"Os espelhos estão cheios de gente.
Os invisíveis nos vêem.
Os esquecidos se lembram de nós.
Quando nos vemos, os vemos.
Quando nos vamos, se vão?"
Eduardo Galeano: Espelhos
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quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

Hospitais, igrejas e prostíbulos na capital lisboeta na época dos Descobrimentos

As padeiras, José Malhoa

Havia vários hospitais na cidade, uma vez que eram mais do que necessários para abrigar, entre outros enfermos, alguns dos debilitados passageiros e tripulantes que chegavam nos 1.500 navios que demandavam, mensalmente, o porto lisboeta. O maior era o de Todos os Santos, construído no Rossio, em 1492, próximo à principal artéria da cidade, a rua Nova dos Mercadores, onde estavam instaladas as mais importantes casas de comércio de especiarias.

O fado, José Malhoa

A vida espiritual da população era orquestrada por várias igrejas, espalhadas pelas partes alta e baixa da cidade. A mais importante era sede do bispado, a sé de Lisboa, uma catedral gótica, construída em 1150, por ordem de D. Afonso Henriques, sob as ruínas de uma mesquita. Ela seria danificada por dois tremores de terra, no século XIV, e, finalmente, devastada pelo terremoto de 1755, que destruiria boa parte de Lisboa e obrigaria o marquês de Pombal a reconstruir suas ruas, no traçado reto que obedecem ainda hoje.

A religiosidade do povo português, expressa pela imensa quantidade de igrejas, tornava habitual cruzar pelas ruas com procissões ou festejos de santos, ao passo que comemorações profanas estavam terminantemente proibidas.

Os bêbados ou Festejando o S. Martinho, José Malhoa

Entretanto, a principal diversão dos fidalgos era freqüentar bordéis e tavernas. Recusar um convite de um nobre para ter com prostitutas era considerado uma ofensa grave. Outro público que freqüentava com assiduidade o ambiente eram os marujos, sempre famintos de companhia feminina, após meses no mar. A ampla demanda pelo serviço era acompanhada, igualmente, de uma numerosa oferta. Existiam bordéis em número igual ou superior ao de igrejas, enquanto as tavernas talvez somassem o dobro da quantia.

Cena de bordel, Brunswick Monogrammist

Sendo freqüente o vai-e-vem de forasteiros, existiam em Lisboa inúmeras hospedarias. A maioria delas era muito simples, confundindo-se com os bordéis, em cujos quartos não havia mais do que uma cama, uma pequena mesa, uma cadeira, uma bacia com água e um penico, para que os hóspedes mais exigentes cuidassem da própria higiene.

Artistas itinerantes em um bordel, Brunswick Monogrammist

Os fidalgos e marujos que compartilhavam as prostitutas quase sempre eram brindados com as mais diversas doenças venéreas, o que fazia muitos evitarem o contato com profissionais, apesar da grande quantidade de bordéis disponíveis. A alternativa mais “à mão” era cortejarem as muitas senhoras cujos maridos estavam ausentes, servindo nas colônias e nos navios portugueses.

PESTANA, Fábio Ramos. Por mares nunca dantes navegados: a aventura dos Descobrimentos. São Paulo: Contexto, 2008. p. 45-46.

quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

A memória pagã das romarias

Coleta para a manutenção da Igreja do Rosário
Jean Baptiste Debret

Os deslocamentos de devotos para a prática de culto a divindades em locais sagrados distantes - peregrinações chamadas em sua versão ibérica de romarias, em lembrança das excursões dos primeiros cristãos a Roma - constituem uma prática vinda da Antiguidade.

A motivação das caminhadas coletivas de fé baseou-se sempre na crença de que, em determinados locais, existiriam poderes sobrenaturais, quer por estarem concentradas neles as forças da natureza, quer pela descoberta de algo julgado milagroso junto a rios, fontes, cavernas, pedras, árvores ou bosques.

Em idade histórica, aliás, o fato de, próximo a Olímpia, a memória do deus grego Zeus ser lembrada em um altis ou bosque sagrado indica bem que esse deus dos deuses, muito antes de ganhar face humana em poemas de Homero, nove séculos antes de Cristo, já andava representado, em lugar ermo, em um carvalho ou em pedras de corte retangular ou em forma de obelisco ou de pirâmide.

