"Os espelhos estão cheios de gente.
Os invisíveis nos vêem.
Os esquecidos se lembram de nós.
Quando nos vemos, os vemos.
Quando nos vamos, se vão?"
Eduardo Galeano: Espelhos
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sábado, 17 de dezembro de 2016

A civilização micênica: organização política, social e econômica

Afresco representando guerreiros armados com capacetes de dente de javali em uma carruagem dual, ca. 1350 a.C., Pilos. Artistas desconhecidos

A importância da herança cretense recolhida pelos micênicos é de tal ordem que, para evitar as repetições inúteis, nos ateremos às diferenças, apesar de tudo sensíveis, entre as duas civilizações, isto é, limitar-nos-emos às novidades que constituem a contribuição dos Aqueus. Esses, com efeito, não as devem à região onde viveram. Entre a Grécia meridional e Creta, a natureza apenas introduz matizes, dos quais o mais importante provém dos rigores ocasionalmente mais acentuados do inverno: nada que pudesse modificar seriamente as condições de existência. Além disso, as civilizações que se haviam manifestado na Grécia até o momento de sua chegada transmitiram-lhes pouca coisa e não dispunham, aliás, senão de muito pouco para legar-lhes: nada que pudesse rivalizar com a civilização cretense. Se, nessas condições, eles se recusaram a calcar inteiramente sua organização e sua vida na dos cretenses, foi porque trouxeram consigo ideias, costumes e hábitos, ao mesmo tempo próprios aos indo-europeus e a homens que viveram longamente em outras áreas, sobretudo, nesse caso especial, nas regiões setentrionais.


Afresco de carruagem, ca. 1200 a.C., Tirinto. Artistas desconhecidos

* Os princípios belicosos. A novidade transparece, de início, na organização política e social, pois os vestígios materiais deixados pelos grandes deste mundo em nada se assemelham aos de Creta.

Os palácios e as grandes tumbas põem-nos em presença de uma pluralidade de príncipes. Esses existiam em Micenas e Tirinto, dois pontos da Argólia, pouco distantes entre si. Mas sua celebridade não deve permitir que esqueçamos a existência de outros, em lugares diversos: na própria Argólida, no oeste e no sul do Peloponeso, na Acrópole de Atenas, na Beócia. A esses estabelecimentos dispersos faltava um Cnossos, incontestavelmente superior a todos. A excepcional riqueza de Micenas em ouro talvez se deva apenas ao acaso dos achados arqueológicos, atestada somente pelos objetos, não é acompanhada de qualquer proeminência na arquitetura e na decoração; mesmo nos poemas homéricos, onde a lembrança da realidade é ampliada pela imaginação, Agamenon, rei de Argos, ou seja, de Micenas, é apenas temporariamente "rei dos reis", em vista de determinada expedição.

O contraste surge ainda mais nítido quando consideramos os palácios em si mesmos. Antes de tudo, são fortalezas, edificadas numa posição cuja defesa é facilitada pela natureza, mais frequentemente numa eminência que se eleva acima da planície local. O acesso é proporcionado por meio de rampas cortadas em ziguezague, portas, escadas cavadas na rocha e poternas secretas. Em parte alguma poupou-se a pedra para a construção desses muros que os gregos denominarão "ciclópicos", tão formidáveis lhes parecerão os blocos que os compunham: na Beócia, numa ilha (Gla) do Lago Copais, a muralha mede 3 quilômetros de periferia; em Tirinto, nos muros de 6 metros de espessura, abrem-se casamatas.

Impossível, em tais condições, pensarmos numa realeza única, ainda que essa concedesse a vassalos poderosos - senhores "feudais", diz-se frequentemente, porque as fortalezas evocam os burgos medievais - certas partes de seu território. Tanto em princípio como de fato, trata-se de príncipes independentes, entre os quais devemos imaginar rivalidades e, portanto, guerras. A hipótese de uma preponderância honorífica, reconhecida a um deles e que justificasse o seu comando nos empreendimentos coletivos, apóia-se apenas na Ilíada. É possível que a Argólida acabasse por predominar; mas Micenas e Tirinto subsistiram lado a lado, e sua coexistência duradoura, em tal proximidade, coloca um problema insolúvel.

Vemos, na realidade, que esses príncipes amam e praticam com frequência a guerra. Fazem-se sepultar com suas armas, capacetes, pesadas espadas que feriam de ponta e de gume, adagas e piques; pelas representações figuradas, conhecemos também suas couraças e escudos, a princípio muito grandes, abrigando o homem como numa torre, e depois, mais manejáveis, arredondados e de menores proporções. Nos intervalos dos combates, exercitavam, assiduamente, a força física na caça, da qual bem mais do que a arte cretense, que já não as ignorava, a arte micênica da época nos transmitiu cenas de violenta energia. Seu ouro, ao menos em parte, provém de rapinagens. Tudo indica que esses indo-europeus, chegando ao sul da Grécia após mil aventuras desconhecidas, abrindo caminho entre povos há muito sedentários, conservam suas predileções belicosas, combinando-as apenas com o sentido de beleza luxuosa, adquirido no contato com os cretenses. Entre eles, o poder ostenta e usa a força, e das mais brutais.


Fragmento de mural representando guerreiros com capacetes de presa de javali, século XIII a.C., Orcomeno. Artistas deconhecidos

* A aristocracia e as classes trabalhadoras. A sociedade sofreu o contragolpe desse estado de coisas.

Apesar da manifesta vontade de imitação, as menos nas representações figuradas que podiam lançar mão de temas anacrônicos, a vida da Corte foi menos brilhante do que em Creta. As mulheres adotam, para suas vestes, penteados e enfeites, as modas de Cnossos e, em Micenas, um afresco mostra-nos algumas exibindo-se no teatro, no primeiro plano de seus camarotes. Mas abandonam as acrobacias e cabe pensar que diminuiu sua liberdade de atitudes exteriores. Na realidade, a vida no coração dos redutos fortificados que constituíam os palácios - menos de 150 metros de comprimento por menos de 50, em Tirinto - não devia ser alegrada por cerimônias muito galantes. Na realidade, também por causa de seu papel militar, o homem, isto é, o guerreiro, devia impor-se sem dificuldade na vida social. Por analogia com outras sociedades indo-europeias e guerreiras, transpondo-se igualmente alguns traços tomados às sociedades homéricas, imaginaríamos, de bom grado, a existência de grupos de "companheiros" ligados ao príncipe por amizade pessoal, quando não por juramento. Mas isso já seria ultrapassar os limites da nossa documentação direta.

O mesmo de verifica com as relações entre as classes dirigentes e as classes trabalhadoras. Encastelados nas elevações, os palácios lembram-nos abrigos de onde os senhores vigiam e exploram o trabalho de seus servos na planície. Tanto mais quanto surge o problema das relações com mas populações anteriores, cuja conquista não poderia determinar o seu total desaparecimento físico: somos tentados a representar seus sobreviventes e sua posteridade submetidos a um estatuto de estrita dependência. Mas a nossa única certeza é a de que uma muralha externa cerca ao mesmo tempo o palácio e a cidade. Ora, essa muralha possui, muitas vezes, um comprimento restrito (750 metros, em Tirinto; um pouco mais de 1200 em Micenas), o que reduz a pouco a superfície da cidade. Nessas condições, o restante da população dispersava-se pelo campo, ou antes, instalava-se no sopé da colina, correndo para trás dos muros em caso de alerta a fim de se refugiar.

A decifração das tabuinhas escritas em linear B veio ressaltar e completar uma imagem sobre a qual, em dúvida, haviam sido projetadas as recordações de Homero. Elas fazem aparecer uma sociedade hierarquizada, tendo a seu comando um Rei (wa-na-ha = anax em grego clássico e não basileus, que designa "funcionários" locais de escalão inferior) e um "comandante de tropas", mestres de impostos, altos dignitários e responsáveis locais, sacerdotes e sacerdotisas ligados aos santuários e, sem dúvida, comunidades aldeãs (damos). Detalham as tarefas dos escravos e as atividades das profissões (têxtil e couro, madeira e metais, armas e cerâmica, além de ungüentos e perfumes). Mostram os lugares de criação de gado ovino e uma agricultura cuja distribuição de tarefas é ainda discutida, mas que assegura aos chefes e ao clero importantes entregas de trigo e azeite.

* O comércio e a riqueza. O acúmulo desses produtos agrícolas e artesanais nos palácios explica como tais Estados e tal sociedade conheceram a riqueza e a expansão. Lentamente, é verdade, e segundo o exemplo de Creta, que acabaram por suplantar após cerca de dois séculos de aprendizado. Mas sua atividade econômica tomou grande impulso depois da destruição de Cnossos.

