"Os espelhos estão cheios de gente.
Os invisíveis nos vêem.
Os esquecidos se lembram de nós.
Quando nos vemos, os vemos.
Quando nos vamos, se vão?"
Eduardo Galeano: Espelhos
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sexta-feira, 24 de maio de 2013

O modo americano de viver

"Mãe migrante", Dorothea Lange. A outra face do "american way of life".

Vivemos nosso dia a dia geralmente sem nos perguntar de onde vieram nossos hábitos, nossa alimentação e ate mesmo nossas diversões. Mas tudo isso tem história. Hoje você come um hambúrguer no McDonald's, anda de skate, vai ao shopping center e fala as muitas palavras em inglês incorporadas ao nosso vocabulário, sem se dar conta de que esses costumes pertencem originalmente a uma outra cultura: a cultura norte-americana.

Ao longo de sua história, os norte-americanos criaram um modo de vida próprio - o American way of life (em português, o "jeito americano de viver") - e, convencidos de que ele era superior ao dos demais povos, procuraram difundi-lo pelo mundo afora, exportando seus ideais, comportamentos e produtos (entre os quais o hambúrguer), e consolidando-se como a maior potência mundial.

Comer hambúrguer pode parecer um ato normal, sem maiores consequências, mas, praticado em massa, faz parte de uma mudança de hábitos que atingiu os mais diversos países do planeta, fruto da curiosidade pelo que é diferente e "mais adiantado". Sua difusão ajudou a abrir as portas para a influência política e econômica norte-americana.

Assim, para entender como o American way of life se criou e se difundiu, dar uma passada num McDonald's pode ser muito esclarecedor. Vamos lá?

As lojas são facilmente identificáveis, por seu aspecto exterior chamativo. São todas semelhantes, por dentro e por fora, em quase todos os países do mundo. Isso acaba atraindo o turista, que se sente mais seguro comendo algo conhecido do que se aventurando com pratos típicos estranhos a ele. Pelo menos, é nisso que se aposta, servindo-se no mundo inteiro praticamente os mesmos lanches.

Qual é a atração da loja? Um ambiente de eficiência, onde todo mundo, atrás do balcão, corre para servir o cliente. A comida chega rapidamente. Tudo é limpo e padronizado. O que se oferece é razoavelmente barato e nunca falta troco. A ideia é criar entre o cliente e a loja uma relação de confiança mútua. A rede está sempre oferecendo promoções, dando ao freguês a impressão de que, mesmo consumindo um pacote de batatas fritas e um copo de Coca-Cola cada vez maiores - e pagando mais por isso, evidentemente -, ele levou vantagem.

Ao lado do balcão, há sempre a foto do "funcionário do mês". O que ele fez para merecer esse título honroso? Foi o mais rápido, organizado e gentil com o público e, dessa forma, permitiu que o negócio andasse mais rápido, aumentando a produtividade da loja. E o funcionário, será que ele ganhou mais por isso? Certamente não. Ganhou apenas a promessa de uma promoção: se continuar assim, poderá chegar antes dos colegas ao topo de sua carreira na empresa. Ou seja: ele se fará por seu próprio esforço, em competição com o restante do grupo. Os menos dotados, ou menos obedientes aos métodos da empresa, vão ficar para trás ou desempregados. Essa é a fórmula do sucesso profissional.

Do lado de fora da loja está o Drive Thru, onde se pode comer sem sair do carro e, com isso, ganhar tempo. Mas por que é preciso comer tão rápido? Porque é preciso liberar o espaço para outros clientes que estão chegando apressados e também têm que retomar rapidamente suas outras atividades: o trabalho, a escola ou a academia, na qual se exercitam para ficarem mais rápidos, mais saudáveis. Para quê? Para trabalhar mais, comprar mais e ajudar a colocar em marcha esta máquina de reprodução incessante de trabalho e dinheiro: a máquina do capitalismo.

A preocupação fundamental é, pois, com a rapidez, que gera eficiência e permite maior produtividade: maior número de clientes atendidos e satisfeitos e, no caixa, cada vez mais dinheiro, aumentando o negócio e vencendo a concorrência. Quanto ao funcionário, a ideia é que ele se dedique o máximo possível ao trabalho e à empresa, que faça deles o centro da sua vida.

Essa forma de encarar o trabalho, baseada na competição e na necessidade constante de progresso, não existe por acaso nem é obra de um gênio do hambúrguer: trata-se apenas de uma das facetas do American way of life, que é a forma de vida que os americanos desenvolveram ao longo dos séculos, mas também o mito que construíram em torno desse jeito de ser, fazendo com que em todo o mundo se acredite que essa é a melhor forma de vida para o ser humano em todos os lugares do planeta.

SCHVARZMAN, Sheila. O modo americano de viver. São Paulo: Atual, 2011. (A Vida no Tempo das máquinas)

quarta-feira, 25 de julho de 2012

Washington, a capital dos Estados Unidos e as multidões

[...] Washington foi construída para receber multidões, com suas longas avenidas e ruas espalhadas num grid quase perfeito. Uma cidade idealizada para ser democrática -e, no entanto, avessa as multidões. Nervosa com multidões: quer controlar, guiar, conter sua força, domar. Em 1836, a Câmara chegou a proibir qualquer protesto contra a escravidão em suas cercanias. A lei contra protestos não durou muito, mas os líderes do Exército de Coxey (militar que lutou na Guerra de Secessão) não tiveram muita sorte em 1894. Não podiam ser presos por protestar contra o desemprego, então foram para a cadeia por pisar na grama.

São negros quase todos os que estão na rua neste dia da posse presidencial. [...]


Martin Luther King discursa durante a Marcha sobre Washington por Trabalho e Liberdade

Os primeiros negros de Washington eram homens livres. Chegaram mais ou menos na época em que Jefferson era presidente. Haviam sido escravos nos estados vizinhos, mas lutaram na Guerra de Independência e garantiram sua liberdade. [...]

As primeiras comunidades negras de classe média dos EUA surgiram em Washington. Um dos gigantes do jazz, Duke Ellington, é da capital e sugeria que do burburinho cultural negro de lá veio sua maior influência. Em 1867, apenas dois anos após o fim da Guerra Civil entre norte e sul pela abolição, nasceu Howard, a primeira universidade que aceitava alunos negros na terra dos escravos. [...]

Washington foi a primeira grande cidade americana a ter mais negros do que brancos. A primeira cidade do sul a abolir a escravatura. E, ainda assim, em 1925, 35 mil racistas mascarados, vestidos com mantos brancos e chapéus de ponta, marcharam pelas ruas da cidade. Era a maior multidão jamais vista na cidade até então.

Estes não foram presos. [...]

Em 1954, a Suprema Corte proibiu a segregação oficial em todas as escolas públicas da cidade na esperança de que o exemplo se espalhasse. Não se espalhou.

O recorde da passeata da Ku Klux Klan em 1925 só foi batido em 28 de agosto de 1963, quando 250 mil homens, mulheres e crianças chegaram para a Marcha sobre Washington por Trabalho e Liberdade. Eram negros. Queriam o fim da segregação legal. Queriam reservas de mercado. Nas semanas anteriores, a nação entrou em debate. Mesmo partidários do movimento criticavam a marcha - ela atrapalharia o governo em seus esforços pelos direitos civis. [...]

Os líderes da marcha estavam dentro do Capitólio, negociando com deputados, quando a multidão, descontrolada como multidões costumam ser, decidiu sair caminhando. [...] Martin Luther King teve de descer às pressas a escadaria (do Capitólio) e pegar um carro para alcançar seu público. "Eu tive um sonho", ele disse, "sonhei que um dia este país viverá seu ideal tal qual redigido em sua declaração de independência: temos esta verdade por evidente, que todos os homens são iguais" [...].

