canais que até hoje dão de beber a várias cidades e irrigam seus campos;
* o serviço público de correios;
* o vinagre, a mostarda, o açafrão, a canela, o cominho, o açúcar de cana, os churros, as almôndegas, as frutas secas;
* o jogo de xadrez;
* a cifra zero e os números que usamos;
* a álgebra e a trigonometria;
* as obras clássicas de Anaxágoras, Ptolomeu, Platão, Aristóteles, Euclides, Arquimedes, Hipócrates, Galeno e outros autores, que graças às suas versões árabes foram difundidas na Espanha e na Europa;
* as quatro mil palavras árabes que integram a língua castelhana;
* e várias cidades de prodigiosa beleza, como Granada, que uma quadrinha anônima cantou assim:

Dá-lhe esmola, mulher,
que na vida não há nada
como a dor de ser
cego em Granada.

GALEANO, Eduardo. Espelhos: uma história quase universal. Porto Alegre: L&PM, 2015. p. 110.

quinta-feira, 10 de março de 2016

Bosch

O jardim das delícias terrenas (detalhe), Hieronymus Bosch

Um condenado caga moedas de ouro.
Outro pende de uma chave imensa.
A faca tem orelhas.
A harpa toca o músico.
O fogo gela.
O porco veste touca de freira.
No ovo, habita a morte.
As máquinas manejam as pessoas.
Cada um na sua.
Cada louco com sua mania.
Ninguém se encontra com ninguém.
Todos correm para lugar nenhum.
Não têm nada em comum, exceto o medo mútuo.

- Há cinco séculos, Hieronymus Bosch pintou a globalização - comenta John Berger.

GALEANO, Eduardo. Espelhos: uma história quase universal. Porto Alegre: L&PM, 2015. p. 100-101.

sexta-feira, 1 de janeiro de 2016

Janeiro, 1, Hoje

Janeiro. Très Riches Heures du duc de Berry, 
ca. 1412-1416, Irmãos Limbourg

▬╡ஐ Janeiro, I, Hoje ╞▬


Hoje não é o primeiro dia do ano para os maias, os judeus, os árabes, os chineses e outros muitos habitantes desde mundo.

A data foi inventada em Roma, a Roma imperial, e abençoada pela Roma vaticana, e acaba sendo um exagero dizer que a humanidade inteira celebra esse cruzar da fronteira dos anos.

Mas uma coisa, sim, é preciso reconhecer: o tempo é bastante amável com a gente, seus passageiros fugazes, e nos dá permissão para crer que hoje pode ser o primeiro dos dias, e para querer que seja alegre como as cores de uma quitanda.

GALEANO, Eduardo. Os filhos dos dias. Porto Alegre: L&PM, 2012. p. 15.

segunda-feira, 21 de dezembro de 2015

Paris, primavera de 1832

Barricadas na rua Soufflot em 24 de junho de 1848, Horace Vernet

"[...] O que vamos contar, podemos dizer: vimo-lo. Mudaremos alguns nomes porque a História conta e não denuncia; mas pintaremos coisas verdadeiras.

[...] Paris, na primavera de 1832 [...] estava havia muito preparada para uma comoção. Como já temos dito, a grande cidade assemelha-se a uma peça de artilharia; quando está carregada, basta que de qualquer parte caia uma faísca para que ela dispare. Em julho de 1832, a faísca foi a morte do general Lamarque.

A sua morte, já esperada, era temida pelo povo como uma perda e pelo governo como uma ocasião propícia. Aquela morte foi um luto. O luto, como tudo o que é amargo, pode tornar-se revolta. Foi o que sucedeu.

