"Os espelhos estão cheios de gente.
Os invisíveis nos vêem.
Os esquecidos se lembram de nós.
Quando nos vemos, os vemos.
Quando nos vamos, se vão?"
Eduardo Galeano: Espelhos
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quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017

As moradas dos vivos no Egito Antigo

Modelo de uma casa

A impressão de poder é produzida principalmente pelas realizações arquitetônicas ou, ao menos, por aquelas das quais ainda subsistem traços suficientes. Isto porque os nossos conhecimentos têm limites. Inicialmente, de ordem cronológica: o Médio Império está mal representado; a maior parte dos túmulos desta época, construídos de tijolos, não constituem hoje em dia senão montículos informes; os templos, certamente edificados em grande número e de maneira mais sólida, sofreram, em seguida, múltiplas transformações. Mas, além disto, encontramo-nos tolhidos por limites de ordem lógica.

Com efeito, para tudo o que se destinava aos homens durante sua vida terrena, uma preocupação de rapidez levava à utilização preferencial de materiais mais facilmente encontráveis: sobretudo os tijolos crus, hoje desmoronados e desagregados. Nestas condições, os próprios palácios reais escapam, ou quase, às tentativas de reconstituição: só nos deixaram alguns revestimentos das paredes ou do solo, algumas escavações, onde podemos adivinhar a localização dos lagos para diversões, assinalados nos textos; tais restos empalidecem diante de tantas ruínas monumentais. Se isto se verifica com os palácios, que dizer, então, das casas particulares e, mais ainda, das cidades?

Não obstante, as escavações arqueológicas forneceram algumas indicações. Por exemplo, o sítio de uma cidade temporária, organizada sob o Médio Império, junto a uma oficina de construções, pôde ser pesquisado tanto mais comodamente quanto o fim dos trabalhos provocara o seu abandono. Aí foi possível levantar o plano das casas estandartizadas, tanto para o pessoal de direção, como para os trabalhadores: tudo isto muito indistinto, é verdade, tanto assim que não nos é permitido determinar, nas grandes casas, a finalidade da maioria dos cômodos. Limitemo-nos a assinalar o estrito fechamento das casas para o exterior, o longo corredor com um cotovelo e que levava ao pátio principal, onde havia um pórtico num dos lados maiores; os pátios ou pátiozinhos internos com colunas e tanques, os terraços que, acima dos cômodos, permitiam acesso fácil à frescura da noite: em suma, organizações que correspondiam ao duplo desejo de intimidade doméstica e conforto. Quanto às moradas populares, edificadas num bairro especial, separado do bairro rico por uma muralha, limitavam-se a três ou quatro aposentos exíguos, formando um elemento, por sua vez, articulado num conjunto monótono, de plano geométrico: um tabuleiro de casinholas.

Pondo-se de lado os jardins e a contiguidade, foram encontrados em outras partes, conforme a classe social interessada, ora a procura da vida agradável, ora a humildade. Mas nada temos, lá, que nos surpreenda e seja verdadeiramente original. O mesmo não acontece com os templos e túmulos, monumentos feitos de materiais sólidos - não faltava pedra para isto - e, por definição, construídos para uma eternidade que não lhes faltou.

AYMARD, André; AUBOYER, Jeannine. O Oriente e a Grécia: as civilizações imperiais. São Paulo: Difel, 1972. p. 91-3. (História geral das civilizações, 1).

quarta-feira, 27 de julho de 2016

Casas e lares nas primeiras comunidades agrícolas

Vila aruaque.
 G.W.C. Voorduin

Desde os primeiros tempos, os seres humanos buscaram abrigo e proteção contra as intempéries. Os primeiros povos nômades aproveitavam o abrigo natural das cavernas, formações rochosas e florestas ou construíam choças de galhos cobertos com couro de animais.

Com a chegada da agricultura, os povos puderam se instalar em um só lugar e construir lares mais duráveis. Os celtas – antigo povo europeu – construíam casas redondas com paredes baixas de pedra ou de ramos e galhos entrecruzados e cobertos de lama. O telhado era uma estrutura de galhos coberta com feixes de palha amarrada.

