"Os espelhos estão cheios de gente.
Os invisíveis nos vêem.
Os esquecidos se lembram de nós.
Quando nos vemos, os vemos.
Quando nos vamos, se vão?"
Eduardo Galeano: Espelhos
Mostrando postagens com marcador Guerras de religião. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Guerras de religião. Mostrar todas as postagens

sábado, 29 de agosto de 2015

A era do absolutismo: A ascensão da França nos séculos XVI e XVII

Rei Luís XIV, Nicolas-René Jollain

No século XVI a França foi cenário de violentas lutas religiosas entre católicos e protestantes calvinistas - chamados huguenotes -, as quais culminaram com o massacre da Noite de São Bartolomeu (1572) quando milhares de huguenotes foram eliminados, por ordem de Catarina de Médicis, regente do trono francês. A paz religiosa só pôde estabelecer-se no reinado de Henrique IV que, através do Edito de Nantes (1598), concedeu liberdade de culto aos protestantes [...].

O Edito de Nantes favoreceu o crescente prestígio político da França, a renovação de seu comércio e de sua indústria, responsável por um grande desenvolvimento econômico nos séculos seguintes.

O poder da França acentuou-se após a última das guerras de religião, a Guerra dos Trinta Anos (1618-1648).

Esta guerra desenrolou-se na Alemanha, dividida em vários reinos e principados, uns protestantes outros católicos. Começando como uma luta religiosa terminou, entretanto, como conflito armado pela hegemonia na Europa; envolveu diversas nações, mas foi particularmente uma luta na qual a França se empenhou para cercear o poderio da casa real dos Habsburgo, herdeira do império de Carlos V. O conflito irrompeu na Boêmia quando o rei Fernando II de Habsburgo, católico, tentou impor sua religião em um território onde havia agrupamentos de protestantes. Os príncipes alemães católicos entraram em choque com os príncipes alemães protestantes; estes foram derrotados e a dominação dos Habsburgo afirmou-se na Boêmia. No entanto, o conflito alastrou-se gradativamente sobre boa parte da Europa provocando a guerra entre nações protestantes - Dinamarca, Suécia, Províncias Unidas - e nações católicas em poder dos Habsburgo - Áustria e Espanha. A França, embora católica, entrou na guerra ao lado das nações protestantes para refrear o prestígio dos Habsburgo. Assim, o longo conflito, durante o qual se alternaram vitórias e derrotas de ambos os lados, terminou com a intervenção decisiva da França que forçou a Áustria e a Espanha a renderem-se. Foram assinadas a Paz de Mestfália (1648), entre França e Áustria, e mais tarde (1659) a Paz dos Pirineus, entre França e Espanha.

A Paz de Westfália assinalou o fim das guerras de religião. assegurando tolerância de fé; politicamente, acabou com o predomínio e a força dos Habsburgo. [...]

[...]

Internamente, desde o reinado de Henrique IV, a França vinha passando por importantes transformações políticas, que levaram o rei a concentrar em suas mãos todos os poderes do Estado. Contribuíram para essa centralização do poder medidas tomadas por dois ministros, o Cardeal Richilieu (na regência de Maria de Médicis e no reinado de Luís XIII) e o Cardeal Mazzarino (na regência de Ana d'Áustria e no início do reinado de Luís XIV): ambos afastaram sistematicamente nobres dos corpos administrativos, confiando-os a funcionários de origem burguesa. Tais medidas contra a aristocracia, e que não deixaram de provocar agitações sociais e guerras civis, foram ainda mais reforçadas por Luís XIV, ao assumir o trono (1661).

O monarca afastou os nobres dos cargos administrativos que ainda ocupavam, em compensação atraiu-os para a sua corte e manteve-os isentos de impostos, que eles, todavia, continuaram cobrando dos lavradores de suas terras. Os postos administrativos foram ocupados por elementos da classe burguesa, ministros e funcionários diretamente nomeados e controlados pelo rei, o qual ainda favoreceu a rica burguesia dando grande impulso à indústria (manufatureira, construção civil, naval e de armamentos) e ao comércio (importação e exportação de matérias-primas e gêneros de primeira necessidade).

