"Os espelhos estão cheios de gente.
Os invisíveis nos vêem.
Os esquecidos se lembram de nós.
Quando nos vemos, os vemos.
Quando nos vamos, se vão?"
Eduardo Galeano: Espelhos
Mostrando postagens com marcador Historiografia. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Historiografia. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 7 de junho de 2017

Civilização VII

Casa.
Jožef Petkovšek

Se abordagens novas e mais transparentes de temas tradicionais se tornaram populares, o mesmo se deu com o estudo do obscuro e do absolutamente peculiar. A história do bacalhau, do comércio de especiarias, da obsessão holandesa pela tulipa, da busca do método de medição da longitude, do consumo de peixe na antiga Atenas e milhares de outras vêm encontrando públicos entusiásticos. Hoje consumimos avidamente histórias de culturas exteriores à grande tradição: Índia, China, América nativa, Polinésia e Austrália aborígene.

Desenvolvemos também um gosto pela arqueologia do passado histórico e pré-histórico que nos coloca em contato com a rica cultura dos nossos ancestrais até então desconsiderada. O estudo de objetos, como o DNA mitocondrial, os padrões climáticos e vegetativos da Antiguidade, os isótopos preservados na dentição humana e as anomalias geofísicas, revelaram novos e fascinantes aspectos da nossa história.

Quando pedimos aos historiadores que nos mostrem as provas materiais do seu trabalho e nossa ânsia de conhecimento do passado nos leva a tantos atalhos da história, o fio dourado começa a ganhar o aspecto de um rio de tempo com uma miríade de afluentes, córregos, remansos e súbitas corredeiras ou, quem sabe, se assemelhe mais a uma imensa rede de pesca, enrolada até formar uma esfera conectada em todas as direções. A noção de que a civilização europeia, ou antes, de que a própria existência da civilização dependeu da permanência de uma tradição particular estritamente definida começa, em face da multiplicidade do passado, a nos parecer um tanto absurda.

Uma resposta tem sido escrever e falar em civilizações no plural. Autores como Fernand Braudel (A History of Civilizations) e Felipe Fernández-Armesto (Civilizations) escreveram histórias de diferentes civilizações, evitando a tradicional obsessão pelos padrões subjacentes; livros como Worlds Together, Worlds Apart, de Robert Tignor et al., de 2002, se dirigem a um número crescente de cursos universitários norte-americanos de História Mundial que evitam deliberadamente os preconceitos do eurocentrismo. O Choque de Civilizações e a Recomposição da Ordem Mundial (1996), de Samuel Hutingdon, descreve um mundo com várias civilizações distintas e potencialmente poderosas. Em Europe: A History, também publicado em 1966, Normam Davies nos mostra como, passada apenas uma década do colapso da Cortina de Ferro, as histórias da Europa Oriental e Ocidental podem e devem ser unificadas.

O desenvolvimento da velha crença na superioridade moral e intelectual dos europeus ganhou um reforço intelectual com o surgimento do que podemos chamar de história ambiental. O cientista e historiador norte-americano Jared Diamond defendeu convincentemente que a geografia, a topografia, o clima, as correntes oceânicas e os litorais afetaram o desenvolvimento das distintas sociedades - não num sentido vago, mas em aspectos passíveis de investigação e mensuração. Sua pesquisa levou à conclusão de que os europeus se beneficiaram de uma localização que lhes propiciou desenvolver tecnologias com as quais puderam conquistar o mundo. (Continua no próximo post)

OSBORNE, Roger. Civilização: uma nova história do mundo ocidental. Rio de Janeiro: Difel, 2016. p. 20-1.

sexta-feira, 27 de janeiro de 2017

A história da História Antiga 5: História, Antropologia, Economia e Sociologia

Portão Herculano em Pompeia, Jakob Philipp Hackert

Um dos marcos da nova forma de pensar a História Antiga foi o livro A cidade antiga, do francês Fustel de Coulanges, publicado em 1864. A ideia central desse autor era de que a cidade greco-romana se originara da comunidade religiosa indo-europeia, centrada no culto ao fogo doméstico e aos ancestrais. Ela seria uma família progressivamente ampliada e transformada pela evolução das ideias religiosas.

De Coulanges, na verdade, dividiu seu livro em duas partes. Na primeira parte, apresentou uma espécie de pré-história da cidade antiga, que remontava às origens dos tempos e na qual a cidade era tratada como uma comunidade de culto oriunda da junção de famílias (gentes), destas em tribos, e por fim em cidades, cada qual exclusiva, pois compartilhava deuses e rituais únicos. A cidade religiosa seria, assim, a unidade básica da História Antiga, vista como uma etapa no desenvolvimento da inteligência dos indo-europeus. Cada cidade seria uma igreja específica, embora os fundamentos da comunidade religiosa fossem comuns a todas elas. Seu particularismo era, portanto, seu traço de união, assegurado pela unidade da raça ariana.

Na segunda parte da obra, a que trata da cidade histórica propriamente, esta já aparecia em pleno processo de sua dissolução. Os vínculos comunitários teriam se enfraquecido progressivamente e as cidades assumido as características de sociedades em conflito, pelo poder e por bens materiais, o que prenunciava seu desaparecimento sob a conquista romana.

Dois autores, que não eram historiadores da Antiguidade, merecem uma menção especial, pois influenciaram muito a História Antiga na segunda metade do século XIX: Karl Marx e Max Weber. Os escritos de Marx sobre a Antiguidade são esparsos e muitas vezes contraditórios. Há duas linhas de pensamento principais, que influenciaram a historiografia do século XX. A mais conhecida delas é claramente evolucionista. Marx definiu etapas do desenvolvimento histórico que denominou modos de produção, caracterizados pelas diferentes relações de exploração entre proprietários e trabalhadores. Esses modos seriam universais e apareceriam na História como uma sequência: a comuna primitiva, o modo de produção asiático, o escravista, o feudal e o capitalista.

Mas foi em um rascunho escrito em 1857, intitulado Formas que precedem a exploração capitalista, que Marx apresentou sua mais bem elaborada visão da Antiguidade. Nesse texto [...] Marx contrapunha a forma da cidade greco-romana, que chamava de cidade antiga, com o que denominava de forma asiática e de forma germânica. Ao contrário do mundo contemporâneo, essas formas se caracterizariam por um forte vínculo comunitário, entendido como condição para a apropriação produtiva da terra. Na forma antiga [...] a comunidade também era a condição prévia da apropriação da terra, mas não aparecia na forma de uma comunidade superior - como no mundo asiático, que englobava as comunidades menores -, mas sim como uma associação única, a cidade. O trabalho da terra não era difícil, não sendo necessários esforços coletivos. [...] A guerra (e não as obras públicas) era a grande tarefa comunal.

A comunidade/cidade seria assim uma força militar. A concentração de moradias na cidade seria a base de uma organização bélica. A guerra, por sua vez, e a própria natureza da estrutura tribal anterior levariam à diferenciação entre os membros da comunidade (inferiores e superiores, conquistadores e conquistados, livres e escravos).

Seria dessa forma, segundo Marx, que a propriedade comunal teria se separado da propriedade privada. [...]

Para ser proprietário privado, a condição prévia era ser membro da comunidade, era ser cidadão. [...] O fato de possuir terra dependia da existência do próprio Estado. Mas a cidade só se mantinha se as diferenças entre os cidadãos não fossem muito acentuadas. O crescimento da desigualdade entre os proprietários livres levava à guerra civil e à dissolução da comunidade.

[...]

Max Weber, que conhecia bem as fontes da História Antiga, também centrou suas interpretações em torno da cidade antiga, sem se importar com as divisões tradicionais entre as Histórias da Grécia ou de Roma. Max Weber escreveu três textos fundamentais para o historiador da Antiguidade: As causas do declínio da cultura antiga, de 1896, Relações agrárias na Antiguidade, de 1898, e um texto denso e complexo, publicado postumamente em 1924 e que não diz respeito apenas à Antiguidade, A cidade. [...]

[...] a ideia essencial de Weber é a de que existiu uma cidade "ocidental", diferente daquela "oriental". A cidade ocidental caracterizava-se por uma comuna de agricultores, cidades independentes e proprietários privados. Já a cidade oriental era dominada por uma burocracia e dependia de um poder centralizado, que podia ser um palácio monárquico e guerreiro ou um grande templo.

Na cidade ocidental, que primeiro fora aristocrata, os pobres haviam ganhado, com sua cidadania e sua liberdade política, o direito de não serem explorados pelos mais ricos. Estes últimos dependiam da exploração racional do trabalho escravo, tanto no campo, como na cidade. [...]

Para Weber, tanto a cidade antiga como a medieval eram burguesas, no sentido de que se sobrepunham às grandes famílias, suprimiam as relações entre gentes aristocráticas e instituíam uma forma de poder público, e não familiar ou hereditário. Para Weber, a cidade antiga era, acima de tudo, a sede dos proprietários rurais, que viviam das rendas obtidas no campo. [...]