A multidão de 2009 também não tem paciência [...].

A multidão, ombro a ombro. Um passo para o lado faz a diferença entre conseguir enxergar o telão ou ter uma árvore à frente, a cabeça de uma criança no ombro do pai. Ninguém se move. [...]

O presidente eleito dos Estados Unidos chega. Ovação. E aí, novamente, silêncio. A presidente da Câmara chama Barack Hussein Obama ao centro. O  presidente caminha. [...]


Posse do presidente Barack Hussein Obama

A multidão começa a ir embora. Não espera o discurso. Os rostos cansados. São, na esmagadora maioria, negros. Esperaram muito. Não precisam mais de discurso, ouviram tantos. Agora, aconteceu. Podem voltar para casa.

DORIA, Pedro. O Estado de S. Paulo, 2009

quarta-feira, 4 de julho de 2012

Populismo e ditaduras na América Latina

O dever urgente de nossa América é mostrar-se
como é, una em alma e intento, vencedora
veloz de um passado sufocante, manchada
somente com o sangue arrancado às mãos na
luta com as ruínas e com o das veias que nos
deixaram abertas nossos donos.
José Martí, Nuestra América, 1891

Calcula-se que mais de 30.000 pessoas foram mortas durante a ditadura militar na Argentina

[Texto 1] No populismo, o principal motor e instrumento, o povo, é entendido como uma realidade homogênea, sem qualquer especificidade classista. [...] O termo populismo aplicou-se a diversos movimentos políticos e sociais ocorridos em diferentes países da África, Ásia, Europa e América, assumindo ênfase particular na América Latina, especialmente na Argentina, no Brasil e no México. [...] No populismo, [...] o conceito de povo não é racionalizado, predominando sempre a emotividade. Isso possibilita muitas vezes a associação do populismo ao nacionalismo, bem como a existência de líderes carismáticos. [...] Na América Latina, são tidos como governos populistas os de Vargas (1930-1945) e João Goulart (1961-1964), no Brasil; Perón (1946-1955) na Argentina; Lázaro Cárdenas (1934-1940) no México. O populismo apresenta uma grande diversidade, assumindo aspectos peculiares nos países em que surgiu, o que torna muito difícil - senão impossível - uma conceituação genérica, no tempo e no espaço, exceto, talvez, a de que esse fenômeno político é, essencialmente, urbano. AZEVEDO, Antonio Carlos do Amaral. Dicionário de nomes, termos e conceitos históricos. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1999. p. 314.

[Texto 2] Entre o final dos anos 1960 e o início dos anos 1970, diversos países da América Latina reviveram uma de suas trágicas tradições históricas: a instauração de ditaduras militares. Esses países, desde a sua emancipação política, passaram por contínuas crises, fruto das instabilidades internas e de conflitos políticos e sociais. Refletindo a mudança ocorrida no próprio mundo capitalista, à dominação britânica sucedeu-se a exploração norte-americana.

Na América Central, a presença dos Estados Unidos começou a se verificar já no século XIX, por meio da imposição e deposição de governantes, conforme os interesses da Casa Branca. A dominação política, além de razões estratégico-militares, atendia também a interesses de empresas norte-americanas, que se tornaram proprietárias de imensas áreas de terras, nas quais produziam frutas e gêneros tropicais ou exploravam recursos minerais. As riquezas eram assim enviadas para fora, impedindo um desenvolvimento local auto-sustentado e voltado à maioria da população. Geralmente os capitais estrangeiros se associavam às elites locais. Estas formavam uma oligarquia privilegiada e repartiam entre seus integrantes todos os benefícios. Por isso mesmo, estavam muito pouco interessadas em alterar esse quadro e, para deter os grupos que lhes faziam oposição, usavam da violência sem nenhuma hesitação.

As ditaduras militares, instaladas na maioria dos países da América Latina, ocorreram em resposta ao crescimento das práticas populistas, que exacerbaram diversas contradições sociais. Durante o processo de industrialização desses países, ocorrido a partir dos anos 1930, formaram-se novos setores sociais, que se transformaram em agentes históricos importantes: de um lado, a classe operária, cada vez mais numerosa e atuante; de outro, a classe média, constituída por profissionais liberais, técnicos e trabalhadores especializados, além de funcionários públicos. Esses grupos faziam reivindicações aos governantes, visando sua participação nos destinos do país. Em razão das conveniências políticas, parte dessas demandas era atendida. Além disso, os governos, assumindo o papel de agentes da modernização, usavam um forte esquema de propaganda política, ressaltando seu compromisso com o desenvolvimento econômico. Para tanto, difundiam o mito da conciliação nacional, que procurava negar a ideia de confronto político entre as classes, e acenavam com reformas sociais. Com bases de sustentação heterogêneas e necessitando de apoio popular - cada vez mais importante para a sobrevivência dos líderes políticos, especialmente nos centros urbanos -, os governos começaram a fazer concessões, vistas com reserva pelos grupos dominantes, às camadas populares. Com o apoio de parte da classe média, as camadas populares intensificaram suas reivindicações, exigindo aprofundamento nos programas de reformas. Vários grupos de intelectuais e estudantes defendiam inclusive a ideia de uma revolução, considerada o único caminho possível para se promover, de fato, um desenvolvimento que atendesse à maioria do povo.

Nesse cenário de crescente enfrentamento, as elites, sob o pretexto de que fosse garantida a ordem, mais uma vez recorreram aos militares. Usando o bordão da necessidade de "eliminar a ameaça comunista", tão em voga na época, as ditaduras instalaram-se então em vários países do continente.

Esses governos ditatoriais, contando com a efetiva ajuda norte-americana e submetendo-se às imposições de vários organismos internacionais, como o Fundo Monetário Internacional (FMI), implementaram projetos de desenvolvimento econômico que levaram a expressivos índices de crescimento do PIB. Entretanto, como quase sempre faltava infra-estrutura para atender às novas demandas, capitais públicos passaram a ser investidos, por exemplo, na construção de ferrovias, rodovias, usinas hidrelétricas, em telefonia, siderurgia e outros setores. Quase sempre os capitais vinham de empréstimos estrangeiros, comprometendo os recursos resultantes das exportações. As consequências dessa política foram o endividamento externo e o uso dos recursos públicos em obras muito onerosas, o que fazia faltar dinheiro para a aplicação em setores como habitação, saúde e educação, exatamente num momento em que o crescimento populacional exigia aportes crescentes de recursos nessas áreas. Além disso, o setor das empresas estatais tornou-se muito forte, ganhando imenso poder dentro do próprio Estado.

Nos anos 1980, esse modelo entrou em colapso. A dívida externa exigia enormes sacrifícios para a obtenção de superávits comerciais, o que significou arrocho salarial e uma política fiscal que sacrificava a classe média. Apesar de todo o controle, a classe trabalhadora ampliava seu grau de mobilização, exigindo do governo melhores condições de vida. O uso da violência, particularmente da tortura, para combater a oposição, desgastara os governos diante da opinião pública mundial, e internamente os setores oposicionistas encontraram espaço para expandir-se. Setores que haviam dado sustentação aos regimes militares começaram a questionar se eles de fato eram convenientes na nova conjuntura mundial.