Concentrando todos os poderes do Estado em suas mãos, Luís XIV passou a encarnar o próprio reino da França e tornou-se assim símbolo vivo do absolutismo, sintetizado na frase a ele atribuída: L'état c'est moi (O Estado sou eu). Luís XIV deu à França o máximo de esplendor e projeção, tanto assim que sua época passou à história como o século de Luís XIV. Mereceu o nome de rei-sol, pois sua corte foi uma das mais brilhantes e luxuosas de que temos notícia, dela recebendo homenagens como se fora um deus.

O período de projeção que a França conheceu no século XVII foi resultado de importantes iniciativas do monarca, auxiliado por homens de visão, diplomatas, chefes militares e ministros, dentre os quais destacou-se o ministro da economia e das finanças, Colbert.

Colbert desenvolveu a política do mercantilismo, doutrina econômica fundamentada na pequena importação e na grande exportação. Mas, para exportar, era necessário produzir em larga escala objetos manufaturados de alta qualidade, transportá-los por mar e encontrar no estrangeiro matérias-primas e bons mercados. Colbert, pois, regulamentou a produção de mercadorias. exigiu o emprego de mão-de-obra qualificada e especializada, modernizou os estaleiros para a construção de navios, estimulou a exploração sistemática e a expansão das colônias francesas nas Américas (Canadá, Luisiana, Antilhas). A fim de a França poder competir com as poderosas companhias das Índias, holandesa e inglesa, fundou-se a Companhia Francesa das Índias Orientais. Reorganizando sua marinha, a França passou a concorrer comercialmente com a Holanda.

[...]

A França alcançara enorme prestígio internacional, mas internamente começara a delinear-se uma situação social bastante crítica. Na cidade, a nobreza ligada à corte de Luís XIV vivia ociosa e luxuosamente, enquanto a burguesia detinha influência considerável na administração e no comércio. No campo, os nobres empobreceram cada vez mais, pois os lavradores pagavam-lhes os impostos devidos não mais em dinheiro e sim em gêneros. Assim muitos nobres viram-se obrigados a vender parte de suas terras a burgueses da cidade. A situação dos camponeses agravava-se dia a dia, devido à falta de progresso sensível nas técnicas agrícolas, aos rendimentos diminutos, às elevadas taxas, aos caprichos da natureza, fortes geadas, prolongadas secas, trazendo fome, doenças e miséria.

Além disso, tendo Luíz XIV revogado o Edito de Nantes, recomeçaram as perseguições contra os protestantes que, obrigados a abandonar a França, emigraram em grande número para o exterior, levando consigo seus haveres e sua capacidade de trabalho, o que prejudicava seriamente o país. Prejuízos maiores sobrevieram quando outras nações europeias se coligaram para refrear as ambições desmedidas de Luíz XIV. Nos últimos anos de seu reinado a França enfrentou uma coligação europeia na Guerra de Sucessão da Espanha, à qual o Tratado de Utrecht (1713) pôs fim, pondo fim também à supremacia francesa.

HOLLANDA, Sérgio Buarque de (Org.). História da Civilização. São Paulo: Nacional, 1974. p. 195-8.

segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

A intolerância religiosa dos Estados europeus na Época Moderna

No filme clássico de David W. Grifith, Intolerância (1916), um dos episódios narrados é A Noite de São Bartolomeu, ocorrido em 1572 – o grande massacre de huguenotes (calvinistas) pelos católicos na França. Foi o tempo das “guerras de religião” na França, como em outras partes da Europa ocidental. A rigor, tais guerras começaram no início do século XVI, em pleno território germânico – palco da Reforma Luterana – e só terminaram em 1648, com o fim da Guerra dos Trinta Anos. Isso significa que a intolerância religiosa foi motivo real de muitos conflitos entre reis e príncipes europeus nos primeiros séculos da Época Moderna, embora não estivessem ausentes outras motivações.

O sentimento religioso era mesmo central na definição das identidades individuais e coletivas nesse período. Mas, para entender o fenômeno da intolerância nessa época, é preciso destacar que, a partir do século XVI, os Estados europeus passaram a se definir, em grande medida, como Estados confessionais, isto é, dotados de uma religião oficial. A ruptura da cristandade provocada pelas reformas protestantes fez da identidade religiosa um elemento central para reis e príncipes e, por vezes, um divisor de águas no jogo de alianças e conflitos do período. Um marco desse processo foi estabelecido na Paz de Augsburgo (1555), que pôs fim às guerras entre os príncipes luteranos e o imperador Carlos V, ao estabelecer-se o princípio cujus regio, hujus religio: a religião do príncipe deveria ser a religião dos súditos.

