"Os espelhos estão cheios de gente.
Os invisíveis nos vêem.
Os esquecidos se lembram de nós.
Quando nos vemos, os vemos.
Quando nos vamos, se vão?"
Eduardo Galeano: Espelhos
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terça-feira, 11 de outubro de 2016

Francisco de Bourbon: noivo com rendas (Parte 3)

Parte 3: Final cor-de-rosa

Depois deste episódio, a influência política do padre Claret aumentou consideravelmente, acompanhado por dois pitorescos agentes do Vaticano: Soror Maria dos Patrocínios, "a freira das chagas", que tinha inventado um falso milagre infligindo a si própria os estigmas de Cristo, e uma estrambólica personagem chamada padre Fulgêncio. Sob o conselho deste trio de religiosos fundamentalistas, Isabel começou a tomar medidas cada vez mais reacionárias, desde que as suas escapadelas adúlteras não chegassem aos ouvidos do papa. O povo começou a expressar abertamente a sua rejeição e os liberais dedicaram-se a plantar conjuras para destronar a rainha. Francisco, que se limitava a fazer a sua vida com os amigos e amantes sem intervir nos assuntos do reino, viu chegada a hora do divórcio. Participou abertamente nas conspirações opositoras, às quais ofereceu apoio institucional e celebrou alvoroçado a revolução de 1868, que obrigou Isabel II a exilar-se em França, embora também tenha seguido o mesmo caminho. Dois anos mais tarde, Isabel abdicou em Paris a favor de Afonso XII, enquanto Francisco, feliz e contente, se dedicou a desfrutar a vida e as suas alegrias durante longos anos. Morreu, já octogenário, nas sua quinta como uma personagem secundária, mas sem lhe negar o mérito de ter sido, desde os tempos do infante dom Jaime, o primeiro a ostentar sem sentimento de culpa a sua condição de gay.

TOURNIER, Paul. Os Gays na História. Lisboa: Estampa, 2006. p. 210.

Galeria de imagens: "Los borbones em pelota", aquarelas atribuídas a Valeriano Domínguez Bécquer & Gustavo Adolfo Bécquer, século XIX.

A la izquierda: Francisco de Asís sosteniendo una pelela; Isabel II en la cama siendo fornicada por el Padre Antonio María Claret; a la derecha, Carlos Marfori. Texto: ¡Oh viejo que estás jodiendo! / al infierno vas cayendo!

Francisco de Asis de Borbon. Texto: "El rey consorte, primer pajillero de la Corte."


Carlos Marfori con una botella de vino; Sor Patrocinio recibiendo el galanteo de González Bravo; Francisco de Asís requiriendo a González Bravo mientras es sodomizado por el Padre Antonio María Claret; en el suelo, dos perritos copulando (no se puede apreciar de qué sexo son los dichos perritos)


Isabel II con su intendente Carlos Marfori. Fco de Asís. A la derecha espera un batallón de guardia.
Leyenda de la acuarela:
Isabel —Espérate a que acabe mi intendente.
Paquita —¡Aguardemos la vez, como en la fuente!


Isabel II fornicando con Carlos Marfori. Texto: "¡Carlos, Carlos, yo lo espero / de tu hidalgo corazón / mételo sin dilación / que ya por joder me muero!"


Viñeta de la saga satírica Los Borbones en Pelota con el pareado "Sentada está en su poltrona, con cetro, chulo y corona"


(Reproducción o ilustración del álbum de láminas satíricas "Los Borbones en pelota")

domingo, 9 de outubro de 2016

Francisco de Bourbon: noivo com rendas (Parte 2)

Parte 2: A rainha dissoluta e o seu marido gay


Retrato do rei Francisco de Bourbon, rei consorte de Espanha por seu matrimônio com a rainha Isabel II de Espanha. Artista desconhecido 

A cerimônia nupcial celebrou-se com grande pompa e circunstância no dia 10 de Outubro de 1846, com Francisco de Assis adornado e enfeitado com as suas melhores vestes e a rainha resplandecendo, vaidosa, nos seus corpulentos dezasseis anos acabados de completar, ambos com um ar de resignação no olhar húmido. O povo de Madrid celebrou como convinha o primeiro casamento de uma rainha desde o de Isabel com Fernando, em 1496, que, para cúmulo, se tinha celebrado em segredo. Nessa noite, depois de terminados os festejos, ouvia-se pelas ruas uma cantoria desafinada e jocosa que descrevia assim o casal real: "Isabelona, tão frescalhona e dom Paquito, tão 'mariquito'".

