"Os espelhos estão cheios de gente.
Os invisíveis nos vêem.
Os esquecidos se lembram de nós.
Quando nos vemos, os vemos.
Quando nos vamos, se vão?"
Eduardo Galeano: Espelhos
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quinta-feira, 15 de dezembro de 2016

O Sudão e as culturas mediterrâneas

Cabeça de um prisioneiro núbio. Templo mortuário de Ramsés III, ca. 1184-1153 a.C., Egito

Com limites não muito precisos, o antigo Sudão abrangia uma vasta área da África central, compreendida entre o Atlântico e o mar Vermelho e situada ao sul do Saara. Seu nome originou-se da expressão árabe Bilad al-Sudan, que significa "País dos Negros", com a qual se designava toda a parte da África habitada pelos negros, em oposição à África mediterrânea..

Tratava-se de uma região geograficamente bastante homogênea, constituída por uma grande planície e com um clima quente, que varia do úmido ao seco, mantendo-se constante tanto no interior quanto no litoral. Com uma vegetação típica das savanas, o território sudanês abrigava três importantes bacias hidrográficas: a do Níger, a do Tchad e a do Nilo.

As populações locais possuíam uma organização social e política que pouco variava de grupo para grupo. Os Estados sudaneses eram chefiados por soberanos, aos quais se atribuíam honras divinas e cujas vidas privadas se mantinham em absoluto sigilo. Acreditando que de sua boa forma física dependia a fertilidade do solo, seus súditos costumavam sacrificá-los por motivo de doença ou velhice. Nestes casos, promoviam sua execução ritual, que era seguida de solenes cerimônias fúnebres.

Os Estados sudaneses não eram de tipo feudal. Assim, sua vida política e econômica não se baseava nos privilégios das grandes famílias. Na realidade, apoiavam-se em uma estrutura burocrática formada por funcionários escolhidos pelo rei, que tinham por principal função a cobrança dos impostos necessários à manutenção do soberano e de sua corte.

Os primeiros Estados do Sudão surgiram como expressões de estruturas sobrepostas a comunidades eminentemente rurais. Em alguns casos, a origem de tais organismos relaciona-se a movimentos de conquista, já que muitos deles se desenvolveram a partir de uma progressiva anexação de comunidades tribais preexistentes na região. A época em que os Estados sudaneses se formaram ainda não foi definida com precisão. No entanto, pode-se assegurar a existência de alguns - como os de Ghana, Mali e Songhai - ou de seus núcleos originais já nos primeiros séculos depois de Cristo. O processo de desenvolvimento desses Estados ocorreu, a princípio, no interior do continente. As regiões litorâneas só foram alcançadas muito mais tarde, quando os europeus chegaram à África e foram inauguradas novas correntes de comércio na área.

A faixa setentrional da África, que se estende ao norte do Saara, esteve por mais de um milênio diretamente ligada à vida dos povos mediterrâneos, a seus impérios políticos e a seus movimentos culturais. A Fenícia, por exemplo, manteve em Cartago o seu reduto de maior poderio e prestígio. A expansão macedônica e o helenismo transformaram Alexandria, na foz do Nilo, em um dos principais centros culturais da antiguidade. O Império Romano, por sua vez, ao integrar a África setentrional na unidade política e econômica do Mediterrâneo, favoreceu a difusão do cristianismo no norte do continente, suscitando o desenvolvimento de escolas teológicas e vários movimentos espirituais. Modificando as estruturas políticas e administrativas da África romana e isolando-as da Europa, os vândalos facilitaram as migrações de grupos berberes, provocando grandes mudanças em sua vida política, econômica e social.

A influência mediterrânea na África setentrional tornou-se menos acentuada com a queda do Império Romano, não tendo atingido a África sudanesa, ao sul do Saara. Os domínios cartaginês e romano jamais ultrapassaram o deserto: enquanto Cartago se detinha nos interesses comerciais e marítimos, Roma utilizava o Saara para defender suas províncias dos nômades, ocupando efetivamente apenas o oásis de Germa, na região do Fezam meridional.

A partir do século V a.C., entretanto, começou a haver um intercâmbio entre a África mediterrânea e a África negra. O porto de Leptis Magna, na costa do Mediterrâneo, funcionava provavelmente como escoadouro dos produtos que chegavam pelas rotas comerciais provenientes do sul através do Fezam, enquanto o de Lixus, na costa atlântica do Marrocos, desempenhava o mesmo papel em relação às rotas comerciais que cruzavam o deserto da Mauritânia.

O contato entre berberes do deserto e negros do Sudão foi determinado basicamente pela diversidade do meio ambiente, pelos recursos econômicos e pelas formas de vida predominantes nos dois grupos. As mercadorias que os sudaneses podiam oferecer eram representadas principalmente por escravos, marfim, peles e plumas de avestruz, que trocavam pelo sal extraído das jazidas do Saara. A influência das populações do norte sobre o Sudão não foi, entretanto, apenas comercial. Antigas crônicas referem-se aos primeiros reis de Ghana como homens brancos provenientes do norte, enquanto outras fontes relacionam a origem dos haussa, que habitavam a Nigéria setentrional, a migrações de povos do norte. Talvez esse processo se tenha limitado à fixação de pastores berberes do deserto em regiões cuja população negra já possuía uma organização política própria.

Esses elementos comprovam a existência de relações e de um intercâmbio econômico, político e cultural entre o Sudão e as áreas povoadas pelos berberes, assim como a ação estimulante que estes últimos exerceram sobre o desenvolvimento dos Estados sudaneses. Contudo, procura-se ainda determinar em que medida as populações do Sudão, por meio da mediação dos nômades berberes, sofreram influências das civilizações mediterrâneas, ou em que medida, inversamente, possam ter influído sobre estas, em épocas anteriores à colonização europeia.

HISTÓRIA DAS CIVILIZAÇÕES. São Paulo: Abril Cultural, 1975. p. 40, 42 e 44. Volume 3.

quarta-feira, 1 de junho de 2016

Dos descobrimentos à colonização - Parte 1

[Os primeiros europeus no continente africano]


Mapa do século XVI mostrando as reivindicações portuguesas para a Guiné e São Jorge da Mina. Cartógrafo desconhecido

Aos descobrimentos geográficos do século XV, que revelaram à Europa novas rotas marítimas*, novas terras, seguiu-se, até o século XVIII, uma vasta iniciativa de penetração colonizadora da qual participaram, por motivos econômicos e políticos, todos os grandes Estados europeus.

* O tráfico do Poente (o oeste, o Atlântico) era totalmente desconhecido antes de os espanhóis terem velejado os mares das Índias [...] e de os portugueses, singrando o alto-mar com a bússola, terem-se tornado donos do Golfo Pérsico e, em parte, do Mar Vermelho, e conseguido assim carregar suas naus com as riquezas das Índias e da Arábia vicejante, frustrando os venezianos e os genoveses que iam buscar suas mercadorias no Egito e na Síria, até onde eram trazidas pelas caravanas árabes e persas e vendidas a nós parceladamente e a peso de ouro. (Jean Bodin, Da República)

A penetração tinha como finalidade explorar riquezas minerais, aproveitar riquezas vegetais e estabelecer núcleos europeus em outros continentes. [...] esta iniciativa das nações europeias trouxe enorme transformação econômica e permitiu, alguns séculos mais tarde, o aparecimento, no cenário mundial, de novos países os quais passariam a disputar, com a Europa, a supremacia econômica e política.