Longe de apaziguar os ânimos, a consagração desse princípio estimulou a intolerância e hostilidade contra minorias religiosas em toda parte. Na Inglaterra anglicana, católicos e puritanos foram perseguidos; na França dilacerada, católicos e calvinistas viviam em guerra fratricida; na própria Holanda, tão afamada por sua tolerância religiosa, o conflito entre gomaristas e arminianos foi dilacerante, os primeiros defendendo o princípio da predestinação de forma literal; os segundos advogando alguma importância para as obras terrenas do devoto.

Contudo, em uma perspectiva comparativa acerca da geografia religiosa na época, pode-se dizer que os Países Baixos forneceram o exemplo de maior tolerância religiosa, ao menos oficialmente. Basta dizer que cerca de um terço da população das sete províncias da República das Províncias Unidas permaneceu católica, ainda que tenham sido cerceadas as missas e procissões. A província da Holanda, em particular, tornou-se o principal refúgio de cristãos-novos ibéricos, sobretudo portugueses, no século XVII. Ali os cristãos-novos apostasiaram do catolicismo, assumindo-se como “judeus públicos” e construindo uma importante comunidade, estimulados pelas autoridades holandesas: a Talmud Tora. Vários deles estiveram no Recife holandês, entre 1636 e 1654, fundando a primeira sinagoga das Américas: a Kahal Kadosh Zur Israel.

No pólo oposto à Holanda, os países ibéricos instituíram a temível Inquisição, tribunal de fé especializado em perseguir os hereges da religião católica, a única permitida nos dois reinos a partir de fins do século XV. No caso ibérico, porém, a intolerância religiosa teve pouco a ver com a Reforma Protestante, devendo-se antes à existência de numerosas comunidades judaicas e muçulmanas ali fixadas desde a Idade Média. Na Espanha, a Inquisição foi instalada em 1478, pois o número de conversos era já elevado desde o final do século XIV, e coincidiu com o início da unificação política dos reis católicos, Fernando de Aragão e Isabel de Castela. A política de intolerância foi poderoso instrumento unificador, sendo a Espanha marcada por enormes diferenças culturais e lingüísticas. Em 1492, a intolerância avançou com a expulsão dos judeus remanescentes e a conquista de Granada, último bastão islâmico na península Ibérica. No início do século XVII, também os mouros foram obrigados à conversão.

Em Portugal, onde havia forte tradição de tolerância e convívio entre os três monoteísmos, d. Manuel decretou a conversão forçada de todos os judeus e muçulmanos do reino, em 1496, em grande parte por influência espanhola. A Inquisição só seria estabelecida, porém, a partir de 1536, já no reinado de seu sucessor, d. João III.

Nos dois reinos, as principais vítimas da Inquisição foram os cristãos-novos, descendentes dos judeus, embora somente uma pequena parcela deles tenha sido executada na fogueira. [...]


Queima de uma bruxa na fogueira.
Willisau, Suíça, em 1447

A intolerância dos Estados europeus não se restringiu às “grandes religiões”. Os séculos XVI e XVII testemunharam o apogeu da “caça às bruxas”, sobretudo na França: uma autêntica “cruzada” contra as religiosidades populares, meio cristãs, meio pagãs – demonizadas pelos teólogos e juízes. Testemunharam, ainda, perseguições contra os desviantes da moral cristã em matéria sexual, seja no mundo católico, seja no protestante: as maiores vítimas, nesse caso, foram os praticantes de relações homoeróticas. Os chamados sodomitas foram condenados à fogueira em vários países, sobretudo na Holanda, França e principados germânicos. Nos países ibéricos, em comparação, foram mais tolerados. Mas não saíram ilesos.

Ronaldo Vainfas. Intolerância. In: BETING, Graziella. Coleção história de A a Z: [volume] 3: Idade Moderna. Rio de Janeiro: Duetto, 2009. p. 51-52.


NOTA: O texto "A intolerância religiosa dos Estados europeus na Época Moderna" não representa, necessariamente, o pensamento deste blog. Foi publicado com o objetivo de refletirmos sobre a construção do conhecimento histórico.

domingo, 25 de março de 2012

As centúrias de Nostradamus: uma crônica do século XVI

O imenso sucesso de Nostradamus continua a surpreender e, muitas vezes, chega a incomodar. O hermetismo da linguagem utilizada em suas Centúrias astrológicas (publicadas originalmente com o título de Profecias, em 1555) confere ao texto tamanha plasticidade que ele parece poder se adaptar a todas as épocas e a todos os temores. No entanto, quem as interpreta à luz do presente deve sempre lembrar que as Profecias foram escritas em um contexto histórico bem particular: o das guerras religiosas na França do século XVI. [...]