Dentro do palácio, os protagonistas confirmavam a cançoneta. Francisco de Assis apresentou-se na alcova real com uma camisa tão carregada de bordados e rendas, que provocou o sarcástico comentário que abre a Parte 1. A noite não deu para muito mais e, na manhã seguinte, saíram ambos com forçados sorrisos de circunstância. O passar das semanas, que se transformou em meses, não trouxe qualquer novidade ao ventre da rainha e pela corte começou a correr o rumor que Francisco, para além das suas particulares tendências, também era impotente. Uma criada de quarto ventilou a confidência de o real esposo não ter força no seu... e que o tinha visto a urinar sentado na sanita. O engenho popular não tardou a inventar uma nova rima a esse respeito:

"Paquito adocicado,
De creme parece ser;
Até urina sentado
Tal como uma mulher..."

Apesar de continuar a enfeitar-se, Francisco de Assis tentou manter uma atitude prudente e formal no desempenho do papel de marido real. Também é provável que, de vez em quando, tentasse uma cópula, cujo fruto teria contentado a corte, o povo e talvez a própria interessada. Mas Isabel não tinha nascido para piloto de ensaios e as suas hormonas, em pleno desenvolvimento, pediam-lhe outro tipo de guerra. Lançou-se numa vida cada vez mais libertina, oferecendo o seu corpo adolescente e robusto às alegrias que não encontrava com Francisco. Talvez ele tivesse suportado com alívio esta situação se a rainha tivesse mantido a compostura em público. Contudo, Isabel não só não dissimulava a sua conduta adúltera, como também se permitia censurar o marido, gozando com os seus cornos, a sua impotência e os seus gostos afectados.

Alguns meses depois do casamento, Isabel II tomou por amante o general Francisco Serrano, duque da Torre, ministro da Guerra e herói da guerra carlista. Numa recepção do palácio, Serrano soltou um comentário ofensivo sobre a situação conjugal de Francisco, que não perdoou a Isabel tê-lo aplaudido ruidosamente. A partir deste incidente, quebrou-se a trégua entre ambos, que passaram a ocupar quartos separados. A rainha aproveitou a ocasião para aumentar escandalosamente a lista de amantes, incluindo o seu professor de canto, o compositor de zarzuelas Emilio Arrieta; o sedutor profissional Emilio Marfiori, a quem nomeou conselheiro do reino e ministro do Ultramar; o aristocrático duque de Bedmar e, entre muitos outros, o oficial de engenharia catalão Puig i Moltó, presumível pai de Afonso XII.

A conduta libertina de Isabel trouxe-lhe inevitavelmente problemas com o Vaticano, que chegou a ameaçá-la veladamente com a excomunhão. O assunto sanou-se graças aos bons ofícios do padre Antonio María Claret, confessor da rainha e futuro santo, que utilizou toda a sua influência junto de Pio IX. Isabel  prometeu emendar-se e devolveu à Igreja uma série de propriedades e prerrogativas perdidas com os governos liberais. A Santa Sé estabeleceu uma concordata com Espanha, em 1851, e diz-se que, quando um cardeal recordou ao pontífice a fama da rainha, este concordou sorridente e suspirou enquanto assinava. "Si, puttana; má pia".

TOURNIER, Paul. Os Gays na História. Lisboa: Estampa, 2006. p. 208-9.

sexta-feira, 7 de outubro de 2016

Francisco de Bourbon: noivo com rendas (Parte 1)

Parte 1: Matrimônio por impotência

Por amor de Deus, Francisco, usas mais rendas que eu!
(Isabel II, na sua noite de núpcias)

 Retrato de Francisco de Assis Bourbon, Federico de Madrazo y Kuntz

Francisco de Assis de Bourbon era o secundogénito desta nobre casa, que teve a sorte de se casar com uma rainha e o azar de esta ser sua prima Isabel II de Espanha. Muito mulher, em todos os sentidos, para que um marido homossexual e bastante efeminado pudesse levar com alguma dignidade um matrimônio de aparência por razões de Estado. O pobre Francisco, Paquito como todos lhes chamavam, tentou honestamente no início, mas sem conseguir dissimular de todo os seus adornos. Mas Isabel também não perdeu tempo. Pouco depois do casamento, lançou-se numa vida imprópria de qualquer senhora e muito menos de uma rainha. Os seus coquetismos públicos, a sua enorme colecção de amantes, as suas piadas cortantes sobre o seu efeminado marido, que o faziam corar de vergonha e o indignavam ao mesmo tempo, deterioravam tanto a sua imagem pública como a paciência do forçado cônjuge. O confronto levou a uma ruptura, nem se dando ao trabalho de manterem as aparências, e Francisco começou a tramar uma elaborada vingança.

