"Os espelhos estão cheios de gente.
Os invisíveis nos vêem.
Os esquecidos se lembram de nós.
Quando nos vemos, os vemos.
Quando nos vamos, se vão?"
Eduardo Galeano: Espelhos
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sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

Moisés, o egípcio

A filha do faraó encontra o bebê Moisés, Konstantin Flavitsky

Nenhuma dúvida: Moisés carregava um nome egípcio. Em sua forma hebraica, Moshè, ou grega, Môsès, ele provinha do original Masi, abreviação corrente na época raméssida de nomes próprios tipicamente egípcios, tais como Ri'amassi (Rá nasceu), ou Harmassi (Hórus nasceu). Portanto, o componente do nome do deus desapareceu pura e simplesmente. Um contramestre chamado Moisés tornou-se conhecido por haver organizado a primeira greve da história na aldeia de Deir el-Medineh, perto do célebre Vale dos Reis. Os israelitas aproximaram esse nome nilótico do verbo hebraico mascha (tirar). A similitude de pronúncia é puramente acidental, mas isso bastou aos redatores da Bíblia para dar origem à etimologia popular "tirado das águas" para o nome do patriarca.

"Os autores bíblicos que relatam o nascimento de Moisés conhecem, aliás, muito bem a etimologia egípcia de seu nome. Durante todo o relato do Êxodo, ele é continuamente designado como 'a criança', o que corresponde em hebraico à raiz egípcia m-s-y, 'gerado por' ou 'filho de'. É a filha do faraó que chama assim, ligando-o a uma etimologia hebraica, por sinal incorreta", menciona Thomas Römer, em seu livro Moise, lui que Yahvé a connu face à face (Moisés, aquele que Yahvé conheceu face a face). Mas esse nome seria o bastante para fazer dele um egípcio?

Não há certeza. Isso porque, sob um nome tipicamente egípcio, podia-se encontrar um estrangeiro. Os faraós do Novo Império "importaram", pela força e pela violência, uma abundante mão de obra vinda de Canaã, necessária para construir seus monumentos. Os textos comprovam que essa população, móvel e inquieta em certas ocasiões, também podia atingir o topo do poder. Esses cananeus adotavam então os patronímicos e os costumes dos egípcios - hoje em dia, se falaria em integração. Foi o caso da família de Moisés? E o de José, filho de Jacó? Vendido por seus irmãos no Egito, lançado à prisão, José se tornaria vizir, o segundo personagem mais poderoso do Estado. "A história do estabelecimento de José no Egito, de sua queda simbolizava pela prisão, depois de sua elevação e, finalmente, de seu triunfo, inscreve-se muito bem, como gerações de sábios puderam mostrar, nesse Egito do Novo Império e particularmente da XVIII dinastia", constata Alain Zivie. Nem mesmo seus irmãos o reconheceram. Aos olhos deles, José era egípcio! Sua integração foi um êxito total, como foi talvez a de um homem de origem semita denominado Moisés.

Hoje em dia, está na moda escrever que Moisés era de origem egípcia e que ele foi influenciado pelo pensamento de Akhenaton. Alguns vão ainda mais longe ao fazer do "faraó herético" e de Moisés uma única e mesma pessoa. A essa hipótese, podemos objetar que o resultado de escavações empreendidas na Palestina mostrou que Israel não nasceu de um êxodo do Egito, mas da transformação de uma parte da população cananeia, que começou no final do segundo milênio antes da nossa era, portanto muito longe do Nilo.

Como imaginar um Moisés egípcio quando se comparam o judaísmo e a religião egípcia, ainda que "revista e corrigida" por Akhenaton? O laço entre essas duas personagens não implica que Aton e Yahvé estejam ligados. É surpreendente que alguns possam confundir o Deus de Moisés com uma divindade egípcia, mesmo que fosse Akhenaton. Quando este último reza a Aton, é a uma manifestação do Sol, figurado sob a forma do disco, que ele se dirige. Akhenaton tem portanto necessidade de recorrer a uma imagem de seu deus, a imagem de um disco com os raios terminados em mãos.

Ora, o segundo mandamento divino, contido no Decálogo, condena qualquer associação de um elemento do universo, qualquer que seja esse elemento, com Yahvé. Acrescentemos que, na atualidade, os especialistas - sejam eles egiptólogos, linguistas, arqueólogos ou exegetas bíblicos - descobriram que a revelação esteve longe de ser repentina, mas foi o fruto de um longo caminho aberto no século VIII e completado no século V antes de nossa era. Ao passo que a "revelação atoniana" foi imediata: não há a menor necessidade de seguir seu desenvolvimento desde a época das pirâmides até a vinda ao mundo de Akhenaton. Hoje em dia, os pesquisadores voltam os olhos para essa população semítica instalada no Egito.

Assim, "para o Novo Império, contam-se não menos de 60 estrangeiros que indubitavelmente ocuparam cargos muito elevados no clero e na administração. Para apreciar bem esse número, é preciso levar em conta, por um lado, as lacunas de nossa documentação e, por outro, o fato de que muitos funcionários de origem estrangeira não são mais reconhecíveis enquanto tais por haverem adotado nomes egípcios. Em outras palavras, tem-se todo o espaço para acreditar que essa cifra esteja bem abaixo da realidade", escreveu Pascal Vernus em sua obra Les étrangers dans la civilisation faraonique (Os estrangeiros na civilização faraônica).

Entre os altos dignitários do poder faraônico cabe mencionar os copeiros reais, encarregados do serviço de bebidas na mesa real. que eram com frequência asiáticos e semitas. Esses homens estavam muito próximos do faraó, que lhes confiava responsabilidades importantes, como as grandes construções do reino.

Em Saqquarah, as escavações revelaram um vizir de Amenófis III e de Amenófis IV chamado Aper-El, um nome semítico, pois contém o nome do deus El (retomado, por exemplo, em Isra-el). Era uma "criança do kep", título honorífico concedido àqueles que eram educados na corte real, ao lado dos príncipes e dos filhos dos reis vassalos do faraó. Antes de ser vizir, Aper-El era o general dos carros de guerra, função que ele transmitia a um de seus filhos. Ele recebeu também o título prestigioso de "pai divino" e estava entre os confidentes do rei. Mais ainda, tornou-se "responsável pela nutrição das crianças reais", atuando como preceptor dos príncipes e princesas da corte.

Sob os faraós raméssidas (de 1200 a 1050 antes da nossa era), muitos estrangeiros alcançaram posições de confiança. Alguns interessam muito aos estudiosos da Bíblia, que desenvolvem pesquisas sobre as origens de Moisés. Eles estudam documentos faraônicos que focalizam diversos grandes personagens cujo nome comporta o afixo "Moisés".

Vamos nos deter inicialmente num certo Ben-Ozen, um nome que pode ser traduzido por "Filho da audição" ou por "Filho da obediência". Ele era originado da localidade de Bashan, na Transjordânia. Sua relação com Moisés? Ele trazia um nome egípcio, Ramsesemperrê, construído sobre a raiz Mosès, como Moisés. Conta-se que ele teria servido como mediador num conflito que opôs os shasu (beduínos) sujeitos à prestação de corveias (trabalho gratuito) a funcionários egípcios. Pensa-se no famoso episódio bíblico em que Moisés assume a defesa de um escravo hebreu (Êxodo 2, 11-15). Infelizmente a documentação não registra nenhuma revolta dos shasu nem a fuga deles sob a condução de um alto dignitário egípcio. Assim, Ben-Ozen não responde às condições desejadas para especular que ele seria a fonte do Moisés bíblico. Procuremos outro.

Um novo postulante ao posto de Moisés "histórico" é o diretor do Tesouro egípcio, um homem denominado Bay (ou Beya). "Abrigando-se por trás do frágil faraó Siptah (1206-1188 antes de nossa era), um enfermo, e da regente - depois faraó - Tauseret, ele puxava, na sombra, os cordões do poder durante o período de instabilidade que se seguiu ao reinado de Seti II. Atribuindo-se poderes exorbitantes, ele procurou colocar o país sob seu controle desenvolvendo o projeto de pagar estipêndios a potentados asiáticos para reforçar o próprio domínio.

Seu empreendimento teria sido bem-sucedido não fosse a intervenção do enérgico Sethnakht, fundador da XXª dinastia. "Apesar desse insucesso, o caso de Bay permanece exemplar. Ele mostra como estrangeiros podiam conquistar para si uma posição eminente, ao conseguir conquistar a estima e a confiança do faraó por suas qualidades. Evidentemente, não se pode deixar de pensar na carreira de José no Egito", enfatiza Pascal Vernus. Mas, por que não em Moisés? Bay tem um duplo patronímico, do qual um é o egípcio Ramsès-Kha-em-neterou, "Ramsés é a manifestação dos deuses" que traz em si a raiz Mosès.

Chegou a haver suspeitas de que o manipulador Bay estivesse na origem da morte prematura de Siptah, que subiu ao trono aos 10 anos de idade e manteve nele apenas cinco, morrendo de maneira misteriosa. A morte de Siptah permitiu à rainha Tauseret tornar-se faraó, com o apoio do chanceler Bay, que na ocasião se transformou em fazedor de faraós. Mas essa ascensão feminina ao trono desencadeou uma oposição armada. Para dominá-la, Tauseret e Bay recrutaram, segundo os textos, um exército de cananeus e se apoderaram do ouro e da prata dos egípcios. Segundo Thomas Römer, esse episódio poderia evocar a tradição bíblica da "espoliação dos egípcios": "Os filhos de Israel fizeram como Moisés havia dito, e pediram aos egípcios objetos de prata, objetos de ouro e roupas" (Êxodo 12, 35).