Casas e lares nas primeiras comunidades agrícolas. 
Albert Bushnell Hart, William Scott Ferguson, Charles Howard McIlwain, Everett Kimball,  Matteson, David Maydole Matteson, Noah Webster


As comunidades neolíticas do Oriente Médio aprenderam a fazer tijolos pressionando a argila em moldes de madeira e deixando-a secar ao sol. Por serem fortes, duráveis e fáceis de produzir, os tijolos de argila se tornaram o material de construção mais importante da região.

Quando uma casa de arruinava, era logo derrubada e substituída por outra nova.


WOOLF, Alex. Uma Nova História do Mundo. São Paulo: M. Books do Brasil, 2014. p. 17.

sábado, 23 de abril de 2016

Os apartamentos e a massificação da moradia em São Paulo na década de 1930

São Paulo (Gazo), 1924, Tarsila do Amaral

A resistência à moradia coletiva, discriminada pelos discursos oficiais como sinônimo de todas as desgraças sanitárias presentes nas capitais brasileiras desde o Império, foi aos poucos arrefecendo diante da novidade constituída pelos apartamentos, inicialmente dirigidos aos segmentos mais abastados das grandes cidades. O receio de decair socialmente, advindo do desprezo para com as coabitações, foi vencido com a adoção de acabamentos custosos utilizados nos revestimentos externos e nas áreas internas de circulação dos edifícios. Justificava-se, assim, o apelo da denominação dos primeiros edifícios "palacetes", palavra consagrada, capaz de atenuar hesitações ou preconceitos.

Em São Paulo, os edifícios de apartamentos foram ocupando muitos dos bairros que eram abandonados pelas elites, aproveitando os grandes lotes, a arborização das ruas ou o prestígio, empanado, dos antigos bairros elegantes. Os "palacetes" foram erguidos diretamente nas calçadas, como nas capitais europeias oitocentistas, padrão que entraria pela década de 30. Os bairros de Santa Ifigênia, mas sobretudo Vila Buarque e Santa Cecília, são regiões que testemunham o primeiro modelo de verticalização, o qual guarda na ausência de recuos, nas portarias com acabamentos luxuosos e no próprio gabarito de sete ou oito andares a referência direta às experiências de edificação das cidades europeias.

Mas as características de privacidade e isolamento experimentadas nos bairros de palacetes e nos "jardins" acabariam se repetindo na verticalização da moradia. Dispositivos da legislação paulistana exigiram, já em 1937, que os edifícios erguidos nos bairros residenciais privilegiados guardassem recuos laterais e frontais. Isso assegurou a insolação e ventilação aos apartamentos e ao interior dos quarteirões, ao mesmo tempo que se repetia o afastamento entre os espaços público e privado, inseridos naqueles bairros quando abrigavam os palacetes. Higienópolis é o exemplo mais consistente de substituição das casas por edifícios de apartamentos dentro das exigências de 1937, num paradigma do modelo que se reproduziria em quase todos os bairros que não encontravam limites ao adensamento, como aqueles da Companhia City. As pressões por moradia, que permaneciam nas bordas da mancha dos bairros de elite, deveriam se afastadas o quanto possível das áreas centrais, a fim de evitar o encortiçamento dos antigos sobrados e palacetes - e a desvalorização definitiva dos bairros já "decadentes". O Plano de Avenidas, sugerido para São Paulo pelo engenheiro e depois prefeito Prestes Maia, e que foi implementado ao longo das décadas seguintes, coincidiu com a necessidade de preservar as vizinhanças dos bairros privilegiados, mediante o redirecionamento do crescimento daqueles populares.

Prestes Maia preconizou a abertura de grandes artérias radiais que partiam para os bairros, enfeixadas em torno de uma avenida perimetral à área central. A execução de seu projeto, iniciada a partir de 1938, quando ele já era prefeito de São Paulo. garantiu acesso rápido aos arrabaldes, viabilizando o crescimento atabalhoado e especulativo gerado pela venda de lotes populares, destinados a aluguel ou autoconstrução. A verticalização foi também facilitada, seja por meio da ampliação da altura total dos edifícios, seja por meio de novas vias públicas implantadas pelo projeto de Prestes Maia, que deveriam receber o incremento do fluxo gerado nos bairros adensados horizontal ou verticalmente.