[...] A 5 de junho, pois, dia entremeado de chuva e de sol, atravessou Paris o cortejo fúnebre do general Lamarque, com a pompa militar oficial, um tanto aumentada por precaução. Dois batalhões [...], dez mil homens da guarda nacional e as suas baterias de artilharia escoltavam o funeral. O coche ia puxado por moços. Logo atrás, iam os oficiais [...]. Depois ia a multidão inumerável, agitada, desconhecida [...], as escolas de direito e de medicina, os refugiados de todas as nações [...], rapazes agitando ramos verdes, canteiros e carpinteiros que não tinham trabalho, impressores [...] soltando gritos, quase todos agitando paus e alguns brandindo espadas. [...] Nas janelas, em cima dos telhados, era prodigiosa a quantidade de cabeças de homens, de mulheres e de crianças, com a aflição nos olhos. Era uma multidão assustada, vendo passar uma multidão armada.

O governo pela sua parte observava tudo. [...] O poder, inquieto, tinha suspensos sobre a multidão ameaçadora vinte e quatro mil soldados na cidade e trinta mil nos arredores.

[...] Os dragões avançavam passo a passo, silenciosos com as pistolas nos coldres, as espadas nas bainhas, as carabinas nos arções e com ar de sombria expectativa. A duzentos passos da ponte pequena fizeram alto. [...] Neste momento tocavam-se os dragões e a multidão. As mulheres fugiam cheias de terror.

O que ocorreria naquele minuto fatal? Ninguém poderia dizê-lo. Era o momento tenebroso do encontro de duas nuvens. [...] Foram inesperadamente disparados três tiros. [...] E de repente viu-se um esquadrão de dragões desembocar, a galope e de espadas em punho, varrendo o que achava no caminho.

Então acabaram-se as hesitações, a tempestade desencadeia-se, chovem as pedras, sucedem-se as descargas de fuzilaria, muita gente precipita-se para a base da encosta [...]. Os carabineiros avançam, os dragões acutilam, a multidão dispersa-se em todas as direções, o rumor de guerra repercute nos quatro ângulos de Paris. Todos gritam: Às armas! Correm, caem, fogem, resistem. [...]

Não há coisa alguma mais extraordinária do que o primeiro movimento de uma revolta. Tudo explode ao mesmo tempo e em toda a parte. Era coisa prevista? Era. Estava preparada? Não. De onde saiu aquilo? Das ruas. [...]

Não tinha ainda passado um quarto de hora e repetia-se ao mesmo tempo, em vinte pontos de Paris. [...] Nas margens direita e esquerda, nos cais, nas ruas e avenidas viam-se homens, afogueados, operários, estudantes, lendo proclamações e gritando às armas, quebrando lampiões, desaparelhando os veículos, descalçando as ruas, arrombando as portas das casas, arrancando as árvores, entrando nas adegas e rolando para fora as pipas, amontoando as pedras da calçada, lajes, tábuas e fazendo barricadas."

HUGO, Victor (1802-1885). Os miseráveis. 1862. São Paulo: Edigraf, 1957. 4ª parte, livro 10º , cap. II-IV. p. 673-8.

domingo, 18 de outubro de 2015

O Guarani, um cavaleiro romântico nas florestas brasileiras

Cabeça de índio, Henrique Bernardelli

"Guerreiro branco, Peri, primeiro de sua tribo, filho de Ararê, da nação goitacá, forte na guerra, te oferece o seu arco, tu és amigo."

O índio terminou aqui a sua narração.

Enquanto falava, um assomo do orgulho selvagem da força e da coragem lhe brilhava nos olhos negros, e dava certa nobreza ao seu gesto. Embora ignorante, filho das florestas, era um rei, tinha a realeza da força.

Apenas concluiu , a altivez do guerreiro desapareceu, ficou tímido e modesto, já não era mais do que um bárbaro em face de criaturas civilizadas, cuja superioridade de educação o seu instinto reconhecia.

D. Antônio o ouvia sorrindo-se do seu estilo ora figurado, ora tão singelo como as primeiras frases que balbucia a criança aos peitos maternos. [...]

[...]

