"Os espelhos estão cheios de gente.
Os invisíveis nos vêem.
Os esquecidos se lembram de nós.
Quando nos vemos, os vemos.
Quando nos vamos, se vão?"
Eduardo Galeano: Espelhos
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segunda-feira, 17 de novembro de 2014

Os significados do vestuário, da moradia, da alimentação e do lazer na sociedade medieval

O vestuário designa todas as categorias sociais, é um verdadeiro uniforme. Levar vestuário de uma condição diferente da sua é cometer o pecado capital da ambição ou da degradação. O pannous (o indigente vestido de farrapos), é desprezado. [...] As regras monásticas fixam cuidadosamente o hábito dos seus membros – mais por respeito pela ordem que pela preocupação de evitar o luxo.

[...] As ordens mendicantes iriam mais longe e vestiriam burel, tecido cru. Seriam os monges pardos. Cada nova categoria social se apressa a criar o seu vestuário. Assim fazem as corporações e, em primeiro lugar, a corporação universitária. Dá-se atenção especial aos acessórios que mais particularmente determinam o grau: os chapéus e as luvas. Os doutores usam compridas luvas de camurça e boina. Os cavaleiros reservam para si as esporas. Fato curioso para nós: o armamento medieval é demasiado funcional para constituir um verdadeiro uniforme. Mas os cavaleiros, ao criar a nobreza, juntam ao elmo, ao escudo e às espadas as armarias. Nasceu o brasão.

Os ricos exibem o luxo do vestuário, que se mostra na qualidade e quantidade do tecido: panos pesados, amplos, finos, sedas  bordadas a ouro; mostra-se também nos enfeites: as cores, que mudam com a moda – o escarlate, dependente dos corantes vermelhos...

A casa é a última manifestação da diferenciação social. A casa do camponês é de adobe ou de madeira [...]. Geralmente, reduz-se a um só compartimento e tem por chaminé uma abertura no telhado. Pobremente mobiliada e apetrechada, não cativa o camponês. A sua pobreza contribui para a mobilidade dos camponeses medievais.

As cidades são ainda construídas, principalmente, de madeira. São fáceis presas para os incêndios. O fogo é um grande flagelo medieval. [...] A Igreja não tinha grande dificuldade em persuadir os homens da época de que eram peregrinos neste mundo. Mesmo sedentários, raramente tinham tempo de apegar-se às suas casas.

Já o mesmo não sucede com os ricos. O castelo é sinal de segurança, de poderio e de prestígio. No século XI erguem-se as torres e vence a preocupação da defesa. Em seguida, precisam-se os encantos da habitação. Continuando bem defendidos, castelos passam a dar mais lugar aos alojamentos e criam edifícios de habitação dentro das muralhas. Mas a vida ainda se concentra na sala grande. O mobiliário é diminuto. As mesas, em geral, são desmontáveis e, uma vez concluídas as refeições, são retiradas. O móvel normal é a araçá ou baú, onde são arrumadas as roupas ou a baixela. Esta é de um supremo luxo, resplandece e é também uma reserva econômica. [...] Outro luxo está em tapeçarias, que são, também, utilitárias: postas ao alto, fazem de biombo e separam as câmaras. São transportadas de castelo em castelo e recordam a este povo de guerreiros a sua habitação por excelência, a tenda.

Cena de casa de banhos. Miniatura anônima do século XV

Mas talvez as grandes damas – é o mecenato das mulheres – levem mais longe o rebuscamento da ornamentação de interiores. Segundo Baudri de Bourgueil, a câmara de dormir de Adèle de Blois, filha de Guilherme, o Conquistador, tinha nas paredes tapeçarias que representavam o Antigo Testamento e as Metamorfoses, de Ovídio, e panejamentos bordados com a história de Inglaterra. As pinturas do teto representavam o céu com a Via Láctea, as constelações, o zodíaco, o Sol, a Lua e os planetas. O chão era um mosaico que representava um mapa-múndi com monstros e animais. Um leito com baldaquino era sustentado por oito estátuas [...].

O sinal do prestígio e da riqueza era a pedra, ao torres que rodeavam o castelo. O mesmo faziam na cidade, por imitação, os burgueses ricos: “casa forte e bela”, como se dizia. Mas o burguês iria ligar-se à casa e mobiliá-la. Também neste aspecto daria à evolução do gosto a sua marca característica inventando o conforto.

