"Os espelhos estão cheios de gente.
Os invisíveis nos vêem.
Os esquecidos se lembram de nós.
Quando nos vemos, os vemos.
Quando nos vamos, se vão?"
Eduardo Galeano: Espelhos
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quarta-feira, 25 de janeiro de 2017

A história da História Antiga 4: Um novo olhar para o passado

Escavação do Templo de Ísis em Pompeia, Pietro Fabris

Na segunda metade do século XIX, a História Antiga recebeu um novo impulso, proveniente da História Natural e do surgimento da Antropologia, da Sociologia e da Arqueologia. Abriram-se novos campos para o conhecimento das Ciências Humanas: a sociedade, a família, a comunidade, a economia, a cultura e a religião. O grande marco dessas concepções foi, sem dúvida, o livro de Charles Darwin, A origem das espécies, publicado em 1859. Mas Darwin era apenas parte de um movimento mais amplo.

A partir dos anos de 1860, a própria noção de tempo sofreu uma mudanã drástica. Para fornecer um contraponto, em 1654, o bispo anglicano Ussher havia calculado a criação da terra no dia 4 de outubro de 4004 a.C. Foi essa noção de um tempo curto que as ciências, no final do século XIX, aniquilaram. Séculos e milênios se abriram. Não apenas para a evolução da vida, mas também para a transformação do próprio homem e da sociedade humana. O homem primitivo, que antes era visto apenas como um contemporâneo atrasado, passou a fazer parte da História de todos os homens. Toda a História passou a ser vista pelo ângulo da evolução, pelas etapas da evolução, pela noção de mudança e de progresso.

A própria ideia de evolução não era nova. Em 1774, o alemão Johann Winckelmann havia publicado sua História da arte da Antiguidade, influente até hoje, na qual organizava a arte grega em períodos e descrevia seu desenvolvimento até o que considerava seu ápice: a arte ateniense do período clássico (século V a.C.). Em 1825, um arqueólogo dinamarquês, Christian Thomsen, havia organizado as coleções de objetos do Museu Nacional da Dinamarca, recolhidas de sepulturas, segundo o que acreditava serem três períodos do desenvolvimento da tecnologia do homem pré-histórico: a Idade da Pedra, a Idade do Bronze e a Idade do Ferro. O catálogo de Thomsen foi extremamente influente, tendo sido traduzido para várias línguas. Criou uma forma de organizar o passado que [...] ainda é importante.

Essas ideias, no entanto, só se tornaram hegemônicas entre o final do século XIX e o início do XX. As mais importantes foram: a ideia de evolução, a de civilização, a de progresso e a da superioridade da Europa sobre o resto do mundo. Elas estão intimamente ligadas ao desenvolvimento tecnológico e à expansão imperialista das potências europeias sobre o planeta. Foi no bojo delas que se desenvolveu outra ideia, que teria consequências dramáticas: a da superioridade racial dos europeus.

Foi nesse período que a História Antiga se tornou o início de uma linha progressiva de civilização. Graças às descobertas arqueológicas no Egito e na Mesopotâmia e à decifração dos hieróglifos e da escrita cuneiforme, alguns estudiosos colocavam o início dessa linha no Oriente Próximo, como o grande historiador alemão Eduard Meyer. Sua História universal foi a última a conseguir reunir, num todo, as Histórias do Egito, da Mesopotâmia, da Grécia e de Roma. Outros historiadores, a maioria, preferiam iniciá-la com o "milagre" grego. Foi então que se consolidou a ideia de que a História do Ocidente era o centro da História Universal e que a Europa capitalista representava o ápice da História mundial, a verdadeira civilização, cujo destino era o de expandir sua cultura superior para o restante do planeta. O Império Romano foi também repensado como instrumento de civilização ocidental. Com suas conquistas, o Império romanizara antigas regiões bárbaras, levando a elas a possibilidade de receberem e aceitarem a civilização greco-romana.

GUARINELLO, Norberto Luiz. História Antiga. São Paulo: Contexto, 2013. p. 21-3.

sábado, 16 de julho de 2016

Os celtas: as origens

Guerreiros celtas, Antoine Glédel

Gauleses? O termo, imposto pela tradição, não é claro. César, quando da conquista, restringe-o a uma parte dos habitantes da Gália independente: entre o Sena e o Marne, de um lado, o Garona e o Ródano de outro. Estes, diz ele, “chamam-se celtas em sua língua e gauleses na nossa”. O que, aliás, não impedia os romanos de atribuir à palavra “Gália” uma extensão muito mais considerável [...] E os gregos empregavam o nome de “celtas” e, mais tarde, na época helenística, também o de “gálatas”, para distinguir homens que viviam em regiões bem diversas, desde a Península Ibérica até o coração da Ásia Menor.

[...] A Arqueologia e a lingüística fornecem dados mais sólidos [...]

[...] A idade do bronze corresponde mais ou menos, na Europa Ocidental, ao II milênio a.C. [...] As antigas civilizações dos megálitos (menires, dolmens, aléias cobertas) e das palafitas (cabanas sobre estacas das aldeias lacustres), não só sobrevivem, como também ganham terreno. [...] Ao mesmo tempo surgem outras civilizações, particularmente a dos tumuli, que sepulta os mortos, com objetos familiares, sob montículos de terra e pedra [...] Depois, nos fins da idade do bronze e do II milênio a.C., verifica-se a propagação [...] da civilização Urnenfelder (“compos de urnas”), que pratica a incineração e constrói cemitérios de tumbas planas.

Desaparece, assim, durante a idade do bronze, o isolamento geográfico das civilizações neolíticas. Os contactos, certamente, multiplicam-se e as crenças misturam-se, ao mesmo tempo que as técnicas. [...] Quanto à antropologia, embora consiga distinguir os tipos humanos dominantes, na maioria das vezes isso permite-lhe apenas comprovar a existência de mestiçagens, aliás, muito antigas.

A situação só começa a clarear um pouco no princípio do I milênio a.C., com o aparecimento do ferro. Parecem ter sido as da Alta Áustria as primeiras jazidas exploráveis deste minério. A região, além disso, estava apta a sofrer, por intermédio da Ilíria, certas influências provenientes do Mediterrâneo Oriental. Em todo caso, a mais antiga civilização do ferro recebeu a designação de Hallstatt [...] Constitui-se ela entre 900 e 800 a.C. e estende-se por um território muito vasto. Com facies diferentes, dispersa seus tumuli de inumação ou incineração e seu armamento, cuja peça mais característica é uma espada amolada e afiada. [...]

Na realidade, nada em seus progressos, tais como a arqueologia os revela, nos indica que esses fossem realizados de maneira brutal, por conquistas, chacinas e destruições. [...] devem ter correspondido a deslocamentos humanos, mas sob a forma de infiltrações lentas e sucessivas ao longo dos vales fluviais, deixando subsistir os estabelecimentos anteriores que sofreram apenas absorção progressiva.