Unámonos como hermanos
que nadie nos vencerá.
Si quieren esclavizarnos, 
jamás lo podrián lograr.
La tierra será de todos
también será nuestro el mar.
Justicia habrá para todos
y habrá también libertad.
Luchemos por los derechos
que todos deben tener.
Luchemos por lo que es nuestro,
de nadie más ha de ser.
Luis Advis, Cantata de Santa Maria de Iquique

Foi nesse contexto que ganharam corpo as lutas pela redemocratização, com o fim da censura, a volta dos partidos políticos, a realização de eleições presidenciais. Aos poucos, foram se fortalecendo o discurso neoliberal e seu programa de modernização econômica, que prevê a diminuição do papel do Estado, sobretudo nas atividades econômicas, e o aumento da atuação do setor privado. A integração latino-americana à economia internacionalizada foi se impondo de diversas formas.


Brasil: campanha pela Anistia

Argentina, Chile, Peru, Brasil e México, cada um com suas especificidades, passaram por processos desse tipo. Vale lembrar que o Chile, antes que ali se instalasse uma das mais truculentas ditaduras do continente, havia experimentado, por curto período, um governo socialista, democraticamente eleito, tendo na presidência Salvador Allende, assassinado durante o golpe militar, em 1973. A Argentina, por sua vez, viveu o episódio da Guerra das Malvinas, travada contra a Inglaterra (1982), um momento decisivo para o fim dos governos militares.


Paredón, paredón, a todos los milicos
que venderon la nación
Estribilho popular de milhares de manifestantes de passeatas, ocorridas em Buenos Aires, em junho de 1982


Cartaz revolucionário chileno

Mais recentemente, vários países latino-americanos têm apostado em projetos de integração econômica como via de superação dos seus problemas sociais e econômicos. [...]

Cuba, Nicarágua e El Salvador tiveram trajetórias distintas na busca pelo socialismo.


"A História não admite erros".
 Ernesto Che Guevara

Em 1959, guerrilheiros cubanos conseguiram pôr fim à ditadura de Fulgêncio Batista, implantando o primeiro governo socialista na América Latina. Como a atuação do novo regime contrariava os interesses capitalistas norte-americanos, o governo dos Estados Unidos, além de ações militares, impôs um pesado bloqueio econômico a Cuba. Diante dessas pressões, Fidel Castro acabou se aproximando da URSS, que, mediante uma política de subsídios econômicos, comprava o açúcar cubano e vendia ao país petróleo e outros produtos a preços mais baixos do que os praticados no mercado mundial. Isso levou o governo cubano a ter recursos para implantar uma grande reforma em toda a estrutura do país.

À medida que a situação econômica da URSS foi ficando mais difícil, impossibilitando a continuidade da política de subsídios, a economia cubana passou também a enfrentar problemas cada vez maiores. Na última década do século XX, esse quadro, aliado ao crescimento da oposição interna e ao aumento das tentativas de fuga da ilha por cubanos em busca de refúgio nos Estados Unidos, criou uma situação quase insustentável ao governo socialista, que iniciou um programa de reformas que admite a entrada de investimentos estrangeiros no país. [...]

A experiência nicaraguense com o socialismo foi ainda mais difícil. Embora tenham derrubado o ditador Anastácio Somoza do poder (1978), os socialistas não conseguiram instaurar um regime estável, capaz de implementar um projeto de construção de uma nova sociedade, pois, com a ajuda norte-americana, setores conservadores retomaram o poder nas eleições de 1989.

Em El Salvador, medidas repressivas conseguiram deter a luta dos grupos guerrilheiros de esquerda, que intensificaram sua ação a partir de 1979, levando o país a uma sangrenta guerra civil que se estendeu até 1992. REZENDE, Antonio Paulo; DIDIER, Maria Thereza. Rumos da história: história geral e do Brasil. São Paulo: Atual, 2005. p. 576-579.

domingo, 22 de abril de 2012

O drama étnico: os mestiços na América colonial hispânica

Mais que uma categoria racial, o mestiço na colônia é uma categoria social. Geralmente homem livre, não goza dos privilégios e oportunidades dos brancos, e não está sujeito às violências que sofrem índios e negros. Num sentido estrito, é um mestiço o filho de espanhol com índia [...]; mulato é o filho de espanhol com negra; zambo, o descendente de negro e índia, e assim até englobar uma enorme quantidade de cruzamentos raciais, para cada uma das quais a sociedade colonial tem uma denominação específica. [...]

Construção do palácio de Cortés (detalhe), Diego Rivera

A situação de mestiço contém uma espécie de ambiguidade psicológica: o temor de ser confundido com seu progenitor índio ou negro e a aspiração a superar os obstáculos que lhe dificultaram a ascensão social acabam criando uma competição no seu ser, vivem nele contraditoriamente, o dilaceram. Em várias ocasiões seus meio-irmãos brancos (de pai ou de mãe), e sua condição de bastardo contribuem muito para aumentar sua frustração, para sentir-se violentamente preterido, injustamente inferiorizado pela cor da pele que ele mesmo abomina. Geralmente a conduta do mestiço exterioriza o drama que a sociedade o faz viver. Tende a imitar os que estão no alto da pirâmide social, a colocar-se  em postura serviçal diante deles e a bajulá-los, sem abandonar o profundo desprezo que tem em relação aos que o empurram para baixo. Para diferenciar-se dos que estão no nível mais inferior, se aplica na sua condição de homem livre, em sua identidade humana superior. Premido entre os dois extremos, pisa nas cabeças dos que estão abaixo de si para ascender à escala social superior, estende as mãos para aferrar-se à cauda dos fraques dos que estão acima. Não é pouca sua contribuição aos sofrimentos dos índios, que legalmente não são considerados escravos.

Ainda que a legislação permita o casamento entre raças diferentes, a união de um branco com uma mulher de cor é tida como desonrosa. A lei e os valores socialmente aceitos pelos dominadores não se combinam, pelo menos nesse caso. [...]

Os espanhóis aceitam viver em concubinato com índias e negras. Essa convivência sem laços legais tem fortes antecedentes na Espanha medieval onde é conhecida como barragania [a concubina vivia na casa do amancebado]. Nos fins da Idade Média a legislação regula essa união [...]. Se bem que os Reis Católicos exigem que todos os casamentos sejam celebrados pela Igreja, os primeiros a não cumprir esse mandato são os próprios sacerdotes, obviamente impedidos de casar-se, mas não de ter concubinas quase abertamente. Na América colonial, sacerdotes e laicos exercem, ativamente, uma poligamia sucessiva ou simultânea, ou ambas ao mesmo tempo. A maioria dos mestiços nasce de relações sexuais extramatrimoniais. [...]

A mulher mestiça tende a unir-se ao branco, desprezando seus semelhantes e ainda muito mais aqueles que estão nos limites inferiores da escala social. O filho que não foi legitimado pelo pai branco tem o caminho para o matrimônio com uma mulher branca praticamente fechado. Deve unir-se a uma mulher de sua condição [...] ou de uma condição inferior, o que para ele significa degradação social.

Um espanhol não se casa com uma negra. Mas também o número de mulatos cresce consideravelmente, o que demonstra que engravidar negras, longe de ser uma desonra, é prazer e satisfação.

Nos fins do período colonial, a mestiçagem enquanto condição social se acentua. Serão mestiços os índios que aprenderam a ler e escrever, adotaram as roupas e hábitos europeus, os padrões de convivência e os costumes. Em troca será considerado índio o mestiço que assimilou os costumes e modos de vida indígenas. Na época, no México, na América Central e nas Antilhas quase 24% dos habitantes são mestiços; na América do Sul, um pouco mais de 30%. [...]

[...]

No século XVIII, o mestiço peruano - chamado cholo - forma a maior parte da população urbana. Faz as vezes de soldado, sacerdote, artesão. Impedido de trabalhar nos serviços administrativos mais importantes, é encontrado, frequentemente, nos postos mais baixos, ruminando seus rancores e sua raiva diante do rigoroso enquadramento que a sociedade lhe impõe. Na Venezuela chega a ser o grupo mais numeroso e é encontrado nos arredores das cidades, em ofícios pouco apreciados. Sem obrigação de pagar tributos, livre para deslocar-se e viver onde melhor possa, não lhe é difícil perceber o quão são ilusórios sua liberdade e seus privilégios em relação aos índios. [...]