- Se a senhora manda, disse enfim, Peri fica.

Cecília, apenas seu pai lhe traduziu a resposta do índio, riu-se daquela cega obediência; mas era mulher; um átomo de vaidade dormia no fundo do seu coração de moça.

Ver aquela alma selvagem, livre como as aves que planavam no ar, ou como os rios que corriam na várzea; aquela natureza forte e vigorosa que fazia prodígios de força e coragem; aquela vontade indomável como a torrente que se precipita do alto da serra; prostrar-se aos seus pés submissa, vencida, escrava!

[...]

- Peri!... exclamou Álvaro.
- Não te zangues, disse o índio com doçura; Peri te ama, porque tu fazes a senhora sorrir. A cana quando está à beira d'água, fica verde e alegre; quando o vento passa, as folhas dizem Ce-ci. Tu és o rio; Peri é o vento que passa docemente para não abafar o murmúrio da corrente; é o vento que curva as folhas até tocarem n'água.

Álvaro fitou no índio um olhar admirado. Onde é que este selvagem sem cultura aprendera a poesia simples, mas graciosa; onde bebera a delicadeza de sensibilidade que dificilmente se encontra num coração gasto pelo atrito da sociedade?

A cena que se desenrolava a seus olhos respondeu-lhe; a natureza brasileira, tão rica e brilhante, era a imagem que reproduzia aquele espírito virgem, como o espelho das águas reflete o azul do céu.

[...]

Não é isso a poesia? O homem que nasceu, embalou-se e cresceu nesse berço perfumado; no meio de cenas tão diversas, entre o eterno contraste do sorriso e da lágrima, da flor e do espinho, do mel e do veneno, não é um poeta?

Poeta primitivo, canta a natureza na mesma linguagem da natureza; ignorante do que se passa nele, vai procurar nas imagens que tem diante dos olhos a expressão do sentimento vago e confuso que lhe agita a alma.

[...]

Fitando então no seu amigo os lindos olhos azuis disse com o tom grave e lento que revela um pensamento profundamente refletido e uma resolução inabalável:

- Peri não pode viver junto de sua irmã na cidade dos brancos; sua irmã fica com ele no deserto, no meio das florestas.

Era essa a ideia que ele há pouco acariciava no seu espírito, e para a qual tinha invocado a graça divina.

[...]

Mas qual era o laço que a prendia ao mundo civilizado? Não era ela quase uma filha desses campos, criada com o seu ar puro e livre, com as suas águas cristalinas?

[...]

Peri tinha abandonado tudo por ela; seu passado, seu presente, seu futuro, sua ambição, sua vida, sua religião mesmo; tudo era ela, e unicamente ela; não havia pois que hesitar.

Depois Cecília tinha ainda um pensamento que lhe sorria: queria abrir ao seu amigo o céu que ela entrevia na sua fé cristã; queria dar-lhe um lugar perto dela na mansão dos justos, aos pés do trono celeste do Criador.

ALENCAR, José de. O Guarani. São Paulo: FTD, 1999. p. 147, 158, 176, 177, 421-423.

segunda-feira, 24 de agosto de 2015

Pompeia, 24 de agosto de 79

Pompeia, 24 A.D., Alfred Elmore

Era o dia do deus romano do fogo

E era o ano de 79


Plínio, o Velho, navegava comandando uma frota romana.

Ao entrar na baía de Nápoles, viu que uma fumaça negra vinha crescendo do vulcão Vesúvio, uma árvore alta que abria sua ramagem na direção do céu, e de repente caiu a noite em pleno dia, o mundo tremeu em violentas sacudidelas e um bombardeio de pedras de fogo sepultou a festeira cidade de Pompeia.

O último dia de Pompeia, Karl Brullov

Pouco antes, o fogo havia arrasado a cidade de Lugdunum, e Sêneca havia escrito:

Houve apenas uma noite entre a maior cidade e cidade alguma.