Quando, em 1822, Francisco de Assis de Bourbon nasceu no palácio de Aranjuez, foi para fazer parte de uma família complicada.

O pai, o infante Francisco de Paula, tinha sido oficialmente o herdeiro da coroa, embora nunca tivesse chegado a reinar. A revolta de Aranjuez de 1808, que motivou a abdicação de Carlos IV, destituiu o seu primogénito a favor do irmão mais novo, que subiu ao trono como Fernando VII. A razão evocada pelos amotinados e referendada pelas Cortes de Cádis foi a de Francisco de Paula não ser, na verdade, filho de Carlos IV, mas do odiado favorito Godoy e da rainha Maria Luísa. O presumido bastardo ficou na incómoda posição de infante despeitado e ressentido, com o título de consolação de duque de Cádis. Francisco cresceu nesse ambiente paterno de rancor surdo, refugiado no amor e nos excessivos mimos de sua mãe, Luísa Carlota de Nápoles. Ao chegar à puberdade, era um menino muito bonito, baixo e gordo, de maneiras efeminadas e uma constante obsessão pela roupa requintada, pelos perfumes e adornos extravagantes. Algum tempo depois, os mexericos da corte já lhe atribuíam o seu primeiro amante na figura do duque de Baños, com quem Francisco exibia a sua afetada elegância em locais de diversão frequentados pela aristocracia e pela nova classe política.

Entretanto, sobreveio a restauração de Fernando VII, que não honrou o seu cognome de O Desejado ao derrogar a constituição liberal de 1812 (a famosa "Pepa") e provocar com isso uma série de revoltas que o obrigaram a estabelecê-la e a admitir um governo liberal. O triénio progressista terminou abruptamente com a invasão dos "Cem mil filhos de São Luís", uma tropa francesa enviada pela Santa Aliança para repor o regime absolutista. Em 1829, Fernando VII casava-se com Maria Cristina de Bourbon, que lhe deu uma filha chamada Isabel. Para que ela pudesse herdar o trono, o rei aboliu a tradicional Lei Sálica, que excluía as mulheres da sucessão, o que causou a indignação dos sectores conservadores ultracatólicos, que começaram a plantar a candidatura do infante Carlos, irmão de Fernando e, até então, legítimo herdeiro. O soberano faleceu em 1833 e Maria Cristina apressou-se a coroar a filha e a assumir a regência.

Isabel II tinha três anos de idade quando foi proclamada rainha de Espanha, com o desacordo dos ultramontanos que desencadearam a chamada primeira guerra carlista. Em 1840, as tropas reais obtém uma difícil vitória, comandadas pelo hábil e ambicioso general Baldomero Fernández Espartero. A rainha-mãe cede-lhe então a regência, que termina três anos depois com a declaração da maioridade de Isabel. Por volta dos treze anos, a rainha era uma menina gorda e caprichosa e, ao mesmo tempo, um tentador partido político para todos os grupos internos e numerosos governos europeus. Todos começaram a procurar-lhe um noivo, atendendo aos vários interesses em causa.

Entre os aspirantes com mais possibilidades estavam Leopoldo de Saxe-Coburgo, favorito da rainha-mãe; Carlos Luís Bourbon, conde de Montemolín, proposto pelos franceses, e Pedro de Bragança, filho do rei de Portugal, que na altura teria apenas oito anos. Mas os reinos patrocinadores vêem os seus candidatos recusados uns atrás dos outros. Surge então a ideia de organizar o duplo matrimónio de Isabel II e de sua irmã, a infanta Maria Luísa, com dois noivos que compensassem as diferenças políticas e dinásticas no teatro europeu. O rei de França, Luís Filipe de Orleães, aproveita e monta um maquiavélico plano. Os seus agentes em Espanha asseguraram-lhe que Francisco de Assis era homossexual e diz-se que a própria Luísa Carlota confirmou em segredo esta condição do seu filho, com a esperança de o rapaz se esforçar e lhe dar um neto que pudesse reinar. Luís Filipe, mais céptico, acredita ser pouco provável que isso ocorra e concretiza a sua proposta: Isabel casar-se-á com Francisco, que é um Bourbon, e a infanta Maria Luísa, com António de Orléans. Se, como era de esperar, a rainha e o seu cônjuge não tivessem descendência, a Casa de Orléans passaria a deter a coroa de Espanha.

