"Os espelhos estão cheios de gente.
Os invisíveis nos vêem.
Os esquecidos se lembram de nós.
Quando nos vemos, os vemos.
Quando nos vamos, se vão?"
Eduardo Galeano: Espelhos
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quarta-feira, 31 de maio de 2017

A garra charrua

Índios do Rio da Prata (charruas). 
Jornal de viagem de Hendrick Ottsen, 1603

No ano de 1832, os poucos índios que tinham sobrevivido à derrota de Artigas foram convidados a firmar a paz, e o presidente do Uruguai, Fructuoso Rivera, prometeu que eles iam receber terras.

Quando os charruas estavam bem alimentados e bebidos e adormecidos, os soldados entraram em ação. Os índios foram libertados de suas penas e angústias a golpes de punhal, para não gastar balas, e para não se perder tempo com enterros foram atirados no arroio Salsipuedes.

Foi uma armadilha. A história oficial chamou de batalha. E cada vez que nós, uruguaios, ganhamos algum troféu de futebol, celebramos o triunfo da garra charrua.

GALEANO, Eduardo. O caçador de histórias. Porto Alegre: L&PM, 2016. p. 55.

sábado, 8 de abril de 2017

Costumes bárbaros

Mulher Dacota e garota Assiniboin, Karl Bodmer

Os conquistadores britânicos ficaram zonzos de assombro.

Eles vinham de uma civilizada nação, onde as mulheres eram propriedade de seus maridos e a eles deviam obediência, como mandava a Bíblia, mas na América encontraram um mundo de cabeça para baixo.

As índias iroquesas e outras aborígenes eram suspeitas de libertinagem. Seus maridos não tinham nem mesmo o direito de castigar as mulheres que pertenciam a eles. Elas tinham opinião própria e bens próprios, o direito ao divórcio e o direito ao voto nas decisões da comunidade.

Os invasores brancos já não conseguiam dormir em paz: os costumes das pagãs selvagens podiam contagiar suas mulheres.

GALEANO, Eduardo. O caçador de histórias. Porto Alegre: L&PM, 2016. p. 24.

terça-feira, 21 de março de 2017

Onde há fumaça, há fogo 3

Três mil e duzentos quilômetros para o sul, onde hoje é Oregon, os mesmos gansos voam pelo vale do rio Wilamette. Abaixo, índios consertam uma armadilha para peixes - uma fileira de galhos fincados no fundo de uma corredeira de um rio. Os salmões subindo a correnteza só conseguem passar por umas poucas aberturas, e lá são capturados em cestas trançadas. O climea é mais ameno, e há muitas focas, lontras, moluscos, grandes botos e milhares de pequenos peixes tão gordurosos que podiam ser secos e usados como combustível em uma tocha.


An Indian Painting Pots, Henry F. Farny

Mais ao sul, pássaros atravessando o deserto de Sonora, onde atualmente fica o Arizona, podem ver linhas esculpidas na terra. Estas não são bifurcações de rios, pois as linhas correm retas demais. São feitas pelo homem. Nos séculos depois de 300 d.C., o povo hohocan cavou quase mil quilômetros de canais, alguns com mais de dezoito metros de largura, para trazer água para o feijão, a abóbora e o milho que cultivavam. Os pássaros em 1492 ainda podem ver os restos dos canais, mas os hohokan não estão em parte alguma. [...]

Aquatint by Karl Bodmer from the book "Maximilian, Prince of Wied’s Travels in the Interior of North America, during the years 1832–1834" by Prince Maximilian of Wied.

Em suma, os povos indígenas da América do Norte diferem muitíssimo uns dos outros, em parte porque o ambiente os forçou a inventar diferentes maneiras de sobreviver. No noroeste ameno e úmido à beira do Pacífico, quem pensaria em abrir canais para irrigar plantações? Por outro lado, nenhum índio do deserto inventaria canoas de tronco em uma terra onde não se conhecem árvores grandes.


Salmon Fishing on the Cascapediac River, Albert Bierstadt

O ambiente não é o único motivo pelo qual os índios de 1492 diferiam entre si. Mesmo em climas similares, humanos diferentes pensarão em soluções diferentes para os mesmos problemas. Em 1492, fazia milhares de anos que havia pessoas vivendo na América do Norte - tempo suficiente para desenvolver diferentes crenças, costumes e culturas. Nas terras áridas da Grande Bacia, onde a sobrevivência era difícil, cada pequeno bando era liderado por um caçador que houvesse demonstrado coragem e habilidade. As sociedades indígenas do sudeste tinham povoados muito maiores e sistemas políticos muito mais complexos. Os natchez, por exemplo, se dividiam em hierarquias diferentes, governados por um rei (conhecido como O Grande Sol) e seus parentes (Pequenos Sóis). Abaixo vinham os nobres, os honoráveis e, na base da pirâmide, uma classe mais numerosa chamada indesejáveis. Como o nome O Grande Sol sugere, o culto ao sol exercia um papel importante na vida religiosa dos índios do sudeste.