Finalmente, o chefe da revolta triunfou e foi à caça de Bay e Tauseret. Acompanhados de alguns fiéis, eles conseguiram fugir. Mas, se Moisés escapou de seus perseguidores, que se afogaram no "mar dos Juncos", Bay foi executado e seu nome apagado onde quer que se encontrasse.

Parece difícil tomar por modelo de Moisés o chanceler Bay. "O Egito estava caótico: cada um era em si mesmo sua própria lei. Pois não tinha havido governante durante numerosos anos: o Egito estava dividido entre os notáveis e os administradores das aldeias, e cada um degolava o seu próximo, tanto os ricos quando os pobres. Depois veio uma outra linhagem durante os anos vazios. Iarsou (Bay), um sírio, ali estava associado como notável. Como administrador, ele colocou o país inteiro sob o seu controle: ele e seus cúmplices se organizaram para roubar as pessoas. E os deuses eram submetidos ao mesmo tratamento dos homens: as oferendas não eram mais consagradas nos santuários", relata o papiro Harris.

"O nome de Iarsou, que se pode compreender em egípcio como 'aquele que se fez por si mesmo', seria um modo cheio de desprezo de designar Bay e ao mesmo tempo lhe recusar a existência póstuma concedida pelo simples fato de pronunciar o verdadeiro nome de alguém. Esse procedimento é corrente nos textos políticos. os anos 'vazios' designam o tempo em que o poder é considerado vago, por ser ocupado por uma linhagem usurpadora", observa o egiptólogo Nicolas Grimal. É difícil imaginar que um homem cujo nome se apagou dos monumentos que ele construiu e cujo patronímico se trocou tenha deixado rastros na memória dos homens, até atingir as lembranças dos autores da Bíblia. Bay sai de cena. Então, pensa-se em um faraó...

Dissemos antes que a época que se abre com a morte de Ramsés II (em 1235 antes de nossa era) foi agitada. Ela chegou a ver um usurpador, Amenmeses, tomar o poder. Como os dois altos dignitários evocados acima, ele tem o nome construído sobre Mosès e poderia ter inspirado os redatores da Bíblia, já que teria sido - de acordo com o egiptólogo Rolf Krauss - um vice-rei da Núbia que partiu daquela região distante para conquistar o poder faraônico. Ora, sabe-se que certas lendas judias extrabíblicas conduzem Moisés à Núbia. Além disso, a própria Bíblia dá a Moisés uma mulher etíope (na Antiguidade, chamava-se a Etiópia de Núbia).

Amenmeses tomou o poder ao fim de uma guerra civil. Depois de ser derrubado do trono, ninguém sabe o que aconteceu com ele. Um destino que marcou a memória do Egito. Sobre as memórias hebraicas, é incerto. Diante de tudo isso, a identidade do Moisés histórico está longe de parar de intrigar os pesquisadores.

Richard Lebeau. Moisés, o egípcio. In: Revista História Viva. Grandes Temas, nº 46, p. 10-15.

NOTA: O texto "Moisés, o egípcio" não representa, necessariamente, o pensamento deste blog. Foi publicado com o objetivo de refletirmos sobre a construção do conhecimento histórico.

quarta-feira, 4 de setembro de 2013

Globalizações: da "pax" romana à internet

Há uma linha mais ou menos contínua de perseverança da globalização como futuro da história. Essa tendência é estimulada pelo progresso das técnicas e dos instrumentos de comunicação. Na Antiguidade, foram as estradas romanas; da Idade Média ao século XIX, foi a navegação marítima. Nos séculos XIX e XX, foram os barcos a vapor, o telefone, o telégrafo, o avião. Hoje em dia, é a internet.

Fernand Braudel ressaltou que a globalização capitalista modela o espaço político-geográfico. Ao redor de um centro, de uma cidade, sede de um organismo de impulsão, da Bolsa, funcionam "satélites" mais ou menos afastados. A relação centro-periferia domina esse sistema espacialmente hierarquizado. Foram os casos sucessivamente de Antuérpia, Amsterdã, Londres e Nova York. [...] Na Antiguidade, foi a Roma mediterrânea, da Idade Média ao século XIX, a Europa, hoje em dia, os Estados Unidos. Quase sempre surge uma saudável e racional resistência a essas hegemonias centrais.

Essa resistência pode degenerar e assumir formas extremas e condenáveis, sobretudo no caso da globalização atual, em que certos extremistas podem colocar-se como vítimas e responder com a arma do terrorismo. [...]

[...] No fenômeno da globalização há uma ideia de resultado, de produzir qualquer coisa; mas, se há um progresso, há simultaneamente males que estão ligados às globalizações históricas e colocam em pauta os perigos da globalização atual. O que Roma ofereceu às regiões que ela dominou por séculos? Ela trouxe a paz. A pax romana é um elemento ligado à dominação romana. Por conseguinte, o espaço da globalização pode e deve ser considerado um espaço pacífico. Evidentemente, há que se perguntar o que significa essa pacificação, como ela foi obtida e o que representa a dominação mesmo pacífica que ela ofereceu. Por outro lado, a globalização romana promoveu um sentimento entre os habitantes ou, ao menos, entre a camada superior dos habitantes desse espaço mundial, de uma cidadania universal, ­ cidadãos do mundo. O exemplo mais conhecido é o de Paulo de Tarso, São Paulo, esse judeu em via de se tornar cristão que afirmava com toda a força, como proteção e orgulho, "civis romanus sum", "sou cidadão romano". Em 212, o imperador Caracala proclamou um edito atribuindo a cidadania romana a todos os sujeitos livres do império, não importando a origem étnica ou cultural. Ademais, a globalização romana resultou na formação de um espaço jurídico em que existiam, portanto, noções e práticas de direito que eram ligadas a essa pacificação e que a acompanhavam. Daí provém ainda hoje a noção de Estado de direito. [...]

Em compensação, o que se deve apontar como débito dessa globalização? Pode-se resumir afirmando que, ao termo de um longo período de vários séculos, a globalização romana se mostrou incapaz de integrar ou assimilar novos cidadãos, aqueles que ela denominou de "bárbaros" e que, não podendo ser integrados no espaço e no sistema romano, sublevaram-se contra esse espaço. A globalização provoca, em maior ou menor tempo, a revolta daqueles aos quais ela se tornou não um benefício, mas uma exploração e mesmo uma exclusão.

Quanto à colonização ligada à expansão da Europa e que acabará sob as formas do capitalismo, ela começa nos séculos XV e XVI e atinge sobretudo a África e a América. [...]

Um problema muito importante no que toca à globalização diz respeito à saúde, ao estado biológico das populações. Aqui também a balança não encontra um equilíbrio. Na América, o resultado foi globalmente catastrófico. Os colonizadores trouxeram involuntariamente, salvo talvez indiretamente pela difusão do álcool, suas doenças, micróbios, bacilos, que perturbaram profundamente o equilíbrio biológico dos povos globalizados. Mas também há que se observar que essa colonização promoveu um progresso na higiene e na medicina [...]. No entanto, não estou cedendo ao mito dos colonizadores franceses [...] ao dizer que a globalização deve proporcionar, e freqüentemente proporciona, a difusão da escola, do saber, do uso da escrita e da leitura. É certo que no outro prato da balança dois grandes males se apresentam: o primeiro é o que eu chamo de violação das culturas anteriores dos povos por meio de uma verdadeira destruição dessas culturas, e aqui entra em cena um componente da globalização que é a religião. O terreno não é apenas aquele da civilização, mas também aquele da religião. É um problema enorme em que a posição de cada um e sua sensibilidade podem levar a posições particulares, mas prefiro falar – não sou o primeiro a fazê-lo, mas não estou certo de que o faço de maneira aprofundada – do que se pode denominar, com risco de chocar certo número de meus leitores, de perigos do monoteísmo. A globalização adquiriu um caráter monoteísta. A história comprova que não raro o monoteísmo desliza para a intolerância e mesmo para a perseguição. O Deus único não se contenta apenas em caçar os deuses anteriores, ele também destrói toda a civilização que está relacionada a eles e impõe à sociedade globalizada um modelo de sociedade dominado por um poder absoluto. Em seu mais alto nível, a globalização acarreta o maior dos males que pode sofrer uma sociedade: a recusa da tolerância. Por outro lado, e aqui se trata de ordem social, para retomar um termo de Braudel, percebe-se que, depois que o aspecto econômico se torna primordial, a globalização desenvolve, cria ou até mesmo exacerba as oposições entre pobres e ricos ou dominadores. A pauperização é um mal até hoje praticamente inevitável das globalizações. Para voltar ao papel das culturas, quero sublinhar de uma vez que as globalizações não violaram apenas as culturas, mas a história. Tal questão está no cerne de minha reflexão. A expressão inventada, geralmente pelos colonizadores, "povos sem história", e retomada pelos etnólogos imersos nas próprias culturas, dizimou populações que de fato tinham uma história, geralmente uma história oral, uma história particular e que foi sem dúvida destruída. A destruição da memória, da história, do passado é algo terrível para uma sociedade. A globalização deve assumir as histórias particulares anteriores, não as eliminar.



Charge de Angeli

Minha conclusão é simples e talvez banal: deve-se supervisionar, controlar e combater os perigos da globalização e fazer frutificar as potenciais contribuições positivas. Os principais perigos são, a meu ver, a dominação do econômico, o desenvolvimento da desigualdade e da injustiça social e a uniformização, a qual nunca é aceitável. Que existam compromissos sociais e políticos que façam o conjunto funcionar é admissível, mas a uniformização não é um ideal a ser proposto para a humanidade. Deve-se, portanto, desenvolver as instituições, os movimentos, os ideais que possam fazer triunfar com a globalização a partilha, a paz no respeito das diversidades. Uma globalização assassina das diversidades é nociva e catastrófica.

