"Os espelhos estão cheios de gente.
Os invisíveis nos vêem.
Os esquecidos se lembram de nós.
Quando nos vemos, os vemos.
Quando nos vamos, se vão?"
Eduardo Galeano: Espelhos
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sábado, 17 de dezembro de 2016

A civilização micênica: organização política, social e econômica

Afresco representando guerreiros armados com capacetes de dente de javali em uma carruagem dual, ca. 1350 a.C., Pilos. Artistas desconhecidos

A importância da herança cretense recolhida pelos micênicos é de tal ordem que, para evitar as repetições inúteis, nos ateremos às diferenças, apesar de tudo sensíveis, entre as duas civilizações, isto é, limitar-nos-emos às novidades que constituem a contribuição dos Aqueus. Esses, com efeito, não as devem à região onde viveram. Entre a Grécia meridional e Creta, a natureza apenas introduz matizes, dos quais o mais importante provém dos rigores ocasionalmente mais acentuados do inverno: nada que pudesse modificar seriamente as condições de existência. Além disso, as civilizações que se haviam manifestado na Grécia até o momento de sua chegada transmitiram-lhes pouca coisa e não dispunham, aliás, senão de muito pouco para legar-lhes: nada que pudesse rivalizar com a civilização cretense. Se, nessas condições, eles se recusaram a calcar inteiramente sua organização e sua vida na dos cretenses, foi porque trouxeram consigo ideias, costumes e hábitos, ao mesmo tempo próprios aos indo-europeus e a homens que viveram longamente em outras áreas, sobretudo, nesse caso especial, nas regiões setentrionais.


Afresco de carruagem, ca. 1200 a.C., Tirinto. Artistas desconhecidos

* Os princípios belicosos. A novidade transparece, de início, na organização política e social, pois os vestígios materiais deixados pelos grandes deste mundo em nada se assemelham aos de Creta.

Os palácios e as grandes tumbas põem-nos em presença de uma pluralidade de príncipes. Esses existiam em Micenas e Tirinto, dois pontos da Argólia, pouco distantes entre si. Mas sua celebridade não deve permitir que esqueçamos a existência de outros, em lugares diversos: na própria Argólida, no oeste e no sul do Peloponeso, na Acrópole de Atenas, na Beócia. A esses estabelecimentos dispersos faltava um Cnossos, incontestavelmente superior a todos. A excepcional riqueza de Micenas em ouro talvez se deva apenas ao acaso dos achados arqueológicos, atestada somente pelos objetos, não é acompanhada de qualquer proeminência na arquitetura e na decoração; mesmo nos poemas homéricos, onde a lembrança da realidade é ampliada pela imaginação, Agamenon, rei de Argos, ou seja, de Micenas, é apenas temporariamente "rei dos reis", em vista de determinada expedição.

O contraste surge ainda mais nítido quando consideramos os palácios em si mesmos. Antes de tudo, são fortalezas, edificadas numa posição cuja defesa é facilitada pela natureza, mais frequentemente numa eminência que se eleva acima da planície local. O acesso é proporcionado por meio de rampas cortadas em ziguezague, portas, escadas cavadas na rocha e poternas secretas. Em parte alguma poupou-se a pedra para a construção desses muros que os gregos denominarão "ciclópicos", tão formidáveis lhes parecerão os blocos que os compunham: na Beócia, numa ilha (Gla) do Lago Copais, a muralha mede 3 quilômetros de periferia; em Tirinto, nos muros de 6 metros de espessura, abrem-se casamatas.

Impossível, em tais condições, pensarmos numa realeza única, ainda que essa concedesse a vassalos poderosos - senhores "feudais", diz-se frequentemente, porque as fortalezas evocam os burgos medievais - certas partes de seu território. Tanto em princípio como de fato, trata-se de príncipes independentes, entre os quais devemos imaginar rivalidades e, portanto, guerras. A hipótese de uma preponderância honorífica, reconhecida a um deles e que justificasse o seu comando nos empreendimentos coletivos, apóia-se apenas na Ilíada. É possível que a Argólida acabasse por predominar; mas Micenas e Tirinto subsistiram lado a lado, e sua coexistência duradoura, em tal proximidade, coloca um problema insolúvel.

Vemos, na realidade, que esses príncipes amam e praticam com frequência a guerra. Fazem-se sepultar com suas armas, capacetes, pesadas espadas que feriam de ponta e de gume, adagas e piques; pelas representações figuradas, conhecemos também suas couraças e escudos, a princípio muito grandes, abrigando o homem como numa torre, e depois, mais manejáveis, arredondados e de menores proporções. Nos intervalos dos combates, exercitavam, assiduamente, a força física na caça, da qual bem mais do que a arte cretense, que já não as ignorava, a arte micênica da época nos transmitiu cenas de violenta energia. Seu ouro, ao menos em parte, provém de rapinagens. Tudo indica que esses indo-europeus, chegando ao sul da Grécia após mil aventuras desconhecidas, abrindo caminho entre povos há muito sedentários, conservam suas predileções belicosas, combinando-as apenas com o sentido de beleza luxuosa, adquirido no contato com os cretenses. Entre eles, o poder ostenta e usa a força, e das mais brutais.


Fragmento de mural representando guerreiros com capacetes de presa de javali, século XIII a.C., Orcomeno. Artistas deconhecidos

* A aristocracia e as classes trabalhadoras. A sociedade sofreu o contragolpe desse estado de coisas.

Apesar da manifesta vontade de imitação, as menos nas representações figuradas que podiam lançar mão de temas anacrônicos, a vida da Corte foi menos brilhante do que em Creta. As mulheres adotam, para suas vestes, penteados e enfeites, as modas de Cnossos e, em Micenas, um afresco mostra-nos algumas exibindo-se no teatro, no primeiro plano de seus camarotes. Mas abandonam as acrobacias e cabe pensar que diminuiu sua liberdade de atitudes exteriores. Na realidade, a vida no coração dos redutos fortificados que constituíam os palácios - menos de 150 metros de comprimento por menos de 50, em Tirinto - não devia ser alegrada por cerimônias muito galantes. Na realidade, também por causa de seu papel militar, o homem, isto é, o guerreiro, devia impor-se sem dificuldade na vida social. Por analogia com outras sociedades indo-europeias e guerreiras, transpondo-se igualmente alguns traços tomados às sociedades homéricas, imaginaríamos, de bom grado, a existência de grupos de "companheiros" ligados ao príncipe por amizade pessoal, quando não por juramento. Mas isso já seria ultrapassar os limites da nossa documentação direta.

O mesmo de verifica com as relações entre as classes dirigentes e as classes trabalhadoras. Encastelados nas elevações, os palácios lembram-nos abrigos de onde os senhores vigiam e exploram o trabalho de seus servos na planície. Tanto mais quanto surge o problema das relações com mas populações anteriores, cuja conquista não poderia determinar o seu total desaparecimento físico: somos tentados a representar seus sobreviventes e sua posteridade submetidos a um estatuto de estrita dependência. Mas a nossa única certeza é a de que uma muralha externa cerca ao mesmo tempo o palácio e a cidade. Ora, essa muralha possui, muitas vezes, um comprimento restrito (750 metros, em Tirinto; um pouco mais de 1200 em Micenas), o que reduz a pouco a superfície da cidade. Nessas condições, o restante da população dispersava-se pelo campo, ou antes, instalava-se no sopé da colina, correndo para trás dos muros em caso de alerta a fim de se refugiar.

A decifração das tabuinhas escritas em linear B veio ressaltar e completar uma imagem sobre a qual, em dúvida, haviam sido projetadas as recordações de Homero. Elas fazem aparecer uma sociedade hierarquizada, tendo a seu comando um Rei (wa-na-ha = anax em grego clássico e não basileus, que designa "funcionários" locais de escalão inferior) e um "comandante de tropas", mestres de impostos, altos dignitários e responsáveis locais, sacerdotes e sacerdotisas ligados aos santuários e, sem dúvida, comunidades aldeãs (damos). Detalham as tarefas dos escravos e as atividades das profissões (têxtil e couro, madeira e metais, armas e cerâmica, além de ungüentos e perfumes). Mostram os lugares de criação de gado ovino e uma agricultura cuja distribuição de tarefas é ainda discutida, mas que assegura aos chefes e ao clero importantes entregas de trigo e azeite.

* O comércio e a riqueza. O acúmulo desses produtos agrícolas e artesanais nos palácios explica como tais Estados e tal sociedade conheceram a riqueza e a expansão. Lentamente, é verdade, e segundo o exemplo de Creta, que acabaram por suplantar após cerca de dois séculos de aprendizado. Mas sua atividade econômica tomou grande impulso depois da destruição de Cnossos.