[...] A riqueza urbana do mundo antigo conduziu as elites a um estilo de vida ocioso, voltado para o luxo e a produção cultural: essa foi uma de suas fraquezas, mas também uma das causas do brilho da cultura antiga. O declínio do abastecimento de escravos, provocado pelo fim das conquistas do Império Romano, levou à queda da produção mercantil e racional, marcando a decadência da cidade antiga e a perda de brilho de sua cultura erudita.

GUARINELLO, Norberto Luiz. História Antiga. São Paulo: Conexto, 2013. p. 23-6.

sábado, 30 de janeiro de 2016

Tucídides, a produção do conhecimento histórico

Busto do historiador Tucídides, século IV a.C. Artista desconhecido

[...] Tucídides foi contemporâneo de Heródoto, mas, como era mais novo, chegou a viver o período de decadência da pólis grega. Seu livro trata exatamente do conflito que marcou o início dessa decadência: a Guerra do Peloponeso. Nela se defrontaram as duas mais importantes cidades gregas: Esparta e Atenas.

A preocupação do cidadão ateniense Tucídides, que participou ativamente desse conflito como chefe militar, foi explicar a derrota de Atenas: como pôde perder a guerra, se tinha tudo para sair vitoriosa?

A superioridade de Atenas podia ser notada em todos os sentidos. Sua frota era a mais poderosa da Grécia, sua economia poderia alimentar a luta por anos seguidos, seus líderes políticos eram grandes estrategistas.

No entanto, iniciada a guerra, em 431 a.C., Atenas passou a sofrer sucessivas derrotas. Um ano depois a cidade foi ocupada pelos espartanos. Perdeu ainda o seu maior líder político e militar, Péricles. Os fatos eram muito diferentes do que Tucídides esperava.

Em 424 a.C., depois de liderar uma batalha que Atenas perdeu, Tucídides foi exilado. No exílio, enquanto a sua cidade era novamente invadida por Esparta e seus aliados, ele terminou de escrever a História da Guerra do Peloponeso. Para compreender o desfecho da guerra, procurou reconstruí-la desde as suas causas.

Segundo minhas pesquisas, foram assim os tempos passados, embora seja difícil dar crédito a todos os testemunhos nesta matéria. Os homens, na verdade, aceitam uns dos outros relatos de segunda mão dos eventos passados, negligenciando pô-los à prova, ainda que tais eventos se relacionem com a sua própria terra [...] A tal ponto chega a aversão de certos homens pela pesquisa meticulosa da verdade, e tão grande é a predisposição para valer-se apenas do que está ao alcance da mão! [...]

Pode acontecer que a ausência do fabuloso em minha narrativa pareça menos agradável ao ouvido, mas quem que deseje ter uma ideia clara tanto dos eventos ocorridos quanto daqueles que algum dia voltarão a ocorrer em circunstâncias idênticas ou semelhantes em consequência de seu conteúdo humano julgará a minha história útil e isto me bastará. Na verdade, ela foi feita para ser um patrimônio sempre útil, e não uma composição a ser ouvida apenas no momento da competição por algum prêmio. Tucídides. História da Guerra do Peloponeso. I, 20-22. Brasília: Editora Universidade de Brasília, 1987. p. 27-8.

Tucídides não aceitava a ideia de que fatos isolados pudessem explicar aquela que, para ele, era a maior de todas as guerras. Então, a partir de uma investigação sistemática e rigorosa dos fatos, reconstituiu a história de Atenas desde a vitória grega nas guerras contra os persas, mais de quarenta anos antes. Com isso, chegou à conclusão de que a verdadeira causa da guerra tinha sido o crescimento do poder de Atenas desde aquela vitória.

Como ele explicou a derrota de Atenas, após concluir quais eram suas causas? Para Tucídides, a morte de Péricles deixou a cidade sem seu principal líder e abriu caminho para traições e desmandos. Se Atenas perdeu, quando tinha tudo para ganhar, é porque faltou uma liderança política à altura. A política interna de Atenas explica a derrota. Luta pelo poder, falta de unidade diante do inimigo comum, inveja dos medíocres em relação aos líderes mais capazes e decisões erradas ou precipitadas levaram Atenas à ruína.

Assim, Tucídides registra e explica os acontecimentos de acordo com um objetivo específico: dar conta da derrota de Atenas. Mas pretende também produzir um conhecimento que servirá para o futuro. Isso, em sua opinião, era possível porque os homens sempre agem da mesma forma em circunstâncias semelhantes. Quem entender as ações humanas que levaram à Guerra do Peloponeso e à derrota de Atenas estará preparado para entender outras guerras. Poderá, então, evitar a guerra ou a derrota.

Tucídides quis produzir um conhecimento útil à prática política.

PEDRO, Antonio; LIMA, Lizânias de Souza. História por eixos temáticos. São Paulo: FTD, 2002. p. 92-4 e 98.

quarta-feira, 27 de janeiro de 2016

Heródoto, uma nova maneira de registrar a memória

Fragmento de papiro do Livro VIII da obra "Histórias", de Heródoto

[...] Heródoto escreveu sua obra quando a escrita já era usada pelos gregos havia mais de dois séculos. Na sua época os gregos possuíam leis escritas, um comércio muito desenvolvido, com o uso de moeda, artesanato sofisticado e uma agricultura comercial baseada na produção de vinho e azeite.

A organização política da cidade-estado conhecida por Heródoto já tinha passado por uma longa evolução e chegado até a denominada democracia. [...]

Seus relatos têm a intenção de passar o que viu e aprendeu aos seus contemporâneos e aos que viverão depois dele. Seu registro da memória já tem a preocupação com a veracidade dos fatos narrados, embora muitas vezes tenha acreditado nas crenças tradicionais, sem questioná-las nem procurar esclarecê-las.

Heródoto recorreu a diversas fontes de informações. Ele viajou muito e observou diretamente aspectos geográficos, costumes dos povos "bárbaros" e dos gregos, fez perguntas a artesãos, viajantes, soldados e sacerdotes, leu escritos de autores antigos e contemporâneos. Encontramos em Heródoto informações de caráter econômico, político, militar, cultural e geográfico sobre os diversos povos e regiões com os quais os gregos entraram em contato.

A obra de Heródoto traduz ainda uma preocupação grega da época. Os gregos naquele momento ampliavam o seu poder e influência, principalmente no aspecto econômico, na região do Mediterrâneo. As informações que ele recolhia tinham, portanto, um caráter utilitário: colaborar na expansão grega.

Heródoto temia que os povos "bárbaros", principalmente os persas, destruíssem a civilização grega. O aspecto mais marcante dessa civilização era o cidadão livre da pólis. A sua obra Histórias informa os cidadãos gregos sobre os perigos da barbárie.

Os resultados das investigações de Heródotos de Halicarnassos são apresentados aqui, para que a memória dos acontecimentos não se apague entre os homens com o passar do tempo, e para que feitos maravilhosos e admiráveis dos helenos e dos bárbaros não deixem de ser lembrados, inclusive as razões pelas quais eles se guerrearam. Heródotos. Histórias. Clio, Livro I, Capítulo 1. Brasília: Editora da Universidade de Brasília, 1985. p. 19.

Ele se coloca como um narrador neutro, sem emitir opinião sobre o que registra. Mas, na verdade, sua obra está orientada pelos valores e preocupações das cidades-estados gregas. Para preservá-las, os gregos deveriam domar o espírito, submeter-se a um treinamento árduo, confiar em seus líderes e nos deuses. A vitória grega sobre a barbárie dependia da capacidade militar (determinação, disciplina) e da vontade dos deuses.

PEDRO, Antonio; LIMA, Lizânias de Souza. História por eixos temáticos. São Paulo: FTD, 2002. p. 89 e 97.

quinta-feira, 17 de dezembro de 2015

Lançamento do livro "Ecos do tempo: uma viagem pela história"



O historiador Orides Maurer Junior é licenciado em História pela Faculdade de Filosofia, Ciências, Letras e Artes de Joinville, pós-graduado em Práticas pedagógicas inovadoras na Educação Básica com ênfase em História pela AUPEX, autor do blog História e Sociedade e do livro Ecos do tempo: uma viagem pela história (Letradágua, 2015).

O livro será lançado na Feira do Poeta, ao lado da Casa Romário Martins, no Centro Histórico de Curitiba, em 20 de dezembro/2015, a partir das 10 horas da manhã.




"Há diversas formas de se fazer e contar a História. Ecos do tempo: uma viagem pela história apresenta aos leitores textos, crônicas, dossiês e poesias através de “recortes históricos” de tempos e culturas diversos, escritos de forma a quebrar tabus, preconceitos e estigmas, expondo os dilemas, as lutas, as conquistas, as utopias, os amores e o legado dos povos, sem perder de vista suas conexões com o tempo presente, a razão da própria História". (Prefácio do livro)

quinta-feira, 7 de novembro de 2013

Viajantes gregos: Heródoto

O sistema grego inevitavelmente abarcava vários pontos de vista. Mesmo dentro da Grécia havia uma variedade. Os líderes atenienses com frequência criticavam os espartanos por darem muita liberdade às mulheres. Os gregos também comerciavam muito com regiões do Mediterrâneo e Mar Negro, o que os expunha a muitas culturas diferentes. Em geral, formas alternativas de agir e fazer eram acolhidas com um misto de zombaria - os gregos chamavam outros povos de "bárbaros" - e tolerância. Não havia a postura de acolher o novo como sendo útil aos próprios costumes. Ao mesmo tempo, considerável ignorância do mundo externo e complacência sobre os padrões gregos, somadas a algumas tensões no que diz respeito às mulheres, podiam se combinar para que os relacionamentos homem-mulher em outras sociedades fossem vistos com exageros curiosos.