(Continua no próximo post)

DAVIDSON, James West. Uma breve história dos Estados Unidos. Porto Alegre: L&PM, 2016. p. 12-3.

domingo, 19 de março de 2017

Onde há fumaça, há fogo 2

Onde há fumaça, há fogo, diz o ditado. Bem acima do Mississíppi, a fumaça subia das fogueiras usadas na construção de canoas de tronco. O fogo queimava até que o interior do barco ficasse oco. No rio, dezenas de canoas brilhavam ao sol, com quarenta a sessenta homens em cada uma. Não era extamente uma pequena canoa de casca de bétula! Em um dia de cerimônia ou guerra, os barqueiros pintavam o rosto de marrom avermelhado, e muitas cabeças ostentavam cocares de penas brancas. Alguns índios se ajoelham ao remar; outros ficam atrás deles, seus escudos prontos para evitar um ataque. Uma cobertura na popa faz sombra para o comandante de cada canoa.


Indian Telegraph, John Mix Stanley

Nas Planícies, os índios fazem fogueiras para marcar búfalos e, na Grande Bacia, queimam pastos para eliminar lagartos do solo. Alguns povos queimam campos para encorajar o crescimento de mirtilos ou girassóis; outros tocam fogo para afastar hordas de mosquitos nocivos. Nas Rochosas. os índios usam fogo inclusive para celebrar. Abetos inteiros são queimados, seus galhos soltando fagulhas na noite como fogos de artifício. Humanos de uma ponta a outra do continente usam o fogo como ferramenta para moldar o território a seu gosto.

Equipment for curing fish used by the North Carolina Algonquins, John White

Em outros aspectos, os povos indígenas diferiam muitíssimo. De fato, podemos dizer que o lema da América do Norte em 1492 era o oposto de E pluribus unum. Não De muitos povos, um, mas De um continente, muitos povos. Dependendo de que pássaros você seguirt, verá enormes diferenças nas maneiras como os índios se adaptaram ao mundo à sua volta. Alguns viviam em bandos simples, caçando e coletando alimentos. Outras civilizações ostentavam campos cultivados, monumentos, templos, cidades, astrônomos, sacerdotes e governantes.


The Harvest Song, E. Irving Couse

Um bando de gansos partindo do Ártico ocidental avistaria grupos de inuítes caçando baleias em umiaks - embarcações abertas feitas de pele de morsa estirada sobre madeira flutuante. Os inuítes (também conhecidos como esquimós) possuem arpões fortes o suficiente para perfurar a pele grossa das baleias, uma fonte de alimento valiosa. (Gordura de baleia tmbém é um bom combustível em lamparinas a óleo). As mulheres inuítes desenvolveram a habilidade de costurar intestino de foca e pele de peixe para fazer roupas que se ajustam mais ao corpo e, portanto, aquecem melhor os que vivem nessas terras invernais.

(Continua no próximo post)

DAVIDSON, James West. Uma breve história dos Estados Unidos. Porto Alegre: L&PM, 2016. p. 11-2.

quarta-feira, 15 de março de 2017

Poesia indígena

Acampamento indígena, Albert Bierstadt

I

O que é a vida?
É o brilho de um vaga-lume na noite,
é a respiração de um búfalo no inverno,
é a breve sombra que corre sobre a grama
e desaparece ao pôr do sol...
Pé de Corvo, do povo Pés Pretos, Canadá

II

Ao som da cantiga,
Dormirás.
À meia-noite,
Eu virei.
Poema inca de autor desconhecido, século XVI

III

Passe com cuidado pela ponte.
Viva bem com os outros que partiram,
Assim como eles estão vivendo bem.
Você pode viver bem da mesma maneira...
Lá você verá muita coisa que já viu aqui na terra,
Assim como o gavião.
Teus parentes virão encontrá-lo na ponte
E te levarão para sua morada.
Canto fúnebre kaingang, século XIX

terça-feira, 7 de março de 2017

Os últimos búfalos do Norte

O último búfalo, Albert Bierstadt

O búfalo já é uma curiosidade em Montana e os índios black-feet roem ossos velhos e cascas de árvores.

Touro Sentado encabeça a última caçada dos sioux nas planícies do norte. Depois de muito andar, encontram uns poucos animais. Por cada um que matam, os sioux pedem perdão ao Grande Búfalo invisível, segundo quer a tradição, e lhe prometem que não desperdiçarão nenhum pelo do morto.

Pouco depois, a Estrada de Ferro do Pacífico Norte celebra o apogeu de sua via que chega de costa a costa. Essa é a quarta linha que atravessa o território norte-americano. As locomotivas de carvão, com freios pneumáticos e carros Pullman, avançam na frente dos colonos rumo às planícies que foram dos índios. Por todas as partes brotam cidades novas. Cresce e se articula o gigantesco mercado nacional.

As autoridades da Estrada de Ferro do Pacífico Norte convidam o chefe Touro Sentado para pronunciar um discurso na grande festa de inauguração. Touro Sentado chega da reserva onde os sioux sobrevivem por caridade. Sobe ao palco coberto de flores e bandeiras e se dirige ao presidente dos Estados Unidos, aos ministros e personalidades presentes e ao público em geral:

- Odeio os brancos - diz. - Vocês são ladrões e mentirosos...

O intérprete, um jovem oficial, traduz:

- Meu coração vermelho e doce vos dá as boas-vindas...

