"Os espelhos estão cheios de gente.
Os invisíveis nos vêem.
Os esquecidos se lembram de nós.
Quando nos vemos, os vemos.
Quando nos vamos, se vão?"
Eduardo Galeano: Espelhos
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sábado, 23 de abril de 2016

Os apartamentos e a massificação da moradia em São Paulo na década de 1930

São Paulo (Gazo), 1924, Tarsila do Amaral

A resistência à moradia coletiva, discriminada pelos discursos oficiais como sinônimo de todas as desgraças sanitárias presentes nas capitais brasileiras desde o Império, foi aos poucos arrefecendo diante da novidade constituída pelos apartamentos, inicialmente dirigidos aos segmentos mais abastados das grandes cidades. O receio de decair socialmente, advindo do desprezo para com as coabitações, foi vencido com a adoção de acabamentos custosos utilizados nos revestimentos externos e nas áreas internas de circulação dos edifícios. Justificava-se, assim, o apelo da denominação dos primeiros edifícios "palacetes", palavra consagrada, capaz de atenuar hesitações ou preconceitos.

Em São Paulo, os edifícios de apartamentos foram ocupando muitos dos bairros que eram abandonados pelas elites, aproveitando os grandes lotes, a arborização das ruas ou o prestígio, empanado, dos antigos bairros elegantes. Os "palacetes" foram erguidos diretamente nas calçadas, como nas capitais europeias oitocentistas, padrão que entraria pela década de 30. Os bairros de Santa Ifigênia, mas sobretudo Vila Buarque e Santa Cecília, são regiões que testemunham o primeiro modelo de verticalização, o qual guarda na ausência de recuos, nas portarias com acabamentos luxuosos e no próprio gabarito de sete ou oito andares a referência direta às experiências de edificação das cidades europeias.

Mas as características de privacidade e isolamento experimentadas nos bairros de palacetes e nos "jardins" acabariam se repetindo na verticalização da moradia. Dispositivos da legislação paulistana exigiram, já em 1937, que os edifícios erguidos nos bairros residenciais privilegiados guardassem recuos laterais e frontais. Isso assegurou a insolação e ventilação aos apartamentos e ao interior dos quarteirões, ao mesmo tempo que se repetia o afastamento entre os espaços público e privado, inseridos naqueles bairros quando abrigavam os palacetes. Higienópolis é o exemplo mais consistente de substituição das casas por edifícios de apartamentos dentro das exigências de 1937, num paradigma do modelo que se reproduziria em quase todos os bairros que não encontravam limites ao adensamento, como aqueles da Companhia City. As pressões por moradia, que permaneciam nas bordas da mancha dos bairros de elite, deveriam se afastadas o quanto possível das áreas centrais, a fim de evitar o encortiçamento dos antigos sobrados e palacetes - e a desvalorização definitiva dos bairros já "decadentes". O Plano de Avenidas, sugerido para São Paulo pelo engenheiro e depois prefeito Prestes Maia, e que foi implementado ao longo das décadas seguintes, coincidiu com a necessidade de preservar as vizinhanças dos bairros privilegiados, mediante o redirecionamento do crescimento daqueles populares.

Prestes Maia preconizou a abertura de grandes artérias radiais que partiam para os bairros, enfeixadas em torno de uma avenida perimetral à área central. A execução de seu projeto, iniciada a partir de 1938, quando ele já era prefeito de São Paulo. garantiu acesso rápido aos arrabaldes, viabilizando o crescimento atabalhoado e especulativo gerado pela venda de lotes populares, destinados a aluguel ou autoconstrução. A verticalização foi também facilitada, seja por meio da ampliação da altura total dos edifícios, seja por meio de novas vias públicas implantadas pelo projeto de Prestes Maia, que deveriam receber o incremento do fluxo gerado nos bairros adensados horizontal ou verticalmente.