Cena de banquete. Miniatura do século XV. Artista desconhecido

A alimentação [...] foi uma obsessão da sociedade medieval. A massa campesina tinha de contentar-se com pouco. A base da sua alimentação eram as papas. O principal acompanhamento reduzia-se frequentemente aos produtos de apanha. Mas o [...] acompanhamento de pão espalhou-se em todas as categorias sociais nos séculos XII e XIII – e foi então que o pão tomou verdadeiramente no Ocidente a significação quase mítica que a religião lhe dá. A classe campesina tem, porém, uma festa alimentar: a matança do porco, em dezembro, cujos produtos alimentam os festins do fim do ano e as refeições do longo inverno...

A alimentação é a principal oportunidade que têm as classes dominantes da sociedade para manifestar a sua superioridade nesse essencial domínio das aparências. O luxo alimentar é o primeiro de todos. Exibe os produtos reservados: a caça das florestas senhoriais, os ingredientes preciosos, especiarias compradas por alto preço, e os pratos raros, preparados pelos cozinheiros. [...] A mesa senhorial é também uma oportunidade para exibir e fixar as regras de etiqueta. [...]

Cena de caça. Dezembro (detalhe). Livro de Horas do Duque de Berry, Irmãos Limbourg. Século XV

Uma vez satisfeitas as necessidades essenciais da subsistência e, quanto aos ricos, as exigências – não menos essenciais – do prestígio, pouco ficava aos homens da Idade Média. Sem as preocupações com o bem-estar, sacrificavam tudo às aparências quando isso estava nas suas possibilidades. As suas únicas alegrias profundas e desinteressadas eram a festa e os jogos, mas, nos grandes, a festa era também ostentação e autopropaganda.

Cena de torneio, Barthélémy d'Eyck. Século XV

O castelo, a igreja, a cidade eram cenários teatrais. É sintomático que a Idade Média não tenha tido um local especial para as representações teatrais. Os palcos e as representações eram improvisados onde houvesse um centro de vida social. Na igreja, as cerimônias religiosas eram festas, e é do drama litúrgico que sai o teatro. No castelo, os banquetes, os torneios, os espetáculos dos trovadores, dos jograis, dos bailarinos e dos domadores de ursos sucedem-se. Na cidade, os teatros de saltimbancos erguem-se nas praças [...]. Todas as classes da sociedade fazem das suas festas familiares cerimônias ruinosas: os casamentos deixam os camponeses na pobreza durante anos, e os senhores durante meses. O jogo exerce uma singular sedução sobre esta sociedade alienada. Escrava da natureza, entrega-se ao acaso: os dados rolam em todas as mesas. Prisioneira de rígidas estruturas sociais, faz da própria estrutura social um jogo: é o caso do xadrez [...]. Projeta e sublima as suas preocupações profissionais em jogos simbólicos e mágicos: os torneios e os desportos militares exprimem a essência da vida cavalheiresca e as festas folclóricas, o ser das comunidades campesinas. [...] E, em especial, a música, o canto, a dança arrastam todas as classes sociais...


LE GOFF, Jacques. A civilização do Ocidente Medieval. Lisboa: Estampa, 1984. v. 2. p. 88-9, 91, 121-7.

quarta-feira, 6 de junho de 2012

O homem medieval

As datas são uma invenção utilíssima. Não poderíamos viver sem elas, mas, se não tomarmos muito cuidado, elas podem nos enganar. Tendem a tornar a história precisa demais. Do ponto de vista do homem medieval, por exemplo, não posso afirmar que no dia 31 de dezembro de 476 todos os habitantes da Europa disseram ao mesmo tempo: "Ora, ora, o Império Romano acabou e estamos vivendo na Idade Média. Que interessante!"

Na corte franca de Carlos Magno havia homens que eram romanos nos seus hábitos, no seu comportamento e na sua forma de ver a vida. [...] Os tempos e as gerações se sobrepõem e as ideias das sucessivas gerações brincam de pega-pega. Porém, é possível estudar as ideias de um bom número de representantes legítimos da Idade Média para lhe dar uma ideia das atitudes do típico homem medieval perante a vida e as muitas dificuldades do viver.