O mesmo verificou-se [...] com a civilização que, a partir do fim do século V a.C., sucedeu à de Hallstatt. Atribu-se-lhe o nome de La Tène, estação suíça situada perto da extremidade setentrional do lago Neuchâtel. Ela ocupa pouco a pouco o território da civilização precedente, substituindo imediatamente a espada por um sabre feito para talhar e, mais lentamente, os tumuli por sepulturas subterrâneas. Suas joias e seu mobiliário são mais ricos, com coral, esmaltes, contribuições estrangeiras mais numerosas e vindas de mais longe. Evolui, aliás, no sentido do aperfeiçoamento técnico e do enriquecimento, e o fim de seu terceiro e último período coincide com o seu desaparecimento, na Gália, em face da civilização romana implantada pela conquista.

AYMARD, André; AUBOYER, Jeannine. Roma e seu império. O Ocidente e a formação da unidade mediterrânica. São Paulo: Difel, 1974. p. 59-61. (História geral das civilizações, 3)

quarta-feira, 30 de abril de 2014

Art rock made in África

"Arte rupestre da África é a herança comum de todos os africanos, mas é mais do que isso. É patrimônio comum da humanidade. "

Nelson Mandela


A pintura rupestre do continente africano constitui um valioso testemunho da mentalidade mágica dos povos pré-históricos. Suas representações transcendiam objetivos artísticos, cumprindo, primordialmente, um conjunto de funções mágicas de finalidade pragmática: a perpetuação da existência de caça abundante, o alcance do êxito nas guerras e a preservação da capacidade de reprodução da espécie humana. Seu estudo permitiu a reconstituição histórica da vida de povos caçadores, pastores e de civilizações que já haviam adotado a utilização da roda.

As sociedades africanas tradicionais assentavam-se sobre categorias de sexo, idade, relações de parentesco. As divisões baseadas no sexo abrangiam as tarefas e funções de grupo social, manifestando-se já no ritual de iniciação dos jovens e na participação em sociedades distintas e exclusivas. Em geral, cabia às mulheres a tarefa de cultivar a terra, o que as tornava responsáveis pela sobrevivência do grupo, tanto ao nível de subsistência imediata - assegurando a alimentação - como a longo prazo, pela reprodução da espécie. Aos homens pertencia o monopólio das relações com o sagrado e, portanto, a exclusividade das decisões que diziam respeito à coletividade.

Outro elemento regulador da sociedade africana tradicional foi a idade. As gerações apresentavam relações de dominação/subordinação, com preeminência dos mais velhos. Os anciãos possuíam grande prestígio. Existiam também classes de idade: a dos meninos, formada a cada sete anos na época da iniciação sexual; outra reunia os guerreiros solteiros, que só poderiam se casar quando atingissem a terceira classe de idade, por volta dos trinta anos. Todos esses grupos rigidamente estruturados, asseguravam o cumprimento das funções sociais mais significativas segundo as categorias de idade. A passagem de uma classe para outra exigia uma formação complementar, coroada pela realização de um cerimonial específico.

Quando o exercício do poder político é regulado por cerimônias e ritos, o fato geralmente provoca uma ativa criação artística. Tal pressuposto encontra confirmação na África, onde os mais importantes centros de manifestação artística desenvolveram-se junto aos grandes grupos tribais e reinos mais importantes: África ocidental e África central. O domínio do sagrado constitui também ambiente propício às manifestações artísticas. As representações dos ancestrais, os objetos e as máscaras utilizadas pelos membros de associações o atestam. A vida religiosa, assim como as práticas mágicas, é particularmente rica em símbolos materiais e rituais que estabelecem a relação com o sagrado.

Entre os povos primitivos é praticamente inexistente a distância entre o mundo da objetividade e o da subjetividade. Inserido em um ambiente do qual depende de maneira absoluta, o homem primitivo atribui à natureza uma força muito maior do que a sua. As doenças, a morte, os insucessos na caça ou na agricultura, a fome, a seca são acontecimentos que, a um tempo, o desafiam e o submetem. Ser pensante, o homem busca explicar, em termos religiosos, essa força que o domina. Nesse processo de adaptação entre o homem e a natureza, a realidade e a fantasia são fundidas, resultando no aparecimento dos elementos mais conhecidos das religiões primitivas: o culto aos antepassados, as práticas mágicas, o mundo dos espíritos, o animismo e o totemismo.

HISTÓRIA DAS CIVILIZAÇÕES. São Paulo: Abril Cultural, 1975. p. 31-35. Volume III.

Galeria de imagens:

Homem com arco e flecha e cão. Argélia

Gatos em combate. Líbia

Girafa e homens. Namíbia

Figura com atributos masculinos e femininos. África do Sul

Homens e girafas. Zimbábue

Cavalo e homem armado. Mauritânia

Guerreiro e girafas. Argélia

Tchitundu Hulu. Angola

Detalhe de duas pessoas copulando. Argélia

Mulher e cão. Malawi

Inscrição geométrica. Uganda

Homem lançando lança. Argélia

Figuras brancas com as mãos nos quadris. Tanzânia

Antílope. Marrocos

Homens e animais. Zimbábue

Rinocerontes. Botswana

Homem com arco. Argélia

Quatro homens correndo com equipamentos sobre os ombros. África do Sul

Vaca e animal simbólico. Somália

Camelo. Sudão

Crocodilo. Líbia

Dois homens nus com o pênis ereto. África do Sul

Guerreiro montado em cavalo. Chade

Leão, dois guerreiros com lanças e montados em cavalos. Abaixo, cães, uma mulher e um guerreiro. Nigéria

Arte rupestre. Mali

Homem sentado com as pernas cruzadas. Argélia

Camelo branco montado por guerreiro. Chade

Homem e vaca. Egito

Inscrição rupestre. Gabão

Vacas e bezerros. Etiópia

Elefante, homens e girafas. Quênia

Guerreiro. Nigéria

NOTA: O texto "Art rock made in África" não representa, necessariamente, o pensamento deste blog. Foi publicado com o objetivo de refletirmos sobre a construção do conhecimento histórico/antropológico.

segunda-feira, 17 de março de 2014

A Arqueologia e as outras áreas do conhecimento

A arqueologia é uma disciplina que não pode ser desvencilhada de muitas outras com as quais está relacionada. O estudo da cultura material, de todo o imenso arsenal de artefatos que fazem parte do cotidiano do ser humano depende, em muitos casos, da interação da arqueologia com outras áreas.


Escavação em Pompeia, Lello Capaldo

A sua relação com a história é particularmente importante, quando mais não fosse porque, para alguns arqueólogos, a sua disciplina nada mais seria do que uma complementação da história [...]. Além disso, na tradição europeia, da qual somos também tributários, a arqueologia surgiu no seio da história. Assim, qualquer que seja o ponto de vista, a relação com a história constitui aspecto central da disciplina [...].

A cultura material estudada pelo arqueólogo insere-se, sempre, em um contexto histórico muito preciso e, portanto, o conhecimento da história constitui aspecto inelutável da pesquisa arqueológica. Assim, só se pode compreender a cerâmica grega se conhecermos a história da sociedade grega, as diferenças entre as cidades antigas, as transformações por que passaram. A história, contudo, não é tampouco uma descrição do passado tal qual aconteceu, é uma interpretação e, por isso, tanto mais será importante conhecer as controvérsias historiográficas sobre o período histórico tratado.