Construíram-se estradas e mesmo portos. Os habitantes das fortalezas, todas situadas a certa distância do litoral, não se encontravam tão afastados da costa que não pudessem vigiar a vida marítima e, até mesmo, dela participar. A princípio, praticaram a pirataria e, em seguida, dominaram o mar, passando as expedições comerciais a substituir as incursões de pilhagem. Viagens longínquas, por vezes, somado ao que provinha do Cáucaso e chegando em maiores quantidades, o estanho ocidental facilitou a fabricação do bronze; continuaram a importar - por intermédio de quem? - o âmbar do Báltico, ignorado pelos cretenses, mas cujo pálido e misterioso reflexo os indo-europeus aprenderam a apreciar no decorrer de suas permanências nórdicas. Mas os navios micênicos também singraram os mares próximos; os achados de objetos característicos, que nos fornecem informações seguras, atestam a importância e a ampla dispersão da produção metalúrgica e da cerâmica. Vindos do norte, de um clima mais rude, levaram à Grécia a fíbula metálica que lhes permitia prender as mais pesadas vestimentas: os mediterrâneos adotaram-na. Seus bronzes, suas jóias, suas pedras gravadas e, sobretudo, sua cerâmica com uma decoração cada vez mais estilizada, tendendo ao geometrismo, são encontrados em numerosos lugares: na Sicília e na Itália do Sul, nas Cíclades, na costa da Ásia Menor, em Chipre e, por fim, na Fenícia, onde Minet el-Beida, o porto de Ugarit-Ras Chamra, lhes servia de entreposto tão ativo, que nos é lícito considerá-lo uma espécie de colônia de onde a exportação atinge certos pontos do vale do Eufrates.

Espólio de guerra e pirataria, tributos, indústria e comércio: o resultado foi a riqueza. No mundo grego, nenhum lugar forneceu aos arqueólogos tanto ouro quanto Micenas (14 quilos antes dos achados de 1952). Os gregos guardaram a lembrança desse fausto: nos poemas homéricos, "rica em ouro" é o epíteto de Micenas, despojada com o tempo, transformada num simples povoado do território de Argos. De fato, só com o período helenístico e com o lançamento em circulação dos tesouros persas, verificar-se-á, numa região que o produz, um afluxo análogo do mais precioso dos metais.

AYMARD, André; AUBOYER, Jeannine. O Oriente e a Grécia Antiga: o homem no Oriente Próximo. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2003. p. 42, 45-9. (História geral das civilizações, v. 2)

domingo, 31 de julho de 2016

Cotidiano das mulheres camponesas [Europa, final do século XIX]

Camponesas com silvado, Jean-François Millet

A vida das camponesas era regrada pela da família e dos ritmos dos campos. Numa rígida divisão de papéis, tarefas e espaços. Para o homem, o trabalho da terra e as transações do mercado. Para a mulher, a casa, a criação de animais, o galinheiro e a horta, cujos produtos [...] ela vendia na feira. De acordo com a idade e com a posição na família, elas trabalhavam no campo por ocasião das colheitas de todos os tipos, de batatas a vindimas, curvadas sobre a terra ou sob o peso de cargas. A velha camponesa é uma mulher recurvada. Elas cuidavam do rebanho, das vacas, que vigiavam e ordenhavam, das cabras, cujo leite servia para fabricação artesanal de queijo, que também era serviço delas. [...] A camponesa é uma mulher ocupada, preocupada em vestir (ela fia) e em alimentar os seus (autossubsistência e confecção das refeições) e, se possível, trazer para casa um suplemento monetário a partir do momento em que o campo se abriu para o mercado: mercado alimentar, mercado têxtil. Muito cedo ela fia para fora ou faz rendas [...] que são buscadas nas aldeias por estafetas. O luxo, na corte e na cidade, principalmente a partir do século XVII, aumentou a demanda com relação às mulheres, que assim entraram no circuito monetário.

A fiadeira, Jean-François Millet


Esse mundo rural, cujo pilar é o casal, é muito hierarquizado: entre os sexos (ele é o senhor); entre as mulheres. A dona de casa reina sobre a família e os agregados. Ela toma conta das filhas, preocupada com seus namorados e seu enxoval, modo de transmissão privilegiado entre mãe e filha. Cuida da roupa branca, cujas lavagens constituem verdadeiras cerimônias. Cuida dos parentes idosos, reclamando quando tem de trazê-los para morar em sua casa. Vigia as criadas, muitas vezes às voltas com as inconveniências dos cavalariços, ou do patrão, para ver se não estão engordando além do normal por baixo de seus blusões ou aventais. Essas criadas, filhas de famílias numerosas, que não podem sustentá-las nem empregá-las, pertencem à camada mais pobre e mais exposta do mundo rural.

As lavadeiras, Jean-François Millet


Essa vida rude tem seus ritos e seus prazeres para as mulheres, cujo poder oculto é, com freqüência, muito forte. Ele se exerce pelo olhar e pela palavra. Na igreja, onde elas são as mais fervorosas. Nas feiras, onde gerenciam o comércio a varejo. Na lavanderia, as mulheres falam entre si e lavar roupa branca é atividade propícia à confidência. Os homens temem o burburinho das lavanderias, que operam uma espécie de censura, desfazem uma reputação. À noite, nos momentos de vigília, as mulheres mais velhas contam histórias e transmitem as lendas e os acontecimentos da vizinhança. Mas logo os jovens forasteiros lhes furtam essa vantagem com seus relatos em que predominam os rumores da cidade. [...]

PERROT, Michelle. Minha história das mulheres. São Paulo: Contexto, 2013. p. 111-2.

sexta-feira, 27 de maio de 2016

Condições de vida do operário industrial

Engels via os trabalhadores amontoados como ratos em suas moradas apertadas, famílias inteiras - e às vezes mais de uma família - socadas num único cômodo, os sãos junto aos doentes, adultos junto às crianças, parentes próximos dormindo juntos, às vezes sem camas, por terem sido obrigados a vender todos os móveis para serem queimados como lenha, às vezes em porões úmidos de onde se tirava água aos baldes quando chovia, às vezes vivendo no mesmo cômodo que os porcos comendo farinha misturada com gesso e chocolate misturado com terra, intoxicados por carne impregnada de ptomaína, drogando a si próprios e a seus filhos doentios com láudano: vivendo sem esgotos, em meio a seus próprios excrementos e lixo, vitimados por epidemias de tifo e cólera, que por vezes chegavam até os bairros mais prósperos.

Mulheres e crianças trabalhando em uma fábrica de algodão, Inglaterra, 1830. Artista desconhecido.

A demanda crescente de mulheres e crianças nas fábricas fazia com que muitos chefes de família se tornassem desempregados crônicos, prejudicava o crescimento das meninas, facilitava o nascimento de filhos de mães solteiras e ao mesmo tempo obrigava as jovens mães a trabalharem grávidas ou antes de se recuperarem plenamente do parto, terminando por encaminhar muitas delas à prostituição. As crianças, que começavam a trabalhar nas fábricas aos 5 ou 6 anos de idade, recebiam pouca atenção das mães, que também passavam o dia inteiro na fábrica, e nenhuma instrução de uma sociedade que só queria delas que executassem operações mecânicas. Quando as deixavam sair das verdadeiras prisões que eram as fábricas, as crianças caíam exaustas, cansadas demais para lavar-se ou comer, quanto mais estudar ou brincar - às vezes cansadas demais até para ir para casa. Também nas minas de ferro e carvão, mulheres e crianças, juntamente com os homens, passavam a maior parte de suas vidas rastejando em túneis estreitos debaixo da terra, e, fora deles, viam-se presas nos alojamentos da companhia, à mercê da loja da companhia, sofrendo atrasos no pagamento do salário de até duas semanas. Cerca de mil e quatrocentos mineiros morriam por ano quando se partiam cordas apodrecidas, quando desabavam túneis devido à escavação excessiva dos veios, quando ocorriam explosões devido à ventilação deficiente ou à negligência de uma criança exausta: e os que escapavam de acidentes catastróficos morriam de doenças dos pulmões. Por sua vez, os habitantes do interior, que com a industrialização perderam sua antiga condição de artesãos, pequenos proprietários e arrendatários de quem, mal ou bem, os grandes proprietários cuidavam - esses haviam sido transformados em diaristas sem eira nem beira, por quem ninguém era responsável, e que eram castigados com a prisão ou a deportação se, em épocas de necessidade, roubavam e comiam a caça das terras dos grandes proprietários.