As escalas marítimas dos portugueses, ao longo de toda a costa africana, despertaram o interesse dos holandeses e franceses. Enquanto estes se limitaram inicialmente a estabelecer entrepostos comerciais, os portugueses passaram à exploração do comércio escravista, aproveitando-se de um costume já existente entre algumas tribos africanas. O tráfico de escravos, que os árabes já haviam desenvolvido, intensificaram-se a partir do século XVI promovido pelos portugueses e, em seguida, pelos ingleses que se encarregaram de introduzi-los em suas colônias nas Américas. Os espanhóis, embora não participando diretamente do tráfico, compraram a ingleses e portugueses os escravos que introduziram em suas colônias americanas.

Portugueses
Mantêm entrepostos comerciais na Ilha de Zanzibar e em Moçambique, onde iniciam a exploração de jazidas minerais. No século XVII fundam a colônia de Angola.

Holandeses
Estabelecem escalas para seus navios mercantes, fundam em meados do século XVII a colônia do Cabo.

Franceses
No século XVII abrem entrepostos na desembocadura do rio Senegal e na Ilha de Madagascar.

HOLLANDA, Sérgio Buarque de (org.). História da Civilização. São Paulo: Nacional, 1974. p. 184.

segunda-feira, 30 de maio de 2016

Lamento do povo Azande

Mulher e criança Azande, Richard Buchta

O menino morreu;
cubramos nossas caras
com terra branca.
Quatro filhos pari na
choça de meu esposo.
Somente o quarto vive.
Quisera chorar,
mas nesta aldeia
está proibida a tristeza.

GALEANO, Eduardo. Memórias do fogo: Os nascimentos. Porto Alegre: L&PM, 2013. p. 266.

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2016

Uma manhã no coração da África

A lição de dança (Menino negro dançando), Thomas Eakins

Durante mil anos tu, negro, sofreste como um animal,
tuas cinzas foram espalhadas ao vento do deserto.
Teus tiranos construíram os templos mágicos e brilhantes,
onde preservam tua alma, onde preservam teu sofrimento:
o bárbaro direito dos punhos e o direito branco ao chicote.
Tu tinhas direito de morrer, também podias chorar.
Em teu totem esculpiram fome e cativeiros sem fim.
E no abrigo dos bosques aceitavas uma morte
horrivelmente cruel, oculta, desafiadora como galhos
de espinheiros e copas de árvores.
Cingindo teu corpo e tua dolente alma,
então puseram uma grande víbora traiçoeira em teu peito.
Em teu colo colocaram o jugo da aguardente.
Trocaram tua vida agradável pelo brilho das pérolas baratas,
tuas maravilhosas e incomensuráveis riquezas.
Da tua choça o tantã soava na escuridão da noite,
levando tristes lamentos para as fontes de rios poderosos
sobre jovens violadas, rios de sangue e lágrimas,
sobre barcos que zarpavam para o país, onde o homenzinho
se agita como num formigueiro, e onde o dólar é rei,
na terra condenada, que chamam de mãe-pátria.
Ali teu filho e tua esposa foram esmagados, dia e noite,
por um terrível moinho desapiedado, destroçando-os 
com terrível dor.
Eras um homem como outros. Pregaram para que cresses,
que o bom deus branco reconciliaria por fim todos os homens.
Pelo fogo sofreste, e cantaste os cantos plangentes
do mendigo sem lugar, que canta nas portas das casas.
E quando a loucura te possuiu e teu sangue ferveu na noite,
dançaste, gemeste,
como a fúria de uma tormenta nas palavras de uma
melodia humana.
De mil anos de padecimentos, surgiu a força de ti,
na voz metálica do jazz, um grito de libertação desconhecido,
que ressoou no continente como uma marulhada gigante.
O mundo inteiro, surpreendido, despertou aterrorizado
com o ritmo violento do sangue, o ritmo violento do jazz.
O branco empalideceu ante este novo canto,
que carrega tochas purpúreas na escuridão da noite.
Chegou a alvorada irmão, a alvorada! Olha nossos rostos.
Uma nova manhã desponta na nossa velha África.
Só nossa será a terra, a água, os rios poderosos,
que o pobre negro entregou durante mil anos.
E as resplandescentes luzes do sol brilharão de novo para nós, 
secarão as lágrimas em teus olhos e as cusparadas de tua cara.
Enquanto rompes tuas cadeias, os grilhões pesados,
os tempos malvados e cruéis irão para não voltar mais.
Um Congo livre e bravo surgirá da alma negra.
Um Congo livre e bravo, o florescer negro, a semente negra!

Patrice Lumumba

sábado, 2 de janeiro de 2016

Povos do mundo: África

[Uma cabana Boosh-Wannah, Samuel Daniell]

[Mulher etíope, Henrique Bernardelli]

[Korah-Khoikhoi desmanchando suas cabanas e preparando-se para procurar novas pastagens, Samuel Daniell]

[Mulher beduína, Artista desconhecido]

[Khoisans preparando carne na brasa, Samuel Daniell]

[Guerreiro Mabele em traje de dança, Thomas Baines]

[Cabanas sobre palafitas dos Difaqane, Charles Davidson Bell]

[Um lanceiro de Tigre,  T. Lefebrve]

[África, Stephan Kessler]

[Um homem nobre de Tigre, T. Lefebrve]

[Mercado Massai, Martin Bulinya]
Foto Todd Schaffer

[Guerreiros Malabele, Charles Bell]

[Negra, Lehnert & Landrock]

[Guerreiros Nyam,-Nyam, Richard Buchta]

[Nas margens do Nilo. Uma família cozinha na sombra, Otto Heyden]

[Reboque no Nilo, Frederick Arthur Bridgman]

[Banho no Cairo, Frans Wilhelm Odelmark]

[Terraço no Marrocos, Jean-Joseph Benjamin-Constant]

Guerreiro Zulu, George F. Angas

Mulheres Zulu preparando bebida, George F. Angas

quarta-feira, 30 de dezembro de 2015

Família e vida cotidiana na África Ocidental

Costumes africanos

Texto 1. Em grande parte da África Ocidental, as famílias eram formadas pelo chefe - o Homem Grande - acompanhado pelos filhos, esposa, irmãos mais novos e outros parentes que necessitassem de apoio, contendo entre dez e quarenta pessoas, que compunham as aldeias. Aos ancestrais mortos e aos homens mais velhos da comunidade era atribuída grande importância, devendo-se respeito e obediência.

Uma das formas de casamento era por meio de rapto de mulheres nas suas aldeias. Em geral, a família do futuro marido pagava à família da noiva um dote. A maior parte dos casamentos era polígamo. As mulheres casavam-se muito jovens, ainda na adolescência, e os homens um pouco mais velhos, por volta dos 30 anos. As mulheres cuidavam dos trabalhos agrícolas e, em alguns lugares, como nas savanas e nas florestas meridionais da África Ocidental, também do comércio. O trabalho mais pesado, como a abertura de caminhos nas florestas, ficava reservado aos homens. As colheitas eram feitas pelos dois.