MARINS, Paulo César Garcez. "Habitação e vizinhança: limites da privacidade no surgimento das grandes metrópoles brasileiras." In: SEVCENKO, Nicolau (org.) História da vida privada no Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 1998. v. 3.

domingo, 17 de abril de 2016

Cortiços e epidemias na Corte Imperial

Típico cortiço no Rio de Janeiro na época imperial

As classes pobres não passaram a ser vistas como classes perigosas apenas porque poderiam oferecer problemas para a organização do trabalho e a manutenção da ordem pública. Os pobres ofereciam também perigo de contágio. Por um lado, o próprio perigo social representado pelos pobres aparecia no imaginário político brasileiro de fins do século XIX através da metáfora da doença contagiosa: as classes perigosas continuariam a se reproduzir enquanto as crianças pobres permanecessem expostas aos vícios de seus pais. Assim, na própria discussão sobre a repressão à ociosidade, que temos citado, a estratégia de combate ao problema é geralmente apresentada como consistindo em duas etapas: mais imediatamente, cabia reprimir os supostos hábitos de não-trabalho dos adultos; a mais longo prazo, era necessário cuidar da educação dos menores.

Por outro lado, os pobres passaram a representar perigo de contágio no sentido literal mesmo. Os intelectuais-médicos grassavam nessa época como miasmas na putrefação, ou como economistas em tempo de inflação: analisavam a "realidade", faziam seus diagnósticos, prescreviam a cura, e estavam sempre inabalavelmente convencidos de que só a sua receita poderia salvar o paciente. E houve então o diagnóstico de que os hábitos de moradia dos pobres eram nocivos à sociedade, e isto porque as habitações coletivas seriam focos de irradiação de epidemias, além de, naturalmente, terrenos férteis para a propagação de vícios de todos os tipos.

Ao que parece, os administradores da Corte começaram a notar a existência de cortiços na cidade nos primeiros anos da década de 1850. Uma epidemia de febre amarela, em 1850, e outra de cólera, em 1855, elevaram bastante as taxas de mortalidade e colocaram na ordem do dia a questão da salubridade pública, em geral, e das condições higiênicas das habitações coletivas, em particular. Foi criada então a Junta Central de Higiene, órgão do governo imperial encarregado de zelar pelas questões de saúde pública, e a Câmara Municipal da Corte passou a discutir medidas destinadas a regulamentar a existência das habitações coletivas.

Em setembro de 1853, a comissão de posturas da Câmara analisou um projeto de "Regulamento dos Estalajadeiros", que lhe fora encaminhado pela Secretaria de Polícia. É lógico que a preocupação das autoridades policiais era "prevenir que pessoas suspeitas achem fácil abrigo nas casas a que ele se refere, mais ainda a evitar desordens, e outros crimes que por ventura possam ser cometidos. [...]  Entre as medidas destinadas a facilitar a vigilância da polícia, havia a obrigatoriedade de o estalajadeiro possuir um livro de controle de entrada e saída de hóspedes ou moradores, e no qual estes estariam cuidadosamente identificados. Os subdelegados deveriam visitar frequentemente as habitações coletivas, certificando-se de que lá não se encontravam vadios, estrangeiros em situação irregular e pessoas "suspeitas", ou que causassem desconfianças e receios" - uma categoria tão abrangente e ambígua que era potencialmente útil contra quaisquer dos moradores de tais habitações.

[...]  


É possível discernir com clareza o eixo fundamental de toda essa primeira década de discussão sobre os cortiços: era necessário melhorar as condições higiênicas das habitações coletivas existentes. Tratava-se primordialmente de uma preocupação com a qualidade da habitação popular, de legislar no sentido de obrigar os proprietários a construir residências que zelassem minimamente pela saúde dos moradores - deveria haver coleta regular de lixo, latrinas limpas e em número suficiente, calçamento, janelas amplas etc. A maneira de encarar o problema, todavia, iria mudar radicalmente nas décadas seguintes: na formulação de Maurício de Abreu, a ênfase deixaria de ser prioritariamente a forma, as condições da moradia, e passaria a ser o espaço, o local da habitação.