MARINS, Paulo César Garcez. "Habitação e vizinhança: limites da privacidade no surgimento das grandes metrópoles brasileiras." In: SEVCENKO, Nicolau (org.) História da vida privada no Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 1998. v. 3.

quarta-feira, 20 de abril de 2016

Mudanças na paisagem urbana e no cotidiano de São Paulo na década de 1920

São Paulo, 1924, Tarsila do Amaral

São Paulo dos primeiros anos da década de 1920 guardava inúmeras manifestações características de uma cidade onde os homens ainda podiam reconhecer-se, isto é, a metropolização que carrega a ideia de um espaço quantitativo e diluidor do indivíduo não havia se imposto totalmente. Um bairro, por exemplo, era sentido como um microlugar de uma cidade com história relativamente descentralizada, onde o tempo era marcado pelos ritos, pelos desfiles de uma banda como a de "Ettore Fieramosca (que) dá uma volta triunfal pelo Bom Retiro com a gurizada atrás". Uma cidade que permitia a existência de espaços para a prática do footing...

[...]

A Ponte Grande [...] estava situada sobre o rio Tietê, na região do próprio bairro do Bom Retiro, próximo ao local onde hoje está localizada a Ponte das Bandeiras. Quase embaixo da velha Ponte Grande existia um porto onde barcos vindos de Mogi das Cruzes ancoravam para descarregar telhas e tijolos.

Os barqueiros descarregavam produtos que chegavam a São Paulo através de um meio de transporte relativamente lento, se for comparado com o trem, cujos trilhos corriam quase paralelamente ao rio. A navegação e os produtos (telhas e tijolos) eram resultados de uma atividade mais criadora, típica de uma cidade menor com um espaço qualitativo que sobrevivia a pressões do espaço quantitativo típico da metrópole que começava a crescer.

Os bairros possuíam restos de uma vida própria resistindo à tendência centralizadora da metrópole.

[...]

Uma profissão arcaica como a de um vendedor de tripas, atividades lúdicas como o balanço do Parque Antártica, as retretas do Jardim da Luz parecem reforçar os contornos de uma cidade descentralizada, com os bairros mantendo uma relativa vida própria. Autonomia que imprimia uma divisão entre espaço e classes sociais: se em Higienópolis podiam viver os enriquecidos de fresca data, formados de uma plutocracia imigrante que sugeria o trabalho como via de ascensão, os imigrantes pobres que exerciam profissões de tripeiro ou condutor da Light só poderiam viver no Bom Retiro [...] ou no Brás, Bixiga e Barra Funda [...]

Os espaços físicos intermediários entre os bairros pobres e o centro da cidade chegaram a ser ocupados por camadas médias ligadas ao comércio e burocracia.

O lazer de parte considerável da população paulista era desfrutar as grandes áreas da mata da Cantareira para fazer piqueniques e namorar. Ou ainda, organizar pescarias com a família e amigos na represa próxima da serra do Mar no caminho para Santos. A atividade lúdica urbana, que havia sido, até um determinado momento, bastante valorizada, sofre um processo de reversão: o espaço urbano encolhe-se diante do crescimento populacional, daí a procura do bucólico e da quietude dos arredores da cidade. [...]

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Confirma-se [...] a tendência à metropolização a organização do lazer, da "felicidade" dominical e da paisagem idílica, em outras palavras, a organização do ócio aumenta na mesma medida em que a cidade perde suas características descentralizadoras e crescem as tendências centralizadoras de um espaço quantitativo. Neste momento é que se dá a liquidação das referências individuais, as mutações são bruscas e as mudanças são eternas. Este era o paradoxo de São Paulo na década de 1920.

A cidade via seu espaço se transformar para que a economia de mercado pudesse escoar seus produtos mais facilmente. O próprio rio Tietê de se falou foi, em parte, canalizado para dar lugar a ruas, por onde passavam caminhões, automóveis, bondes. Viadutos e túneis tornavam as comunicações mais fáceis, anunciando um novo tempo. Os tentáculos viários da metrópole centralizadora avançavam vorazmente sobre os bairros, retirando-lhes o que restava de vida própria.

Os anos 20 conheceram um crescimento nas exportações de café, e entre 1922 e 1923 o produto valorizou. O peso político e econômico do Estado de São Paulo era cada vez maior. Os impostos provindos das exportações produziam uma situação financeira relativamente estável. Esta estabilidade impulsionava a cidade, dinamizando-a. O aparecimento da radiodifusão era parte desde impulso modernizador.