Os povos da África Ocidental davam grande importância à geração de filhos. Um provérbio iorubá dizia que "sem filhos estás nu". Os filhos eram a garantia de uma boa velhice dos pais e, depois, quando da sua morte, eles dariam continuidade à família. MATTOS, Regiane Augusto de. História e cultura afro-brasileira. São Paulo: Contexto, 2008. p. 58.

Paisagem da cidade de Kano, Heinrich Barth


Texto 2.  Na maioria das culturas africanas, a fertilidade constituía atributo essencial para homens e mulheres. Quem não podia ter filhos era desprezado pelo grupo social. O número de filhos de uma família era proporcional ao seu prestígio na comunidade. As mulheres férteis eram disputadas e até raptadas pelos seus pretendentes. Homens ricos podiam casar com dezenas de mulheres e ter centenas de filhos. A maternidade inspirou artistas da época [...]. A disputa por esposas gerou muitos conflitos. A proteção das mães e das crianças era responsabilidade de todos.

As casas eram construídas de pedra ou de uma mistura de barro e óleo de dendê. Nos locais onde os construtores utilizaram materiais duráveis, como pedras, foi possível conhecer melhor o modo de vida dos indivíduos.

Pesquisas recentes revelam a importância política e comercial de algumas cidades como Mbansa Kongo, Benin, Grande Zimbábue, Kano e muitas outras. Nesses locais, a vida urbana foi dinâmica, lúdica (com danças, jogos e cantorias) e comercialmente ativa. Há indícios de que a vida média dos indivíduos tenha sido aproximadamente 40 anos. BRAICK, Patrícia Ramos; MOTA, Myrian Becho. História: das cavernas ao terceiro milênio. Da conquista da América ao século XIX. São Paulo: Moderna, 2010. p. 32.

Texto 3. A mulher negra, porém, apesar das mutilações corporais que por vezes lhe eram infligidas, gozava também de prerrogativas que são precisamente o contrário da opressão e que lhes davam um estatuto invejável em relação às mulheres de certos países da mesma época: liberdade sexual [...]; liberdade de deslocação por ocasião da maternidade ou das visitas à família; [...] regime matrilinear, que dá ao irmão a autoridade sobre os filhos; libertação econômica pela apropriação dos ganhos das suas múltiplas atividades rurais ou comerciais; [...] direitos políticos ou espirituais que lhe abrem por vezes o caminho do trono e da regência ou fazem dela sacerdotisa respeitada, em particular nos ritos de fertilidade. KI-ZERBO, Joseph. História da África negra 1. Lisboa: Europa-América, s/d. p. 225.

terça-feira, 23 de junho de 2015

A vida na corte do reino de Daomé no século XVIII

Gezo, rei do Daomé, Frederick E. Forbes

Diversos mercadores europeus que realizaram negócios nos portos da Guiné deixaram relatos detalhados de suas experiências pessoais e dos povos com que mantiveram contatos. O comerciante inglês de escravos, Robert Norris, descreveu em detalhes a magnitude da corte do rei Tegbessu, sucessor de Agadjá, e os sinais de obediência demonstrados por seus súditos, durante a visita ao Daomé em 1772:

"Preparei-me para a visita ao rei, mandando desembrulhar uma bela liteira e um órgão portátil que mandara vir de Juda (Uidá): enviei esses dois presentes ao palácio do rei [...].

[...] Ao chegar diante do rei, expliquei-lhe a maneira de utilizar a liteira, que disse ser mais cômoda que aquela espécie de padiola de que ele se servia habitualmente. Nessa altura, ele mandou chamar uma dúzia de servidores encarregados de o transportar, que se aproximaram caminhando de quatro; em obediência aos desejos do rei, entrei na liteira, ensinei-lhes como deviam proceder e eles foram experimentando, um a um. Nesta altura, o rei manifestou a vontade de passear também na liteira e deu várias voltas à corte, em meio aos gritos e aclamações dos ministros e de sua esposa. O coche era muito elegante: tinha assentos de marroquim vermelho e era forrado de seda branca. Ele ficou encantado e divertia-se muito a abrir e fechar as cortinas, que lhes pareceram uma invenção muito engenhosa; finalmente, no meio de uma grande euforia, mandou eunucos para substituir os homens que transportavam a padiola; a porta que dava para os seus aposentos foi aberta e ele mandou que o levassem até junto das suas mulheres, para que elas vissem o belo presente que acabou de receber.

[...] O rei sentou-se em meio aos gritos e aclamação do povo, debaixo da tenda, numa cadeira de braços muito bonita, coberta de veludo carmesim, e enfeitada com esculturas e dourados.

Vi desfilar uma guarda de cento e vinte homens armados de grandes mosquetes e marchando aos pares; seguiam-lhe quinze filhas do rei, muito belas, acompanhadas de cinquenta escravos; depois delas, vinham, em ordem regular, umas atrás das outras, setecentas e trinta das suas esposas, transportando provisões e licores para um festim que iria realizar-se na praça do mercado. Eram seguidas de uma escolta de oitenta mulheres armadas, batendo em tambores. Nessa altura, foi posta uma mesa onde almocei enquanto a procissão continuava a passar. Vi aparecer seis batalhões de setenta mulheres cada um, à cabeça dos quais marchava, abrigada por um guarda-sol, uma favorita: impediram-me de vê-la tapando-a com o guarda-sol e com uma espécie de grandes escudos de couro, cobertos de seda vermelha e azul. Todas aquelas mulheres divertiam o rei com suas canções e danças, à medida que passavam. Nunca esperei ver tamanha variedade e tão grande profusão de tecidos de seda, de pulseiras de prata, de joias e corais, de colares valiosos e de ricos enfeites." Fonte: NORRIS, Robert. Memoirs of the Reign of Bossa-Abadce; with an Account of a Journey to Abomey in 1772. Apud COQUERY-VIDROVICH, Catherine. A descoberta da África. Lisboa: Edições 70, 2004, p. 148. (Lugar da História)

MACEDO, José Rivair. História da África. São Paulo: Contexto, 2013. p. 75-76.

terça-feira, 9 de junho de 2015

Lugar da história na sociedade africana

Homem mucubai, Angola

O ser humano é um animal histórico. Os africanos não fogem a essa definição. A consciência histórica que os africanos possuem de sua própria história e da história em geral está marcada por seu singular desenvolvimento. O tempo africano é, às vezes, mítico e social, mas os africanos também têm consciência de serem os agentes de sua própria história. O tempo africano é um tempo realmente histórico. Por um lado, o mito, em geral, domina o pensamento dos africanos na sua concepção do desenrolar da vida dos povos. Sob a forma de “costumes” vindos de tempos imemoriais, o mito governava a História, encarregando-se, também, de justificá-la. Nesse contexto, aparecem duas características do pensamento histórico: sua intemporalidade e sua dimensão essencialmente social. O tempo é o ritmo respiratório da coletividade que engloba e integra a eternidade em todos os sentidos. As gerações passadas não estão perdidas para o tempo presente. À sua maneira, elas permanecem sempre contemporâneas e tão influentes quanto o eram durante a época em que viviam. Assim sendo, a causalidade atua em todas as direções: o passado sobre o presente e o presente sobre o futuro, não apenas pela interpretação dos fatos e o peso dos acontecimentos passados, mas por uma irrupção direta que pode se exercer em todos os sentidos. Nesse tempo “suspenso”, a ação do presente é possível mesmo sobre o que é considerado passado, mas que permanece, de fato, contemporâneo.

