"Os espelhos estão cheios de gente.
Os invisíveis nos vêem.
Os esquecidos se lembram de nós.
Quando nos vemos, os vemos.
Quando nos vamos, se vão?"
Eduardo Galeano: Espelhos
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quarta-feira, 8 de junho de 2016

O Diabo é vermelho

Destruição em Granollers após a incursão 
alemã em 31 de maio de 1938. 
Foto de Winifred Bates

Melilla, verão de 1936: desata-se o golpe de estado contra a república espanhola.

O pano de fundo ideológico será explicado, depois, pelo ministro de Informação, Gabriel Arias Salgado:

- O Diabo mora num poço de petróleo, em Baku, e de lá manda instruções aos comunistas.

O incenso contra o enxofre, o Bem contra o Mal, os cruzados da Cristandade contra os netos de Caim. É preciso acabar com os comunistas, antes que os comunistas acabem com a Espanha: os presos têm um vidão, os professores expulsam os padres das escolas, as mulheres votam como se fossem varões, o divórcio profana o matrimônio sagrado, a reforma agrária ameaça o poder da Igreja sobre as terras...

O golpe nasce matando, e desde o começo é muito expressivo,

Generalíssimo Francisco Franco:

- Salvarei a Espanha do marxismo ao preço que for.
- E se isso significa fuzilar meia Espanha?
- Custe o que custar.

General José Millán-Astray:

- Viva a morte!

General Emilio Mola:

- Qualquer um que seja, aberta ou secretamente, defensor da Frente Popular, deve ser fuzilado.

General Gonzaço Queipo de Llano:

- Preparai as sepulturas!

Guerra Civil é o nome do banho de sangue que o golpe de Estado desata. A linguagem põe, assim, o signo da igualdade entre a democracia que se defende e o golpe militar que a ataca, entre os milicianos e os militares, entre o governo eleito pelo voto popular e o caudilho eleito pela mercê de Deus.


GALEANO, Eduardo. Espelhos: uma história quase universal. Porto Alegre: L&PM, 2015. p. 270-1.

segunda-feira, 18 de janeiro de 2016

O populismo no Brasil: o governo João Goulart

Nos jornais toda a história de uma época. 
Comício das Reformas (Última Hora)

Em 25 de agosto de 1961, o país entrou em uma profunda crise política. A renúncia de Jânio implica a posse do vice-presidente, João Goulart. Esse último, em viagem diplomática à China. era hostilizado por importantes segmentos das forças armadas e do meio empresarial. Há razão para tanto? Lembrem-se: ele havia sido o responsável pelo aumento de 100% do salário mínimo - motivo suficiente para ser identificado com uma nebulosa política denominada "república sindicalista". Além disso, Goulart pertencia à corrente nacionalista, partidária da implementação de "reformas de base" da sociedade brasileira que [...] contrariavam poderosos interesses.

Os próprios ministros militares do governo que ele presidiria manifestaram-se contra sua posse. Tal recusa, porém, estava longe de contar com o apoio do conjunto das forças armadas. Goulart havia sido eleito pelo voto direto e, de acordo com as normas constitucionais, isso fazia com que a ala legalista do exército se posicionasse favoravelmente a sua posse. Explorando habilmente essa divisão, Leonel Brizola, que no início dos anos de 1960 despontava como nova liderança nacional do PTB, consegue apoio do III Exército. O então governador do Rio Grande do Sul também cria a Cadeia da Legalidade, lançando, através dos meios de comunicação de massa, uma campanha nacional pela posse do presidente.

O Golpe de 1961 é, dessa maneira, evitado. No entanto, foram necessárias concessões políticas por parte de João Goulart. A mais importante delas foi a adoção do parlamentarismo, através do qual se transferia para o congresso nacional e para o "presidente do conselho de ministros", aí eleito, boa parcela das prerrogativas do poder executivo.

Aproximadamente duas semanas após a renúncia, o novo presidente assume o cargo. Novas conspirações têm início. Um aspecto crucial relativo à adoção do parlamentarismo era aquele que previa, nove meses antes do término do mandato presidencial, a realização de um plebiscito no qual se confirmaria a manutenção dessa forma de governo.

A experiência parlamentarista, implementada às pressas, revela-se um fracasso. A crise econômica conjuga-se então com a quase paralisia no sistema político. Auxiliado por tais circunstâncias e pela campanha que faz, João Goulart consegue não somente antecipar o plebiscito, como também dele sair vitorioso. Em janeiro de 1963, o Brasil voltava a ser presidencialista. Dessa data até março de 1964, assistiremos a uma progressiva radicalização entre os setores nacionalistas e antinacionalistas. [...]

[...] por volta de 1945, a economia brasileira tornava-se predominantemente industrial. A partir dessa época, as possíveis formas de aceleração do processo de desenvolvimento econômico passam a ser o foco de discussões. Pois bem, uma das soluções dessa última forma de desenvolvimento, havia aqueles partidários da reorganização de nosso mundo rural. Para eles, o campo brasileiro mantinha estruturas econômicas pré-industriais, impedindo que a população aí existente fosse integrada ao mercado consumidor. Mais ainda: nossa agricultura, baseada em grandes propriedades e na lavoura de exportação, abastecia precariamente a cidade, elevando o custo de vida e fazendo com que, entre os trabalhadores, sobrassem poucos recursos para a aquisição de produtos industriais. A formação de latifúndios improdutivos tinha ainda outro efeito negativo: desviava capitais de atividades econômicas mais dinâmicas. Em outras palavras, sem a reforma agrária a economia brasileira estaria fadada à estagnação ou, então, a uma crescente dependência em relação aos investimentos estrangeiros.

[...] o debate a respeito da alteração de nossas estruturas agrárias está longe de ser meramente técnico. Em torno dele digladiavam-se, como digladiam-se em nossos dias, interesses econômicos e paixões políticas. Não por acaso, nem mesmo governos transformadores, como os de Getúlio Vargas e Juscelino Kubitschek, implementaram projetos dessa natureza. Na verdade, pode-se afirmar mesmo o inverso. Desde os anos de 1930, a ênfase dada à industrialização levou, na maioria das vezes, a restrições ao crédito rural e a uma política cambial desfavorável aos produtores agrícolas. Esses, por sua vez, mantiveram suas respectivas taxas de lucro aumentando o nível de exploração dos trabalhadores, o que acabou estimulando imigrações urbanas e sentimentos de revolta.

[...] o campo brasileiro nem sempre adotou o trabalho assalariado. Em várias partes, colonos, rendeiros, meeiros e "moradores de favor" é que de fato substituíram o braço cativo. Nesse meio era comum fazendeiros cobrarem prestação de serviços em troca de moradia, alterarem livremente os acordos de partilhas das colheitas ou mesmo mandarem embora trabalhadores sem indenização alguma. Em 1955, a revolta frente a essa situação cristaliza-se na forma de Ligas Camponesas, organizadas por Francisco Julião, advogado com longa experiência em defesa dos trabalhadores e pequenos proprietários rurais. Inicialmente as ligas se estabelecem em Pernambuco e na Paraíba, para depois se espalharem por outros estados brasileiros, como Rio de Janeiro e Goiás. Seu lema era o de levar justiça ao campo através da reforma agrária, "na lei ou na marra", o que implicava invasões de propriedades rurais, criando um clima de terror em parte da elite brasileira.

Outro aspecto interessante dessa nova organização era que ela fugia ao controle das tradicionais instituições populistas, como era o caso dos sindicatos vinculados ao PTB. De fato, pode-se afirmar que as ligas e seu líder eram hostis a João Goulart. Em 1962, essa postura ganha alcance nacional. Francisco Julião, eleito deputado federal pelo PSB, apóia vitoriosamente o prefeito do Recife na disputa pelo cargo de governador. Seu nome: Miguel Arraes. João Goulart enfrenta agora não apenas uma oposição à direita, como à esquerda também; talvez por isso, o presidente tente reforçar a base de apoio popular se aproximando do PCB. [...]

[...]

Ora, de forma simplificada, podemos afirmar que, para o PCB, os membros da UDN e parte do PSD representavam os interesses feudais, ao passo que o PTB aglutinaria os grupos pertencentes à nascente burguesia nacional. Não é de estranhar, portanto, que os comunistas vissem com bons olhos a ascensão de João Goulart, defensor da reforma agrária e hostil ao capital internacional. Além disso, a aproximação do PCB com o PTB atendia a necessidades práticas, como era o caso da legalização partidária dos comunistas. Por outro lado, Goulart procurava tirar vantagens dessa aliança. Um exemplo disso refere-se às mencionadas ligas camponesas. No início dos anos 1960, comunistas e trabalhistas levaram a cabo uma bem-sucedida campanha de filiação sindical dos trabalhadores do campo. Na época do fim do parlamentarismo, enquanto as ligas contavam com 80 mil associados, registrava-se a existência de 250 mil trabalhadores agrícolas sindicalizados, o que enfraquecia o segmento oposicionista Julião-Arraes em sua própria base eleitoral.

A aproximação PTB/PCB também deve ser entendida como um último recurso, frente ao fracasso do presidente em promover uma política moderada. Goulart naufraga em suas articulações com a Frente Parlamentar Nacional, que integrava até mesmo udenistas favoráveis a reformas estruturais da sociedade brasileira. O mesmo ocorre em sua tentativa de criar a União Sindical dos Trabalhadores, confederação destinada a enfraquecer o Comando Geral dos Trabalhadores, controlado pelo PCB. Em termos de política econômica, seu resultado também é medíocre. A equipe de seu primeiro ministério, liderada por San Thiago Dantas e Celso Furtado, tenta, sem sucesso, implementar o plano trienal, que previa a captação de recursos internacionais, assim como austeridade no gasto público, crédito e política salarial. Tal fracasso tem graves repercussões: registra-se, então, uma recessão e uma inflação com taxas jamais vistas.