TOTA, Antonio Pedro. A locomotiva no ar. São Paulo: Secretaria de Estado da Cultura/PW, 1990. p. 24-26.

quinta-feira, 14 de abril de 2016

As cidades europeias na Idade Moderna

Uma cena de mercado italiano com ruínas de um templo romano, Jan van Buken

Entre o século XVI e o século XVIII, tomou forma na Europa um novo complexo de traços culturais. Tanto a forma quanto o conteúdo da vida urbana, em consequência, foram radicalmente alterados. O novo padrão de existência brotava de uma nova economia, a do capitalismo mercantilista; de uma nova estrutura política, principalmente a do despotismo ou da oligarquia centralizada, habitualmente personificada num Estado nacional; de uma nova forma ideológica, que derivava da física mecanicista, cujos postulados fundamentais haviam sido lançados muito tempo antes, no exército e no mosteiro.

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A tendência fundamental dessa nova ordem só veio a se tornar inteiramente visível no século XVII: então, todos os aspectos da vida afastaram-se do pólo medieval e se reuniram sob um novo signo, o signo do príncipe. A obra de Maquiavel, O príncipe, proporciona mais que uma pista, tanto para a política quanto para o plano da nova cidade, e Descartes, vindo mais tarde, reinterpretará o mundo da ciência em termos da ordem unificada da cidade barroca. No século XVII, as instruções de precursores como Alberti foram finalmente realizadas no estilo barroco de vida, no planejamento barroco, no jardim barroco e na cidade barroca.

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Os símbolos desse novo movimento são a rua reta, a ininterrupta linha horizontal de tetos, o arco redondo e a repetição de elementos uniformes, cornijas, lintéis, janelas e colunas na fachada. Alberti sugeriu que as ruas "torna-se-ão muito mais nobres se as portas forem construídas todas segundo o mesmo modelo, e as casas de cada lado ficarem em linha uniforme, não sendo qualquer delas mais alta que as outras". Essa clareza e simplicidade foram engrandecidas pela fachada bidimensional e pela abordagem frontal; mas a nova ordem, enquanto ainda vivia, jamais obedecida com qualquer coerência absoluta, como a que foi introduzida pelo século XVII, com suas rigorosas regras de composição, suas intermináveis avenidas e suas regulamentações legais uniformes. Na verdade, justamente nessa concessão, nessa fuga à arregimentação, é que os novos construtores renascentistas provam sua dívida para com a ordem medieval. A altura da nova biblioteca de Sansovino, na Piazza San Marco, não é exatamente a mesma do Palácio Ducal. Assim também a altura das edificações ao redor da Piazza Santíssima Annunziatta, em Florença, é apenas aproximadamente a mesma. Por mais rigorosa que seja a ordem da rua renascentista, não chega a ponto de ser rígida e opressiva.

MUNFORD, Lewis. A estrutura do poder barroco. In: A Cidade na história. Belo Horizonte: Itatiaia, 1965. p. 445-449.

terça-feira, 15 de dezembro de 2015

A cidade do Novo Mundo no século XIX

5ª Avenida no Madison Square, Nova Iorque, 1894-1895. 
Theodore Robinson 

Apenas na segunda metade do século XIX assume o fenômeno urbano proporções dignas de nota. Nos Estados Unidos em 1850, mais de 19 milhões de habitantes, num total de 23 milhões, vivem ainda nos campos. Todas as cidades das regiões austrais são modestíssimas. Mas em 1900, de 75 milhões, 30 milhões de americanos são citadinos, 12 milhões aglomeram-se em cidades de mais de 100.000 habitantes - em número de 30. A partir de 1870, Chicago saltou, de 300.000 para 1.700.000; Nova Iorque ultrapassou os 3 milhões e Filadélfia, 1 milhão. O avanço, bem modesto na África do Sul, vigoroso no Canadá, afirma-se excepcionalmente rápido na Austrália, onde, em 1890, Sydney, Melbourne e Adelaide reúnem um quarto da população total, cabendo a Melbourne quase a metade dos habitantes de Victoria.