[...]

O primeiro fruto da nova maneira de pensar a questão surgiu com a postura de 5 de dezembro de 1873: "Não serão mais permitidas as construções chamadas cortiços entre as praças D. Pedro II e Onze de Junho, e todo o espaço da cidade entre as ruas do Riachuelo e do Livramento". Em setembro de 1876, outra postura reforçaria a proibição, esclarecendo que a interdição à construção de 'cortiços' valia mesmo quando os proprietários insistissem em chamá-los "casinhas ou com nomes equivalentes". Estavam se engendrando os instrumentos legais para a guerra de extermínio contra os cortiços ou - o que dá quase no mesmo - para a política de expulsão das "classes pobres"/"classes perigosas" das áreas centrais da cidade.

CHALHOUB, Siddney. Cidade febril - Cortiços e epidemias na Corte Imperial. São Paulo: Companhia das Letras, 1996. p. 29-30, 33-4.

segunda-feira, 17 de novembro de 2014

Os significados do vestuário, da moradia, da alimentação e do lazer na sociedade medieval

O vestuário designa todas as categorias sociais, é um verdadeiro uniforme. Levar vestuário de uma condição diferente da sua é cometer o pecado capital da ambição ou da degradação. O pannous (o indigente vestido de farrapos), é desprezado. [...] As regras monásticas fixam cuidadosamente o hábito dos seus membros – mais por respeito pela ordem que pela preocupação de evitar o luxo.

[...] As ordens mendicantes iriam mais longe e vestiriam burel, tecido cru. Seriam os monges pardos. Cada nova categoria social se apressa a criar o seu vestuário. Assim fazem as corporações e, em primeiro lugar, a corporação universitária. Dá-se atenção especial aos acessórios que mais particularmente determinam o grau: os chapéus e as luvas. Os doutores usam compridas luvas de camurça e boina. Os cavaleiros reservam para si as esporas. Fato curioso para nós: o armamento medieval é demasiado funcional para constituir um verdadeiro uniforme. Mas os cavaleiros, ao criar a nobreza, juntam ao elmo, ao escudo e às espadas as armarias. Nasceu o brasão.

Os ricos exibem o luxo do vestuário, que se mostra na qualidade e quantidade do tecido: panos pesados, amplos, finos, sedas  bordadas a ouro; mostra-se também nos enfeites: as cores, que mudam com a moda – o escarlate, dependente dos corantes vermelhos...

A casa é a última manifestação da diferenciação social. A casa do camponês é de adobe ou de madeira [...]. Geralmente, reduz-se a um só compartimento e tem por chaminé uma abertura no telhado. Pobremente mobiliada e apetrechada, não cativa o camponês. A sua pobreza contribui para a mobilidade dos camponeses medievais.

As cidades são ainda construídas, principalmente, de madeira. São fáceis presas para os incêndios. O fogo é um grande flagelo medieval. [...] A Igreja não tinha grande dificuldade em persuadir os homens da época de que eram peregrinos neste mundo. Mesmo sedentários, raramente tinham tempo de apegar-se às suas casas.

Já o mesmo não sucede com os ricos. O castelo é sinal de segurança, de poderio e de prestígio. No século XI erguem-se as torres e vence a preocupação da defesa. Em seguida, precisam-se os encantos da habitação. Continuando bem defendidos, castelos passam a dar mais lugar aos alojamentos e criam edifícios de habitação dentro das muralhas. Mas a vida ainda se concentra na sala grande. O mobiliário é diminuto. As mesas, em geral, são desmontáveis e, uma vez concluídas as refeições, são retiradas. O móvel normal é a araçá ou baú, onde são arrumadas as roupas ou a baixela. Esta é de um supremo luxo, resplandece e é também uma reserva econômica. [...] Outro luxo está em tapeçarias, que são, também, utilitárias: postas ao alto, fazem de biombo e separam as câmaras. São transportadas de castelo em castelo e recordam a este povo de guerreiros a sua habitação por excelência, a tenda.