Cada vez mais isolado entre as elites, Goulart procura apoio na ala radical do trabalhismo, liderada por Leonel Brizola - defensor da mobilização popular como uma forma de pressionar para obter as reformas de base. Em outubro de 1963, as conspirações contra seu governo se proliferam. Pressionado pela ala legalista do exército, o presidente tenta decretar estado de sítio, mas é sabotado no congresso pelo próprio partido, perdendo, assim, o pouco do prestígio que lhe restava junto às forças militares.

Apesar de sua frágil situação, Goulart não reavalia o projeto reformista. Desde a posse, o presidente mantinha uma postura ambígua, ora tentando implementar uma política moderada, ora apelando para a mobilização popular de modo a forçar o congresso a aprovar reformas. Em parte devido à inflação, e também a essa política populista, as greves se multiplicam. Assim, é possível afirmar, por exemplo, que de 1961 a 1963 ocorreram mais movimentos grevistas do que no período compreendido entre 1950 e 1960. No que diz respeito às greves gerais, ou seja, aquelas envolvendo várias categorias sócio-profissionais, o aumento registrado no mesmo período é de 350%. Não é difícil imaginar os transtornos criados nos serviços básicos de saúde e de transportes coletivos por esse tipo de prática, tornando o presidente bastante impopular junto às classes médias e fatias importantes dos trabalhadores. Mais ainda: observava-se, durante seu governo, o declínio acentuado da repressão aos grevistas, dando munição aos que disseminavam, entre as elites, o medo em relação à implantação de uma república sindicalista no Brasil.

No início de 1964, o presidente encaminha ao congresso um projeto de reforma agrária e é derrotado. Através de mobilizações de massa tenta pressionar o poder legislativo. No comício de 13 de março, que reuniu cerca de 150 mil participantes, anuncia decretos nacionalizando refinarias particulares de petróleo e desapropriando terras com mais de 100 hectares que ladeavam rodovias e ferrovias federais. As medidas são acompanhadas por declarações bombásticas, como aquelas de Brizola, defendendo a constituição de um "congresso composto de camponeses, operários, sargentos e oficiais militares". A direita reage a esse tipo de manifestação, organizando, com o apoio da Igreja católica e de associações empresariais, "marchas da família com Deus pela liberdade", através das quais condenava o que julgava ser o avanço do comunismo no Brasil.

Em um lance extremamente infeliz, Goulart estende a arregimentação sindical aos quartéis. Em fins de março, apóia uma revolta de marinheiros, deixando que esses últimos participassem da escolha do novo ministro da Marinha, assim como mobiliza os sargentos do Rio de Janeiro. A quebra da hierarquia militar era o item que faltava para que os conspiradores conseguissem apoio da ala legalista das forças armadas. Em 31 de março é deposto o presidente. A UDN, através de dois governadores, Magalhães Pinto, Minas Gerais, e Carlos Lacerda, Guanabara, participa ativamente no golpe. [...]

PRIORE, Mary Del; VENÂNCIO, Renato Pinto. O livro de ouro da História do Brasil. Rio de Janeiro: Ediouro, 2001. p. 345-351, 353.

segunda-feira, 31 de março de 2014

50 anos do golpe de 64: o que aprendemos?

A verdade ainda que tardia (detalhe). Painel instalado na Câmara. Elifas Andreato

Leia neste blog:

Os militares no poder (1964-1985)


O movimento negro durante a ditadura militar


Operação Condor / Mercosul do terror


O golpe de 64 e a ditadura militar 1: o jogo político


O golpe de 64 e a ditadura militar 2: a luta armada


O golpe de 64 e a ditadura militar 3: a repressão

http://oridesmjr.blogspot.com.br/2013/10/o-golpe-de-64-e-ditadura-militar-3.html

NOTA: Os textos acima citados não representam, necessariamente, o pensamento deste blog. Foram publicados com o objetivo de refletirmos sobre a construção do conhecimento histórico.

quarta-feira, 4 de julho de 2012

Populismo e ditaduras na América Latina

O dever urgente de nossa América é mostrar-se
como é, una em alma e intento, vencedora
veloz de um passado sufocante, manchada
somente com o sangue arrancado às mãos na
luta com as ruínas e com o das veias que nos
deixaram abertas nossos donos.
José Martí, Nuestra América, 1891

Calcula-se que mais de 30.000 pessoas foram mortas durante a ditadura militar na Argentina

[Texto 1] No populismo, o principal motor e instrumento, o povo, é entendido como uma realidade homogênea, sem qualquer especificidade classista. [...] O termo populismo aplicou-se a diversos movimentos políticos e sociais ocorridos em diferentes países da África, Ásia, Europa e América, assumindo ênfase particular na América Latina, especialmente na Argentina, no Brasil e no México. [...] No populismo, [...] o conceito de povo não é racionalizado, predominando sempre a emotividade. Isso possibilita muitas vezes a associação do populismo ao nacionalismo, bem como a existência de líderes carismáticos. [...] Na América Latina, são tidos como governos populistas os de Vargas (1930-1945) e João Goulart (1961-1964), no Brasil; Perón (1946-1955) na Argentina; Lázaro Cárdenas (1934-1940) no México. O populismo apresenta uma grande diversidade, assumindo aspectos peculiares nos países em que surgiu, o que torna muito difícil - senão impossível - uma conceituação genérica, no tempo e no espaço, exceto, talvez, a de que esse fenômeno político é, essencialmente, urbano. AZEVEDO, Antonio Carlos do Amaral. Dicionário de nomes, termos e conceitos históricos. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1999. p. 314.

[Texto 2] Entre o final dos anos 1960 e o início dos anos 1970, diversos países da América Latina reviveram uma de suas trágicas tradições históricas: a instauração de ditaduras militares. Esses países, desde a sua emancipação política, passaram por contínuas crises, fruto das instabilidades internas e de conflitos políticos e sociais. Refletindo a mudança ocorrida no próprio mundo capitalista, à dominação britânica sucedeu-se a exploração norte-americana.

Na América Central, a presença dos Estados Unidos começou a se verificar já no século XIX, por meio da imposição e deposição de governantes, conforme os interesses da Casa Branca. A dominação política, além de razões estratégico-militares, atendia também a interesses de empresas norte-americanas, que se tornaram proprietárias de imensas áreas de terras, nas quais produziam frutas e gêneros tropicais ou exploravam recursos minerais. As riquezas eram assim enviadas para fora, impedindo um desenvolvimento local auto-sustentado e voltado à maioria da população. Geralmente os capitais estrangeiros se associavam às elites locais. Estas formavam uma oligarquia privilegiada e repartiam entre seus integrantes todos os benefícios. Por isso mesmo, estavam muito pouco interessadas em alterar esse quadro e, para deter os grupos que lhes faziam oposição, usavam da violência sem nenhuma hesitação.

As ditaduras militares, instaladas na maioria dos países da América Latina, ocorreram em resposta ao crescimento das práticas populistas, que exacerbaram diversas contradições sociais. Durante o processo de industrialização desses países, ocorrido a partir dos anos 1930, formaram-se novos setores sociais, que se transformaram em agentes históricos importantes: de um lado, a classe operária, cada vez mais numerosa e atuante; de outro, a classe média, constituída por profissionais liberais, técnicos e trabalhadores especializados, além de funcionários públicos. Esses grupos faziam reivindicações aos governantes, visando sua participação nos destinos do país. Em razão das conveniências políticas, parte dessas demandas era atendida. Além disso, os governos, assumindo o papel de agentes da modernização, usavam um forte esquema de propaganda política, ressaltando seu compromisso com o desenvolvimento econômico. Para tanto, difundiam o mito da conciliação nacional, que procurava negar a ideia de confronto político entre as classes, e acenavam com reformas sociais. Com bases de sustentação heterogêneas e necessitando de apoio popular - cada vez mais importante para a sobrevivência dos líderes políticos, especialmente nos centros urbanos -, os governos começaram a fazer concessões, vistas com reserva pelos grupos dominantes, às camadas populares. Com o apoio de parte da classe média, as camadas populares intensificaram suas reivindicações, exigindo aprofundamento nos programas de reformas. Vários grupos de intelectuais e estudantes defendiam inclusive a ideia de uma revolução, considerada o único caminho possível para se promover, de fato, um desenvolvimento que atendesse à maioria do povo.

Nesse cenário de crescente enfrentamento, as elites, sob o pretexto de que fosse garantida a ordem, mais uma vez recorreram aos militares. Usando o bordão da necessidade de "eliminar a ameaça comunista", tão em voga na época, as ditaduras instalaram-se então em vários países do continente.

Esses governos ditatoriais, contando com a efetiva ajuda norte-americana e submetendo-se às imposições de vários organismos internacionais, como o Fundo Monetário Internacional (FMI), implementaram projetos de desenvolvimento econômico que levaram a expressivos índices de crescimento do PIB. Entretanto, como quase sempre faltava infra-estrutura para atender às novas demandas, capitais públicos passaram a ser investidos, por exemplo, na construção de ferrovias, rodovias, usinas hidrelétricas, em telefonia, siderurgia e outros setores. Quase sempre os capitais vinham de empréstimos estrangeiros, comprometendo os recursos resultantes das exportações. As consequências dessa política foram o endividamento externo e o uso dos recursos públicos em obras muito onerosas, o que fazia faltar dinheiro para a aplicação em setores como habitação, saúde e educação, exatamente num momento em que o crescimento populacional exigia aportes crescentes de recursos nessas áreas. Além disso, o setor das empresas estatais tornou-se muito forte, ganhando imenso poder dentro do próprio Estado.