Crianças trabalhando em uma fábrica de algodão, Artista desconhecido

Para Engels, parecia que o servo medieval, que ao menos estava fixo à terra e ocupava uma posição definida na sociedade, estivera em melhor situação que o operário industrial. Naquela época em que as leis de proteção aos trabalhadores praticamente ainda não existiam, os antigos camponeses e trabalhadores braçais da Inglaterra, e até mesmo a antiga pequena burguesia, estavam sendo levados para as minas e as fábricas, tratados como matéria-prima para os produtos a serem fabricados, sem que ninguém se importasse nem mesmo com o problema do que fazer com o refugo humano gerado pelo processo. Nos anos de depressão, o superávit de mão-de-obra, que era tão útil nos anos em que a economia ia bem, era despejado nas cidades: estas pessoas tornavam-se mascates, varredores, lixeiros ou simplesmente mendigos - viam-se às vezes famílias inteiras mendigando nas ruas - e, o que era quase igualmente comum, prostitutas e ladrões. Thomas Malthus - dizia Engels - afirmara que o aumento de população estava sempre pressionado os meios de subsistência, de modo que era necessário que grande número de pessoas fossem exterminadas pela miséria e pelo vício; e a nova legislação referente aos pobres havia posto em prática essa doutrina, transformando os asilos de indigentes em prisões tão desumanas que os pobres preferiam morrer de fome pelas ruas.

WILSON, Edmund. Rumo à Estação Finlândia. São Paulo: Companhia das Letras, 1987. p. 132-133.

terça-feira, 5 de abril de 2016

A resistência dos operários ingleses no século XIX: a luta pelos direitos

Uma noite de greve / Bandeira vermelha, Eugène Laermans

Os trabalhadores não aceitavam passivamente as condições de trabalho que lhes eram impostas e, com o apoio de alguns intelectuais, lutaram para obter melhorias que consideravam justas - como, por exemplo, uma jornada mais curta. Organizando-se em associações e sociedades, tentaram levar suas reivindicações ao Parlamento.

O sapateiro Thomas Hardy, um dos fundadores da Sociedade Londrina de Correspondência inaugurada em 1792, assim rememora uma das reuniões de seus membros:

"Após terem jantado pão, queijo e cerveja, como de hábito, e fumado seus cachimbos, com um pouco de conversa sobre a dureza dos tempos e o alto preço de todas as coisas necessárias à vida [...] veio à tona o assunto que ali os reunia - a Reforma Parlamentar -, um tema importante a ser tratado e liberado por tal tipo de gente." (Apud E. P. Thompson, op. cit., p. 16.)

A participação no Parlamento era importante para garantir direitos de cidadania aos trabalhadores. Diferentemente da ação das turbas, cuja atuação era ocasional, essas organizações promoviam discussões regulares dos temas políticos e econômicos da época. Apesar da constante repressão do governo sobre os reformadores, que se reuniam na clandestinidade, até 1824 as associações de trabalhadores cresceram de maneira expressiva.

Na primeira década do século XIX, a Inglaterra não era ainda uma democracia, tal como a entendemos hoje. Apesar do desenvolvimento econômico que alcançara, os direitos políticos continuavam restritos a uma minoria. A maior parte das pessoas não podia votar, e muitas das cidades que se haviam formado com o processo de industrialização não tinham o direito de ser representadas no Parlamento. Os trabalhadores também não podiam eleger representantes - por isso frequentemente recorriam aos motins e protestos de rua para expressar suas reivindicações. E, por fim, o Parlamento, composto pela Câmara dos Lordes e pela Câmara dos Comuns, defendia somente os interesses dos aristocratas e dos ricos comerciantes.

[...]

Diversas pessoas, na época, acreditavam que as máquinas fossem a causa do desemprego e dos baixos salários. Em 1812, trabalhadores liderados por Ludd, um aprendiz de Midland, destruíram a maquinaria têxtil e revoltaram-se contra os patrões e o sistema de trabalho na fábrica, dando início a um movimento de luta contra as mudanças nas técnicas produtivas. Apavorados com os atentados à propriedade, os membros do Parlamento impuseram medidas repressivas contra as organizações de trabalhadores, tentando vencê-los com a ameaça da força. Como a destruição das máquinas não resolvia seus problemas, os trabalhadores, por sua vez, partiram em busca de outras estratégias.

A greve dos mineiros de Pas de Calais, 1906, Le Petit Journal

Inúmeras petições foram sendo enviadas ao Parlamento, contendo reivindicações de melhores salários e jornadas mais curtas. Algumas concessões foram feitas, mas como nem sempre eram postas em prática os trabalhadores passaram a organizar-se em favor do direito de voto, a fim de eleger seus próprios representantes.

Ao final das guerras napoleônicas, os ingleses que haviam lutado retornavam ao seu país e não encontravam emprego nas indústrias, o que aumentou ainda mais a tensão social. Em Saint Peters Fields, perto de Manchester, reformistas radicais se reuniram em 1819 para discutir mudanças na legislação eleitoral. A polícia interrompeu a reunião e muitos dos participantes sofreram dura repressão; alguns foram mortos, outros, feridos.

Em 1832 o Parlamento ampliou o sufrágio para 200 mil votos, dobrando o número de eleitores. Os trabalhadores, entretanto, continuaram excluídos do processo eleitoral, o que os levou a unirem-se às camadas médias da sociedade inglesa, iniciando revoltas para exigir representação parlamentar. Esse movimento de rebeldia, conhecido como cartismo (1830-1840), reivindicava sufrágio universal para os homens, votação secreta, remuneração dos membros eleitos para a Câmara dos Comuns a fim de que os deputados pobres pudessem se manter, renovação anual do Parlamento, igualdade entre os distritos eleitorais e fim da exigência de propriedade para os candidatos. Exceto a renovação anual do Parlamento, todas as outras exigências aos poucos foram sendo atendidas, e o movimento cartista extinguiu-se.

Greve, Stanislaw Lentz

A via eleitoral não assegurava, em absoluto, melhores condições de vida para os trabalhadores. Na segunda metade do século XIX, o movimento dos trabalhadores tomara outros rumos. O sindicalismo surgiu como força de organização da classe trabalhadora, possibilitando a formulação de novas estratégias na luta pela conquista de direitos. Em 1824, foi votada uma lei que dava aos operários o direito de livre associação, favorecendo a legalização das associações clandestinas.

As organizações de trabalhadores se espalharam pela Inglaterra, dotando os operários de um grande poder de negociação. Engels afirma, em A situação da classe trabalhadora na Inglaterra, que "os seus fins eram fixar o salário, negociar em massa, enquanto potência, com os patrões, regulamentar salários em função do lucro do patrão, aumentá-lo na altura propícia e mantê-lo ao mesmo nível para cada ramo do trabalho".

As reivindicações incluíam também uma escala de salário que deveria ser respeitada em toda a Inglaterra e um limite à admissão de aprendizes, a fim de evitar concorrência com os operários qualificados e, assim, a redução dos salários.

Fazia parte da elite inglesa a chamada burguesia evangélica, que tentava difundir seu ideal de vida familiar estável tanto entre os aristocratas quanto entre os operários. Nessa família burguesa idealizada, o espaço de atuação da mulher restringia-se à esfera doméstica, conforme se depreende da análise da historiadora Catherine Hall:

"Os evangélicos e utilitaristas empreenderam um enorme esforço de moralização dos pobres através da família. Em todo o país, instituições do ensino, escolas dominicais, sociedades filantrópicas difundiam as concepções burguesas da separação entre os sexos." (Sweet home. In: Phillippe Ariès, Georges Duby, dirs. História da vida privada. São Paulo: Companhia das Letras, 1991. p. 71.)

Alguns setores sindicais, como o de mineração, também não viam com bons olhos o trabalho feminino, que eles consideravam depreciador do salário. Dessa maneira, operários e burgueses evangélicos, por motivos diferentes, concordavam em que era necessário manter as mulheres no universo doméstico.

Na década de 1840, ainda segundo Catherine Hall:

"[...] a comissão nomeada para investigar o trabalho infantil nas minas ficou assombrada e horrorizada ao ver as condições de trabalho das mulheres. Além do mais, elas trabalhavam ao lado de homens, sem estarem inteiramente vestidas como deveriam. Era uma afronta à moral pública, que ameaçava de ruína a família operária. Lançou-se uma campanha inspirada pelos evangélicos, para proibir que as mulheres trabalhassem nas minas." (Op. cit., p. 81.)

Segundo os preceitos dessa moral burguesa, as mulheres deveriam limitar-se a exercer as funções femininas "naturais": cozinhar, costurar, limpar e cuidar de crianças. Até mesmo alguns líderes operários, que supostamente deveriam defender melhores condições de trabalho para ambos os sexos, reivindicavam o chamado salário familiar, com o intuito de evitar que as mulheres trabalhassem.