Em primeiro lugar, lembre-se que, na Idade Média, as pessoas nunca se concebiam como cidadãos livres que podiam ir e vir à vontade e moldar o próprio destino de acordo com a própria capacidade, energia ou sorte. Muito pelo contrário, consideravam-se partes de um esquema geral de coisas que incluía imperadores e servos, papas e hereges, heróis e fanfarrões, ricos e pobres, mendigos e salteadores. Aceitavam essa divina ordenação do mundo e não faziam perguntas. [...]

Para os homens e mulheres do século XIII, a outra vida - um Paraíso de maravilhosas delícias ou um Inferno de sofrimento, fogo e enxofre - era algo mais do que uma expressão vazia ou um amontoado de confusas definições teológicas. Era uma realidade, e os burgueses e cavaleiros da Idade Média dedicavam a maior parte do seu tempo a preparar-se para essa vida futura. Para nós, modernos, uma morte tranquila depois de uma vida vivida é encarada com a silenciosa tranquilidade dos antigos gregos e romanos. [...]

Durante a Idade Média, porém, a Rainha do Terror, com sua caveira risonha e seus ossos chocalhantes, era a constante companheira do homem. Ela acordava suas vítimas com terríveis melodias arranhadas em sua rabeca, sentava-se com elas para jantar e espreitava por detrás das árvores quando um rapaz levava uma moça para passear. Se você, na infância, em vez de ouvir os contos de fadas de Andersen e dos irmãos Grimm, tivesse ouvido somente horripilantes algavarias sobre cemitérios, caixões e doenças mortais, provavelmente também passaria todos os dias de sua vida no constante temor da hora da morte e do terrível Dia do Juízo. Era exatamente isso o que acontecia com as crianças da Idade Média. Elas habitavam um mundo povoado de demônios e espectros, no qual de vez em quando aparecia um anjo. Às vezes, o medo do futuro enchia suas almas de humildade e piedade, mas no geral tinha nelas o efeito oposto e tornava-as cruéis e sentimentais. Depois de chacinar todas as mulheres e crianças de uma cidade, os homens medievais dirigiam-se cheios de devoção a algum lugar sagrado e, com as mãos tintas de sangue de vítimas inocentes, imploravam do Céu misericordioso o perdão de seus pecados. Aliás, não se militavam a rezar, choravam lágrimas amargas e confessavam-se os piores pecados. Porém, no dia seguinte, tornavam a passar a fio de espada todo um batalhão de inimigos sarracenos sem o menor sinal de misericórdia em seu coração.

 
Batalha de Hattin: cavaleiros europeus x cavaleiros muçulmanos

É certo que os cruzados eram cavaleiros e seguiam um código de comportamento um pouco diferente do dos homens comuns. Porém, nesses assuntos, os homens comuns eram idênticos a seus senhores. Assemelhavam-se igualmente a cavalos assustadiços, facilmente postos em fuga por sua sombra ou um miserável pedaço de papel, capazes de servir a outrem com a máxima fidelidade, mas capazes também de bater em retirada e cometer terríveis atrocidades quando sua imaginação febril via um fantasma.

Para julgar esses bons homens, porém, convém nos lembrarmos das terríveis desvantagens que sofriam no seu viver. Eram, na realidade, bárbaros que posavam de homens civilizados. Carlos Magno e Oto, o Grande, eram chamados "imperadores romanos", mas eram selvagens que, embora vivessem em meio a ruínas gloriosas, não partilhavam dos benefícios da civilização que seus pais e avós haviam destruído. Não sabiam absolutamente nada. Ignoravam quase todos os fatos que hoje em dia são conhecidos de qualquer criança de doze anos. Para adquirir conhecimento, eram obrigados a recorrer a um único livro: a Bíblia. Porém, as partes da Bíblia que influenciaram para melhor a história da raça humana são aqueles capítulos do Novo Testamento que nos ensinam as grandes verdades morais do amor, da caridade e do perdão. Como compêndio de astronomia, zoologia, botânica, geometria e todas as outras ciências, o livro sagrado não é totalmente confiável. No século XII, um segundo livro foi acrescentado à biblioteca medieval: a grande enciclopédia de conhecimento úteis compilada por Aristóteles, filósofo grego do século IV a.C. Realmente não sei dizer por que a Igreja cristã conferiu tão grandes honras ao mestre de Alexandre Magno ao mesmo tempo em que condenava todos os demais filósofos gregos por suas doutrinas pagãs. Mas, depois da Bíblia, Aristóteles foi reconhecido como o único mestre confiável cujas obras poderiam, sem dano, ser postas nas mãos dos verdadeiros cristãos.