Construíram-se estradas e mesmo portos. Os habitantes das fortalezas, todas situadas a certa distância do litoral, não se encontravam tão afastados da costa que não pudessem vigiar a vida marítima e, até mesmo, dela participar. A princípio, praticaram a pirataria e, em seguida, dominaram o mar, passando as expedições comerciais a substituir as incursões de pilhagem. Viagens longínquas, por vezes, somado ao que provinha do Cáucaso e chegando em maiores quantidades, o estanho ocidental facilitou a fabricação do bronze; continuaram a importar - por intermédio de quem? - o âmbar do Báltico, ignorado pelos cretenses, mas cujo pálido e misterioso reflexo os indo-europeus aprenderam a apreciar no decorrer de suas permanências nórdicas. Mas os navios micênicos também singraram os mares próximos; os achados de objetos característicos, que nos fornecem informações seguras, atestam a importância e a ampla dispersão da produção metalúrgica e da cerâmica. Vindos do norte, de um clima mais rude, levaram à Grécia a fíbula metálica que lhes permitia prender as mais pesadas vestimentas: os mediterrâneos adotaram-na. Seus bronzes, suas jóias, suas pedras gravadas e, sobretudo, sua cerâmica com uma decoração cada vez mais estilizada, tendendo ao geometrismo, são encontrados em numerosos lugares: na Sicília e na Itália do Sul, nas Cíclades, na costa da Ásia Menor, em Chipre e, por fim, na Fenícia, onde Minet el-Beida, o porto de Ugarit-Ras Chamra, lhes servia de entreposto tão ativo, que nos é lícito considerá-lo uma espécie de colônia de onde a exportação atinge certos pontos do vale do Eufrates.

Espólio de guerra e pirataria, tributos, indústria e comércio: o resultado foi a riqueza. No mundo grego, nenhum lugar forneceu aos arqueólogos tanto ouro quanto Micenas (14 quilos antes dos achados de 1952). Os gregos guardaram a lembrança desse fausto: nos poemas homéricos, "rica em ouro" é o epíteto de Micenas, despojada com o tempo, transformada num simples povoado do território de Argos. De fato, só com o período helenístico e com o lançamento em circulação dos tesouros persas, verificar-se-á, numa região que o produz, um afluxo análogo do mais precioso dos metais.

AYMARD, André; AUBOYER, Jeannine. O Oriente e a Grécia Antiga: o homem no Oriente Próximo. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2003. p. 42, 45-9. (História geral das civilizações, v. 2)

domingo, 16 de outubro de 2016

Harém: a vida entre prazeres e intrigas (Parte 2)

Odalisca reclinada, Hermann Fenner-Behmer


A aprendizagem da etiqueta da corte, do savoir-faire mais refinado, o aperfeiçoamento nos domínios da música, da dança, da poesia lapidavam aquela que até então tinha apenas a beleza como atributo. Sua formação era contínua, assegurada pelo pessoal feminino do harém. Cada jovem era encaminhada a um serviço particular pelo mordomo do harém - servir à mesa, cuidar da roupa branca ou dos banhos - e recebia por aquela tarefa um salário diário. Ali se decidia o seu destino. Ao ter um desempenho superior em sua função, a mais bela, a mais inteligente, a mais hábil conseguia fazer-se notar. Assim nasciam rivalidades que formavam o pano de fundo da vida cotidiana do serralho.

A mais estrita hierarquia reinava entre as escravas. O escalão mais baixo era ocupado pelas cariye (pronuncia-se djanê), as iniciantes, das quais algumas poderiam vir a atrair a atenção do sultão. Nesse caso, eram chamadas de gözde (literalmente, "no olho"), companhias passageiras. O senhor conservava entre elas aquelas que dominavam as mais refinadas artes da atração - e as artes eróticas não eram as menos importantes.


No harém, Adolphe Yvon

Essas damas de companhia que o vestiam, o banhavam, serviam suas refeições e seu café, cuidavam de suas vestimentas, entre outras atribuições, eram chamadas de odalik - as famosas odaliscas -, termo vindo de oda, que significa "para o quarto".

A fortuna começava a sorrir àquelas que partilhavam mais regularmente a cama do sultão. Essas ikbâl, ou concubinas, dispunham no palácio de apartamentos privados e de servidores. A atribuição de um número de ordem (favorita nº 1, nº 2...) as hierarquizava. Mas todos os favores recaíam sobre aquela que dava à luz um filho. Ela tornava-se cadine (mulher nobre) e obtinha o status de esposa. O número dessas privilegiadas oscilava entre quatro e oito, a mais honrada sendo aquela que havia gerado o primeiro filho do sultão. Suntuosos aposentos lhe eram atribuídos, bem como rendimentos substanciais que lhe permitiam financiar hospitais, mesquitas, fontes ou banhos públicos em Istambul ou nas províncias.

Os efetivos femininos do harém variaram ao infinito, segundo a época e os desejos de cada senhor. Quase 200 no tempo de Solimão, o Magnífico, mais de 900 em meados do século XVII, entre 400 e 800 no século seguinte, 809 em 1870. Por ocasião da morte de um sultão, suas favoritas em geral eram encaminhadas ao Velho Palácio, situado no centro da capital, um "palácio das lágrimas", onde as mais idosas e as que haviam caído em desgraça definhavam aos poucos. No entanto, o costume permitia a algumas contrair novas núpcias com altos dignitários, com a concordância do novo soberano. Aquelas que jamais haviam merecido as atenções do sultão podiam, depois de nove anos de serviços, deixar o palácio e se casar; sua educação esmerada fazia delas parceiras cobiçadas.

Jean-François Solnon. Harém, a vida entre prazeres e intrigas. In: Revista História Viva. Ano XI / Nº 123 / p. 48-49.

sexta-feira, 14 de outubro de 2016

Harém: a vida entre prazeres e intrigas (Parte 1)

Uma piscina no harém, Jean-Léon Gérôme 

No século XV, o palácio de Topkapi, construído no século precedente, foi ampliado. Seu harém pôde então abrigar até 1.500 mulheres. Uma cidade proibida, onde o amor e a política conviviam intimamente.

Na história do mundo, poucas instituições intrigaram tanto os ocidentais quanto os haréns dos sultões, que têm nos domínios do imperador otomano, em Istambul, o seu exemplo maior. Ele inspiraria as mais pródigas fantasias do mundo da cristandade, chegando ao carnaval do Brasil do século XXI. Gigantesco lupanar, sede incomparável de desvario sexual, o harém do grão-turco suscitava curiosidade, inveja ou repulsa, mas não deixava ninguém indiferente. Era possível imaginar belas ocidentais arrancadas de suas famílias para se tornarem as prisioneiras de um monarca libidinoso, submetidas a seus caprichos, joguetes de todas as suas fantasias, antes de serem lançadas no Bósforo quando não lhe agradavam mais.

Vinha também ao espírito o clichê dessas mulheres, condenadas a uma vida reclusa, ocupando seus dias ociosos a se enfeitar à espera de um simples olhar de seu senhor, ou a tecer intrigas destinadas a se vingar de uma rival. Os pintores ocidentais, frequentemente, nos mostraram as mulheres do harém despidas - como o fez Ingres com a sua Grande odalisca -, quando o clima de Istambul absolutamente não se harmoniza com uma nudez constante. Os escritores viajantes se dedicaram a descrever a vida cotidiana do harém, ainda que nenhum deles tivesse chegado algum dia a transpor os seus portões, enquanto outros pintavam o gineceu otomano como o teatro de sangrentas tragédias - ou, ao contrário, o jardim do Éden.


Harém, Théodore Chassériau

O harém era um local secreto. Muitos falaram dele, poucos o conheceram. Além disso, esse lugar misterioso era propício aos voos da imaginação. A palavra vem do árabe haram, que designa um lugar protegido por regras, proibido, sagrado. Em um sentido mais comum, o harém correspondia à parte secreta de uma casa, uma parte na qual mulheres, crianças e empregados domésticos viviam em isolamento completo: um espaço vedado aos homens.

Uma residência muçulmana compreendia os aposentos dos homens (o selamlik) e os das mulheres (o haremlik). Da mesma maneira, no palácio imperial, o harém era a parte mais secreta do enderûn, espaço interno da residência do sultão e seu domínio privado, em oposição ao birûn, espaço externo consagrado à vida na corte e ao Estado.