Nos anos 1980, esse modelo entrou em colapso. A dívida externa exigia enormes sacrifícios para a obtenção de superávits comerciais, o que significou arrocho salarial e uma política fiscal que sacrificava a classe média. Apesar de todo o controle, a classe trabalhadora ampliava seu grau de mobilização, exigindo do governo melhores condições de vida. O uso da violência, particularmente da tortura, para combater a oposição, desgastara os governos diante da opinião pública mundial, e internamente os setores oposicionistas encontraram espaço para expandir-se. Setores que haviam dado sustentação aos regimes militares começaram a questionar se eles de fato eram convenientes na nova conjuntura mundial.


Unámonos como hermanos
que nadie nos vencerá.
Si quieren esclavizarnos, 
jamás lo podrián lograr.
La tierra será de todos
también será nuestro el mar.
Justicia habrá para todos
y habrá también libertad.
Luchemos por los derechos
que todos deben tener.
Luchemos por lo que es nuestro,
de nadie más ha de ser.
Luis Advis, Cantata de Santa Maria de Iquique

Foi nesse contexto que ganharam corpo as lutas pela redemocratização, com o fim da censura, a volta dos partidos políticos, a realização de eleições presidenciais. Aos poucos, foram se fortalecendo o discurso neoliberal e seu programa de modernização econômica, que prevê a diminuição do papel do Estado, sobretudo nas atividades econômicas, e o aumento da atuação do setor privado. A integração latino-americana à economia internacionalizada foi se impondo de diversas formas.


Brasil: campanha pela Anistia

Argentina, Chile, Peru, Brasil e México, cada um com suas especificidades, passaram por processos desse tipo. Vale lembrar que o Chile, antes que ali se instalasse uma das mais truculentas ditaduras do continente, havia experimentado, por curto período, um governo socialista, democraticamente eleito, tendo na presidência Salvador Allende, assassinado durante o golpe militar, em 1973. A Argentina, por sua vez, viveu o episódio da Guerra das Malvinas, travada contra a Inglaterra (1982), um momento decisivo para o fim dos governos militares.


Paredón, paredón, a todos los milicos
que venderon la nación
Estribilho popular de milhares de manifestantes de passeatas, ocorridas em Buenos Aires, em junho de 1982


Cartaz revolucionário chileno

Mais recentemente, vários países latino-americanos têm apostado em projetos de integração econômica como via de superação dos seus problemas sociais e econômicos. [...]

Cuba, Nicarágua e El Salvador tiveram trajetórias distintas na busca pelo socialismo.


"A História não admite erros".
 Ernesto Che Guevara

Em 1959, guerrilheiros cubanos conseguiram pôr fim à ditadura de Fulgêncio Batista, implantando o primeiro governo socialista na América Latina. Como a atuação do novo regime contrariava os interesses capitalistas norte-americanos, o governo dos Estados Unidos, além de ações militares, impôs um pesado bloqueio econômico a Cuba. Diante dessas pressões, Fidel Castro acabou se aproximando da URSS, que, mediante uma política de subsídios econômicos, comprava o açúcar cubano e vendia ao país petróleo e outros produtos a preços mais baixos do que os praticados no mercado mundial. Isso levou o governo cubano a ter recursos para implantar uma grande reforma em toda a estrutura do país.

À medida que a situação econômica da URSS foi ficando mais difícil, impossibilitando a continuidade da política de subsídios, a economia cubana passou também a enfrentar problemas cada vez maiores. Na última década do século XX, esse quadro, aliado ao crescimento da oposição interna e ao aumento das tentativas de fuga da ilha por cubanos em busca de refúgio nos Estados Unidos, criou uma situação quase insustentável ao governo socialista, que iniciou um programa de reformas que admite a entrada de investimentos estrangeiros no país. [...]

A experiência nicaraguense com o socialismo foi ainda mais difícil. Embora tenham derrubado o ditador Anastácio Somoza do poder (1978), os socialistas não conseguiram instaurar um regime estável, capaz de implementar um projeto de construção de uma nova sociedade, pois, com a ajuda norte-americana, setores conservadores retomaram o poder nas eleições de 1989.

Em El Salvador, medidas repressivas conseguiram deter a luta dos grupos guerrilheiros de esquerda, que intensificaram sua ação a partir de 1979, levando o país a uma sangrenta guerra civil que se estendeu até 1992. REZENDE, Antonio Paulo; DIDIER, Maria Thereza. Rumos da história: história geral e do Brasil. São Paulo: Atual, 2005. p. 576-579.

quarta-feira, 20 de junho de 2012

Era Vargas I: revoluções e golpes

Cena da Revolução de 1930. Ao centro, Getúlio Vargas. Foto de Claro Jansson

Para os leitores de jornais da época, o golpe que depôs Washington Luís e, consequentemente, impediu a posse de seu sucessor, Júlio Prestes, parecia ser um típico confronto entre chefes políticos da República Velha. Muitos achavam que o novo governo não duraria, pelo fato de a sustentação política da Revolução de 1930 ser bastante frágil. O movimento [...] havia desafiado o domínio de poderosas oligarquias, a começar pela paulista, formada por influentes fazendeiros e industriais [...].

Para enfrentar tal coligação de interesses, Vargas articulou em torno de si vários grupos que, desde o início da década de 1920, vinham dando mostra de descontentamento frente ao domínio oligárquico. A história política brasileira de 1930 a 1954 passa, então, a ser marcada por uma série de alianças, rupturas, aproximações e perseguições entre o novo presidente e os diversos segmentos da sociedade [...].

[...] em 3 de outubro de 1930 começa a revolução. Os primeiros levantes tiveram como base os estados em que a Aliança Liberal havia melhor se implantado. Assim, nas 24 horas após o início da rebelião, Rio Grande do Sul e Paraíba já estavam dominados. Nos dias seguintes, o mesmo ocorreria no Ceará, em Pernambuco, em Minas Gerais e no Paraná. Como foi possível tão rápido sucesso? Ora, paralelamente aos bandos de jagunços dos grupos dissidentes, os oposicionistas contavam com o fundamental apoio dos militares descontentes. Os políticos da Aliança Liberal, com habilidade, selaram um pacto com os jovens oficiais do exército. Para os tenentistas, a revolução parecia atender a certas expectativas: ela permitiria combater a política oligárquica, através de um governo centralizados, além de garantir a muitas vezes anistia aos militares que haviam participado das revoltas ocorridas entre 1922 e 1927.

Duas semanas após o início do movimento, já havia sido submetida parte do território paulista. A revolução avançava agora em direção ao Rio de Janeiro. A situação era de tal maneira favorável aos revoltosos que a cúpula do exército se apressou, ela própria, a depor [...] o presidente Washington Luís. Os generais davam assim um golpe dentro do golpe [...].

A partir dessa data tem início a presidência de Getúlio Vargas. Contudo, ela parecia destinada a durar pouco. Já nos primeiros dias, o novo presidente enfrentou forte oposição paulista. [...] Segundo os democratas paulistas, a finalidade do governo provisório era garantir a reforma política através da convocação de uma assembléia constituinte.

Apoiado nos velhos tenentistas e nos novos generais, Getúlio Vargas dava a entender que tal convocação abriria caminho para o retorno das oligarquias ao poder. Descontentando ainda mais o PD, Vargas escolhe um membro das fileiras tenentistas como interventor de São Paulo. [...] Esses políticos também articulam-se com grupos políticos do Rio Grande do Sul e de Minas Gerais, descontentes com os rumos do governo provisório. Nessa altura dos acontecimentos, Getúlio cede às pressões, convocando para breve a assembléia constituinte. [...] Em julho de 1932, os paulistas revelam do que seriam capazes para defender uma constituinte liberal: pegam em armas contra o governo. [...]

A denominada Revolução Constitucionalista, embora derrotada, alcançou parte importante de seus objetivos. No ano seguinte a seu término, além da confirmação da convocação da assembléia constituinte, os paulistas conseguiram influenciar na escolha do interventor local [...]. O mérito de Getúlio foi ter conseguido permanecer no poder. Sua situação, porém, era frágil. [...] O presidente teve de aceitar uma constituição de cunho liberal, que em muito restringia seu poder. [...]

É nesse contexto que o futuro ditador aproxima-se mais e mais do exército. A instituição, além de abrangência nacional, tinha o poder de fogo contra as oligarquias [...]. No entanto, as forças armadas continuaram divididas. Uma parcela dos antigos tenentes havia sido integrada ao governo provisório, outra parte permaneceu na oposição, radicalizando cada vez mais suas posições políticas. Exemplo disso foi Luís Carlos Prestes. No ano em que findou a revolta tenentista que levava seu nome - Coluna Prestes -, o Partido Comunista do Brasil, futuro PCB, começou a contatá-lo. Tal agremiação, nascida em 1922, era, em grande parte, resultado do impacto político da Revolução Russa. Pela primeira vez, o comunismo deixava se ser uma utopia distante [...] para se transformar em uma forma de governo [...].

[...] Entre 1917 e 1922, assiste-se à progressiva conversão de um grande número de anarquistas e socialistas brasileiros às concepções leninistas. [...]