POMER, León. História da América Hispano-indígena. São Paulo: Global, 1983. p. 129-131.

segunda-feira, 5 de março de 2012

EUA: o "american way of life"

"Não estou neste instante pensando na perda de bens, enorme e séria, como ela o é realmente, que tudo isso envolve, mas unicamente na destruição desenfreada das vidas dos não-combatentes, homens, mulheres e crianças, vítimas de perseguições [...] Os bens podem ser resgatados, as vidas de pessoas pacíficas e inocentes não podem. A presente guerra submarina na Alemanha contra o tráfico comercial é uma batalha contra o gênero humano [...] Estamos presentemente a ponto de aceitar o desafio para uma batalha com este inimigo natural da liberdade e devemos gastar todas as energias da Nação para testar e anular suas pretensões e seu poderio. Estamos satisfeitos, agora que vemos bem os fatos sem nenhum véu ou falsa pretensão a recobri-los, de lutar assim para ultimar a paz mundial e libertar as populações, incluindo os próprios alemães; para que sejam observados os direitos das Nações grandes e pequenas [...] O mundo tem de ser salvo pela democracia."

As palavras anteriores foram ditas pelo Presidente Thomas Woodrow Wilson (1913-1921), no dia 2 de abril de 1917, quando os Estados Unidos declararam guerra à Alemanha.

Ocorria, então, a Primeira Guerra Mundial (1914-1918), que acarretaria importantes modificações, alterando profundamente as sociedades europeias, americanas, africanas e asiáticas.

[...] a guerra opôs os Aliados (grupo de Estados que se uniram sob a liderança da França, Inglaterra e Rússia) às Potências Centrais (denominação dada à união da Alemanha com a Áustria-Hungria, Bulgária e Turquia), tendo os EUA proclamado sua neutralidade. 

Entretanto, à medida que o conflito se desenvolveu, os interesses norte-americanos foram se identificando com a causa dos Aliados.

Veja, no quadro a seguir, o valor em milhões de dólares do comércio norte-americano com os Aliados, com as Potências Centrais e com os países neutros:


1914
1915
1916
Aliados
824
1991
3215
Potências Centrais
169
11
3214
Neutros
187
330
279



Pela leitura do quadro anterior, você verifica o crescimento do comércio norte-americano com as Potências Centrais; contudo, o valor total das mercadorias vendidas aos Aliados era muito maior.

Que mercadorias eram essas?

Tudo o que você possa imaginar em termos de negócios, desde produtos agrícolas até artigos industrializados, como armas, munições, navios, roupas, calçados, remédios, comida enlatada...

"As transações de produtos industriais e agrícolas se ampliaram com a abertura de créditos bancários aos Aliados (1914), seguida, em 1915, da concessão de empréstimos diretos à Inglaterra e à França."

Desse modo, banqueiros, industriais, proprietários de navios, comerciantes e muitos outros empresários eram, na sua maioria, favoráveis aos Aliados. Mesmo porque o pagamento das vendas a crédito e dos empréstimos aos Aliados dificilmente ocorreria caso a vitória fosse das Potências Centrais.

Acontece que muitos desses empresários também eram acionistas ou anunciantes dos órgãos da imprensa escrita e falada norte-americana.

[...]

Ainda hoje ocorre assim nos EUA, não sendo de espantar que, naquela ocasião, as cadeias de jornais empreendessem hábil campanha com o objetivo de levar a opinião pública a se mostrar favorável à vitória dos Aliados. E os jornais insistiam em alguns temas emocionais que tornaram os Aliados cada vez mais simpáticos aos norte-americanos.

Que temas eram estes?

Os dos laços existentes entre a Inglaterra e os EUA, cujas raízes encontravam-se na colonização inglesa, na permanência de uma língua comum, além dos costumes e das instituições semelhantes.

A obrigação de ajudar a França, cuja participação fora decisiva na conquista da independência dos EUA, começou a ser repetida nos editoriais e nas manchetes dos órgãos da imprensa. [...]

[...]

Para a imprensa norte-americana ficou mais fácil a construção de uma imagem antialemã quando navios norte-americanos começaram a ser afundados pelos submarinos germânicos.

Os jornais passaram a descrever a tragédia de homens, mulheres e até crianças, inclusive norte-americanas, afogando-se no meio do oceano, em consequência do afundamento do navio em que viajavam. Por que o naufrágio da embarcação? Porque fora alvejada por torpedos disparados de um submarino alemão. Os artigos editoriais apresentavam o governo alemão como bárbaro, hostil à democracia, inimigo dos Estados Unidos e violentamente militarista.

E a gota d'água foi a divulgação de um telegrama atribuído a Zimmermann, Ministro das Relações Exteriores da Alemanha, propondo ao governo mexicano uma aliança militar contra os Estados Unidos. Em troca, o México retomaria seus territórios conquistados pelos norte-americanos no século XIX: Novo México, Texas, Utah, Nevada, Arizona, Califórnia...

"Afirmando que interceptara o telegrama - cuja autenticidade foi posteriormente contestada pelos alemães - o serviço inglês de contra-espionagem entregou uma cópia do documento à Associated Press: sua publicação nos jornais provocou uma explosão do clamor público contra a Alemanha; é interessante lembrar que as relações EUA-México eram ruins."

Por que eram ruins? Devido ao avanço da Revolução Mexicana, cujo caráter nacionalista ameaçava os interesses norte-americanos na antiga terra dos astecas. Tanto assim que, por duas vezes, tropas dos EUA invadiram o México: em 1914 e 1916. Isto sem contar o envolvimento em golpes de Estado e pressões diversas sobre os governantes mexicanos.

Mas foi a ameaça de vitória das Potências Centrais - possível pelo enfraquecimento dos Aliados devido à Revolução Russa (1917) - que resultou na entrada dos EUA no conflito.

A intervenção dos Estados Unidos foi decisiva para a vitória final dos Aliados.

[...]

A guerra chegou ao fim quando a Alemanha - após a desintegração do Império Austro-Húngaro e a rendição da Bulgária e da Turquia - capitulou, aceitando uma anterior proposta de paz feita pelo Presidente dos Estados Unidos: os Quatorze Pontos de Wilson.

A Europa estava arrasada e economicamente esgotada. Em contraste, os EUA conheciam um ritmo de crescimento econômico sem precedentes!

O desemprego resultante da desmobilização de milhares de soldados devido ao término da guerra e a redução das vendas de produtos industriais - não só pelo corte das encomendas de material bélico, mas também porque as fábricas europeias voltaram à produção de bens de consumo necessários ao Velho Mundo - constituíram uma combinação perigosa.

Por quê?

Porque acarretaram uma crise econômica nos Estados Unidos [...] em que os estoques agrícolas e industriais se acumularam, os preços de venda das mercadorias caíram, os lucros tenderam a estacionar, empresas fecharam as portas.

Entretanto, a recuperação das indústrias foi rápida, tendo os EUA conhecido um período de extraordinária prosperidade econômica.

O exemplo mais característico desta época pode ser indicado pelo número de automóveis existente no país: havia 700.000 automóveis em 1911, 9 milhões em 1918 e 26 milhões em 1928.

A espantosa multiplicação do número de automóveis teve inúmeras consequências, destacando-se:

* a ampliação e melhoria das rodovias;
* a intensificação da extração do petróleo e da criação de refinarias e de postos de gasolina;
* o aumento da produção da borracha;
* a expansão de antigas e novas atividades como o garagista, o mecânico, o lanterneiro etc.