LE GOFF, Jacques. Vamos construir a globalização que nos convém. In: Revista Veja, ano 34, n. 51, dez. 2001. p. 158-160.

segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

A viagem das religiões e dos saberes

Cultura maia. Calcário com traços de tinta. Ca. 785 A.D.

Durante milhares de anos, a escrita foi apenas conhecida por um pequeno número de homens nas cidades-estados e nos impérios do Médio Oriente, no Egipto, na Índia e na China.

Depois, o facto de aprenderem a escrever mudou a maneira de pensar e de compreender o mundo. Os que tinham ideias novas puderam dá-las a conhecer, não apenas aos que lhes estavam próximos, mas, graças aos rolos ou aos livros manuscritos, às pessoas que poderiam estar mais afastadas. Sobretudo, graças à escrita, os seus conhecimentos e maneiras de ver puderam ser transmitidos àqueles que viveram depois deles e passaram de uma geração a outra.

Então, apareceram novas religiões e algumas espalharam-se por todo o mundo. Do mesmo modo, nasceram novos saberes, como a ciência e a filosofia. A poesia, até aí apenas oral e cantada, começou a ser escrita, tal como peças de teatro, narrativas e histórias. Aparecera finalmente o que hoje chamamos de literatura.

As religiões das tribos e dos grupos de homens sem escrita tinham pontos em comum. Para essas religiões muito antigas, o mundo era animado por forças misteriosas. O mundo de baixo, aquele em que se vivia, era penetrado pela acção de um outro mundo, o dos deuses, dos génios e dos demónios. Esse outro mundo era também o mundo dos antepassados, o dos "totens" e do clã. A morte e a vida misturavam-se e penetravam-se uma à outra. As potências divinas estavam presentes na natureza, nas nascentes, nas montanhas e nas árvores através das suas raízes que penetravam na terra...

[Feiticeiros, adivinhos e videntes...] O grupo reconhecia que certos homens tinham o poder de comunicar com essas forças divinas. Tratava-se dos adivinhos, dos videntes e dos feiticeiros. Entre os celtas, os druidas eram adivinhos e videntes. Entre os mongóis, ou em certas tribos de índios da América, o xamã era não só um adivinho mas também um curandeiro, um médico. Os gregos antigos tinham os seus magos que eram igualmente poetas e adivinhos. Os videntes falavam dos tempos antigos, das origens do grupo, e transmitiam os seus segredos àqueles que achavam dignos de os substituir.

Em muitas religiões antigas, havia o hábito de se fazer "sacrifícios" aos deuses. Durante certas festividades, matavam-se e queimavam-se animais. O fogo, o fumo e os odores estabeleciam uma relação mágica entre o mundo dos deuses, o dos vivos e dos mortos. [...]

[Os textos de Homero popularizaram os antigos deuses gregos] A escrita desempenhou um papel importante no que respeita às crenças dos povos e modificou religiões antigas, como a religião dos gregos.

Os primeiros helenos que chegaram à Grécia veneravam os deuses particulares das suas tribos. Os poetas, os aedos, acompanhados por um instrumento de música, a lira, cantavam e recitavam poemas e hinos sobre os deuses. Quando a escrita alfabética foi introduzida na Grécia, esses poemas foram recolhidos e escritos, formando um conjunto de "cantos": A Ilíada e A Odisseia. Os gregos chamaram então Homero ao homem que os tinha escrito sem nunca saberem bem quem era realmente esse poeta. Talvez que vários aedos tivessem composto esses poemas.

Esses poemas relatam a guerra dos aqueus (os helenos da Grécia) contra Tróia, cidade grega da Ásia Menor, e o regresso cheio de aventuras de um grego, Ulisses, à sua ilha de Ítaca. Os doze deuses dos gregos apareciam aí como seres com figuras e temperamentos humanos. [...]

Outros poetas descreveram o modo como a terra, o céu e o mar foram criados.

A Ilíada e A Odisseia foram os manuais básicos de todos os alunos gregos que então andavam na escola. Depois da conquista romana, os jovens romanos das grandes famílias tinham uma educação "grega". [...]

[Na Índia, os textos sagrados modificaram a antiga religião dos arianos] Tal como os invasores helenos na Grécia, os invasores arianos tinham trazido com eles os seus cultos e os seus deuses. Divinizavam a floresta, as árvores, o sol, o fogo...

A partir dessas crenças, foram redigidos textos na antiga língua dos arianos, o sânscrito. Estes foram coligidos sob o título de Vedas. Com base nesses livros sagrados, uma mesma religião, que os europeus chamaram de hinduísmo, espalhou-se lentamente ao longo dos séculos por toda a Índia. [...]

Os hinduístas têm toda uma série de deuses que variam segundo as regiões, mas têm como base uma mesma crença. O mundo no seu conjunto é, para eles, animado por uma força invisível, o brahman, e cada ser humano faz parte dessa força. Depois da morte, a alma viaja indefinidamente para outros seres vivos, homens ou animais, até se dissolver no brahman.

[Um só Deus, três religiões] Para o judaísmo, para o cristianismo e para o islamismo, a palavra de Deus é transmitida através de um livro santo. Sem a Bíblia não teria havido religião judaica nem cristã nem muçulmana. E o islamismo, a religião dos muçulmanos, é inseparável de um outro livro, o Corão, que reconhece as grandes personagens da Bíblia, Abraão, Moisés e Jesus.

Quer para uns quer para outros, Deus falou a homens privilegiados e as suas palavras foram em seguida transmitidas através de um Livro. Essas três religiões são, deste modo, inseparáveis da escrita que nos conta o modo como Deus, um deus único, invisível e eterno, se fez conhecer ou se "revelou" aos homens.

A ideia de que Deus é invisível, mas que está presente na história do homem através dos seus "eleitos", ou seja, que transmite a sua "palavra" a pessoas escolhidas por elem estabelece uma diferença em relação a outras religiões.

Para os judeus, tal como para os cristãos e para os muçulmanos, o primeiro homem escolhido por Deus para essa Revelação foi Abraão. Esse homem pertencia a um clã nómada, o dos hebreus, que circulava pela Mesopotâmia cerca de 1750 a.C. Mas o desenvolvimento dessa Revelação não é o mesmo para as três religiões.

Os judeus são os descendentes de Abraão, do seu filho Isaac e do seu neto Jacob, cognonimado Israel. Formam assim o povo de Israel testemunhando a aliança de Deus com os homens.

A história desse povo é contada nos cinco primeiros livros da Bíblia, para os judeus a Torah [...]. 

Na Bíblia, os Profetas de Israel anunciavam a vinda de um Salvador, o Messias.

Na Palestina, no tempo do Império Romano, um judeu, Jesus, pôs-se a pregar e a ensinar. Declarava-se enviado de Deus para curar os doentes e salvar os pecadores, ou seja, os que tinham agido mal. Era seguido por uma multidão de mulheres e homens judeus. Mas os sacerdotes do templo de Jerusalém e os seus escribas pensavam que se tratava de um agitador perigoso. Prenderam-no e entregaram-no ao governador romano para que ele fosse condenado à morte. Foi pregado numa cruz entre dois ladrões. Depois da morte de Jesus, alguns dos seus discípulos afirmaram que ele tinha ressuscitado de entre os mortos e que era o Messias, em grego, o "Cristo", anunciado pelos Profetas. Eram os primeiros cristãos.

Os Apóstolos, todos judeus e discípulos de Jesus anunciaram a Boa Nova, o Evangelho da Salvação dos homens. Os novos crentes agrupavam-se para formarem uma comunidade, uma Igreja [...].

[...] Os Apóstolos redigiram em grego alguns testemunhos sobre a vida de Jesus, os Evangelhos. e Cartas ou Epístolas. A Igreja cristã chamou a esses textos de "Novo Testamento" [...].

Durante algum tempo, os imperadores romanos não fizeram diferença entre cristãos e judeus e começaram a persegui-los.

Depois da destruição do templo de Jerusalém pelo imperador Tito, em 70 d.C., os judeus revoltaram-se. Pouco a pouco, o destino dos judeus e dos cristãos separou-se. Os judeus dispersaram-se fora da Palestina. [...]

O cristianismo espalhou-se, primeiramente entre os pobres e os escravos. Pouco a pouco trouxe a si as grandes famílias do Império Romano. A liberdade de ser cristão acabou por ser reconhecida em 313 pelo imperador Constantino. Em seguida, o cristianismo foi proclamado religião oficial do império.

Os não-cristãos tornaram-se suspeitos e certos bispos começaram a acusar os judeus de terem condenado Jesus à morte.

Para os muçulmanos, o Corão é o último dos livros revelados e o único perfeito.

O Islão, que em árabe quer dizer "submissão a Deus por amor a Ele", é a religião ensinada por Moamede (Maomé). Este apresentou-se como o último dos profetas depois de Abraão, Moisés, os profetas judeus e Jesus. Com ele, dizia-se, a Revelação, que tinha começado com Abraão, estava terminada.

Moamede tinha nascido em 570 d.C. num grande centro de caravanas da Arábia, em Meca. Os nómadas beduínos misturavam-se com os cidadãos. Encontravam-se aí também judeus e cristãos. Moamede ouviu o Anjo Gabriel que lhe comunicava mensagens de Deus. Mas, perseguido pelas pessoas da sua cidade, foi com alguns dos seus companheiros para Medina.

Era em 622, e essa data, Hijra, a Hégira, a "migração", marca o começo da era muçulmana.