Cena de casa de banhos. Miniatura anônima do século XV

Mas talvez as grandes damas – é o mecenato das mulheres – levem mais longe o rebuscamento da ornamentação de interiores. Segundo Baudri de Bourgueil, a câmara de dormir de Adèle de Blois, filha de Guilherme, o Conquistador, tinha nas paredes tapeçarias que representavam o Antigo Testamento e as Metamorfoses, de Ovídio, e panejamentos bordados com a história de Inglaterra. As pinturas do teto representavam o céu com a Via Láctea, as constelações, o zodíaco, o Sol, a Lua e os planetas. O chão era um mosaico que representava um mapa-múndi com monstros e animais. Um leito com baldaquino era sustentado por oito estátuas [...].

O sinal do prestígio e da riqueza era a pedra, ao torres que rodeavam o castelo. O mesmo faziam na cidade, por imitação, os burgueses ricos: “casa forte e bela”, como se dizia. Mas o burguês iria ligar-se à casa e mobiliá-la. Também neste aspecto daria à evolução do gosto a sua marca característica inventando o conforto.

Cena de banquete. Miniatura do século XV. Artista desconhecido

A alimentação [...] foi uma obsessão da sociedade medieval. A massa campesina tinha de contentar-se com pouco. A base da sua alimentação eram as papas. O principal acompanhamento reduzia-se frequentemente aos produtos de apanha. Mas o [...] acompanhamento de pão espalhou-se em todas as categorias sociais nos séculos XII e XIII – e foi então que o pão tomou verdadeiramente no Ocidente a significação quase mítica que a religião lhe dá. A classe campesina tem, porém, uma festa alimentar: a matança do porco, em dezembro, cujos produtos alimentam os festins do fim do ano e as refeições do longo inverno...

A alimentação é a principal oportunidade que têm as classes dominantes da sociedade para manifestar a sua superioridade nesse essencial domínio das aparências. O luxo alimentar é o primeiro de todos. Exibe os produtos reservados: a caça das florestas senhoriais, os ingredientes preciosos, especiarias compradas por alto preço, e os pratos raros, preparados pelos cozinheiros. [...] A mesa senhorial é também uma oportunidade para exibir e fixar as regras de etiqueta. [...]

Cena de caça. Dezembro (detalhe). Livro de Horas do Duque de Berry, Irmãos Limbourg. Século XV

Uma vez satisfeitas as necessidades essenciais da subsistência e, quanto aos ricos, as exigências – não menos essenciais – do prestígio, pouco ficava aos homens da Idade Média. Sem as preocupações com o bem-estar, sacrificavam tudo às aparências quando isso estava nas suas possibilidades. As suas únicas alegrias profundas e desinteressadas eram a festa e os jogos, mas, nos grandes, a festa era também ostentação e autopropaganda.

Cena de torneio, Barthélémy d'Eyck. Século XV

O castelo, a igreja, a cidade eram cenários teatrais. É sintomático que a Idade Média não tenha tido um local especial para as representações teatrais. Os palcos e as representações eram improvisados onde houvesse um centro de vida social. Na igreja, as cerimônias religiosas eram festas, e é do drama litúrgico que sai o teatro. No castelo, os banquetes, os torneios, os espetáculos dos trovadores, dos jograis, dos bailarinos e dos domadores de ursos sucedem-se. Na cidade, os teatros de saltimbancos erguem-se nas praças [...]. Todas as classes da sociedade fazem das suas festas familiares cerimônias ruinosas: os casamentos deixam os camponeses na pobreza durante anos, e os senhores durante meses. O jogo exerce uma singular sedução sobre esta sociedade alienada. Escrava da natureza, entrega-se ao acaso: os dados rolam em todas as mesas. Prisioneira de rígidas estruturas sociais, faz da própria estrutura social um jogo: é o caso do xadrez [...]. Projeta e sublima as suas preocupações profissionais em jogos simbólicos e mágicos: os torneios e os desportos militares exprimem a essência da vida cavalheiresca e as festas folclóricas, o ser das comunidades campesinas. [...] E, em especial, a música, o canto, a dança arrastam todas as classes sociais...