O historiador grego Heródoto

Ἡροδότου Ἁλικαρνησσέος ἱστορίης ἀπόδεξις ἥδε, ὡς μήτε τὰ γενόμενα ἐξ ἀνθρώπων τῷ χρόνῳ ἐξίτηλα γένηται, μήτε ἔργα μεγάλα τε καὶ θωμαστά, τὰ μὲν Ἕλλησι τὰ δὲ βαρβάροισι ἀποδεχθέντα.
Heródoto 1.1

Tradução: Este é o relato das investigações efetuadas por Heródoto de Halicarnasso, para que os feitos dos homens não se percam com o tempo e nem as grandes e admiráveis obras dos helenos e dos bárbaros fiquem sem glória.

Heródoto, o primeiro historiador grego autor de relato de viagens, nasceu por volta de 484 a.e.c. Estudou em Atenas e viajou por grande parte do Império Persa, isto é, por quase todo o Oriente Médio, assim como Egito e partes vizinhas do norte da África, incluindo a Líbia. Também viajou para o norte do Danúbio na Europa e para o Mar Negro. Nessas viagens, muito extensas para a época, ele coletou histórias sobre sociedades, algumas sem chegar a entender direito. Escreveu sobre o mundo que descobriu em sua obra História, que focalizou livremente as guerras entre Grécia e Pérsia, ocorridas entre 499 e 479 a.e.c.

Heródoto era um observador cuidadoso, ávido para separar o fato da ficção. Era também muito interessado e tolerante para com os costumes que diferiam de sua Grécia natal. No entanto, aceitou e reproduziu inúmeras distorções. Foi ingênuo no que diz respeito a animais bizarros e incorporou sem críticas histórias de sociedades em que as pessoas teriam o hábito de comer os pais idosos. Além do mais, acatou variações dramáticas no tratamento das mulheres.

Ao descrever o povo lídio, por exemplo, afirmou que

As filhas de todas as famílias de classe baixa da Lídia são prostitutas para que possam acumular um dote que lhes permita casar, e elas arrumam seus próprios casamentos... Afora essa prática de terem suas filhas trabalhando como prostitutas, os costumes na Lídia não são diferentes dos da Grécia.

Como observador tolerante e encantado com a variedade da vida humana, Heródoto aceitou uma implausível generalização, focada em hábitos sexuais extremados. No caso dos agartisianos, do norte do Mar Negro, ele afirma que

qualquer mulher está disponível para qualquer homem para fazer sexo, para assegurar que os homens são todos irmãos e que eles estão em termos amigáveis uns com os outros, uma vez que são todos parentes. Em outros aspectos, seu tipo de vida é semelhante ao dos trácios [um grupo do norte da Grécia].

Descrevendo os líbios, do norte da África, diz que "Outro costume raro deles é que quando suas mulheres jovens estão para se casarem, postam-se perante o rei e as que lhe agradarem são defloradas por ele." De outro grupo líbio, escreveu:

É costume que cada homem tenha certo número de esposas, mas [...] qualquer mulher está acessível para qualquer homem para sexo; um pessoal postado em frente de uma casa indica que está havendo uma relação sexual lá dentro. Quando um homem nasmoniano se casa, primeiro é costume a noiva ter sexo com todos os convidados, um depois do outro em sua noite de núpcias; cada homem que tem sexo com ela lhe dá um presente que trouxe de casa.

Outras histórias destacam mais a violência do que sexo. Uma tribo influenciada pelos gregos morando no Egito, os ausees,

celebram o festival em homenagem a Atena [uma deusa grega] uma vez por ano quando as moças solteiras da tribo dividem-se em dois grupos e lutam entre si com pedras e paus; as mulheres dizem que essa é a maneira pela qual pagam as dívidas de seus ancestrais para os deuses... Elas dizem que as mulheres que morrem nessas disputas não eram verdadeiramente virgens. Antes de deixarem-nas lutar, elas se unem para vestir a mais bela da geração seguinte de moças com um elmo coríntio e uma armadura grega.

Aqui, se é verdade, havia um fascinante caso de sincretismo, com a parafernália grega emprestada para um ritual que não era de forma alguma grego. Heródoto termina esse texto novamente com sexo.

Eles tinham relações sexuais com mulheres de forma promíscua; em vez de viverem em casais, sua vida sexual é a de verdadeiros animais. Quando o bebê de uma mulher cresce, na altura do terceiro mês, todos os homens se reúnem e a criança passa a ser filho do homem com o qual mais se parece.

Heródoto dedicou considerável atenção às amazonas, grupo de mulheres guerreiras que em geral agiam sem os homens, e supostamente viveram na Ásia Central. Aqui, ele elaborou uma crença já disseminada na Grécia. Os gregos afirmavam ter lutado contra as amazonas, que viciosamente matavam todos os homens que podiam. Num relato em que as amazonas se misturavam com outros povos para pelo menos se casarem e se reproduzirem, uma garota amazona tinha de matar um homem antes de se casar. Outra história via as amazonas se misturarem com outra tribo chamada scitianos cujos homens conseguiram ter relações com as guerreiras. Os scitianos convidaram as amazonas para viver em sua terra, mas as amazonas responderam:

Será para nós impossível viver com suas mulheres, porque nossas práticas são completamente diferentes das de vocês. Não aprendemos trabalhos de mulheres. Nós lançamos flechas, manejamos dardos, montamos cavalos - coisas com que suas mulheres não sabem lidar. Elas só ficam em seus lugares e fazem trabalhos de mulheres; elas nunca vão caçar ou a qualquer outro lugar.

E os jovens concordaram, e daí em diante as mulheres passaram a guerrear e a caçar com seus maridos, "usando as mesmas vestimentas dos homens".

Várias questões relativas a gênero emergem desse relato de viagem. Em primeiro lugar, Heródoto com frequência considera os comportamentos das mulheres muito mais estranhos do que qualquer coisa que tenha encontrado, provavelmente uma decorrência natural de vir de uma organização fortemente patriarcal que tornava fácil rotular e exagerar as diferenças. Em segundo lugar, ele raramente condena - e nisso é como outros observadores mais tarde na história mundial, ávido por acolher e embelezar a variedade humana. Pela mesma razão, contudo, não considera nada digno de admiração: não viu nada que os gregos pudessem incorporar para aprimorar os relacionamentos entre homens e mulheres. Outros povos sim poderiam copiar os gregos. Ele nota que os persas, por exemplo, emprestaram o hábito dos homens de ter sexo com garotos jovens. Os próprios gregos, no entanto, não tinham nada para aprimorar.

Por fim, existe o óbvio fascínio com sexo e violência. Embora não fosse uma sociedade repressiva, a Grécia desencorajava a promiscuidade; nesse contexto, não seria surpreendente que um homem aceitasse ingenuamente histórias de estrangeiros devassos. Certamente, isso era um tema comum nos relatos de viajantes: um uso dos "outros" para estimular fantasias sexuais e/ou despertar desdém moral em casa. As preocupações com mulheres agressivas misturaram um elemento de realidade com alguns medos mais amplos. À medida que os gregos foram tendo contato com grupos nômades, viram-se diante de povos que davam às mulheres papéis maiores do que eles próprios - inclusive papéis de luta. Isso é perfeitamente registrado nos relatos sobre povos do norte do Mar Negro, mas aconteceram exageros, como testemunha a credulidade sobre as amazonas. A ideia de mulheres mais liberais era intrigante, mas também assustadora, ao mesmo tempo que contrastava com a obediência e domesticidade requeridas na terra natal. Aqui, o exagero reflete tensões e ansiedades, advertindo que qualquer relaxamento nos controles patriarcais levaria ao caos. Viagens, nesse sentido, geravam tanto percepções sobre assuntos domésticos como sobre os comportamentos estrangeiros - mas a tendência era de preservar o que tinham, não de utilizar contatos como fonte de inovação.

STEARNS, Peter N. História das relações de gênero. São Paulo: Contexto, 2012. p. 50-54.

quinta-feira, 1 de agosto de 2013

O Brasil como nação

Em meados do século XIX, a capital do Império viu surgir uma nova moda cultural: a de procurar vestígios de antigas civilizações, que teriam existido no interior do país antes da chegada de Cabral. Tais incursões, promovidas pelo prestigiado Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, ou, mais sucintamente, IHGB, não eram organizadas por lunáticos, mas sim por renomados intelectuais da época, que contavam, inclusive, com o apoio do governo imperial. A primeira delas, realizada em 1839, teve dimensões modestas, destinando-se a buscar vestígios arqueológicos nas imediações do Rio de Janeiro, onde se acreditava existirem, na Pedra da Gávea - sintomaticamente denominada Esfinge -, escritas rupestres de autoria de antigos fenícios.