A vocação do harém imperial não se limitava a satisfazer os prazeres carnais do sultão, mesmo quando alguns entre eles - como Murad III (1546-1595), de quem se diz que "rendia homenagens" a duas ou três mulheres a cada noite - se mostravam insaciáveis em seu apetite sexual. Sua função essencial era assegurar a perenidade da dinastia, sua sobrevivência biológica, graças a uma abundante descendência masculina destinada a fazer contraponto à elevada mortalidade infantil e às frequentes mortes violentas. O grande número de parceiras femininas do sultão era a melhor garantia disso. Assim os "filhos de Osman", criador no século XIII da dinastia que foi chamada de otomana, reinaram ininterruptamente sobre o império até a supressão do sultanato por Mustafá Kemal, em 1922. Mais ainda, ao contrário das monarquias europeias, a Sublime Porta jamais conheceu uma guerra de sucessão.

A concentração de mulheres devotadas a gerar descendentes não deveria suscitar dificuldades políticas com suas famílias. Para eliminar esse risco, eram escolhidas esposas privadas de laços familiares. Toda ameaça de conspiração e até mesmo de levante ou de revolta, fomentada por parentes excessivamente ambiciosos, era desse modo descartada. Se os primeiros sultões desposaram princesas da Anatólia, bizantinas, búlgaras ou sérvias, seus sucessores, desde o fim do século XV preferiram as escravas. Mais ainda, para evitar com certeza os pretendentes externos, as filhas do sultão quase nunca se uniam a príncipes estrangeiros, e sim a notáveis e altos dignitários do império.

Onde encontrar, então, concubinas sem família destinadas ao palácio imperial? Nenhuma turca nem muçulmana de origem podiam ser mantidas nessa situação, pois o Islã proíbe reduzir uma fiel do Profeta à escravidão. Eram, portanto, mulheres cristãs que povoavam o harém - tomadas como presas de guerra, compradas nos mercados de escravos ou oferecidas ao sultão por dignitários zelosos.

Essas virgens eram geralmente originárias da Geórgia ou da Circássia, ambas no Cáucaso - região reputada pela beleza das mulheres -, o que não excluía as jovens de Veneza ou da Grécia, capturadas no Mediterrâneo. O sultão as preferia de carnes generosas, tez clara, com a pele leitosa, o rosto redondo, os cabelos louros ou de um negro aveludado e os olhos azuis.

Ser admitida no harém do grão-turco exigia ultrapassar uma série de obstáculos. A beleza era, sem dúvida, necessária, mas não suficiente. A futura concubina, que não devia esconder nenhuma imperfeição ou defeito físico, era minuciosamente examinada por um médico ou uma parteira. Depois dessa prova, ela era apresentada à mãe do sultão, que a acolhia. Ela recebia então um nome - de flor, de pássaro ou que lembrasse um traço de seu caráter -, era iniciada no Islã pela leitura e escrita do Corão, convertia-se e iniciava a aprendizagem da língua turca. Mas restava o essencial.

Jean-François Solnon. Harém, a vida entre prazeres e intrigas. In: Revista História Viva. Ano XI / Nº 123 / p. 46-48.

sexta-feira, 30 de setembro de 2016

Família e sexualidade na Europa Medieval: as ideias da Igreja sobre a mulher

Uma jovem dama da moda, Paolo Uccello

A doutrina da Igreja medieval sobre o casamento baseava-se em ideias que foram se desenvolvendo dentro da própria Igreja ao longo de sua história. Sob influência da tradição e dos desafios de cada momento, essas ideias iam sendo renovadas e atualizadas.

A renovação católica iniciada com o papa Urbano II, no final do século XI, produziu uma atualização das ideias sobre a mulher. Do final do século XII ao final do século XV, os textos que tratavam da mulher, do casamento e da sexualidade se multiplicaram. Eles revelam a necessidade que os homens da Igreja sentiram de impor valores e modelos de comportamento à mulher.

Muitas mulheres tinham participado de movimentos heréticos, e também era grande o número das que entravam para as ordens religiosas. Algumas escreveram sobre seus ideais religiosos. Isso despertou a atenção do clero.

Na nova economia que se esboçava nessa época, principalmente com o crescimento do comércio e da vida urbana, as mulheres participavam como produtoras e vendedoras de bens. Mas elas eram vistas apenas como mães, filhas e esposas.

Definir claramente os papéis sociais femininos foi um dos objetivos principais dos homens da Igreja. Eles estavam empenhados em restituir a palavra de Deus, vale dizer, a autoridade do clero, onde ela se achava ameaçada. Os pregadores preocupavam-se com uma espécie de desleixo intelectual e moral, que emanava principalmente das cidades.

Ao falar às mulheres, os homens da Igreja não identificam claramente as destinatárias. Dirigem-se às nobres, às camponesas ou às habitantes da cidade? Aparentemente a todas as mulheres, não importando a posição sexual.

Nota-se, entretanto, um esforço de classificação ao qual não estavam acostumados. A tentativa de classificação oscilava entre a categoria social, o tipo de atividade, a idade etc. Assim, temos as virgens, as casadas e as viúvas. As esposas e as mães. As monjas e as servas. As moças, as mulheres jovens, as de meia idade e as velhas. As mulheres pobres e as prostitutas.

Os discursos têm como eixo a oposição entre o que as mulheres eram e o que deveriam ser. Não podemos esquecer que são discursos de clérigos. Além de serem homens falando sobre mulheres, estavam submetidos às regras do celibato e da castidade. Tendiam a ser tanto mais severos na censura da sexualidade, principalmente da feminina, quanto mais dela estivessem afastados.

Para esses pregadores, as mulheres das categorias sociais superiores eram portadoras, ou deveriam ser, de valores mais elevados. Esperava-se que elas servissem de exemplo para as camadas subalternas e tomassem consciência dos seus altos deveres como nobres. As mulheres pertencentes a categorias sociais mais baixas foram vítimas das principais condenações morais nestes discursos.

Quando a mulher é referida sem a identificação do grupo social ao qual pertencem, aparece como uma criatura de extremos entre o bem e o mal: é a filha de Eva ou a virgem que imita Maria.

Mas, independentemente da categoria social, o espaço da mulher é o doméstico. A única que não pertence a ele é a prostituta, à qual só resta o arrependimento e a penitência.

Os textos mais impressionantes são os que falam sobre as mulheres, e não para elas. Eles demonstram claramente o grande medo que elas despertavam. O medo da mulher é uma das principais características do pensamento medieval. Esse medo levava a um severo controle sobre as mulheres. Controlar e castigar as mulheres era uma tarefa dos homens.

Como há um predomínio do espírito sobre a carne, a pureza seria mais de pensamento do que do corpo, mas na hierarquia da castidade, a virgem de corpo está em primeiro lugar.

Foram estabelecidos, então, três graus possíveis de castidade, de virtude e de perfeição. O ideal de mulher é a virgem que renuncia para sempre ao sexo. As viúvas que renunciam a ele por haverem perdido o marido e não se casam estão em um segundo plano. As casadas, que usam o sexo de forma casta e moderada com a finalidade de procriação, estão em terceiro lugar na escala dos méritos. A castidade vale mais do que a continência.

[...]

Até a sua presença na missa seria arriscada, pois os seus olhares poderiam "incendiar os lugares sagrados".

Os conhecimentos medievais sobre anatomia confirmavam o juízo depreciativo dos homens da Igreja em relação à mulher. A fisiologia da mulher foi objeto de longos debates. A conclusão era a de que ela trazia no próprio corpo as marcas da sua inferioridade e mesmo dos seus malefícios.

O Gênesis é citado para mostrar que a mulher é um ser secundário, um apêndice do homem. Acreditava-se que os órgãos femininos fossem menos aperfeiçoados e fracos, de certa maneira opostos aos masculinos. O corpo da mulher foi considerado com base no modelo masculino e os seus órgãos, classificados de acordo com a finalidade. Os seios, por exemplo, eram vistos apenas pela sua finalidade de aleitamento.

No pensamento medieval, o matrimônio era enfocado na sua finalidade de procriação. Por isso não se falava do prazer sexual, mesmo dentro do casamento. Dessa forma, não existiram no Ocidente cristão condições para o desenvolvimento de uma verdadeira arte erótica.

Ao mesmo tempo, os discursos revelam o medo de um saber feminino sobre o sexo. Saber sempre envolvido em mistério e sempre suspeito de origem demoníaca. Tinha-se medo da mulher durante a menstruação e das que deixaram de menstruar.

As velhas eram consideradas particularmente perigosas. Pensava-se que elas conheciam os segredos do sexo e induziam as mulheres mais jovens ao pecado.

A mulher era vista como um tesouro a ser protegido e preservado, pois era fácil de se perder. Daí a necessidade de reprimir, vigiar e enclausurar. Deus é a cabeça de Cristo; Cristo é a cabeça do homem; o homem é a cabeça da mulher.