Rua George, Sydney, 1883. Alfred Tischbauer 

Nestas condições, surgem por toda a parte cidades novas e cidades-cogumelos. Na frente pioneira a cidade é uma formação primária - a rural non farm - que agrupa os albergues, as igrejas, as escolas, os postos de mudas de cada township. Corresponde, com efeito, à função de intercâmbio que se impôs imediatamente com homens do campo. Mas frequentemente a mina ou fábrica cria a cidade. Em tal caso, a toponímia evoca com intensidade o pensamento criador: assim, ao redor de Pittsburgh, os Bessemer, Etna, Carnegie, Monessen (Essen e Monongahela), alhures os Ironton, Ironmoutain e Ironwood. Há também capitais fundadas para abrigar os serviços governamentais e administrativos, a exemplo de Washington.
Passou o tempo em que era possível a compra de "todo o maldito pântano" de Chicago por um par de velhos sapatos, como se pretendeu mais tarde. John Astor, o comerciante de peles, deu o exemplo com a aquisição de terrenos em Nova Iorque; um de seus filhos, falecido em 1875, deixa uma fortuna de 100 milhões de dólares, dos quais 700 imóveis às margens do Hudson; em 1912, graças a novas compras e à alta da renda territorial, os Astor possuem um capital de 450 milhões. Em Chicago, o preço de 1.000 metros quadrados passa, de 20 dólares em 1830, a 1 milhão em 1892.

O loteamento regular de amplas superfícies, geograficamente cadastradas, explica o plano em tabuleiro. A este do Atlântico, a rua é alinhada segundo as casas, pois acompanha o desenho irregular das propriedades; aqui, a casa é que vem se colocar ao longo da rua. Resulta daí uma extrema monotonia, sublinhada pela numeração das ruas. Chicago, com 44.000 hectares, tem uma densidade quatro vezes menor que Londres (30.000) e Filadélfia (33.500), cinco vezes.

Este gigantismo dispersa as habitações, em geral pouco elevadas, frequentemente construídas de tijolos. O hábito de construir em altura apenas se manifestou após 1890, nos bairros de negócios, onde o terreno atingiu enormes valores: assim, por volta de 1890, na ponta de Manhattan, na cidade baixa, próxima do porto, levantam-se cerca de trinta imóveis de 10 a 30 andares, construídos por ricos particulares, companhias de seguros ou bancos. Não longe destes gigantes, que abrigam lojas e escritórios, estende-se uma zona de habitações, já escurecidas e maltratadas, progressivamente abandonadas à gente pobre; assim, por vezes, o slum é vizinho do arranha-céu; depois, estende-se para além uma nova cidade industrial, cercada por um subúrbio residencial. Em Nova Iorque, a parte oriental da cidade baixa é o bairro do sweating system; um segundo centro de negócios e de residências constitui-se no centro. Verifica-se a justaposição de conjuntos disparatados, sendo as perspectivas cortadas pelas vias férreas e pelas instalações industriais. Em Adelaide, ao contrário, a cidade do trabalho e a das residências são distintas, cada uma cercada de parques. As cidades australianas, de resto, parecem ser as mais cuidadas; as ruas são calçadas de madeira e as casas, pouco originais, não salientam demasiado as diferenças sociais. Nos Estados Unidos, bairros ricos e bairros pobres contrastam rudemente. Os viajantes descrevem complacentemente as belas vivendas dos círculos opulentos de Boston, de Filadélfia e de Nova Iorque; assim, o Barão de Hübner, por volta de 1875, admira, em Chicago, "a célebre Michigan Avenue... bairro da plutocracia, (suas) casas luxuosas, todas de madeira, mas estucadas e construídas nos mais diversos estilos, italiano clássico barroco, gótico, românico, quase todas cercadas ou precedidas de belos jardinzinhos..." Mas a poeira, no verão, a lama, no inverno, são verdadeiros flagelos. O fato de a 5ª Avenida em Nova Iorque ser um pouco tratada é uma exceção, nota um observador. Há imundícies por toda parte; em qualquer estação, é preciso usar botas de borracha. No Canadá, relata um outro, apenas são pavimentadas as ruas de Toronto e Winnipeg. A iluminação é superior à das cidades europeias, mas o sistema de esgotos deixa a desejar e, por vezes, há falta de água. Já em 1878 Búfalo inaugura um aquecimento central a vapor, adotado em seguida por Detroit e Nova Iorque. Multiplicam-se os meios de locomoções e, ao contrário das cidades australianas, que dão uma impressão de tranquilidade, com seus ônibus puxados por cavalos, as aglomerações americanas espantam o visitante com o estrépido de seus veículos.