A greve na região de Charleroi, Robert Koehler

A condição dos trabalhadores chegou a sensibilizar até mesmo aqueles que não compartilhavam a mesma situação econômica. Na Inglaterra, o evangelismo religioso difundiu-se e entrou em choque com o pensamento liberal, contribuindo para que parte das classes média e alta refletisse sobre as péssimas condições de vida da época industrial.

As informações e dados estatísticos publicados pelo governo britânico davam conta da gravidade da situação. Os debates que encaminhavam a abolição da escravidão nas colônias do Império, em 1830, possibilitaram comparações com as condições de trabalho na própria Grã-Bretanha. Assim, embora de maneira limitada, algumas reformas foram introduzidas nas áreas de saúde pública, higiene, moradia, educação, legislação criminal e fabril.

Alguns capitalistas, como Robert Owen, aceitavam e incentivavam as reformas parlamentares. Por iniciativa própria, tentaram formar dentro de suas fábricas uma organização com base na cooperação. Outros se opunham às reformas parlamentares, defendendo o liberalismo e afirmando que a interferência da legislação nos negócios particulares prejudicava o comércio e a indústria. Entretanto, os dados da produção industrial não confirmam tal argumentação: na segunda metade do século XIX, a Grã-Bretanha produziu oito vezes mais algodão do que nas duas primeiras décadas do século; no mesmo período, a produção de carvão mineral teve um aumento significativo, e a produção de ferro-gusa chegou a corresponder à metade da produção mundial.

Mas, se ao longo do século a situação dos trabalhadores melhorou sensivelmente, é certo que as contradições trazidas pelo sistema industrial jamais desapareceriam, O pensador inglês Thomas Carlyle afirmou:

"Temos mais riquezas do que qualquer nação teve antes e temos menos bem-estar do que qualquer nação teve antes [...] em meio à abundância pletórica, o povo perece." (Apud John Linch et alli. A força da iniciativa. Rio de Janeiro: Time-Life/Abril Livros, 1992. p. 72.)

A riqueza continuava concentrada, e a grande maioria da população permanecia excluída dos privilégios sociais e políticos.

REZENDE, Antonio Paulo; DIDIER, Maria Thereza. Rumos da história: história geral e do Brasil. São Paulo: Atual, 2005. p. 315-18.

quinta-feira, 21 de janeiro de 2016

Condições de vida dos homens livres na América colonial inglesa

Desembarque dos puritanos na América, Antonio Gisbert

Entre as massas trabalhadoras livres das colônias americanas a vida era dura, e a belicosidade generalizada. [...] Para os 70 por cento da população trabalhadora colonial livre as condições de vida eram melhores do que para seus irmãos de classe na Europa, e o grau de mobilidade social era de certo modo maior, mas os dois aspectos evidenciavam-se apenas num sentido relativo. No sentido absoluto, a vida era muito cara, pois os salários mal chegavam para levar mesmo a comida mais simples às bocas do produtor, sua mulher e seus filhos [...].

Nas cidades proliferava a prostituição, eram numerosos os mendigos, os abrigos de pobres viviam cheios, os cortiços já estavam presentes e as centenas de indivíduos que dependiam de ajuda pública para se manterem vivos tinham de usar um emblema denunciando sua condição "degradada".

Nas áreas rurais o passadio mais simples, o abrigo mais rude, a roupa mais grosseira eram a regra para quase todos os que labutavam com as próprias mãos. E nas cidades e nas fazendas os pobres livres trabalhavam como os pobres sempre trabalharam - muito e por muito tempo.

Os ricos viviam na América colonial como viveram em toda parte. Uma casa de cidade e de campo, centenas e milhares de acres; dezenas de empregados e/ou escravos; refeições lautas; festas incessantes; seda e cetim, veludo e pérolas; carruagens e baixela de ouro; peças da moda e música e livros; negócio, alianças, intrigas; altas e poderosas funções; e intensa preocupação com a conservação de tudo isso e em manter a "gentinha" em seu lugar.

Desembarque dos peregrinos em Plymouth, 1620, N. Currier

Essas diferenças eram a obra e a vontade de Deus, porque de outro modo não existiriam. Quem as põe em dúvida demonstra, portanto, sua falta de fé e de crença; quem as põe em dúvida pertence ao Diabo, e deve ser tratado de acordo com isso. Os pobres devem ser postos a trabalhar, e é o medo de morrer de fome que os fará trabalhar.

Quanto aos mendigos e desocupados, é bem verdade, escreve o Reverendo Cotton Mather em 1695 (Riquezas Permanentes), eles "vergonhosamente crescem entre nós, assim como os mendigos que nosso senhor Jesus Cristo expressamente nos proibiu de proteger". Daí sua palavra apostólica: "Que morram de fome".

APTEKHER, Herbert. Uma Nova História dos Estados Unidos Unidos: A Era Colonial. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1967. p. 53-54.

quarta-feira, 28 de outubro de 2015

O surgimento da classe operária brasileira

Os primeiros operários brasileiros surgiram ainda em plena sociedade escravista. Muitas de nossas primeiras empresas industriais caracterizavam-se pelo trabalho conjunto de operários livres e escravos. Somente com a abolição tal quadro mudaria. Até lá, porém, essa coexistência atrapalharia muito a afirmação do operariado como classe entre nós.

Esses primeiros operários originavam-se das camadas mais pobres da população urbana, sendo muitos deles menores, retirados de asilos ou casas de caridade, diretamente para o regime das fábricas. As condições de trabalho e de vida desses aprendizes não eram melhores do que as de muitos escravos, formando um contingente significativo de trabalhadores não-especializados. Adultos e crianças chegavam a trabalhar até dezesseis horas por dia, sem folga semanal ou qualquer outro direito.


Operários diante da fábrica, São Paulo, pousando para a fotografia coletiva, fins do século XIX

Já os operários qualificados, necessários ao desenvolvimento industrial, eram contratados quase sempre na Inglaterra e sofriam muitas dificuldades de adaptação ao clima do país, além de saírem bem mais caro para os primeiros industriais, que eram obrigados a pagar-lhes salários maiores do que os que estavam acostumados a pagar.

A entrada em massa de imigrantes no Brasil, a partir de 1870/1880, começou a alterar a composição do operariado brasileiro. Os estrangeiros - italianos, portugueses, espanhóis - aos poucos tornaram-se maioria nas fábricas do Rio e de São Paulo, situação que se manteve mesmo após a abolição. Somente nos centros industriais menos dinâmicos, como aqueles situados na Bahia, Pernambuco ou Pará, predominou o emprego da mão-de-obra nacional na indústria.

O crescimento da grande indústria, verificado na virada do século XIX para o XX, pouco contribuiu para melhorar as condições de vida dos operários. A superexploração do trabalho industrial não só se manteria, como seria agravada, em função de um novo fato: a incorporação maciça de mulheres e crianças ao trabalho fabril. É bom lembrar que esses últimos recebiam salários ainda menores do que os trabalhadores adultos.


Saudades de Nápoles, Bertha Worms
[A obra retrata um menino italiano engraxate, figura bastante comum nas ruas de São Paulo na época]

Outro fator que favorecia a superexploração era a ameaça do desemprego ou da diminuição temporária de frentes de trabalho. Com a chegada de novos imigrantes às cidades, a oferta de mão-de-obra aumentava, provocando demissões e desvalorização dos salários.

MENDONÇA, Sônia. A industrialização brasileira. São Paulo: Moderna, 1996. p. 20-22. (Coleção Polêmica)

terça-feira, 15 de setembro de 2015

Os Incas

"O maior império das Américas foi o dos índios quíchuas, conhecido também como Império Inca, por ser esse o título de seus chefes supremos, tidos como filhos do sol.

A civilização quíchua ou incaica desenvolveu-se em regiões dos atuais Peru, Equador, Bolívia, Chile, atingindo seu auge no século XIV. [...]" HOLLANDA, Sérgio Buarque de (Org.). História da Civilização. São Paulo: FTD, 1974. p. 192.

Manco Capac, primeiro Inca, Artista desconhecido

Os métodos de conquista dos incas forma algumas vezes brutais: deportaram os povos insubmissos, aos milhares, mandando-os para pontos distantes do Império; levaram os filhos dos chefes vencidos como reféns para Cuzco, a capital inca. Impuseram a todos os povos submetidos a sua religião, que cultuava Viracocha, deus supremo e criador de todas as coisas, e Inti, o deus Sol, do qual o imperador inca dizia ser descendente direto. Tornaram ainda a sua língua, o quíchua, idioma oficial de todo o Império.