As mulheres que desejavam roupas cada vez mais bonitas e caras preocupavam os pregadores. Eles achavam que esse cuidado com a aparência e com o corpo se aproximava da idolatria. A maquiagem e os enfeites foram insistentemente condenados.

Apesar de afirmarem que a mulher devia ser protegida, os pregadores diziam que ela precisava ter autocontrole. Aconselhavam-na a não se divertir muito, a mostrar-se orgulhosa, comer pouco, dançar com compostura e mover-se com moderação. Alertavam para o perigo da bebida e do ócio. Contra as tentações, prescreviam o trabalho e a caridade.


PEDRO, Antonio; LIMA, Lizânias de Souza. História por eixos temáticos. São Paulo: FTD, 2002. p. 232-235.

domingo, 11 de setembro de 2016

American way of life

A nova posição feminina expressava-se por meio de comportamentos considerados ousados e vistos pelos conservadores como mais uma "prova" de decadência nos padrões de convivência humana: encurtamento das saias até os joelhos, cabelo curto, hábito de frequentar bares e prática de danças como o foxtrote e o charleston. 
Foto: Inspeção de trajes de banho em 1919, Estados Unidos. Se o modelo fosse muito curto, a moça tinha que pagar multa

O milagre americano criou condições para que aflorasse, nas classes médias e na burguesia, um estilo de vida considerado modelo da moderna civilização ocidental: o american way of life (modo de vida americano). Tal como as mercadorias, ele foi exportado para o mundo todo¹.

* Prosperidade e liberdade. O modo de vida americano, tendo como base a riqueza, caracterizava-se pela construção de edifícios grandes e modernos, pela multiplicação de bairros residenciais cujas casas se ligavam por jardins e gramados, pelo aumento do número de carros e de aparelhos domésticos. Cada vez mais gerava-se a necessidade de consumir, alimentada pela propaganda e pelo crediário.

Na década da prosperidade presenciou-se também uma mudança na vida social e nos costumes, principalmente no que se refere à emancipação feminina. A mulher conquistou o direito de coto (1920), condição para a igualdade política. Nas décadas subsequentes, além de votar, as mulheres ocuparam cargos públicos e privados em vários escalões hierárquicos.

Contudo, a discriminação nos salários continuaria por muito tempo. Apesar disso, em 1940 as mulheres constituíam 25% da mão de obra do país, quando, em 1900, não passavam de 17,7%. A saída da mulher do lar e o trabalho ao lado do homem trouxeram mudanças significativas nos costumes e hábitos sociais. Cresceram sobretudo as reivindicações por igualdade de direitos.

A maior utilização do automóvel também provocou mudanças sensíveis no comportamento cotidiano, principalmente dos jovens, que puderam manter relações mais abertas e livres, longe do controle dos pais.

* Intolerância e fanatismo. A década de 1920 também foi marcada por manifestações de crescente intolerância, fanatismo e chauvinismo entre todas as classes e em todos os setores da sociedade norte-americana.

A política do cordão sanitário imposta à Rússia fez aflorar o medo do comunismo. O exacerbado chauvinismo intensificou o anti-semitismo, e a legislação praticamente pôs fim à imigração da Europa Meridional e Oriental. Organizaram-se ainda campanhas contra católicos.

Tomava corpo uma ideologia que reconhecia como 100% norte-americanos apenas os brancos e protestantes abastados, justificando perseguições aos negros, às outras minorias raciais e aos pobres em nome da preservação de um hipotético ideal de vida norte-americano.

Passou-se a investigar o conteúdo de livros didáticos e manuais escolares, para abolir as obras que não contivessem a apropriada glorificação do passado norte-americano. Grupos paramilitares, contando com o apoio de uns e o medo de outros, dominaram virtualmente o panorama de alguns estados, sobretudo os sulinos.

Nesse contexto, surgiu, em vários estados, a temida Ku Klux Klan², organização que fazia violenta pressão em prol do norte-americano 100%. Em 1925, a organização contava com aproximadamente 5 milhões de membros, levando fanatismo, violência e corrupção onde quer que penetrasse.

Outro componente do norte-americano 100% foi a ênfase na moralização dos costumes. Surgiram, então, várias ligas que se arrogavam o direito de defender qualquer aspecto da "civilização norte-americana" considerado em perigo. De 1919 a 1933, por exemplo, proibiu-se a fabricação, venda ou transporte de bebidas alcoólicas. A chamada Lei Seca contribuiu para o aparecimento de contrabandistas de álcool, os gângsteres e suas quadrinhas, cujo representante mais famoso foi Al Capone. (NEVES, Joana. História Geral - A construção de um mundo globalizado. São Paulo: Saraiva, 2002. p. 434-435.)

 Agentes de proibição destruindo barris de álcool, Chicago, 1921

¹ Na década de 1920, os Estados Unidos estavam embriagados pelo elixir da prosperidade. O mundo não tinha visto nada parecido até então. [...] A família média americana vivia melhor, comia melhor, vestia-se melhor e usufruía mais da sociedade de consumo do que qualquer família média de outra parte do mundo. Eufóricos, os norte-americanos consumiam freneticamente relógios de pulso, geladeiras, latas de ervilhas, aparelhos de barbear, enceradeiras e tudo mais que o dinheiro e o crediário pudessem comprar. Enquanto na Europa a média era de um carro para 84 pessoas, nos Estados Unidos era de um para cada seis pessoas. (CAMPOS, Flávio de; MIRANDA, Renan Garcia. A escrita da história. São Paulo: Escala Educacional, 2005. p. 464.)

² A Klan foi organizada em 1915 pelo professor de história e pregador laico William J. Simmons. Adotou como modelo a organização de encapuzados que aterrorizava o sul do país depois da Guerra Civil. Os adeptos da Klan eram recrutados, principalmente, entre pessoas da classe média. Como só os protestantes brancos e nativos eram considerados capazes de compreender "racialmente" o norte-americanismo, a Klan deliberou a eliminação de católicos, judeus, negros e da maioria dos estrangeiros.

Referências:

CAMPOS, Flávio de; MIRANDA, Renan Garcia. A escrita da história. São Paulo: Escala Educacional, 2005. p. 464.
NEVES, Joana. História Geral - A construção de um mundo globalizado. São Paulo: Saraiva, 2002. p. 434-435.

segunda-feira, 1 de agosto de 2016

Moça independente: Maria Quitéria

Maria Quitéria, Domenico Failutti

“Maria de Jesus é iletrada, mas viva. Tem a inteligência clara e a percepção aguda. Penso que, se a educassem, viria a ser uma personalidade notável. Nada se nota de masculino nos seus modos, antes o possuía gentis e amáveis. [...] Nada notei de peculiar no seu procedimento à mesa. [...] e que fume um cigarro após cada refeição. No mais, muito moderada”. Assim a escritora inglesa Maria Graham, tutora das filhas de D. Pedro I, descreveu uma das maiores heroínas do Brasil. Uma mulher que já foi chamada várias vezes de Joana D’Arc brasileira. Uma guerreira que lutou pela independência e se transformou em nome de ruas no Brasil inteiro: Maria Quitéria.

A declaração da Maria inglesa sobre a sua xará, nascida em 27 de julho de 1792 em um sítio em Cachoeira, na Bahia, aconteceu já depois de a Maria baiana ficar famosa. Filha de Quitéria Maria de Jesus e Gonçalo Alves de Almeida, a menina ficou órfã de mãe aos 9 anos. O pai se casou mais duas vezes, e a segunda madrasta deixava claro que não gostava do jeito “independente” da menina. Era bonita, sabia montar, caçar, manejar armas de fogo e, petulância, dançava lundus com os escravos. Não podia.

Essa semente de liberdade brotou em setembro de 1822. No dia 6, um mensageiro do Conselho Interino do Governo da Província foi à fazenda de Gonçalo para pedir voluntários da causa da independência. O pai de Maria Quitéria lamentou não ter filhos homens na idade de lutar, mas Maria Quitéria se ofereceu. O pai a censurou: as mulheres são feitas para fiar, tecer, bordar. Não Maria Quitéria.

Fugiu de casa, pegou a farda do cunhado e se apresentou como soldado Medeiros no Regimento de Artilharia. Semanas depois, foi descoberta, porque o pai a estava procurando. Transferida, então, para o outro batalhão, seu uniforme agora era personalizado: tinha um saiote.