Suas obras chegaram à Europa por um caminho tortuoso. Da Grécia, haviam ido a Alexandria. Lá, foram traduzidas do grego para o árabe pelos maometanos que conquistaram o Egito no século VII. Entraram com os exércitos muçulmanos na Espanha, onde a filosofia do grande Estagirita (Aristóteles nasceu em Estagira, na Macedônia) era ensinada na universidade mourisca de Córdoba. O texto árabe foi então traduzido para o latim pelos estudiosos cristãos que cruzavam os Pirineus para receber uma educação liberal e foi essa viajada versão dos velhos livros que por fim passou a ser ensinada nas diversas escolas do noroeste da Europa. Não era muito clara, mas isso a deixava muito mais interessante.

Com a ajuda da Bíblia e de Aristóteles, os intelectos mais brilhantes da Idade Média puseram-se a trabalhar para explicar todas as coisas entre o céu e a terra em sua relação com a vontade manifesta de Deus. Esses homens brilhantes, os chamados escolásticos, eram de fato muito inteligentes, mas obtinham suas informações exclusivamente dos livros, nunca da observação direta. Quando queriam dar aulas sobre esturjões e taturanas, liam o Antigo Testamento, o Novo Testamento e Aristóteles e contavam a seus alunos tudo o que esses excelentes livros tinham a dizer sobre o assunto. Não se dirigiam ao rio mais próximo para pescar um esturjão; não saíam da biblioteca nem iam ao quintal para capturar algumas taturanas, examiná-las e estudá-las em seu próprio habitat. Mesmo mestres tão famosos quanto Alberto Magno e Tomás de Aquino não se perguntavam se os esturjões da Palestina e as taturanas da Macedônia não seriam porventura diferentes dos esturjões e taturanas da Europa ocidental.

Quando, vez por outra, uma pessoa excepcionalmente curiosa como Roger Bacon surgia em meio ao concílio dos sábios e começava a fazer experiências com lentes de aumento e pequenos telescópios, ou levava o esturjão e a taturana para a sala de aula e provava que eram diferentes das criaturas descritas no Antigo Testamento e nos livros de Aristóteles, os escolásticos meneavam a cabeça com tristeza. Bacon  estava indo longe demais. Já quando ele se atreveu a afirmar que uma hora de observação direta valia mais do que dez anos na companhia de Aristóteles, e que as obras do famoso grego poderiam nem sequer ter sido traduzidas, pois não haviam feito nenhum bem, os escolásticos foram à polícia e disseram: "Este homem é um perigo para a segurança do Estado. Quer que estudemos a língua grega para poder ler Aristóteles no original. Por que não está contente com nossa versão árabe-latina, que tem atendido satisfatoriamente às necessidades do povo fiel por tantos séculos? Por que demonstra tanta curiosidade pelas vísceras de peixes e dos insetos? Talvez seja um malvado feiticeiro que, com sua magia negra, pretende perturbar a ordem estabelecida." E tão bem defenderam a própria causa que os atemorizados guardiães da paz proibiram Bacon de escrever uma única palavra por mais de dez anos. Quando retomou seus estudos, Bacon havia aprendido uma lição. Passou a escrever seus livros numa estranha linguagem cifrada que impossibilitou que seus contemporâneos os entendessem - um truque que foi se tornando cada vez mais comum à medida que a Igreja foi se tornando mais violenta em sua tentativa de impedir que as pessoas fizessem perguntas que talvez conduzissem à dúvida e à infidelidade.

