"Os espelhos estão cheios de gente.
Os invisíveis nos vêem.
Os esquecidos se lembram de nós.
Quando nos vemos, os vemos.
Quando nos vamos, se vão?"
Eduardo Galeano: Espelhos
Mostrando postagens com marcador Descobrimento. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Descobrimento. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 18 de dezembro de 2015

Descobrimentos e Renascimento

Francisco Pizarro na ilha de Gallo, convidando seus soldados para cruzar a linha traçada no chão, se eles desejassem continuar sua expedição para o Peru, Juan B. Lepiani


A suposição de que a Terra era redonda e a necessidade de comprovação dessa hipótese através de uma viagem são um projeto tipicamente renascentista. [...]

Ao descobrir outras culturas, o homem do Renascimento hierarquizou-as: da civilização à barbárie. Nesse sentido, o humanista constitui-se a partir de uma vontade de domínio e poder sobre todos os povos do mundo.

Desenhar um mapa, construir o império, destruir outras culturas, impor a fé cristã, assinar obras de arte eram atitudes renascentistas.

A América - destruída e construída a partir do padrão europeu - transformava-se em lugar de comprovação da superioridade da cultura europeia. Era necessário construir uma igreja em cima de uma pirâmide indígena. Não podia ser ao lado.

A invenção da perspectiva na pintura é contemporânea às Grandes Navegações. Ao mesmo tempo em que o pintor estudava as possibilidades de criar a perfeição (reprodução) em seus desenhos, os cartógrafos procuravam mapear, com observância rigorosa, todo o globo terrestre. [...]

Os descobridores, ao realizarem sua obra de colonização construindo igrejas e outras edificações necessárias à conquista, e os artistas, pintando ou esculpindo na Europa, consideravam a existência de um único padrão de beleza, uma única religião verdadeira, uma cultura superior a todas as outras. Descobridores e artistas olhavam o mundo de um único ponto e a partir dele destruíam e construíam. [...]

O resultado desse grande esforço renascentista, dessa "plenitude", foi suporem possuir domínio sobre a vida e a morte das populações que consideravam bárbaras. A América conheceu a expressão mais violenta desse sonho de dominação.

Aqui, nesse Novo Mundo, grande parte da população foi morta por aqueles que necessitavam esculpir a sua cultura sobre as populações pré-colombianas. Não foram anos fáceis para a América. [...]

O colonizador, como se fosse um escultor, talhou a América na forma em que havia imaginado. Destruía pirâmides para construir igrejas, derrubava habitações para obter o desenho da praça ou o traçado desejado para as ruas, jogava pedras nos canais para que os cavalos pudessem circular melhor na cidade. Reconstruía-se tudo o que era possível para que o núcleo urbano lembrasse a Europa. [...]

Os indígenas aprendiam a pintar e a construir para que a América, cada dia mais, se apresentasse com as formas, as cores e a vida europeia. Uma multidão de artífices indígenas se esforçavam para imitar o desenho que viam em precárias reproduções trazidas pelos europeus.

Por todos esses motivos analisados, a harmonia presente nos quadros renascentistas transformava-se em desarmonia no Novo Mundo.

SILVA, Janice Theodoro da. Descobrimentos e Renascimento. São Paulo: Contexto, 1991. p. 56-58, 63-64.

sábado, 28 de dezembro de 2013

Novo mundo, novos termos

1492 mudou o mundo. Diferentes interpretações e conceitos tentam explicar as origens e os motivos dessa mudança. Mas cada um deles corresponde a diferentes posições ideológicas e pontos de vista dos estudiosos que se debruçam sobre a questão. O que parecia claro a todos é que tamanha transformação não podia ser atribuída apenas ao avanço da técnica ou ser mero reflexo da expansão comercial e marítima e da conquista de mercados, próprias da revolução comercial que se instalou na Europa no final da Idade Média.


Assim, após a constatação da existência de um mundo novo, repleto de surpresas, diferenças e similitudes, era preciso entender historicamente aquele fato. Como classificar esse acontecimento que abalou as formas de pensar do homem quinhentista?