Para controlar e unificar seu território, os incas construíram cerca de 40 mil km de estradas, ligando montanhas, vales e o litoral. Pontes suspensas feitas de cordas trançadas e pontes de madeira e de pedra passavam sobre precipícios, pântanos e rios. Por elas circulavam os mensageiros do imperador (os chasquis), o exército e o próprio Inca (o imperador) com sua comitiva.

As terras conquistadas eram divididas em três partes: um terço para o Inca, outro para o deus Sol (administrado pelos sacerdotes, mas que, na prática, eram do imperador) e o terço restante para os agricultores e suas famílias. Os adultos deviam prestar  um certo tempo de trabalho gratuito para o Inca e os deuses, cultivando as terras deles, produzindo objetos artesanais ou construindo e conservando pontes, estradas, edifícios públicos. Esse trabalho gratuito chamava-se "mita".

"A arquitetura constitui a expressão máxima da cultura inca. Nas construções mais importantes, usavam-se blocos de pedra ou granito modelados com extraordinária precisão. Por não possuírem ornamentos esculpidos, as construções incas aparentam uma certa austeridade, sobretudo se comparadas às dos maias e astecas. Na realidade, muitas dessas construções foram despojadas de seus ornamentos pelos espanhóis, os quais retiraram todos os trabalhos em ouro que, muitas vezes, revestiam as paredes de aposentos inteiros. Os conjuntos arquitetônicos mais impressionantes e mais bem conservados da civilização Inca são as cidades-fortalezas de Sacasahuamán e Machu Picchu." História das Civilizações. São Paulo: Abril Cultural, 1975. p. 26


O excedente de alimentos era armazenado e distribuído à população em caso de carestia. Graças ao trabalho coletivo, foram construídos enormes terraços em degraus nas íngremes encostas das montanhas dos Andes. Irrigados e adubados com excrementos de aves e restos de peixes, os terraços garantiam uma farta colheita de cerca de quarenta espécies de plantas, como milho, batata, vagem, amendoim, abóbora e algodão.

"Cada homem se alistava com seu instrumento de trabalho, formando-se assim uma larga frente de agricultores. Atrás deles as mulheres e os meninos iam avançando pausadamente, desfazendo os montículos com uma vara e depositando em cada cova aberta pelo homem algumas sementes, e cobrindo logo de terra o buraco, com as mãos e os pés, para evitar que as aves comessem os grãos". MIRANDA, Fernando M. A cultura dos incas. In: LEVENE, R. História das Américas. Rio de Janeiro: Jackson Editores, 1964. v. 2. p. 121

A numerosa mão-de-obra disponível era o mais importante recurso que o Estado possuía para conservar e estender seus domínios. A população era regularmente recenseada e registrada por idade. Assim, o imperador podia saber, por exemplo, o número de homens aptos a prestar a mita ou a lutar na guerra. Os registros eram feitos nos quipos, um feixe de cordões coloridos com nós.

Referências:
HISTÓRIA DAS CIVILIZAÇÕES. São Paulo: Abril Cultural, 1975.
HOLLANDA, Sérgio Buarque de (Org.). História da Civilização. São Paulo: Nacional, 1974,
LEVENE, R. História das Américas. Rio de Janeiro: Jackson Editores, 1964. v. 2. 
RODRIGUE, Joelza Ester. História em documento: imagem e texto. São Paulo: FTD, 2002. 

sábado, 5 de setembro de 2015

As comunidades primitivas no Brasil

[...]

Muitos autores denominam essas comunidades de pré-históricas. Preferimos chamá-las de comunidades primitivas porque, se a história é história do Homem, a História existe desde o momento que o Homem existe. Além do mais, ainda hoje existem muitas dessas sociedades, apesar dos verdadeiros massacres feitos pelos europeus desde que chegaram à América.

[...] Comunidade primitiva é uma forma de organização social onde a não-existência da propriedade privada dos meios de produção resulta em uma economia comunitária, na qual não há desigualdades sociais.

[...]

No caso das comunidades primitivas, os meios de produção eram constituídos pelos campos, águas, terras, florestas.

Cada comunidade buscava sua auto-suficiência econômica, produzindo suas armas, seus utensílios e objetos diversos, assegurando os alimentos necessários a todos - através da caça, da pesca e da coleta de frutos e de raízes silvestres. O trabalho era estabelecido em função da idade e do sexo dos componentes da comunidade, sendo obrigatório para todos. Aos homens atribuíam-se a caça e a pesca, a construção das habitações cobertas com folhas de palmeiras ou sapés, a confecção de arcos, flechas, tacapes e canoas, e nas comunidades que praticavam uma agricultura rudimentar, a limpeza do terreno através da coivara, que era a queimada de área desmatada.

"É claro que a proteção das mulheres, crianças e velhos era atividade masculina, bem como a realização de expedições guerreiras e o sacrifício de inimigos [...] As mulheres ocupavam-se com os trabalhos agrícolas [...] e com as atividades de coleta (de frutos silvestres, mariscos etc.), colaboravam nas pescarias [...], transportavam produtos das caçadas, aprisionavam as formigas voadoras, produziam as farinhas, preparavam as raízes e o milho para a produção do cauim [...], fiavam o algodão e teciam as redes, trançavam os cestos, cuidavam da cerâmica [...] e dos animais domésticos, realizavam todos os serviços domésticos relacionados com a manutenção da casa ou com a alimentação, e dedicavam-se a outras tarefas como a depilação e a tatuagem dos homens [...], o catamento dos piolhos [...]."


Grupo de Camacãs na floresta, Maximilian zu Wied-Neuwied

A educação das crianças, ou curumins, era tarefa dos próprios pais: os meninos aprendiam com o pai, as meninas, com a mãe. A menina aprendia a tecer, a cozinhar, a amassar o milho, a carregar água. O menino aprendia a caçar, a pescar, a manejar o arco e a flecha, a caminhar na floresta, a conduzir o barco no rio ou na lagoa... Essencialmente prática, a educação também incluía conselhos e ensinamentos sobre as crenças e as práticas religiosas do grupo.

Cada comunidade tinha seu chefe, escolhido segundo critérios diversos. O mais valente, o mais sábio ou o descendente mais próximo do fundador lendário do grupo podia ser eleito ou se sucediam hereditariamente. Mas o chefe - chamado de curaca ou cacique - também trabalhava com os demais componentes da comunidade.

Uma característica importante das comunidades primitivas é que os laços de parentesco se baseavam no clã.

[...] Clã é o grupo social cujos integrantes se julgam parentes por acreditarem descender de um mesmo ancestral. Este ancestral era o totem, que podia ser uma planta, um animal, um objeto, um ser real ou imaginário. O clã podia ser entendido como uma família ampla, embora os laços de parentesco não sejam basicamente consanguíneos.

"Como era proibido o casamento entre membros de um mesmo clã (a não ser nos agrupamentos muito primitivos), os casamentos entre indivíduos de clãs diferentes terminavam por reuni-los em tribos."


Aldeia de índios, ca. 1834-1839. Jean-Baptiste Debret

A reunião de tribos resultava nas federações ou nações, ligadas por vínculos linguísticos, sem constituírem o que se entende politicamente por Estado, poder organizador e repressor. As numerosas comunidades primitivas espalhadas pelo Brasil pertenciam a quatro grandes nações linguísticas:

* os Tupis ou Tupis-Guaranis, localizados ao longo da faixa litorânea (do Rio Grande do Sul ao Pará), além de regiões do Baixo Amazonas, Paraguai, Uruguai, Argentina e Bolívia. Alguns autores acham que tupi significa filho de Tupã, o deus do Trovão. Entre outros, os Tupi-Guaranis incluíam os Tupinambás, Potiguaras, Tupiniquins, Tamoios, Tabajaras, Caetés, Carijós, Maués, Jurunas etc.;


* os Nuaruaques, também chamados Aruaques ou Maipurés, que se espalhavam da Flórida (nos EUA) até as Guianas e Antilhas, Bacia Amazônica, Planalto de Mato Grosso, além do Chaco, Peru, Bolívia e Norte da Argentina. Para alguns estudiosos, Nuaruaque significa comedor de farinha. A este grupo linguístico pertenciam os Parecis, os Manaus e Ticunas.

* os Jês, por muitos chamados de Tapuias, embora diversos autores afirmem que a palavra tapuia era usada pelos Tupis para denominar qualquer um dos deus inimigos ou adversários. Habitavam o Planalto Central do Brasil e incluíram os Botocudos, Aimorés, Xavantes, Caiapós, Apinajés, Coroados, Maracás, Timbiras, Bororós...;

* Os Caribas, palavra que é uma corruptela de calinas e significa companheiros. Conhecidos ainda pelos nomes de Caraíbas ou Caribes, habitavam as Antilhas e o Alto Xingu. Entre outros, os Caraíbas compreendiam os Apiacás, Bacairis, Palmelas, Vanás...