Nesse contexto, a dissidência radical tenentista passa a ser vista como aliada em potencial do PCB, que, para selar tal aproximação, cria em 1929 o Comitê Militar Revolucionário. Apesar desses esforços, Prestes recusa-se inicialmente a se filiar ao partido. Porém, ao longo de 1930, sua posição política irá se alterar, a ponto de, no ano seguinte, rumar para o exílio em Moscou, de onde retornará como membro do PCB, em 1934. Junto a ele ingressam no partido, importantes lideranças do antigo movimento tenentista [...], além de uma massa silenciosa que permaneceu nos quartéis e que será protagonista do Levante Comunista ocorrido no ano seguinte.

Entre 1928 e 1935, observa-se, portanto, o surgimento, no interior do PCB, de uma esquerda de origem militar. Nessa última data, os comunistas brasileiros, acompanhando a tendência internacional do movimento, implementam uma política de frente popular, que, no Brasil, recebeu a designação de Aliança Nacional Libertadora (ANL). Tratava-se não só de uma aproximação com os grupos socialistas e nacionalistas, antiimperialistas e contrários ao nazi-fascismo, como também de uma tentativa de defesa das camadas populares frente à crise econômica de 1929. [...] Contudo [...] a política frentista da ANL apresentava desde seu início um forte desequilíbrio a favor dos comunistas. [...] O PCB [...] assumiu posturas cada vez mais radicais contra Getúlio Vargas, abrindo caminho para que fosse decretado, em julho de 1935, o fechamento de nossa primeira experiência de front populaire. Extinta a ANL, os comunistas [...] partem para o confronto com o governo federal. Em novembro de 1935 [...] os quartéis se levantam contra Getúlio Vargas. Em Natal, no Recife e no Rio de Janeiro, os conflitos acabam resultando em mortes de oficiais e soldados.

Com oportunismo, Getúlio Vargas explora o novo momento político. A quartelada serve de pretexto para perseguição não só de comunistas como também de grupos que não pertenciam à ANL, mas faziam oposição ao governo; entre eles havia anarquistas remanescentes, sindicalistas independentes e até mesmo liberais. Mais importante ainda: a revolta consolida a aliança entre o presidente e as forças armadas. [...] Os comunistas passaram a ser vistos como inimigos viscerais, enquanto isso, as fileiras do Exército são alvo de um escrupuloso expurgo: cerca de 1.100 oficiais e praças são expulsos em razão de posições políticas. [...]

Apoiado nas forças armadas, Vargas também prepara caminho para decretar o Estado Novo. Em 1937, faz veicular pela imprensa a existência do Plano Cohen, suposta conspiração comunista, que acabou servindo de justificativa para o golpe. Tal era o plano sabidamente falso, de autoria de grupos de extrema-direita, que nele previa-se, por exemplo, o desrespeito sistemático "à honra e aos sentimentos mais íntimos da mulher brasileira", ou seja, o estupro generalizado.

Sob a alegação de que uma nova intentona estava sendo tramada, Getúlio revoga a constituição sancionada três anos antes. O golpe, porém, contrariava importantes interesses políticos, que levariam, alguns anos mais tarde, o Estado Novo ao colapso. Para 1938 haviam sido previstas eleições presidenciais. Portanto, no momento em que Getúlio impunha seu governo ditatorial, três candidatos já haviam sido lançados: Armando de Salles Oliveira, congregando facções políticas paulistas, gaúchas, assim como segmentos de oligarquias baianas e pernambucanas; José Américo de Almeida, representando grupos políticos de Minas Gerais, Paraíba e Pernambuco, além de facções oligárquicas de São Paulo, Bahia e Rio Grande do Sul; e Plínio Salgado, chefe da Ação Integralista Brasileira, versão nacional do fascismo europeu.

Os dois primeiros candidatos articularam protestos na Bahia, em Pernambuco e no Rio Grande do Sul [...]. O candidato integralista tem uma posição bem diversa, procurando uma aproximação com o ditador, o que não causava surpresa uma vez que várias características do Estado Novo lembravam as formas de governo nazi-fascistas. A tônica anti-semita era uma delas. O Plano Cohen, por exemplo, era muitas vezes definido como uma conspiração judaico-comunista. Mais importante ainda do que a retórica racista eram os objetivos do golpe. Previam-se, por exemplo, o fechamento do congresso, a extinção dos partidos políticos e a criação de um sistema centralizado de poder. Em outras palavras, era a ditadura contra as oligarquias, a ditadura contra os comunistas, a ditadura contra os democratas liberais.  Contudo, a tentativa de aproximação com o ditador não só falhou, como também não impediu o fechamento da Ação Integralista Brasileira. Tal ação levou os integralistas a implementarem, em 1938, um novo golpe contra Getúlio. Seu fracasso permitiu ao ditador fazer outros expurgos nas forças armadas, excluindo agora os segmentos tenentistas que haviam se encaminhado para o radicalismo de direita. Desta forma, entre 1937 e 1945, Getúlio Vargas, com a capa institucional que lembrava os governos fascistas europeus, torna-se um caudilho em escala nacional. [...]

PRIORE, Mary Del; VENÂNCIO, Renato Pinto. O livro de ouro da História do Brasil. Rio de Janeiro: Ediouro, 2001. p. 311-316, 318-319.

sexta-feira, 2 de março de 2012

A Nicarágua e a Revolução Sandinista

Cartaz da Revolução Sandinista

Desde a segunda metade do século XIX os Estados Unidos pretenderam abrir um canal, através da América Central, ligando o Atlântico ao Pacífico. Essa foi uma das razões que levaram os governantes norte-americanos a intervir na Nicarágua. Recorrendo à política do Big Stick (1912), os EUA estabeleceram um protetorado sobre o país centro-americano e impuseram o Tratado Bryan-Chamorro, assegurando-lhes o direito perpétuo de construir um canal e uma base naval em território nicaraguense (1916).

Embora a construção nunca fosse realizada, a ocupação militar (1912-1925) facilitou a penetração dos capitais norte-americanos, controlando ferrovias, mineração do ouro, bancos e parte da produção de café e de criação de gado.

A retirada dos marines (fuzileiros navais) não trouxe a estabilidade por muitos desejada: o país mergulhou na guerra civil em que se defrontavam liberais e conservadores. Novamente retornaram os marines e mais uma vez ocuparam a Nicarágua (1926-1933).

Foi então que se projetou Augusto César Sandino, de origem camponesa e convertido em líder da resistência popular contra a dominação estrangeira. Organizando o Exército Defensor da Soberania Nacional e adotando a guerrilha como tática de luta, Sandino acabou forçando os invasores a abandonar o país (1933).

O fim da ocupação militar coincidiu com o início da Política da Boa Vizinhança, empreendida por Franklin Roosevelt, recém-empossado como presidente dos EUA, que sofriam os efeitos da Crise de 1929. Os norte-americanos, contudo, haviam estruturado a Guarda Nacional, força militar profissional, encarregada de garantir a continuidade da aliança das oligarquias nicaraguenses com os capitais estadunidenses. Seu comandante era Anastácio Somoza Garcia, iniciador de uma das mais longas, corruptas e sangrentas ditaduras da América Latina.

Atraído a um encontro com os governantes da Nicarágua, Sandino foi preso e fuzilado por ordem de Somoza, que também mandou massacrar cerca de 300 sandinistas (1934).

Apoiado na Guarda Nacional, nas oligarquias locais e no capital norte-americano, Anastácio Somoza Garcia deu um golpe de Estado, instalando um governo que consolidou o modelo capitalista agrário exportador (1937-1956). Neste período, a repressão política manteve sufocada a oposição, ao mesmo tempo em que todos os processos foram usados para enriquecer o patrimônio da família Somoza [...].

Na década de 1950, a economia nicaraguense foi dominada por novo produto: o algodão, cuja exportação enriqueceu a família Somoza e amplos setores da oligarquia agrária. [...]

Anastácio Somoza Garcia acabou morrendo, após ser baleado por um poeta que pretendia acabar com a tirania no país.

A continuação do Somozismo foi assegurada com a designação de Luís Somoza Debayle para a Presidência (1956-1963), que conservou Anastácio Somoza Debayle no comando da Guarda Nacional. Os dois eram filhos do ditador assassinado.

Em seu governo, o segundo Somoza manteve a violência como prática usual contra a oposição, mas a vitória da Revolução Cubana estimulou a formação da Frente Sandinista de Libertação Nacional (FSLN), fundada por estudantes universitários, como Carlos Fonseca Amador e Tomás Borge (1961). Tomando como princípios básicos a luta anti-imperialista, a destruição do Somozismo e a adoção da guerrilha como forma de luta, a FSLN procurou ampliar suas bases de sustentação junto ao proletariado e ao campesinato.

[...]

A ascensão ao governo de Anastácio Somoza Debayle (1967-1979) marcou o apogeu e o fim do Somozismo. Neste período, os Somoza praticamente dividiram o controle da economia nicaraguense com o capital norte-americano, o que reduziu as possibilidades de ação da burguesia da Nicarágua. A concentração de riqueza pelos Somoza intensificou-se a partir de 1972: a família não hesitou em se apoderar dos recursos internacionais enviados para ajudar a reconstrução de Manágua, arrasada por violento terremoto (1972). Além do mais, a repressão governamental contra os opositores também não poupava setores moderados da Igreja e da burguesia [...].

Cartaz da Revolução Sandinista

A conjuntura internacional igualmente contribuía para enfraquecer a ditadura Somoza: o governo Jimmy Carter (1977-1981) levantava a bandeira dos direitos humanos, defendia a democracia e condenava as ditaduras, o que resultou na redução da ajuda financeira e militar dos EUA. Além disso, inúmeros Estados enviavam auxílio à FSLN (armas, munições, medicamentos etc.), destacando-se o Panamá, Venezuela, Costa Rica, Cuba, Alemanha Ocidental, França...