Embora essas suspeitas não se tenham confirmado, a esperança de novas e espetaculares descobertas não desapareceu. Tanto foi assim que, em 1840, era dado início aos preparativos de uma arrojada incursão ao sertão baiano, com o objetivo de confirmar informações, que circulavam desde o século XVIII, a respeito das ruínas de uma cidade antiga, supostamente existente nas remotas matas do Cincorá. Como seria de esperar, essa expedição, apesar de ter durado vários anos, não obteve sucesso.

Nem tudo porém, era fracasso. Alguns empreendimentos científicos, embora não vinculados diretamente ao IHGB, resultaram em descobertas surpreendentes. Isso ocorreu, por exemplo, em Lagoa Santa, Minas Gerais, onde o cientista dinamarquês Peter Lund identificou, na década de 1840, fósseis humanos pré-históricos, confirmando as expectativas sobre a existência de um antiquíssimo povoamento do território brasileiro.

Animados com essas descobertas, os membros do IHGB reiniciaram as explorações arqueológicas, identificando, em várias partes do território brasileiro, sambaquis - uma espécie de depósito de lixo pré-histórico. Alguns desses depósitos alcançavam dimensões gigantescas e, no entender da época, bem que podiam esconder em seu interior construções monumentais. Foi isso pelo menos o que imaginou o erudito Francisco Freire Allemáo, que, também na década de 1849, tendo por base informações de um grande sambaqui, escreveu monografia a respeito de uma suposta "pirâmide", localizada no Campo Ourique, no Maranhão.

Paralelamente a essa arqueologia fantástica, desenvolveu-se na capital do Império uma linguística igualmente fantástica, onde aquele que é considerado o fundador da historiografia brasileira, Francisco Varnhagen, procurou demonstrar, através da comparação de vocábulos indígenas com os de antigas civilizações, a origem euro-asiática dos povos tupi-guaranis. Com base nesse conjunto de indícios especulou-se a respeito da origem dos índios do Brasil, quase sempre afirmando que eram "povos decaídos", ou seja, descendentes de altas civilizações mediterrâneas, como as dos egípcios ou dos fenícios, que haviam regredido ao estado de selvageria. O próprio imperador, D. Pedro II, não se furtou ao debate, escrevendo, na década de 1850, aos diretores do IHGB, para que procurassem responder o mais rapidamente possível:

Quais são os vestígios que possam provar uma civilização anterior aos portugueses?

E, mais ainda, em um rompante de etnólogo amador, o imperador sugeriu uma nova questão, interrogando:

Existiram ou não as Amazonas no Brasil?

Aos olhos do leitor atual, esse insólito empreendimento científico pode parecer uma piada. Na época, porém, o tema era levado a sério. Para compreendermos a razão disso, devemos ter em mente que as buscas arqueológicas oitocentistas eram uma espécie de "ponta de iceberg" de outra questão fundamental da época: o da identidade nacional brasileira.

E essa será a questão de que trataremos a seguir.

[...] logo após 1822 surgiram movimentos que questionavam o projeto político imperial "carioca", reivindicando o federalismo ou a independência de suas respectivas regiões. A luta contra esses movimentos demandou extraordinários recursos humanos e financeiros. Sua evolução também esteve longe de ser linear. Em 1831, a abdicação de D. Pedro I ao trono significou uma vitória das forças descentralizadoras, havendo até mesmo o que se convencionou chamar de "experiência republicana", tendo em vista a eleição direta de "regentes", espécie de "presidentes" da época, como foi o caso de Diogo Feijó.

No entanto a abdicação não diminuiu o impacto separatista. Pelo contrário, o período que se estende até 1848 foi caracterizado pelo avanço desse segmento. A elite imperial não só ordenou o massacre dos rebeldes das províncias, como também procurou criar instituições que viabilizassem o projeto monárquico. Os intelectuais vinculados a esse projeto investiram, por sua vez, no combate aos movimentos separatistas, mostrando que os "brasileiros" constituíam uma nacionalidade com características próprias. Em outras palavras, para ser viável, o Império deveria não só se impor através da força, como também por meio de boas instituições e de uma identidade coletiva que justificasse a razão de ser da nação que estava se formando.

Para felicidade destes intelectuais, a última questão, também enfrentada por boa parte dos países europeus, em processo de unificação, facultava-lhes assim um conjunto bastante rico de discussões a respeito da construção nacional. A instituição que centralizou tais debates foi o já referido Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro. Fundado em 1838, o IHGB reunia historiadores, romancistas, poetas, administradores públicos e políticos, em torno da investigação a respeito do caráter nacional brasileiro. Em certo sentido, a estrutura dessa instituição, pelo menos a ser projetada, reproduzia o modelo centralizados imperial. Assim, enquanto na Corte localizava-se a sede, nas províncias havia os respectivos institutos regionais. Esses, por sua vez, deveriam enviar documentos e relatos regionais para a capital, que trataria de escrever a "história do Brasil".

Nas discussões que se seguiram imediatamente à fundação do IHGB, a versão do que seria o elemento central da história nacional, ironicamente, foi definida por um estrangeiro. Segundo o esquema proposto por Karl von Martius, naturalista alemão, a história do Brasil resultaria da fusão de três raças: branca, negra e índia. Com certeza, nos dias de hoje tal definição não seria levada a sério, pois sabemos que a história não é um subproduto das "raças". Além disso, do ponto de vista cultural, os mencionados três grupos não formavam unidades homogêneas, nem muito menos mantiveram relações igualitárias no Novo Mundo, como a noção de "fusão" sugere. Na época, porém, a tese de Martius estava em dia com os mais avançados debates científicos, que, através da análise das diferentes misturas entre anglo-saxões, francos, normandos, celtas e romanos, tentavam explicar as diferentes nacionalidades europeias. Talvez a extraordinária repercussão da interpretação adotada pelo IHGB resulte desse pretenso rigor, que encantou não só historiadores, mas também romancistas e poetas.

A "teoria" das três raças se fundindo e formando a nacionalidade apresentava ainda dois atrativos suplementares. Em primeiro lugar, mostrava que os brasileiros eram diferentes dos portugueses, sendo legítimas, portanto, as aspirações de 1822. Em segundo lugar, tal interpretação procurava esvaziar a legitimidade dos movimentos separatistas, unificando, em uma mesma categoria nacional, o conjunto de habitantes dispersos pelas várias regiões do Império, contribuindo, assim, para a formação de uma identidade brasileira diferenciada da do antigo colonizador.


Mameluca e Cafusa na visão de Karl von Martius, naturalista alemão que defendia a ideia de que a história do Brasil resultaria da fusão de três raças: a branca, a negra e a indígena.

Porém, o sentimento de ser "diferente", em relação aos antigos metropolitanos, era abordado pelos intelectuais de maneira contraditória. É bom se ter sempre em mente que, tal qual o imperador, boa parte da elite monárquica descendia de portugueses. Como se não bastasse isso, romper totalmente com o passado metropolitano significava romper com os laços europeus, laços que, segundo o ponto de vista de muitos, coloriam o passado brasileiro com tintas de civilização.

No mencionado texto elaborado por Martius, que durante décadas serviu de guia a respeito de "como se deve escrever a história do Brasil", o tema do contato das três "raças" é explorado de maneira exemplar. Nele, a contribuição portuguesa para formação da nacionalidade brasileira é associada a instituições políticas, econômicas e religiosas, em outras palavras, às formas de vida civilizadas. Já a contribuição dos negros é apresentada de maneira contraditória, havendo sucintas alusões aos conhecimentos dos africanos em relação à natureza e, ao mesmo tempo, a seus preconceitos e superstições.

Segundo tal interpretação, o que faria do Brasil uma sociedade positivamente diferente da de Portugal não seria propriamente a presença africana [...] mas sim a indígena. Em relação a esse segmento, a posição de Martius foi a de não mencionar uma "contribuição", mas sim indicar que eles eram "ruínas de povos", ou seja, descendiam de uma antiga civilização que teria migrado para o Novo Mundo e entrado em decadência, regredindo ao estado de selvageria. Ora, essa sutil nuança em relação aos outros dois povos formadores da nacionalidade brasileira tinha importantes implicações. Se refletirmos um pouco, perceberemos que Martius transferiu para o futuro a definição do que seria a "contribuição" indígena; dependendo dos rumos tomados pelos estudos arqueológicos e linguísticos [...] essa contribuição poderia ser considerada tão importante quanto a dos portugueses.

Cabe lembrar ainda que, por essa época, os principais centros econômicos do Império contavam com uma população indígena residual. Tal situação abria margem para a análise desse grupo enquanto elemento já incorporado à sociedade brasileira. Haveria, assim, na química simbólica da nacionalidade brasileira, um misterioso ingrediente, que, quando estudado com o devido cuidado, poderia revelar um passado monumental, rival mesmo do europeu.