As Profecias foram publicadas entre 1555 e 1557, quando a tensão política e religiosa na França se aproximava do auge. No dia 4 de setembro de 1557, uma assembléia calvinista foi fechada em Paris, resultando na prisão de 128 pessoas, das quais sete foram condenadas à fogueira. No Sacro Império Romano-Germânico o cisma religioso já havia provocado guerras cujos detalhes Nostradamus conhecia bem graças à correspondência que mantinha com "clientes" em toda a Europa. Não surpreende, portanto, que suas  Profecias sejam marcadas por um clima de violência e de morte. Entre inúmeros exemplos, há o da quadra 46 da centúria II:

Após grande miséria para a
humanidade, outra maior
se aproxima
Quando se renova o grande
ciclo dos séculos
Choverá sangue, fome e guerra
Nos céus será visto um fogo
arrastando uma trilha de faíscas

Nos versos de Nostradamus, a barbárie se apresenta frequentemente com os traços do cisma religioso que desencadeia o Apocalipse. A Igreja católica e o papa aparecem como vítimas recorrentes. A quadra 15 da centúria II prevê a ruína dos eclesiásticos e de seus adversários, os protestantes:

Marte nos ameaça com a força
da guerra
E causará setenta vezes
derramamento de sangue
O clero será exaltado e aviltado
Por aqueles que não querem
dele aprender nada

As Profecias de Nostradamus são um testemunho de seu tempo. Existe uma relação profunda entre a atmosfera de caos que o autor descreve em suas quadras e o estilo que escolheu para representá-la. A linguagem de Nostradamus é cheia de invenções, de formas inusitadas e desconcertantes que introduzem a confusão na sintaxe e no léxico. A desordem das palavras é o reflexo da desordem das coisas.

O sucesso imediato de Nostradamus se deve provavelmente mais a seu gênio literário do que a suas capacidades visionárias. Sua obra registra a violência de uma época dilacerada pelo cisma religioso e atormentada pela perspectiva do Juízo Final.

Durante o Renascimento, as especulações sobre o futuro não eram obra de alguns poucos charlatães. A astrologia era uma prática comum, baseada na certeza de que qualquer coisa era um sinal. O futuro era visto como a realização de uma realidade já prevista.

As sensibilidades religiosas do século XVI concordavam plenamente com essa visão de futuro. As catástrofes naturais e as anomalias climáticas ou biológicas eram interpretadas à luz da Bíblia e de mapas astrais. As controvérsias entre astrólogos e teólogos não se referiam à legitimidade da ciência astrológica, universalmente reconhecida. O que os clérigos questionavam era o grau de contingência das previsões e o espaço que reservavam ao livre-arbítrio dos homens.

Os protestantes adotavam a mesma postura ambígua em relação à astrologia. Enquanto Lutero admitia a importância e a legitimidade da advinhação, Calvino condenava aqueles que previam o destino dos homens com arrogância.

O conflito religioso irrompeu, portanto, em um contexto de inquietação, em que os mínimos sinais da cólera divina eram interpretados como prenúncios do Juízo Final. De acordo com o historiador Denis Crouzet, esse clima teria contribuído muito para a brutalidade dos embates entre católicos e protestantes, já que a percepção do adversário religioso como um possível anticristo transformava a violência no último recurso purificador e salvador.

Nostradamus

Nenhum outro autor expressou melhor que Nostradamus essa relação entre a violência e a angústia do fim dos tempos. Aliás, seus contemporâneos perceberam as vantagens políticas e religiosas disso e sua obra foi usada tanto por católicos quanto por protestantes.

[...]

[...] Os textos de Nostradamus não só expressam o clima de terror e de violência que reinava no período, como oferecem um sentido à história. A infelicidade dos homens deixa então de parecer arbitrária para se tornar a expressão de um destino.

[...]