Esse enfoque mítico está na origem da história de todos os povos. Toda história é originalmente uma história sagrada. Do mesmo modo, esse enfoque acompanha o desenvolvimento histórico, reaparecendo de tempos em tempos sob formas maravilhosas ou monstruosas.

Pode-se pensar que essa visão do processo histórico seria estática e estéril, já que, ao colocar a perfeição do arquétipo na origem dos tempos, parece indicar como ideal para o conjunto das gerações a repetição estereotipada dos gestos do ancestral. Porém, não podemos nos ater unicamente a esse enfoque do pensamento histórico entre os africanos.

No período pré-colonial, numerosas sociedades africanas elementares, quase fechadas, dão a impressão de que seus membros só tinham consciência de estar fazendo história numa escala e numa medida bastante limitadas. Em compensação, nas sociedades fortemente estruturadas, a concepção africana de chefe dá a este último um espaço exorbitante na história dos povos dos quais ele literalmente encarna o projeto coletivo. Assim, não é de se admirar que a tradição relembre toda a história original dos Malinke no “Elogio a Sundiata”. O mesmo acontece com Sonni Ali entre os Songhai da curva do Níger. Isso não significa um condicionamento “ideológico” que destrói o espírito crítico. Por outro lado, a história mais recente da África pré-colonial demonstra que a posição dedicada aos líderes africanos nas representações mentais das pessoas provavelmente não é superestimada. A ideia de um líder que atua como motor da história quase nunca se reduz a um esquema simplista, creditando a um só homem todo o desenvolvimento humano. Geralmente trata-se de um grupo dinâmico, celebrado como tal, onde os companheiros dos chefes frequentemente entram para a história como heróis.

A mesma observação vale para as mulheres, que ocupam na consciência histórica africana uma posição sem dúvida mais importante que em qualquer outro lugar. Nas sociedades de regime matrilinear isto é facilmente compreensível. As mulheres são vistas como protagonistas na evolução histórica dos povos. Filhas, irmãs, esposas e mães de reis ocupavam posições que lhes permitiam influir nos acontecimentos. Essa ideia permanece viva até hoje na África. Pela sua participação no trabalho da terra, no artesanato e no comércio, pela sua ascendência sobre os filhos, por sua vitalidade cultural, as mulheres africanas sempre foram consideradas personagens eminentes da história dos povos. A mulher é a vida e a promessa de expansão da vida. É através dela que os diferentes clãs consagram suas alianças.

Por outro lado, tudo se passa como se na África a frágil envergadura das sociedades tivesse tornado a história uma questão que diz respeito a todos. Este sentimento de fazer a história mesmo na escala microcósmica da aldeia, assim como a sensação de ser somente uma molécula na corrente histórica criada pelo rei, visto como demiurgo, são muito importantes porque constituem em si mesmos fatos históricos e contribuem para criar a história.

O próprio caráter social da concepção africana da história lhe dá uma dimensão histórica incontestável, porque a história é a vida crescente do grupo. Desse ponto de vista, para o africano o tempo é dinâmico. Nem na concepção tradicional, nem na visão islâmica que influenciará a África, o homem é prisioneiro de um processo estático ou de um retorno cíclico. O tempo permanece um elemento vívido e social, porém, não se trata de um elemento neutro e indiferente, já que é o lugar onde o homem pode lutar pelo desenvolvimento de sua energia vital. Tal é a dimensão principal do “animismo” africano em que o tempo é o campo fechado no qual se confrontam ou negociam as forças que habitam o mundo. Existe assim no africano uma vontade constante de invocar o passado que não significa o imobilismo e não contradiz a lei geral da cumulação das forças e do progresso.

O poder na África negra se expressa em geral por uma palavra que significa “a força”. Essa sinonímia assinala a importância que os povos africanos outorgam à força e mesmo à violência no desenrolar da história. Trata-se da energia vital que reúne uma polivalência de forças, que vão da integridade física à sorte e à integridade moral. O valor ético é considerado como uma condição sine qua non do exercício benéfico do poder. Esta visão do mundo em que os valores e exigências éticas são parte integrante da própria organização do mundo pode parecer mítica, mas ela exercia uma influência objetiva sobre o comportamento dos homens. Nesse sentido, se a história é justificação do passado, ela é também exortação do futuro.

A consciência do tempo passado era muito viva entre os africanos. No entanto, esse tempo, que tem um grande peso sobre o presente, não anula o seu dinamismo. A concepção do tempo tal como a detectamos nas sociedades africanas é a marca de um estágio no desenvolvimento econômico e social. O essencial é que a ideia de desenvolvimento a partir das origens esteja presente. Mesmo sob a forma de contos e de lendas, trata-se de um esforço para racionalizar o desenvolvimento social. Às vezes, têm-se verificado esforços ainda mais positivos no sentido de iniciar o cálculo do tempo histórico relacionado com o espaço ou a vida biológica e, mais frequentemente, relacionado aos fenômenos cósmicos, climáticos e sociais. Mas o passo decisivo nesse campo só será dado pela utilização da escrita, que ao menos permitiu estabelecer pontos de referência que organizam o curso do fluxo histórico. A introdução das religiões monoteístas baseadas num determinado processo histórico contribuiu para fornecer uma outra representação do passado coletivo.

Mas a grande reviravolta na concepção africana do tempo se opera sobretudo pela entrada desse continente no universo do lucro e da acumulação monetária. Só agora o sentido do tempo individual e coletivo se transforma pela assimilação dos esquemas mentais em vigor nos países que influenciam os africanos econômica e culturalmente. Descobrem então que, em geral, é o dinheiro que faz a história. O homem africano, tão próximo de sua história que tinha a impressão de forjá-la ele próprio em suas microssociedades, enfrenta agora, ao mesmo tempo, o risco de uma gigantesca alienação e a oportunidade de ser coautor do progresso global.


SILVÉRIO, Valter Roberto. Síntese da coleção História Geral da África: Pré-história ao século XVI. Brasília: UNESCO, MEC, UFSCar, 2013. p. 29-32.

sexta-feira, 1 de maio de 2015

Ferreiros e agricultores dispersos nas savanas e florestas da África Central Ocidental

Lunda, 1854, Artista desconhecido

O primeiro problema nos estudos sobre África Central Ocidental é a questão da difusão da metalurgia e a grande expansão das línguas bantu. Sobre essas duas questões, têm-se construído grandes equívocos. Primeiro, as explicações são dadas como se a expansão dos povos de língua bantu fosse responsável pela propagação do uso de instrumentos de ferro e, somente a partir daí, esses povos tiveram condições de enfrentar a Floresta Tropical. Segundo, há uma tendência de se identificar o termo bantu como característica etimológica no estudo dos povos. Como se fosse uma etnia.