Já em fevereiro de 1823, mostrou bravura. No confronto em Itapuã, invadiu a trincheira inimiga e fez vários prisioneiros. Em abril, na barra do Paraguaçu, avançou mar adentro junto com outras mulheres, com a água na altura dos seios, e impediu o desembarque de uma tropa portuguesa. Em 2 de julho, o Exército Libertador entrou em Salvador, aclamado. Houve homenagens aos comandantes e a Maria Quitéria de Jesus.

Por conta de sua atuação, foi recebida pelo imperador D. Pedro I – quando se encontrou com Maria Graham – ganhando a insígnia imperial da Ordem do Cruzeiro. Até morrer, em 1853, pobre e quase cega, recebeu um soldo de alferes. Além das homenagens, Pedro I ainda tentou ajudá-la nos assuntos domésticos. Enviou uma carta ao seu pai, Gonçalo de Almeida, pedindo que ele a perdoasse. Não é fácil, mesmo, ter uma filha guerreira em casa.

Ronaldo Felli. Moça independente. In: Revista de História da Biblioteca Nacional. Ano 9 / Nº 100 / Janeiro 2014. p. 52.

domingo, 31 de julho de 2016

Cotidiano das mulheres camponesas [Europa, final do século XIX]

Camponesas com silvado, Jean-François Millet

A vida das camponesas era regrada pela da família e dos ritmos dos campos. Numa rígida divisão de papéis, tarefas e espaços. Para o homem, o trabalho da terra e as transações do mercado. Para a mulher, a casa, a criação de animais, o galinheiro e a horta, cujos produtos [...] ela vendia na feira. De acordo com a idade e com a posição na família, elas trabalhavam no campo por ocasião das colheitas de todos os tipos, de batatas a vindimas, curvadas sobre a terra ou sob o peso de cargas. A velha camponesa é uma mulher recurvada. Elas cuidavam do rebanho, das vacas, que vigiavam e ordenhavam, das cabras, cujo leite servia para fabricação artesanal de queijo, que também era serviço delas. [...] A camponesa é uma mulher ocupada, preocupada em vestir (ela fia) e em alimentar os seus (autossubsistência e confecção das refeições) e, se possível, trazer para casa um suplemento monetário a partir do momento em que o campo se abriu para o mercado: mercado alimentar, mercado têxtil. Muito cedo ela fia para fora ou faz rendas [...] que são buscadas nas aldeias por estafetas. O luxo, na corte e na cidade, principalmente a partir do século XVII, aumentou a demanda com relação às mulheres, que assim entraram no circuito monetário.

A fiadeira, Jean-François Millet


Esse mundo rural, cujo pilar é o casal, é muito hierarquizado: entre os sexos (ele é o senhor); entre as mulheres. A dona de casa reina sobre a família e os agregados. Ela toma conta das filhas, preocupada com seus namorados e seu enxoval, modo de transmissão privilegiado entre mãe e filha. Cuida da roupa branca, cujas lavagens constituem verdadeiras cerimônias. Cuida dos parentes idosos, reclamando quando tem de trazê-los para morar em sua casa. Vigia as criadas, muitas vezes às voltas com as inconveniências dos cavalariços, ou do patrão, para ver se não estão engordando além do normal por baixo de seus blusões ou aventais. Essas criadas, filhas de famílias numerosas, que não podem sustentá-las nem empregá-las, pertencem à camada mais pobre e mais exposta do mundo rural.

As lavadeiras, Jean-François Millet


Essa vida rude tem seus ritos e seus prazeres para as mulheres, cujo poder oculto é, com freqüência, muito forte. Ele se exerce pelo olhar e pela palavra. Na igreja, onde elas são as mais fervorosas. Nas feiras, onde gerenciam o comércio a varejo. Na lavanderia, as mulheres falam entre si e lavar roupa branca é atividade propícia à confidência. Os homens temem o burburinho das lavanderias, que operam uma espécie de censura, desfazem uma reputação. À noite, nos momentos de vigília, as mulheres mais velhas contam histórias e transmitem as lendas e os acontecimentos da vizinhança. Mas logo os jovens forasteiros lhes furtam essa vantagem com seus relatos em que predominam os rumores da cidade. [...]

PERROT, Michelle. Minha história das mulheres. São Paulo: Contexto, 2013. p. 111-2.

segunda-feira, 25 de julho de 2016

A mulher e a sexualidade na Roma antiga: A posição da mulher na sociedade romana

Amo-te, ama-me, Sir. Lawrence Alma-Tadema

As informações que temos sobre a mulher na sociedade romana antiga se referem quase exclusivamente às famílias aristocráticas. [...]

A predominância masculina e a dominação da mulher pelo homem nas mais variadas sociedades têm sido muito destacados pelos estudiosos. Também a mulher romana estava submetida ao poder masculino.

No entanto, em nenhuma sociedade a dominação masculina é total e absoluta. Existem graus e modos variados de dominação. As decisões não são tomadas só pelos homens, e sua predominância não se efetiva em todos os assuntos.

Na política, no trabalho, nos negócios - quer dizer, no espaço público - o homem romano, aparentemente, decidia tudo. No entanto, em casa, no espaço doméstico, predominava a mulher, a administradora do lar.

Mesmo na política, a mulher romana tinha uma influência indireta, mas por vezes decisiva. Não faltam exemplos históricos de mulheres intuitivas e inteligentes, influenciando maridos e amantes que ocupavam posições de poder. Isso torna difícil para os historiadores saber com certeza a origem de muitas decisões.

Para entender uma sociedade, é importante ir além das leis e das regras sociais escritas. É preciso saber como essas leis e regras eram aplicadas e analisar episódios históricos concretos para entender a verdadeira posição da mulher na sociedade romana.

[...] os mitos são uma fonte importante para entendermos valores que orientam o comportamento das pessoas em uma sociedade. O mito [...] a seguir é um exemplo disso. Ele foi registrado pelo historiador Tito Lívio, que também viveu na época do imperador Otávio Augusto.

A história se passa na época do primeiro rei de Roma, o lendário Rômulo. Nesses primeiros tempos não havia mulheres em Roma - coisa só possível em uma lenda. Então, era preciso conseguir esposas.

Os povos vizinhos, entre eles os sabinos, não estavam dispostos a ceder suas filhas para os homens rudes e de origem incerta que habitavam Roma. Diante dessa dificuldade, Rômulo teve a ideia de raptar mulheres das aldeias vizinhas.

Os sabinos foram convidados para uma festa em homenagem aos deuses. Durante os festejos os romanos raptaram as moças que vieram para as comemorações. Após o rapto, os romanos tentaram, com a ajuda do próprio rei, consolar as jovens raptadas. Eles só tinham cometido o rapto por necessidade absoluta, movidos pela força da paixão e do amor. Elas seriam consideradas como verdadeiras esposas. O carinho e a atenção dos maridos fariam com elas esquecessem a dor, a violência e a separação das famílias.

Loucos de dor e ódio, os sabinos se prepararam para a guerra. Logo um poderoso exército se aproximou de Roma. Os romanos saíram ao encontro dos sabinos e travou-se um terrível combate, com muitas mortes de ambos os lados. Em um intervalo da batalha, irrompe no campo uma procissão das jovens esposas, que eram a causa da guerra, Com cabelos soltos e vestes em farrapos para demonstrar o seu desespero, elas imploram para que cesse a guerra.

Sensíveis aos apelos daquelas que mais amavam no mundo, os combatentes interromperam a luta. Por meio de um tratado, não só a paz foi restabelecida, como os dois povos decidiram se unir.

Bem de acordo com o espírito romano, o episódio teve consequências legais: os privilégios e as honras prometidas pelos maridos a suas esposas foram transformados em leis. Elas não fariam nenhum trabalho pesado e servil. Cuidariam dos filhos, fiariam a lã e administrariam o lar.

Que conclusões podemos tirar desse relato lendário? Em primeiro lugar ele mostra que os romanos atribuíam um papel muito importante à mulher na fundação da cidade. Roma teria nascido não apenas da coragem dos guerreiros, mas também do amor e da compreensão das sabinas, que consentiram no seu rapto, promovendo a união com os romanos. O mito mostra ainda que as leis romanas, no que se refere ao casamento e aos direitos da mulher, não foram resultado de um ato de imposição, mas sim da livre aceitação de maridos e esposas.

Outras lendas vão na mesma direção, colocando a mulher em uma posição honrosa e quase sagrada. Muitas dessas lendas ressaltam a vocação profética das mulheres, cuja intuição os homens não vacilavam em seguir. A mulher romana recebia uma veneração quase religiosa. O marido e os filhos devotavam a ela ternura, respeito e se comportavam diante dela com humildade receosa. Nas relações entre marido e mulher, mais do que a submissão, predominavam a cumplicidade e a colaboração.