Touro Sentado interrompe o clamoroso aplauso do público:

- Vocês nos arrancaram a terra e fizeram de nós uns párias...

O público ovaciona, de pé, o emplumado guerreiro, e o intérprete transpira, gélido.

GALEANO, Eduardo. Memória do Fogo: As caras e as máscaras. Porto Alegre: L&PM, 2013. p. 501-2.

domingo, 5 de março de 2017

As terras sagradas dos apaches

Acampamento dos índios Crow, Joseph Henry Sharp

Aqui, no vale onde nasce o rio, entre as altas rochas do Arizona, está a árvore que deu abrigo a Jerônimo há trinta anos. Ele acabava de brotar do ventre da mãe e foi enviado numa manta. Penduraram a manta num galho. O vento acalentava o menino, enquanto uma voz suplicava à árvore:

- Que viva e cresça para ver te dar frutos muitas vezes.

Essa árvore está no centro do mundo. Parado à sua sombra, Jerônimo jamais confundirá o norte com o sul nem o mal com o bem.

Ao redor abre-se o vasto país dos apaches. Nessas toscas terras vivem desde que o primeiro deles, o filho da tormenta, vestiu as plumas da águia que tinha vencido os inimigos da luz. Aqui jamais faltaram animais para caçar, nem ervas para curar os enfermos, nem cavernas rochosas onde jazer depois da morte.

Uns estranhos homens chegam a cavalo, carregando longas cordas e muitos bastões. Têm a pele como se fosse dessangrada e falam um idioma jamais ouvido. Cravam na terra sinais coloridos e fazem perguntas a uma medalha branca que lhes responde movendo uma agulha.

Jerônimo não sabe que esses homens vieram medir as terras apaches para vendê-las.

GALEANO, Eduardo. Memória do Fogo: As caras e as máscaras. Porto Alegre: L&PM, 2013. p. 461-2.

sexta-feira, 3 de março de 2017

O Faroeste

Acampamento indígena, Jules Tavernier

E por acaso alguém escuta o velho chefe Seattle? Os índios estão condenados, como os búfalos e os alces. Quem não morre de tiro morre de fome ou de pena. Da reserva onde definha, o velho chefe Seattle fala na solidão sobre explorações e extermínios, e diz sabe-se lá o quê sobre a memória de seu povo circulando pela seiva das árvores.

Zune o Colt. Como o sol, os pioneiros brancos marcham rumo ao oeste. Uma luz de diamante os guia lá das montanhas. A terra prometida rejuvenesce aquele que lhe crava o arado para fecundá-la. Num piscar de olhos brotam ruas e casas na solidão habitada por cactos, índios e serpentes. O clima, dizem, é tão, tão sadio, que para se inaugurar os cemitérios o único remédio é derrubar alguém a tiro.

O capitalismo adolescente, atacante guloso, muda o que toca. Existe o bosque para que o machado o derrube e o deserto para que o atravesse o trem; o rio vale a pena se tem ouro e a montanha se contém carvão ou ferro. Ninguém caminha. Todos correm, urgentes, impedidos, atrás da errante sombra da riqueza e do poder. Existe o espaço para que o derrote o tempo, e o tempo para que o progresso o sacrifique em seus altares.

GALEANO, Eduardo. Memória do Fogo: As caras e as máscaras. Porto Alegre: L&PM, 2013. p. 459.

sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

Jesuítas: aliados ou inimigos da Coroa e dos colonos?

As relações entre as autoridades portuguesas, os colonos e os jesuítas sempre foram complexas e ambíguas, variando também conforme as situações criadas pela atuação do quarto elemento: os índios.

Aldeia de índios tapuios cristianizados, Rugendas


A Coroa queria uma colônia pacífica, povoada e produtora de riquezas. Os colonos queriam escravos e mulheres que pudessem servi-los e satisfazer seus desejos sexuais. Os jesuítas queriam salvar a Europa dos protestantes heréticos e converter os pagãos da América, África e Ásia para aumentar a quantidade de católicos seguidores de seu modo de pensar. Os índios queriam viver em paz e a saída de todos os forasteiros.

Portanto, com relação aos índios, a Coroa não queria sua extinção, pois contava com eles para garantir a ocupação da colônia, mas não se importava muito com a maneira como eram usados para gerar riquezas. Os colonos, antes da importação maciça de africanos, queriam usar os índios como mão de obra escrava (e as índias como objeto sexual). Quando temiam os confrontos ou precisavam de ajuda para se adaptar, procuravam conviver pacificamente com os índios; quando pensavam que podiam submetê-los ou quando já contavam com os escravos africanos, passaram a desprezá-los.

Último Tamoio, Rodolfo Amoedo

Os jesuítas, por sua vez, procuravam conciliar os objetivos da Coroa e dos colonos com sua utopia de, com a conversão e a doutrinação dos índios, criar e liderar um povo de “cristãos puros e tementes a Deus”. Quando ajudavam a pacificar os nativos ou administrar a colônia, colaboravam com os interesses da Coroa e dos colonos. Quando se colocavam totalmente contra a escravidão indígena ou agiam com muita independência, entravam em atrito com eles.