[...]

Para os intelectuais vinculados a esse debate, a descoberta de vestígios de uma ou de várias complexas sociedades no território brasileiro era uma questão de tempo. Tal crença, por sua vez, resolvia, por assim dizer, um dilema que a muitos assustava: se os portugueses eram a única fonte de comportamento civilizado da nossa índole nacional, quais seriam, ao longo do tempo, os resultados do rompimento com a metrópole? Haveria um retrocesso? Assumir uma identidade não-branca, no mínimo, abalaria a auto-estima dos súditos da nova nação. Afinal, quais seriam as razões para os brasileiros se orgulharem de serem brasileiros?

Ora, é justamente nesse ponto que a apropriação de uma tradição indígena, baseada na existência de uma fantasiosa e ancestral "alta cultura", desempenhou um papel central na química da nacionalidade. Aos "índios" podia ser atribuído o que, supostamente, faltava ao "negro", permitindo-lhes rivalizar com os brancos. Sob a ótica do pequeno grupo de intelectuais que, na época, refletiam a respeito da identidade nacional brasileira, os primeiros habitantes do Brasil passaram a ser vistos como portadores de valores que até mesmo os portugueses da Época Moderna, marcados pela ânsia do lucro e do acúmulo de bens materiais, haviam perdido. Para os autores que adotaram esse tipo de concepção, o mundo indígena teria conservado a nobreza, a generosidade e a bravura do mundo antigo, valores que não existiam mais nas sociedades contemporâneas. A tradição indígena, ou a invenção dessa tradição, fornecia, por assim dizer, os ingredientes que faltavam para fazer do "brasileiro" um ser diferente do português, mas nem por isso inferior.

Boa parte da literatura brasileira do século XIX, como as clássicas obras produzidas por Gonçalves Dias e José de Alencar, estende raízes nesse intricado debate. A cada "ossinho" encontrado nas cavernas, a cada desenho rupestre identificado, a cada novo rumor de cidades perdidas nas selvas, cresciam as expectativas a respeito da descoberta de altas civilizações indígenas que teriam existido no território brasileiro. Essas expectativas, por sua vez, devido às características da vida intelectual no Império, conquistaram um público bem mais amplo do que o restrito grupo de sócios do IHGB. Por essa época, havia, no Brasil, muito pouca especialização da atividade intelectual. Um mesmo indivíduo podia, ao mesmo tempo, ser magistrado, jornalista, romancista, poeta, historiador, arqueólogo, naturalista, transitando, assim, em diversas áreas de conhecimento.

Para compreendermos as consequências dessa situação, é necessário sublinhar que, nas primeiras décadas do século XIX, observamos no Brasil o florescimento do romantismo. Em linhas gerais, os românticos caracterizavam-se pelo ecletismo filosófico, propondo mesmo criar um meio termo entre ciência e religião; estranha combinação que, pelo menos entre alguns autores da época, desdobrava-se em uma aproximação da ciência com a literatura e a poesia. O romantismo também fazia oposição à ideia de que as sociedades tinham a mesma origem, evoluindo da mesma maneira, ou ainda de que a história humana fosse guiada por algum objetivo, como aquele relativo à busca do progresso ou da liberdade. Ao contrário das teorias evolucionistas do século XVIII, os românticos não classificavam as nações como atrasadas, mas sim como diferentes entre si.

Ao considerar a nacionalidade algo a ser "descoberto", o romantismo em muito contribuía para a superação intelectual da experiência colonial. Daí, inclusive, a busca do passado indígena. Justamente por não se saber ao certo a origem dos "índios", as descobertas arqueológicas que estavam para ser feitas poderiam sugerir novas formas de entender e de valorizar a identidade nacional brasileira. Uma vez estipulados esses procedimentos, cabia aos intelectuais aprofundar os estudos e criar meios pedagógicos de sua divulgação. Misturando arqueologia com poesia, linguística com romance de folhetim, pintura com ópera, foram elaboradas, representadas, divulgadas e debatidas explicações de como o Brasil se tornou brasileiro. O leitor, caso queira isso confirmado, deve folhear os antigos números da Revista do IHGB, visitar museus que conservam quadros de Victor Meireles, ouvir O Guarani de Carlos Gomes, ou então correr à estante e abrir, em uma página qualquer, algum romance indianista de José de Alencar.

DEL PRIORE, Mary; VENÂNCIO, Renato Pinto. O livro de ouro da história do Brasil. Rio de Janeiro: Ediouro, 2001. p. 208-215.

terça-feira, 19 de março de 2013

A invenção da Antiguidade


O auriga de Delfos, bronze, 470 a.C.  Artista desconhecido.

A Antiguidade, "Antiguidade clássica", representa para alguns o começo de um novo mundo (basicamente europeu). O período se encaixa com perfeição numa corrente progressiva da história. Nesse sentido, em primeiro lugar, a Antiguidade teve de ser radicalmente apartada de seus predecessores na Idade do Bronze, que caracterizou algumas das mais importantes sociedades asiáticas. Em segundo, Grécia e Roma passam a ser vistas como fundadoras da política contemporânea, sobretudo no que concerne à democracia. Em terceiro, alguns aspectos da Antiguidade, especialmente os econômicos como comércio e mercado, que marcariam mais tarde o "capitalismo", são subestimados, para marcar uma grande distinção entre as diferentes fases que conduzem ao presente. [...]

A Antiguidade é compreendida por alguns como a época que marca o início do sistema político, da "polis", da "democracia" propriamente dita, da "liberdade" e da lei. Economicamente, ela era diferente, baseada na escravidão e na redistribuição, mas não em mercado e comércio. Considerando os meios de comunicação, os gregos com sua língua indo-europeia teriam criado o alfabeto que usamos hoje. O mesmo teria se dado com relação à arte, inclusive à arquitetura. [...]

O roubo da história pela Europa Ocidental começou com as noções de sociedade arcaica e Antiguidade, prosseguindo daí em uma linha mais ou menos reta pelo feudalismo e Renascença até o capitalismo. Aquele começo é compreensível porque, mais tarde para a Europa, as experiências gregas e romanas representaram o amanhecer da "história", com a adoção do alfabeto escrito (antes da escrita tudo era pré-história, e esfera de arqueólogos, não de historiadores). Evidentemente, havia alguns registros escritos na Europa antes da Antiguidade na civilização minóico-micênica de Creta e do continente. No entanto, [...] os documentos consistiam de listas administrativas, não de "história" ou literatura. Essas áreas apareceram com alguma força na Europa somente depois do século XIII a.e.c. com a adoção e adaptação pela Grécia da escrita fenícia, a ancestral de muitos outros alfabetos, com seu sistema de consoantes BCD (sem as vogais). Uma das primeiras matérias da escrita Grega foi a guerra contra a Pérsia que levou à distinção feita em termos valorativos entre Europa e Ásia, com profundas consequências para nossa história política e intelectual a partir de então. Para os gregos, os persas eram "bárbaros", caracterizados pelo uso da tirania em vez da democracia. Era, claro, um julgamento puramente etnocêntrico, alimentado pela guerra greco-persa. [...]

Linguisticamente, a Europa tornou-se o lar dos "arianos", falantes de línguas indo-europeias advindas da Ásia. A Ásia Ocidental, por outro lado, foi o lar dos povos nativos de línguas semitas, um ramo da família afro-asiática que inclui a língua falada pelos judeus, fenícios, árabes, coptas, berberes, e muitos outros do norte da África e Ásia. Foi essa divisão entre arianos e outros, incorporada mais tarde nas doutrinas nazistas, que, na história popular da Europa, tendeu a encorajar o subsequente menosprezo das contribuições do Oriente para o crescimento da civilização.

[...]

Muitos vêem que a história mais recente da Europa emergiu de alguma vaga síntese entre romanos e a sociedade nativa tribal, uma formação social "germânica" em termos marxistas; há controvérsias entre romanistas e germanistas quanto às contribuições de suas respectivas culturas. No que diz respeito ao período anterior, a Antiguidade é frequentemente vista como a fusão das condições da Idade do Bronze com as "tribos" de origem "ariana" que participaram das invasões dóricas. Assim, a Antiguidade teria se beneficiado de ambos os regimes: as centralizadas culturas urbanas "civilizadas" e as "tribos" mais rurais e pastoris.

[...]

Childe enfatiza o papel do comércio no mundo clássico, e como ele foi importante para difundir culturas, ideias e pessoas. Os escravos, claro, eram comercializados, e não somente tinham função de trabalhadores: "entre eles havia também doutores altamente especializados, cientistas, como também artesãos e prostitutas [...] as civilizações orientais e mediterrânicas, tendo se fundido, estavam ligadas pelo comércio e pela diplomacia a outras civilizações do leste e aos velhos bárbaros do norte e do sul". Tal intercâmbio ocorria tanto internamente quanto entre sociedades.