Maria Cristina aceitou esta opção para consolidar as suas delicadas relações com a França e o matrimônio recebeu a aprovação do governo e das cortes. A única que se opôs frontalmente ao casamento foi a própria noiva que, de acordo com as crónicas, caiu num histérico ataque de choro e ameaçou abdicar, gritando: "Com Paquito não! Com Paquito não!".

TOURNIER, Paul. Os Gays na História. Lisboa: Estampa, 2006. p. 204-8.

quarta-feira, 5 de outubro de 2016

Peregrinação a Kiev e bailes de máscaras em Moscou (Parte 3)

Catarina II da Rússia, Dmitry Grigoryevich Levitsky

Naquele outono, porém, Catarina viu e sentiu o lado negro da personalidade de Elizabeth. A vaidade da imperatriz exigia que ela fosse não somente a mais poderosa mulher do império, mas também a mais bela. Não tolerava ouvir elogios à beleza de outra mulher. Os triunfos de Catarina não lhe passaram despercebidos, e sua irritação encontrou um escape. Numa noite, na Ópera, a imperatriz estava com Lestocq no camarote real, oposto ao camarote de Catarina, Joana e Pedro. No intervalo, a imperatriz notou Catarina conversando alegremente com Pedro. Como poderia essa jovem, a radiante saúde e confiança em pessoa, agora tão popular na corte, ser a mesma menina tímida que chegara à Rússia um ano antes? De repente, o ciúme da imperatriz flamejou. Olhando para a mulher mais jovem, ela pegou o primeiro agravo que lhe veio à mente. Como se o assunto não pudesse esperar, despachou Lestocq para o camarote de Catarina para lhe dizer que a imperatriz estava furiosa com ela porque tinha contraído débitos inaceitáveis. Elizabeth lhe dera 30 mil rublos para onde tinham ido? Ao dar o recado, Lestocq fez questão de que Pedro e todos à volta pudessem ouvir. As lágrimas jorraram dos olhos de Catarina e, mesmo chorando, recebeu nova humilhação. Pedro, em vez de consolá-la, disse que concordava com a tia e achava apropriado que a noiva fosse repreendida, Joana então declarou que, como Catarina não mais a consultava sobre como sua filha deveria se comportar, "lavava as mãos" daquela história.

A queda foi súbita, abrupta. O que tinha acontecido? Que crime tinha cometido a menina de 15 anos, que só pensava em agradar a todo mundo, especialmente à imperatriz? Catarina foi verificar e viu que tinha um débito de 2 mil rublos. A quantia era irrisória em vista da extravagância e generosidade da própria Elizabeth, e a reprimenda era obviamente uma desculpa para encobrir outra queixa. É verdade que Catarina gastava sem restrições. Tinha mandado dinheiro para o pai pagar as despesas de seu irmão. Tinha gastado consigo mesma. Ao chegar à Rússia com apenas quatro vestidos e uma dúzia de roupas de baixo em seu baú, e assumindo seu lugar numa corte em que as mulheres trocavam de roupa três vezes por dia, ela usou parte de sua mesada para montar um guarda-roupa. Mas a maior parte havia sido gasta em numerosos presentes para sua mãe, suas damas de companhia e para o próprio Pedro. Ela descobrira que o meio mais eficaz de pacificar o temperamento da mãe e parar com as constantes implicâncias entre Joana e Pedro era dar presentes para ambos. Percebeu que, naquela corte, presentes conquistavam amizades. Percebeu também que a maioria das pessoas a sua volta não fazia objeção a receber presentes. Portanto, ansiosa por conquistar boa vontade, não viu motivo para desprezar esse método simples e poderoso. Em poucos meses, tinha aprendido não só a língua, mas também os costumes da Rússia.

Era difícil entender e aceitar esse repentino ataque da imperatriz. Revelava as duas faces de Elizabeth, uma mulher que, alternadamente e sem aviso, encantava e intimidava. Depois, quando Catarina se lembrava da lição aprendida ao lidar com um ego inflado como o de Elizabeth, todas as mulheres da corte deviam evitar ter muito sucesso. Ela se esforçou para se reintegrar com sua protetora. E Elizabeth, quando o ataque de ciúmes cedeu, se abrandou e acabou por esquecer o incidente.