MESGRAVIS, Laima. História do Brasil colônia. São Paulo: Contexto, 2015. p. 29.

sábado, 14 de maio de 2016

As idades de Touro Sentado - Tȟatȟáŋka Íyotake

Touro Sentado, ca. 1881. 
Fotógrafo: Orlando Scott Goff

Aos trinta e dois anos, batismo de fogo. Touro Sentado defende sua gente diante de um ataque das tropas inimigas.

Aos trinta e seis, sua nação indígena o elege chefe.

Aos quarenta e um, Touro Sentado senta-se. Em plena batalha, nas margens do rio Yellowstone, caminha até os soldados que disparam e senta-se no chão. Acende seu cachimbo. Zunem as balas, feito vespas. Ele, imóvel, fuma.

Aos quarenta e três, fica sabendo que os brancos encontraram ouro nas Black Hills, em terras reservadas aos índios, e começaram a invasão.

Aos quarenta e quatro, durante uma longa dança ritual, tem uma visão: milhares de soldados caem do céu feito gafanhotos. Naquela noite, um sonho anuncia: Tua gente derrotará o inimigo.

Aos quarenta e cinco, sua gente derrota o inimigo. Os sioux e os cheyennes, unidos, dão uma tremenda coça no general George Custer com todos os seus soldados.

Aos cinquenta e dois, após alguns anos de exílio e cadeia, aceita ler um discurso de homenagem ao trem do Pacífico Norte, que terminara a construção de suas vias. No final do discurso, põe os papéis de lado e, encarando o público, diz:

- Os brancos são todos ladrões e mentirosos.

O intérprete traduz:

- Nós agradecemos a Civilização.

O público aplaude.

Aos cinquenta e quatro, trabalha no show de Búfalo Bill. Na arena do circo, Touro Sentado representa Touro Sentado. Hollywood ainda não é Hollywood, mas a tragédia já se repete como espetáculo.

Aos cinquenta e cinco, um sonho anuncia a ele: Tua gente vai te matar.

Aos cinquenta e nove, sua gente o mata. Índios que vestem uniforme de policial trazem uma ordem de prisão. No tiroteio, ele cai.

GALEANO, Eduardo. Espelhos: uma história quase universal. Porto Alegre: L&PM, 2015. p. 228.

sábado, 9 de janeiro de 2016

Povos do mundo: América

Galeria 1 - Povos indígenas

[Índios pampas, Carlos Morel]

[Mulher e criança indígena Secotan, Carolina do Norte, John White]

[Mulher índia puebla, Irving E. Couse]

[Índios simulando búfalo, Frederic Remington]

[Arapahos, Alfred Jacob Miller]

[Uma índia puebla pintando potes, Henry François Farny]

[Tipis sioux, Karl Bodmer]

[Dividindo a propriedade do chefe, Joseph Henry Sharp]

[Água para o acampamento, Charles Marion Russell]

[Fundação da cidade do México, José María Jara]

[Índios Apiaká no rio Arinos, Hércules Florence]

Galeria 2 - Afro-americanos

[Vestido para o carnaval, Winstow Homer]

[As catadoras de algodão, Winstow Homer]

[Lição de banjo, Henry Ossawa Tanner]

[Domingo de manhã, Thomas Waterman Wood]

[O jogador de osso, William Sidney Mount]

[Domingo de manhã na Virgínia, Winslow Homer]

[Um enterro na plantação, John Antrobus]

[A lição de dança (Menino negro dançando), Thomas Eakins]

[A carroça de algodão, William Aiken Walker]

[General Juan Manuel de Rosas no candomblé, Martín Boneoan]

Galeria 3 - Mestiços


[Um homem mestiço e sua esposa índia, Miguel Cabrera]

[Mestiços, Peru, Artista desconhecido]

[Castas na América Colonial, Artista desconhecido]

[Redenção de Cam, Modesto Brocos. Avó negra, filha mulata, genro e neto brancos]

[Mulato, Albert Eckhout]

sexta-feira, 16 de outubro de 2015

Os índios botocudos na visão dos cientistas alemães Spix & Martius

Família de índios botocudos atravessando um rio, Maximilian zu Wied-Neuwied

Johann Baptiste von Spix e Carl Friedrich von Martius foram dois cientistas alemães, o primeiro, zoólogo, e o segundo, botânico, que empreenderam uma longa viagem pelo Brasil entre 1817 e 1820. Suas minuciosas observações se transformaram em uma obra de três volumes, que hoje constituem uma importante fonte para os historiadores que estudam a época.

O fragmento reproduzido abaixo é extremamente revelador da visão que os europeus tinham das culturas indígenas. Não conseguiam ver nas maneiras de viver dos indígenas alternativas válidas de sociedade. O culturalmente diferente era considerado um sinal de selvageria, bestialidade, atraso.

Os botocudos mereceriam ser tratados como criminosos por "serem ciosos da sua liberdade". Ou perdiam a liberdade e eram integrados à "civilização" como trabalhadores úteis aos colonos e fornecedores de bens, ou seriam tratados como verdadeiras feras selvagens. (PEDRO, Antonio. LIMA, Lizânias de Souza. História por eixos temáticos. São Paulo: FTD, 2002. p. 38.)