Tempestade de neve, Madison Square, Nova Iorque, ca. 1890. Childe Hassam

O colorido étnico caracteriza também as cidades dos Estados Unidos. Em Nova Iorque, italianos, irlandeses, judeus, negros têm seus bairros próprios. O melting-pot não faz, de maneira alguma, desaparecerem estes particularismos; cria e acrescenta a cada tipo especial um tipo suplementar, americano, que é o tipo comum.

SCHNERB, Robert. O Século XIX: as civilizações não-eruopeias; o limiar do século XX. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1996. p. 39-41, (História geral das civilizações, v. 14)

sábado, 26 de outubro de 2013

A cidade medieval

Carcassone

A cidade da Idade Média é um espaço fechado. A muralha a define. Penetra-se nela por portas e nela se caminha por ruas infernais que, felizmente, desembocam em praças paradisíacas. Ela é guarnecida de torres, torres das igrejas, das casas dos ricos e da muralha que a cerca. Lugar de cobiça, a cidade aspira à segurança. Seus habitantes fecham suas casas à chave, cuidadosamente, e o roubo é severamente reprimido. A cidade, bela e rica, é também fonte de idealização: a de uma convivência harmoniosa entre as classes. A misericórdia e a caridade se impõem como deveres que se exercem nos asilos, essas casas de pobres. [...] Mas os doentes, como os leprosos que não podem mais trabalhar, causam medo, e essas estruturas de abrigo não demoram a tornar-se estruturas de aprisionamento, de exclusão.

LE GOFF, Jacques. Por amor às cidades. São Paulo: Unesp, 1998. p. 71.

domingo, 16 de junho de 2013

Aurora do século XX: Magia e miséria na cidade grande

Place St. Michel, Notre-Dame, Paris. Edouard Cortes

As grandes cidades eram o símbolo da nova época. Na Europa, havia meia dúzia com mais de 1 milhão de habitantes cada uma, enquanto um século antes somente Londres havia atingido tal marca. Esta continuava a ser a maior cidade que o mundo conhecia, abrigando então 6 milhões de pessoas. A segunda maior, em 1900, era Paris, que se aproximava dos 3 milhões. Berlim vinha em terceiro lugar, com o crescimento mais rápido entre as três e aproximadamente 2 milhões de habitantes. Eram seguidas por Viena (Áustria) e por duas cidades russas: São Petersburgo e Moscou.

Rue de Berne, Paris. Édouard Manet


As cidades cresciam rapidamente, pois absorviam a população excedente das povoações menores e das áreas rurais que ficavam perto delas. Em 1900, apenas metade dos habitantes de Viena era natural dali. Embora fosse a cidade com o custo de vida mais elevado de toda a Europa, estava cheia de habitações, todas extremamente pequenas; assim, a maior parte dos moradores usava as cafeterias da vizinhança para compensar a falta de espaço em casa. Viena era o lar do creme chantili, das tortas geladas e do café - o chá era apreciado na Grã-Bretanha e na Rússia. Era também o lar da música clássica [...] e ali surgiu uma nova psicologia, formulada por Sigmund Freud. Também foi ali que nasceu o nazismo, uma vez que, em 1907, o jovem Adolf Hitler, vindo do interior, começou a aderir ao antissemitismo, tendência política cuja importância aumentava naquela cidade, onde os judeus formavam um décimo da população.

A boa música e o teatro se concentravam nas metrópoles. A música ao vivo era praticamente a única que se podia ouvir, visto que havia gramofones somente em algumas poucas casas e os aparelhos de rádio ainda não existiam. Um dos prazeres dos amantes da música que se mudavam de pequenas localidades para Leipzig ou Praga consistia em ouvir pela primeira vez na vida uma orquestra sinfônica ou uma banda de metais. Interessantíssimas também eram as estações de trem - como a St. Lazare, em Paris, a mais movimentada do mundo - e as ruas apinhadas de veículos de tração animal e bondes, com seus sinos barulhentos. A tudo isso se somavam os músicos a tocar nas calçadas em troca de moedas de bronze e prata recebidas dos passantes.