As "tribos" da periferia, os chamados "bárbaros", ou seja, aqueles que não pertenciam às civilizações mais importantes, foram afetadas pelo grande desenvolvimento nas sociedades urbanas com as quais elas intercambiavam produtos, ajudando também no transporte de bens. Tais sociedades urbanas eram vistas como possíveis alvos:  por sua maior mobilidade, assaltar cidades e seu tráfico era um modo de vida para algumas "tribos". Foi essa situação descrita por Ibn Khaldun em seu texto do século XIV sobre o conflito, no norte da África, entre beduínos nômades e árabes sedentários [...] em que as tribos tinham maior "solidariedade" [...] se comparadas aos povos mais avançados tecnologicamente [...]. A maioria das grandes civilizações teve contatos semelhantes com suas "tribos" vizinhas e sofreu incursões semelhantes: os chineses dos manchus, os indianos dos timurids da Ásia Central, o Oriente Médio dos povos do deserto ao redor, os dórios na Europa. Não havia nada de excepcional nos ataques dos germanos e outros no mundo clássico, a não ser o de terem sido um fator importante na destruição do Império Romano e no eclipse temporário das extraordinárias realizações da Europa Ocidental. Entretanto, as tribos não foram simplesmente "predadoras". Eram importantes também [...] por si próprias e por noções de solidariedade, democracia e liberdade, aspectos quase universalmente associados aos gregos.

O que entendemos por Antiguidade tem sua origem, obviamente, na Grécia e Roma; é a narrativa mais sustentada pela maioria dos historiadores clássicos. Há um consenso de que a Antiguidade foi construída sobre um colapso anterior da civilização. Em 1200 a.e.c., "a Grécia se parecia muito com qualquer outra sociedade do Oriente Médio". [...]

[...]

Um dos resultados da interpretação em termos de invasão tribal da Grécia por tribos de fala ariana foi a negligência das contribuições semitas e a ênfase exagerada nas contribuições gregas para o que foram, sem dúvida, desenvolvimentos de grande importância. Por exemplo, nas formas de comunicação, os gregos adicionaram os sons das vogais ao alfabeto semita, portanto, aos olhos de alguns eruditos, "inventaram" o alfabeto. O novo alfabeto tornou-se o mais importante instrumento para comunicação e expressão. No entanto, na verdade, muito foi feito com o alfabeto consonantal, o suficiente para a produção do Antigo Testamento pelos judeus, que serviu de base tanto para o judaísmo como para o cristianismo e o islamismo. Isso já foi um enorme feito histórico, literário e religioso. Como também o foram as literaturas das línguas árabe e indiana que se desenvolveram a partir da versão aramaica dos escritos semitas, de novo sem vogais. [...]

Um tipo de alfabeto só de consoantes estava disponível na Ásia há muito, desde cerca de 1500 a.e.c., favorecendo a literatura de povos como os semitas, fenícios, hebreus, falantes de aramaico e, mais tarde, de árabe também. [...] Além disso, com outros tipos de escrita, a espécie humana fez milagres em termos de acúmulo e difusão do conhecimento, por exemplo, usando a escrita logográfica do Extremo Oriente. Mesopotâmicos e egípcios também produziram obras literárias substanciais usando manuscritos semelhantes, porém, em parte por razões linguísticas, são vistos pelos europeus como "orientais", em vez de clássicos. [...]

[...]

Contatos entre povos têm grande importância social, além de fornecer modelos de desenvolvimento, a contar da mudança do (puramente) oral para o escrito, da emergência de escritas logográficas, silábicas e alfabéticas, do advento do papel, da imprensa e da mídia eletrônica, essas formas se sucedem, mas não se substituem, como acontece com os meios de produção. [...]

GOODY, Jack. O roubo da história. São Paulo: Contexto, 2008. p. 37-43.

segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

Um olhar para o que passou [150 mil anos de história humana]


Cena do filme 2001 - Uma odisséia no espaço, dir. Stanley Kubrick

Em 1922, o escritor britânico H. G. Wells publicou seu best-seller A Short Story of the World. O livro terminava assim:

No momento, mal atingimos a aurora da grandeza humana. [...] Alguém pode duvidar que em pouco tempo nossa espécie irá mais do que concretizar nossas fantasias mais ousadas, de que ela irá alcançar unidade e paz, que viverá [...] em um mundo tornado mais esplêndido e bonito do que qualquer palácio ou jardim conhecido, avançando com ímpeto crescente em um círculo cada vez mais amplo de aventura e realização?

Wells escreveu essas palavras apenas quatro anos após o desfecho de uma terrível guerra. A lembrança da carnificina obscena nos campos de batalha do mundo continuava fresca na mente de seus leitores. De onde ele tirou tanto otimismo? Ele era um homem altamente inteligente e sensível, com dotes imaginativos excelentes. Compreendia de que coisas terríveis os seres humanos eram capazes em situações de desespero. O problema era o fato de ele ser um cidadão abastado vivendo em um dos países mais ricos do mundo; uma nação cujas classes governantes haviam experimentado uma melhoria ininterrupta em seu conforto e prosperidade pessoal, por mais de dois séculos.

Mesmo que fosse grande escritor e um visionário, Wells era um produto de seu tempo. Foi apenas nos cerca de cem anos precedentes que os cientistas começaram a juntar as peças da história da Terra e das origens da espécie humana. Haviam transcorrido apenas sessenta anos desde que Darwin publicara sua A origem das espécies e nem bem trinta de A descendência do homem, o primeiro estudo coerente das origens humanas. Darwin escolhera o título com cuidado, de modo que as pessoas pudessem entender que estava preocupado somente em elucidar a estrutura da árvore familiar da humanidade, e não em promover qualquer idéia de “progresso”. Na última edição de A origem das espécies que supervisionou pessoalmente, ele usara a palavra evolução pela primeira vez. Mas o que queria dizer com evolução era mudança contínua, não aperfeiçoamento contínuo.

Infelizmente, com Darwin fora do caminho, a porta ficou aberta para qualquer um que não o compreendia ou que quisesse invocar seu nome e obter apoio para as próprias teorias amalucadas. Num piscar de olhos, os países industrializados foram inundados com teorias de “evolução social”, um processo histórico pelo qual a sociedade humana supostamente avança em direção a modos de organização cada vez mais desenvolvidos. [...]

Wells não era cristão, mas nasceu em uma sociedade profundamente imbuída de filosofia cristã. Quando escreveu a História do mundo, sua visão das coisas, como a da maioria das pessoas em volta dele, ainda era moldada por hábitos de pensamento cristãos. O cristianismo é uma religião milenar que tem ensinado por quase 2 mil anos que a história tem um significado: é um processo linear com um fim predeterminado. Esse sentimento foi intensificado nos países cristãos mais prósperos com as revoluções científicas e industriais; mudanças que encorajaram os líderes de inclinação intelectual – por definição saídos da classe que mais se beneficiara com essas revoluções – a acreditar em um futuro dourado.

A crença na “marcha da civilização” deveria ter sido erradicada pelos horrores da Primeira Guerra Mundial, mas para muitas pessoas o efeito foi completamente oposto. O choque foi tão grande que o paciente entrou em negação. O conflito foi encarado em vez disso como um trágico interlúdio, um chamado ao despertar para um mundo que se tornara cada vez mais complacente. Era hora, pensava-se, para os homens e as mulheres de boa vontade criarem novos tipos de instituições internacionais, para assegurar que nada como aquilo pudesse acontecer outra vez. Como consolo pelo pesar com as perdas que haviam sofrido, uma racionalização foi criada: 1914-1918 fora “a guerra para acabar coma guerra”. Hoje ninguém mais engole essa. [...]

Em face da evidência dos últimos cem anos, deveríamos ter abandonado as fantasias sobre a marcha progressiva da civilização. Mas esse tipo de pensamento ainda permanece – apenas a língua muda. Alguns depositam sua fé em algo chamado “projeto iluminista”, uma coleção de idéias e experiências históricas frouxamente ligadas à qual intelectuais de alguns países ricos atribuem grande significado. Nessa variante da visão histórica da “marcha da civilização”, os modos de sociedade organizada desenvolvidos na Europa Ocidental e na América do Norte desde o século XVII são vistos como inerentemente superiores a quaisquer outros, e assim devem prevalecer, contanto apenas que seus praticantes não percam a coragem.

Essa visão linear da história como progressão rumo a um futuro dourado é compartilhada tanto pelo cristianismo como pelo marxismo, e também pelos “liberais iluministas”, alguns dos quais não são nem cristãos nem marxistas. Mas há outras maneiras de interpretar a experiência humana. Certas culturas, por exemplo os maias e a China pré-comunismo, viram a história como um processo “cíclico”, em que sequências de eventos similares continuam a ocorrer por longos períodos e no qual não existe destinação última.

Alguns chegaram até a sugerir que o modo como a sociedade vê a história pode em si mesmo afetar a maneira como a história se desenvolve. Uma sociedade que a vê como processo linear, particularmente se ela encara também uma crença no “progresso”, provavelmente tem maior probabilidade de buscar meios de fazer descobertas e melhorias. Infelizmente, tais sociedades também correm o perigo de acreditar que “a história está do nosso lado”. E é um curto passo que separa isso da crença de que “o fim justifica os meios”, uma atitude que levou a muitas das atrocidades que desfiguraram a história humana.