Os conceitos de "descobrimento" e "achamento" têm o mesmo significado e se referem a algo previamente conhecido. Assim, o descobrimento do Novo Mundo, em 1492, não consistiu num fato absolutamente novo, pois já se sabia que havia terras ao ocidente da Europa e que em qualquer momento poderiam ser encontradas. Esse conceito difere de "descoberta", que significa descobrir algo desconhecido anteriormente, que não se conhecia ou se imaginava conhecer.

De fato, informações sobre ilhas ou regiões situadas no oceano ocidental eram de conhecimento dos homens da Idade Média, por meio de mitos e relatos dos povos antigos, como o de Estrabão (64 a.C.), de Plínio, o Velho (23 d.C.) e de Platão (428 a.C.), além da mítica Atlântida, retomada pelo Pseudo-Aristóteles (Livro das Maravilhas) e por Diodoro da Sicília (século I). Arqueólogos e outros pesquisadores procuram evidências da presença na América de cartagineses, fenícios e gregos, entre outros povos. Expedições marítimas relatavam a existência de terras a oeste da Europa, mas foi a expedição de 1492 que confirmou a existência de um Novo Mundo.

Para alguns historiadores, considerar o encontro como um fenômeno de conquista e dominação é subestimar a cultura do "outro". No entanto, considerar um encontro de civilizações também suscita dúvidas, já que o "outro" foi pego de surpresa, vítima da complexidade tecnológica trazida pelos europeus e dos deuses que o abandonaram diante do estrangeiro branco e barbudo, vítima também das discórdias e fragmentações internas, dos ódios e disputas de seus pares.

Por outro lado, considerar o acaso e aceitar que as terras foram achadas é uma forma de pensar mecanicista e simplista. Isso porque houve muito empenho em encontrar riquezas, mapas foram traçados, astrolábios, bússolas e toda a cartografia foram utilizados para descobrir riquezas e engrandecer os países europeus, a Espanha e Portugal.

O conceito de "encontro" é encobridor porque se estabelece ocultando a dominação do mundo europeu sobre o mundo do índio americano. Também não pode ser um encontro de duas culturas, em que o mundo do outro é subjugado e excluído, onde predomina o etnocentrismo, a superioridade da cristandade sobre as religiões indígenas e total desprezo pelos ritos, deuses, mitos e crenças dos nativos.


O massacre de Cholula, Félix Parra

No México, desde 1984, historiadores debatem o conceito de encontro e apresentaram o conceito de "encobrimento", por um lado, e a necessidade de desagravo ao índio, por outro. Durante a comemoração do V Centenário do Encontro de Dois Mundos, em 1992, o historiador Miguel Leon Portilla lançou o conceito "Encontro de Duas Culturas", e Felipe Gonzalez, durante as festividades dos 500 anos da América, falou em festejar o descobrimento como um encontro. Era mais uma posição política, em função da integração europeia e da abertura da Espanha à América Latina.

Já o conceito "invenção" foi proposto por Edmundo O' Gorman, que considerou que Cristóvão Colombo estava convencido de ter chegado à Ásia e constatado naquelas terras algo conhecido anteriormente, mas ainda não explorado. Por isso, chamou os habitantes de "seres asiáticos". Colombo morreu desconhecendo que havia encontrado um novo continente. Para o autor, "invenção" indicava que a América não foi descoberta ou achada, mas inventada à imagem e semelhança da Europa. Também o reconhecimento dos habitantes como seres asiáticos é uma invenção que só existiu na imaginação dos grandes navegantes e contribuiu para o desaparecimento do outro. O "índio" americano apenas deu vida a este ser inventado.

O conceito de conquista é adotado como prática de dominação. Trata-se de uma concepção jurídico-militar. O conquistador é o primeiro homem moderno ativo, prático, que impõe sua individualidade violenta a outras pessoas, ao outro.

Assim, as ideias de descobrimento, achamento, invenção e conquista dominam a historiografia sobre as formas como o Velho e o Novo Mundo se complementaram no sistema planeta-mundo.

Maria Teresa Toribio Brittes Lemos. Novo mundo, novos termos. In: Revista de História da Biblioteca Nacional. Ano 7, nº 84, setembro 2012. p. 36-37.

NOTA: O texto "Novo mundo, novos termos" não representa, necessariamente, o pensamento deste blog. Foi publicado com o objetivo de refletirmos sobre a construção do conhecimento histórico.