Em Medina os clãs e as tribos estavam em luta. Moamede impôs a sua autoridade. Até à sua morte em 632, continuou a transmitir as mensagens de Alá, o Deus único, e ditou algumas regras para restabelecer a ordem em Medina e em toda a Arábia conquistada sob a sua direcção e convertida ao islamismo.

[...] da Espanha até à Índia, os califas conquistaram um imenso império em menos de um século [...].

[...] os muçulmanos ficaram presos à ideia de uma unidade que repousava sobre os cinco "pilares" do Islão: a crença em Deus e no seu profeta, a oração quotidiana, o jejum anual do ramadão, a esmola aos pobres, e se possível, ao menos uma vez na vida, a peregrinação a Meca.

[Como foram escritos a Bíblia e o Corão] Na Bíblia encontramos os traços da poesia das antigas tribos nómadas de antes e depois de Abraão. O Dilúvio já tinha sido contado nas lendas da Mesopotâmia, o país de onde vinham os hebreus. Os textos da Torah foram redigidos de um modo muito complicado quando as tribos de Israel se fixaram em Canaã (a Palestina). Houve vários redactores, e o trabalho durou vários séculos. Moisés não foi quem escreveu os "Dez Mandamentos".

Jesus, cuja língua era o aramaico [...] lia em hebraico. Mas também nunca escreveu nada, salvo com o seu dedo na areia, uma única vez. O Novo Testamento foi redigido pelos Apóstolos depois da morte de Jesus.

Maomé contava as revelações do Anjo Gabriel acerca de Deus, Alá, aos seus discípulos. Estes anotavam esta informação em folhas de palma, em pedaços de cerâmica ou de osso. O Corão, redigido em árabe e dividido em capítulos ou "suratas", é o conjunto dessas "recitações". O Livro foi redigido após a morte do Profeta.

Deste modo, nunca saberemos, verdadeiramente, o que disseram Moisés, Jesus ou Maomé pois não possuímos nenhum texto escrito directamente por eles. Mas os Livros que comunicam as suas mensagens transformaram a história dos homens afirmando que Deus falava através deles. Milhões de homens e mulheres acreditaram e ainda hoje acreditam.

[Uma ideia nova: compreender o mundo sem os deuses] O céu, o sol, as estrelas, a mudança dos dias e das noites há muito eram um mistério para os homens. Eles explicavam tudo isso através da religião. A primeira ciência, a Astronomia, nasceu da observação dos astros. Onde as pessoas conheciam a escrita, estas observações podiam ser anotadas e transmitidas a outras pessoas. Nas cidades-estados do Médio Oriente, tal como na América central, encontrávamos personagens junto dos reis que eram ao mesmo tempo sacerdotes e astrónomos. Talvez descendessem de antigos feiticeiros ou xamãs. Para eles a religião e o conhecimento do mundo não se podiam conceber como coisas separadas.

Na Grécia, na China, na Índia, houve homens que tentaram reflectir sobre o mundo e sobre eles mesmos sem o auxílio da religião. Foram, por isso mesmo, os inventores de conhecimentos novos, aquilo a que chamamos a ciência e a filosofia.

É evidente que esses pensadores chineses, gregos e indianos não se conheciam. Mas, e é estranho, alguns dos seus achados, em tudo inseparáveis da escrita, ocorreram em momentos muito próximos da história do homem que, no entanto, era já tão longa.

Hoje em dia, algumas pessoas são "cientistas" e outras "filósofos". Mas, em tempos, os pensadores eram ao mesmo tempo filósofos, físicos e matemáticos. Ou seja, eles reflectiam ao mesmo tempo sobre o mundo, sobre a natureza [...] e sobre a maneira como o homem se deverá comportar na vida para ser um bom conhecedor [...].

Entre 600 e 300 a.C., grandes pensadores, letrados e "sábios" viveram em todos os continentes onde a escrita era já antiga. Deste modo, os seus pensamentos puderam ser transmitidos até aos nossos dias.

* Os primeiros físicos e os primeiros filósofos gregos da Ásia Menor reflectiram sobre o movimento da vida e sobre a origem do mundo;
* O matemático greco-italiano Pitágoras afirmou que os números e a aritmética estavam na base de todas as coisas;
* Sidarta Gautama, o Buda, ensinou na Índia uma filosofia da "sabedoria" sem deuses;
* Os Olmecas no México tinham elaborado um calendário solar;
* Na China, o mestre Kong, mais tarde chamado Confúcio, trouxe-nos regras práticas sobre a vida e sobre a moral [...];
* Na Grécia, Sócrates, um "sábio", e os filósofos atenienses Platão e Aristóteles foram pensadores que influenciaram bastante os países europeus, dado que ainda falamos deles e ainda os lemos hoje em dia;
* Na China, os astrónomos puderam descobrir que o ano tinha 365 dias e um quarto, e filósofos taoístas propuseram a busca de uma verdade em si mesma. Segundo estes, é necessário procurar o equilíbrio e a calma em relação com o Tao, o movimento secreto da natureza.

CITRON, Suzanne. A história dos homens. Lisboa: Terramar, 1999. p. 103, 105-114, 117-119.

sábado, 28 de abril de 2012

Os hebreus

Yahweh, em grafite hebraico do século VIII a.C., com a inscrição "Eu te abençoo por Yahweh de Samaria e sua Asherah". Península do Sinai

Os hebreus desenvolveram sua civilização no primeiro milênio a.C. Ela não tem, portanto, a antiguidade da civilização egípcia ou mesopotâmica, embora tenha convivido de maneira estreita com essas duas civilizações (na proto-história dos hebreus, Moisés tira o seu povo do Egito no século XIII e Nabucodonosor da Babilônia destrói o templo de Jerusalém em 586). [...]

A religião judaica moderna, originária daquela praticada pelos hebreus antigos, tem um calendário que já chega perto dos 6 mil anos. 

[Os hebreus] se constituem em ponte entre as civilizações do Oriente Próximo e a nossa, a civilização ocidental. Por meio deles conhecemos mitos e ciência, práticas sociais e valores de povos de toda a região. Estudos que utilizam a Bíblia não de forma dogmática, mas como fonte de informações históricas, obtiveram referências que descobertas arqueológicas depois confirmaram.

[...]

O estudo dos hebreus é importante também, e principalmente, por causa do monoteísmo ético que surge e se desenvolve entre eles, constituindo-se em ponto de partida do judaísmo, do cristianismo e do islamismo.

[...]

* Saindo de Ur, na Caldéia. As origens dos hebreus localizam-se na Mesopotâmia. Isso é contado na Bíblia e comprovado por diversas evidências. O hebraico é uma língua semita, pertencente ao mesmo grupo do aramaico e de outras línguas faladas na Mesopotâmia [...].

Notável mesmo é verificar a utilização de mitos mesopotâmicos entre os hebreus. [...] 

O dilúvio sumério fala de Ziusudra construindo um enorme barco, da inundação varrendo as cidades, de tempestades de vento, , do barco jogado em todas as direções, da luz finalmente aparecendo no céu, do sacrifício que faz Ziusudra e da reconstrução do mundo. [...]

E o que dizem os hebreus?

Falam de uma arca construída por Noé, de quarenta dias e noites de chuva, da cheia superando os montes mais altos, da arca resistindo a tudo, até que "cerraram-se as janelas dos céus e a chuva dos céus se deteve". Noé sacrifica um animal a deus e a reconstrução se inicia.

Coincidência? Não.

O mito é mesopotâmico e foi apropriado pelos hebreus, para os quais o importante não era a história, mas a moral da história. Nem teria muito sentido um mito sobre dilúvio desenvolver-se numa região onde as chuvas são limitadas [...], os rios insignificantes [...] e não há degelo de montanhas nevadas.

Já na Mesopotâmia os rios pregavam constantes sustos, ora mansos, ora violentos, em vista do degelo em sua origem, nas montanhas da Armênia. Até os deuses nos dão conta da instabilidade dos rios e do temor que os habitantes tinham de sua variação.

Por tudo isso é de se acreditar na origem mesopotâmica dos hebreus.

* O início do povo hebreu. É preciso ter presente que a Bíblia tem um compromisso básico com a unidade do povo hebreu e não com a narrativa fiel de acontecimentos. Hoje em dia até autores religiosos, cristãos e judeus, duvidam, senão da existência física dos três patriarcas (Abrahão, Isaac e Jacó), ao menos da genealogia que estabelece a sucessão entre eles. (Abrahão pai de Isaac pai de Jacó). O fato de questionarmos a historicidade de alguma personagem não significa que não possam tirar da história contada informações que nos interessam. O narrador acaba referindo-se a costumes e padrões de comportamento que caracterizam uma época e dizem respeito também a mitos que derivam de uma região. Assim, não há contradição entre questionar a historicidade de personagens bíblicos, colocar em dúvida alguns dos fatos milagrosos ali narrados e utilizar o material como fonte para o trabalho do historiador.

A questão da historicidade dos patriarcas tem a ver com a própria questão de quem teria sido o primeiro hebreu, isto é, de quando poderíamos datar a existência dos hebreus como povo. [...]

A Bíblia fala de José, filho de Jacó, indo para o Egito, aprisionado e depois funcionando como ponta-de-lança para a vinda de toda a família. Isso bateria bem com a presença de clãs semíticos durante um certo tempo no delta do Nilo, documentada em material egípcio. [...]

Ramsés II reinou de 1290 a 1224 e teria sido ele o faraó da história de Moisés. De qualquer forma, há uma referência aos apirus ou abiru trabalhando para Ramsés II. Abiru e ibri ou ivri (hebreu, em hebraico) devem ser o mesmo povo. Como saíram do Egito, por que e quantos não sabemos, mas a ideia de entrada de um grupo de tribos na Cananéia lá por 1230/1220 é apoiada em documentos. Pouco depois, por volta de 1190 estabeleciam-se os filisteus, derrotados por Ramsés III, e ocupavam as cidades litorâneas como Ascalon, Asdob e Gaza. Convém lembrar que da palavra filisteu (plishtim, em hebraico) deriva o termo Palestina, uma das várias denominações da região.