Mas a visão cíclica da história tem os próprios perigos. Ela pode evitar os horrores que são perpetrados por pessoas que carregam consigo a certeza de que a História, ou Deus, está do seu lado. Mas essa é uma crença que facilmente envereda para o fatalismo: uma aceitação de que o sofrimento (especialmente dos outros) é um fato inescapável da vida e que tentativas de influenciar o curso dos acontecimentos estão fadadas ao fracasso.

Olhando para trás [...] cabe questionar se a história apresenta um padrão, seja linear, cíclico ou qualquer outro. Talvez a história da raça humana seja mais bem compreendida como uma jornada por um terreno particularmente acidentado, no escuro, em um veículo não muito cuidado, com uma sucessão de motoristas de competência variada, em estados variados de embriaguez. Alguns dos passageiros têm uma idéia clara do destino a que se dirigem, mas nem todos possuem uma visão realista de suas chances de chegar nele pela rota que escolheram.

Qualquer estudante de história pode ficar pasmo ao constatar a quantidade de retrocessos sofridos pela espécie humana ao longo dos últimos 150 mil anos, e que criaturas frágeis somos, tanto individualmente como na condição de espécie. Em face das estupendas forças que a natureza tem sob seu comando, um pouco de humildade vem a calhar quando especulamos a cerca do futuro. [...]

[...]

Fomos agraciados com uma ilustração dramática do poder de novas doenças para espalhar o caos entre as populações do mundo com o surgimento do vírus da AIDS em meados do século XX. O HIV já causou uma das pandemias mais mortíferas da história humana, e sua carreira ainda está longe de terminar. [...]

[...]

Outra ameaça que paira sobre a Terra é a mudança climática provocada pela cultura humana. Há apenas uma geração, as evidências disso ainda eram tão incertas que se tornava perfeitamente respeitável, até sensato, questionar suas implicações e opor-se a propostas de mudanças em larga escala nos padrões de produção e consumo no mundo industrializado. Respeitável talvez ainda seja, mas sensato não é mais. [...]

[...]

Infelizmente, enfrentamos dois problemas quando tentamos lidar com questões urgentes como aquecimento global, poluição ou controle de armas. Um deles é tão antigo quanto a humanidade. O outro existe há algum tempo, mas só se tornou sério durante os últimos dois séculos.

Esse problema antiqüíssimo é o equilíbrio entre liberdade pessoal imediata e o bem da comunidade a longo prazo. A maioria de nós está preparada para aceitar algumas restrições em nossa liberdade de ação, reconhecendo que temos a ganhar com a restrição simultânea da liberdade de outras pessoas. Pouca gente perde as estribeiras se é impedida de carregar uma arma a bordo de um avião ou se passa por uma revista para assegurar que não esteja tentando fazê-lo. As pessoas ficam felizes de ter a própria liberdade de portar armas restringida em troca da segurança que usufruem resultante da liberdade de outras pessoas ser similarmente restringidas. [...]

[...]

[...] A história humana conheceu inúmeros triunfos e – para as pessoas de sorte – avanços imensos a riqueza, no bem-estar social e no controle sobre o meio ambiente. [...] Há menos de 100 mil anos, a espécie humana somava apenas cerca de 10 mil pessoas, vagando em pequenos bandos pela savana africana. Hoje existem mais de 6 bilhões de seres humanos, espalhados por cada canto do planeta. A despeito dessa população assombrosa, os mais afortunados – e isso corresponde a muita gente – estão razoavelmente bem alimentados e gozam de uma vida confortável quanto a moradia, saúde, alimentação e água potável, viagens e entretenimento com que nossos tataravós mal poderiam ter sonhado.

[...]

AYDON, Cyril. A história do homem: uma introdução a 150 mil anos de história humana. Rio de Janeiro: Record, 2011. p. 387-395.

segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

Nas origens dos tabus


"O Tribunal da Inquisição", Pedro Berruguette. Destinada a julgar casos de heresia, a Inquisição foi ativada pelo movimento da Contrarreforma, resposta nos países de tradição católica (principalmente em Portugal e Espanha) às doutrinas expressas pela Reforma Protestante.


Está claro que na Política e na História muitos tabus incidem sobre a origem das instituições que exercem uma autoridade sobre a sociedade, em conveniência ou não com a própria sociedade.

Assim, emana da cristandade um certo número de tabus, e um dos mais antigos e mais duráveis, relativos à autoridade, que foi atribuído ao papado.

De uma parte, o papado auto-rotula sua origem como divina, tendo Jesus Cristo, depois de sua ressurreição, confirmado a Pedro seu encargo de vigário de Deus sobre a Terra, dando assim ao primeiro bispo de Roma uma proeminência sobre os outros papas, título este atribuído, à época, a todos os bispos.

A essa origem foi agregada uma primazia, apoiada na Doação de Constantino, segundo a qual este imperador, quando de sua conversão ao cristianismo, teria conferido ao papa de Roma, Silvestre I (314-335), a primazia sobre os metropolitanos de Jerusalém, Antioquia, Constantinopla e Alexandria, assim como a posse de Roma e da Itália. O papado inserirá esse texto nos Decretos - regulamentos eclesiásticos -, destinados a afirmar os direitos dos papas sobre os soberanos.

Ora, por volta de 1436, ao definir as regras e os métodos da crítica histórica, Lorenzo Valla demonstra que esta doação era falsa. O diagnóstico foi público e Lorenzo Valla viu-se obrigado a buscar refúgio em Nápoles, sob a proteção do rei de Aragão.

Desde essa data, denunciar a ilegitimidade dos poderes atribuídos aos papas é tabu, e o povo cristão não sabe disso; a historiografia laica, ela própria, só evoca esses fatos furtivamente, por ocasião de progressos feitos pelo conhecimento, e da crítica dos textos, na época do Humanismo e do Renascimento.

Por outro lado, esse povo ignora que, segundo pesquisas mais recentes, a famosa doação não foi uma maquinação desonesta comandada pelo papado - como vem acreditando, embora não o diga há cinco séculos -, e sim uma espécie de tratado ou de manifesto redigido em meados do século VIII, que enumerava as vantagens e os direitos já adquiridos pelo papado. O texto tinha certamente uma origem clerical romana, e constituía o relato hagiográfico da figura de Pedro, o magnificente, como o papa Silvestre I, e valorizava a basílica de Latran, dedicada a São Salvador. O todo estava apresentado sob forma jurídica - e sua origem era atribuída ao imperador Constantino, quando na verdade esse texto emanava de um clérigo de nível inferior que queria glorificar sua própria Igreja.

Hoje, o papado é uma força moral e política considerável, e seria levantar um tabu lembrar aos papas de nosso tempo que uma parte de seu poder, ou de sua autoridade, repousa sobre um erro grosseiro.

Uma espécie de tabu reina igualmente sobre as origens míticas do Estado e da realeza na França. Redigidas a partir do século XIII, as Grandes Croniques de France [Grandes crônicas de França] evocam as origens troianas e cristãs do povo francês, recorrendo a dois acontecimentos lendários: a queda de Tróia e a conversão de Clóvis. Por ter demonstrado que os reis de França não descendiam dos príncipes de Tróia, mas que eram herdeiros de simples guerreiros francos a que Roma dava o nome de bárbaros, Nicolas Freret, um erudito, foi encarcerado por Luís XIV na Bastilha: o que prova que este historiador não tinha o senso da História...

Sobre as origens do poder bolchevique, em outubro de 1917, reina igualmente um verdadeiro tabu, que não se refere, na verdade, à base de dados que relatam o levante, mas que não é menos revelador, simultaneamente, do comportamento de Lenin e do comportamento ulterior dos historiadores soviéticos, ou mesmo dos comunistas de outros países.

E onde se aninha esse silêncio opaco?

Ninguém duvida que, considerada globalmente, a insurreição de outubro de 1917 foi um movimento de massa insuflado pelas organizações revolucionárias e por outros soviéticos, majoritários em Petrogrado e na maior parte das grandes cidades russas. Em sua liderança estava, com frequência, o partido bolchevique que, desse modo, colocou fim a uma situação onde um governo sem Estado - Kerensky - deixava uma prova de força para um Estado sem governo - os comitês e os sovietes. Foi a ação de Lenin que levou o partido bolchevique a sustentar o princípio de uma insurreição, da qual aparentemente não tinha necessidade, visto que no II Congresso dos Sovietes seria majoritário; mas esse movimento permitiu prevenir uma ação que poderia impedir a reunião do congresso. Aí é que reside o primeiro silêncio da História tradicional, esse pequeno golpe de Estado cometido por Lenin, que escreveu de próprio punho, sem consultar ninguém, uma proclamação que anunciava, antes do Congresso, a derrubada do governo provisório pelo comitê revolucionário provisório, uma instituição controlada pelo partido que constituía o braço militar do soviete de Petrogrado. Esse comitê não fora minimamente legitimado para substituir o soviete de Petrogrado e, menos ainda, o Congresso dos Sovietes. Sua função era a de "proteger o Congresso", não a de tomar o poder, em seu lugar. Além disso, Lenin, em uma primeira versão manuscrita da proclamação que figura nos arquivos oficiais, havia escrito: "O comitê convoca nesse dia, para as doze horas, o soviete de Petrogrado. Medidas imediatas são necessárias para a constituição de um poder soviético". Em seguida, Lenin rasurou sua frase. Este ato falho é significativo: Lenin desconfia da legalidade revolucionária do soviete de Petrogrado - quer dizer, de Trotski - e do espírito democrático de alguns de seus amigos bolcheviques do soviete, tal como Kamenev [...]. Lenin [...] desautoriza o soviete de Petrogrado e o Congresso que não tem mais nada a homologar. [...]