Essa violência, porém, não tinha por motivo um desejo maligno de deixar o povo na ignorância. O sentimento que movia os caçadores de hereges daquela época era, na realidade, um sentimento mais caridoso. Eles acreditavam firmemente - ou melhor, sabiam com certeza - que esta vida era somente um estágio de preparação para a nossa verdadeira existência no mundo futuro. Estavam convictos de que o excesso de conhecimento deixava as pessoas inquietas, enchia a mente delas de opiniões perigosas e tinha como fruto a dúvida e, por fim, a perdição. O escolástico medieval que via um de seus alunos afastar-se da autoridade revelada da Bíblia e de Aristóteles para estudar as coisas por si mesmo sentia-se tão ansioso quanto uma mãe amorosa que vê o filhinho chegar perto de um fogão aceso. [...] Do mesmo modo, na Idade Média, os guardiães das almas do povo, embora fossem rigorosos em todos os assuntos relativos à fé, labutavam noite e dia para servir da melhor maneira possível às ovelhas de seu rebanho. Estendiam as mãos em auxílio sempre que tinham a oportunidade, e a sociedade daquela época levou a marca dos milhares de homens bons e mulheres piedosas que tentavam tornar o destino dos comuns mortais tão suportável quanto possível.

Manuscrito medieval: reunião de doutores na Universidade de Paris

O servo era servo, e sua posição não mudaria jamais. Mas o bom senhor da Idade Média que permitia que o servo passasse a vida inteira na qualidade de escravo sabia que essa humilde criatura tinha uma alma imortal e que, portanto, tinha de ter os seus direitos protegidos, a fim de poder viver e morrer como um bom cristão. Quando ficava velho ou fraco demais para trabalhar, tinha de ser amparado pelo senhor feudal para quem trabalhara. Por isso, o servo, que levava uma vida melancólica e monótona, não era jamais assombrado pelo medo do amanhã. [...]

Miniatura medieval: o trabalho árduo dos servos numa herdade feudal

Esta sensação de "estabilidade" e de "segurança" estava presente em todas as classes da sociedade. Nas cidades, os comerciantes e artesãos fundavam ligas ou guildas que garantiam uma renda constante a todos os seus membros. [...]

A Idade Média não gostava da competição. Por que competir e encher o mundo de pressa, de rivalidade e de uma multidão de homens empurrando uns aos outros, se por outro lado estava próximo o Dia do Juízo, no qual as riquezas de nada valeriam e o bom servo adentraria os portais dourados do paraíso ao passo que o cavaleiro mau seria lançado para o castigo nas profundezas do inferno?

Em suma, pedia-se ao povo da Idade Média que abdicasse de uma parcela de sua liberdade de pensamento e ação a fim de gozar de uma maior segurança em relação à pobreza do corpo e a pobreza da alma.

E, com pouquíssima exceções, esse povo aceitou a proposta. Acreditavam-se firmemente que estavam apenas de passagem por este planeta - que estavam aqui para preparar-se para uma vida maior e mais importante. Deliberadamente deram as costas a um mundo repleto de sofrimento, maldade e injustiça. Fecharam as cortinas para que os raios do sol não distraíssem a sua atenção daquele capítulo do Apocalipse que lhes falava da luz celestial que os alumiaria em bem-aventurança por toda a eternidade. Procuravam fechar os olhos à maioria das alegrias do mundo em que viviam a fim de poder gozar das alegrias que os esperavam num futuro próximo. [...]

Os gregos e os romanos não se importaram com o futuro, mas tentaram estabelecer seu Paraíso aqui mesmo nesta terra. Conseguiram assim tornar a vida extremamente agradável para os homens que não tinham o azar de ser escravos. Depois veio o outro extremo, a Idade Média, em que o homem construiu um Paraíso para si acima das nuvens mais excelsas e tornou este mundo num vale de lágrimas para nobres e plebeus, ricos e pobres, inteligentes e estúpidos. Mas chegara já a hora de o pêndulo pender de novo para o outro lado...

VAN LOON, Hendrk Willem. A história da humanidade. São Paulo: Martins Fontes, 2004. p. 193-200.

quinta-feira, 13 de outubro de 2011

Carnaval, uma festa profana

Carnaval medieval: a festa funcionava como válvula de escape para os camponeses oprimidos pela nobreza e pelo clero. Detalhe da obra "O combate entre o carnaval e a quaresma", Bruegel

O Carnaval de Ivrea é o único na Itália, que manteve um vínculo com a Idade Média, época em que a festa nasceu; nem o de Veneza, que despertou há mais ou menos trinta anos, nem o de Viareggio, com seus carros alegóricos de papel machê, instituído em 1873, podem se vangloriar de uma tradição ininterrupta. Aliás, pode-se dizer que, em nossos dias, o Carnaval está morto, porque a Quaresma, sua grande antagonista, está morta.