As tribos que se instalaram em Canaã seriam as mesmas que de lá haviam saído tempos antes, ao ir para o Egito? É de acreditar que não. Quando para lá se transferiram, premidas pela fome, não foram sozinhas, mas no bojo de um largo movimento de povos famintos. Uma parte dos descendentes de Jacó teria talvez ficado lá, outra teria-se miscigenado. O nome de Moisés, tipicamente egípcio, mostra bem certa preocupação com a assimilação que as tribos instaladas no Egito tinham. Também o grupo levado por Moisés a Canaã não era homogêneo, como reconhece a própria Bíblia. Bastava o líder voltar as costas, que a turma adorava outros deuses. Tanto assim que o grupo, não sendo ainda um povo ou uma tribo, foi denominado "geração do deserto", tendo de caminhar durante anos até adquirir alguma solidariedade grupal.

Assim, embora reconhecendo as origens dos hebreus nos descendentes de Jacó (José e seus irmãos, na narrativa bíblica), só podemos aceitar o início do povo hebreu a partir do momento em que se instalam na região de Jericó algumas tribos que lutam juntas, sob a chefia de Josué, para conquistar um espaço onde possam viver.

Com isso, inaugura-se o ciclo de mais ou menos duzentos anos que vai até o início da monarquia, com Saul, em 1030.

* Juízes e reis. De 1200 a 1030 os hebreus desenvolvem um sistema tribal com a ausência de propriedade particular de bens de produção. Governantes existiram só de passagem e por ocasião de guerras, quase sempre contra os filisteus. Sansão terá sido o mais conhecido dos juízes, denominação dada a esses líderes que não diferiam de outros chefes militares instituídos por federações tribais. [...]

[...] os anciãos de Israel vêm a Samuel, juiz na ocasião, e solicitam um rei "como o têm todos os povos". Samuel conversa com o seu deus, que discorda da ideia, alegando uma série de mazelas que iriam ocorrer com a instituição da monarquia: o rei se apropriaria dos jovens do povo, transformando-os em soldados e cocheiros, em "lavradores dos seus campos e segadores de suas messes"; exigiria dízimos, expropriaria servos e animais e os colocaria a seu serviço. E, finalmente, colocaria o próprio povo a seu serviço, em servidão.

Trata-se de uma preciosa descrição da transição de uma sociedade tribal sem poder central e métodos coercitivos de trabalho para uma monarquia centralizada, cuja organização exige mão-de-obra disciplinada a serviço da organização que precisa alimentar muitas bocas destinadas a tarefas não produtivas.

O cronista que escreveu esse trecho da Bíblia (I Livro de Samuel) teria sido um profeta se não tivesse escrito isso tudo alguns séculos depois de os acontecimentos terem ocorrido. É como se alguém, sabedor de um fato, relatasse-o e colocasse uma data bem anterior para dar a impressão de ter antevisto a história. Isso é muito utilizado como recurso narrativo na Bíblia, que, ao contrário do que muita gente pensa, não foi escrita na ordem cronológica que aparece agora. No caso, nosso cronista foi um profeta do passado.

Com Saul, instaura-se a monarquia entre os hebreus. Mas já nessa ocasião havia uma divisão entre as tribos do norte (Israel) e as do sul (Judá) e Saul fracassa na tentativa de atrair Judá ao seu reino. Morre nessa tentativa fracassada.

Davi tem mais sucesso. Começa organizando o pequeno reino de Judá, constituído da tribo de Judá e de cineus, iemareus e outros povos não-hebreus, sediados na cidade de Hebron. Bom soldado e líder carismático, Davi estende seu poderio derrotando os arquiinimigos filisteus e conquistando a cidade de Jerusalém, a qual transforma em capital do reino.

Manda construir um palácio e verifica que falta algo muito importante ao seu reino e a Jerusalém: o prestígio religioso. Descobre, ou manda fazer, em algum local o que afirma ser a arca da aliança e a traz, com muita pompa. Com isso, legitima o seu poder "pela graça de deus", fortalecendo-o mais e mais.

A organização do Estado torna-se mais complexa e cara; os mercenários, que constituíam parte importante do exército de Davi, tinham de ser pagos, assim como tinha de haver recursos para as construções que edificava com bastante luxo. A solução era manter o expansionismo, conquistar e saquear, o que passou a ser feito com considerável sucesso.

Mesmo no seu momento máximo, o reino de Davi era insignificante se comparado aos grandes impérios egípcios, babilônicos ou hititas. Mas era o máximo que se edificara na região em séculos. Aos olhos dos hebreus, então pouco mais que beduínos, aquilo devia ser considerado uma coisa de outro mundo e Davi é o símbolo do poder político dos hebreus, na Antiguidade e, por extensão, no moderno Estado de Israel. O historiador Adolphe Lods lembra, a propósito, que a primeira referência de caráter messiânico entre os hebreus foi a esperança da volta à idade de ouro dos tempos do rei Davi.

* Salomão e o templo. Salomão foi um soldado inferior a seu pai, Davi, mas compensou essa deficiência com uma grande habilidade política. Logo que subiu ao poder, perdeu algumas terras. Compensou-as com acordos e casamentos em que recebia como dote cidades inteiras. Foi amigo de faraós e reis fenícios, possuiu um enorme harém, construiu palácios e fortalezas.

"Porém, para sustentar a política de grandes construções e o luxo da corte, Salomão instituiu impostos opressivos e criou um corpo de funcionários encarregados da fiscalização e cobrança dos tributos. Além disso, os camponeses eram recrutados à força para trabalhar nas obras públicas. Tais medidas geraram descontentamentos e acarretaram revoltas sociais." BRAICK, Patrícia Ramos; MOTA, Myriam Becho, História: das cavernas ao terceiro milênio. Das origens da humanidade à Reforma Religiosa na Europa. São Paulo: Moderna, 2010. p. 83.

Descobriu com os fenícios que o comércio podia dar mais lucro que a pilhagem, mas não deve ter tido um sucesso muito grande nisso, já que foi obrigado a cobrar taxas de seus súditos, o que lhe proporcionou muita impopularidade. Figura das mais mitificadas, a ele são atribuídas tanto textos filosóficos como eróticos (Cântico dos Cânticos) [...] Ao mesmo tempo que julgava com extrema sabedoria, era amante voraz e sofisticado - consta que tinha setecentas esposas princesas e trezentas concubinas (I Reis, 11, 3). Além de opções noturnas, elas representavam uma extensa rede de alianças políticas.

A mitificação de Salomão decorre do fato de ter sido ele o construtor do famoso templo de Jerusalém, ponto de referência espiritual e material do povo, tanto na época em que foi construído como depois. O templo passou a funcionar como uma espécie de símbolo nacional; da mesma forma como Jerusalém, metaforicamente, tinha o significado de Israel toda, o templo significava Jerusalém. Até hoje, judeus religiosos pedem a Deus a honra de estarem "o ano que vem em Jerusalém" para poderem rezar junto ao muro ocidental, o único que restou do templo.


Parte do muro ocidental

Com o templo, Salomão dá um novo local a Iavé, o deus dos hebreus, a quem tinham sido atribuídas diversas residências antes.

Inicialmente, Iavé morava nos desertos do sul (Juízes 5, 4). Depois, aos poucos, Iavé mudou para a terra de Canaã, passando a possuí-la toda, mas não saindo dela. Um deus "nacional" que não fazia prosélitos, nem gostava de ser adorado fora de seu país, pois terra estranha não é local adequado, por ser impuro. A ligação material com a terra era tão forte que quando Naaman, general arameu, foi curado por Eliseu e quis dar graças a Iavé, transportou para o seu país, no dorso de duas mulas, um pouco da terra de Canaã, sobre a qual construiu um altar (II Reis, 5, 17); para todos os efeitos, ele se erguia sobre território de Iavé...

Pode-se inferir, pela leitura de alguns textos, que Iavé habitava os santuários e depois, de forma especial, o santuário do templo. E em outros fala-se no céu como habitat de Iavé. Salomão, ao levantar o templo, buscava localizar fisicamente Iavé, encarcerá-lo em seu palácio e submetê-lo aos interesses da monarquia.

As regras da religião tinham sido bastante livres até então; cada qual dialogava com Iavé da sua maneira e sem intermediários. A instauração de sacerdotes para fazer os sacrifícios segundo determinadas normas inacessíveis aos simples mortais visava estabelecer uma forte relação de dependência entre povo e poder político, por meio da ritualização da religião.

* O monoteísmo ético. Apesar dos esforços de Salomão, seu reino não sobreviveria após sua morte. O novo rei, Roboão, só consegue governar Judá, já que as tribos de Israel se desmembram. Pressionados pelos pequenos Estados em volta e pelos grandes impérios próximos, nunca mais haveria um Estado forte e independente na região. Os reinos perderam poder, mas seus governantes não perderam a arrogância e a vontade de conservar a suntuosidade a que estavam acostumados. Isso lhes custou desobediência civil e questionamento de sua autoridade.

O reino de Israel sobrevive até o ano 720, quando é destruído pelos assírios, os quais removem grande parte da população para outras partes do seu império. O reino de Judá vais se mantendo, aos trancos e barrancos, até o ano de 586, quando Nabucodonosor destrói Jerusalém e o templo, símbolo do deus nacional e da ligação entre a divindade e o poder político.