Lugdunum ressuscitou, e agora se chama Lyon. E Pompeia não desapareceu: intacta debaixo das cinzas foi guardada pelo vulcão que a matou.

GALEANO, Eduardo. Os filhos dos dias. Porto Alegre: L&PM, 2012. p. 270.

sábado, 6 de junho de 2015

Fundación de los días

Calendario romano

Cuando Irak era Sumeria, el tiempo tuvo semanas, las semanas tuvieron días y los días tuvieron nombres.

Los sacerdotes dibujaron los primeros mapas celestes e bautizaron los astros, las constelaciones y los días.

Hemos heredado sus nombres, que fueron pasando, de lengua en lengua, del sumerio al babilonio al griego, del griego al latin, y así.

Ellos habían llamado dioses a las siete estrellas que se movían en el cielo, y dioses seguimos llamando, miles de años después, a los siete días que se mueven en el tiempo. Los días de la semana siguen respondiendo, con ligeras variantes, a sus nombres originales: Luna, Marte, Mercúrio, Júpiter, Venus, Saturno, Sol. Lunes, martes, miércoles, jueves…


GALEANO, Eduardo. Espejos: una historia casi universal. Buenos Aires: Siglo XXI Editores & Siglo XXI Iberoamericana, 2008. p. 10.

terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

História e ficção ou a realidade aos sonhos

O poeta Anacreon com suas Musas, Norbert Schrödl

[...] a história e a literatura tiveram uma origem comum nos primórdios remotos da própria linguagem, quando o xamã das comunidades fazia vibrar, com seu canto dançado, toda a memória mítica tribal, armazenada em unidades rítmicas, evocada e revivida em espetaculares coreografias coletivas. O modo pelo qual esse amálgama original vai aos poucos se diferenciando, se decompondo em formas autônomas, pode ser vislumbrado já na evolução das Musas da mitologia grega. De divindades inicialmente associadas à inspiração divina, passaram, depois, a ser sucessivamente identificadas com a memória, a música e a poesia. Só bem mais tarde vieram a ser, cada qual dessas nove divindades, assimiladas a formas artísticas particulares. Desde esse momento, a separação dos modos de elaboração das linguagens se tornou como que um vício crescente da nossa cultura, em consonância com a contínua diferenciação e segregação dentre os grupos de homens no interior da sociedade.

Calíope ensinando Orfeu, Alexandre-Auguste Hirsch
(Musa da Poesia Épica)

Já o próprio Aristóteles, na sua Poética, ressaltava a importância desse desmembramento das formas comunicativas, nele introduzindo entretanto uma notável originalidade, emanada do advento perturbador do discurso leigo na cultura. Afirma ali o filósofo: "Com efeito, não diferem o historiador e o poeta por escreverem verso ou prosa (pois que bem poderiam ser postas em verso as obras de Heródoto, e nem por isso deixariam de ser de história, se fossem em verso o que eram em prosa) - diferem, sim, em que diz um as coisas que sucederam, e o outro as que poderiam suceder".

A Musa Clio, Pierre Mignard
(Musa da História)

[...] Anteriormente, na cultura presidida pelas Musas, o padrão de fundo, envolvendo todas as linguagens, era o mito. Ele tornava toda narrativa histórica numa reedição circular das condições postas nas origens e toda narrativa ficcional num enredo enleado com os temas eternos da mitologia. Sua lei, a da cultura subordinada às Musas, era a da eterna repetição, da imaginação engastada no ritmo, do enlevo pela sedução mística da música, viesse ela da lira de Apolo ou dos tambores e flautas de Dionísio. "Sua voz incansável flui de suas bocas (de Musas) em entonações prazerosas, e essa harmonia enfeitiçadora, na medida em que se difunde, leva sorrisos ao palácio de seu pai (Zeus)...", reza a tradição. O próprio tempo obedecia à cadência irresistível dessa música e a marcha dos eventos se compunha dos desdobramentos contínuos, repetitivos, dessa pulsação cósmica. É por isso que essas deusas cantantes "sabiam tudo o que é, o que foi e o que será..."