[...] nenhum historiador soviético, de Trotski a Mints, as comentou. É bem compreensível o incômodo que teriam sentido os edis do regime soviético com o reconhecimento de que o poder atribuído ao partido repousava em parte sobre um erro.

No tempo da cristandade, o exemplo do cemitério de Auvezines, no Tarn, era edificante. Tal exemplo comprova que negar as crenças da fé é um tabu, e que o tabu, nesse caso, se junta ao mito.

Em Auvezines, então, há alguns anos, figurava na porta do cemitério uma placa onde estava escrito: "Em 1211, aqui, foram massacrados 600 cavaleiros teutônicos". Este grande fato, ligado à cruzada dos Albigenses, faz evidentemente alusão à batalha de Montgey, mas o cemitério em questão é minúsculo. Encontra-se ali a síndrome histórica do cerco de Alésia, cujas plantas mostram bem que a praça forte não podia certamente abrigar 80 mil gauleses. Em Auvezines, se o termo "teutônico" faz referência aos exércitos do rei Luís VIII, esta denominação representa bem o abismo que separa os occitânicos dos "bárbaros do norte"; assim o número de mortos revela um desses milagres que contam os relatos sobre as cruzadas: por exemplo, na estrada de Jerusalém, o corpo de Castelnau, morto por numerosos golpes de espada, é reencontrado intacto; na estrada daqueles que vão para Albi, o pão é semeado, também milagrosamente. Desse modo, apenas os homens de Deus não morrem!

Em um país comunista, os crentes também julgam sacrilégio todo questionamento sobre um deus. Uma crença quirguiz, curiosa e irônica, pergunta ao professor de fé inabalável que anunciava aos alunos que o capitalismo iria morrer logo:

- E Lenin, vai morrer também?

O mestre a fuzila com o olhar: a criança havia quebrado um tabu.

O tabu exerce muitas vezes uma função de autodefesa. Sempre, na tradição cristã, essa função aparece na ocasião das guerras religiosas. A História tradicional evocou essas guerras sob essa denominação, omitindo o fato de que na época não eram chamadas assim. [...] Porque a tradição quer fazer crer que os protestantes se sublevaram somente pela liberdade de sua fé, em nome de um princípio sagrado - o da livre leitura da Bíblia - e de uma melhor prática religiosa. Os católicos creditam ao rei a ordem de deflagração da noite de São Bartolomeu - até onde podem provar -, mas não acham que foi verdadeiramente sua responsabilidade e que ele agira sob a influência de sua mãe, uma "estrangeira", italiana, ou de um grupo de fanáticos [...]. Tentam deixar passar a ideia de que, certamente, o rei cometera o gesto que acelerou ou aprofundou o processo dos massacres, mas que, pessoalmente, ele era inocente. E sua defesa, assim, é assegurada.

Esses dois modos de apresentação são ilusórios. Na verdade, embora sem dizê-lo, os protestantes desejavam instaurar uma república à la Calvino: eles não podem admiti-lo porque supostamente se batem pela liberdade da fé. [...] Os protestantes esconderam suas aspirações por trás da exigência de uma pureza religiosa que não era necessariamente o caso deles. No século XVI, o corpo protestante se compõe em geral de pessoas instruídas ou de nobres e, mesmo nessa época, eles não representavam os grupos sociais mais inclinados a querer, de fato, ler a Bíblia textualmente. Até mesmo alguns se manifestaram sinceramente hostis à Igreja por múltiplas razões, entre elas a de que esta não merecia mais ser o guia dos cristãos. [...] E, quanto aos católicos, estes criticavam a monarquia, fingindo defender o rei. Na tradição histórica, eles dizem que o rei não era verdadeiramente culpado das violências cometidas durante essas guerras, mas, na realidade, eles censuravam sim, há algum tempo, a monarquia por não ser mais subordinada à Igreja e ao papado [...]. Existe ainda uma espécie de combinação involuntária entre católicos que glorificam  o rei, enquanto querem diminuir sua autoridade, e protestantes que, em nome de diversas liberdades, sonham com uma república à moda de  Genebra, quando não há regime mais autoritário do que aquele instaurado por Calvino. Eis aí o exemplo de um duplo tabu, sutil, do qual a tradição histórica não se deu conta. É verdade que a plebe, em sua maioria católica, luta em nome da religião.

Ao lado dos tabus de origem cristã ou monárquica, a república segrega igualmente os seus. [...]

A tradição histórica faz da Revolução de 1789 a mãe e a matriz do projeto republicano. Mas omite a existência dessas repúblicas "aristocráticas", como a de Veneza, ou "patrícias", como a de Genebra. E também relega a revolução americana, facilmente definida como uma guerra de independência.

[...]

Na França, a tradição republicana faz do país a encarnação da revolução, da liberdade, da igualdade, da fraternidade, dos direitos do homem e da civilização no quadro expansionista colonial. [...] Os diferentes países da Europa deveriam, por isso, olhar a França com inveja - e o regime republicano constituiria para os franceses uma espécie de modelo no qual deveriam necessariamente se inspirar os outros povos. [...]

[...]

Diferente por sua formulação, mas exercendo igualmente uma função de exorcismo, também há o tabu da historiografia negra no Caribe anglófono. Não querem saber que o tráfico e a escravatura tiveram por vítimas essencialmente os negros. No livro Our Heritage [Nossa herança], destinado aos estudantes, é lembrado que, na cidade de Alger, no século XVIII, havia escravos brancos e negros, o que é verdade. E que, em algum momento de suas histórias, todos os povos tiveram de ser escravos, o que poderia ser verdade. Mas o que há de mais bonito, enunciado a seguir, é que os ingleses foram, evidentemente, escravos dos romanos, e que de lá vem seu nome: dos anges. E, além disso, a única ilustração do capítulo sobre escravidão mostra duas crianças inglesas sendo levadas por um centurião romano.

Dizer que os negros foram as principais vítimas do tráfico e da escravidão é humilhante, por isso o silêncio, e por isso também é que, na conferência de Durban (2001), que tratava da questão da indenização dos descendentes de africanos vítimas do tráfico nos séculos XVII e XVIII - como foi feito com os judeus no século XX -, houve delegações que se recusaram a comparecer e associar-se a tal reivindicação.

Entre os armênios, o tabu funciona de modo diverso. Sua tradição histórica é polarizada pela ideia de que são um povo mártir. Há trinta anos, eles tomaram o lugar dos judeus, antes que os curdos lhe fizessem concorrência, assim como os bósnios etc. Hoje, quando a ideologia dos direitos do homem tomou conta dos estados-nações, cada povo inventaria os crimes de que foi vítima. Assim, a memória armênia atual faz da história desse povo um longo martírio do qual o "genocídio" de 1915 foi o apogeu. Lembra, no entanto, que os armênios constituíram o primeiro estado cristão da História, antes do Império romano: desse modo, glorificação e martírio fazem dos armênios um povo maravilhoso.

Os historiadores armênios não insistem, entretanto, na surpreendente prosperidade das comunidades armênias nos séculos X e XVIII: Fernand Braudel descreveu-a em seu livro Méditerranée, mas os armênios se recusam a lembrá-la. Mártires, sim; ricos, não. Esses historiadores não gostam de lembrar tampouco que no final do século XIX, com os búlgaros, eles inauguraram a prática do terrorismo, sobretudo contra as instituições do Estado otomano, como o Banco de Istambul. [...]

[...]

Outro tabu dentro do mundo dos comunistas [...], dos anticomunistas do Ocidente e dos anti-semitas é a importância do número de não-russos e de judeus - todos agnósticos, apesar de reconhecidos como judeus - no movimento revolucionário: dos 264 bolcheviques mais notórios, recenseados por Granat em 1920-1924, 119 são alógenos, e perto de um sexto deles é originário do gueto. Mas Zinoniev, Radek, Kamenev ou mesmo o menchevique Martov não são tidos como judeus. [...]

Quanto a Lenin, um tabu reinava sobre as origens de sua família, mas havia uma anedota no fim do regime comunista: "Seus ancestrais? Alemães, judeus, tártaros...". Os três inimigos da Rússia.

[...]

FERRO, Marc. Os tabus da história. Rio de Janeiro: Ediouro, 2003. p. 25-40.