Não se trata, assim, de usar a história como fonte segura de informações, mas de conhecer as discussões dos historiadores e relacionar tais questões à cultura material estudada. As ciências não são apenas auxiliares umas das outras, elas mantém relações entre si. Os dados materiais, analisados pela arqueologia, podem tanto confirmar, como complementar e mesmo contradizer as informações das fontes históricas. Esses dois últimos aspectos são os mais importantes, pois permitem ao arqueólogo ir além daquilo que está nas fontes escritas.

[...]

No século XIX, quando surgiu a antropologia, o contato das potências imperialistas, como Inglaterra, França e Estados Unidos, com povos periféricos, a exemplo dos africanos, asiáticos e latino-americanos, fez com que essa disciplina se desenvolvesse, como uma maneira de conhecer de que modo viviam os chamados "primitivos". Nos Estados Unidos, a oposição entre "nós" (os americanos) e "eles" (os primitivos) dividiu as disciplinas história e antropologia, que se constitui de quatro áreas: etnologia, lingüística, antropologia física e arqueologia.

Todas essas disciplinas ligavam-se ao estudo dos indígenas, vivos ou mortos. Para o conhecimento dos índios mortos, por meio dos vestígios materiais, desenvolveu-se a arqueologia. Com o decorrer do tempo, contudo, a antropologia passou a tratar do conhecimento dos ritos, costumes e características de quaisquer sociedades, em qualquer época, inclusive as nossas contemporâneas. Se a história se preocupa com a transformação e a mudança, a antropologia procura explicar a transmissão de valores culturais, de normas de conduta.

[...]

Mas não é apenas no estudo dos artefatos que a antropologia é importante. A antropologia pode fornecer modelos de funcionamento da sociedade que permitem ao arqueólogo melhor entender o que ele estuda. [...]

[...] a antropologia física pode ser decisiva para o trabalho arqueológico. Para tanto, é necessária a preservação de vestígios esqueletais, algo que nem sempre é fácil, já que solos ácidos consomem os ossos em poucos anos. Quando preservados, sua análise permite que possamos estudar uma infinidade de aspectos da vida daqueles seres humanos. Assim, podemos saber quais as idades aproximadas em que as pessoas morriam e suas condições físicas no final da vida. Com isso, depreendemos que, em muitas sociedades antigas, a maioria das pessoas morria relativamente jovem.

Podemos, ainda, identificar algumas das doenças que afligiam populações antigas, assim como, pelo desgaste dos dentes, sabemos o que comiam ou mesmo se usavam os dentes para trabalhos de cestaria, como era o caso de tribos indígenas brasileiras. Em Herculano, cidade soterrada pela erupção do Vesúvio em 79 d.C., encontraram-se corpos que mostram até mesmo as deficiências alimentares e os maus tratos sofridos pelos escravos romanos.

Mais recentemente, arqueólogos em colaboração com antropólogos físicos, escavaram e identificaram corpos de pessoas assassinadas pelas ditaduras latino-americanas, os chamados "desparecidos". Na medida em que não há registros das pessoas assassinadas pelas ditaduras, a identificação dos mortos assim como da maneira como morreram pode ser muito importante para os familiares das vítimas e para a sociedade como um todo.

[...]

Da antropologia física, passemos à biologia, seja em termos de teorias, seja das técnicas. O evolucionismo, surgido com as teorias de Charles Darwin para explicar as transformações da vida, tem sido aplicado ao estudo arqueológico, em especial o estudo das mudanças nas espécies de primatas e às plantas e animais ligados ao homem. [...]

O estudo do DNA dos animais e das plantas tem sido também muito difundido, trazendo relevantes informações para os arqueólogos. [...] O estudo genético dos indígenas americanos tem indicado, por sua parte, que todos têm origem asiática e que a sua migração nas Américas deu-se do Alaska para o sul.

Já a geografia, tanto física como humana, relaciona-se de maneira estreita com a arqueologia, pois os homens sempre viveram em interação com o meio ambiente. O conhecimento das condições fisiográficas e climáticas, em determinado momento do passado, é importante para se entender, por exemplo, o surgimento da civilização egípcia. [...]

[...]

As diversas histórias da arte e da arquitetura também são áreas importantes para o estudo arqueológico das sociedades históricas, nas quais os estilos artísticos e arquitetônicos marcam as diversas civilizações desde, ao menos, cinco mil anos. Todos vivemos tanto no espaço externo, geográfico, como no espaço construído dos edifícios. A arqueologia da arquitetura tem mostrado como as plantas dos edifícios podem nos dizer muito sobre a maneira como as pessoas viviam, fundamentado no princípio da facilidade ou dificuldade de acesso ao interior e aos aposentos.

[...]

O controle e a vigilância da sociedade capitalista foi incorporado na arquitetura, a partir de fins do século XVIII, tema que foi abordado por estudiosos de outra área do conhecimento: a filosofia. [...] Segundo Foulcaut, a sociedade, a partir do século XIX, tornou-se cada vez mais controladora e vigilante do comportamento das pessoas, o que afetou inclusive a cultura material e não apenas os edifícios [...].

[...]

O marxismo, por sua vez, é tão variado que se poderia citar uma pletora de influências na arqueologia, com destaque para o papel chave da filosofia marxista tal como entendida por Vere Gordon Childe, já no início do século XX, e para os marxismos da Escola de Frankfurt e sua teoria crítica [...].

[...]

Segundo alguns estudiosos marxistas, a arqueologia voltada para o divertimento, à la Indiana Jones, seria mero entretenimento. Seria como se a arqueologia servisse apenas para as pessoas sonharem com as antigas civilizações, "viajarem" como o fazem ao folhear as belas imagens da revista National Geographic. [...]

A arqueologia liga-se a outra ciência humana: a lingüística. Em termos históricos, tanto a arqueologia europeia como americana surgiram no bojo do estudo das línguas. A filologia histórica europeia estabeleceu a existência de troncos lingüísticos e, por analogia, procurou-se identificar, na cultura material, tais transformações e origens. [...]

[...]

A arqueologia não pode ser pensada, ainda, sem a referência à museologia, aos estudos de gestão do patrimônio, ao seu aspecto público. [...]

[...]

A arqueologia cada vez mais deve voltar-se para as disciplinas que refletem sobre o destino da cultura material que ela estuda e o caminho que se tem proposto é a colaboração da população em geral de maneira que esta possa ajudar a definir os usos desse material e mesmo sua interpretação. Também mostra-se relevante a tendência de interação dos arqueólogos com grupos de interesse, como os movimentos de mulheres ou de minorias étnicas (como os indígenas, os afro-descendentes etc.), sempre objetivando uma arqueologia que não seja excludente, mas que propicie a participação das pessoas no acesso ao conhecimento.

FUNARI, Pedro Paulo. Arqueologia. São Paulo: Contexto, 2010. p. 85-98.