Todavia, apesar dessa posição honrosa reservada à mulher romana, tanto a lei como os costumes procuravam limitar o seu espaço às fronteiras do lar. Fora de casa, sua influência se dava através da pessoa do marido, do pai ou do irmão. O documento ¹ abaixo mostra, entretanto, que a mulher não se conformou em ficar limitada ao ambiente do lar.

Juvenal ², o autor do documento, representando os valores da tradicional sociedade romana, satiriza as pretensões da mulher em participar de banquetes, de discussões intelectuais e da vida pública em geral.

Assim, as relações entre os sexos era marcada também por uma tensão: de um lado, havia o desejo da mulher de ir além do papel determinado a ela pela lei e pelos homens; de outro, a ação dos homens para impedir que ela ultrapassasse esses limites.

PEDRO, Antonio; LIMA, Lizânias de Souza. História por eixos temáticos. São Paulo: FTD, 2002. p. 215-219.

¹ Conselhos para as mulheres [...] Ainda mais exasperada é a mulher que, assim que se senta à mesa para um jantar, pede para falar em poesia e poetas, quer comparar Virgílio com Homero. Não dá chances a professores, críticos, advogados, leiloeiros ou mesmo a outra mulher. Ela faz tanto barulho que você pensaria em panelas e potes caindo no chão de uma cozinha ou que todos os sinos da cidade estivessem tocando ao mesmo tempo. [...] Ela deveria seguir o ensinamento do filósofo: "a moderação é necessária mesmo para os intelectuais". Ora, se ela realmente quer aparecer educada e eloquente, ela que se vista como um homem, faça sacrifícios para os deuses dos homens e se banhe nos banheiros públicos masculinos. Do meu ponto de vista, esposas não deveriam tentar ser oradores públicos, não deveriam usar a retórica, elas não deveriam ler os clássicos [...] Eu mesmo não entendo uma mulher que faz citações gramaticais sem cometer um erro e cita obscuros poetas. Os homens não se preocupam com tais atitudes. Se ela realmente quer corrigir alguém para aparecer, que o faça com suas amigas e deixe seu marido em paz.

² Décimo Júnio Juvenal nasceu no ano de 60 depois de Cristo e escreveu a maior parte de sua obra a partir do ano de 96. Era um autor satírico. A sátira é um gênero literário que tem como característica criticar, ridicularizando e ironizando, costumes, instituições e personalidades. Esse gênero literário era bastante popular na Roma Antiga. Nessas sátiras de Juvenal, a vítima é a mulher romana que quer fazer poesia, discutir filosofia e participar da vida pública.

quinta-feira, 7 de julho de 2016

"O viver em colônias" [Parte 5 - Lazer e entretenimento]

As vilas e cidades da colônia concentravam os recursos econômicos e humanos, além de sediarem as instituições civis e religiosas, os tribunais, o tesouro, a burocracia civil e militar. Nelas também moravam os comerciantes, advogados, escrivães e artesãos.

A praça desempenhava importante papel na vida cotidiana, pois era local de encontro e servia de mercado. Em seus tabuleiros, mulheres livres e cativas vendiam produtos perecíveis; e escravos de ganho ofereciam seus serviços. Era também o lugar onde se realizavam as cerimônias públicas, as "festas reais", a comemoração de uma coroação ou o nascimento de um herdeiro do trono, e as festas religiosas. Nela se erguiam o pelourinho e a forca, símbolos do poder do Estado.


Uma família brasileira, Henry Chamberlain

As cidades eram divididas em freguesias - jurisdições eclesiais centradas nas igrejas paroquiais, marcos da vida civil e religiosa. A igreja era ponto de encontro, onde se celebrava a missa, procedia-se aos rituais de vida e morte, às festas do santo padroeiro e onde tinham espaço ainda outras atividades. As paróquias também eram encarregadas de serviços sociais, tais como o cuidado dos doentes e dos pobres, além de outros aspectos da vida cotidiana.

O chafariz era outro ponto importante das vilas e cidades. Lá, ao abastecer-se de água, escravos, criados e homens livres pobres encontravam-se para trocar informações de todo tipo. E a população pobre - tanto livre quanto escrava - também se reunia nas tabernas, onde se vendia cachaça. Em 1650, havia mais de duzentas delas em Salvador.

A vida dos colonos era pacata. Não havia grandes diversões, além da chegada de alguma embarcação, trazendo notícias do reino, ou da celebração de festividades religiosas. As missas eram a principal recreação da população urbana. E a Igreja também era responsável pela divulgação de notícias. Naquela época, por causa da inexistência de jornais, as informações eram obtidas por intermédio dos padres ou dos funcionários metropolitanos. Não é de estranhar que os colonizadores dedicassem tanta energia e dinheiro à construção de igrejas. Nas vilas mais prósperas, as igrejas eram ricamente decoradas.

As mulheres dos senhores não participavam da escassa vida social que havia na colônia. Viviam fechadas dentro de casa e só saíam para frequentar a missa. Calcula-se que, nas minas, apenas 5% das mulheres eram chamadas de "donas" ou "senhoras".

"Por mais enfadonha que fosse a vida das senhoras brancas, ainda assim era, sob a maior parte dos aspectos, mais digna de inveja do que a de seus escravos. [...] Um despacho régio de 1º de março de 1700. denunciando a barbaridade com a qual muitos dos senhores e senhoras de escravos os tratavam, declarava que tais atrocidades se tinham iniciado nas plantações do interior, mas ultimamente se estavam espalhando pelas cidades e vilas. A Coroa condenava particularmente a vergonhosa prática de viverem as senhoras dos ganhos imorais de suas escravas, que não só eram encorajadas, mas compelidas a entregar-se à prostituição. Tal prática mostrava-se censurável extensão do hábito mais comum pelo qual as mulheres escravas tinham permissão para trabalhar por sua própria conta como cozinheiras, costureiras ou vendedoras ambulantes, contanto que pagassem aos seus donos uma quantia fixa sobre ganhos diários ou semanais."

Nas camadas inferiores da população, muitas mulheres livres trabalhavam para garantir a sobrevivência e o sustento de suas famílias: eram cabeças da casa. A prostituição era meio de vida comum para as mulheres pobres. O casamento não era comum entre a população livre, pois, entre outras razões, a Igreja cobrava muito para formalizá-lo. As pessoas viviam juntas, mas não casavam. Enfim, a colônia não oferecia outras possibilidades de suprir as necessidades básicas dessa camada da população.

MOTA, Carlos Guilherme; LOPEZ, Adriana. História do Brasil: uma interpretação. São Paulo: Editora 34, 2015. p. 236-7.

sexta-feira, 10 de junho de 2016

Brinquedo perigoso

O restaurador, William Hemsley 

“Diga-me com o que brincas e dir-te-ei quem és.” Aproveito o mote para falar mal de Barbie, boneca feita, por incrível que pareça, em uma fábrica de brinquedos dirigida por uma mulher e introduzida nos Estados Unidos por outra. São 29 centímetros de plástico que contém a desmesura do mundo. O modelo incomoda, tanto mais quanto conhecemos a história das bonecas. Encontradas em tumbas egípcias ou em ruínas romanas, as pequenas miniaturas tiveram, por muito tempo, sentido mais religioso do que lúdico. Foi em finais do século XVII, que a preocupação com a educação feminina levou, na Europa, à valorização das primeiras bonecas. Na forma de bebês, elas deviam incentivar os cuidados com a prole, reproduzindo os valores familiares. Brincar de boneca foi, até ontem, um exercício para desenvolver os instintos maternos. Bons tempos em que as bonecas tinham sentido educativo.

Qual o sentido de um arquétipo plastificado em pin-up loura, fria como as neves do norte europeu, num país de mestiços, afogados em suor? Nada além de sublinhar o modelo da juventude americana numa sociedade que já engole lixo cultural suficiente, vindo dos Estados Unidos. Para começar, trata-se de impor um estilo de vida “cor-de-rosa” a toda uma geração de meninas, na sua maioria, pobres: roupas, jóias, maquiagem, tudo de mais supérfluo e descartável. A boneca traduz a ideia de que a mulher deve ser tão improdutiva quanto dispendiosa. Seus saltos altos parecem martelar impiedosamente a necessidade de opulência, de despesas desnecessárias, sugerindo ao mesmo tempo a exclusão feminina do trabalho produtivo e, por conseguinte, a dependência financeira do homem. Nossas filhas são precocemente empurradas para o mundo da riqueza. Barbie ensina-lhes a serem consumidoras e consumíveis pelos homens. Na interação da boneca com a criança, a atenção dada ao aspecto exterior reforça a ideia de que a beleza física é a chave da popularidade e, consequentemente, da felicidade: pernas longas, cintura de pilão, traços delicados, cabelos sempre lisos e louros, seios fálicos como foguetes. Preciso lembrar quantas meninas ficam absolutamente frustradas por não serem assim?