Na verdade, os trabalhos da arqueologia e da linguística têm informado que bantu significa um tronco linguístico, e não uma etnia propriamente. Porém, tem-se feito identificação de bantu como grupo cultural e etnológico, e não como povos que falavam línguas de origem comum. No Brasil, a confusão por conta disso tem sido grande. Quando os africanos chegaram ao Brasil, aqueles que vieram da região abaixo da Floresta Tropical passaram a ser designados de bantu. Pela dimensão dos diversificados agrupamentos humanos existentes na região abaixo da floresta, o termo não identifica esse africano. Ele pode ser luba, lunda, kongo, mbundo, ovumbundo, etc. Bantu designa povos falantes de uma língua, e não uma etnia. [...]

Para que não se mantenha a ideia de uma África como um grande caldeirão, em que todos que de lá saíam tinham uma única identidade, de um lugar difuso e distante, será necessário saber o que é ser um bantu. A maioria da população abaixo da região dos Camarões pertence aos povos de língua bantu, mas, apesar de hoje serem majoritários, os bantu, quando chegaram à região, encontraram outros povos, os koisans-sans ou bosquímanos. São caçadores, muitos dos quais, no encontro com agricultores e metalúrgicos, passaram pelo processo de integração ou tiveram que migrar para regiões inóspitas, como o deserto do Kalaari e onde vivem até hoje.

No início do segundo milênio, surgiram as chefias políticas de caráter mais centralizado nas regiões das savanas, onde hoje seria o sudoeste de Angola e Congo. Provavelmente oriundos de comunidades de caçadores e coletores, obtiveram instrumentos de ferro por meio de seus vizinhos. Os agricultores se fixaram nas terras férteis junto aos vales dos rios.

A descoberta, o uso e a expansão do ferro marcaram uma importante fase na história de todas as populações da África Central. O metal era mais versátil e eficiente para a agricultura e foi se expandindo, substituindo os instrumentos de pedra e madeira.

As migrações bantu integravam na sua civilização traços culturais provenientes dos autóctones. O fenômeno característico da primeira metade de nosso milênio foi a diferenciação étnica. Dois fatores contribuíram para isso: os povos autóctones assimilados linguisticamente e a fraca intensidade de comunicação entre as populações. Para o historiador Jean-Luc Vellut, o maior exemplo disso foi a trajetória dos imbangala, população com elementos da cultura lunda, luba, ovimbundo e mbundo, que  formou um conjunto étnico por volta do ano de 1600.

É possível que os diversos grupos cultivassem as diferenças linguísticas para traduzir uma maneira visível de sua vontade e individualização. Em zonas onde a vegetação e o relevo montanhoso tornavam a comunicação difícil, encontramos um só grupo regional com marcadas diferenças étnicas. Entretanto, onde o mapa linguístico obedeceu seguidos padrões, os traçados dos rios e da costa favoreciam as ligações laterais, constituindo grupos mais homogêneos. Na zona de savana, por conta da densidade populacional, foi preciso maior esforço para o isolamento.

Após transformações, como o crescimento da população e a eclosão das técnicas artesanais e do comércio, a sociedade tornou-se mais complexa. Os agricultores de língua bantu, em geral, organizavam-se em grupos matrilineares. O vínculo de parentesco de uma pessoa conta-se a partir da família da mãe. Naquela região da África, muitas vezes o parentesco era dessa maneira. Em outras sociedades, contava-se pelo pai e havia comunidades que contavam o parentesco por ambos os lados. Em matéria de descendência, predominava, portanto, o regime matrilinear. Assim, há uma influência grande desse regime nas questões de sucessão, herança, casamento e residência. Matrilinearidade e matriarcado são coisas distintas.

A matrilinearidade bantu era acompanhada, em geral, do princípio de que os homens tinham maior autoridade sobre as mulheres. A linhagem matrilinear ficou débil, enquanto a estrutura da aldeia achava-se reforçada. Essa autoridade da aldeia se fundamentava nos princípios territoriais e políticos.

PANTOJA, Selma. Uma antiga civilização africana: história da África Central Ocidental. Brasília: Editora da Universidade de Brasília, 2011. p. 23-27.

sábado, 7 de março de 2015

O Magreb: O Marrocos independente

Dia de mercado fora dos muros de Tânger, Louis Comfort Tiffany

No extremo do mundo muçulmano, um tanto isolado pelas cadeias do Atlas, o Marrocos vivia à parte, submetido, não obstante, às vicissitudes do Islã mediterrânico. O Marrocos era particularmente sensível aos progressos dos cristãos. O acordo com os espanhóis em 1479 deixara aos portugueses o direito exclusivo sobre as costas da África, diante das Canárias. Os portugueses se haviam apoderado de Tânger, de Santa Cruz do Cabo de Suez (Agadir, 1504), de Safi (1508). Partindo de suas praças-fortes, realizavam incursões pelo interior e avançavam até Marráquexe. Havia tribos mouras a eles submetidas e encarregadas de seu reabastecimento em cereais. Em 1497, os espanhóis obtiveram dos portugueses a autorização de ocupar Melilha.

Este recuo do Islã provocou especial ressentimento no Marrocos, onde era intensa a vida religiosa. [...] Tal mundo encontrava-se extraordinariamente excitado e exercia grande influência sobre os fiéis a quem os chefes de zaúias ou xeques enviavam palavras de ordem.

O ódio dos sufis contra os cristãos orientava-se contra a dinastia watasida, incapaz de impedir os progressos dos infiéis, de tranquilizar o espírito dos muçulmanos por meio do corpo oficial dos ulemás. Os xeques sustentaram, contra os Watasidas, todas as revoltas de pretendentes, sendo estas apoiadas, ainda, pelos montanheses berberes insubmissos.

Coube ao Sul desempenhar o papel essencial. Os nômades lançaram-se sobre o Marrocos numa guerra santa. [...]

A dinastia atingiu o seu apogeu quando Ahmed Almansur (o Vitorioso) esmagou a cruzada portuguesa em Alcácer-Quebir (1578). [...]

Almansur manteve relações com a Europa. Na sua corte encontravam-se artesãos europeus, financistas judeus, negociantes cristãos. No seu exército eram numerosos os renegados espanhóis. [...]

Almansur localizara sua capital em Marráquexe, na porta do deserto, para melhor controlar os nômades. Queria conquistar o Sudão, a região do ouro, e criar um vasto império ligado pelas rotas saarianas [...].

[...]

A dinastia sadiana desaparece em 1654, depois que oito sultões, num total de onze, morreram assassinados. As tribos dos nômades e caravaneiros e os grupos de zaúias do Sul, mais intransigentes em matéria de fé, disputaram entre si o Marrocos. [...] Criou-se a dinastia alauita. [...]

O Marrocos, assim, conseguiu estabilizar a situação do Islã frente à civilização cristã no noroeste da África. [...]

MOUSNIER, Roland. Os Séculos XVI e XVII. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1995. p. 192-193 e 195. (História geral das civilizações, v. 10).

quinta-feira, 5 de março de 2015

O Magreb: O Estado argelino

Jovens senhoras no terraço em Tânger, Rudolf Ernst

O Estado argelino era governado por um beilerbei designado pelo sultão e suserano dos paxás de Túnis e Trípoli. A partir de 1587, o beilerbei foi substituído por um paxá, constituindo-se Argel, Túnis e Trípoli em Regências. [...] Na realidade, os delegados dos janízaros e dos corsários exerceram o Governo após 1587. [...]