Em nossa sociedade do bem-estar, desapareceu a diferença entre tempo cotidiano e tempo festivo - com seus rituais de roupas e alimentos melhores, de celebração coral de um evento que envolve e dá coesão. A diferença que existe para nós é entre tempo ocupado e tempo livre - livre do trabalho. Mas podemos comer e nos vestir bem todos os dias e podemos igualmente nos divertir: geralmente sozinhos, não em grupo ou como um grupo. Além disso, em relação à Idade Média, atenuou-se muito o sentido religioso: o tempo da Igreja reside hoje mais nas aparições televisivas do papa e dos purpurados do que no encontro das pessoas no edifício sacro, vivendo com emoção e encarnação e a espera do sacrifício de Cristo.

Foi no concílio de Nicéia, em 325, que se fixou pela primeira vez um período de jejum de quarenta dias como preparação para a Páscoa, prescrição que, nos tempos de Carlos Magno, tornou-se um hábito comum e respeitado: comportava apenas uma refeição à noite e a proibição absoluta de comer carne. Durante toda a Idade Média, as restrições da Quaresma se fizeram acompanhar por outros rigores, além dos alimentares: penitências, abstenção das relações sexuais entre cônjuges e de tudo aquilo que contrastasse com a ideia de purificação, como espetáculos, teatro, bailes e o uso de armas.


O combate entre o carnaval e a quaresma (detalhe), Bruegel 

A proibição da carne foi sempre, porém, o preceito mais fortemente ligado à ideia da Quaresma. A carne era, na Idade Média, um símbolo de força, de caráter sanguíneo e audaz; o cervo e o javali não podiam faltar na mesa de um rico, de um poderoso, habituado à caça de grande porte: era uma guerra simulada, na qual eles colocavam à prova sua resistência ao esforço e sua coragem. O camponês, ao contrário, tinha que se contentar durante o ano com os animais de pequeno porte: uma ave, lebre ou galinha. Mas, de novembro a janeiro, obrigados pelo frio e pelo repouso da natureza, tanto o camponês na cozinha, muitas vezes diante do fogo, quanto o senhor na sala, quase sempre à mesa, comiam a mesma comida, embora em quantidades diferentes: tinham à disposição apenas a carne de porco, consumida fresca ou salgada ou preparada em linguiças e salames.

Também os romanos comiam carne de porco, mas bastante raramente, sem predileção especial. Foram as grandes migrações dos povos germânicos que impuseram o consumo da carne suína. Os germanos eram grandes criadores de porcos (nas florestas, onde as varas podiam se alimentar abundantemente com as bolotas dos carvalhos) e grandes consumidores de leite e manteiga, produzidos pelo gado que pastava em vastos terrenos comuns. Não é por acaso que todo o norte da Itália, onde a penetração dos germanos foi mais intensa, tem uma cozinha baseada na manteiga, na banha (gordura de porco derretida) e num amplo consumo de embutidos de porco e de carne em geral. A Itália do centro e do sul, uma região bem menos atingida pelas imigrações, manteve a cozinha de tipo mediterrâneo da Antiguidade romana, baseada no óleo de oliva e no vasto uso de cereais e legumes.