Erato e sua lira, John William Godward
(Musa da Poesia Erótica)

Com o advento da cultura leiga, torna-se impossível, justamente, "saber tudo o que é, o que foi e o que será". Em compensação, abre-se uma área virgem na imaginação, onde os homens podem especular sobre o que poderia ter sido. Esse é o privilégio exponencial da literatura em chave leiga, assim como a irredutibilidade das contingências é o preço pago para a instauração da narrativa histórica, como uma prática regida por esse mesmo diapasão leigo. Pode-se dizer que, ao se separarem, uma ficou presa no labirinto do aleatório e a outra se safou liberta, levando nas mãos todas as chaves de portas que não existem.

As Musas: Clio, Euterpe e Thalia, Eustache Le Sueu
(Clio, Musa da História, Euterpe, Musa da Poesia Lírica e Thalia, Musa da Comédia)

Postas assim as coisas, contudo - ao contrário da conclusão a que nos podem induzir as aparências -, a história e a ficção, mais do que definirem diferentes modalidades da linguagem, estabelecem antes diferentes moralidades do discurso. Isso devido ao ativismo ético que se tornou a quintessência das culturas gnósticas, como a nossa, essa compulsão para a ação como recurso compensatório para o desencantamento do mundo e a disciplinação do corpo para o trabalho. Kafka percebeu com cristalina clareza o desequilíbrio desse dilema moral da nossa cultura. "Ninguém se pode dar por satisfeito com o Conhecimento puro e simples, antes devendo esforçar-se por agir de acordo com ele; e como a força para tanto não lhe é de igual modo fornecida, vê-se a criatura na contingência de consumir-se, arriscando-se a mesmo assim não obter a força necessária, conquanto não lhe reste senão essa possibilidade..."

As Musas Melpomene, Erato e Polyhymnia, Eustache Le Sueur
(Melpomene, Musa da Tragédia, Erato, Musa da Poesia Erótica e Polyhymnia, Musa da Poesia Sacra e Geometria)

Há em particular uma parábola de Jorge Luis Borges, denominada "História dos Dois Que Sonharam", que procura ilustrar essas diferentes moralidades, fazendo-as reverberar em sentidos opostos, no âmago de um contexto gnóstico espesso. A ambiguidade se manifesta já nas raízes da narrativa, Borges a atribui como transcrição literal ao historiador árabe El Ixaqui, mas indica ao mesmo tempo que ela provém de uma fonte ficcional, o livro das Mil e uma Noites, no qual ela seria, o que é naturalmente falso, a história correspondente à 351ª noite.

Polyhymnia, Charles Meynier
(Musa da Eloquência)

Trata-se da estranha história de um homem pio e generoso, chamado El Magrebi, que vivia no Cairo. El Magrebi era muito rico, mas também benevolente, o que lhe consumiu toda a fortuna, exceto a casa que herdara do pai. Sonhou então uma noite com um homem gordo, que tirando uma moeda de ouro da boca lhe falou que sua fortuna estaria na cidade de Isfajan, na Pérsia. Acatando a determinação do sonho, El Magrebi enfrentou mil dificuldades e riscos, até chegar à distante Isfajan. Chegou tão exausto que caiu em sono profundo no pátio de uma mesquita. Naquela noite um bando de ladrões atravessou a mesquita para roubar uma casa ao lado. Afugentados pelos moradores e pela polícia noturna porém, eles fugiram passando de novo pela mesquita, onde a polícia encontrou o pobre El Magrebi.