O universo de Barbie, sua casa, seu guarda-roupa, seu carro etc. remete à imagem de uma sociedade que é microcosmo de competição e comparação. Seu mundo é feito de valores materiais, do culto ao dinheiro, das compras sem fim. A caricatura étnica da boneca “morena” só faz acentuar o ideal normativo, em que os traços raciais e outros atributos são apagados. Christie, a amiga negra, não representa a diferença, mas alguém que, diante da loura, está fora da norma. Norma que só satisfaz, sublinhe-se, no narcisismo, no cuidado com a aparência, numa feminilidade sem falhas. Pior: Barbie faz pensar numa geração de mulheres clonadas, perfeitas, incompatíveis com a realidade social, o que, do ponto de vista da ilusão, deve confortar muita mãe inconseqüente.

Falo mal da Barbie para lembrar a mães, educadoras, psicólogas e professoras que somos responsáveis pela construção da subjetividade de nossas meninas. Mas a futilidade de Barbie não exclui a sua utilidade de lembrar-nos que temos de lutar por valores melhores do que o dinheiro ou de desejarmos para nossas filhas outra coisa que tornar-se simples mulheres-objeto.


DEL PRIORE, Mary. Histórias do Cotidiano. São Paulo: Contexto, 2001. p. 46-7.

sexta-feira, 27 de maio de 2016

Condições de vida do operário industrial

Engels via os trabalhadores amontoados como ratos em suas moradas apertadas, famílias inteiras - e às vezes mais de uma família - socadas num único cômodo, os sãos junto aos doentes, adultos junto às crianças, parentes próximos dormindo juntos, às vezes sem camas, por terem sido obrigados a vender todos os móveis para serem queimados como lenha, às vezes em porões úmidos de onde se tirava água aos baldes quando chovia, às vezes vivendo no mesmo cômodo que os porcos comendo farinha misturada com gesso e chocolate misturado com terra, intoxicados por carne impregnada de ptomaína, drogando a si próprios e a seus filhos doentios com láudano: vivendo sem esgotos, em meio a seus próprios excrementos e lixo, vitimados por epidemias de tifo e cólera, que por vezes chegavam até os bairros mais prósperos.

Mulheres e crianças trabalhando em uma fábrica de algodão, Inglaterra, 1830. Artista desconhecido.

A demanda crescente de mulheres e crianças nas fábricas fazia com que muitos chefes de família se tornassem desempregados crônicos, prejudicava o crescimento das meninas, facilitava o nascimento de filhos de mães solteiras e ao mesmo tempo obrigava as jovens mães a trabalharem grávidas ou antes de se recuperarem plenamente do parto, terminando por encaminhar muitas delas à prostituição. As crianças, que começavam a trabalhar nas fábricas aos 5 ou 6 anos de idade, recebiam pouca atenção das mães, que também passavam o dia inteiro na fábrica, e nenhuma instrução de uma sociedade que só queria delas que executassem operações mecânicas. Quando as deixavam sair das verdadeiras prisões que eram as fábricas, as crianças caíam exaustas, cansadas demais para lavar-se ou comer, quanto mais estudar ou brincar - às vezes cansadas demais até para ir para casa. Também nas minas de ferro e carvão, mulheres e crianças, juntamente com os homens, passavam a maior parte de suas vidas rastejando em túneis estreitos debaixo da terra, e, fora deles, viam-se presas nos alojamentos da companhia, à mercê da loja da companhia, sofrendo atrasos no pagamento do salário de até duas semanas. Cerca de mil e quatrocentos mineiros morriam por ano quando se partiam cordas apodrecidas, quando desabavam túneis devido à escavação excessiva dos veios, quando ocorriam explosões devido à ventilação deficiente ou à negligência de uma criança exausta: e os que escapavam de acidentes catastróficos morriam de doenças dos pulmões. Por sua vez, os habitantes do interior, que com a industrialização perderam sua antiga condição de artesãos, pequenos proprietários e arrendatários de quem, mal ou bem, os grandes proprietários cuidavam - esses haviam sido transformados em diaristas sem eira nem beira, por quem ninguém era responsável, e que eram castigados com a prisão ou a deportação se, em épocas de necessidade, roubavam e comiam a caça das terras dos grandes proprietários.

Crianças trabalhando em uma fábrica de algodão, Artista desconhecido

Para Engels, parecia que o servo medieval, que ao menos estava fixo à terra e ocupava uma posição definida na sociedade, estivera em melhor situação que o operário industrial. Naquela época em que as leis de proteção aos trabalhadores praticamente ainda não existiam, os antigos camponeses e trabalhadores braçais da Inglaterra, e até mesmo a antiga pequena burguesia, estavam sendo levados para as minas e as fábricas, tratados como matéria-prima para os produtos a serem fabricados, sem que ninguém se importasse nem mesmo com o problema do que fazer com o refugo humano gerado pelo processo. Nos anos de depressão, o superávit de mão-de-obra, que era tão útil nos anos em que a economia ia bem, era despejado nas cidades: estas pessoas tornavam-se mascates, varredores, lixeiros ou simplesmente mendigos - viam-se às vezes famílias inteiras mendigando nas ruas - e, o que era quase igualmente comum, prostitutas e ladrões. Thomas Malthus - dizia Engels - afirmara que o aumento de população estava sempre pressionado os meios de subsistência, de modo que era necessário que grande número de pessoas fossem exterminadas pela miséria e pelo vício; e a nova legislação referente aos pobres havia posto em prática essa doutrina, transformando os asilos de indigentes em prisões tão desumanas que os pobres preferiam morrer de fome pelas ruas.

WILSON, Edmund. Rumo à Estação Finlândia. São Paulo: Companhia das Letras, 1987. p. 132-133.

quinta-feira, 12 de maio de 2016

O consumismo, a propaganda e a mulher na década de 1920

Na década de 1920 firmou-se não só um "estilo de vida americano", mas também a cultura de massas americana, graças à conjugação da produção em série, da propaganda e das vendas a crédito. O rádio, o cinema, os jornais e as revistas foram os grandes divulgadores do american way of life. O número de aparelhos de rádio nos lares americanos saltou de 100.000, em 1922, para 2 milhões, em 1925. A frequência semanal aos cinemas duplicou, atingindo no final da década 100 a 115 milhões de espectadores. As estrelas de cinema tornaram-se os grandes símbolos de sucesso e passaram a ditar moda e costumes.

[...]

Já no início do século XX, as cadeias de lojas e os catálogos de vendas pelo correio popularizaram os artigos fabricados em série (roupa pronta, comida enlatada, móveis, eletrodomésticos etc.) e difundiram informações e valores para muito além dos grandes centros metropolitanos. Contribuíram para um novo nível de estandardização da vida cotidiana e de homogeneização das das diferenças entre o campo e a cidade.



O sistema de pagamento a prestações encorajava as pessoas a consumir além das suas possibilidades. Em 1925, os consumidores americanos utilizaram a venda a prestações para comprar mais de dois terços dos móveis e eletrodomésticos e pelo menos três quartos dos automóveis, pianos, máquinas de lavar, máquinas de costura, geladeiras, gramofones etc.

[...]

Industriais e publicitários norte-americanos da década de 1920 usaram todos os meios para estimular no público o desejo de possuir bens. Anunciavam os aparelhos eletrodomésticos como equipamentos que poupavam trabalho e tempo à mulher. Seduziam o público com imagens de aspiradores, máquinas de lavar roupa e ferros elétricos associadas a figuras de mulheres modernas e elegantes, que mesmo na cozinha usavam salto alto e maquiagem. Os publicitários tornaram-se verdadeiros manipuladores do comportamento humano. Souberam explorar as descobertas da Psicologia sobre a motivação das ações, utilizando imagens e associações de ideias que despertavam emoções no consumidor, incitando-o a comprar. Aos poucos, a propaganda foi deixando de fornecer informações objetivas sobre um produto para transformá-lo em "necessidade que melhorava o nível de vida da família". Inventando necessidades, a propaganda impelia o consumidor a comprar.