"Os índios andavam geralmente nus e costumavam raspar todos os pêlos do corpo. Gostavam de usar enfeites e de se tatuar. Praticavam a poligamia, e alguns chefes de tribos chegavam a ter até dez esposas. As relações sociais norteavam-se por normas de convivência rígidas, e a educação baseava-se no exemplo que os mais velhos davam aos mais moços. Algumas tribos tinham ritos para definir a passagem de uma idade para outra. Por exemplo, adolescentes do sexo masculino ficavam confinados na "casa dos homens", durante meses, para se prepararem para a vida adulta". REZENDE, Antonio Paulo; DIDIER, Maria Thereza. Rumos da história: história geral e do Brasil. São Paulo: Atual, 2005. p. 181-2.


Adereços tribais, 1818. 

A religião desses grupos indígenas era politeísta, sendo cultuados os astros e as forças da Natureza, como o raio, a chuva, o trovão. O Sol e a Lua constituíam divindades superiores. A prática da antropofagia ritual era realizada em meio a grandes festas e danças, sendo devorados os adversários valentes e apaixonados em combate. Acreditavam em uma vida extraterrena - daí enterrarem os mortos. Em geral, os Tupis sepultavam seus mortos em redes ou em urnas em covas abertas. Os Coroados, do grupo Jê, antes do sepultamento, quebravam os ossos das pernas e dos braços dos mortos. [...]

AQUINO, Rubim Santos Leão de [et alli]. Fazendo a História: as Sociedades Americanas e a Europa na Época Moderna. Rio de Janeiro: Ao Livro Técnico, 1990.
DIDIER, Maria Thereza. Rumos da história: história geral e do Brasil. São Paulo: Atual, 2005.

sábado, 29 de agosto de 2015

A era do absolutismo: A ascensão da França nos séculos XVI e XVII

Rei Luís XIV, Nicolas-René Jollain

No século XVI a França foi cenário de violentas lutas religiosas entre católicos e protestantes calvinistas - chamados huguenotes -, as quais culminaram com o massacre da Noite de São Bartolomeu (1572) quando milhares de huguenotes foram eliminados, por ordem de Catarina de Médicis, regente do trono francês. A paz religiosa só pôde estabelecer-se no reinado de Henrique IV que, através do Edito de Nantes (1598), concedeu liberdade de culto aos protestantes [...].

O Edito de Nantes favoreceu o crescente prestígio político da França, a renovação de seu comércio e de sua indústria, responsável por um grande desenvolvimento econômico nos séculos seguintes.

O poder da França acentuou-se após a última das guerras de religião, a Guerra dos Trinta Anos (1618-1648).

Esta guerra desenrolou-se na Alemanha, dividida em vários reinos e principados, uns protestantes outros católicos. Começando como uma luta religiosa terminou, entretanto, como conflito armado pela hegemonia na Europa; envolveu diversas nações, mas foi particularmente uma luta na qual a França se empenhou para cercear o poderio da casa real dos Habsburgo, herdeira do império de Carlos V. O conflito irrompeu na Boêmia quando o rei Fernando II de Habsburgo, católico, tentou impor sua religião em um território onde havia agrupamentos de protestantes. Os príncipes alemães católicos entraram em choque com os príncipes alemães protestantes; estes foram derrotados e a dominação dos Habsburgo afirmou-se na Boêmia. No entanto, o conflito alastrou-se gradativamente sobre boa parte da Europa provocando a guerra entre nações protestantes - Dinamarca, Suécia, Províncias Unidas - e nações católicas em poder dos Habsburgo - Áustria e Espanha. A França, embora católica, entrou na guerra ao lado das nações protestantes para refrear o prestígio dos Habsburgo. Assim, o longo conflito, durante o qual se alternaram vitórias e derrotas de ambos os lados, terminou com a intervenção decisiva da França que forçou a Áustria e a Espanha a renderem-se. Foram assinadas a Paz de Mestfália (1648), entre França e Áustria, e mais tarde (1659) a Paz dos Pirineus, entre França e Espanha.

A Paz de Westfália assinalou o fim das guerras de religião. assegurando tolerância de fé; politicamente, acabou com o predomínio e a força dos Habsburgo. [...]

[...]

Internamente, desde o reinado de Henrique IV, a França vinha passando por importantes transformações políticas, que levaram o rei a concentrar em suas mãos todos os poderes do Estado. Contribuíram para essa centralização do poder medidas tomadas por dois ministros, o Cardeal Richilieu (na regência de Maria de Médicis e no reinado de Luís XIII) e o Cardeal Mazzarino (na regência de Ana d'Áustria e no início do reinado de Luís XIV): ambos afastaram sistematicamente nobres dos corpos administrativos, confiando-os a funcionários de origem burguesa. Tais medidas contra a aristocracia, e que não deixaram de provocar agitações sociais e guerras civis, foram ainda mais reforçadas por Luís XIV, ao assumir o trono (1661).

O monarca afastou os nobres dos cargos administrativos que ainda ocupavam, em compensação atraiu-os para a sua corte e manteve-os isentos de impostos, que eles, todavia, continuaram cobrando dos lavradores de suas terras. Os postos administrativos foram ocupados por elementos da classe burguesa, ministros e funcionários diretamente nomeados e controlados pelo rei, o qual ainda favoreceu a rica burguesia dando grande impulso à indústria (manufatureira, construção civil, naval e de armamentos) e ao comércio (importação e exportação de matérias-primas e gêneros de primeira necessidade).

Concentrando todos os poderes do Estado em suas mãos, Luís XIV passou a encarnar o próprio reino da França e tornou-se assim símbolo vivo do absolutismo, sintetizado na frase a ele atribuída: L'état c'est moi (O Estado sou eu). Luís XIV deu à França o máximo de esplendor e projeção, tanto assim que sua época passou à história como o século de Luís XIV. Mereceu o nome de rei-sol, pois sua corte foi uma das mais brilhantes e luxuosas de que temos notícia, dela recebendo homenagens como se fora um deus.

O período de projeção que a França conheceu no século XVII foi resultado de importantes iniciativas do monarca, auxiliado por homens de visão, diplomatas, chefes militares e ministros, dentre os quais destacou-se o ministro da economia e das finanças, Colbert.

Colbert desenvolveu a política do mercantilismo, doutrina econômica fundamentada na pequena importação e na grande exportação. Mas, para exportar, era necessário produzir em larga escala objetos manufaturados de alta qualidade, transportá-los por mar e encontrar no estrangeiro matérias-primas e bons mercados. Colbert, pois, regulamentou a produção de mercadorias. exigiu o emprego de mão-de-obra qualificada e especializada, modernizou os estaleiros para a construção de navios, estimulou a exploração sistemática e a expansão das colônias francesas nas Américas (Canadá, Luisiana, Antilhas). A fim de a França poder competir com as poderosas companhias das Índias, holandesa e inglesa, fundou-se a Companhia Francesa das Índias Orientais. Reorganizando sua marinha, a França passou a concorrer comercialmente com a Holanda.

[...]

A França alcançara enorme prestígio internacional, mas internamente começara a delinear-se uma situação social bastante crítica. Na cidade, a nobreza ligada à corte de Luís XIV vivia ociosa e luxuosamente, enquanto a burguesia detinha influência considerável na administração e no comércio. No campo, os nobres empobreceram cada vez mais, pois os lavradores pagavam-lhes os impostos devidos não mais em dinheiro e sim em gêneros. Assim muitos nobres viram-se obrigados a vender parte de suas terras a burgueses da cidade. A situação dos camponeses agravava-se dia a dia, devido à falta de progresso sensível nas técnicas agrícolas, aos rendimentos diminutos, às elevadas taxas, aos caprichos da natureza, fortes geadas, prolongadas secas, trazendo fome, doenças e miséria.

Além disso, tendo Luíz XIV revogado o Edito de Nantes, recomeçaram as perseguições contra os protestantes que, obrigados a abandonar a França, emigraram em grande número para o exterior, levando consigo seus haveres e sua capacidade de trabalho, o que prejudicava seriamente o país. Prejuízos maiores sobrevieram quando outras nações europeias se coligaram para refrear as ambições desmedidas de Luíz XIV. Nos últimos anos de seu reinado a França enfrentou uma coligação europeia na Guerra de Sucessão da Espanha, à qual o Tratado de Utrecht (1713) pôs fim, pondo fim também à supremacia francesa.

HOLLANDA, Sérgio Buarque de (Org.). História da Civilização. São Paulo: Nacional, 1974. p. 195-8.

segunda-feira, 27 de julho de 2015

O trabalho dos camponeses no Egito Antigo

Pintura mural retratando camponeses arando os campos, a colheita das culturas e a debulha de cereais sob a direção de um supervisor. Tumba de Nakht, XVIIIª dinastia, Tebas. Artista desconhecido.