LE GOFF, Jacques. A civilização do Ocidente Medieval. Lisboa: Estampa, 1984. v. 2. p. 88-9, 91, 121-7.

sábado, 1 de dezembro de 2012

Destronando a colheita: a vida cotidiana entre 1500 e 1800 [das margens do Mar do Sul na China às margens dos lagos do interior da América]

Os comedores de batatas, Vincent Van Gogh

Na Europa e Ásia, uma família típica vivia praticamente à base de pão. Fosse em 1500 ou 1800, na França ou na China, a maioria das famílias não possuía terras, ou então, dispunha de propriedades muito pequenas que mal garantiam sua alimentação, mesmo nos anos de fartura. Inúmeros homens e mulheres solteiras deixavam suas minúsculas fazendas ou seus vilarejos rurais para trabalhar em outras fazendas ou em outros negócios. Geralmente, recebiam refeições gratuitas enquanto estavam no trabalho, e essas representavam uma parte considerável de seus ganhos.

Uma boa parte do trabalho rural ficava com as mulheres ou crianças jovens: capinavam as plantações, cuidavam dos gansos, carregavam água do poço para a casa, enrolavam as fibras e faziam tecidos, produziam cerveja, saíam à procura de ervas que serviam de remédios, colhiam lenha para o fogão e esterco para as plantações.

O fim do dia de trabalho, Jules Breton

Revirar os lugares à procura de comida e procurar forragem eram quase uma forma de vida. Um camponês que possuísse uma vaca e um pequeno pedaço de terra podia mandar que seus filhos, todos os dias durante o verão, cortassem capim à beira da estrada. [...] Nas florestas, procuravam-se cogumelos e frutas silvestres, e colhiam-se ovos de aves. [...] A vida cotidiana, em todas as partes do mundo, concentrava-se na produção de alimentos.


As respigadeiras, Jean-François Millet

Em 1800, em todo o mundo, alguns milhões ainda eram caçadores e lavradores, mas a maioria era de fazendeiros. Sua vida cotidiana era regida pelo sol e pela chuva. Das margens do Mar do Sul da China às margens dos lagos do interior da América, o acontecimento de triunfo no calendário econômico era trazer para casa a colheita [...].

Os grãos dominavam a mesa de refeição [...]. Uma grande parte dos grãos era comida na forma de pão, mas alguns acabavam chegando às bocas na forma de mingaus e sopa. O mingau de aveia, servido bem quente, era devorado com voracidade durante o inverno. Em épocas de fome, a água era adicionada em abundância a um pouco de farinha com o intuito de dar alívio temporário à sensação de fome. [...] Na Rússia e na Polônia, a kasha, um mingau feito de centeio, tinha aspecto mais fino e aguado quando as colheitas eram mais escassas.

Repasto de camponês com um jovem mendigo, Giacomo Francesco Cipper

Em muitas terras europeias, os grãos, principalmente a cevada, eram também usados para a produção de cerveja. Na Inglaterra, a cerveja caseira, tomada em quase todas as refeições, era praticamente tão essencial quanto o pão na dieta diária. [...] Num renomado colégio interno de Londres, em 1704, o café-da-manhã consistia de pão e cerveja, enquanto os pobres que viviam nos asilos recebiam cerveja em quase todas as refeições. O chá, bastante consumido na China, era uma bebida reservada somente aos mais abastados na Europa. O café também era um luxo, com exceção das terras produtoras desse produto como a Arábia e o Brasil.


A colheita da batata, Jean-François Millet

Na Europa e na Ásia, os vários grãos provavelmente forneciam mais de 80% da dieta de uma casa típica. Na Europa, a padaria da rua do vilarejo era, na verdade, um supermercado simples com dois tipos de pão à venda. O mais apreciado era o pão de trigo, feito com farinha quase pura, ao passo que os pães mais baratos consistiam de farelo e grãos de segunda categoria. [...]

O fracasso ou semifracasso de uma colheita era frequente desde o Sudão até a China. Na Finlândia, no início de 1690, um longo período de fome chegou a matar um terço da população. A França, que nos anos de fartura praticamente transbordava com os mais finos alimentos, sofreu um período de fome nacional em 16 dos 100 anos após 1700. Esse século que terminou em revolução, foi provavelmente o pior para as colheitas desde o século XI.