MASSIE, Robert K. Catarina, a grande: retrato de uma mulher. Rio de Janeiro: Rocco, 2012. p. 87-88.

segunda-feira, 3 de outubro de 2016

Peregrinação a Kiev e bailes de máscaras em Moscou (Parte 2)

Catarina II da Rússia, Fyodor Rokotov

"Sabendo como minha mãe se exaltava facilmente e que seu primeiro impulso era sempre muito violento, temi que ela me desse um tapa se eu discordasse dela. Sem querer mentir para ela nem ofender o grão-duque, fiquei calada. Contudo, acabei dizendo a minha mãe que eu não achava que o grão-duque tinha feito de propósito."

Joana então se voltou contra Catarina.

Quando minha mãe estava com raiva, tinha de achar alguém com quem brigar. Permaneci em silêncio e depois explodi em lágrimas. A princípio, meu silêncio enraiveceu a ambos. Então o grão-duque, vendo que toda a raiva de minha mãe se dirigiu para mim porque eu tinha tomado o partido dele e que eu estava chorando, acusou minha mãe de ser uma megera arrogante e injusta. Ela contra-atacou, dizendo que ele era "um menininho mal-educado". Seria impossível brigar com mais violência sem chegar aos tapas.

A partir de então, o grão-duque tomou grande antipatia por minha mãe e nunca esqueceu aquela briga. Minha mãe, por sua vez, guardou por ele um irremediável rancor. Aquele relacionamento tenso se tornou cada vez mais cheio de amargor e suspeita, passível de azedar a qualquer momento. Nenhum dos dois conseguia esconder de mim seus sentimentos. E por mais que me esforçasse para obedecer a uma e agradar ao outro - e de algum modo promover a reconciliação -, conseguia isso apenas por curtos períodos. Cada um tinha sempre uma farpa de sarcasmo ou malícia pronta a ser arremessada. Minha posição ficava mais difícil a cada dia.

Catarina estava angustiada, mas o mau gênio da mãe e a simpatia de catarina pelo grão-duque surtiram um efeito: "Na verdade, naquela época, o grão-duque abriu seu coração para mim mais que para qualquer outra pessoa. Ele via que minha mãe sempre me atacava e me repreendia quando não conseguia encontrar alguma falta nele. Isso me colocou numa alta posição em sua estima; ele acreditava poder confiar em mim."

No clímax da peregrinação, a imperatriz e a corte passaram dez dias em Kiev. catarina teve uma visão inicial panorâmica da magnífica cidade, com seus domos dourados se erguendo de uma encosta na margem oeste do rio Dnieper. Elizabeth, Pedro e Catarina entraram a pé na cidade, andando com uma multidão de padres e monges atrás de uma grande cruz. Em toda parte da mais sagrada de todas as cidades russas, numa época em que a Igreja era imensamente rica e o povo devotamente piedoso, a imperatriz foi recebida com uma pompa extravagante. Na famosa igreja de Assunção no monastério Pecharsky, Catarina ficou admirada com o fausto das procissões, a beleza das cerimônias religiosas, o incomparável esplendor das próprias igrejas. "Nunca, em toda a minha vida", ela escreveu mais tarde, "algo me deixou tão impressionada quanto a extraordinária magnificência daquela igreja. Todos os ícones eram recobertos de ouro maciço, prata, pérolas e incrustados de pedras preciosas."

Embora tão impressionada por esse espetáculo visual, nunca em sua vida Catarina foi muito devotada à religião. Nem a austera crença luterana de seu pai, nem a apaixonada fé ortodoxa da imperatriz Elizabeth jamais tomaram posse de sua mente. O que ela via e admirava na igreja russa era a majestade da arquitetura, da arte e da música, mescladas numa esplêndida unidade de inspirada - embora feita pela mão do homem - beleza.