[...] Como o próprio Império Otomano, estas distantes províncias do Magreb foram dirigidas por uma empresa militar de escravos e renegados que exploravam os [...] vencidos. Os "turcos", efetivamente, conquistaram a Argélia, colocaram guarnições nos pontos estratégicos [...]. Os mouros das cidades eram excluídos das funções e do serviço militar, reservados aos turcos de raça ou de "profissão". Frequentemente aliaram-se aos nômades vencidos, aos marabus e aos fanáticos do Islã.

Argel desenvolveu-se. Em meados do século XVI, a cidade contava 60.000 habitantes, renegados na maioria, mais 25.000 cativos cristãos. Em 1650, ultrapassava 100.000 habitantes com 25 a 35.000 cativos. O século XVII foi a idade de ouro do corso, pois os argelinos tiveram a habilidade de acrescentar navios de alto bordo às suas galeras. Em 1615-1616, as presas ultrapassaram 2 a 3 milhões de libras. Os escravos eram objeto do comércio mais lucrativo. Particularmente procurados eram as moças e os rapazes, "cuja sorte era fatal", e os trabalhadores especializados em construção de navios, nos trabalhos portuários e na artilharia. [...] O comércio era ativo. Mercadores europeus instalavam-se duradouramente mediante o pagamento de uma licença à Regência e de direitos de saída. Predominavam os judeus e os marselheses. Após 1685, sofreram a concorrência dos protestantes refugiados do Languedoc. Os europeus exportavam couros, cera, lã, tâmaras, plumas de avestruz, coral, cereais e, de Túnis, esponjas. Importavam armas, vinho e telas. Mas, quando as presas diminuíam, tornava-se necessária a elevação dos impostos, o que provocava perturbações. [...]

Em Argel, bem como em Túnis, encontravam-se entre os corsários as faianças de Delft, os mármores esculpidos da Itália, as sedas e os veludos de Lião e Gênova, os vidros de Veneza, os cristais da Boêmia, as pêndulas da Inglaterra. Os benefícios da pirataria multiplicavam as mesquitas e as fundações pias.

MOUSNIER, Roland. Os Séculos XVI e XVII. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1995. p. 190-192. (História geral das civilizações, v. 10).

terça-feira, 3 de março de 2015

O Magreb: As dependências turcas da Argélia e da Tunísia

Escrava nua com tamborim, Frank Buchser

No fim do século XV, por razões análogas às que mais tarde causariam o declínio do Império Otomano, o reino muçulmano do Magreb estava em plena decomposição. [...] Os portos correspondiam a outras tantas Repúblicas organizadas para o corso [...]. Os corsários, soldados da guerra santa contra os cristãos, pilhavam as costas, atacavam os navios, reabasteciam os mouros. Os espanhóis temiam uma coligação entre o Sultão egípcio e os soberanos do Magreb para auxiliar os mouros da Espanha. Os de Granada já haviam sublevado em 1501.

Para suprimir a ameaça que pesava sobre suas comunicações na bacia ocidental do Mediterrâneo, bem como os riscos de desembarque, para garantir a posse das bases necessárias às suas galeras ou a cabotagem que lhes é imposta, os espanhóis lançaram uma cruzada. Sucessivamente, tomaram Mers-el-Quebir (1505), Orã (1509), Bugia (1510), o Penon (Argel) e vários chefes passaram a pagar-lhes tributo. Mas os negócios da Espanha obrigavam-nos a contentar-se com uma ocupação restrita. [...]

Os muçulmanos solicitaram a ajuda de corsários instalados em Djidjeli, os quatro irmãos Barba-Ruiva. Em 1516, Arrudji Barba-Ruiva assenhoreou-se de Argel e encetou a submissão do interior. [...] seu irmão Khair-ed-Din Barba-Ruiva continuou sua obra e fundou a Regência de Argel. Para triunfar dos espanhóis e dos vencidos muçulmanos que procuravam a libertação, prestou homenagem ao sultão Selim [...].

Sufocou uma conspiração dos argelinos e das tribos, tomou Collo, Bona (1522), logo depois o Penon, constituiu em Argel, onde os corsários até então puxavam suas barcas para a areia, um porto que se transformou na principal base dos turcos, cômodo bastante para vigiar e interceptar as rotas do estreito de Gibraltar ao Mediterrâneo oriental, da Espanha do Sul para a Itália meridional e da Sicília. [...]

MOUSNIER, Roland. Os Séculos XVI e XVII. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1995. p. 189-90. (História geral das civilizações, v. 10.)

domingo, 1 de março de 2015

O Magreb: A maré dos nômades

Loja de ferreiro em Tânger, Edwin Lord Weeks

Durante os séculos XVI e XVII em todo o Magreb, desde o golfo de Gabes até o Atlântico, espalham-se, ao que parece, os nômades da fé. Foi, certamente, o progresso dos cristãos que provocou esta reação do Islã. Os nômades estariam sendo prejudicados pelo declínio do tráfico das caravanas saarianas, pois os portugueses, e em seguida seus sucessores holandeses, ingleses e franceses, haviam desviado para as costas da África negra o ouro e os escravos. Os nômades são atingidos pelas incursões de pilhagem das guarnições europeias lançadas sobre as costas e, talvez, pelas culturas de cereais destinadas ao comércio com os cristãos. Todo o mal provém dos detestados Rumis. O ódio religioso é atiçado nos centros religiosos dos oásis do sul, longe da corrupção das cidades costeiras, pelos santos marabus secundados por milhares de mouros espanhóis refugiados. E o ódio religioso dirige-se primeiramente contra os citadinos, os sultões e os corsários, cuja prosperidade é uma injúria ao empobrecimento dos nômades e que, em certo sentido, poderiam ser acusados de pactuar com o infiel, pois concordam em entregar os cativos mediante resgate, em comerciar com os cristãos, em lançar mão de seus serviços. Na Argélia e na Tunísia, os nômades fracassam na luta contra a artilharia dos turcos. No Marrocos, periodicamente, uma dinastia do sul apodera-se do governo, sedentariza-o, é forçada, por sua vez, a pactuar com o cristão, resvala pelo harém e é seguida por outra que toma igual caminho.

MOUSNIER, Roland. Os Séculos XVI e XVII. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1995. p. 188-9. (História geral das civilizações, v. 10).

quinta-feira, 27 de novembro de 2014

O legado da África Negra

Faraós núbios

[...] Convém lembrar, aqui, que se aprofundam os estudos no sentido de estabelecerem-se os vínculos existentes entre a terra dos faraós e a África Negra. Procura-se aproximar, mediante técnicas lingüísticas apropriadas, o antigo egípcio e as línguas atuais da África Negra. “Também o historiador deverá estar preparado para uma radical mudança de perspectiva quando for desvendada uma macroestrutura cultural comum entre o Egito faraônico e o resto da África Negra” (OBENGA).