Hervé Drévillon. As centúrias, uma crônica do século XVI. In: Revista História Viva. Ano IX, n. 99. p. 42-45.

domingo, 29 de janeiro de 2012

As Reformas Religiosas do século XVI

"Quem quer que compre uma coisa, não para que possa vendê-la inteira e não transformada, mas para que sirva de material a moldar em algum objeto, esse não é um comerciante. Mas o homem que compra a coisa a fim de ganhar, revendendo-a inalterada, sem transformá-la, esse está entre os compradores e vendedores expulsos do templo de Deus!"

"Aquele que tem o bastante para satisfazer suas necessidades e não obstante trabalha sem cessar para adquirir riquezas, seja com o fim de obter uma posição social mais alta, seja para subsequentemente poder viver sem trabalhar, seja para que os filhos venham a ser homens de riqueza e importância - em todos esses casos é impelido por condenável avareza, sensualidade ou orgulho".


O massacre da noite de São Bartolomeu, François Dubois. As guerras de religião na França alcançaram no massacre de São Bartolomeu (24 de agosto de 1572) um de seus momentos mais violentos. Nessa ocasião, centenas de protestantes foram mortos.

Como se sentiriam os comerciantes europeus ao ouvir as ideias dos pensadores cristãos medievais? Como se sentiria você caso vivesse do comércio e se esforçasse por acumular cada vez mais riquezas, como faziam os burgueses da Europa moderna?

O entusiasmo pelas atividades mercantis, a busca do enriquecimento e o gosto pelo luxo - típicos dos grupos sociais em ascensão no século XVI, pareciam não se ajustar perfeitamente aos preceitos da religião cristã, ainda bastante ligada à ordem feudal. A Igreja insistia em condenar a usura e a subversão dos valores, que relegava a segundo plano a vida espiritual, em beneficio das preocupações materiais. E, no fundo, a Igreja condenava os próprios grupos comerciantes.

Todavia, as novas formas de vida, as atividades econômicas em expansão, estavam exigindo uma mudança de conceitos, sobretudo porque a religiosidade era ainda muito difundida. Seria necessário uma nova Igreja?

Muitos humanistas faziam severas críticas à Igreja, aos abusos praticados pelo clero, ao luxo da Corte papal. Eles desejavam uma religião mais simples, mais humana, rejeitando a ignorância do clero e seus desregramentos. A expressão desses anseios está em Erasmo, em cujo pensamento a crítica dos textos sagrados, a restauração da pureza da fé primitiva, a reforma da Igreja conciliavam-se com o respeito à unidade do cristianismo.

Mas não apenas os elementos ligados às atividades mercantis e os humanistas mostravam-se descontentes com a Igreja, no início dos Tempos Modernos.

Os governantes dos Estados modernos achavam que o poder do Papado, sendo universal, entrava em conflito, enfraquecendo, os novos Estados "nacionais". Os monarcas absolutistas queriam colocar a Igreja também sob seu controle, transformando-a num dos pilares da monarquia de direito divino.

Os príncipes desejavam também o direito de nomear os membros para os cargos eclesiásticos: bispos, arcebispos, abades, priores e outros. Isto porque nestes postos do alto clero estavam compreendidos os deveres sacerdotais ou disciplinares e também os rendimentos dos benefícios eclesiásticos. Se isso fosse conseguido, os monarcas não só impediriam a saída de recursos de seus reinos, como também poderiam ampliar seu domínio sobre a nobreza, sequiosa de obter para seus membros tais rendimentos.

Por essa mesma época, eram comuns os ataques aos "vícios da Igreja". Criticava-se o mau comportamento de muitos eclesiásticos, o acúmulo de benefícios por uma só pessoa, o envolvimento dos sucessivos papas em lutas e conflitos com os príncipes e nobres, os excessivos impostos cobrados por Roma, inclusive a venda das indulgências.

Muitos criticavam também o tráfico das coisas santas - a "simonia", e a exploração das "relíquias" dos santos e do próprio Cristo.

E havia ainda aqueles que defendiam a necessidade de uma reforma do dogma, pois as superstições cresciam, a miséria, o pecado, o medo do inferno estavam por toda parte. A duração relativamente breve da vida humana, a constância das guerras e da fome privilegiavam as danças macabras, os sermões cheios de "fogo do inferno". Confundiam-se a vida e a morte. As doutrinas dos elementos eclesiásticos não mais satisfaziam à burguesia e aos funcionários, assim como não eram compreendidas pela maior parte da população. Seria necessária uma nova religião?