As tribos de Israel acabam assimilando os hábitos e a cultura dos povos vizinhos e perdem totalmente sua identidade com Iavé. [...] Os israelitas ou judeus, descendentes dos hebreus, tomam a herança cultural e, por meio de uma série de transformações, carregam-na até agora.

[...]

Entre os hebreus, Iavé evoluiu de um deus tribal para um deus universal, de um deus de guerra, senhor de exércitos, para um juiz sereno, consciência social e individual, exigente de justiça social.

Os profetas sociais, Amós e Isaías, principalmente, foram os grandes responsáveis por esse passo.

Vivendo no século VIII, os profetas sentiam o peso da monarquia sobre o povo, o luxo dos poderosos convivendo com a miséria dos camponeses e criadores, palácios ao lado de palhoças. Utilizando-se de antiga tradição do templo dos cananitas, a tradição de prever o futuro em nome de uma entidade superior inspiradora, os profetas lançam suas negras profecias sobre os que tratam tão mal o pobre, pensando apenas em si mesmos.

É possível que no seu discurso estivesse presente o grito de liberdade de um povo de criadores, livre por excelência, preso agora a obrigações de pagar impostos a um governo que pouco lhes dava em troca.  Deviam os profetas representar o inconsciente coletivo do inconformado grupo com a perda de campos de pastagens, insatisfeito com a centralização monárquica, desconfiado daquele templo que exigia tributos.

O povo tinha nostalgia do período tribal: o olhar para o passado sem injustiças sociais, sem opressão, sem impostos para sustentar a nobreza e o exército inúteis acabou se constituindo em mensagem para o futuro.

Vejam o que diziam os profetas:


De que me serve a multidão de vossas vítimas? Diz o senhor
Já estou farto de holocaustos de cordeiros
e da gordura de novilhos cevados [...]
Deixai de pisar nos meus átrios.
De nada serve trazer oferendas [...]
Vossas mãos estão cheias de sangue, lavai-vos, purificai-vos.
Tirai vossas más ações de diante de meus olhos.
Cessai de fazer o mal, aprendei a fazer o bem.
Respeitai o direito, protegei o oprimido:


Fazei justiça ao órfão, defendei a viúva.


(Isaías, 1, 2-7)

O texto é claro no seu anti-ritualismo, na sua crítica aos sacrifícios do templo - prática incorporada à religião -, na sua crítica àqueles que, por meio de uma religião formal, buscavam a divindade. Isaías diz que Iavé não quer oferendas nem rezas, quer que as pessoas ajam de forma correta, isto é, pratiquem a justiça social.

O que fica dos hebreus não é, portanto, o som da lira de Davi ou o discutível e limitado poder político; não fica também o deus tribal nem o Senhor dos Exércitos. Fica a mensagem por uma sociedade mais justa, utopia sem a qual é difícil imaginar o sentido das próprias sociedades humanas.

PINSKY, Jaime. As primeiras civilizações. São Paulo: Contexto, 2010. p. 105-118.

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

A religião contra o Estado



Uma bancada teocrática instalou-se no Congresso Nacional, pretendendo impor os mandamentos de seu Deus a toda a população. O fundamentalismo religioso, com seus códigos de conduta reacionários, é hoje o maior inimigo político do Estado Democrático de Direito.

Por Túlio Vianna*

A religião é a política realizada em nome de Deus. O líder religioso, assim como qualquer líder político, pretende governar o maior número de pessoas possível. Um governo que se faz não por leis, mas por dogmas.

O monoteísmo é autoritário na sua essência. Nunca houve plebiscitos e nem mesmo reuniões com representantes eleitos pelo povo para criar os dogmas de uma religião. Eles são ditados de cima para baixo, por alguém que fala em nome do próprio Deus e, portanto, é incontestável, mesmo pela vontade da maioria.

Como os líderes religiosos não dispõem, nos dias de hoje, de um braço armado para fazer valer suas leis pela força, precisam convencer seus governados a se sujeitarem às suas normas pelo proselitismo. E mais: precisam convencer também aqueles que não se sujeitam àquelas normas, ao menos a respeitá-las.

A fé é a mais autoritária das ideologias políticas já inventadas. Um instrumento político quase perfeito, que permite ditar normas unilateralmente, governar sem a necessidade de armas e, ainda por cima, blindar-se de críticas em nome da tolerância religiosa.

Como em toda ideologia, há aqueles que acreditam piamente nela e lutam para vê-la concretizada e há também aqueles que simplesmente a tomam como pretexto para satisfazer seus interesses pessoais. Creiam ou não em sua ideologia e em seus deuses, todos agem politicamente no sentido de agregar cada vez mais um número maior de seguidores e de acumular riquezas para sustentar a expansão de sua ideologia e de seu poder político.

E não há nada de errado, por si só, em tentar expandir uma religião ou uma ideologia, acumulando patrimônio e gente disposta a seguir seu código de condutas. É natural que as pessoas se unam em torno de convicções comuns e, a partir daí, surjam lideranças políticas. O problema surge quando estas lideranças reconhecidas dentro de um grupo resolvem expandir seu poder político para além do grupo, impondo suas normas de condutas não a quem resolveu por conta própria aderir a elas, mas a quem tem ideologias e deuses completamente diferentes. Neste ponto, não se trata mais de uma questão meramente política. A religião só é religião até ser imposta; depois disso, é simplesmente política e pode ser exercida tanto pela força das armas como pelos votos de uma maioria fundamentalista. E o uso do nome de Deus para mascarar o exercício desse poder político é a ferramenta política mais hipócrita que já se inventou, mas tem funcionado muito bem ao longo da história.

O exemplo mais bem-sucedido deste exercício de poder político em nome de Deus é o da Igreja Católica Apostólica Romana, que acumulou riquezas e impôs suas normas de condutas para populações espalhadas por todo o mundo em nome de seu Deus, durante vários séculos. A Inquisição e a catequização de índios não foram ações religiosas, mas políticas. E pouco importam as boas ou más intenções daqueles que as realizaram, o fato é que buscavam com elas impor normas de condutas a populações que não a aceitaram por livre e espontânea vontade.

* O neopentecostalismo e a bancada teocrática. Na atualidade, o Vaticano perdeu grande parte de seu poder político na Europa e, mesmo no Brasil, onde sempre foi muito forte, tem perdido espaço para o neopentecostalismo, que, nos últimos anos, vem acumulando grande poder político e econômico.

Se, por um lado, a ausência de uma liderança unificada dificulta o exercício do poder político por essas novas lideranças, por outro, sua ideologia espiritual favorece bastante a acumulação de riquezas pelos seus pastores. Enquanto a moral católica considera a temperança, a caridade e a humildade como virtudes, o neopentecostalismo está fundado na Teologia da Prosperidade e afirma que os verdadeiros fiéis devem desfrutar de uma excelente situação econômica. Há, é claro, um detalhe: para que Deus conceda ao fiel as benesses materiais, é preciso que este faça um pacto com Ele, oferecendo-Lhe toda sorte de oferendas materiais, dentre as quais se destaca o dízimo. É a chamada Doutrina da Reciprocidade, que viabilizou todas estas rápidas expansões de igrejas neopentecostais nos últimos anos.

Escudados na liberdade religiosa, pastores cobram impostos privados de seus fiéis - o famoso dízimo - e não precisam pagar qualquer imposto ao Estado, pois a Constituição da República garante em seu artigo 150, VI, b, a imunidade tributária a templos de qualquer culto. Verdadeiros impérios econômicos vêm sendo erguidos assim, tal como ocorreu no passado com a Igreja Católica. E, tal como ocorreu no passado também, esse dinheiro vem sendo usado para expandir o poder político dos líderes dessas Igrejas, seja por meio da aquisição de meios de comunicações (inclusive de redes de televisão), seja pelo financiamento de campanhas para cargos públicos destes líderes que cada vez mais vêm ocupando cargos, especialmente, no Parlamento brasileiro.

Como sempre, os novos líderes espirituais afirmam que todos esses investimentos materiais têm como único e exclusivo objetivo a expansão da palavra de Deus deles e de seu código moral, que, como em toda boa religião monoteísta, deve ser universalizado para o "bem de todos". Ainda que se admita, porém, que não haja interesses pessoais por trás da expansão destes impérios da fé, fato é que o seu principal objetivo declarado é a expansão de seu poder político, açambarcando a cada dia um número maior de pessoas. Mesmo que para isso precise passar por cima do Estado Democrático de Direito, que, ao contrário do monoteísmo, não impõe normas unilateralmente e pressupõe o respeito à pluralidade de opiniões.

Do ponto de vista exclusivamente político, o Estado Democrático de Direito é o maior entrave à expansão do império econômico e político das igrejas neopentecostais e de seus bispos. Não é à toa que cada vez mais eles têm buscado conquistar cadeiras do Parlamento. E a bancada teocrática tem se tornado a cada dia uma das principais forças políticas de nosso Congresso, restringindo os direitos fundamentais de quem não acreditar em seu Deus em prol da expansão política e econômica de seu império.

A teocracia é incompatível com o Estado Democrático de Direito, dado o autoritarismo inerente ao monoteísmo. Não se realizam votações para saber se é da vontade de Deus receber dízimos ou condenar os homossexuais a passarem a eternidade no inferno. São seres humanos que afirmam isso e que impõem aos outros a palavra de Deus que eles próprios escreveram. E essas são ações políticas, e como tais devem ser tratadas.

E é por isso que o Estado Democrático de Direito é, por sua própria natureza laico. Porque é impossível ser democrático e monoteísta ao mesmo tempo. Assim como é impossível ser candidato a um cargo público e bispo, pastor ou padre ao mesmo tempo. Há um evidente conflito de interesses entre aquele que pretende falar em nome de seu Deus e aquele que pretende falar em nome do povo, em meio ao qual nem todos acreditam em seu Deus.