NOTA: O texto "A Arqueologia e as outras áreas do conhecimento" não representa, necessariamente, o pensamento deste blog. Foi publicado com o objetivo de refletirmos sobre a construção do conhecimento arqueológico.

segunda-feira, 25 de novembro de 2013

A arqueologia e suas áreas de pesquisa

A arqueologia possui múltiplas origens e muitas áreas de especialização. Normalmente, distingue-se a “arqueologia dos Estados Unidos” da “arqueologia europeia”. Nos Estados Unidos do século XIX, os historiadores tratavam da civilização ocidental e euro-americana, enquanto cabia aos antropólogos o estudo das outras culturas, no presente ou no passado, em especial as ameríndias.

Seguindo essa tradição, a antropologia consolidou-se como área composta de lingüística, voltada para o estudo das línguas, da etnologia, dedicada a observar os ameríndios vivos, e da arqueologia, encarregada do estudo dos vestígios dos índios mortos. Com o decorrer do século XX, ampliaram-se os interesses da antropologia norte-americana e, por extensão, da arqueologia, que passou a tratar até mesmo da própria sociedade euro-americana, com o desenvolvimento da chamada arqueologia histórica, definida como o estudo arqueológico do “mundo moderno” (a partir do século XV).

Na Europa, a arqueologia surgiu derivada da filologia e da história, preocupada em estudar os vestígios materiais da civilização ocidental. A primeira a surgir e, em certo sentido, a mais prestigiosa, foi a arqueologia clássica, já no início do século XIX, voltada para o estudo das civilizações grega e romana da Antiguidade. O próprio nome remete às suas origens, pois surgiu como derivação dos cursos de estudos clássicos, centrados nas línguas e literaturas clássicas, grega e latina, mas englobando disciplinas como história antiga, história da arte antiga, numismática (estudo das moedas), epigrafia (estudo das inscrições) entre outras.

Uma escavação, Thomas Jones

Em seguida, surgiram as arqueologias egípcia, bíblica, mesopotâmica, voltadas para as civilizações precursoras àquelas chamadas clássicas. Essas diferentes formas de arqueologia chegaram aos Estados Unidos, mantendo-se separadas da arqueologia praticada nos cursos e trabalhos de antropologia. O século XIX foi marcado pela afirmação dos estados nacionais e pela ideologia nacionalista que buscava resgatar/criar valores para explicar e justificar as nações que surgiam ou se consolidavam. Esse nacionalismo incentivou o desenvolvimento das arqueologias que se voltavam para o estudo dos primórdios das nacionalidades, como no caso da arqueologia medieval europeia.

Ao lado dessas arqueologias históricas, o século XIX viu surgir o interesse pelo passado mais recuado, na própria Europa. Até a publicação de A Origem das espécies, de Charles Darwin, em 1859, livro que marcou época por explicar a origem do homem sem recorrer à religião, o passado da humanidade ainda estava ligado às interpretações bíblicas que atribuíam ao homem apenas alguns milhares de anos. As teorias evolucionistas deram novo alento ao estudo do passado mais remoto, baseadas na noção de evolução das espécies e, portanto, do homem, com a busca sistemática dos vestígios dos antigos seres humanos e de seus antepassados, os hominídeos.

A partir de meados do século XIX, começam a ser estudados os períodos mais recuados, em particular com o estudo dos períodos geológicos associados a artefatos feitos de pedra (ou líticos, no jargão arqueológico), criando-se os termos Paleolítico ou Idade da Pedra Antiga (antes de 8.000 a.C.) no Oriente Médio) e Neolítico ou Idade da Pedra Recente (após 8.000 a.C. no Oriente Médio), em 1865. O termo pré-história passou a ser usado, referindo-se ao período da história anterior à escrita, em um quadro de busca das origens das populações europeias e, um pouco mais adiante, da humanidade em geral. Surgiu a arqueologia pré-histórica.

As duas tradições arqueológicas, europeia e norte-americana, contudo, nunca deixaram de diferenciar-se. Na América Latina, ambas têm seus adeptos, gerando uma multiplicidade de influências, às vezes contraditórias. O influxo da arqueologia antropológica norte-americana na América Latina sempre foi muito claro, tanto pela importância política, econômica e cultural dos Estados Unidos na região como pela atração que o modelo norte-americano produziu nas elites intelectuais latinas.

Assim é compreensível a separação que frequentemente se faz em nosso continente entre a história, voltada para o período de colonização europeia, estudada com base nos documentos escritos, e a antropologia, encarregada do estudo dos indígenas, povos sem escrita e que também foram encarados como “outros”. Também a arqueologia histórica, tal como entendida nos Estados Unidos, surgida no final da década de 1970, expandiu-se muito na América Latina a partir da década de 1990.

Todavia, a influência europeia não deixou de fazer-se sentir por aqui, pois a construção das identidades nacionais latino-americanas não deixou de incluir, em diversos países, os ameríndios e, por isso, a busca das origens históricas, à maneira europeia, foi bem recebida entre nossos pensadores. Também o estudo das pinturas rupestres e dos mais antigos vestígios humanos, tão desenvolvido aqui por influência francesa, explica-se, em grande parte, pela adoção da noção de ligação estreita entre o homem moderno e seus antepassados mais recuados no tempo.


FUNARI, Pedro Paulo. Arqueologia. São Paulo: Contexto, 2010. p. 23-25.

sábado, 14 de setembro de 2013

Posições politicas: desigualdades de raça, classe e gênero no Brasil

A exuberante fama de país sensual esconde em seus bastidores desigualdades de raça, classe e gênero

Por Maria Elvira Diaz-Benítez*

Uma das principais imagens que surgem quando se pensa no Brasil é uma suposta sexualidade desenfreada. Aqui o sexo e as sexualidades teriam características próprias, excepcionais, territórios de proezas e exotismo.

Este é um lado da moeda. Mas existe outro. A grande da liberação sexual oblitera uma realidade sensível: as desigualdades na participação democrática efetiva. Hoje, o país presencia um embate sociopolítico em que as bancadas mais conservadoras, afiliadas a grupos religiosos, ganham espaço considerável no Congresso, elevando seus gritos de protesto contra direitos sexuais já conquistados e ameaçando a laicidade do Estado. Se, por um lado, para o mundo, o Brasil é um lugar de eterno verão, produtor de um carnaval lascivo, de corpos e prazeres tropicais e com grande oferta de turismo sexual, por outro, assistimos à eleição de um pastor para a presidência da Comissão de Direitos Humanos e Minorias na Câmara, apesar de suas posições polêmicas sobre homossexuais, negros e os direitos das mulheres.


Protesto a favor dos direitos LGBT em frente ao Congresso Nacional, Brasília, 2009. 
Foto: Antonio Cruz / ABr

Se todo sexo é político, como afirmou a antropóloga norte-americana Gayle Rubin, a sexualidade brasileira também não é neutra. Ela está envolvida em relações de poder. Evoca aqueles discursos do começo do século XX sobre raça, mestiçagem e o futuro da nação, os métodos eugênicos, a criação das patologias e dos pervertidos sexuais. Em poucas palavras, sexualidade e raça se encontram intimamente ligadas nos imaginários coletivos de brasilidade – que foram construídos pela história, a medicina, a literatura, a criminologia, a religião, a mídia, a pornografia – envolvendo questões de classe e de gênero.