A resposta a tantas questões e dúvidas parecia vir da Alemanha, onde os anseios reformistas mais ou menos difusos ganharam força e se transformaram no primeiro grande movimento de reforma religiosa.

Por que teria a reforma religiosa começado na Alemanha?

No início do século XVI, a Alemanha era constituída por centenas de principados dos mais diferentes tamanhos, além de dezenas de cidades-livres onde predominava a burguesia. Havia ali uma pequena nobreza empobrecida e descontente, ao lado de uma grande nobreza ambiciosa, disposta a apoderar-se dos inúmeros benefícios eclesiásticos existentes. Nos Estados mais poderosos, os príncipes empreendiam a unificação, tentando transformar seus domínios em verdadeiros "estados modernos".

Nessa Alemanha fragmentada, a Igreja era, ao mesmo tempo, o principal alvo e o maior adversário. Por quê? Ela era o principal alvo das ambições dos nobres sobre os benefícios eclesiásticos. Ela era também o maior adversário devido à ingerência política e fiscal dos papas nos assuntos alemães, além de muitos acreditarem ainda que a região era frequentemente "saqueada" em proveito de Roma.

Foi nesse ambiente que surgiu o monge agostiniano Martinho Lutero. Torturado pelo problema de como assegurar sua própria salvação, ele encontraria uma resposta na ideia de que o homem só se justifica pela fé, pois, sendo pecador por natureza, suas obras nada representam e só a fé em Deus pode salvá-lo.

Se somente a fé pode salvar, de que serviam as indulgências que o dominicano Tetzel pregava  na Alemanha, em 1517?

Ao fixar, na porta do Castelo de Wittenberg, as suas 95 teses condenando as indulgências, Lutero dava início à Reforma.

Sem querer chefiar uma revolução, Lutero viu-se forçado a liderar uma nova religião, contando com o apoio de uma parte da nobreza e de quase toda a burguesia. Após ser excomungado, em 1520, prega suas primeiras teses reformistas: o livre-exame e o sacerdócio universal, a nulidade do primado pontifical.

A Reforma se alastrou rapidamente.

Em 1522, sob a chefia de Ulrich von Hutten, revoltaram-se os "cavaleiros" da pequena nobreza. Pouco tempo depois, exasperados pelo agravamento das exigências senhoriais, os camponeses alemães se revoltaram, acreditando na chegada de uma nova era de justiça e igualdade. Em outros pontos da Alemanha, ocorria a pregação dos "profetas celestiais", seguidores de Lutero que defendiam proposições muito além de seu próprio "mestre".

Lutero condenou as revoltas contra a autoridade, ao mesmo tempo em que apoiava a repressão desencadeada pelos grandes nobres e pelos burgueses contra os movimentos que haviam eclodido. Sentindo a necessidade de refrear o ímpeto reformista, Lutero estabeleceu uma Igreja com o apoio dos príncipes, que passavam a ser chefes políticos e religiosos - é o cesaropapismo, apropriando-se dos bens eclesiásticos.

Embora a partir da denominada Confissão de Augsburgo o luteranismo tenha se tornado um credo bem definido, as lutas entre os príncipes católicos e protestantes não diminuíram, transformando-se numa verdadeira "guerra de religião" que o imperador Carlos V não conseguia controlar. Somente a Paz de Augsburgo, concluída em 1555, veio reconhecer o direito de liberdade religiosa para os príncipes e para as cidades, dividindo-se a Alemanha em dois campos.

Em que outras regiões da Europa ocorreram movimentos contra a autoridade papal?

Na Suíça, em cujas cidades vivia uma burguesia numerosa e soberana, diversos pregadores reformistas haviam surgido, embora nem sempre ligados ao luteranismo. O mesmo ocorria no Vale do Reno, em suas cidades mais importantes. Um lugar importante era Zurique, onde havia algum tempo Ulrico Zwinglio vinha pregando ideias bem mais radicais do que Lutero, como a supressão do dogma da presença real de Cristo na Eucaristia, e propondo uma organização democrática para a Igreja.

O mais importante dos reformadores foi João Calvino, que após instalar-se em Genebra - a "Roma calvinista" -, estabelece o Consistório de pastores, o órgão que controla as instituições municipais, zela pelos costumes e assegura a vida religiosa.

Acreditando também que o homem é essencialmente mau e pecador, Calvino apenas exige que ele aceite a sabedoria do Cristo, obedecendo-o servindo-o.