[...]

Criando um comando nacional conjunto, onde se destacava Daniel Ortega, a FSLN intensificou a insurreição revolucionária contra a Guarda Nacional. Além do mais, se fortaleceu com apoio de amplos setores da Igreja e da burguesia, reunidos no Grupo dos Doze, que consideravam ser a ação armada a única forma de acabar com o Somozismo.

Em 19 de julho de 1979, a FSLN tomou Manágua, a capital do país, dois dias após a fuga de Somoza para os EUA. Terminava a primeira etapa da Revolução Sandinista, mas a herança somozista era vultosa: o país estava arrasado, com cidades e estradas destruídas, colheitas e equipamentos perdidos, uma dívida externa atingindo um milhão e seiscentos mil dólares, cerca de 40 mil mortos.

A segunda etapa da Revolução foi empreendida pela FSLN, que organizou a Junta de Reconstrução Nacional, governo pluriclassista composto de cinco membros representantes dos empresários, dos profissionais liberais e dos sandinistas.

[...]

O governo sandinista imediatamente promoveu a desapropriação dos bens dos Somoza, a dissolução da Guarda Nacional, a criação do Exército Popular Sandinista, a nacionalização dos bancos, companhias de seguro e das minas, além da estatização da plataforma continental e da organização dos Comitês de Defesa Sandinista.

Reformas estruturais foram posteriormente empreendidas, destacando-se:

* a Cruzada Nacional de Alfabetização (1981), reduzindo a 10% o índice de analfabetismo [...];
* a Reforma Agrária (1981) [...];
* a Reforma Urbana (1982) [...];
* o desenvolvimento da saúde pública, através da melhoria da assistência médica, do combate a tradicionais epidemias [...].

A reconstrução e a reestruturação da Nicarágua foram dificultadas pela agressão dos Estados Unidos, dirigida pelo governo Reagan. O imperialismo norte-americano atuou através da realização de manobras militares e navais junto às fronteiras nicaraguenses, da colocação de minas nos portos do país (1985), do financiamento de atos de sabotagem e de atentados terroristas, a fim de desestabilizar  a sociedade sandinista [...].

Reunindo dissidentes exilados e, sobretudo, antigos membros da Guarda Nacional, os contras receberam cerca de 170 milhões de dólares dos EUA e atacaram a Nicarágua, partindo do território de Honduras. Embora não tivessem apoio da população, os contras provocaram a morte de cerca de doze mil nicaraguenses, causaram prejuízos materiais incalculáveis e protestos internacionais diversos.

O Grupo de Contadora, reunindo México, Panamá, Venezuela e Colômbia (1983), além de condenar a política norte-americana, fez esforços no sentido de restabelecer a paz na América Central, onde a Nicarágua sandinista constituía o exemplo de uma sociedade empenhada em romper as amarras do passado e de lutar no presente para construir um futuro baseado na justiça e no respeito ao homem.

A pressão norte-americana acabou comprometendo a frágil economia nicaraguense: a inflação disparou, os produtos de consumo escasseavam. O descontentamento popular se expressou na vitória eleitoral de Violeta Chamorro, candidata presidencial que teve apoio dos Estados Unidos e de 14 partidos de oposição (1990).

O novo governo logo recebeu ajuda de 300 milhões de dólares dos EUA, que também suspenderam o embargo econômico e outras medidas atentatórias à soberania nicaraguense. Contudo, teve de enfrentar a ameaça de ressurgir a guerra civil, devido às contradições e hostilidades entre antigos contras e o controle que os sandinistas exerciam sobre as Forças Armadas. A pacificação tornou-se complicada porque sem terras e sem empregos era difícil a reintegração de ex-combatentes à vida civil.

O enfraquecimento do governo ficou claro quando a Assembléia Nacional reformulou a Constituição, proibindo a reeleição presidencial e reduzindo o mandato do presidente de seis para cinco anos.

As crises se sucederam com a anulação da reforma agrária, com a destituição do general Humberto Ortega do comando do Exército Popular Sandinista, com a falta de alimentos, com a inflação e com as múltiplas pressões nacionais. Buscando uma saída, a presidenta Violeta Chamorro empreendeu a privatização de empresas estatais, indenizou ex-proprietários pelo confisco de suas terras e reconheceu os títulos de propriedade fundiária que beneficiavam cerca de 200 mil famílias camponesas.

Essas medidas contribuíram para melhorar a vida econômica e social, possibilitando a vitória de Arnoldo Alemá, da Aliança Liberal, nas eleições presidenciais de 1996.

[...]

Já em 2007, Daniel Ortega, líder da FSLN, acabou voltando à presidência em disputadas eleições no país.

Desde então, a Nicarágua integrou-se à frente antineoliberal e anti-imperialista formada pela Venezuela, Bolívia, Equador e Cuba.

AQUINO, Rubim Santos Leão de et alli. História das sociedades: das sociedades modernas às sociedades atuais. Rio de Janeiro: Imperial Novo Milênio, 2010. p. 624-631.

sexta-feira, 3 de junho de 2011

Os militares no poder (1964-1985)

Cotidiano:resistência

"Hoje eu quero
um poema transparente,
semelhante à lágrima
que iludiu meus olhos desatentos,
[...] Um poema capaz de liberdade.
Capaz de falar nesta hora noturna
quando todos dormem, e o silêncio oficial
amordaçou as cantigas do meu povo."

"Tive a terra,
não tenho,
tive a casa,
não tenho,
tive uma pátria,
venderam,
tive caminhos,
foram fechados,
tive mãos,
deceparam [...]"
("Poemas da noite", Pedro Tierra)

Tanques do exército nas ruas após o golpe de 31 de março de 1964.


"Em 1964, a nação recebeu um tiro no peito. Um tiro que matou a alma nacional. Os personagens que pareciam fazer parte da história natural brasileira, ou da História do Brasil como nós imaginávamos, esses personagens sumiram. Ou fora do poder, ou presos e mortos. E em seu lugar surgiram outros, que eu nunca sequer percebera existir. Aí me veio a percepção clara de que o Brasil tinha mudado de regime." (Betinho apud BARROS, Edgard Luiz de. Os governos militares. São Paulo: Contexto, 1991. p. 13.)


Cotidiano: repressão

"Não era mole aqueles dias
De percorrer de capuz
A distância da cela
À câmara de tortura
E nela ser capaz de dar urros
Tão feios como nunca ouvi.
Havia dias que as piruetas do pau-de-arara
Pareciam ridículas e humilhantes;
E, nus, ainda éramos capazes de corar
Ante as piadas sádicas dos carrascos.
Havia dias em que todas as perspectivas
Eram pra lá de negras
E todas as expectativas
Se resumiam à esperança algo cética
De não tomar pancadas nem choques elétricos.
Havia outros momentos
Em que as horas se consumiam
À espera do ferrolho da porta que conduzia
Às mãos dos especialistas
Em nossa agonia
Houve ainda períodos
Em que a única preocupação possível
Era ter papel higiênico
Comer alguma coisa com algum talher
Saber o nome do carcereiro do dia
Ficar na expectativa da primeira visita
O que valia como um aval da vida
Um carimbo de sobrevivente
E um status de prisioneiro político.
Depois a situação foi melhorando
E foi possível até sofrer
Ter angústia, ler
Amar, ter ciúmes
E todas essas outras bobagens amenas
Que aí fora reputamos
Como experiências cruciais."
(Alex Polari,  "Os Primeiros Tempos")

Castelo Branco e militares: arrogância e prepotência

Hoje você é quem manda
Falou, tá falado
Não tem discussão, não.
A minha gente hoje anda
Falando de lado e olhando pro chão
Viu?
Você que inventou esse Estado
Inventou de inventar
Toda escuridão
Você que inventou o pecado
Esqueceu-se de inventar o perdão

Apesar de você
amanhã há de ser outro dia
Eu pergunto a você onde vai se esconder
Da enorme euforia?
Como vai proibir
Quando o galo insistir em cantar?
Água nova brotando
E a gente se amando sem parar

Quando chegar o momento
Esse meu sofrimento
Vou cobrar com juros. Juro!
Todo esse amor reprimido,
Esse grito contido,
Esse samba no escuro

Você que inventou a tristeza
Ora tenha a fineza
de "desinventar"
Você vai pagar, e é dobrado,
Cada lágrima rolada
Nesse meu penar

Apesar de você
Amanhã há de ser outro dia.
Ainda pago pra ver
O jardim florescer
Qual você não queria

Você vai se amargar
Vendo o dia raiar
Sem lhe pedir licença

E eu vou morrer de rir
E esse dia há de vir
antes do que você pensa
Apesar de você

Apesar de você
Amanhã há de ser outro dia
Você vai ter que ver
A manhã renascer
E esbanjar poesia

Como vai se explicar
Vendo o céu clarear, de repente,
Impunemente?
Como vai abafar
Nosso coro a cantar,
Na sua frente.
Apesar de você

Apesar de você
Amanhã há de ser outro dia.
Você vai se dar mal, etc e tal
("Apesar de você", Chico Buarque)

Militares impedem manifestação pró-Jango (Rio de Janeiro)

[...] o Golpe de 1964 pode ser acusado de muitas coisas, menos de ter sido uma mera quartelada. Há muito tal intervenção era discutida em instituições, como a Escola Superior de Guerra (ESG), criada em 1948, ou o Instituto de Pesquisa e Estudos Sociais (IPES), fundado em 1962, por lideranças empresariais. Outro indício de que o golpe já vinha sendo tramado há tempos ficou registrado nos documentos da operação "Brother Sam", através da qual se previa, caso houvesse resistência, que o governo norte-americano "doaria" 110 toneladas de armas e munições ao exército brasileiro. Por ser fruto desse planejamento prévio, não é surpreendente que a instituição militar apresentasse um projeto próprio de desenvolvimento para o país - projeto, aliás, compartilhado pela maioria do empresariado nacional. Em larga medida, consistia em retomar o modelo implantado em fins dos anos de 1950, aquele que definimos como tripé, baseado na associação entre empresas nacionais privadas, multinacionais e estatais.