Un Bar aux Folies-Bergère, Édouard Manet



Os rostos que enchiam as ruas das grandes cidades eram um reflexo do trabalho diário. A maior parte dos habitantes voltava para casa com sinais da labuta espalhados pelas roupas e mãos - tinta de impressão, farinha do moinho, o mau cheiro do esterco dos estábulos, o odor de couro das fábricas de botas e a fuligem do carvão das fábricas e ferrovias. Nem sempre havia água para beber e para limpeza. [...] Os perfumes quase sempre compensavam a escassez da água [...[.

O número de escriturários e funcionários administrativos aumentava - um indício da época em que trabalhar com roupas limpas seria a regra. Grandes escritórios dependiam de invenções que aceleravam o fluxo das informações: o selo de preço irrisório; as coletas postais, que aconteciam três vezes ao dia nas grandes cidades; e as canetas de ponta de aço, que substituíram as penas de ganso. [...]

Os escritórios das cidades passaram a usar a máquina de escrever Remington, o telefone e a calculadora. [...] As máquinas de escrever tinham a vantagem de, com a ajuda de uma folha de papel-carbono colocada atrás do papel branco, produzir uma cópia nítida do que havia sido datilografado. Por volta de 1910, alguns trens expressos ofereciam uma sala com máquinas de escrever na qual estenógrafos podiam receber mensagens de homens de negócios e datilografá-las enquanto o trem avançava velozmente [...]. A datilografia era cada vez mais uma profissão para jovens mulheres, que tornaram os escritórios não apenas um local de trabalho, mas também de namoro.

BLAINEY, Geoffrey. Uma breve história do século XX. São Paulo: Fundamento Educacional, 2011. p. 25-27.

sábado, 8 de junho de 2013

Construção de Monte Albán

A pirâmide de Monte Albán: Implantado no cume de um conjunto de colinas áridas que dominam os três ramos do vale de Oaxaca, Monte Albán foi rapidamente dotada dos monumentos que convinham a seu prestígio. Palácios, praças de jogo, imponentes pirâmides encimadas com templos de colunas delimitam a esplanada central. As residências e as habitações são repartidas sobre os terraços que cercam os edifícios públicos.

Monte Albán foi, de 500 a.C. a 800 d.C., a capital zapoteca. Empoleirada sobre uma montanha que domina os três braços do vale de Oaxaca, ela ocupa uma posição defensiva. Em mil e trezentos anos de ocupação, essa cidade se transformou num imponente complexo arquitetônico de múltiplas funções.



Vista do conjunto arquitetônico de Monte Albán

A cidade teria sido concebida como um lugar que permitia confederar pequenos reinos zapotecas rivais dispersos pelo vale. A insegurança reinante entre os três ramos do vale teria levado à fundação de uma capital confederada neutra, dependendo, para sua própria alimentação, do apoio das diferentes aldeias. A água, por exemplo, devia ser levada até o topo da montanha e armazenada em sistemas de estocagem. E, em suas origens, a cidade compreendia três bairros, representando os três grupos fundadores. Mas, muito rapidamente, Monte Albán impõe seu controle sobre o vale. Por volta de 200 a.C., a cidade ergue monumentos esculpidos, os famosos danzantes, cujos personagens de corpo torturado testemunham suas vitórias e suas conquistas. A cidade reúne especialmente a elite da sociedade zapoteca: guerreiros, artesãos e dirigentes políticos e religiosos. Com efeito, visto que a cidade é pobre em terras cultiváveis, os agricultores são pouco numerosos e residem nas povoações vizinhas.


Galeria dos "danzantes"

O aspecto atual de Monte Albán resulta de remanejamentos sucessivos no decorrer dos séculos, à medida que a potência zapoteca se estendia na região. No entanto, a harmonia da concepção estrutural original nunca foi alterada. As principais construções contornam uma vasta esplanada central, que pode acolher um número de fiéis ou de súditos bem superior ao dos únicos habitantes da cidade. Essa esplanada abrigava provavelmente também o mercado, enquanto os edifícios que a delimitam têm funções religiosas. Monte Albán conta numerosos palácios para suas atividades administrativas e áreas residenciais. Esse conjunto mostra muito bem a importância da cidade, que dominava as comunidades dos arredores, e sua potência militar e política, que lhe permitiu estabelecer relações equilibradas - sem risco de perder sua especificidade - com Teotihuacán, a grande metrópole do México central.