Desde a Antiguidade, a sociedade egípcia maravilhou os estrangeiros que visitavam o país. Heródoto, surpreso pela fertilidade do solo, nos diz:

"Os habitantes recolhem os frutos da terra sem nenhuma fadiga; eles não se cansam quando abrem canais de irrigação, nem quando executam outros trabalhos, nos quais outros homens despendem muito esforço; quando o rio, por si mesmo, irriga os campos e, após irrigá-los, volta ao seu leito, eles semeiam os campos [...] obtendo grandes colheitas."

Na verdade [...] as colheitas dependiam de um grande esforço coletivo. Considerando que as técnicas ainda eram muito primitivas - os instrumentos de trabalho eram feitos de pedra e madeira -, a construção de canais de irrigação, de diques e de represas, necessários para o aprimoramento das cheias do Nilo, que fornece a umidade e a fertilização, só era possível através do trabalho comunitário dirigido por um governo fortemente centralizado.

"Os movimentos do Nilo regulavam o trabalho dos camponeses. Nos meses de junho e julho, começavam as cheias que, durante três meses inundavam as terras do Vale. Neste período, o trabalho agrícola era paralisado, mas os camponeses eram recrutados pelo Faraó para a execução das grandes obras públicas. Nos meses de outubro e novembro, quando o rio voltava ao seu leito, começava a semeadura, aproveitando o solo amolecido, mas era necessário conservar a água, através da construção de canais, de diques e de represas, que permitiam manter a terra irrigada nos meses seguintes."

Podemos, então, concluir que a sociedade egípcia era fundamentalmente agrária, baseada em um complexo sistema de irrigação, em que predominava a servidão coletiva. O Estado, representado pelo Faraó, era o proprietário das terras, mas, na prática, os altos funcionários, os militares e os sacerdotes eram donos de grandes extensões.

As comunidades de aldeia, cujos membros eram unidos por laços de família e de trabalho, tinham a posse das terras, isto é, o direito de cultivá-las e de ficar com parte da produção. Os excedentes, sob a forma de impostos, eram transferidos para o Faraó e para os grandes proprietários, que os acumulavam, utilizando-os para sustentar a administração, o artesanato e o comércio com outros países. As comunidades de aldeia prestavam ainda serviços forçados nas grandes obras de irrigação, assim como na construção de palácios, de templos e de túmulos.

[...]

"Deixa-me também expor-te a situação do camponês [...] Chega a inundação e o molha [...] ele cuida de seu equipamento. De dia, ele talha seus instrumentos agrícolas; de noite, fabrica cordas. Mesmo a sua hora de sesta ele gasta no trabalho agrícola [...] O campo ressecado está diante dele; ele vai buscar sua junta de bois [...] Ao chegar a aurora, ele quer começar e não encontra naquele lugar a junta. Passa três dias procurando-a; acha-a no pântano. Não há mais peles nos animais: os chacais os haviam devorado [...] Leva tempo cultivando [...] Não vê nem sequer uma folha verde [...] Agora o escriba desembarca na margem. Mede a colheita. Auxiliares estão atrás dele com varas e núbios, com porretes. Um deles lhe diz: "Entrega o cereal!" 'Não há!' Ele é surrado sem piedade [...] amarrado, jogado no poço, com a cabeça debaixo d'água. Sua mulher é atada em sua presença. Seus filhos estão presos em grilhões [...] Ao terminar tudo, não há cereal." (Provavelmente escrito por volta de 1100 a.C.)

[...] 

O artesanato especializado, voltado para a produção de artigos de luxo, desenvolveu-se nas cidades, produzindo para o Faraó e para a classe dominante. O comércio interno era muito limitado - em geral, troca de produto por produto ou por pesos de metal. O comércio externo, controlado pelo Faraó, mantinha relações principalmente com a Fenícia e com o Sul da Arábia, onde obtinha especiarias e produtos para consumo da aristocracia.

A sociedade egípcia era sustentada pelo trabalho dos camponeses. Embora fossem usados escravos, sobretudo em trabalhos domésticos e na mineração, eles não constituíam a base da produção.

AQUINO, Rubim Santos Leão de [et alli]. Fazendo a História: da Pré-história ao Mundo Feudal. Rio de Janeiro: Ao Livro Técnico, 1989. p. 35-6.

terça-feira, 14 de julho de 2015

O trabalhador na Antiguidade

Artesãos egípcios. Tumba de Nebamum e Ipuki, Tebas, XVIIIª dinastia. Artista desconhecido.

"Sê escriba. Não terás canseiras e ficarás preservado de outros tipos de trabalho. Não terás de transportar a enxada, a picareta e o cesto. Não terás de guiar o arado e serás poupado de todos os tipos de canseira.
Deixe que te recorde o estado miserável do camponês: quando chegam os funcionários para fixar a taxa da colheita, as serpentes já levaram metade do cereal e o hipopótamo comeu o resto. O pássaro voraz é uma calamidade para os camponeses. O trigo que restava na eira desapareceu, os ladrões levaram-no. Não pode pagar o que deve pelos bois que pediu emprestados; além disso, os bois morreram de tanto lavrarem e debulharem. E já o escriba atraca à margem do rio para calcular o imposto sobre a colheita, com um séquito de servos armados de bastões e de núbios com ramos de palmeira".
(Sátira dos ofícios. Citado por CAMINOS, Ricardo A. "O Camponês". In: DONADONI, Sérgio (dir.). O homem egípcio. Lisboa: Presença, 1994)

[...]

Os artesãos da Antiguidade (escultores, tecelões, pintores, ourives, ferreiros, carpinteiros, barqueiros e outros) dependiam dos reis e dos nobres para as encomendas, a obtenção de matéria-prima (muitas vinham de terras distantes) e de ferramentas para sua atividade. Caprichavam no seu trabalho para garantir os pedidos e assegurar seus ganhos. Alguns, por sua habilidade e criatividade, passavam a morar no palácio e se tornavam profissionais exclusivos do rei e de sua corte. Para esses clientes tão especiais, os artesãos e artesãs usavam as melhores matérias-primas. As madeiras nobres ou raras, o mais puro metal, o couro mais macio, a argila mais fina e os melhores corantes eram, em geral, de uso exclusivo de camadas privilegiadas da população, que se interessavam mais pela raridade e luxo da peça do que por sua praticidade. Era uma forma de ostentar riqueza e poder. Daí a História ter conservado o nome dos usuários das peças – espada do rei tal, anel da princesa fulana de tal etc. -, enquanto aqueles que as manufaturaram ficaram no anonimato.

[...]

Muitas pessoas apreciam só as peças caras expostas em um museu ou nas vitrines das lojas, reproduzindo a mesma atitude de reis e nobres do passado, que desvalorizavam o trabalhador artesanal e braçal. Também ignoram que muitos objetos ainda em uso atualmente são iguais aos primeiros feitos há séculos ou milênios. O arado, por exemplo, usado hoje por lavradores pobres em muitos países, é do mesmo tipo do utilizado pelos primeiros agricultores neolíticos.

[...]

No passado, as dificuldades de obtenção de matérias-primas de qualidade e o trabalho escravo foram causas do retardamento tecnológico. Governantes e senhores de escravos não se interessavam por inventos ou melhorias técnicas destinadas a poupar seus escravos do trabalho duro e estafante. O arado, a cerâmica, o tear, as ferramentas, a metalurgia e o tingimento pouco evoluíram durante milhares de anos, desde a sua criação no final da Pré-história.

Por outro lado, as exigências do consumidor de poucas posses contribuíram muito para o desenvolvimento técnico e tecnológico. Homens e mulheres do povo desejavam artigos tão bonitos e vistosos como as jóias e as túnicas de cor púrpura dos nobres, obviamente sem pagar os preços exorbitantes que custavam. Isso estimulou comerciantes e artesãos a procurarem alternativas mais baratas para atendê-los. O vidro, por exemplo, quando bem confeccionado, substituía a pedra preciosa em colares, brincos e pulseiras. Uma mulher do povo podia comprar uma jóia falsa por um preço modesto e ficar muito satisfeita com o resultado. Para tingir tecidos, os artesãos encontraram um substituto para a púrpura: a urzela, um vegetal que nasce sobre rochas e árvores que, ao ser molhada com urina, torna-se um excelente corante vermelho. Seu custo era baixo e atendia à clientela de poucas posses.

[...]