Cotidiano: repressão

No sentido de tornar esse modelo mais "eficaz", foi meticulosamente organizada a repressão ao movimento sindical e à oposição política. Contudo, a implantação da ditadura não ocorreu imediatamente após a deposição do presidente. Os conspiradores dependiam dos grupos legalistas, muitos deles defensores do retorno dos civis ao poder nas próximas eleições presidenciais. Além disso, a ausência de resistência - em 3 de abril de 1964, João Goulart rumava calmamente para o exílio no Uruguai - desarmou momentaneamente a "linha dura". Mas isso durou pouco. Em 1965, graças às "depurações" nas forças armadas, os militares identificados com o General Costa e Silva já tinham força suficiente para alterar o rumo da "revolução". A derrota que enfrentaram nas urnas alimentou ainda mais essa tendência. No referido ano, candidatos oposicionistas venciam em estados e cidades importantes, como Guanabara, Minas Gerais e a capital paulista. Boa parcela dos brasileiros demonstrava assim seu descontentamento frente ao governo instituído em 31 de março. Como resposta, foram impostos os Atos Institucionais nº 2 e nº 3, que aboliam os partidos existentes e as eleições diretas para presidente, governador e prefeitos de capitais. Agora não restavam dúvidas, os militares tinham vindo para ficar...


Cotidiano: repressão

O governo nascido do Golpe de 1964 foi definido certa vez como o "Estado Novo da UDN". Essa definição tem sua razão de ser. Durante duas décadas, políticos udenistas - representantes de parcelas importantes das elites empresariais e agrárias - dificilmente chegaram a conseguir apoio de mais de 30% do eleitorado brasileiro. Entretanto, através da ditadura militar, puderam ver implementadas várias de suas propostas em termos de política econômica, como, por exemplo, a diminuição do valor real dos salários, a abertura ampla da economia aos investimentos estrangeiros, e a recessão nos primeiros meses após o golpe.

Cotidiano: resistência

A aliança entre udenistas e militares teve ainda outras repercussões. Apesar de oportunistas e golpistas, os partidários da UDN eram admiradores de democracias liberais. Tal posicionamento obstaculizou a adoção de um modelo fascista no Brasil. Mesmo nos momentos de maior intolerância, a ditadura militar, através da rotatividade dos presidentes, evitou o caudilhismo, não deixando de reconhecer a legalidade da oposição parlamentar. A extinção dos partidos tradicionais, em 1965, foi acompanhada da criação de duas novas agremiações: Aliança Renovadora Nacional (ARENA) e Movimento Democrático Brasileiro (MDB). Esse último representava boa parte dos grupos que lutavam pelo retorno à normalidade democrática.

Cotidiano: resistência

Tem dias que a gente se sente
Como quem partiu ou morreu

A gente estancou de repente

Ou foi o mundo então que cresceu...

A gente quer ter voz ativa
No nosso destino mandar
Mas eis que chega a roda viva
E carrega o destino prá lá ...
Roda mundo, roda gigante
Roda moinho, roda pião
O tempo rodou num instante
Nas voltas do meu coração...
A gente vai contra a corrente
Até não poder resistir
Na volta do barco é que sente
O quanto deixou de cumprir
Faz tempo que a gente cultiva
A mais linda roseira que há
Mas eis que chega a roda viva
E carrega a roseira prá lá...
Roda mundo, roda gigante
Roda moinho, roda pião
O tempo rodou num instante
Nas voltas do meu coração...
A roda da saia mulata
Não quer mais rodar não senhor
Não posso fazer serenata
A roda de samba acabou...
A gente toma a iniciativa
Viola na rua a cantar
Mas eis que chega a roda viva
E carrega a viola prá lá...
Roda mundo, roda gigante
Roda moinho, roda pião
O tempo rodou num instante
Nas voltas do meu coração...
O samba, a viola, a roseira
Que um dia a fogueira queimou
Foi tudo ilusão passageira
Que a brisa primeira levou...
No peito a saudade cativa
Faz força pro tempo parar
Mas eis que chega a roda viva
E carrega a saudade prá lá ...
Roda mundo, roda gigante
Roda moinho, roda pião
O tempo rodou num instante
Nas voltas do meu coração..
("Roda viva", Chico Buarque)

Dirigentes do PC do B mortos pelo Exército na chacina da Lapa, em dezembro de 1976

Os partidários do extinto PCB, de imediato, deram início a uma autocrítica frente ao esquerdismo assumido durante o governo deposto. Porém, tal postura não foi unânime, fazendo com que dirigentes abandonassem o partido, como foram os casos de Carlos Mariguella (ALN) e Apolônio de Carvalho (PCBR). Criticava-se, então, o que se denominava "etapismo", ou seja, uma estratégia que pregava a revolução por etapas, cabendo ao PCB apoiar a burguesia nacional no processo de constituição de uma sociedade democrática, antifeudal e antiimperialista, deixando para um futuro distante a luta pela implantação do socialismo. De acordo com os dissidentes, a estratégia do PCB facilitara a implantação da ditadura, pois subordinara o movimento operário aos acordos da cúpula com as lideranças populistas. [...]

Cotidiano: resistência

A ausência de resistência ao golpe militar fez com que esse tipo de interpretação ganhasse muitos adeptos. Entre 1965 e 1967, amplia-se o número de dissidências, fragmentação que atinge até mesmo as organizações que haviam sido formadas alguns anos antes. [...] 

Cotidiano: repressão

Entre a esquerda oposicionista nascem, então, propostas de luta armada. Há, sem dúvida, inúmeros matizes entre um grupo e outro. No entanto, a perspectiva de uma revolução iminente parece ser um traço comum às diversas siglas. [...] 

O estudante Edson Luis de 16 anos é metralhado no restaurante Calabouço (Rio de Janeiro). A morte de Edson Luis virou um marco na luta estudantil contra a ditadura.


A novidade do período era que os grupos revolucionários recém-formados recrutavam seus militantes na classe média. Havia mesmo, em partidos que aderiram à luta armada, o predomínio de estudantes e professores universitários. Esse segmento, segundo os processos da justiça militar, respondia por 80% do Movimento de Libertação Popular (MOLIPO), 55% do Movimento Revolucionário 8 de outubro (MR-8) e 53% do Comando de Libertação Nacional (COLINA) [...].


Missa na Candelária: repressão

Pai! Afasta de mim esse cálice

Pai! Afasta de mim esse cálice
Pai! Afasta de mim esse cálice
De vinho tinto de sangue

Pai! Afasta de mim esse cálice
Pai! Afasta de mim esse cálice
Pai! Afasta de mim esse cálice
De vinho tinto de sangue

Como beber dessa bebida amarga
Tragar a dor e engolir a labuta?
Mesmo calada a boca resta o peito
Silêncio na cidade não se escuta
De que me vale ser filho da santa?
Melhor seria ser filho da outra
Outra realidade menos morta
Tanta mentira, tanta força bruta

Pai! Afasta de mim esse cálice
Pai! Afasta de mim esse cálice
Pai! Afasta de mim esse cálice
De vinho tinto de sangue

Como é difícil acordar calado
Se na calada da noite eu me dano
Quero lançar um grito desumano
Que é uma maneira de ser escutado
Esse silêncio todo me atordoa
Atordoado eu permaneço atento
Na arquibancada, prá a qualquer momento
Ver emergir o monstro da lagoa

Pai! Afasta de mim esse cálice
Pai! Afasta de mim esse cálice
Pai! Afasta de mim esse cálice
De vinho tinto de sangue

De muito gorda a porca já não anda (Cálice!)
De muito usada a faca já não corta
Como é difícil, Pai, abrir a porta (Cálice!)
Essa palavra presa na garganta
Esse pileque homérico no mundo
De que adianta ter boa vontade?
Mesmo calado o peito resta a cuca
Dos bêbados do centro da cidade

Pai! Afasta de mim esse cálice
Pai! Afasta de mim esse cálice
Pai! Afasta de mim esse cálice
De vinho tinto de sangue

Talvez o mundo não seja pequeno (Cale-se!)
Nem seja a vida um fato consumado (Cale-se!)
Quero inventar o meu próprio pecado (Cale-se!)
Quero morrer do meu próprio veneno (Pai! Cale-se!)
Quero perder de vez tua cabeça! (Cale-se!)
Minha cabeça perder teu juízo. (Cale-se!)
Quero cheirar fumaça de óleo diesel (Cale-se!)
Me embriagar até que alguém me esqueça (Cale-se!)
("Cálice", de Chico Buarque e Gilberto Gil)



Outro dado importante que a documentação da repressão revelou foi a predominância de menores de 25 anos nos diversos agrupamentos revolucionários. O aparecimento de numerosos jovens, não necessariamente pobres ou miseráveis, dispostos a lutar contra os poderes constituídos não era um fenômeno exclusivamente brasileiro. De certo modo, isso traduzia determinadas mudanças que estavam ocorrendo na juventude em escala mundial.



Prisões de 700 líderes estudantis no Congresso da UNE em Ibiúna (São Paulo).