Os publicitários logo perceberam que o mercado consumidor era predominantemente feminino, Na década de 1920, as pesquisas mostravam que 80% das compras nas grandes cidades dos Estados Unidos eram feitas por mulheres, Por isso, a maior parte dos anúncios passou a ser dirigida às mulheres, em especial às donas-de-casa. Criou-se a ideia de que o consumo era a tarefa primordial da dona-de-casa. "Ir às compras" era moderno, elegante e "importante" - dizia a mensagem subliminar dos anúncios nas revistas femininas. A nova imagem da mulher substituía a figura tímida, delicada e submissa de antes pela da mulher decidida e sociável. A mulher moderna ideal gostava de se divertir, mostrava-se atraente para os homens e sabia o que queria. A publicidade deu uma nova concepção consumista às propostas feministas, isto é, a mulher moderna "sabe o que quer" porque decide o que comprar. Um anúncio de produtos domésticos publicado no Chicago Times em 1930 proclamava: "A mulher de hoje obtém tudo o que quer. O voto. Finos forros de seda para substituir volumosos saiotes. Objetos de vidro em safira azul ou em âmbar resplandescente. O direito a uma carreira. Sabonetes combinando com as cores de seu banheiro".

[...]

Não se pode pensar a cultura de massas da década de 1920 como se fosse o padrão de toda a sociedade americana. O crescimento econômico e seus resultados materiais estavam distribuídos de forma desigual nos Estados Unidos. Até a década de 1930, as mulheres negras que trabalhavam nas plantações de tabaco em Durham, Carolina do Norte, por exemplo, lavavam a roupa de suas famílias em bacias no quintal, utilizavam latrinas fora de casa e cozinhavam em fogões a lenha. Além da diferença do poder de compra, havia outros elementos que mantinham as desigualdades: enquanto a maior parte das casas urbanas podia contar com energia elétrica, água canalizada e fornecimento municipal de gás, grande parte das áreas rurais não possuía esses serviços.

No Brasil, as revistas femininas da época já anunciavam as maravilhas domésticas para a mulher moderna. No entanto, mesmo nas residências de famílias ricas, o trabalho pesado era deixado à mão-de-obra barata de arrumadeiras e faxineiras, conforme lembra uma empregada doméstica: "Para limpar o assoalho eu espalhava areia nas tábuas e esfregava de joelhos, com um tijolo. Depois, varria, jogava água e puxava com um pano torcido, rodo não existia. Imagina como ficava o rim de quem esfregava o tijolo!". (Citado em BOSI, Ecléa. Memória e sociedade. Lembranças de velhos. São Paulo: Companhia das Letras, 1999.)

RODRIGUE, Joelza Ester. História em documento: imagem e texto. São Paulo: FTD, 2002, p. 102-4.

segunda-feira, 23 de novembro de 2015

A atuação dos jovens e das mulheres nos movimentos revolucionários do século XVIII

A prisão da Bastilha, Henry Singleton

"Foi lá [em Spa] que tive notícias, pela primeira vez, dos acontecimentos que anunciavam o aproximar-se de uma grande Revolução na América [...] O troar do primeiro canhão, disparado nesse novo hemisfério em defesa da bandeira da liberdade, repercutiu em toda a Europa com a rapidez de um raio. Recordo-me que os americanos insurgidos eram chamados bostonianos; sua corajosa audácia eletrizou todos os espíritos, provocou admiração geral, sobretudo entre os jovens, partidários das inovações e ávidos por lutas [...]. Esse movimento, embora parecendo pouco consistente, era notável prenúncio das grandes convulsões que, dentro em breve, abalaram o mundo inteiro, e eu estava longe de ser o único cujo coração palpitava ao rumor do despertar da liberdade, procurando derrubar o jugo do poder arbitrário". (Testemunho do Conde de Ségur sobre a Guerra de Independência americana)

A juventude participou com afinco da Revolução Francesa e das guerras napoleônicas. Os jovens (das cidades, principalmente) representavam a geração renovadora e liberal, desejosa de destruir tudo o que significasse o Antigo Regime. Foram eles que pegaram em armas para lutar contra os exércitos estrangeiros que ameaçavam invadir a França em 1789.

Os jacobinos perceberam a força política da juventude e procuraram utilizá-la na Revolução. Durante a ditadura jacobina (1793-1794), milhares de rapazes de toda a França, entre 16 e 17 anos, foram enviados a Paris, onde, durante algumas semanas, receberam treinamento militar e lições de patriotismo para se tornarem republicanos autênticos. Os que não atenderam ao chamado dos jacobinos sofreram perseguições e humilhações, como a de serem chamados de hermafroditas. Após a queda de Robespierre, grupos de rapazes favoráveis aos girondinos foram à desforra e espancaram os jacobinos.

A convocação de jovens foi ainda maior nas guerras napoleônicas. Só na França. quase 4 milhões foram chamados às armas. O exemplo estendeu-se ao continente. A partir do início do século XIX, com o argumento de amor à pátria, o recrutamento obrigatório passou a ser adotado em todos os países europeus (exceto na Inglaterra). Difundiu-se a ideia de que todos os cidadãos aptos tinham o direito e o dever de defender a pátria. Nascia uma nova e poderosa arma: o nacionalismo.


Carnot na Batalha de Wattignies, Georges Moreau de Tours

Servir o exército também significava prova de virilidade e porta de entrada no mundo adulto. Vestir o uniforme militar era atingir a maturidade, deixar de ser criança, mostrar coragem e potência sexual. Após o serviço militar, os rapazes estavam prontos para o casamento.

Nem todos, porém queriam servir o exército e usavam de vários meios para fugir dele. Alguns casavam com mulheres velhas, para logo depois abandoná-las em troca de alguma ajuda material. Outros fingiam-se doentes, feridos ou inventavam deficiências físicas, como surdez e dificuldade de visão. Havia ainda os que simplesmente fugiam.

A Revolução Francesa contou também com a atuação das mulheres no papel de agitadoras, ou de "bota-fogo", como se dizia na época. Muitas vezes, foram elas as iniciadoras das manifestações populares. Tocavam os sinos chamando a população, rufavam os tambores nas ruas da cidade, zombava, das autoridades e dos soldados, arrastavam os transeuntes, entravam nas lojas, oficinas e casas forçando os indecisos, incitavam os homens à ação, chamando-os de covardes. Um deputado jacobino chegou a afirmar, em 1793: "As mulheres iniciarão o movimento, [...] os homens virão em apoio às mulheres".


Clube Patriótico das Mulheres, Jean-Baptiste Lesueur e Pierre-Etienne Lesueur

Mas a Declaração de Direitos de 1789 não levou em consideração a luta feminina. Em seu título e artigos, aparece o termo "homens", que na época não se referia à humanidade em geral, mas ao ser humano do sexo masculino. As mulheres foram deixadas de lado. Isso não passou despercebido. Em setembro de 1791, a escritora francesa Olympe de Gouges redigiu a Declaração dos Direitos da Mulher e da Cidadã exigindo o direito das mulheres à participação política. Pregava a libertação feminina contra a tirania dos homens. Afirmava que a exploração da mulher pelo homem é a origem de todas as formas de desigualdade.

Olympe de Gouges acabou guilhotinada em 1793, e suas ideias foram rejeitadas pelo governo revolucionário. As mulheres estavam excluídas das decisões das assembleias, das milícias armadas e das comissões locais. Mesmo assim, não ficaram caladas nem ausentes dos acontecimentos políticos. Como cidadãs sem cidadania assistiam às discussões nas tribunas abertas ao público. E como espectadoras continuaram participando: seus gritos, aplausos ou vaias influenciavam os deputados reunidos. Dessa forma controlavam também a atuação política deles.

Na independência dos Estados Unidos, as mulheres americanas atuaram diferentemente das francesas. Elas não foram às ruas e nem assistiram às assembleias políticas. Como mães e donas-de-casa, participaram dos acontecimentos declarando boicote geral aos ingleses. Pararam de comprar os produtos oferecidos pelos comerciantes da Metrópole, desconsiderando até suas ofertas tentadoras de vestidos e chapéus. Deixaram de usar e consumir até os produtos ingleses que tinham estocado em casa e convenceram seus filhos e maridos a fazerem o mesmo. Ofereceram-se como cozinheiras ou lavadeiras para as tropas americanas. Organizaram-se para recolher fundos em favor da causa da independência.

A brutalidade da guerra de independência afetou profundamente as famílias americanas. As mulheres se viram sozinhas para garantir a sobrevivência dos filhos. Tomaram consciência de sua força, de seu valor e capacidade individual. No após-guerra, criaram associações, frequentemente ligadas às Igrejas, destinadas a socorrer as viúvas e os órfãos. Esses grupos consolidaram uma nova forma de atuação social: o trabalho coletivo em benefício da comunidade.

RODRIGUE, Joelza Ester. História em documento: imagem e texto. São Paulo: FTD, 2002. p. 98-100.