Para minimizar essa incompatibilidade é necessário, ao menos, que se exija que bispos, padres, pastores e outros clérigos se licenciem de suas atividades sacerdotais um ano antes de se candidatarem a cargos públicos. Restrição semelhante já é aplicada pela Lei Complementar 64/90 a magistrados, diretores de sindicatos e outros cargos públicos, tendo em vista a incompatibilidade de suas funções com uma campanha eleitoral, e poderia perfeitamente ser aplicada também aos sacerdotes de qualquer crença. Projeto de lei, nesse sentido, foi apresentado pela deputada Denise Frossard (PSDB-RJ) na Câmara dos Deputados em 2004 (PLP 216/2004), mas foi arquivado em 2007, pois ainda se encontrava em tramitação no fim da 52ª legislatura, e não houve pedido de desarquivamento na legislatura seguinte.

Uma outra iniciativa necessária é limitar a transmissão de programas religiosos em rádios e televisões para no máximo uma hora diária, tal como foi proposto em 1999 (PLS 299/99) pelo senador Antero Paes de Barros (PSDB-MT). A Constituição da República é explícita em seu artigo 221, ao determinar que a programação das emissoras de rádio e televisão terá, por preferência, finalidades educativas, artísticas, culturais e informativos. É inconcebível que, no Estado laico, concessões públicas de rádio e TV sejam usadas, como são nos dias de hoje, em prol do proselitismo religioso, que não raras vezes passa boa parte do tempo solicitando doações financeiras a seus fiéis. Um autêntico merchandising da fé, patrocinado pelo Estado, que, por definição constitucional, é laico.

Lamentavelmente, porém, há pouca vontade e coragem política dos parlamentares brasileiros de desafiar o poder político e econômico do novo e do velho clero. A esquerda tem sido bastante leniente com as violações do Estado laico e as poucas iniciativas para amenizar o problema, como se viu, por mais parodoxal que seja, partiram do conservador PSDB.

O Brasil precisa urgentemente de uma bancada secular no Congresso Nacional para fazer frente à bancada teocrática (que prefere ser chamada de evangélica). Os valores democráticos da laicidade precisam ser reafirmados por parlamentares que não temam desafiar o crescente fundamentalismo religioso, que a cada dia ganha espaço na política brasileira. Não se trata de um combate a qualquer religião, mas à política realizada em nome de Deus e que pretende impor seus códigos de condutas conservadores a toda uma população.

A luta pela efetivação do Estado laico é a luta pela democracia. Por leis que sejam ditadas não de cima para baixo por uma autoridade que fala em nome de Deus, mas construídas com base no diálogo plural e com respeito aos direitos fundamentais. E isto, deus monoteísta nenhum poderá conceder, pois seus mandamentos são - por definição - mandamentos.

Monoteísmo e democracia são ideologias políticas antagônicas. É essa a grande cruzada da religião contra o Estado.

* Túlio Vianna. "A religião contra o Estado". Revista Fórum. nº 101, ano 9, agosto de 2011. p. 18-19.

domingo, 21 de agosto de 2011

Cristãos e judeus na Idade Média

Judeus ultrajam Cristo. Kremsmünster, séc. XIV

Em suas relações com heréticos, pagãos e muçulmanos, os cristãos medievais demonstraram uma atitude hostil e tacanha, que ia de encontro à mensagem evangélica de que todos os seres humanos são filhos de Deus e de que Cristo sofreu por toda a humanidade. Os muçulmanos eram considerados, nas palavras do papa Urbano II, como uma "raça vil", "infiéis" e "inimigos de Deus".

Os cristãos medievais também manifestavam ódio aos judeus - sem dúvida nenhuma um grupo estrangeiro naquela sociedade dominada pela visão de mundo cristã. Em 1096, bandos de cruzados massacraram judeus em cidades da França e Germânia. Em 1290, os judeus foram expulsos da Inglaterra; e em 1306, da França. Entre 1290 e 1293, expulsões, massacres e conversões forçadas quase ocasionaram a extinção da comunidade judaica do sul da Itália, que ali vivia há séculos. Na Germânia, tumultos selvagens levaram, de tempos em tempos, à tortura e assassinato de judeus.

Vários fatores contribuíram para fomentar o anti-semitismo durante a Idade Média. Para os cristãos desse período, a recusa dos judeus em abraçar o cristianismo era um ato perverso, principalmente porque a Igreja ensinava que a vinda de Cristo havia sido profetizada pelo Velho Testamento. Esse preconceito estava relacionado com o relato da crucificação contido nos Evangelhos. Na mente dos cristãos medievais, o crime de deicídio - o assassinato de Deus - maculara para sempre o povo judeu. As chamas do ódio eram atiçadas pela alegação absurda de que os judeus, ao derramarem o sangue de Cristo, haviam se tornado sedentos de sangue, torturando e matando cristãos, sobretudo crianças, a fim de obterem sangue para seus rituais. Essa difamação difundiu-se amplamente e foi a causa de inúmeras violências praticadas contra os judeus, embora os papas considerassem a acusação sem fundamento.

Uma outra razão da animosidade contra os judeus era o fato de que eles emprestavam dinheiro a juros. Cada vez mais excluídos do comércio internacional e da maioria das profissões, impedidos de ingressar nas guildas e, em algumas regiões, de possuir terras, os judeus encontraram nessa atividade um meio de sobrevivência - praticamente proibido aos cristãos, suscitou o ódio de camponeses, clérigos, senhores e reis que recorriam ao dinheiro dos judeus.

A política da Igreja com respeito aos judeus era de que não deveriam ser prejudicados, mas mereciam viver em humilhação - uma punição justa pelo deicídio e por sua persistente recusa em adotar o cristianismo. Assim, o IV Concílio de Latrão proibiu os judeus de ocuparem cargos públicos, exigiu que usassem um distintivo na roupa para serem identificados e ordenou-lhes que não saíssem às ruas durante as festividades cristãs. A arte, literatura e educação religiosa cristãs retratavam os judeus de maneira depreciativa, associando-os com frequência ao Demônio, que para os cristãos medievais era muito real e aterrados. Os judeus não eram considerados dignos de misericórdia e, de fato, nada do que lhes acontecesse era demasiado ruim. Profundamente gravada nas mentes e corações dos cristãos, a imagem distorcida dos judeus como criaturas desprezíveis perdurou na mentalidade europeia até o século XX.

A despeito de sua posição desfavorável, os judeus medievais conservaram sua fé, expandiram sua tradição de erudição bíblica e jurídica e produziram uma prolífica literatura. O trabalho de tradutores, médicos e filósofos judeus contribuiu significativamente para o florescimento cultural no apogeu da Idade Média.

O mais destacado erudito judeu desse período foi Moisés Ben Maimón (1135-1204), chamado pelos gregos de Maimônides. Nasceu em Córdoba, Espanha, sob domínio muçulmano. Depois que sua família deixou a Espanha, Maimônides foi para o Egito, onde se tornou médico do sultão. Durante sua vida, notabilizou-se como filósofo, teólogo, matemático e médico. Foi reconhecido como o mais proeminente sábio judeu da época, e seus escritos eram respeitados inclusive por cristãos e muçulmanos. Maimônides buscou harmonizar a fé com a razão, conciliar as Escrituras hebraicas e o Talmude (comentário bíblico judeu) com a filosofia grega. Suas obras sobre temas éticos revelam piedade, sabedoria e humanidade.

PERRY, Marvin. Civilização Ocidental: uma história concisa. São Paulo: Martins Fontes, 2002. p. 181-182.

quarta-feira, 3 de agosto de 2011

A Igreja Católica no mundo atual

"Crucificação segundo S. João",  Salvador Dali


Vivemos em uma época de crise, uma crise do Homem: uma crise em todos os setores da vida - político, econômico, social e ideológico. As profundas e rápidas mudanças, que estão ocorrendo na época atual, transformaram não apenas a maneira de viver, mas também a maneira de pensar das pessoas.

Talvez o que você mais sinta seja a chamada crise de valores. O que é certo? O que é o bem? O que é o mal? Deus existe? A quem devo obedecer - à minha vontade ou às determinações legais? Qual o papel da mulher no mundo atual? A miséria, a fome, as doenças, o analfabetismo, a AIDS são castigos de Deus aos homens? O que é democracia? O que é comunismo? O socialismo acabou? O que é subversão?


Esses tipos de indagações perturbam o espírito de muitas pessoas no Mundo Atual. No entanto, são apenas reflexos de problemas mais sérios [...].


A Igreja Católica também não poderia ficar imune à crise. Vivemos também uma crise religiosa. Não mais existe a plena aceitação de uma vida extraterrena onde persistam desigualdades e injustiças - os progressos científicos e tecnológicos possibilitaram a melhoria dos padrões de vida de muitos e, por outro lado, evidenciaram o contraste entre povos ricos e povos pobres... Seria isso a justiça divina?


Não... isso é "justiça" do homem...


Foi a partir do pontificado de João XXIII, através das encíclicas Mater et Magistra e Pacem in Terris, que a Igreja começou a tomar posições bastante significativas diante dos problemas atuais.


A partir daí, a Igreja assumiu uma posição clara e definida: o Concílio Vaticano II, a encíclica Populorum Progressio, de Paulo VI, e as reuniões do Conselho Episcopal Latino-Americano (CELAM) foram momentos marcantes, pois definiram o posicionamento da Igreja em face de atuais condições de vida.


[...]