"O rádio, como o automóvel, começou como um brinquedo e se tornou não só uma necessidade como um promotor de transformações sociais e econômicas. A primeira estação transmissora foi inaugurada em 1920, em Pittsburgh; uma década depois havia quase 13 milhões de rádios nos lares norte-americanos."

Como meio de comunicação, chegou a ter maior influência do que os jornais, somente sendo superado em audiência pela televisão, após a Segunda Guerra Mundial.

Foi também de grande importância a indústria cinematográfica, que levou à abertura de milhares de salas de projeção e à valorização de Hollywood, na Califórnia, como capital do cinema.

Antes mesmo do primeiro filme falado - O Cantor de Jazz, estrelado por Al Jolson, em 1927 - astros e estrelas tornaram-se populares; contudo, o mais extraordinário e genial de todos foi Charles Chaplin, mais conhecido como Carlitos.

[...]

Foi o cinema, aliás, que permitiu a maior propaganda do american way of life.

O que vem a ser isso? O conjunto de costumes e padrões de vida do homem norte-americano.

American way of life

É evidente que a imagem projetada era fantasiosa, otimista, publicitária. Ao mundo, divulgaram-se os arranha-céus gigantescos, beldades de roupas decotadas saracoteando ao som do charleston, salões de clubes repletos de pares sonhadores em meio ao romantismo dos blues... Também se propagava a série de recordes dos atletas, melindrosas de cabelos curtos e geralmente com um falso sinal em uma das faces, pugilistas de várias categorias empenhados em conquistar o cinto de campeão, aparelhos eletrodomésticos diversos, saxofones e pistões solando envolventes músicas de jazz, competições de beisebol, basquete e rúgbi [...].

O american way of life propagado era de uma sociedade onde o amor, a aventura, a riqueza e a alegria de viver eram uma constante!

Mas a outra face da sociedade norte-americana era bem diferente, marcada pelo crime, pela intolerância e pela miséria.

Era o submundo do crime organizado, onde sobressaíam Al Capone, Dion O'Banion, Johnny Torrio, Bugs Moran, cujas quadrilhas não hesitavam em usar suas metralhadoras para eliminar algum concorrente mais ousado. Chicago tornou-se famosa como a capital do crime e da violência, que caminhavam junto à corrupção de políticos e de autoridades policiais e municipais.

Será que você ainda não assistiu, no cinema ou na televisão, a algum filme mostrando guerras entre quadrilhas disputando o controle de casas de jogos de azar e de speakeases (bares para o consumo ilegal de bebidas alcoólicas)?

Consumir bebidas alcoólicas era ilegal nos Estados Unidos? Sim, não só consumir, mas também fabricar, transportar e vender! Em 1919, o Congresso aprovou a Lei Volstead, que se tornou a 18ª Emenda Constitucional, proibindo bebidas alcoólicas em todo o país.

Entidades como a União das Mulheres pela Temperança e a Liga Antibares haviam se mobilizado pela moralização dos costumes e consideraram uma vitória a nova legislação. Mas o homem comum norte-americano não dispensava uma cervejinha, sua dose de uísque ou seu gim com tônica... O resultado foi a violação da lei e o enriquecimento dos gangsters e dos policiais e políticos corruptos!

Contudo, a Constituição também recebeu outra emenda que representou um avanço democrático: a 19ª Emenda assegurou às mulheres o direito de voto (1920).

A intolerância então existente explica a tragédia de Nicola Sacco e Bartolomeo Vanzetti, imigrantes italianos e anarquistas. Em 1920 foram presos e, no ano seguinte, um tribunal considerou-os culpados do assalto a uma fábrica e do assassinato de duas pessoas, condenando-os à pena de morte. Apesar da confissão do verdadeiro criminoso, a sentença foi aplicada e Sacco e Vanzetti morreram na cadeira elétrica.

A intolerância igualmente se manifestou contra os judeus, os católicos e os estrangeiros. E sabem quem os perseguia? A Ku-Klux-Klan, chefiada pelo Bruxo Imperial e cujos membros se ocultavam sob capuzes pontiagudos e agiam sempre com violência. Da sua intolerância religiosa e racial não excluíam os negros, a todos chicoteando e não hesitando em recorrer ao assassinato.

[...]

Terra de contrastes, os Estados Unidos conheciam a pobreza em meio à abundância, o fanatismo religioso juntamente com a valorização dos prazeres materiais, a intolerância sob várias formas ao lado de conquistas democráticas, o reacionarismo e o conservadorismo coexistindo com o progresso, forças antagônicas que poderiam ser consideradas faces distintas de uma só moeda. Moeda que, no caso, era o dólar!

AQUINO, Rubim Santos Leão de; LISBOA, Ronaldo César. Fazendo a História: a Europa e as Américas do século XVIII ao início do século XX. Rio de Janeiro: Ao Livro Técnico, 1996. p. 320-325.

sexta-feira, 2 de março de 2012

A Nicarágua e a Revolução Sandinista

Cartaz da Revolução Sandinista

Desde a segunda metade do século XIX os Estados Unidos pretenderam abrir um canal, através da América Central, ligando o Atlântico ao Pacífico. Essa foi uma das razões que levaram os governantes norte-americanos a intervir na Nicarágua. Recorrendo à política do Big Stick (1912), os EUA estabeleceram um protetorado sobre o país centro-americano e impuseram o Tratado Bryan-Chamorro, assegurando-lhes o direito perpétuo de construir um canal e uma base naval em território nicaraguense (1916).

Embora a construção nunca fosse realizada, a ocupação militar (1912-1925) facilitou a penetração dos capitais norte-americanos, controlando ferrovias, mineração do ouro, bancos e parte da produção de café e de criação de gado.

A retirada dos marines (fuzileiros navais) não trouxe a estabilidade por muitos desejada: o país mergulhou na guerra civil em que se defrontavam liberais e conservadores. Novamente retornaram os marines e mais uma vez ocuparam a Nicarágua (1926-1933).

Foi então que se projetou Augusto César Sandino, de origem camponesa e convertido em líder da resistência popular contra a dominação estrangeira. Organizando o Exército Defensor da Soberania Nacional e adotando a guerrilha como tática de luta, Sandino acabou forçando os invasores a abandonar o país (1933).

O fim da ocupação militar coincidiu com o início da Política da Boa Vizinhança, empreendida por Franklin Roosevelt, recém-empossado como presidente dos EUA, que sofriam os efeitos da Crise de 1929. Os norte-americanos, contudo, haviam estruturado a Guarda Nacional, força militar profissional, encarregada de garantir a continuidade da aliança das oligarquias nicaraguenses com os capitais estadunidenses. Seu comandante era Anastácio Somoza Garcia, iniciador de uma das mais longas, corruptas e sangrentas ditaduras da América Latina.

Atraído a um encontro com os governantes da Nicarágua, Sandino foi preso e fuzilado por ordem de Somoza, que também mandou massacrar cerca de 300 sandinistas (1934).

Apoiado na Guarda Nacional, nas oligarquias locais e no capital norte-americano, Anastácio Somoza Garcia deu um golpe de Estado, instalando um governo que consolidou o modelo capitalista agrário exportador (1937-1956). Neste período, a repressão política manteve sufocada a oposição, ao mesmo tempo em que todos os processos foram usados para enriquecer o patrimônio da família Somoza [...].

Na década de 1950, a economia nicaraguense foi dominada por novo produto: o algodão, cuja exportação enriqueceu a família Somoza e amplos setores da oligarquia agrária. [...]