Templo egípcio, Karl Richard Lepsius

Na Europa Medieval pode ser apontado como legado da África Negra a contribuição do ouro africano para a economia medieval. Davidson anota: “À medida que o tempo foi passando, os povos da Europa, erguendo-se da sua pobreza nos inícios da Idade Média, começaram a considerar a África em virtude do ouro de que precisavam. Depois de 1300 d.C., aproximadamente, as primeiras moedas de ouro feitas na Inglaterra desde a época romana foram cunhadas com metal trazido da África Ocidental através do Saara. Para obterem esse ouro os ingleses, e outros com eles, exportavam as suas próprias mercadorias manufaturadas. Tinham poucas coisas para oferecer, mas faziam o melhor que podiam para competirem com os mercadores norte-africanos, asiáticos ou sul-europeus. Séculos mais tarde, em 1896, os britânicos invasores travaram uma batalha contra o Império Achanti, então senhor da maior parte do Ghana moderno. Descobriram ali uma bela vasilha de prata feita na Inglaterra antes de 1400 d.C. e estampada com o emblema do rei inglês Ricardo II, que reinou de 1377 a 1399. Foi sem dúvida um dos objetos que os ingleses tinham vendido, através de comerciantes árabes e outros “intermediários”, com o objetivo de comprarem ouro na África Ocidental”.

No campo religioso um dos aspectos mais interessantes da influência da África Negra é a [...] africanização do Islam.

Hampaté Ba observa: “De fato, por onde se espalhou, o Islam não adaptou a tradição africana a seu modo de pensar, mas, pelo contrário, adaptou-se à tradição africana quando – como normalmente ocorria – esta não violava seus princípios fundamentais. A simbiose assim originada foi tão grande que por vezes torna-se difícil distinguir o que pertence a uma ou a outra tradição”.

Um aspecto interessante do legado da África Negra a outro continente e que se situa num plano de estudos muito especializados é a contribuição do continente africano no campo de cereais importantes, como, por exemplo, o sorgo e o arroz. Claro está que a África também recebeu plantas de outras regiões do globo [...].

A África pré-histórica deixou um notável legado. Não se trata somente dos preciosos fósseis que têm levado os antropólogos a diferentes teorias sobre o continente africano considerado como o berço da humanidade. Trata-se das relações entre os tipos “raciais” (o termo é controvertido) modernos do continente e o modelo antigo dos grandes grupos antropológicos. Na medida em que os perfis antropológicos apresentam uma constância notável (até mesma milenária), “não é errôneo extrapolar para a pré-história algumas das características do quadro étnico atual” (OLDEROGGE).

A África pré-histórica deve ainda ser recordada pelo importante legado no campo artístico. Com efeito, ao estudar a arte pré-histórica africana, Ki-Zerbo acentua a íntima relação que existe entre as características dessa arte (popular, quotidiana, senso de humor que é a ironia alegre ou amarga da vida, esotérica, vibrante como um fervor místico) e a condição do homem africano moderno, “tão espontâneo e quase trivial no dia a dia, tão sério e místico quando tomado pelo ritmo de uma dança religiosa. Em suma, a arte pré-histórica africana não está morta. Ela vive, ainda que apenas nos topônimos que perduram. Um vale afluente do Uede Djerat, denominado Tin Tehed, ou seja, “o lugar da jumenta”, é efetivamente marcado por uma bela gravura de asno. Issoukai-n-Afella tem a fama de ser assombrado por espíritos (djenoun) talvez porque, diante de um monte de seixos constituídos por arremessos de pedras votivas, exista uma figura zoomorfa assustadora, que reúne os atributos da raposa aos da coruja, sem falar num sexo de tamanho descomunal”.

[...] Focalizar o passado humano da África, especialmente da África Negra, significa ampliar consideravelmente os horizontes da história abrindo à fascinante disciplina de Clio uma perspectiva verdadeiramente universal. Esta ampliação de horizontes, enfatize-se, não se dá somente com relação à própria matéria, objeto de estudo da história. Abrande a própria metodologia da história como ciência. Obenga anota: “A prática da história da África torna-se um permanente diálogo interdisciplinar. Novos horizontes se esboçam graças a um esforço teórico inédito. A noção de “fontes cruzadas” exuma, por assim dizer, do subsolo da metodologia geral, uma nova maneira de escrever a história. A elaboração e a articulação da história da África podem, consequentemente, desempenhar um papel exemplar e pioneiro na associação de outras disciplinas à investigação histórica”.

Lembremos aqui a importância fundamental das fontes orais na pesquisa do passado da África. Pode-se mesmo afirmar que os historiadores da África realizaram, na utilização dessas fontes, um verdadeiro trabalho de pioneirismo.

Os estudiosos das estruturas político-sociais muito aprenderam do passado da África Negra: “Poucos se prontificavam a reconhecer, por exemplo, que uma das grandes realizações da África fora provavelmente a sociedade sem Estado, fundada mais sobre a cooperação do que sobre a opressão, e que o Estado africano se havia organizado de maneira a realmente apresentar autonomias locais” (CURTIN).

GIORDANI, Mário Curtis. História da África: anterior aos descobrimentos. Petrópolis: Vozes, 2013. p. 251-254. (Idade Moderna I)

sábado, 27 de setembro de 2014

Anticolonialismo na África

A revolta do Cairo, Anne-Louis Girodet de Roussy-Trioson

A insatisfação diante do estrangeiro se fazia sentir em vários níveis e em diferentes modalidades, desde revoltas sociais, movimentos religiosos, até a organização de partidos e sindicatos que pudessem representar o anseio das populações coloniais.

O preço do domínio colonial foi ter que conviver todo o tempo num clima de tensão latente, e as revoltas ocorriam por diferentes motivos. Houve levantes contra a fixação de impostos nas comunidades de aldeia dos povos Mendes, em Serra Leoa (1889), dos povos acholis, em Uganda (1911), dos povos holis, no Daomé (1914, 1920); contra a requisição de mão de obra e a prestação de trabalho forçado nas comunidades dos povos majanga, no Congo (1893-1894) e em toda a região do rio Zambeze. Mas esses eram movimentos localizados, expressavam insatisfação mas não punham em causa o funcionamento global do sistema de exploração.

Muitas vezes, as manifestações religiosas canalizaram a insatisfação coletiva a se tornaram veículos privilegiados de resistência social. Não dispondo de quadros políticos ou ideológicos para conceitualizar e criticar a colonização, os africanos valeram-se do discurso de cunho religioso para demonstrar sua inconformidade e materializar formas concretas de contestação.

Os mais freqüentes foram os movimentos messiânicos de matriz muçulmana e de matriz cristã.

Nas áreas de influência muçulmana da África Ocidental, um foco importante de contestação na fase inicial da colonização proveio da confraria dos múridas que, sob a liderança de marabus, questionaram a presença francesa já no fim do século XIX. Movimentos similares ocorreram na Mauritânia e na Somália.

Os feiticeiros e sacerdotisas, os fazedores de chuva e xamãs das religiões tradicionais canalizavam a angústia dos conterrâneos provocada pela presença estrangeira, e em alguns casos deram origem a formas de contestação muito radicais. Como o movimento denominado Mumbo, que se desenvolveu no Quênia a partir de 1913. Baseava-se na crença difundida pelos feiticeiros locais de que uma grande serpente teria anunciado o fim próximo dos brancos.

Outro foco de contestação tinha origem no discurso cristão, tal qual o cristianismo tinha se desenvolvido na África. Não um cristianismo alimentado pelos preceitos filosóficos, doutrinais e litúrgicos europeus, mas uma crença superficial que se fundiu com antigas tradições das religiões ancestrais africanas para dar origem a formas marcadas por um profundo sentido messiânico.