[...]


[...] A partir dos anos de 1940, o mundo estava sendo sacudido por revoluções nacionalistas na Ásia e na África. O impossível parecia estar sendo feito: países pobres do terceiro mundo conseguiam vencer seus antigos colonizadores europeus. Coroando essas transformações, em 1959, um pequeno grupo de guerrilheiros fazia uma revolução em Cuba, enfrentando a oposição do tradicional partido comunista local e dos Estados Unidos, que já nessa época desfrutavam o título de maior potência econômica e militar do mundo. Mais ainda: a revolução era um fenômeno da alta cultura. Entre seus partidários estavam refinados romancistas, filósofos e artistas europeus e norte-americanos. No Brasil, algumas das produções da época, extraordinariamente bem-sucedidas - o cinema de Glauber Rocha, a música de João Gilberto, o teatro de Augusto Boal - revelavam o lado positivo da "ruptura" radical com o passado. [...]


Ao longo dos anos de 1960, tal visão foi difundida por meio do cinema, do teatro e do jornalismo, assim como por palestras e debates promovidos pelos Centros Populares de Cultura da União Brasileira dos Estudantes (CPC-UNE). [...]


1968: passeata dos Cem Mil (Rio de Janeiro)

Caminhando e cantando

E seguindo a canção
Somos todos iguais
Braços dados ou não
Nas escolas, nas ruas
Campos, construções
Caminhando e cantando
E seguindo a canção

Vem, vamos embora
Que esperar não é saber
Quem sabe faz a hora
Não espera acontecer

Pelos campos há fome
Em grandes plantações
Pelas ruas marchando
Indecisos cordões
Ainda fazem da flor
Seu mais forte refrão
E acreditam nas flores
Vencendo o canhão

Vem, vamos embora
Que esperar não é saber
Quem sabe faz a hora
Não espera acontecer

Há soldados armados
Amados ou não
Quase todos perdidos
De armas na mão
Nos quartéis lhes ensinam
Uma antiga lição:
De morrer pela pátria
E viver sem razão

Vem, vamos embora
Que esperar não é saber
Quem sabe faz a hora
Não espera acontecer

Nas escolas, nas ruas
Campos, construções
Somos todos soldados
Armados ou não
Caminhando e cantando
E seguindo a canção
Somos todos iguais
Braços dados ou não

Os amores na mente
As flores no chão
A certeza na frente
A história na mão
Caminhando e cantando
E seguindo a canção
Aprendendo e ensinando
Uma nova lição

Vem, vamos embora
Que esperar não é saber
Quem sabe faz a hora
Não espera acontecer
("Pra não dizer que não falei das flores", de Geraldo Vandré)


Cotidiano: mulheres resistem

Vista a partir de hoje, a luta armada parece ser algo ingênuo ou mesmo incompreensível, mas na época, vale lembrar, ela era fortemente marcada pelo sentimento nacional, em um mundo onde revoluções que pareciam "impossíveis" estavam ocorrendo. [...]

Caminhando contra o vento
Sem lenço e sem documento
No sol de quase dezembro
Eu vou...

O sol se reparte em crimes
Espaçonaves, guerrilhas
Em cardinales bonitas
Eu vou...

Em caras de presidentes
Em grandes beijos de amor
Em dentes, pernas, bandeiras
Bomba e Brigitte Bardot...

O sol nas bancas de revista
Me enche de alegria e preguiça
Quem lê tanta notícia
Eu vou...

Por entre fotos e nomes
Os olhos cheios de cores
O peito cheio de amores vãos
Eu vou
Por que não, por que não...

Ela pensa em casamento
E eu nunca mais fui à escola
Sem lenço e sem documento,
Eu vou...

Eu tomo uma coca-cola
Ela pensa em casamento
E uma canção me consola
Eu vou...

Por entre fotos e nomes
Sem livros e sem fuzil
Sem fome, sem telefone
No coração do Brasil...

Ela nem sabe até pensei
Em cantar na televisão
O sol é tão bonito
Eu vou...

Sem lenço, sem documento
Nada no bolso ou nas mãos
Eu quero seguir vivendo, amor
Eu vou...

Por que não, por que não...
Por que não, por que não...
Por que não, por que não...
Por que não, por que não...
("Alegria, Alegria", de  Caetano Veloso)

[...] Em 1967 era dado início a uma série de roubos a banco por parte dos grupos guerrilheiros, processo que se arrasta até o início dos anos de 1970 e resulta em cerca de trezentas instituições atacadas, com a apropriação de mais de 2 milhões de dólares. Na prática, a guerrilha - salvo no caso do Araguaia - não se estenderá ao campo. À medida que o sistema repressivo ia conseguindo realizar prisões, o emprego sistemático da tortura fazia com que mais e mais revolucionários fossem capturados. Em 1969, a própria dinâmica do movimento guerrilheiro é por isso mesmo alterada, passando a ter como objetivo resgatar companheiros das masmorras militares. Os assaltos a bancos vão dando lugar a sequestros - dentre os quais o dos embaixadores norte-americano, alemão e suíço no Brasil - cujo resgate é a libertação de prisioneiros políticos.


Repressão: guerrilha do Araguaia

Alegando a ameaça comunista e acentuando uma tendência de endurecimento, que vinha desde o ano anterior - com a eleição do general Costa e Silva em 25 de maio de 1966 -, o governo militar tende a se tornar cada vez mais ditatorial. Nesse contexto é fortalecida a doutrina de segurança nacional, que tornava prioridade entre as forças armadas a luta contra a ameaça interna e não mais a defesa contra inimigos estrangeiros. Assiste-se também a ampliações das redes de espionagem e de repressão. Paralelamente ao Serviço Nacional de Informações (SNI), criado em 1964, atuam agora outras organizações, como o Centro de Informações da Marinha (CENIMAR), a Operação Bandeirantes (OBAN) e o DOI-CODI [...].


Sucursal do Inferno: Edifício do DOI-CODI em São Paulo. 
(DOI-CODI, sigla de Departamento de Operações  de Informações do Centro de Operações de Defesa Interna: órgão repressor criado pelo regime militar para prender e torturar aqueles que fossem contrários ao regime.)

"[...] Fui levado do Presídio Tiradentes para a Operação Bandeirantes (OB, Polícia do Exército) no dia 17 de fevereiro, terça-feira, às 14:00. O capitão Maurício, que veio buscar-me em companhia de dois policiais, disse: 'Você agora vai conhecer a sucursal do Inferno.'

[...] Ao chegar à OB fui conduzido à sala de interrogatórios. A equipe do capitão Maurício passou a acarear-me com duas pessoas. O assunto se referia ao congresso da UNE, em Ibiúna, em outubro de 1968 [...]. Pouco depois levaram-me para o pau-de-arara.

Dependurado, nu, com mãos e pés amarrados, recebi choques elétricos, de pilha seca, nos tendões dos pés e na cabeça. Eram seis os torturadores, comandados pelo capitão Maurício. Davam-se telefones (tapas nos ouvidos) e berravam impropérios. Isso durou cerca de uma hora [...].

Ao sair da sala, tinha o corpo marcado de hematomas, o rosto inchado, a cabeça inchada e dolorida.

[...] Na quinta-feira, três policiais acordaram-me à mesma hora do dia anterior. De estômago vazio, fui para a sala de interrogatórios. Um capitão, cercado por uma equipe, voltou às mesmas perguntas [...] Sentaram-me na cadeira-do-dragão (com chapas metálicas e fios) e descarregaram choques nas mãos, nos pés, nos ouvidos e na cabeça.

Dois fios foram amarrados às minhas mãos e um na orelha esquerda. A cada descarga eu estremecia todo, como se o organismo fosse se decompor. Da sessão de choques passaram-me ao pau-de-arara. Mais choques, pauladas no peito e nas pernas [...]. Uma hora depois, com o corpo todo sangrando e todo ferido, desmaiei. Fui desamarrado e reanimado [...].

Voltaram às perguntas, batiam em minhas mãos com palmatórias [...]. Era impossível saber qual parte do corpo doía mais: tudo parecia massacrado. Mesmo que quisesse não poderia responder às perguntas: o raciocínio não se ordenava mais." (Testemunho de Tito de Alencar Lima, frade dominicano, preso em 1969. In: AQUINO, Rubim Santos Leão de et alli. Brasil: uma história popular. Rio de Janeiro: Record, 2003. p. 124-125)

O jornalista Vladimir Herzog foi torturado e assassinado nos porões do DOI-CODI de São Paulo em 1975.


Até mesmo a oposição legal deixa de ser aceita. A frente ampla [...] que defendia bandeiras democráticas, como eleições diretas, anistia e nova constituição, é proibida em 1968. A recessão e o declínio do poder de compra dos salários fizeram, por sua vez, com que o movimento sindical renascesse. Greves envolvendo milhares de operários ocorreram em Minas Gerais e São Paulo. No mesmo período, são registradas manifestações estudantis em todo o país, culminando com a Passeata dos Cem Mil, em 26 de agosto de 1968. A resposta dos militares: maior endurecimento do regime. Em 13 de dezembro era assinado o AI-5. O presidente da república pode agora, a bel-prazer, fechar desde câmaras de vereadores até o próprio congresso nacional, pode nomear interventores para qualquer cargo executivo, pode cassar os direitos políticos de qualquer cidadão e pode também suspender o recurso a habeas-corpus.


Cartaz de denúncia de mortos e desaparecidos. Hoje, no Brasil, ainda são 144 os desaparecidos políticos.