Família de botocudos em marcha, Jean-Baptiste Debret

Quando, no dia seguinte, cavalgamos pelo cerrado [...] fomos subitamente surpreendidos por um bando de índios nus, homens e mulheres, que vinham em completo silêncio pela estrada.

[...]

[...] era de horror a nossa impressão, à vista destes homens, que, na sua aparência feia, quase não têm traço de humanidade. Indolência, embotamento e rudeza animal estampam-se-lhes nos rostos quadrangulares, achatados, nos pequenos olhos esquivos; voracidade, preguiça e grosseria, patenteiam-se-lhes nos lábios inchados, na barriga, assim como em todo o torso troncudo e no andar de passos curtos.

[...]

Como depois soubemos, esses botocudos meio mansos do Rio Doce eram transferidos para as colônias do Rio Grande [atual Minas Novas] ou Belmonte [atual Jequitinhonha], a fim de se tornarem menos perigosos nas suas primitivas tabas e para que, depois de terem observado de perto o modo de vida dos colonos e suas instalações, teriam influência favorável sobre os companheiros da tribo, quando regressassem; estavam eles justamente em caminho, de volta para as suas matas preferidas.

[...]

Com presentes e trato bondoso e avisado, o comandante deste distrito [São Miguel, margem direita do Rio Grande] tem conseguido, até aqui, estabelecer relações entre esses selvagens, ainda hoje broncos e até aqui sempre hostis, e os portugueses. Foram fundadas diversas aldeias desses antropófagos, ao longo do rio, e já os botocudos começam a ocupar-se com a lavoura; eles trazem aos colonos, de tempos a tempos, ipecacuanha, papagaios domesticados, peles de onça etc. para permutar com utensílios europeus, e prestam serviços, como remadores, na navegação para a Vila de Belmonte. De fato, ciosos de sua liberdade, ainda não se submeteram aos portugueses [...] contudo, vê o filantropo, com prazer, o contínuo progresso desses filhos das selvas, que, ainda no começo deste século, eram, por decreto real, declarados fora da lei e inimigos do Estado, perseguidos pelas patrulhas e entradas, como feras, e capturados e condenados a dez anos de servidão, ou trucidados com crueldade sem precedentes.

[...]

[...] importa pacificar os botocudos, empregá-los como remadores nesses cursos d' água [...] e assim, pelo mais pacífico de todos os meios , o tráfego comercial, promover a sua civilização gradual.

SPIX & MARTIUS. Viagem pelo Brasil - 1817-1820. Belo Horizonte: Itatiaia, 1981. p. 55-6. v. 2.

quinta-feira, 9 de abril de 2015

A questão indígena na América 5: As políticas de proteção aos indígenas

"Quem é quem aqui na América? Não será aqui porventura o berço onde há cinco séculos se engendra e se forja no sangue que se mescla e se mestiça, não apenas nas cores e tons dos corpos e dos olhos, mas na herança coletiva de suas almas e culturas, de seus arquétipos milenares, mitos, valores, crenças e rituais? Não será aqui o berço de um Novo Mundo, como um dia ele foi chamado? Não como um retorno ao passado indígena da nossa América, mas pela fusão de dois mundos que há um tempo não tão distante se chocaram; pelo resgate de valores e modelos de uma civilização indígena que não morreu, mas permanece como potencial vivo em meio das ruínas de tantas Tenochtitlans.

Porventura, não seria aqui, esta parte adormecida do mundo, o palco de um "Novo Renascimento", no qual os modelos não seriam mais Zeus, Apolo ou Afrodites, mas Quatzalcoatl, Huitzopochtli, Wuiracocha, Tonatzin e Sumé?

Que o anunciem do alto das pirâmides e cordilheiras os deuses-heróis e todos os morubixabas, com todas as quenas e muirakitãns.

Que o revelem, o canto das cachoeiras, o grito das araras e o farfalhar das palmas de buriti. Que todos possam escutar no rufar dos tambores, dos maracás e dos rituais da História, sintetizadores sonorizados cantando sons ancestrais.

Que possamos pressentir nos subterrâneos da Terra-mãe as raízes milenares de povos inacabáveis, sementes de uma humanidade renovada, senhora de um futuro que não podemos ainda perceber.

E que dê um toque de urucum em seu rosto mestiço e comece a ouvir uma canção cheyenne". (BARCELLOS, Maurílio Pereira. América indígena: 500 anos de resistência e conquista. São Paulo: Paulinas, 2002. p. 81-82.)

O discurso da "pacificação" e a defesa da aculturação dos indígenas fizeram parte de sucessivas políticas governamentais, até o início do século XX, quando a discussão sobre a situação do indígena no continente ganhou novos contornos. Intelectuais, movimentos políticos e sociais e as comunidades indígenas se manifestaram exigindo respostas dos governos a problemas que se arrastavam havia séculos.

Um evento que deu visibilidade a esse tipo de manifestação foi o XVI Congresso Internacional de Americanistas, realizado em 1908, em Viena, na Áustria, no qual foram denunciados massacres sistemáticos de indígenas no Brasil. Diante disso, o governo brasileiro se viu pressionado a implantar ações de assistência e proteção às populações indígenas. Para tanto, fundou o Serviço de Proteção ao Índio (SPI), em 1910, órgão cuja incumbência era evitar o extermínio dos povos indígenas e solucionar os conflitos.