Tão logo Elizabeth e a corte retornassem de Kiev, começou nova temporada de óperas, festas e bailes de máscaras em Moscou. Cada noite Catarina aparecia com um vestido novo e lhe diziam que estava muito bonita. Ela era astuta o bastante para reconhecer que a lisonja era o óleo lubrificante da vida na corte, e estava também ciente de que algumas pessoas ainda a desaprovavam. Bestuzhev e seus seguidores, damas ciumentas que invejavam a estrela em ascensão, parasitas que mantinham minuciosa contabilidade da distribuição de favores. Catarina tentava de todas as maneiras desarmar seus críticos. "Eu tinha medo de não ser querida e fazia tudo em meu poder para conquistar aqueles com quem iria passar minha vida", ela escreveu mais tarde. Acima de tudo, ela nunca esqueceu a quem devia maior lealdade. "Meu respeito pela imperatriz e minha gratidão a ela eram extremos", ela disse. "E ela costumava dizer que me amava tanto ou mais que ao grão-duque."

Um modo certo de agradar a imperatriz era dançar. Para Catarina era fácil: assim como Elizabeth, ela gostava apaixonadamente de dançar. Diariamente, às sete horas da manhã, monsieur Lande, o mestre francês de balé na corte, chegava com seu violino e, durante duas horas, ensinava-lhe os passos da última moda em Paris. De quatro a seis da tarde, ele voltava para outra aula. E assim, à noite, Catarina impressionava a corte com sua dança graciosa.

Alguns desses bailes noturnos eram bizarros. Toda terça-feira, por decreto da imperatriz, os homens vinham vestidos de mulher e as mulheres vestidas de homem. Catarina, aos 15 anos, se deliciava com essa mudança de trajes. "Devo dizer que não havia nada mais horrendo e ao mesmo tempo mais cômico do que ver quase todos os homens vestidos desse jeito e nada mais triste do que ver as mulheres em roupas de homem." A grande maioria da corte detestava profundamente essas noites, mas Elizabeth tinha um motivo para esse capricho: ela ficava esplêndida em roupas de homem. Embora longe de ser esguia, sua silhueta de busto farto ficava realçada pelo par de pernas esbeltas, maravilhosamente bem torneadas. Sua vaidade exigia que aquelas pernas elegantes não permanecessem escondidas, e a única maneira de exibi-las era em calças justas masculinas.

Catarina descreveu o perigo com que se defrontou numa dessas noites:

Monsieur Sievers, muito alto, usando um vestido com ampla anágua armada que a imperatriz lhe emprestara, estava dançando uma polonaise comigo. A condessa Hendrikova, que dançava atrás de mim, tropeçou na anágua armada de monsieur Sievers no momento em que ela dava um rodopio segurando minha mão. Ao cair, ela esbarrou em mim com tanta força que caí debaixo da anágua, que tinha saltado como uma mola bem ao meu lado. Sievers, por sua vez, se embaraçou nas próprias saias longas, que estavam em grande desordem, e acabamos nós três estatelados no chão, eu inteiramente coberta pela anágua dele. Eu estava morrendo de rir, tentando me levantar, mas foi preciso que viessem nos ajudar porque estávamos tão embrulhados na roupa de monsieur Sievers que nenhum dos três conseguia se levantar sem fazer com que os outros dois tornassem a cair.

MASSIE, Robert K. Catarina, a grande: retrato de uma mulher. Rio de Janeiro: Rocco, 2012. p. 84-87.

sábado, 1 de outubro de 2016

Peregrinação a Kiev e bailes de máscaras em Moscou (Parte 1)

Catarina com o seu marido, o czar Pedro III e o filho, o futuro czar Paulo I, em 1760, Anna Rosina Lisiewska

A noiva chegara à Rússia, era jovem, sua saúde fora recuperada e as dificuldades envolvendo sua conversão à religião ortodoxa tinham sido superadas. Agora que ela e Pedro estavam noivos, o que impedia um casamento imediato? Um obstáculo difícil de ser vencido até mesmo por uma imperatriz, era a cautelosa opinião dos médicos quanto a Pedro. Aos 16 anos, o grão-duque mais parecia ter 14, e os doutores ainda não conseguiam detectar nele qualquer sinal convincente de puberdade. Achavam que levaria pelo menos um ano até que ele pudesse gerar um filho. Ainda que ocorresse uma gravidez, restariam nove meses até o nascimento da criança. Para Elizabeth, esse tempo - 21 meses - parecia uma eternidade. E como o casamento precisava ser adiado, a imperatriz precisava adiar também a partida de Joana.