"Quase toda a América Latina passaria, nos anos seguintes, pela implantação de regimes ditatoriais. Eles simbolizaram uma espécie de último capítulo na luta entre os setores conservadores e as estruturas nacionalistas-populistas montadas entre as duas guerras mundiais no continente. Não por acaso, as novas ditaduras facilitariam muito a penetração do capital estrangeiro em seus países.


O golpe de 1964 e, depois, o AI-5 puseram abaixo a máquina política construída por Getúlio Vargas. Militares formados de acordo com a doutrina de segurança nacional logo fariam coisa semelhante na Argentina, Uruguai, Peru e, mais tarde, Chile, sempre com o apoio da Casa Branca, interessadíssima em 'combater o comunismo na América Latina'. O continente mergulhava na escuridão." (BRENER, Jaime. Jornal do Século XX. São Paulo: Moderna, 1998. p. 246.)


[...]


Resistência: mães lutam pela libertação de seus filhos presos.


Desde 1972, os movimentos armados urbanos já não existiam mais. A guerrilha, que sobrevivia apenas no Araguaia, havia sido destroçada em 1974. Os vários tentáculos repressivos passavam agora a perseguir grupos que não participaram desse tipo de enfrentamento, como foi o caso do PCB e de membros da Igreja. A subjugação desses organismos repressivos ganha apoio crescente da sociedade, manifestado através da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), da Associação Brasileira de Imprensa (ABI), do Conselho Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) e da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC).


Resistência: Capitão Carlos Lamarca dando instruções ao VPR.

"Três anos de revolta
no Araguaia
A luta na selva,
lavouras abandonadas,
homens, mulheres e crianças
trucidados nos castanhais.
Vilas bombardeadas
e rios envenenados
- o napalm na floresta.
Foi preciso perseguir cada posseiro,
cada castanheiro e cada agricultor
para conter a guerrilha."
(Os rios envenenados, poema de Carlos Amorim)

Cemitério clandestino em São Paulo: desaparecidos políticos da ditadura militar

* A repressão no Brasil. A violência sempre esteve presente na história da Humanidade como instrumento de imposição dos direitos e das vontades dos mais fortes. Na América Latina, esse instrumento foi cotidianamente usado desde a chegada dos europeus e, no período de colonização, como forma de conquistar os índios, escravizando-os e obrigando-os a se submeterem ao seu poder.

Desde aqueles tempos, os direitos humanos jamais foram respeitados e a violência usada pelos detentores do poder político deu fim a muitos indivíduos que se colocaram contra o regime vigente.

Um dos artifícios mais usados para manter a "ordem política" tem sido a tortura. Ela é um meio que serve para obrigar os indivíduos a falar ou a fazer aquilo que outros querem. Além disso, ela serve para destruir psicologicamente os indivíduos, levando-os ao grau máximo da degradação humana.

A tortura foi retomada em grande escala pelas ditaduras militares latino-americanas nas décadas de 1960 e 1970. Ela foi responsável pelo "desaparecimento" de milhares de indivíduos, homens, mulheres e crianças que, em muitos casos, não tinha nenhuma relação com a "briga" política. Além disso, ela deixou a sua marca, tanto física como psicológica naqueles que direta ou indiretamente passaram pelas mãos dos torturadores.

Mesmo hoje, a violência não deixou de ser praticada e os direitos humanos ainda não são respeitados em sua íntegra nos países americanos. Com isso, o poder do mais forte ainda prevalece, calando a boca daqueles que se atrevem a se colocar contra o seu regime.


Cotidiano: repressão

O texto abaixo fala da repressão no Brasil, segundo livro de depoimentos coordenado pelo arcebispo de São Paulo, D. Paulo Evaristo Arns.

Depoimento (em 1977) de Elza Maria Pereira Lianza, 25 anos, engenheira, que esteve presa no Rio de Janeiro: [...] que a interrogada foi submetida a choques elétricos em vários lugares do corpo, inclusive nos braços, nas pernas e na vagina, que o marido da interrogada teve oportunidade de presenciar essas cenas relacionadas com choques elétricos e os torturadores amplificavam os gritos da interrogada, para que os mesmos fossem ouvidos pelo seu marido. 

Depoimento (em 1970) de Apio Costa Rosa, 28 anos, bancário, preso em Belo Horizonte: [...] que em determinada oportunidade foi-lhe introduzido no ânus pelas autoridades policiais um objeto parecido com um limpador de garrafas; que em outra oportunidade essas mesmas autoridades determinaram que o interrogado permanecesse em pé sobre latas, posição em que vez por outra recebia murros, queimaduras de cigarros; que a isso as autoridades davam o nome de Vietnã. que o interrogado mostrou a este Conselho uma marca à altura do abdômem como tendo sido lesão que fora produzida pelas autoridades policiais (gilete).

Depoimento (em 1973) de Maria José de Souza Barros, camponesa, cujo marido foi preso no Ceará: [...] e ainda levaram seu filho para o mato, judiaram com o menino, com a finalidade de dar conta de seu marido; que o menino se chama Francisco de Souza Barros e tem a idade de nove anos; que a polícia levou o menino às cinco horas da tarde e somente voltou com eles às duas da madrugada mais ou menos.

Depoimento (em 1970) de Maria Mendes Barbosa, 28 anos, professora presa em Minas Gerais: [...] nua, foi obrigada a desfilar na presença de todos, desta ou daquela forma, havendo, ao mesmo tempo, o capitão Portela, nessa oportunidade, beliscando os mamilos da interrogada até quase produzir sangue; que, além disso, [...] foi, através de um cacetete, tentada a violação de seu órgão genital; que ainda, naquela oportunidade, os seus torturadores faziam a autopromoção de suas possibilidades na satisfação de uma mulher, para a interrogada, e depois fizeram uma espécie de sorteio para que ela, interrogada, escolhesse um deles. (ARNS, P. Evaristo. Brasil: nunca mais. Petrópolis: Vozes, 1985. p. 40-48.) Citado em: PINSKY, Jaime (org.). História da América através de textos. São Paulo: Contexto: 2004. p. 166-167, 170-171.


Cotidiano: resistência ao AI-5

"Houve uma ditadura no Brasil, a partir de 1964. Em 1968, ela piorou. Seu desmonte se iniciou na segunda metade dos anos 1970, impulsionado por movimentos sociais expressivos - mobilizações populares, crescimento de setores oposicionistas, greves e lutas contra a carestia e o desemprego [...] e por eleições diretas [...]. Demissões, cassações de direitos políticos e prisões arbitrárias, torturas, censura e outras violências explícitas se iniciaram apenas em 1968? Tudo era ditadura, na sociedade brasileira, entre 1964 e 1968, ou nesgas de democracia eram reinventadas, a duras penas, no cotidiano desse período, por alguns de seus sujeitos? A ditadura foi apenas militar, ou também possuía fortes componentes civis? Existiu um prelúdio soft da ditadura, entre 1964 e 1968, e ela se iniciou para valer somente com o AI-5 [...]? O regime se encerrou por completo em 1985, ou se desdobra, através de personagens, instituições e práticas até hoje?" (SILVA, Marcos. 1964/1968: de pior a pior. In: Brasil 1964/1968: a ditadura já era ditadura. São Paulo: LCTE, 2006. p. 7.)


Monumento Tortura Nunca Mais, do arquiteto piauinse Demetrius Albuquerque, em Recife (PE)

"Não há cova funda / que sepulte / a rasa covardia / Não há túmulo que oculte / os frutos da rebeldia / Cai um dia em desgraça / a mais torpe ditadura / quando os vivos saem à praça / e os mortos da sepultura". 
("Os desaparecidos", poema de Affonso Romano de Sant'Anna)

"A tortura foi aplicada de maneira violenta! Usaram cerca de 320 tipos de tortura. Muitos presos não resistiram: morreram em meio a grandes sofrimentos. [...] Cento e trinta brasileiros foram banidos! [...] Houve centenas de exilados! [...] Milhares de prisões! Só na Operação Gaiola, foram presos 10 mil em 1970! Apenas entre 1964 e 1979, 1.565 sindicatos caíram sob intervenção, tiveram eleições anuladas ou foram fechados. A censura criou uma barreira a muitas notícias, músicas, peças de teatro, jornais, revistas, novelas, livros, filmes. [...] Governadores, prefeitos, senadores, deputados e vereadores foram cassados! [...] Por sua coragem, cerca de 358 pessoas pagaram com a própria vida seu idealismo." (AQUINO, Rubim Santos Leão de et alli. Brasil: uma história popular. Rio de Janeiro: Record, 2003. p. 124-126.)

Referências:

ALENCAR, Chico et al. História da Sociedade Brasileira. Rio de Janeiro: Ao Livro Técnico, 1996. p. 400-401.
AQUINO, Rubim Santos Leão de et alli. Brasil: uma história popular. Rio de Janeiro: Record, 2003. p. 124-126.
ARNS, P. Evaristo. Brasil: nunca mais. Petrópolis: Vozes, 1985. p. 40-48.
BARROS, Edgard Luiz de. Os governos militares. São Paulo: Contexto, 1991. p. 13.
BRENER, Jaime. Jornal do século XX. São Paulo: Moderna, 1998. p. 246.
DEL PRIORE, Mary; VENÂNCIO, Renato Pinto. O livro de ouro da História do Brasil. Rio de Janeiro: Ediouro, 2001. p. 354-358, 360, 362, 364-367.
PINSKY, Jaime et al. História da América através de textos. São Paulo: Contexto, 2004. p. 166-167, 170-171.
SILVA, Marcos. 1964/1968: de pior a pior. In: Brasil 1964/1968: a ditadura já era ditadura. São Paulo: LCTE, 2006. p. 7.