"Na época atual, a Humanidade está em vias de grandes transformações, agitações e desenvolvimentos, que mudam não apenas suas maneiras exteriores de viver, mas também suas maneiras de pensar [...] Tudo isso, como as ondas de um mar, envolve e sacode a própria Igreja".


São palavras do papa Paulo VI que refletiam a crise que atravessava a Igreja Católica no Mundo Atual, minada pelos progressos da secularização, pela redução dos quadros eclesiásticos, pela recusa de muitos em aceitar, resignadamente, as promessas de uma vida extraterrena sem injustiças e desigualdades, pelo avanço da tecnologia e da ciência permitindo a melhoria de vida de muitos e levando-os a só se preocupar com o conforto e a não mais encontrar tempo para as práticas religiosas.


O próprio avanço das filosofias materialistas (existencialismo, marxismo, etc.), a expansão do protestantismo, a crescente laicização do Estado e, segundo alguns, a "crise de instituições eclesiásticas, sempre concebidas na perspectiva de uma civilização rural ultrapassada", constituíam graves problemas da Igreja Católica.


"Três fatos podem ser apontados como tentativas de respostas às novas condições da missão da Igreja: o aparecimento da Ação Católica, a experiência dos padres operários e o desenvolvimento do pensamento teológico, sobretudo na França [...] Apesar do pequeno número de pessoas diretamente envolvidas, o problema da 'Igreja no mundo' aflorava à consciência com uma nova forma de se situar, de ver e de viver". (PIERUCCI, A. F. As grandes religiões. São Paulo: Abril Cultural, 1973. v. 5, p. 966.)


Contudo, foi a ascensão de João XXIII (1958-1963) ao soberano pontificado o acontecimento mais significativo pelas implicações dela decorrentes: a publicação das encíclicas Mater et Magistra (1961) e Pacem in Terris (1963), além da reunião do Concílio Vaticano II (1962-1965).


Embora reconhecendo os ensinamentos das encíclicas Rerum Novarum (Leão XIII) e Quadrogesimo Anno (Pio XI), a Mater et Magistra considerou que "a socialização é um dos aspectos característicos da nossa época", afirmou que "o progresso social deve acompanhar e igualar o desenvolvimento econômico, de modo que todas as categorias sociais tenham parte nos produtos obtidos  em maior quantidade". Reafirmou o direito de propriedade, porém, insistiu para "que ela se difunda efetivamente entre todas as classes sociais" e exerça uma função social. Referiu-se, várias vezes, à situação dos grupos dos países subdesenvolvidos submetidos à "condição de vida infra-humana", sendo necessário "educar as consciências no sentimento da responsabilidade que pesa sobre todos, particularmente sobre os mais favorecidos", o nivelamento econômico entre as nações, a cooperação científica técnica e financeira, devendo as nações economicamente desenvolvidas respeitar as individualidades próprias de cada país.


Na encíclica Pacem in Terris, João XXIII doutrinou sobre a paz dos povos fundamentada na verdade, justiça, caridade e liberdade. Inicialmente, tratou dos direitos do homem: integridade física; meios necessários a um digno padrão de vida; respeito à liberdade de manifestação; reais possibilidades de instrução e participação na vida pública. Tornou a lembrar que o direito de propriedade se situa no contexto de uma função social. [...]


A reformulação do pensamento da Igreja evidenciou-se mais ainda no Concílio Vaticano II, cuja direção efetiva coube ao papa Paulo VI, pois João XXIII faleceu após a primeira sessão. Apesar da resistência de uma corrente conservadora, os "progressistas" aprovaram reformas litúrgicas, como a celebração do culto em língua nacional; a recomendação da utilização dos meios de comunicação social (cinema, televisão etc.); o reconhecimento das liberdades de consciência e religiosas; a ampliação da participação dos leigos na vida da Igreja; a definição de uma Igreja democrática e ecumênica, com isso admitindo a reaproximação com os não católicos; a criação de Congregação da Doutrina da Fé, que pôs fim ao Tribunal do Santo Ofício.


[...]


Em nova encíclica, a Gaudiam et Spes, Paulo VI deixou clara a preocupação da Igreja em se identificar com a maioria que vivia na pobreza.


Essa reformulação do pensamento e atuação da Igreja Católica ficaram evidentes na reunião do II Conselho Episcopal Latino-Americano (CELAM) em Medellín, na Colômbia (1968), quando foi fixado o novo posicionamento da Igreja em face das condições socioeconômicas e político-religiosas da América Latina.


"A pobreza de tantos irmãos clama por justiça, solidariedade, testemunho, compromisso, esforço e superação para o cumprimento pleno da missão salvífica confiada por Cristo. A presente situação exige, pois, dos bispos, sacerdotes, religiosos e leigos o espírito de pobreza que, 'rompendo as amarras da posse egoísta dos bens temporais, estimula o Cristianismo a dispor organicamente da economia e do poder em benefício da comunidade'.


[...]


Queremos que a Igreja da América Latina seja evangelizadora e solidária com os pobres, testemunha do valor dos bens do Reino e humilde servidora de todos os homens de nossos povos. [...]" (Trechos de Conclusões do II CELAM em Medellín)


Em documento episcopal foram analisados a explosão demográfica, o analfabetismo, a má distribuição de riquezas - como a concentração da propriedade das terras nas mãos de uma minoria -, a dependência ao capital estrangeiro e as tensões entre as classes e os países latino-americanos, bem como as tensões internacionais. O documento apontou a necessidade de promover uma radical modificação nas estruturas políticas, econômicas e sociais, devendo a Igreja comprometer-se nesse processo: assinalou a marginalização política do povo e as formas de opressão de grupos e de setores dominantes que exploravam o anticomunismo e diversas outras práticas, "qualificando de ação subversiva toda tentativa de mudar um sistema social que favorece a permanência de privilégios". Insistiu que a Igreja devia se engajar na promoção de uma educação libertadora, na instauração da justiça e da paz, na ajuda aos oprimidos para conhecer e lutar pelos seus direitos e no estímulo a todas as iniciativas que contribuíssem para a formação do homem.


No III CELAM, realizado em Puebla, no México (1979), novamente confrontaram-se diversas correntes do pensamento católico. Mais uma vez, prevaleceu a ala progressista. Reafirmou-se a Teologia da Libertação com as propostas de mudanças profundas nas estruturas latino-americanas, em benefício da maioria, ou seja, dos pobres.


Com a morte de Paulo VI (1978), o trono pontifical foi ocupado por João Paulo I, que faleceu um mês após a sua eleição. Seu sucessor foi o polonês [...] João Paulo II, que realizou inúmeras viagens, visitando países da Europa, América, África e Ásia.


Sua atuação caracterizou-se pela maior preocupação com os temas espirituais e disciplinares em lugar dos problemas sociais.


Na encíclica Redemptor Hominis (1979), o papa João Paulo II sustentou ser Cristo o centro do Universo e da História, o Salvador dos homens. Na Dives in Misericordia (1980), considerou que o divórcio, o aborto e o relaxamento moral constituem forças desagregadoras da família; também apontou a aflição do homem diante da tortura, da fome e da guerra.


Sua terceira encíclica, a Laborem Exercens (1981), referiu-se ao conflito entre o capital e o trabalho, propondo uma composição entre patrões e empregados visando ao bem comum. [...] Na Sollicitudo Rei Sociales (1987), revelou uma preocupação com os problemas sociais, afirmando ter havido uma "ampliação do abismo entre as áreas do norte desenvolvido e do sul em desenvolvimento, uma velocidade de aceleração diversa, que tende a aumentar as distâncias do desenvolvimento". Chamou a atenção para o analfabetismo, o mecanismo contraproducente das dívidas externas, a gravidade do desemprego e do subemprego nos países pobres. [...]


[...]


[...] a Evangelium Vitae foi dedicada a temas como a eutanásia, o aborto, a contracepção, a embriologia e a pena de morte, considerados contrários à lei de Deus. [...]


Adotando posições claramente conservadoras, o pontífice reafirmou o celibato do clero e a proibição da ordenação de mulheres, condenou o controle da natalidade por meios artificiais e se pronunciou contra a participação de sacerdotes católicos no governo sandinista na Nicarágua.


A tendência conservadora também se manifestou nas limitações feitas à Teologia da Libertação, inclusive com punições impostas pela Sagrada Congregação para a Doutrina da Fé (ex-Santo Ofício) ao frei brasileiro Leonardo Boff.


[...]


Em 1988, ao visitar Cuba, o papa criticou o embargo econômico dos EUA à ilha e alertou os jovens cubanos a não se deixarem seduzir pelos atrativos de uma sociedade de consumo.


Ainda em fins do século XX, o Papado se penitenciou do comportamento da Igreja Católica quando da perseguição dos judeus pelos nazistas, bem como de "pecados cometidos" no passado em questões de discriminação racial e tratamento dispensado a mulheres e indígenas.


Em 2003, João Paulo II verberou o governo dos Estados Unidos por sua agressão militar ao Iraque.


Em 2005, gravemente enfermo, João Paulo II veio a falecer. Para substituí-lo foi eleito o alemão Joseph Ratzinger - Bento XVI.


O novo pontífice divulgou as encíclicas: Deus caritas est, Spe Salvi, Caritas In Veritate. A primeira [...] refere-se ao amor na vida cristã e ao papel da Igreja católica nas sociedades. Na segunda, formula críticas ao ateísmo. Na terceira (2009), critica a precarização do trabalho, a necessidade de ética nas relações econômicas e a busca apenas do lucro, neste mundo globalizado.


AQUINO, Rubim Santos Leão de et al. História das sociedades: das sociedades modernas às sociedades atuais. Rio de Janeiro: Imperial Novo Milênio, 2010. p. 640-647.