RODRIGUE, Joelza Ester. História em documento: imagem e texto. São Paulo: FTD, 2002. p. 142-143.

quinta-feira, 31 de julho de 2014

A vida material e social na Grécia Antiga: as sociedades urbanas

Acrópole, Leo von Kleuze

As cidades são, com efeito, inúmeras na Grécia, mas frequentemente de ínfimo tamanho. Em caso de invasão, fornecem ao elemento rural da planície o abrigo de suas muralhas e de sua cidadela. Em tempos de paz, animam-se apenas nos dias de mercado, assembléia e festa religiosa. [...]

Esparta, que tanto surpreendia os antigos, também os escandalizava por sua aparência pobre. Oferecia alguns monumentos à apreciação dos visitantes, bem pouco numerosos, pois se tornara pouco hospitaleira no século VI a.C., assim continuando em seguida. [...]

Seus cidadãos levavam, dos 7 aos 30 anos completos, a vida de caserna, primeiro em organizações pré-militares e depois como soldados: dos 30 aos 60, a de reservistas constantemente em estado de alerta, prontos a responder no próprio dia ao apelo de mobilização. Além disto, eram obrigados, salvo permissão excepcional, a tomar refeição da tarde juntamente com os que, em caso de campanha, seriam seus companheiros de tenda. Qualquer ocupação lucrativa e qualquer trabalho, afora os exercícios físicos e militares, eram-lhes vedados. O Estado apenas cunhava moedas de ferro, e o verdadeiro espartano não devia possuir metais preciosos. A contribuição em gêneros dos ilotas e de seu domínio territorial bastava, em teoria, para mantê-lo, bem como à sua família, na sociedade.

O rigor dessa disciplina militar e social multiplicava, ao lado e abaixo da categoria dos “iguais”, isto é, dos únicos cidadãos perfeitos, as categorias inferiores: no campo, os ilotas; na periferia do território lacedemônio, os “periecos” que, agrupados em pequenas cidades, se entregavam à agricultura livre, ao artesanato e ao comércio; na própria Esparta, os “inferiores”, isto é, os cidadãos degradados, os bastardos, os libertos e muitos outros, cujo ideal era o retorno ou o ingresso na classe dos iguais. Mas, para tanto, fazia-se mister uma decisão das autoridades e, principalmente, visto que a pobreza, condenando ao trabalho, constituía um vício incompatível com a presença entre os privilegiados, o usufruto de um domínio obtido por herança ou casamento com uma herdeira de bom dote.

[...] Basta evocarmos os aspectos anormais da vida familiar: o celibato freqüente e a manutenção, no lar do primogênito, dos filhos mais novos privados de terras e ilotas; a restrição voluntária dos nascimentos [...], a falta de homens [...]; os meninos retirados aos pais e a educação integral por conta do Estado; a autoridade exercida pela mulher numa família cujo chefe está mais amiúde ausente e cuja subsistência ela garante ou completa, graças à sua fortuna ou ao seu trabalho.

Acrescentemos a monotonia dos dias. Proporcionam-se apenas, em tempos normais, as alegrias másculas, mas limitadas, do ginásio, do campo de manobra e do refeitório. Só incidentalmente é esse ritmo rompido por uma caçada cujo produto reforça, à noite, o repasto do grupo de caçadores; e, sobretudo, em datas regulares, pelas festas religiosas celebradas com escrúpulo, segundo ritos que o arcaísmo torna estranhos e que se regulam pela evolução alternada de coros que entoam as estrofes dos antigos poetas. Imobilizada em tradições mantidas com orgulho, quase sem contato com o mundo externo, ao qual está ligada apenas por péssimas estradas ou pelo pequeno porto de Giteion [...] Esparta em nada contribuiu para o florescimento da civilização grega.

Uma única região do campo ático conhecia outra forma de vida, diferente do quadro rural [...]: o maciço do Lourion, ao sul da península. A exploração das jazidas de chumbo argentífero determinou aí uma concentração humana, cuja importância variou segundo a atividade ou a negligência da administração, a riqueza ou o esgotamento dos filões conhecidos.

Proprietários das concessões, o Estado ateniense arrendava-as aos exploradores, reservando-se o monopólio da prata obtida após o tratamento do minério. Capitais assaz importantes eram consagrados a essa exploração pelos arrendatários, que deviam cavar as galerias, fornecer o material e a mão-de-obra, nesse caso representada por escravos. [...].

É fácil imaginar [...] a lamentável sorte desses escravos mineiros, pois os concessionários, preocupados unicamente com o lucro imediato, não poupavam certamente a sua força de trabalho [...]. Uma técnica defeituosa fazia-os trabalharem com ferramentas rudimentares, em galerias estreitas, iluminadas por meio de fumarentas lâmpadas de óleo. Além disso, em meio a uma paisagem de desolação – pois o minério, ao qual se mistura o enxofre, libera, ao ser fundido, vapores que destroem a vegetação -, viviam alojados em sórdidos acampamentos, sem família, a fim de evitar despesas suplementares de alimentação. Esses miseráveis são tentados pela fuga [...].

Na cidade, com efeito, embora existam escravos, é certo também que jamais se acham aglomerados em grandes massas. Em sua maioria, trata-se de escravos domésticos, muito disseminados. Uma casa servida por cerca de vinte escravos causa a impressão de extraordinária suntuosidade. Não possuir escravo algum é, em compensação, sinal de grande miséria. Mas um lar normal raramente conta com mais de três ou quatro, principalmente mulheres. Misturados à vida familiar, esses cativos não são maltratados. A presença quase constante da esposa limita certos abusos do dono da casa. Não é rara a dedicação recíproca, no caso da ama ou do “pedagogo” que acompanhou o rapaz em seus passeios, zelando por sua educação e instrução. Toleram-se uniões entre escravos de uma mesma casa, e a mãe escrava cria seu filho que, é certo, desconhecerá a liberdade, tal como seus pais. A indústria e o artesanato utilizam também o trabalho servil. Mas a maior empresa de que temos notícia, uma fábrica de armas em tempo de guerra, não conta mais de 120 escravos. [...] A oficina padrão, frequentemente representada em pinturas de vasos, é a do artesão, ferreiro, fundidor ou ceramista, que trabalha juntamente com alguns escravos. Entre esses e o senhor, a vida quotidiana e o trabalho comum estabelecem relações marcadas por simpatia humana.

[...]

Assim, tende a diminuir a barreira real entre os homens livres pobres e os escravos. Esses usam apenas os cabelos um pouco mais curtos, não se distinguem por qualquer traje especial, e muitos são gregos puros que devem sua servidão exclusivamente aos azares da guerra. [...] A lei os protege contra as brutalidades de terceiros e limita a cinquenta açoites os castigos corporais a que os magistrados os podem condenar, em caso de delito. Se tiverem motivos de queixa contra a crueldade de seus senhores, podem refugiar-se em certos santuários e pedir para serem postos à venda [...].

A população livre compreende, do ponto de vista jurídico, duas categorias de pessoas: os metecos e os cidadãos.

Os primeiros são estrangeiros domiciliados na cidade. Sob esse e outros nomes [...] encontram-se em quase todas as cidades gregas, salvo em Esparta [...] e [...] nas cidades muito atrasadas, de economia exclusivamente rural. Em parte alguma, tanto em valor absoluto quanto em valor relativo, são tão numerosos como em Atenas, onde a proporção é quase de um meteco para dois cidadãos [...]. Isso porque a reputação artística e intelectual da cidade, bem como sua atividade econômica, atrai os que se querem instruir ou tornar conhecidos, os homens de negócio empreendedores, os profissionais laboriosos que procuram um ganha-pão.

Acolhidos com benevolente hospitalidade, não se sentem humilhados por uma discriminação injuriosa. Excluídos dos direitos políticos e também da propriedade imobiliária, pagando anualmente uma taxa módica, são eles, de fato, no tocante ao resto, assimilados aos cidadãos, sujeitos aos mesmos encargos militares e fiscais, gozando de grandes facilidades para praticar seus cultos particulares, mas admitidos à celebração das festas religiosas oficiais, protegidos, enfim, pela lei, em suas pessoas e em seus bens.

Exercem as mais variadas profissões, liberais, artesanais ou mercantis. Não há, por assim dizer, um artista, um homem de letras ou de ciência que, sendo grego e não ateniense, não tenha passado uma parte mais ou menos importante de sua vida em Atenas. [...] o que constitui a glória e a prosperidade de Atenas é, em grande parte, obra dos metecos.

AYMARD, André; AUBOYER, Jeannine. O Oriente e a Grécia Antiga: o homem no Oriente Próximo. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2003. p.189-194. (História Geral das Civilizações, v. 2)

NOTA: O texto "A vida material e social na Grécia Antiga: as sociedades urbanas" não representa, necessariamente, o pensamento deste blog. Foi publicado com o objetivo de refletirmos sobre a construção do conhecimento histórico.