Aceitando com relutância esses desapontamentos, Elizabeth decidiu tomar outras medidas em peregrinação a Kiev, a mais antiga e sagrada cidade da Rússia, onde a cristandade fora introduzida pelo grão-príncipe Vladimir no ano 800 d.C. A viagem de Moscou a Kiev, de quase 900 quilômetros, foi sugerida a Elizabeth por seu amante ucraniano, Razumovsky, e inclua Pedro, Catarina e Joana, com suas respectivas comitivas, além de 230 cortesãos e centenas de servos. A caminho, as fileiras de carruagens e carroças com bagagens sacolejavam dia após dia nas estradas infindáveis, infligindo cansaço, tédio, fome e sede aos passageiros. Os cavalos eram trocados frequentemente. A cada posto de muda, oitocentos animais descansados aguardavam a chegada da caravana imperial.

Enquanto os eminentes da corte russa viajavam em carruagens forradas com almofadas de veludo, uma pessoa seguia a maior parte do trajeto a pé. Elizabeth levava muito a sério a penitência e a peregrinação. Caminhando pelas estradas russas quentes e sem sombras, suando com o calor e murmurando orações, Elizabeth parava para rezar em cada igreja de cada aldeia e em cada santuário do caminho. Enquanto isso, Razumovsky, prático e modesto, tanto nas perspectivas terrenas como nas celestiais, preferia acompanhá-la em sua confortável carruagem.

Catarina e Joana começaram a viagem numa carruagem com duas damas de companhia. Pedro seguia em outra carruagem, com Brümmer e dois tutores. Um dia, cansado de seus "pedagogos", como Catarina os chamava, Pedro resolveu se reunir às duas princesas germânicas, cuja companhia ele julgou ser mais animada. Saindo de sua carruagem, ele "entrou na nossa e se recusou a sair", trazendo com ele um dos alegres jovens de sua comitiva. Não demorou para que Joana, irritada com a presença dos jovens, quisesse fazer outra arrumação. Joana tinha uma carroça equipada com pranchões e almofadas de modo a acomodar dez pessoas. Para seu aborrecimento, Pedro e Catarina insistiram em encher essa carroça com outros jovens. "Só deixamos ficar conosco os mais engraçados e divertidos da nossa comitiva", Catarina disse. "De manhã à noite, só fazíamos rir, brincar e ter alegria." Brümmer, os tutores e as damas de companhia de Joana ficaram insultados com essa troca, que ignorava a precedência da corte. "Enquanto nos divertimos, eles ficaram numa carruagem, todos os quatro, mal humorados, repreendendo, condenando, fazendo comentários azedos à nossa custa. Em nossa carruagem, sabíamos disso, e ríamos deles."

Para Catarina, Pedro e seus amigos a viagem não foi uma peregrinação religiosa, mas uma excursão, uma grande brincadeira. Não havia pressa. Elizabeth só caminhava poucas horas por dia. Ao fim de três semanas, a comitiva principal chegou à grande mansão de Alexis Razumovsky em Koseletz, onde esperaram mais três semanas até que a imperatriz aparecesse. Quando finalmente ela chegou, em 15 de agosto, o aspecto religioso da peregrinação foi suspenso temporariamente. Durante duas semanas, os "peregrinos" se reuniam numa sucessão de bailes, concertos e, de manhã à noite, em jogos de cartas tão febricitantes que às vezes 40 ou 50 mil rublos se amontoavam nas mesas.

Enquanto estavam em Koseletz, houve um incidente que gerou uma rusga permanente entre Joana e Pedro. Começou quando o grão-duque entrou numa sala em que Joana estava escrevendo. Num banquinho ao lado dela, estava sua caixa de joias, onde guardava as pequenas coisas que lhe eram caras, inclusive suas cartas. Pedro, de brincadeira, para fazer catarina rir, fingiu remexer na caixa e pegar as cartas. Joana lhe disse severamente que não tocasse naquilo. O grão-duque, ainda se exibindo, saiu correndo pela sala, mas, ao fazer piruetas para se afastar de Joana, seu casaco se prendeu na tampa aberta, jogando a caixa e todo o conteúdo no chão. Joana, pensando que ele tinha feito isso intencionalmente, teve um acesso de fúria. Pedro ainda tentou se desculpar, mas, quando ela se recusou a acreditar que havia sido por acidente, ele também se zangou. Os dois começaram a gritar um com o outro, e Pedro, apelando para Catarina, pediu que atestasse a inocência dele.

Catarina ficou no meio da briga.

MASSIE, Robert K. Catarina, a grande: retrato de uma mulher. Rio de Janeiro: Rocco, 2012. p. 82-84.