Entre os movimentos religiosos de cristianismo negro-africano, nenhum provocou tal impacto quanto o kimbanguismo. Ele teve origem no Congo Belga, inspirado nas pregações de um profeta negro chamado Simão Kimbangu (1887-1951), a quem se atribuía a capacidade de realizar milagres e anunciar o futuro. O termo kimbangu significa justamente “aquele que revela o sentido das coisas ocultas”.

Kimbangu anunciava aos “irmãos negros” uma nova aliança com Deus, mesclando aos ensinamentos bíblicos elementos dos cultos de possessão em honra aos antepassados, e elementos mágicos. A prisão, condenação e deportação do líder em 1921 e a perseguição e prisão de cerca de 37 mil adeptos apenas fizeram crescer a aura do martírio e fortalecer o caráter salvacionista do movimento que, de resto, se mantinha forte no início da década de 1950. A Igreja kimbanguista continua a ter milhares de adeptos na República Democrática do Congo e em Angola, na Europa e nos Estados Unidos.

Tudo indica que o impacto provocado pelas duas guerras mundiais não foi pequeno para os africanos, que dela participaram, na África e em outras frentes de combate. Nos domínios franceses, soldados africanos passaram a ser recrutados de modo sistemático para servir ao exército desde a Primeira Guerra Mundial. Eles participaram dos conflitos travados dentro do próprio continente (nos Camarões, Togo e na África Oriental, em conflito contra os exércitos recrutados pelos alemães), mas também foram deslocados para a Europa, onde atuaram não só como atiradores, mas também como parte da mão de obra necessária para a logística, como carregadores e reparadores de armas e munições.

Nas duas guerras mundiais, foram mobilizados mais de 250 mil homens nas colônias francesas, e 146 mil na África Ocidental britânica. Parte desses efetivos foi enviada na Segunda Guerra Mundial para lutar em territórios conflagrados na Ásia, experiência que viria a se repetir, décadas depois, nos domínios franceses, durante a Guerra da Indochina.

As guerras promovidas pelos Estados europeus provocaram uma mudança profunda no comportamento dos africanos. Elas alteraram a imagem do branco que até então, valendo-se da força armada e da manipulação ideológica, tinha construído uma imagem de superioridade racial e de um ser intocável. A convocação dos africanos para integrar os exércitos europeus, mesmo que na condição de auxiliares, pôs em causa uma regra que até então tinha sido mantida, pois aos negros foi autorizado atirar e matar os brancos. Além disso, ao conviverem com os brancos no front, os negros descobriram suas fraquezas, seus defeitos, enfim, reconheceram sua humanidade: que eram homens como quaisquer outros. Ao regressarem às suas terras, levaram consigo essas experiências e contribuíram para a organização da luta anticolonial.

Dentro da Europa, movimentos político-sociais de esquerda, sobretudo o movimento comunista, incluíam em sua bandeira de luta pontos específicos contrários ao imperialismo e ao colonialismo. Para os africanos que tomaram contato com tais movimentos, uma das maiores dificuldades era a inexistência na África de um contingente expressivo de proletários, de operários, a quem na ideologia marxista estaria reservado lugar proeminente na luta política e na preparação de uma revolução. Faltava também ali um movimento camponês com alguma estruturação que permitisse aos líderes a organização de um movimento de libertação do tipo promovido pelo líder chinês Mao Tse-tung nos anos 1930-1940.

Ainda assim, não foram poucos os estudantes e intelectuais africanos que ingressaram nos partidos de esquerda e começaram a se posicionar, dentro da própria Europa, nos movimentos de contestação aos regimes associados ao imperialismo e ao colonialismo.

A invasão da Etiópia pelos italianos a serviço do regime fascista de Benito Mussolini, em 1935, foi severamente condenada por organizações integradas por africanos. Não obstante, a ocupação durou até 194, quando as forças fascistas começaram a sofrer derrotas dentro e fora da Europa.

Esse acontecimento constitui um divisor de águas na história da consciência africana. A Etiópia era o mais antigo Estado formado no interior do continente, o único que conseguira até então manter sua independência e ser reconhecido no círculo das grandes nações. Era um símbolo positivo, uma espécie de bastião da soberania africana. Em várias partes da Europa e na América, as elites negras mobilizaram-se e organizaram uma vasta campanha de protesto contra a Itália e um boicote aos produtos italianos. Em toda parte aumentaram as pressões sobre os impérios coloniais e seus agentes.

A crise etíope revelou a dimensão da impunidade, a arrogância dos brancos e o tratamento desigual reservado aos negros pelos representantes de instituições internacionais, como a Liga das Nações – que pouco fez para impedir a ocupação daquele país soberano. Por outro lado, contribuiu para a conscientização política de membros das elites coloniais, que passaram a tomar parte mais ativa nas formas de contestação ao colonialismo.

A emergência dessa consciência africana deve muito a movimentos intelectuais nascidos na América do Norte e na América Central, dos escritos de intelectuais da diáspora negra. Desde os anos 1920, as obras do jamaicano Marcus Harvey (1887-1940) alimentavam o mito do regresso à Mãe-África pelos afrodescendentes, integrando-se numa perspectiva de valorização da “raça negra”. Maior impacto teriam as ideias do escritor norte-americano William Edward Burghart Du Bois (1868-1963), que defendia a igualdade das raças e a coesão e união dos povos negros espalhados pelos vários continentes, no combate às desigualdades raciais e aos abusos do colonialismo. Foi assim que, em 1919, realizava-se em Paris o primeiro Congresso Pan-Africano, ponto de partida do movimento conhecido como pan-africanismo.

O pan-africanismo ganhou importantes adeptos nas elites negras espalhadas na América do Norte e na Europa e teve grande influência num movimento que viria a ter papel significativo no contexto das independências africanas: o movimento da negritude, nascido em 1939. Este resultou do conjunto de ideias de valorização da cultura negra e da profunda crítica ao colonialismo, em obras de autores como o haitiano Jean-Price Mars, o antilhano Franz Fanon, o martinicano Aimeé Cesaire e o senegalês Leopold Sedar Senghor (1906-2001) – que viria a ser algumas mais tarde o primeiro presidente do Senegal.

Tais ideias circulavam em diferentes jornais e revistas que tiveram por objetivo congregar as populações de africanos e afrodescendentes, como L’Étudiant Noir, L’Action coloniale e Le libere, na França; Negro World, New Times and Ethiopia News, The Crusader, na Inglaterra; O Negro ou O Correio da África, em Portugal. Papel de primeiro plano seria reservado à revista Presence Africaine, fundada em Paris no ano de 1947 pelo filósofo senegalês Alioune Diop. Ela se distinguiria nos anos 1950-1960 como canal de difusão da história e da filosofia africana, da negritude e do pan-africanismo na Europa.


MACEDO, José Rivair. História da África. São Paulo: Contexto, 2013. p. 154-158.

NOTA: O texto "Anticolonialismo na África" não representa, necessariamente, o pensamento deste blog. Foi publicado com o objetivo de refletirmos sobre a construção do conhecimento histórico.