O Brasil é uma chave para se pensar na sexualização da raça e na racialização do sexo. Foi o primeiro país na América latina a ter um movimento eugênico organizado. O termo Eugênia foi criado por Francis Galton, antropólogo, matemático, geógrafo e médico inglês. Seria o estudo dos agentes que podem melhorar ou degenerar as qualidades raciais de uma população em gerações futuras. Inspirado na obra maior de seu primo, o biólogo evolucionista Charles Darwin, A origem das espécies (1859), Galton acreditava que a espécie humana poderia ser melhorada evitando-se cruzamentos indesejáveis, isto é, através de uma seleção artificial. Para os cientistas e seguidores do movimento eugenista europeu, o Brasil era considerado um país disgênico (degenerado geneticamente) por excelência e seu futuro estava ameaçado devido ao clima tropical e à população altamente miscigenada.

Os eugenistas brasileiros preocupavam-se em aprimorar um país cuja população era pobre e racialmente muito heterogênea. O tema mobilizava as elites intelectuais. Nina Rodrigues, desde finais do século XIX, já se mostrava cético ante a possibilidade de alcançar uma unidade nacional via mestiçagem. Apesar de seus méritos como médico e primeiro pesquisador da influência africana no Brasil, para ele a inferioridade do africano estava estabelecida fora de qualquer dúvida científica. Menos pessimista, o antropólogo João Batista de Lacerda, em 1911, vaticinou que em um período de três gerações (100 anos) o país conseguiria produzir uma população de fenótipo branco se continuasse a importar europeus, miscigenando-os com os nativos de um modo “bem dosado”. Para o historiador Oliveira Vianna, o “tipo antropológico e racial brasileiro” era o resultado de uma desordem étnica causada principalmente pelos “typos” africanos. Na obra Casa Grande & Senzala (1933), Gilberto Freyre contesta o argumento que Oliveira Vianna construiu em Evolução do Povo Brasileiro (1923). Para o sociólogo pernambucano, a história social brasileira era o produto da heterogeneidade e dos encontros inter-raciais que “harmonicamente” ocorreram entre membros das diferentes raças.

Como os seus críticos apontam, em sua apologia à mestiçagem, Freyre criou uma imagem da história escravista na qual brancos e negros, escravos e amos e seus filhos mulatos viviam em uma relação de fraternidade e intimidade. O segredo para essa convivência fraternal seria a interação sexual, que minguou o despotismo e a opressão característicos do contexto escravista. Esse mito da “escravidão cordial ou branda”, como é chamado pelos críticos de Freyre, faz-se mais evidente com a figura do mulato como elemento mediador. Sua pele mais clara lhe permitiria entrar em um processo de mobilidade social, transitando entre as raças e conciliando os extremos. A teoria de Gilberto Freyre é criticada por não considerar que, num contexto escravista, existe um exercício do poder que recai sobre a sexualidade, em uma sociedade de relações de gênero e de classe assimétricas.

Os programas eugenistas advogavam o controle da sexualidade. Em defesa de uma sociedade sadia, em princípios do século XX, empregaram-se políticas de controle dos hábitos: repressão do ócio e da vadiagem, do comportamento sexual de mulheres (reprodução, higiene, cuidado com crianças) e dos homens mediante a religião, a medicina e a política. O cuidado com a sexualidade masculina estava diretamente relacionado com o aperfeiçoamento da população: relacionar-se com prostitutas, adquirir doenças venéreas ou ter sexo homoerótico eram vistos como causas de degeneração. Ganharam importância visões e práticas relacionadas ao nacionalismo, a modelos moralistas de família, heterossexualidade, masculinidade, feminilidade e também normalidade sexual. A função reprodutora do sexo era a pedra institucional de uma ordem nacional excludente e repressora.

Paralelamente a essas políticas de depuração racial e sexual, os intelectuais criaram ideais de nação com base no encontro sexual inter-racial. Se os mulatos eram figuras emblemáticas, o que dizer especificamente das mulatas?

A figura da mulata encarna o corpo e a alma do desejo. E foi assim que se converteu em símbolo nacional, construído pela literatura, a medicina, o carnaval e, mais recentemente, pelas agências de turismo e os canais televisivos. A categoria da mulata, como disse a antropóloga Mariza Corrêa, “pode contribuir para questionarmos nossa forma habitual de tratar seja das relações de raça, seja das relações de gênero”, mas também as relações de classe, pois essa mulata faz apologia do mundo dos pobres – os quais, segundo o imaginário social, vivem mais próximos da natureza e dos instintos. A mulata é, desde o começo do século XX e até hoje, o fio condutor de um ideário nacional que racializa os desejos sexuais. Mais recentemente, o mercado do sexo (pornografia, prostituição e turismo) inventou outra figura racial e de gênero que encarna em seu corpo símbolos de classe e de nação: a travesti.

Em diversas legendas de filmes pornográficos, a pobreza, a nacionalidade e o gênero das travestis são vendidos como algo prodigioso, exótico e simultaneamente esdrúxulo. O contrário também acontece: o glamour de algumas travestis ou transexuais destacadas – como a pioneira Roberta Close – é ofertado como sinônimo da abertura sexual dos brasileiros e de uma sociedade moderna e bonita, porém, branca.

Terra do fogo, Wilhelm von Gloeden

No Ocidente, historicamente tem se privilegiado o branco e o heterossexual como paradigmas legítimos e modelos morais que colocam o outro como subalterno. Daí que exista um vínculo entre heterossexismo e racismo. Ambos são dispositivos de opressão que se relacionam e que permitem, por exemplo, pensar que um homem negro é obrigatoriamente macho e que nos circuitos homossexuais a branquidade é o padrão de beleza hegemônico. O dispositivo permite também que movimentos de esquerda, como o negro e o proletário, mesmo sendo revolucionários, conservem em seus valores concepções homofóbicas, machistas e misóginas, e que as políticas LGBT nem sempre ofereçam atenção aos fatores de classe e raça, colocando pessoas socialmente diversas em um mesmo patamar.

Estas são as contradições de um país onde a sexualidade, vista de fora como libertária, na verdade se entrecruza com diversas formas de desigualdade.

* Maria Elvira Diaz-Benitz é professora de Antropologia Social do Museu Nacional-UFRJ.

Maria Elvira Diaz-Benitz. Posições políticas. In: Revista de História da Biblioteca Nacional. Ano 8 / Nº 93 / Junho 2013. p. 35-37. 

sexta-feira, 5 de abril de 2013

!Kung: coletores-caçadores

O século XX, ao questionar um pouco mais a sabedoria do homem contemporâneo, passou  a se situar mais humildemente diante de nossos ancestrais. Escavações sistemáticas e cuidadosas revelaram, inicialmente, que o hominídeo originava-se da África e não da Europa, contestando a certeza que se instalara entre os sábios europeus. De repente, os ocidentais "civilizados" passaram a se perguntar a respeito dos "primitivos". Seriam eles tão primitivos assim? Em vista dessas interrogações, cientistas resolveram fazer observações sistemáticas, tanto em grupos de primatas como chimpanzés, gorilas e gibões, quanto em algumas tribos de humanos que sobrevivem como caçadoras-coletoras, forma de existência que se supõe tenha sido universal desde 1 milhão até pouco mais de 10 mil anos atrás.