Anastácio Somoza Garcia acabou morrendo, após ser baleado por um poeta que pretendia acabar com a tirania no país.

A continuação do Somozismo foi assegurada com a designação de Luís Somoza Debayle para a Presidência (1956-1963), que conservou Anastácio Somoza Debayle no comando da Guarda Nacional. Os dois eram filhos do ditador assassinado.

Em seu governo, o segundo Somoza manteve a violência como prática usual contra a oposição, mas a vitória da Revolução Cubana estimulou a formação da Frente Sandinista de Libertação Nacional (FSLN), fundada por estudantes universitários, como Carlos Fonseca Amador e Tomás Borge (1961). Tomando como princípios básicos a luta anti-imperialista, a destruição do Somozismo e a adoção da guerrilha como forma de luta, a FSLN procurou ampliar suas bases de sustentação junto ao proletariado e ao campesinato.

[...]

A ascensão ao governo de Anastácio Somoza Debayle (1967-1979) marcou o apogeu e o fim do Somozismo. Neste período, os Somoza praticamente dividiram o controle da economia nicaraguense com o capital norte-americano, o que reduziu as possibilidades de ação da burguesia da Nicarágua. A concentração de riqueza pelos Somoza intensificou-se a partir de 1972: a família não hesitou em se apoderar dos recursos internacionais enviados para ajudar a reconstrução de Manágua, arrasada por violento terremoto (1972). Além do mais, a repressão governamental contra os opositores também não poupava setores moderados da Igreja e da burguesia [...].

Cartaz da Revolução Sandinista

A conjuntura internacional igualmente contribuía para enfraquecer a ditadura Somoza: o governo Jimmy Carter (1977-1981) levantava a bandeira dos direitos humanos, defendia a democracia e condenava as ditaduras, o que resultou na redução da ajuda financeira e militar dos EUA. Além disso, inúmeros Estados enviavam auxílio à FSLN (armas, munições, medicamentos etc.), destacando-se o Panamá, Venezuela, Costa Rica, Cuba, Alemanha Ocidental, França...

[...]

Criando um comando nacional conjunto, onde se destacava Daniel Ortega, a FSLN intensificou a insurreição revolucionária contra a Guarda Nacional. Além do mais, se fortaleceu com apoio de amplos setores da Igreja e da burguesia, reunidos no Grupo dos Doze, que consideravam ser a ação armada a única forma de acabar com o Somozismo.

Em 19 de julho de 1979, a FSLN tomou Manágua, a capital do país, dois dias após a fuga de Somoza para os EUA. Terminava a primeira etapa da Revolução Sandinista, mas a herança somozista era vultosa: o país estava arrasado, com cidades e estradas destruídas, colheitas e equipamentos perdidos, uma dívida externa atingindo um milhão e seiscentos mil dólares, cerca de 40 mil mortos.

A segunda etapa da Revolução foi empreendida pela FSLN, que organizou a Junta de Reconstrução Nacional, governo pluriclassista composto de cinco membros representantes dos empresários, dos profissionais liberais e dos sandinistas.

[...]

O governo sandinista imediatamente promoveu a desapropriação dos bens dos Somoza, a dissolução da Guarda Nacional, a criação do Exército Popular Sandinista, a nacionalização dos bancos, companhias de seguro e das minas, além da estatização da plataforma continental e da organização dos Comitês de Defesa Sandinista.

Reformas estruturais foram posteriormente empreendidas, destacando-se:

* a Cruzada Nacional de Alfabetização (1981), reduzindo a 10% o índice de analfabetismo [...];
* a Reforma Agrária (1981) [...];
* a Reforma Urbana (1982) [...];
* o desenvolvimento da saúde pública, através da melhoria da assistência médica, do combate a tradicionais epidemias [...].

A reconstrução e a reestruturação da Nicarágua foram dificultadas pela agressão dos Estados Unidos, dirigida pelo governo Reagan. O imperialismo norte-americano atuou através da realização de manobras militares e navais junto às fronteiras nicaraguenses, da colocação de minas nos portos do país (1985), do financiamento de atos de sabotagem e de atentados terroristas, a fim de desestabilizar  a sociedade sandinista [...].

Reunindo dissidentes exilados e, sobretudo, antigos membros da Guarda Nacional, os contras receberam cerca de 170 milhões de dólares dos EUA e atacaram a Nicarágua, partindo do território de Honduras. Embora não tivessem apoio da população, os contras provocaram a morte de cerca de doze mil nicaraguenses, causaram prejuízos materiais incalculáveis e protestos internacionais diversos.

O Grupo de Contadora, reunindo México, Panamá, Venezuela e Colômbia (1983), além de condenar a política norte-americana, fez esforços no sentido de restabelecer a paz na América Central, onde a Nicarágua sandinista constituía o exemplo de uma sociedade empenhada em romper as amarras do passado e de lutar no presente para construir um futuro baseado na justiça e no respeito ao homem.

A pressão norte-americana acabou comprometendo a frágil economia nicaraguense: a inflação disparou, os produtos de consumo escasseavam. O descontentamento popular se expressou na vitória eleitoral de Violeta Chamorro, candidata presidencial que teve apoio dos Estados Unidos e de 14 partidos de oposição (1990).

O novo governo logo recebeu ajuda de 300 milhões de dólares dos EUA, que também suspenderam o embargo econômico e outras medidas atentatórias à soberania nicaraguense. Contudo, teve de enfrentar a ameaça de ressurgir a guerra civil, devido às contradições e hostilidades entre antigos contras e o controle que os sandinistas exerciam sobre as Forças Armadas. A pacificação tornou-se complicada porque sem terras e sem empregos era difícil a reintegração de ex-combatentes à vida civil.

O enfraquecimento do governo ficou claro quando a Assembléia Nacional reformulou a Constituição, proibindo a reeleição presidencial e reduzindo o mandato do presidente de seis para cinco anos.

As crises se sucederam com a anulação da reforma agrária, com a destituição do general Humberto Ortega do comando do Exército Popular Sandinista, com a falta de alimentos, com a inflação e com as múltiplas pressões nacionais. Buscando uma saída, a presidenta Violeta Chamorro empreendeu a privatização de empresas estatais, indenizou ex-proprietários pelo confisco de suas terras e reconheceu os títulos de propriedade fundiária que beneficiavam cerca de 200 mil famílias camponesas.

Essas medidas contribuíram para melhorar a vida econômica e social, possibilitando a vitória de Arnoldo Alemá, da Aliança Liberal, nas eleições presidenciais de 1996.

[...]

Já em 2007, Daniel Ortega, líder da FSLN, acabou voltando à presidência em disputadas eleições no país.

Desde então, a Nicarágua integrou-se à frente antineoliberal e anti-imperialista formada pela Venezuela, Bolívia, Equador e Cuba.

AQUINO, Rubim Santos Leão de et alli. História das sociedades: das sociedades modernas às sociedades atuais. Rio de Janeiro: Imperial Novo Milênio, 2010. p. 624-631.

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

Independência da América espanhola

Praça maior de Lima, Johann Moritz Rugendas

Texto 1
*As razões dos movimentos de libertação colonial. Ao se iniciar o século XIX, a Espanha ainda dominava a maior parte dos territórios americanos. Trinta anos depois, suas colônias americanas limitavam-se a Cuba e Porto Rico.

Como explicar essa mudança radical? Por que o Império Colonial Hispano-Americano desmoronou tão rapidamente? Porque as contradições internas desse Império não conseguiram superar as modificações surgidas no plano internacional desde fins do século XVIII.

Uma das transformações mais importantes se processou na cabeça das pessoas. Como? A partir da propagação das ideias do Iluminismo, cresceu o ideal de liberdade.