Na Idade Média, os monges também se dedicavam totalmente a este último tipo de dieta: sua mesa era rica em hortaliças e legumes - nada de carne, à exceção do peixe. De fato, pensava-se, naquela época, que os peixes, por não acasalarem, fossem imunes ao pecado da luxúria, responsável pela queda de Adão e Eva. Por isso, os peixes não eram considerados carne contaminada, como qualquer outra, pela intervenção do sexo. Além disso, a alimentação vegetariana sugeria a recusa ao mundo, a escolha de um modelo de vida pacífica, guiada antes pelos valores da alma do que por aqueles do corpo, e, mais ainda, sugeria continência em oposição à luxúria, vida simples em oposição à exibição e festa. O poderoso come carne; o subalterno, verdura. Não é por acaso que na Batalha de Quaresma e Carnaval, um texto do século XIII original da Picardia, os primeiros a chegar para ajudar Carnaval são carne grelhada, carne de porco com molho verde, linguiças e salsichas, "carnes no espeto, pombo assado e em empadões, filé de cervo com pimenta-preta e carne de boi, como convém". Por outro lado, entre os defensores de Quaresma, ameaçam truculentos os peixes do mar, de lago e de rio. Em seguida, avançam os laticínios. "A manteiga vem à frente de todos, e o leite coalhado a segue logo atrás; doces quentes e quentes tortas chegam em grandes pratos redondos. O creme avança abraçando a lança, no fundo do grande vale". O confronto conclui-se com a vitória do Carnaval: não somente poderá comer carne todos os dias do ano, mas poderá se apropriar também da "carne de Quaresma": os peixes não farão má figura na mesa do vencedor, pois muitos deles são realmente excelentes.

A carne, portanto, tinha também um valor simbólico, o que tornava ainda mais difícil privar-se dela: a origem etimológica da palavra "Carnaval" - carnelevare foi registrado pela primeira vez por volta do ano 1000 - é ligada, de fato, a carnem levare, privar-se de carne no último dia que precede o início da Quaresma.

Ao contrário, a etimologia da palavra Quaresma, quadragesima dies, quadragésimo dia, remete a um contexto totalmente religioso. É um período de recolhimento de quarenta dias antes da Páscoa, estabelecido, como dito anteriormente, pelo concílio de Nicéia, quando se falou pela primeira vez em quaresima ou quarentena, em analogia com o período de retiro passado por Cristo no deserto.

O calendário litúrgico sempre conseguiu, no decorrer do tempo, sobrepor-se a todo tipo de festa: o Natalis solis, a festa do sol, transformou-se no Natal de Cristo; a páscoa hebraica, na Páscoa cristã; a busca de Prosérpina por sua filha Ceres (raptada por Plutão), na Candelora, ou seja, a Candelária, candelora, do inverno estamos fora, expressando a esperança de que os rigores da estação fria tenham chegado ao fim, liga-se exatamente ao significado da festa pagã, pois, segundo o mito, Ceres desaparece durante todo o inverno e retorna com o início da boa estação.

O Carnaval, ao contrário, é uma referência desprovida de conteúdo religioso, embora sirva para preparar um período de penitência imposto pela Igreja. Mesmo sendo uma festa medieval, e não uma continuação de festas pagãs da Antiguidade, tem em comum com elas muitas características: o uso de fantasias e máscaras, o relaxamento de procedimentos usualmente reprimidos no campo da alimentação, do sexo e do comportamento, chegando ao insulto e ao confronto violento das "batalhinhas". Algumas iluminuras que ilustram, no Roman de Fauvel (obra satírica em versos, composta entre 1310 e 1314, por Gervais du Bus), o tumulto que, até bem pouco tempo, tomava os campos por ocasião das núpcias de velhos ou de viúvos com noivas bem mais jovens, mostram um pouco como seriam esses grupos tumultuosos.

Na Idade Média, o ano podia começar até em 25 de março, ou seja, no dia da encarnação de Cristo. Em todo caso, a chegada do Carnaval, que varia porque está associada à Páscoa, mas que cai sempre entre o fim do inverno e o começo da primavera, sublinha decididamente a passagem do ano velho para o ano novo, da morte para a vida: em muitas cidades, no último dia de Carnaval, ainda se costuma queimar a Velha, um fantoche de farrapos, símbolo do inverno que chegou ao fim (em latim, hiems, inverno, é de gênero feminino). É um modo de exorcizar também, no momento em que a natureza retoma seu ciclo, os medos ligados ao mundo dos mortos, ao seu poder e ao seu possível retorno.

Concluído o tempo da "licença", a Igreja retoma o controle e, pelo menos no século VIII, chama imediatamente os fiéis para a penitência, para o rito da quarta-feira de cinzas - o Carnaval acaba obrigatoriamente na terça-feira -, recordando a cada um sua descendência do pecador Adão, que veio do pó e ao pó retornou.

FRUGONI, Chiara. Invenções da Idade Média: óculos, livros, bancos, botões e outras inovações geniais. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2007. p. 74-78.