Os relatos das observações são surpreendentes e mostram sociedades muito mais sofisticadas do que se imaginava. O caso mais interessante talvez seja o estudo feito por pesquisadores da Universidade de Harvard em uma comunidade dos !Kung, coletores-caçadores que vivem no deserto de Calaari entre os países de Angola, Namíbia e Botsuana.


Caçadores !Kung


Durante a estação úmida de verão (de outubro a maio) pequenos grupos de trinta pessoas, cerca de seis famílias, constroem seus acampamentos temporários próximo de bosques e se mudam a cada três ou quatro semanas. Sua mobilidade, no dizer de Richard Lee, um dos pesquisadores, não é decorrente de qualquer ato de desespero, mas de simples conveniência: quanto mais permanecem num único local, maior será o percurso diário para coletar alimentos.

Nada é acidental: trinta pessoas é considerado um número ideal, nem tão pequeno que tire a capacidade defensiva e de captação de alimentos, nem tão grande que impeça a subsistência de todos.

Nos meses de seca, inicia-se o período mais social dos grupos: três ou quatro deles congregam-se em torno de um ponto com água permanente e há uma intensa troca de presentes (não se trata de comércio, nem mesmo de escambo), intercâmbio de experiências com histórias contadas de lado a lado, elaboração ou estreitamento de alianças e atividades que levam à formação de novos pares.

Paralelamente ás atividades agradáveis que o grupo maior propícia, vem a grande desvantagem: para alimentar todo o pessoal, o trabalho aumenta muito e distâncias muito grandes têm de ser percorridas para encontrar-se caça ou alimento para ser coletado. Assim, logo que as primeiras chuvas começam a cair, cada grupo de trinta volta a viver sua própria vida. Ocorre, no entanto, uma diferença importante: defecções, cisões e acréscimos alteram a composição interna dos pequenos grupos, propiciando uma constante renovação e adequação, permitindo uma válvula de escape aos descontentes de maneira que conflitos e tensões possam ser resolvidos. Como se vê, uma solução inteligente. Nem sempre nós conseguimos resolver com a mesma habilidade problemas de pessoas descontentes em nosso grupo, sejam elas minorias, marginais ou dissidentes.

Poder-se-ia alegar que os !Kung não têm cultura. Na verdade, seu modo de vida não permite uma produção intensa de bens materiais, uma vez que a mobilidade frequente faz com que cada um não carregue mais de doze quilos de bagagem. Entretanto, segundo Lee, as danças, canções e histórias praticadas pelo grupo sintetizam uma cultura tão rica quanto a de qualquer outro povo.


Há no grupo uma divisão sexual das tarefas: as mulheres coletando, os homens caçando. Acredita-se que isso muito tenha a ver com a própria característica da caça, que exige movimentos furtivos e silêncio total, incompatíveis com a presença das mulheres acompanhadas por crianças barulhentas. Por isso, a mulher coleta e tem filhos, os quais ela amamenta até a vinda do segundo, após três ou quatro anos. Esse espaçamento é idêntico ao de outros grupos coletores-caçadores ainda existentes no mundo e certamente tem relação com a necessidade de transporte/locomoção das crianças. Se o espaçamento fosse muito curto, a mobilidade do grupo ficaria prejudicada.

A caça e a coleta são atividades distintas em muitos aspectos. A primeira tanto pode resultar em sucesso, ou seja, no abate de um grande animal que alimente o grupo por semanas, como pode redundar em fracasso completo. Ela é feita por homens e em silêncio. Já a coleta, ruidosamente feita por mulheres (que a utilizam como eficaz forma de socialização), sistematicamente termina com vegetais suficientes para que o grupo coma durante três dias.

Em oposição ao mito de que as pessoas nesse tipo de cultura vivem apenas para a subsistência, Richard Lee apresenta a tabulação das horas de trabalho: vinte e uma horas semanais os homens despendem com a caça e doze as mulheres, com a coleta (que fornece 70% da dieta do grupo). Acrescentando-se a elaboração das ferramentas e o trabalho doméstico, Lee chega a quarenta e quatro horas de trabalho para os homens e quarenta para as mulheres, as quais, por outro lado, têm quase total responsabilidade pela educação das crianças. Como se vê, nada além da média considerada aceitável em nossos dias.

A repartição da carne de caça passa por longos rituais que se iniciam com a autodepreciação do feito pelo próprio caçador e culminam com um complexo sistema de distribuição do produto, em que interferem alianças, parentescos e devolução de favores. No final das contas todos acabam sendo atendidos, recebendo seu quinhão. Interessante é que o caçador deve desvalorizar seu feito (tanto mais quanto maior for a caça) diante de todos os membros do grupo para que não se sinta superior a quem quer que seja. Embora alguns sejam melhores caçadores do que outros, isso não implica uma ascendência ou mesmo um prestígio maior. Como decorrência dessa postura, o grupo não tem líder nem subordinados; todas as coisas são decididas em conjunto, e, as pendências, resolvidas mediante zombarias.

O baixo nível da tecnologia dos !Kung é compensado com a extrema habilidade que possuem para as tarefas vinculadas à sua sobrevivência e à sua profunda ligação e adequação ao meio ambiente. Sua forma de vida permite muito lazer, levando a uma profunda socialização: visitas entre membros de acampamentos vizinhos são frequentes e realizadas com ruidosas manifestações de prazer.

Assim viviam nossos antepassados há 1 milhão de anos ou há 20 mil anos? Não sabemos, com certeza. Mas, em caso positivo, não temos por que sentir vergonha de descender deles.

PINSKY, Jaime. As primeiras civilizações. São Paulo: Contexto, 2010. p. 34-38.

domingo, 24 de fevereiro de 2013

Ser índio

Índios Yalawapiti tocam flauta de bambu. Parque Nacional do Xingu.

Índio é um termo ambíguo, como muitos outros, aliás.

Os espanhóis e portugueses, no século XV, navegavam pelo Atlântico em busca de um caminho para as Índias. Do vale do rio Indo e suas adjacências, vinham produtos muito apreciados - as especiarias - que serviam tanto para temperar como para preservar as comidas em uma época em que não havia geladeiras e refrigeradores. O avanço dos turcos otomanos pelo Mediterrâneo Oriental contribuiu para a diminuição do tráfico oriental, e os ibéricos tomaram a iniciativa de buscar uma rota alternativa para a Índia. Primeiro tentaram pela África, até que Cristóvão Colombo buscou um caminho direto, navegando sempre a ocidente. Chegou ao Novo Mundo, como ficaria conhecido, sem saber que de fato era uma nova terra. Pensou ter chegado ao continente asiático: China ou Índia. Mesmo quando, algum tempo depois, os europeus perceberam que a América era outro continente, continuaram a usar o termo "índio" para se referirem aos habitantes dessas terras.

Outros nomes foram também usados: aborígene, indígena e nativo. São termos mais eruditos, que designam aquele que é nascido em determinado lugar. Termos latinos, os três nomeiam a pessoa original (ab origine) e o nascido em casa (indigena, natiuus). Porém, o nome que se popularizou foi mesmo índio.