SALLES, Catherine (dir.). Larousse das Civilizações Antigas 2: da Babilônia ao exército enterrado chinês. São Paulo: Larousse do Brasil, 2008. p. 184.

sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

A sujeira nas cidades do Brasil colônia


Rua Direita, Rio de Janeiro, Rugendas

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Em um livro delicioso, o historiador Emanuel Araújo, já revelou que, no Brasil, "a sujeira é um hábito". Na época colonial, as Câmaras ordenavam que os moradores calçassem a testada de suas casas numa largura de cinco palmos para atenuar o efeito das chuvas tropicais que corriam dos beirais dos telhados. Os cuidados contra as copiosas "águas" esbarravam, entretanto, no fato de que o lixo já era atirado, sem cerimônia, à rua por onde andavam, pachorrentamente, os animais domésticos.

Alexandre Ferreira, naturalista e viajante do século XVIII, chegou a registrar que, em algumas cidades da Colônia, as ruas não eram capinadas para "não privar o gado da erva de que se sustentavam". Uma série de determinações aplicadas, então, pelos vereadores, tentava dar conta da relação pouco respeitosa que os moradores tinham com sua cidade.

Em 1625, ordenava-se, em Salvador, que toda a pessoa que tivesse casa nesta cidade, onde se fizessem esterqueiras, as mandasse limpar com pena de 16 mil réis e de se lhe taparem às suas custas, e que toda a pessoa que tivesse casa que botasse cano na rua pública, o tivesse sempre limpo, com a mesma pena; e assim mais varresse suas ruas e as tivesse limpas, com pena de 2 mil réis.

As determinações, segundo Araújo, eram pouco obedecidas ou em definitivo não o eram, pois, em julho de 1692, os vereadores voltavam a reiterar as mesmas ordens de 1625. Chegava-se a pensar que "a malignidade dos ares corruptos" de Salvador devia-se "às imundícies que de noite e de dia" se lançavam nas ruas. Padre Manoel da Nóbrega queixava-se do desprezo dos habitantes, anotando, sisudo: "Não querem bem à terra".

Já o marquês de Lavradio notava em relatório, alguns anos depois, que os pobres escravos desembarcados no Rio de Janeiro andavam pelas ruas "cheios de moléstias e nus [...] e ali mesmo faziam tudo que a natureza lhes lembrava, não só causando o maior fétido [...] mas até sendo o espetáculo mais horroroso que se podia apresentar aos olhos".

Andando pelas ruas de Salvador, entre 1802 e 1803, Thomas Lindley registrava em seu diário que "as ruas são apertadas, estreitas, miseravelmente pavimentadas, nunca estão limpas, apresentando-se sempre repugnantemente imundas". Dez anos depois, outro inglês queixava-se, fleumático, "do aroma penetrante que emana de todas as fendas das ruas" ironizando que, ali, a cloaca se transformara em divindade "e seus devotos mostram-se tão sinceramente seus admiradores que as oferendas nunca são retiradas, exceto sob a influência combinada do sol, do vento e da chuva".

Diferentemente da colonização portuguesa, os holandeses enquanto estiveram em Pernambuco exigiram um comportamento bem diferente dos cidadãos: proibiram desde logo que se jogasse lixo nas ruas, que os animais circulassem à solta, obrigando a varredura das ruas e o aterro destas em caso de alagamento. Algumas ruas de Recife foram pavimentadas com tijolos holandeses e, para não estragar a pavimentação, proibiu-se o tráfego de carros de boi.

Vistas pelo olhar desses argutos observadores, as cidades brasileiras pareciam não ter aprendido as lições que, segundo Gilberto Freyre, teriam sido transmitidas por nossos ancestrais indígenas: o banho frequente que escandilizava o mal-asseado europeu e toda uma liturgia sanitária e profilática que ia do uso higiênico da folha de bananeira à lavagem da rede de algodão no rio.

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PRIORE, Mary Del. Histórias do Cotidiano. São Paulo: Contexto, 2001. p. 57-59.