Isso mesmo! A produção intelectual, gerada principalmente na França e na Inglaterra, chegou à América Espanhola, através de publicações escritas que conseguiram escapar à vigilância das autoridades coloniais. As ideias liberais e democráticas também se propagaram graças aos hispano-americanos que foram à Europa a passeio, a negócios ou em viagem de estudos.

Não pense que aquelas ideias se tornaram populares entre as classes trabalhadoras. Na realidade, seu conhecimento ficou praticamente limitado aos criollos, brancos nascidos na América e integrantes da classe que dominava a economia colonial.


A rebelião dos criollos, Arturo Michelena

Sim, eram eles os grandes proprietários rurais, os comerciantes, os arrendatários das minas... Eram os criollos a aristocracia econômica das colônias hispano-americanas. Graças aos seus recursos econômicos e financeiros, tiveram a possibilidade de ser a elite intelectual: muitos frequentaram universidades americanas ou europeias, muitos sabiam ler e escrever. Assim, puderam ter acesso aos ideais econômicos e políticos que pregavam a destruição do Mercantilismo, do Absolutismo e dos privilégios das minorias.

Mas eram os criollos maioria na América Espanhola?

De jeito nenhum! Eles, inclusive, exploravam o trabalho da maioria, formada por indígenas, mestiços e negros!

E que minoria seria essa, cujos privilégios os criollos queriam destruir?

A minoria constituída pelos guachupines ou chapetones, denominações aplicadas aos espanhóis que monopolizavam os altos cargos da administração, da Justiça, da Igreja e o Exército coloniais.

E quem sustentava essa minoria dirigente?

Os criollos, que tinham a maior parte dos meios de produção, mas se viam impelidos de ocupar as supremas funções dirigentes coloniais, reservadas exclusivamente aos chapetones.

Foi justamente quando os criollos, graças ao Iluminismo, tiveram maior consciência das limitações e das espoliações impostas pela subordinação colonial, que a Espanha tornou mais opressiva suas diretrizes coloniais:

* os impostos foram aumentados;
* o Pacto Colonial ficou mais severo;
* as restrições às indústrias e aos produtos agrícolas coloniais concorrentes dos metropolitanos agravaram-se.

Além do mais, havia o exemplo dos EUA. Não haviam estes sido colônias da Inglaterra? Se as Treze Colônias conquistaram sua independência, por que as colônias espanholas na América não teriam sucesso em uma guerra de libertação nacional? Os norte-americanos não haviam derrotado a poderosa Inglaterra? Por que os hispano-americanos não venceriam a decadente Espanha?

É claro que os criollos deveriam buscar o apoio da massa indígena e mestiça para melhor atingir seus objetivos. Ainda que algumas concessões fossem feitas, os criollos não queriam perder a condição de elite dirigente e de classe proprietária dos meios de produção.

A conjuntura internacional tornou-se mais favorável quando a Inglaterra, em plena Revolução Industrial, sentiu a necessidade de ampliar seus mercados externos, consumidores da sua produção fabril e abastecedores de matérias-primas.

Só que o interesse inglês esbarrava no aumento do arrocho colonial espanhol. Mesmo a abertura dos portos hispano-americanos às Nações neutras era prejudicial ao capitalismo inglês. Por que? Porque existia um estado de guerra entre as Cortes de Londres e Madri. A questão se complicava devido ao crescimento das relações comerciais entre os EUA e as colônias hispano-americanas.

A Inglaterra não tinha escolha!

Para superar os EUA e abrir os mercados hispano-americanos ao capitalismo inglês, deveria engajar-se a fundo na criação de Estados independentes na América. O comércio inglês só seria livre com países livres!

Por isso, a Inglaterra forneceu navios, armas, munição e até homens, além de auxílio diplomático e financeiro, aos criollos. Já em 1806, uma expedição, comandada pelo criollo Francisco Miranda, tentou ocupar Caracas, na Venezuela, contando com ajuda inglesa.

Mas a ruptura da Espanha com as suas colônias só viria a ocorrer durante a Revolução Francesa (1789-1815). Desde a ascensão de Napoleão Bonaparte ao poder, o conflito entre França e Inglaterra se intensificou, tendo o Bloqueio Continental (1806) fechado a Europa Continental ao comércio inglês.

A crise econômica então criada, e intensificada com a crise financeira, decorrente das grandes despesas com as guerras contra a França Napoleônica, impunha, mais do que nunca, a conquista de novos mercados pela Inglaterra.

Esses mercados poderiam ser americanos, desde que as colônias espanholas se tornassem independentes.

Era natural que a Espanha não aceitasse, sem reagir, a perda das suas colônias. Os acontecimentos, porém, se precipitaram: os exércitos de Napoleão Bonaparte invadiram a Espanha e José Bonaparte, irmão do Imperador francês, foi colocado no trono espanhol; Carlos IV e seu herdeiro Fernando VII foram depostos e aprisionados.

Como em um passe de mágica, a Espanha, submetida à França, tornou-se inimiga da Inglaterra. Com isso, a esquadra inglesa no Atlântico passou a impedir qualquer contato dos governantes de Madri com as autoridades coloniais da América espanhola.

Aproveitando-se da situação e usando a desculpa da fidelidade aos Monarcas depostos, os criollos depuseram a maioria dos Vice-Reis, Capitães Gerais e Governadores, substituídos por Juntas de Governos.

Essas juntas eram integradas exclusivamente por criollos e, de imediato, todas estabeleceram a liberdade de comércio. Foi o fim dos entraves mercantilistas e o início da penetração do capitalismo inglês.

Quando Fernando VII retornou ao poder, com a Restauração na Espanha (1814), e determinou o restabelecimento do Pacto Colonial, a luta pela independência política se alastrou.

Por que? Porque o livre comércio só seria garantido com a liberdade política.

E quem ajudou a vitória dos criollos? É isso mesmo, a Inglaterra, que não admitia perder os mercados americanos. Não é de espantar que, no Congresso de Verona (1822), o representante inglês tenha advertido os presentes que não permitiria qualquer intervenção da Santa Aliança no continente americano.

A essa altura, tanto o Brasil como a maioria das colônias espanholas haviam conquistado a sua independência política, se bem que para cair na esfera de influência da Inglaterra.


Estudo para a Praça maior de Lima, Johann Moritz Rugendas

Texto 2
1810-1822 [Vice-Reino da Nova Espanha]. Em 1810, uma conspiração criolla deu início a uma revolta na região norte do México, marcada pela atividade mineradora. Seu líder, padre Miguel Hidalgo, era adepto dos ideais iluministas e exercia grande influência sobre as comunidades locais. A população pobre e indígena revoltosa recorreu ao estandarte da Virgem de Guadalupe para simbolizar sua identidade local, mexicana. Após meses de luta, o movimento perdeu força e se dispersou. Padre Hidalgo foi capturado, forçado a manifestar um arrependimento público e, em seguida, foi executado.

El grito de Dolores, mural de Juan O' Gorman. [A história do México é contada por gigantescas pinturas murais. Diego Rivera, Jose Orozco e Juan O' Gorman são alguns desses muralistas. O' Gorman procurou enfatizar a importância do movimento liderado pelo padre Hidalgo, em 1810.]

Entre 1813 e 1815, outra rebelião eclodiu ao sul do México, onde havia maior preservação da identidade aldeã. Adeptos das ideias do padre Hidalgo passaram a disseminá-las entre as comunidades locais, destacando-se entre eles o religioso mestiço José Maria Morelos. Sob sua orientação, organizou-se um exército de aldeões, que tinha como metas o fim da escravidão e do sistema de castas e a suspensão do tributo pago pelos povos indígenas. Em 1815, foi fundado um órgão máximo do governo insurgente, chamado Congresso Nacional de Chilpancingo, que declarou a independência da América espanhola setentrional. No ano seguinte, o Congresso de Chilpancingo promulgou a primeira Constituição mexicana, a de Apatzingán, fortemente inspirada nos ideais de Morelos. Os criollos, incomodados com a crescente participação das camadas pobres e mestiças no processo de emancipação, se distanciaram de Morelos, que acabou preso e executado, em 1815. A independência do México e sua primeira Constituição foram anuladas.