Terpsichore, Giovanni Baglione
(Musa da Dança e do Canto)

Sendo a polícia incapaz de provar sua culpa ou ele incapaz de provar sua inocência, foi espancado quase até a morte, ficando desfalecido por dois dias. Quando acordou, o capitão de polícia lhe perguntou quem era e o que fazia na cidade. Ele contou a história do sonho. O capitão riu até se dobrar e depois lhe disse: "Homem desatinado e ingênuo, três vezes eu sonhei com uma casa na cidade do Cairo e cujo fundo existe um jardim e no jardim um relógio de sol e depois do relógio uma figueira e depois da figueira uma fonte, e debaixo da fonte um tesouro. Não dei o menor crédito a essa mentira. Tu entretanto, filho de uma mula com um demônio, erraste de cidade em cidade guiado apenas pela fé em teu sonho. Que eu não volte a te ver em Isfajan. Toma essas moedas e vai-te".

Thalia, Giovanni Baglione
(Musa da Comédia)

El Magrebi voltou ao Cairo e sob a fonte no jardim da sua casa, que aparecera no sonho do capitão, encontrou o tesouro anunciado, Pode parecer impróprio que a história pessoal de um único homem, que não interferiu no destino dos povos, seja o assunto de um historiador. Mas toda narrativa é atravessada por uma intenção moral. No caso desta, tanto a moralidade da ficção quanto a da historiografia ficam expostas. El Magrebi, o sonhador obstinado, se parece com o fantasma inocente do literato, enquanto o capitão, que ri dos sonhos dos outros e dos seus próprias, insinua as feições do espectro cínico do historiador. Se reparamos, Borges os neutraliza porque é filho dos dois, suas histórias não têm heróis.

Apolo, Deus da Luz, da Eloquência, Poesia e Artes com Urania, Charles Meynier
(Urania, Musa da Astronomia e Astrologia)

Nicolau Sevcenko. História e ficção ou a realidade aos sonhos. In: YASBEK, Mustafa (Org.). Ecos do tempo: histórias da história. São Paulo: Clube do Livro, 1988. p. 149-153.

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

Noches de harén

Odalisca, Henri Matisse

La escritora Fátima Mernissi vio, en los museos de Paris, las odaliscas turcas pintadas por Henri Matisse.

Eran carne de harén: voluptuosas, indolentes, obedientes.

Fátima miró las feschas de los cuadros, comparó, comprobó: mientras Matisse las pintada así, en los años veinte y treienta, las mujeres turcas se hacían ciudadanas, entraban en la Universidad y en el Parlamento, conquistaban el divorcio y se arrancaban el velo.

El harén, prisión de mujeres, habia sido prohibido en Turquia, pero no en la imaginación europea. Los vistuosos caballeros, monógomos en la vigilia y poligamos en el sueño, tenian entrada libre a ese exótico paraíso, donde las hembras, bobas, mudas, estaban encantadas de dar placer al macho carcelero. Cualquer mediocre burócrata cerraba los ojos y en el acto se convertia en un poderoso califa, acariciado por una multitud de vírgenes desnudas que, ballando la danza del vientre, suplicaban la gracia de una noche junto a su dueño y señor.

Fátima habia nacido y crecido en un harén.

GALEANO, Eduardo. Espejos: una historia casi universal. Buenos Aires: Siglo XXI Editores & Siglo XXI Iberoamericana, 2008. p. 261-262.

NOTA: O texto "Noches de harén" não representa, necessariamente, o pensamento deste blog. Foi publicado com o objetivo de refletirmos sobre a construção do conhecimento histórico.

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

Fundación de la taberna

Taberna, Eduard Munch

Cuando Irak era Babilonia, manos femeninas se ocupaban de la mesa:

Que la cerveza nunca falte,
la casa sea rica en sopas
y el pan abunde.

En los palacios y en los templos, el chef era hombre. Pero en la casa, no. La mujer hacia las diversas cervezas, dulce, fina, blanca, rubla, negra, añeja, y también las sopas y los panes. Y lo que sobraba, se oferecia a los vecinos.