Os índios foram, assim, designados por seus conquistadores, pois nunca se chamaram a si mesmos dessa forma antes de 1492. Como se chamavam, então? De milhares de maneiras, cada povo a seu modo, com nomes que podiam significar simplesmente "seres humanos", por oposição aos outros grupos. O caso dos tupiniquins e tupinambás dá uma ideia dessas autodenominações. "Tupi" significa "o ancestral", e então "os descendentes do ancestral" são os tupinambás ("nambá" quer dizer descendente), enquanto "tupinamki" (o nome original dos tupiniquins) quer dizer "o galho do ancestral", em que "galho" possui sentido de ligações de parentesco. Pode parecer muito banal, mas o mesmo processo de nomeação ocorre em outros povos, ainda que não tenhamos consciência do sentido das palavras. Assim como tupi é ancestral, Abraão quer dizer, em hebraico, justamente, ancestral! "Guarani" significa "guerreiro", nome apropriado para um grupo humano que se valoriza, assim  como "inca", que na língua quíchua significa "senhor". Podiam ser "bons na caça aos caranguejos", como os guajajaras. Nem sempre sabemos como um povo chamava a si mesmo, mas podemos conhecer como descreviam outro povo, como no caso dos "guarulhos", "os barrigudos", ou os "nambiquaras", "orelhas furadas".

Com o passar dos séculos e com a interação de nativos e colonizadores, o termo "índio" passou a ser usado como um genérico, muitas vezes de forma pejorativa, mas também com o devido orgulho por eles próprios. Em muitos países, os movimentos pelos direitos dos nativos usam o termo índio, ou seus derivados, como o Movimento Índio Peruano (MIP). Há órgãos oficiais como a Fundação Nacional do Índio (Funai), assim como o United States Bureau of Indian Affairs, nos Estados Unidos. Isso significa que "indígena", "nativo" ou "índio" corresponde a uma designação ampla que procura englobar a diversidade de grupos humanos autóctones da América.

Em todo o continente americano, há maneiras muito variadas de definir quem seria índio. No Brasil, segundo estatísticas oficiais, a porcentagem de indígenas é muito baixa, menos de 1% da população, já que no ano 2000, 734 mil pessoas se definiram como índios (0,4%). Mas [...] uma grande parcela da população tem ascendência indígena. Já em países como o Paraguai ou a Guatemala, a maioria da população se define como indígena e fala línguas nativas, como o guarani e o maia, respectivamente. Contudo, mesmo nesses casos, os indígenas estão mesclados geneticamente com os colonizadores europeus, ainda que prevaleça a língua indígena, como ocorre no Paraguai, com 90% de falantes do guarani - idioma oficial do país.

Não existe pureza de origem em nenhum lugar do mundo nem ser índio depende apenas da genética ou mesmo da autodefinição. [...]

FUNARI, Pedro Paulo; PINÕN, Ana. A temática indígena na escola: subsídios para os professores. São Paulo: Contexto, 2011.  p. 17-20.

quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

O masculino e o feminino nas sociedades indígenas

Casal de índios guaranis (carijós). O arco e o cesto designam suas funções sociais e evocam a guerra e a abundância. Gravura extraída da crônica de Ulrich Schmidl (1599).

A sociedade indígena [...] é uma sociedade de guerreiros. [...]

Nenhuma sociedade sobrevive sem gastar algum tempo do dia na obtenção de alimentos e outros bens necessários à preservação da vida. Os indígenas, obviamente, não eram uma exceção.

Porém, devemos fazer uma distinção básica: podem-se obter meios de subsistência coletando-os ou produzindo-os. Os indígenas eram, no essencial, coletores de alimentos. A diferença entre uma economia coletora e uma produtora está em que, no segundo caso, o trabalho se torna uma condição de existência do homem. Naturalmente, a atividade coletora, como a pesca e a caça, é, num certo sentido, "trabalho". Contudo, não seria correto colocar no mesmo plano a coleta e a produção de alimentos.

A agricultura é o exemplo típico de uma economia produtora. No Brasil, o mais antigo vestígio dessa atividade data de 1400 a.C., aproximadamente. Ela era praticada pelos índios na época da chegada dos portugueses, mas essa era uma tarefa essencialmente feminina. Os homens limitavam-se à derrubada de árvores e à preparação do terreno, enquanto às mulheres cabia semear, conservar e colher.

Comparativamente aos homens, as mulheres nas sociedades indígenas suportavam "uma carga extremamente pesada no sistema de ocupação", afirma Florestan Fernandes. Além da agricultura, elas se dedicavam à coleta de frutos silvestres, colaboravam na pesca, transportavam produtos da caça, fabricavam farinha, cauim, azeite de coco, fiavam o algodão, teciam as redes e cestos, fabricavam utensílios de cerâmica, cuidavam dos animais, dos filhos, preparavam os alimentos para as refeições, etc. Era tarefa masculina, além da preparação ocasional do terreno para o cultivo, a caça, a pesca, a fabricação de canoas, a construção de moradias (malocas) e, principalmente, a atividade guerreira.

Como se pode observar, os indígenas se ocupavam, portanto, de inúmeros afazeres para assegurar o próprio sustento. Mas notemos que a divisão sexual do trabalho era feita de tal modo que as atividades que cabiam às mulheres estavam mais próximas daquilo que comumente concebemos como "trabalho" propriamente dito, em sua rotina diária.

Porém, considerando-se a sociedade indígena em seu todo, não seria correto caracterizá-la como pertencente à categoria da economia produtora.

De fato, a agricultura tivera um papel subordinado à coleta e, desse modo, complementar. Numa economia produtora, ao contrário, a coleta - a caça, a pesca, etc. - é que tem uma função complementar e subordinada. De modo que a caracterização de uma economia como "coletora" ou "produtora" depende de qual das atividades é predominante: a coleta ou a produção de alimentos. [...]

Um ponto sobre o qual gostaríamos de chamar a atenção é a natureza das tarefas femininas [...]. Os arqueólogos descobriram inúmeras evidências de que aquelas eram também as tarefas femininas na pré-história e, por isso, atribuíram à mulher várias e importantes descobertas e invenções que prepararam o caminho para a grande revolução econômica que deu origem à economia produtora. Um arqueólogo australiano, Gordon Childe, deu a esse acontecimento o nome de "Revolução Neolítica", que teria ocorrido por volta de 9 mil anos a.C. na região atual da Palestina, no Oriente Médio. Data desse período a constituição das primeiras sociedades produtoras de alimentos que fizeram do trabalho [...] a condição permanente da existência do homem.

Essa relação íntima entre a mulher e o trabalho nos leva à suposição plausível de que, nas sociedades indígenas, a oposição entre masculino e feminino ganhava também a forma de oposição entre guerra e trabalho. Os homens eram, por definição, guerreiros e as mulheres eram, por assim dizer, as "trabalhadoras".