A colheita seguinte geralmente era mencionada nas orações de mulheres jovens e solteiras. Se a colheita fosse farta, seu casamento já há muito planejado tinha grande chance de se realizar; se a colheita fosse insuficiente, o casamento seria adiado. As mulheres na Europa Ocidental geralmente só se casavam depois dos 24 ou 26 anos de idade. Os casamentos tardios eram a principal razão de as mulheres darem à luz somente quatro ou cinco filhos. [...]


A loteria, Vincent Van Gogh

Uma boa colheita não era o suficiente, às vezes ficava sob risco quando os celeiros eram invadidos por ratos. Os gatos eram mantidos dentro de casa, nos celeiros de grãos e estábulos mais porque eram caçadores de ratos do que por serem animais de estimação. [...]

[...]

Na Europa, os principais cereais colhidos pelos regimentos de lavradores que usavam suas foices eram o trigo e o centeio. As plantações de painço ou milho miúdo também ocupavam grandes extensões de terra no norte da China e África, bem como na Europa. [...] A aveia, outro grão de bastante uso, era dada aos cavalos que puxavam grandes carroças, em época de paz, e armas pesadas, em época de guerra. [...] nos países pobres do norte, tais como a Escócia, a mesma aveia era também a comida dos pobres. O arroz era o principal produto nas partes mais quentes da China [...]. O milho, o maravilhoso produto vindo das Américas, era cada vez mais cultivado nas planícies ribeirinhas do sul da Europa, mas o preço de suas maravilhosas safras era a exaustão do solo.

Dos alimentos consumidos nas típicas casas europeias e chinesas das zonas rurais, somente uma fração era produzida no local. O sal era o alimento em comum a ser transportado por longas distâncias. Em 1500, o transporte de sal rendeu fortunas aos carroceiros e donos de barcos. A cidade de Veneza tinha praticamente o monopólio do sal colhido ao longo do Mar Adriático [...]. O Báltico era o lar do comércio de arenques e para salgar os arenques frescos era necessário uma pequena montanha de sal todos os anos.


Camponesas bretãs, Paul Gauguin

A parte mais ao norte da Áustria possuía ricos depósitos de sal que eram escavados pelos mineradores, no subterrâneo. [...]

Pequenos vilarejos poderiam ficar sem sal enquanto esperavam a neve do inverno derreter. As donas de casa regozijavam-se quando as carroças ou, na China, as barcaças finalmente chegavam com sacas de sal. A maioria dos habitantes dos vilarejos comprava pouco sal e usavam-no moderadamente, uma simples "pitada de sal" era suficiente. [...]

O sal marinho ou certos tipos de algas produziam a soda, que, por sua vez, era um dos ingredientes do sabão. Em muitas partes da Europa, o outro ingrediente do sabão era o sebo, a gordura dos animais, ou uma mistura de azeite de oliva e óleo de semente de colza. Fazer sabão, portanto, era usar matérias-primas que, do contrário, seriam comidas. Em épocas de fome, a fabricação de sabão e, até mesmo, o ato de lavar com sabão era como roubar a comida da boca dos famintos.


A refeição, Paul Gauguin

Os indianos e os turcos eram mais interessados no sabão e na higiene pessoal que os europeus. Na verdade, a Europa Ocidental tinha o hábito mais regular de lavar o rosto e as mãos em 1300 do que em 1800. A Peste Negra provavelmente fez com que as pessoas se tornassem desconfiadas dos banhos como lugares onde as infecções pudessem ser adquiridas. Os banhos eram vistos como lugares de lascidão moral. Na Alemanha, a cidade de Frankfurt tinha 39 banhos em 1387, mas, um século e meio depois com uma nova autoconsciência da nudez, a cidade apresentava somente nove.