Con el paso del tiempo, algunas casas tuvieron mostrador y los invitados se hicieron clientes. Y nació la taberna. Y fue lugar de encuentro y espacio de libertad este reino chiquito, esta extensión de la casa, donde la mujer mandaba.

En las tabernas se incubaban conspiraciones y se anudaban amores prohibidos.

Hace más de tres mil setecientos años, en tiempos del rey Hamurabi, los dioses trasmiteron doscientas ochenta y dos leyes al mundo.

Una de las leyes mandaba quemar vivas a las sacerdotisas que participaran en las conjuras de las tabernas.


GALEANO, Eduardo. Espejos: una historia casi universal. Buenos Aires: Siglo XXI Editores & Siglo XXI Iberoamericana, 2008. p. 10.


NOTA: O texto "Fundación de la taberna" não representa, necessariamente, o pensamento deste blog. Foi publicado com o objetivo de refletirmos sobre a construção do conhecimento histórico.

sábado, 14 de dezembro de 2013

Breve historia de la civilización

Jugadores de ajedrez egipcio, Lawrence Alma-Tadema

Y nos cansamos de andar vagando por los bosques y las orillas de los rios.

Y nos fuimos quedando. Inventamos las aldeas y la vida en comunidad, convertimos el hueso en aguja y la púa en arpón, las herramientas nos prolongaron la mano y el mango multiplicó la fuerza del hacha, de la azada y del cuchillo.

Cultivamos el arroz, la cebada, el trigo y el maiz, y encerramos en corrales las ovejas y las cabras, y aprendemos a guardar granos en los almanaces, para no morir de hambre en los malos tiempos.

Y en los campos labrados fuimos devotos de las diosas de la fecundidad, mujeres de vastas caderas y tetas generosas, pero con el paso del tiempo ellas fueron desplazadas por los dioses machos de la guerra. Y cantamos hinnos de alabanza a la gloria de los reyes, los jefes guerreros y los altos sacerdotes.

Y descubrimos las palabras tuyo u mío y la tierra tuvo dueño y la mujer fue propiedad del hombre y el padre propietario de los hijos.

Muy atrás habían quedado los tiempos en que andábamos a la deriva, sin casa ni destino.

Los resultados de la civilización eran sorprendentes: nuestra vida era más segura pero menos libre, y trabajábamos más horas.

GALEANO, Eduardo. Espejos: una historia casi universal. Buenos Aires: Siglo XXI Editores & Siglo XXI Iberoamericana, 2008. p. 5-6.

NOTA: O texto "Breve historia de la civilización" não representa, necessariamente, o pensamento deste blog. Foi publicado com o objetivo de refletirmos sobre a construção do conhecimento histórico.

sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

Caminos de alta fiesta

Adan y Eva, Ismael Nery

¿ Adan y Eva eran negros?

En África empezó el viaje humano en el mundo. Desde allí emprendieron nuestros abuelos la conquista del planeta. Los diversos caminos fundaron los diversos destinos, y el sol de ocupó del reparto de los colores.

Ahora las mujeres y los hombres, arcoiris de la tierra, tanemos más colores que el arcoiris del cielo; pero somos todos africanos emigrados. Hasta los blancos blanquísimos vienen del África.

Quizá nos negamos a recordar nuestro origen común porque el racismo produce amnesia, o porque nos resulta imposible creer que en aquellos tiempos remotos el mundo entero era nuestro reino, inmenso mapa sin fronteras, y nuestras piernas eran el único pasaporte exigido.


GALEANO, Eduardo. Espejos: una historia casi universal. Buenos Aires: Siglo XXI Editores & Siglo XXI Iberoamericana, 2008. p. 1-2.

NOTA: O texto "Caminos de alta fiesta" não representa, necessariamente, o pensamento deste blog. Foi publicado com o objetivo de refletirmos sobre a construção do conhecimento histórico.