Os únicos sacramentos são o batismo e a eucaristia, mas nesta a presença do Cristo não é real, e sim puramente espiritual. A predestinação é um fato, pois desde a eternidade Deus, por sua exclusiva e insondável vontade, destinou uns à salvação e outros à danação eterna. O homem nada pode por si mesmo.

Ao contrário do luteranismo, o calvinismo voltou-se com interesse para a sociedade de sua época e seus problemas. O luteranismo estava muito mais voltado para a vida religiosa, e comprometido com um ideal de restauração mais do que de renovação, sendo assim um instrumento de consolidação do poder dos grupos e classes dominantes. O calvinismo, ao contrário, dignificou todas as formas de trabalho, mesmo manual, em nome da vontade de Deus.

Dizia Calvino que o trabalho "torna o corpo são e forte e cura as doenças produzidas pela ociosidade. [...] Entre as coisas desta vida, o trabalho é o que mais assemelha o homem a Deus."

E perguntava: "Que razão haverá para que a renda do negócio não seja maior do que a da propriedade da terra? De onde vêm os lucros do comerciante, senão de sua própria diligência e indústria?"

Para quem estaria Calvino falando? Que tipo de homem mais se assemelha a Deus, segundo o Calvinismo?

Embora pessoalmente fosse Calvino bem conservador e rigoroso, seus continuadores foram absorvendo no corpo doutrinal do calvinismo os princípios da sociedade capitalista.

[...]

A expansão da "religião verdadeiramente reformada", como então se dizia, fez-se com rapidez e por amplas áreas geográficas.

Na França, nobres, burgueses, artesãos, camponeses, sobretudo nas regiões distantes de Paris, aderiram e logo formaram uma igreja e um partido huguenote, nome pelo qual ficou conhecido o calvinismo na França. Na Escócia, sob a liderança de João Knox, a Confissão Escocesa fundou a Igreja reformada, adotando uma constituição presbiteriana - isto é, o governo pelos mais velhos ou presbíteros, e Maria Stuart foi obrigada a aceitá-la como religião de Estado. Nos Países Baixos, a difusão do calvinismo foi extremamente rápida, convertendo-se Antuérpia no principal centro de propagação. Quando as tropas do Duque de Alba, a mando de Felipe II de Espanha, invadiram a região, querendo submeter os revoltosos, ocorreu a migração de grande parte da burguesia da parte sul para as províncias do norte. Na Boêmia e na Hungria, a nobreza aderiu ao calvinismo como forma de afirmação nacional, antigermânica.

E na Inglaterra, como ocorreu a Reforma?

Ali, ela aparece como um intrincado problema pessoal  e financeiro, ao lado de antecedentes medievais como a heresia de Wycliff.

O humanismo alcançara importância na Inglaterra através sobretudo das figuras de Tomás Morus - autor de Utopia - e do próprio rei Henrique VIII, humanista convicto, embora inimigo da heresia luterana, o que lhe valeu o título de Defensor da Fé, dado pelo Papa Leão X.

No momento em que o Papa Clemente VII recusou-se a anular o casamento de Henrique VIII com Catarina de Aragão, o soberano inglês declarou-se chefe da Igreja inglesa pelo Parlamento. A votação do Ato de Supremacia pelo Parlamento, em 1534, cortava os últimos vínculos com Roma.

Senhor da Igreja Anglicana, e de todos os seus bens, Henrique VIII podia resolver os graves problemas financeiros que a monarquia enfrentava.

De uma maneira geral, a reforma na Inglaterra não modificou o dogma católico, já que não resultara de problemas filosóficos ou teológicos. O "Ato dos Seis Artigos" fixou a nova situação em termos de fé, reafirmando a autoridade do soberano. Assim, vão para a fogueira os protestantes, acusados de heresia, e para o cadafalso os católicos, por crime de lesa-majestade.

A reforma anglicana, que passaria por etapas distintas sob os reinados de Eduardo VI, da católica Maria I e de Elizabeth I, assumiria um aspecto mais definido pelo "Bill dos Trinta e Nove Artigos", em 1563. Ele definia a Igreja anglicana como um compromisso vago entre o catolicismo e o calvinismo, embora tivesse uma concepção luterana das relações entre a Igreja e o Estado.