Cândido Rondon com índios Paresi. Imagem do documentário do Major Thomaz. Sem data.

A direção desse organismo foi assumida por Cândido Mariano da Silva Rondon (1865-1958). Militar adepto das ideias positivistas, Rondon havia se destacado pelo sucesso na instalação de redes telegráficas no centro-oeste do país, durante a qual estabelecera contato com diversos povos indígenas considerados hostis, pondo em prática medidas assistencialistas e declarando-os "pacificados". O SPI atuou de forma semelhante, prestando assistência médica, instalando escolas e procurando demarcar terras a fim de minimizar os conflitos. Esse organismo foi extinto em 1967 e deu lugar à Fundação Nacional do Índio (Funai), até hoje atuante.

O Peru também assumiu, oficialmente, uma política de proteção aos indígenas nas primeiras décadas do século XX. Em 1920, a fundação do Comitê Central Pró-Direitos Indígenas e a promulgação de uma Constituição nacional na qual se reconheciam as terras indígenas representaram conquistas importantes para os povos que constituem esse país.

Os Estados Unidos, por sua vez, tornaram-se referência, nesse mesmo período, ao criar leis que favoreciam a autonomia das comunidades indígenas. Em 1934, o governo decretou a Lei de Reorganização Indígena, que incentivava as comunidades a escrever suas constituições e a se autogovernar, ainda que devessem se subordinar a um organismo federal, o Burô de Assuntos Indígenas. Essa medida contribuiu para conferir legitimidade às tradições e aos costumes indígenas.

Em 1940, foi realizado no México o Primeiro Congresso Indigenista Interamericano, que teve o papel de propor diretrizes e princípios norteadores para as ações governamentais voltadas aos indígenas. Tais princípios passaram a ser seguidos por governos de diversos países latino-americanos e orientaram a fundação de alguns institutos indigenistas, como o da Bolívia, em 1941, e o do México, em 1948.

Apesar dessas iniciativas, a proteção aos indígenas, até então, estava vinculada à ideia de aculturação, de acordo com a qual os indígenas deveriam ser educados nos moldes "civilizados" e inseridos no mercado de trabalho, ainda que isso conduzisse ao abandono gradual de suas tradições.

É consideravelmente recente a concepção de que a organização social, a cultura e os distintos modos de vida dos povos indígenas devem ser reconhecidos e respeitados, não cabendo à sociedade envolvente transformá-los ou moldá-los segundo valores que não fazem parte de sua identidade. Em todo o continente, atualmente, há organizações de povos indígenas que lutam por seus direitos, discutem os problemas e as possíveis soluções para garantir a melhora da qualidade de vida e a sobrevivência das novas gerações. (NAPOLITANO, Marcos; VILLAÇA, Mariana. História para o ensino médio: volume 2. São Paulo: Saraiva, 2013. p. 217-218)

Referências:

BARCELLOS, Maurílio Pereira. América indígena: 500 anos de resistência e conquista. São Paulo: Paulinas, 2001. p. 81-82.
NAPOLITANO, Marcos; VILLAÇA, Mariana. História para o ensino médio: volume 2. São Paulo: Saraiva, 2013. p. 217-218.

terça-feira, 7 de abril de 2015

A questão indígena na América 4: Política de "pacificação" e projetos de integração no Brasil

Índios Munduruku, Hércules Florence

"Branco é pessoa muito triste. Talvez por isso ele faça tanto mal". (Mário Juruna, Cacique xavante)

Em 1808, dom João VI assinou uma carta régia autorizando a "guerra justa" contra os botocudos, nome pelo qual eram conhecidos os Aimoré desde o século XVIII. Pertencentes ao grupo linguístico macro-jê, os Aimoré eram nômades e viviam na região correspondente à dos atuais estados de Minas Gerais e Espírito Santo.

Os botocudos e os Puri eram considerados os principais obstáculos ao avanço de colonização portuguesa, uma vez que, desde 1760, combatiam bandeirantes e colonos que tentavam se instalar na área controlada por eles. Por essa razão, eram constantemente perseguidos e mortos pelos colonizadores, com o aval do governo.

Sobre os botocudos, nessa época, circulavam lendas e imagens que os representavam como ferozes e cruéis, o que colaborava para o temor e o ódio dos colonos a esses povos. Entre 1808 e 1821, várias expedições foram enviadas para combatê-los. Em contrapartida, também crescia o número de alianças e acordos entre indígenas e descendentes de europeus.


Família de Botocudos em marcha, Jean-Baptiste Debret

Vários parlamentares defendiam a conversão dos indígenas ao catolicismo a fim de transformá-los em trabalhadores e súditos. Para isso, foi fundada em 1830 a Sociedade de Catequese e Civilização dos Índios. Em 1831, após o imperador dom Pedro I abdicar do trono, o Senado iniciou uma série de debates sobre a questão indígena, que resultaram, nesse mesmo ano, na proibição das guerras justas e na revogação da Carta Régia de 1808.

Para a "pacificação" dos indígenas por meio da catequese, a partir de 1843, o governo patrocinou a vinda de frades capuchinhos da Itália. A adoção dessa política contava com o apoio de intelectuais do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (IHGB), fundado em 1838. Em sua publicação oficial, a Revista do IHGB, defendiam a aculturação do indígena e sua utilização como mão de obra.