Aos poucos, vários grupos de criollos abandonaram as lutas pela independência e voltaram a apoiar a Espanha, na esperança de conquistar a soberania do México por meio de estratégias diplomáticas. Enquanto isso, numerosos grupos guerrilheiros continuaram a agir por todo o Vice-Reino da Nova Espanha, dos quais se destaca o de Vicente Guerrero, em Oaxaca. E foi com esse grupo que o oficial monarquista, Agustin de Iturbide, negociou a retomada do movimento de independência do México. A união dessas forças deu início ao Plano de Iguala, que tornaria o México um país independente e governado por Fernando VII. Os criollos e os chapetones teriam seus privilégios preservados, enquanto a Igreja manteria o monopólio religioso. Em setembro de 1821, a Junta Provisória do Governo decretou a independência do império mexicano. A Capitania Geral da Guatemala, formada pelo atual estado mexicano de Chiapas, pela Guatemala, por El Salvador, Nicarágua, Costa Rica e por Honduras, foi incorporada ao império do México.

Em 1822, Agustin de Iturbide foi nomeado imperador, mas seu governo durou apenas oito meses. Diante de sua inabilidade política e administrativa, setores militares se rebelaram contra o imperador e proclamaram a República, em dezembro de 1822. O general Antonio Lopez da Santa Anna foi nomeado o primeiro presidente do México republicano. A Constituição republicana foi promulgada em 1824, definindo o México como uma república federativa e oficialmente católica.

Formalizou-se, portanto, uma saída conservadora para o processo de emancipação do México.

1811-1819 [Capitania Geral da Venezuela / Vice-Reino da Nova Granada]. Entre 1811 e 1812, os criollos locais, influenciados pelas ideias liberais e iluministas, iniciaram as primeiras campanhas revolucionárias da Venezuela, liderados por Francisco Miranda. Os revoltosos buscaram apoio de países europeus para a causa emancipacionista. A Junta de Governo de Caracas declarou a independência da Venezuela, em 1811. Contudo, as tropas metropolitanas retomaram o poder no ano seguinte e, assim, deram fim à Primeira República venezuelana. Seu líder, Francisco Miranda, foi extraditado para a Espanha, onde faleceu na prisão.


Miranda no cárcere, 1896, Arturo Michelena.

Em 1813, Simón Bolívar, um dos ícones do processo de independência da América espanhola, liderou o segundo movimento emancipacionista venezuelano. Mas a Segunda República venezuelana teve fim logo no ano seguinte, com a chegada das tropas de reconquista enviadas pelo rei Fernando VII.

Em 1819, foi proclamada a República da Grã-Colômbia, que uniu os territórios das atuais Venezuela, Colômbia e Equador, que se separaram novamente em 1830.

1810-1816 [Vice-Reino do Rio da Prata]. A região do Rio da Prata já havia enfrentado outros momentos de grandes tensões entre as demandas locais e as ordens da Coroa. A cidade de Buenos Aires havia sofrido duas tentativas de invasão inglesas e, em ambos os momentos, as autoridades representantes da Coroa se mostraram ineficientes para garantir a segurança das comunidades locais. Diante da crise de legitimidade do poder metropolitano, a elite criolla local constituiu a primeira junta governativa. Em seguida, destituiu o vice-rei, Baltazar Hidalgo de Cisneros, e proclamou a Junta Provisória de Governo das Províncias do Rio da Prata em nome do senhor Fernando VII. O juramento de lealdade ao rei durou pouco tempo, pois logo as elites criollas organizaram uma revolução liberal em prol de sua independência. Em maio de 1810, foi instalada, em Buenos Aires, uma república inspirada nos ideais iluministas. Contudo, outras regiões que formavam o Vice-Reino do Rio da Prata se recusaram a seguir a liderança de Buenos Aires, pois temiam que o comércio interno ficasse inteiramente à mercê da nova capital, localizada numa região portuária. As disputas entre Buenos Aires e as províncias do interior permaneceram por um longo período.

Em 1816, foi proclamada a independência das Províncias Unidas do Rio da Prata.

Enquanto as províncias do interior se batiam contra Buenos Aires, os atuais territórios do Paraguai (1811) e Uruguai declararam a sua independência.

O Uruguai, sob o nome de Província Cisplatina, foi anexado ao Brasil entre 1820 e 1828, como parte de um acordo com a Argentina para garantir, entre outros, a navegação das embarcações luso-brasileiras para o interior do território português. Inicialmente, a anexação foi bem recebida pelos portenhos, mas, a partir de 1825, numerosos grupos de uruguaios se organizaram, dando início a um novo processo de emancipação do Uruguai. Após um período de lutas, que se arrastou até 1827, finalmente foi reconhecida a independência uruguaia, por meio de um tratado firmado em 1828 entre o Império do Brasil, as Províncias Unidas, a Inglaterra e o Uruguai. Em 1830 foi promulgada a primeira Constituição uruguaia, que também seguiu a tendência republicana e liberal.

San Martín proclama a independência do Peru, Juan Lepiani

1812-1824 [Vice-Reino do Peru / Capitania Geral do Chile]. O processo de libertação do Peru esteve entrelaçado com a emancipação da Capitania Geral do Chile e a consolidação da unidade territorial da atual Argentina. As lutas pela libertação dessas regiões da América do Sul tiveram a participação de José de San Martín, outro ícone da independência dos países hispano-americanos, como um dos articuladores desse processo.

As operações de guerra para a libertação do Chile e do Peru foram articuladas em território argentino, onde se fixaram as tropas rebeldes. De lá saíam os principais ataques às forças da Coroa, tendo Bernardo O'Higgins como comandante do chamado Exército dos Andes. Após um longo período de batalhas, as tropas de O'Higgins expulsaram os representantes da Coroa espanhola e declararam a independência do Chile. O"Higgins assumiu então o governo chileno.

Ao contrário das demais regiões, as elites criollas peruanas se mantiveram fiéis à Coroa, mesmo quando os grandes movimentos emancipacionistas eclodiram por toda a América espanhola. Tendo experimentado o impacto da participação popular nas revoltas locais, especialmente o movimento de Tupac Amaru II, as elites criollas preferiram a manutenção da ordem colonial. Tal postura não impediu que surgissem os primeiros movimentos pela libertação do Vice-Reino do Peru, em 1812, que foram duramente rechaçados. Apenas em 1820, as tropas de San Martín conseguiram tomar a cidade de Lima, a capital do Vice-Reino, e proclamar a independência do Peru. San Martín assumiu o governo e tomou medidas liberais, tais como a abolição da mita, o fim da escravidão, a criação de escolas, entre outras. Ele permaneceu no poder até 1822, quando aparentemente se desentendeu com Bolívar e pediu seu desligamento político e militar do governo do Peru. Em 1824, as tropas de Bolívar debelaram a resistência espanhola na batalha de Ayacucho, no Peru.

AQUINO, Rubim Santos Leão de; LISBOA, Ronaldo César. Fazendo a História: a Europa e as Américas do século XVIII ao início do século XX. Rio de Janeiro: Ao Livro Técnico, 1996. 
FARIA, Ricardo de Moura et alli. Estudos de História. São Paulo: FTD, 2010.