Era justamente esse caráter vago da reforma que descontentava a muitos reformistas. Eles desejavam "purificar" a Igreja anglicana, que diziam estar cheia de elementos "papistas". Esses indivíduos eram chamados de "não-conformistas", e se tornaram cada vez mais influentes. Eram os calvinistas ingleses, também conhecidos com "puritanos".

Na França, o século XVI foi caracterizado pelas violentas lutas entre católicos e huguenotes - as guerras de religião. No fundo, os conflitos religiosos expressavam a oposição dos setores aristocráticos adeptos do calvinismo, ao poder absoluto dos soberanos, como também traduziam a insatisfação da pequena burguesia artesanal com a política econômica e fiscal da monarquia.

Somente sob o reinado de Henrique IV a paz foi alcançada.

"Paris vale uma missa", teria dito este nobre huguenote que, para consolidar seu poder, converte-se ao catolicismo, concedendo logo depois liberdades e garantias aos seus ex-correligionários, pelo Edito de Nantes.

Como teria reagido a Igreja à Reforma protestante?

A primeira reação foi quase espontânea, com as iniciativas individuais que tinham como objetivo produzir uma renovação da vida espiritual e mistica nos conventos já existentes, como os Carmelitas na Espanha e os Capuchinhos (Franciscanos) na Itália. Ao mesmo tempo, surgiram novas congregações , das quais a mais importante foi a Companhia de Jesus, fundada por Inácio de Loiola, em 1534. Para os jesuítas - que trabalhavam "para a maior glória de Deus" - o importante não era apenas combater os protestantes, mas fortalecer a fé entre os católicos contra as heresias.

Seguiu-se à essa reação quase espontânea, a atitude do Papado. Ela foi, de início, essencialmente negativa e preventiva: foi criado o "Índex" de livros proibidos e estabeleceu-se o Tribunal do Santo Ofício.

O momento mais importante da Reforma Católica, porém, ocorreu com a realização do Concílio de Trento, no qual os princípios do dogma católico foram reafirmados.


Concílio de Trento, Pasquale Cati

Qual a importância das Reformas na História da Europa moderna?

A Reforma protestante marcou uma ruptura irreversível na unidade cristã advinda da Idade Média, Num primeiro momento tal fato significou um aumento da intolerância, que se traduziu nas sucessivas guerras de religião.

Mas teriam sido todas as guerras realmente por motivos religiosos?

O fato, porém, dos príncipes terem ampliado seus poderes com as Reformas teve, num prazo mais longo de tempo, efeitos positivos. Ao final do século XVI já apareciam os adeptos da ideia de que deveriam ser separados os interesses do Estado daquele da Igreja, separando-se a fé da política. Ao mesmo tempo, partindo de uma reivindicação básica - a da liberdade de consciência - as seitas protestantes criaram as condições morais e intelectuais para o advento da tolerância. Foi o que se viu já no século XVII, primeiro nas Províncias Unidas, e depois na Inglaterra.

A tolerância traduziu um recuo da importância até então absoluta atribuída às divergências de fé. Sem dúvida, na península Ibérica e, embora menos, na Itália, a perseguição inquisitorial continuou violenta até meados do século XVIII. Mas isso era alguma coisa que já se ia tornando um exemplo de "atraso" e "bárbara superstição" aos olhos dos países mais "civilizados" da Europa. Mas o desenvolvimento da tolerância não resultou apenas da crítica dos filósofos. Sua raiz mais profunda estava na própria transformação da sociedade, na ascensão da burguesia, no surgimento do capitalismo. Novas preocupações, outros interesses, uma visão do mundo completamente distinta, relegavam ao plano estritamente pessoal a questão das crenças religiosas. Aprendia-se a conviver com a diversidade de opiniões. A força, o terror, o medo, deixaram de ser argumentos. Apagaram-se as fogueiras, caiu no ridículo a proibição de ler determinados livros, e por toda parte ergueu-se dominadora a razão como único juiz.

Racionalismo, humanismo e secularização triunfando no Século das Luzes, relegaram para um passado de trevas e de ignorância a própria lembrança de que se havia um dia pensado poder submeter o pensamento de todos os homens a um mesmo molde, impedindo-os de exercer livremente a faculdade que os distingue de todos s demais seres vivos: a faculdade de pensar.

MATTOS, Ilmar Rohloff de et alli. História. Rio de Janeiro: Francisco Alves/Edutel, 1977. p. 112, 114, 116, 118, 120, 122, 124, 126, 128, 130, 132.