Essa política governamental foi formalizada, em 1845, com a publicação do Regulamento acerca das missões de catequese e civilização dos índios. O governo previa a reunião dos indígenas em missões ou aldeamentos oficiais controlados pelos capuchinhos. Tais instalações seriam gradativamente desfeitas e transformadas em vilas, paróquias ou freguesias quando os indígenas estivessem catequizados. Nessa etapa, as famílias indígenas receberiam lotes de terra, abandonando seu modo de vida comunitário, seus costumes e seus valores, a fim de se tornar "civilizados".

Com a chegada dos capuchinhos, os botocudos foram "pacificados" e transferidos para aldeamentos oficiais, em geral próximos a povoados. No entanto, os indígenas não se limitavam a ocupar as terras previamente demarcadas. Muitas vezes, insurgiam-se contra os religiosos por estes manterem crianças sob sua tutela, nas escolas de internatos. Em 1893, ocorreu um levante de cerca de 700 indígenas, no aldeamento de Itambacuri, em Minas Gerais. Boa parte dos rebeldes foi perseguida e morta.

No sudeste do Brasil, a expansão da cafeicultura e das ferrovias promoveu o extermínio de vários povos. Durante o Segundo Reinado, além dos botocudos, foram objeto da perseguição governamental grupos como os Kaingand (que ocupavam áreas do sul e do sudeste), os Mura e os Munduruku (que viviam na Amazônia), os Kayapó (habitantes da fronteira entre Minas e Goiás) e, já na Primeira República, os Guajajara (que viviam no Maranhão), por dificultarem o processo de expansão e a instalação de missões, latifúndios e povoados.

NAPOLITANO, Marcos; VILLAÇA, Mariana. História para o ensino médio: volume 2. São Paulo: Saraiva, 2013. p. 215-217.

domingo, 5 de abril de 2015

A questão indígena na América 3: Política de deportação no México

E eu vejo que o Reino em breve será destruído
Terá fim do México a soberania!
Eis que me afasto e choro
por ter decretado a este país
ser subjugado e totalmente aniquilado.
(Antigo canto fúnebre mexicano)


No século XIX, os governos de diversos países americanos, entre os quais o México, adotaram projetos políticos liberais que, em geral, incluíam a abolição de terras comunais indígenas.

As leis que extinguiam todas as formas coletivas ou corporativas de posse da terra afetaram intensamente as comunidades indígenas. Os vínculos indígenas de alguns líderes do governo, como o presidente do México Benito Juárez (1867-1872), de ascendência zapoteca, não refrearam a promulgação dessas medidas, consideradas, na época, necessárias ao "progresso", pois promoveriam a incorporação dos nativos ao Estado mexicano. Os indígenas, entretanto, não se tornaram pequenos proprietários e se rebelaram contra o governo, que, além de reprimi-los por meio de conflito armado, utilizou, como tática de contenção, a estratégia da deportação em massa.

Tal procedimento foi utilizado com os yaquis, que habitavam o norte do México e acumularam um histórico de revoltas no século XIX.

Após uma tentativa frustrada, na década de 1820, de união com outros povos para conquistar a emancipação de seu território, os yaquis rebelaram-se novamente em 1868. Nesse episódio, 150 indígenas que estavam em uma igreja foram queimados vivos.


Um grupo de cerca de 44 mulheres e crianças yaqui prisioneiros sob guarda, México, 1910. Fotógrafo desconhecido

Após as reformas liberais, os yaquis que viviam no território mexicano iniciaram uma guerra contra o governo em defesa de suas terras, no qual tiveram apoio dos apaches e dos yaquis que haviam emigrado para os Estados Unidos. As tropas federais foram mobilizadas para reprimi-los, mas sofreram seguidas derrotas, até que, em 1896, o governo decidiu empreender a deportação desses indígenas para a península de Yucatán, onde os deportados foram submetidos a trabalho escravo em plantations. Essa solução pôs fim à guerra, mas significou a quase extinção desse grupo indígena.


Um grupo de mais de 30 prisioneiros yaqui escoltados por soldados mexicanos, México, 1910. Fotógrafo desconhecido

Entre 1876 e 1910, o governo de Porfírio Díaz (1830-1915) persistiu na gradual eliminação das terras comunais e na concepção de que era preciso "educar" os indígenas. A situação de miséria e opressão dos camponeses, a maioria de origem indígena, agravou-se. Em reação a essa situação, na virada do século, emergiu um movimento agrário, com grande participação indígena, que foi um dos pilares da Revolução Mexicana desencadeada em 1910.