Num belo ensaio em que estudou a oposição entre o masculino e o feminino entre os índios, Pierre Clastres identificou esses dois mundos através de objetos-símbolos - o arco, que simbolizava o homem, e o cesto, que simbolizava a mulher. Nessa oposição está implícita a referência à guerra (arco e flecha) e ao trabalho (o cesto). É verdade que o "arco" pode ser entendido como um símbolo da caça e, portanto, tal como o "cesto", pertenceria à esfera do trabalho. Contudo, essa arma útil para a caça pode ser voltada contra outro homem - um inimigo -, transformando-se em arma de guerra, ao passo que um utensílio doméstico como o cesto não tem essa propriedade. De modo que é em sua função guerreira que o arco simboliza o masculino, e não como instrumento de trabalho, reafirmando, assim, a nossa hipótese.

Assim sendo, a simbolização do masculino pela guerra e do feminino pelo trabalho dá às diferenças entre os sexos um significado preciso. Nas sociedades indígenas, há entre homem e mulher não apenas uma diferença, mas também uma hierarquia, na qual se torna patente a superioridade masculina, obtida pela inferiorização da mulher. [...]

Mas resta observar que as atividades domésticas das mulheres - a criação dos filhos, o cultivo e o preparo dos alimentos - estão, sem dúvida, ligadas estreitamente à vida. Em contrapartida, se os homens se caracterizam socialmente como guerreiros - a sua atividade típica -, encontram-se obviamente relacionados à morte e à destruição.

[...]

KOSHIBA, Luiz. O índio e a conquista portuguesa. São Paulo: Atual, 2012. p. 30-33

quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

Culturas do Paleolítico (de 500.000 a 10.000 anos)

Bisontes. Caverna de Altamira, Espanha

O Paleolítico (Idade da Pedra Antiga ou Lascada) estende-se de 500.000 a praticamente 10.000 anos. Acha-se subdividido em Inferior, Médio e Superior e caracteriza-se pela presença do homem predador, ou seja, o homem como "apanhador de alimentos". Este, aproveitando-se das regiões favoráveis, desenvolveu atividades de coleta sistemática de vegetais, caça aos pequenos animais selvagens etc.

[...]

Cada tipo de tecnologia, desenvolvida nos diferentes períodos, recebe a designação de indústria (indústria de seixos, da lasca, da lâmina ou esquirola e das folhas ou foliácea). É também de tradição quando se refere a uma série de indústrias (tradição nodular, bifacial etc.). Técnicas diferentes, adotadas pelo homem pré-histórico para a confecção de seus instrumentos, produziram, inicialmente, os artefatos lascados e só posteriormente os polidos (técnicas de percussão, pressão e polimento). O material trabalhado era sempre o oferecido pela natureza: seixos, sílex (pedra), osso, madeira, contas, conchas, presas de grandes animais ou algum outro material que não deixou vestígios.

[...]

Os vestígios culturais mais antigos da presença do Homo parecem ser os encontrados no Oriente e no Sul da África, junto a fontes naturais, lagos, planícies etc., em terrenos antigos, sempre associados a restos fósseis, animais e humanos.

* Paleolítico Inferior (500.000 a 150.000 anos). [...] Geograficamente, as regiões habitadas nesse período encontram-se na Ásia, África e Europa, onde foram descobertos e recolhidos os artefatos manufaturados pelos primeiros hominídeos.

a) Homo habilis e os dois espécimes Australopithecus (robustus e africanus). Talvez tenham sido os primeiros seres a adquirir cultura, manufaturando intencionalmente seus instrumentos, encontrados na África (garganta de Olduvai). Esses artefatos, considerados os mais antigos da indústria lítica conhecida, são de pedra e bem rudimentares (seixos, quartzo, sílex etc.).

b) Homo erectus, fóssil humano na sequência evolutiva entre o Australopithecus e o Homo sapiens, tanto no Oriente quanto no Ocidente, desenvolveu atividades que se assemelham: eram caçadores rudes e astutos, utilizando instrumentos manufaturados [...]. No Oriente, as cavernas foram frequentadas periodicamente [...]. Nelas havia ossos humanos e de animais de grande porte (elefantes, bisões etc.). Data daí a utilização do fogo [...]. A indústria lítica do Homo erectus [...] era composta de instrumentos cortantes, pedaços de quartzo rudemente lascados, lascas afiadas, raspadeiras, facas, tipos de machadinhas e o machado de mão com extremidade afiada. [...]

* Paleolítico Médio (de 150.000 a 40.000 anos). Caracteriza-se pela presença do Homo pré-sapiens ou sapiens [...]. A subsistência dependia ainda da caça e da coleta, mas as técnicas de fabricação de instrumentos foram-se aperfeiçoando, permitindo designar esse Homo como sapiens (inteligente). [...]

[...] Os ossos de animais, como elefantes, rinocerontes, bisões, cavalos etc., tinham os mais diferentes usos, desde eficientes furadores até taças obtidas da caixa craniana da rena. [...]

As grutas foram largamente utilizadas como habitação permanente pelo Neanderthalense, conhecido como o "homem da caverna". O uso de grutas foi facilitado pelo conhecimento do fogo [...].

* Paleolítico Superior (40.000 a 12.000 anos). [...] O homem fóssil desse período é o sapiens Cro-Magnon, considerado por muitos como sapiens sapiens. [...]

Na Europa, as culturas do Paleolítico Superior constituem tradições separadas, com características locais [...].

A indústria lítica apresenta-se bem mais aprimorada [...]. Dividem-se em:

a) instrumentos de sílex: pontas de vários estilos, cortadores, raspadores e furadores; buris, propulsores, lanças de pedras pontiagudas, atiradores;

b) instrumentos de osso: furadores e agulhas com orifícios; pontas de arpão etc.

O buril (artefato de pedra mais aguçada e mais rígida que a lâmina) torna-se de grande importância para o artista pré-histórico, que o usa para trabalhar e esculpir o osso e o marfim.

[...] O osso, mais resistente e mais fácil de ser recortado, vai ser aplicado à ponta do arpão (chifre de cervo), que se torna uma arma de grande eficiência, largamente utilizado na caça de grandes e pequenos animais.

[...]

O arco é uma outra conquista desse período [...].

[...]

Também um tipo de anzol primitivo foi idealizado [...].

[...]

O Paleolítico Superior caracteriza-se também pelo surgimento de manifestações artísticas [...]. Expressaram-se através da gravura, da pintura, da escultura e da modelagem. Desenhos de animais (cabalo, mamute, cabrito montês, rena, rinoceronte, bisão, leão, vaca etc.), gravados nas paredes das cavernas, figuras femininas esculpidas, baixos-relevos, esculturas em osso, pedra e marfim aparecem sobretudo na Europa Ocidental e no Norte da África.

[...]

O estudo da arte Paleolítica traz à luz aspectos significativos da cultura desses grupos humanos e de suas reações emocionais. Além de ser a expressão da criatividade dos indivíduos, tem finalidades mágicas ou rituais, sendo também utilitária. Acredita-se que da habilidade do artista dependiam as representações magicamente eficazes na espera da caça abundante, por exemplo, ou de saudável procriação (magia da fertilidade). Desenhando, pintando ou esculpindo expressavam essas ideias e sentimentos.

MARCONI, Marina de Andrade; PRESOTTO, Zelia Maria Neves. Antropologia: uma introdução. São Paulo: Atlas, 2010. p. 80-86.