A saúde sofria à medida que as cidades do interior tornavam-se maiores. Nenhuma cidade grande possuía sistema de esgoto. O rio era o escoadouro favorito, e o esgoto de alguém, depois de flutuar correnteza abaixo por 200 metros, tornava-se a água de lavar ou de beber de outra pessoa. No sudeste da Ásia, por outro lado, o esgoto dos vilarejos e das cidades era geralmente transportado por carroças até campos adjacentes e colocado no solo como fertilizante. [...]

[...]

Para a típica família de trabalhadores em algumas regiões da Europa e da China, os anos de escassez eram intercalados por um ano ocasional de abundância. A partir de 1570 aproximadamente, colheitas exuberantes tornaram-se menos frequentes no norte da Europa. O clima tornou-se mais frio e os portos do Báltico, tais como o de Riga, eram fechados pelo gelo com mais frequência. Próximo ao Mediterrâneo, as plantações de oliveiras e seu jovem fruto começaram a ser atingidos pelas geadas com mais frequência. [...]

O prolongamento do inverno e o espalhamento das geleiras tendiam a separar o sul do norte da Europa. Entre a Itália e a Alemanha, as passagens nas montanhas, acessíveis na época de Lutero, podiam ser perigosas mesmo no início do verão. [...] A Alemanha teve anos extremamente favoráveis para o vinho entre 1603 e 1622. [...]

Camponeses fazendo música e dançando, Cornelis Pietersz Bega

Em relação à China, esta sofria com sua própria série de desastres naturais a cada século: suas epidemias, secas, enchentes e incêndios bem como aquele desastre profundo de autopunição: uma longa guerra. No norte da China, em 1557, houve um terremoto em que 830.000 mil pessoas foram mortas. Uma seca prolongada teria matado muitos mais através da fome e das doenças, que eram facilitadas pela desnutrição. [...]

[...]

O linho era um dos principais produtos do norte da Europa. Um produto têxtil antigo feito da planta do linho, dele vinham os panos de mumificação dos egípcios e as roupas de milhões de gregos e romanos. No início da era moderna, o linho era amplamente usado nas velas de navios, toalhas brancas de mesa e lençóis de cama [...], para fazer calças, macacões, aventais para crianças e, até roupas íntimas.

[...]

O algodão, um produto estrangeiro, foi uma ajuda especial para a Europa. Cultivado na Índia ou em plantações de escravos na outra extremidade do Atlântico, o calicó e outros artigos da Índia ajudaram a população da Europa a expandir-se, ao permitir que uma maior quantidade de suas terras fosse cultivada para alimentos. [...] Após 1820, a lã também chegou em quantidades cada vez maiores da Austrália e Nova Zelândia. [...]

[...]

No ano de 1800, a maioria das pessoas na Europa não tinha o costume de comprar nem um único item novo de vestuário das lojas e feiras. Faziam suas roupas em casa, herdavam-nas dos mortos ou compravam-nas de segunda mão das mulheres comerciantes que dominavam esse segmento de vestuário. [...] As roupas geralmente passavam de irmã para irmã mais nova, de irmão para irmão mais novo, e eram remendados, recosturadas, consertadas e cerzidas conforme mudavam de mãos.  [...]

Era um enorme esforço para a Europa, Ásia e África produzirem alimentos e roupas suficientes para manter sua população viva e bem. [...]

Dança de camponeses, Abraham Teniers

As casas na Ásia, Europa e África eram das mais simples: a maioria hoje seria chamada de favelas. Na Europa e na China, dividir a cama com alguém era normal, onde três ou quatro crianças se amontoavam. Às vezes, a família inteira dormia junto sobre um colchão feito em casa, cheio de palha colhida nas terras aráveis e renovado a cada época de colheita. [...]

Interior de uma habitação camponesa, Pieter Aertsen

[...]

A chaminé das casas era um pequeno buraco no telhado. A fumaça pairava dentro de casa e fornecia calor, bem como ardência nos olhos. Mesmo sob a luz do dia, as casas geralmente não tinham claridade suficiente e os vãos de janela consistiam não de vidro mas de folhas de janela feitas de madeira que, ao serem abertas, deixavam o frio e a luz entrar. [...]

BLAINEY, Geoffrey. Uma breve história do mundo. São Paulo: Fundamento Educacional, 2004. p. 172-179.