NAPOLITANO, Marcos; VILLAÇA, Mariana. História para o ensino médio: volume 2. São Paulo: Saraiva, 2013. p. 214-215.

sexta-feira, 3 de abril de 2015

A questão indígena na América 2: A política de confinamento nos Estados Unidos

"[...] e imediatamente entrou na tenda onde tinha estado antes, trazendo uma tocha e colocando-a sobre as mantas que cobriam o abrigo, depois que tudo começou a arder [...] e depois que o fogo estava bem pegado, os índios corriam para fora com ar estupefato. E, com efeito, o Todo-Poderoso deixou cair sobre eles tal terror, que fugiam de nós e se atiravam dentro das chamas, onde muitos pereciam. Depois que o forte se queimou inteiramente, foi dada ordem para que todos os soldados saíssem e o rodeassem, o que foi feito imediatamente. O fogo foi ateado a noroeste, a favor do vento; isto fez com que se espalhasse rapidamente pelo forte, para a surpresa do inimigo, e para grande satisfação nossa. Alguns deles subiam à ponta das paliçadas; outros corriam para dentro das chamas; muitos outros, reunindo-se a barlavento, atiravam flechas contra nós; dávamos o troco mandando-lhes carga de chumbo; outros, muito fortes, mais ou menos quarenta, segundo calculamos, morreram pela espada [...] E assim, em pouco menos de uma hora, o que era antes um forte inexpugnável, estava completamente destruído, com perda de 600 ou 700 índios [...]". (Depoimento do Capitão John Mason sobre o extermínio de índios. HUBERMAN, Leo. Nós, o povo. São Paulo: Brasiliense, 1966. p.15.)

O governo estadunidense, apesar de não declarar oficialmente guerra contra os indígenas, mobilizou regimentos de cavalaria para expulsá-los de suas terras a partir de 1778. As últimas terras a ser ocupadas, entre a costa do Pacífico e o rio Mississípi, constituíam o chamado Grande Deserto.

A ocupação de terras indígenas era amparada legalmente. A Lei de Remoção dos Índios, decretada em 1830, determinava a transferência das populações nativas para reservas demarcadas pelo governo, a oeste do rio Mississípi. Essa lei beneficiou, até o final do século XIX, cerca de 600 mil colonizadores, mas não foi suficiente: a pressão exercida pelos colonos que participaram da conquista do oeste afetou também as reservas indígenas. Eles eram atraídos pelas terras próximas a ferrovias ou por lotes mais distantes oferecidos pelo governo por meio do Homestead Act.

Outro impulso à ocupação do oeste dos Estados Unidos que afetou as áreas indígenas foi a descoberta de ouro na Califórnia, em 1848. Entre 1859 e 1876, ocorreu na região um processo de rápido povoamento, acompanhado pela instalação de ferrovias, que obrigou os indígenas a se deslocar em direção ao Pacífico. Simultaneamente, para viabilizar a criação de gado, os estadunidenses promoveram a matança de manadas de búfalos que garantiam a subsistência de vários grupos indígenas.

Indígenas caçando para viver... Caça ao búfalo, com máscara de pele de lobo, George Catlin

... Brancos caçando por lazer. Ilustração para a novela "César Cascabel" (1890), de Jules Verne. Desenho de George Roux

Os navajos, cheyennes, arapahos, shawnees, sioux e apaches, que habitavam o sudoeste dos Estados Unidos, foram alguns dos povos que resistiram mais tempo à colonização. Os apaches, entre 1851 e 1890, travaram conflitos com colonos e tropas estadunidenses na região do Arizona: as chamadas Guerras Apaches.


A luta de Custer, Charles Marion Russel

Um episódio marcante das guerras entre as tropas federais e povos indígenas foi a batalha de Little Big Horn, na região de Montana, em 1876. Nessa ocasião, os líderes indígenas Tatanka Iyotaka - o Touro Sentado (c. 1831-1890) - e Cavalo Louco (c. 1840-1877) lideraram cerca de 3 mil indígenas sioux e cheyennes na batalha contra o Sétimo Regimento de Cavalaria estadunidense. Os indígenas venceram a batalha, mas sofreram intensa repressão do governo, que os perseguiu e autorizou garimpeiros a ocupar suas terras*.

Em 1890, cerca de 400 sioux, principalmente mulheres e crianças, foram massacrados pelas tropas dos Estados Unidos, em Dakota do Sul. Esse episódio não seria o último entre indígenas e estadunidenses. (NAPOLITANO, Marcos; VILLAÇA, Mariana. História para o ensino médio: volume 2. São Paulo: Saraiva, 2013. p. 212-213.)

* "Onde estão hoje os pequot? Onde estão os naragansett, os moicanos e muitas outras tribos outrora poderosas? Desapareceram diante da avareza e da opressão do Homem Branco, como a neve diante de um sol de verão. Vamos nos deixar destruir, por nossa vez, sem luta? Renunciar a nossas casas, a nossa terra dada pelo Grande Espírito, aos túmulos de nossos mortos e a tudo que nos é caro e sagrado? Sei que vão gritar comigo: Nunca! Nunca! (Tecumseh, dos shawnees. BROWN, Dee. Enterrem meu coração na curva do rio. São Paulo: Melhoramentos, 1973. p. 19.)


Corrida de canoa perto de Sault Ste. Marie, George Catlin

Referências:

BROWN, Dee. Enterrem meu coração na curva do rio. São Paulo: Melhoramentos, 1973. p. 19.

HUBERMAN, Leo. Nós, o povo. São Paulo: Brasiliense, 1966. p.15

NAPOLITANO, Marcos; VILLAÇA, Mariana. História para o ensino médio: volume 2. São Paulo: Saraiva, 2013. p. 212-213