Com o advento do cristianismo, essa tendência milenar à reverência mística de objetos, simbolicamente revestidos de poder sobrenatural, que no Ocidente já enfrentara a concorrência da requintada teogonia do politeísmo greco-romano, precisou adaptar-se a uma nova teofania que, a partir da imposição da ideia de um Deus feito homem, reduzia os mitos fundadores vindos da Antiguidade à necessidade de aceitação de uma hierofania representada figurativamente pelas imagens dos santos e pela busca por relíquias.

Essa fidelidade das camadas populares ao arquétipo da representação de poderes sobrenaturais em objetos materiais estava destinada, de qualquer forma, a facilitar o sucesso do cristianismo na adesão ao novo conceito de relíquia, que propunha enxergar também o sagrado em ossos, dentes, mechas de cabelos ou amostras de qualquer coisa ligada à presença de Cristo, sua família ou apóstolos, nos chamados lugares santos da Palestina.

Em verdade, foi a onda mística das peregrinações a Jerusalém em busca de relíquias, partidas da Europa desde o quinto século depois de Cristo, que permitiu a revivescência disfarçada de antigas práticas de cultos pagãos, já agora identificando em objetos não a representação de poderes mágicos ou sobrenaturais, mas a herança visível de algo materialmente ligado ao mistério da fé.

Essa busca por relíquias, aliás, ao acrescentar à intenção devota das peregrinações ao Oriente próximo o caráter de nova corrente de comércio com os árabes (há muito ativos na troca de bens do Oriente com os europeus através do Egito e de Constantinopla), acabou por gerar uma consequência política de grande repercussão histórica. É que, como a ocupação de Jerusalém em 1076 pelos turcos seldjúcidas (inimigos inconciliáveis dos cristãos) vinha coincidir com o início da luta contra a ocupação árabe da Península Ibérica, a partir da tomada de Toledo, em 1086, o papa Urbano II aproveitou para lançar, em 1095, a novidade das peregrinações armadas, sob o nome de cruzadas.

E foi assim que, nesse mesmo ano, os pobres da Europa, convocados por dois líderes religiosos - Pedro Eremita e Gauthier Sans Avoir -, partiram para a aventura da tomada do Santo Sepulcro pela força, em uma caminhada de fé que, registrada pela história com o nome de Cruzada dos Mendigos, redundaria no massacre da multidão de peregrinos pelos turcos, tão logo atingida a Ásia Menor.

Essa tão antiga disposição natural de acorrer em grupo aos locais de culto ou oráculos - e, entre os gregos, até o envio de embaixadas sagradas aos jogos de Olímpia, Delfos ou Delos, as chamadas teorias -, quando revestida de caráter, por assim dizer oficial, ou seja, quando destinada a cortejos locais de iniciativa do Estado ou de igrejas constituídas, ganhava estrutura sujeita a regras determinadas, para receber então o nome particular de procissão.

O esquema das procissões, logo adotado pelo cristianismo quando de sua institucionalização como igreja, sob o conceito do katholikós, universal, ia ganhar com a organização de suas regras litúrgicas diversas variantes: procissões de bênção, para dias determinados, como Domingo de Ramos; procissões votivas, como a celebração da Assunção (recebimento da Virgem maria no céu); procissões de trasladação, para acompanhar a mudança pública de imagens ou relíquias; procissões de peregrinação, à volta de grutas milagrosas como a de Lourdes, na frança, ou do Santuário de Fátima, em Portugal; e, por fim, procissões comemorativas de milagres ou acontecimentos da vida religiosa ou civil.

Pois essas procissões, que afinal reproduziam, em âmbito limitado, as livres caminhadas dos antigos a seus locais de culto, estavam destinadas a evoluir para certa teatralização religiosa que, em menos de um milênio, ia permitir a volta das velhas peregrinações de fé coletiva à sua origem popular, acrescida de um nítido sentido de festa, no que viria a se chamar, em Portugal, de círios e romarias.

TINHORÃO, José Ramos. Festa de negro em devoção de branco: do carnaval na procissão ao teatro no círio. São Paulo: UNESP, 2012. p. 3-6.

NOTA: O texto "A memória pagã das romarias" não representa, necessariamente, o pensamento deste blog. Foi publicado com o objetivo de refletirmos sobre a construção do conhecimento histórico.

segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

A intolerância religiosa dos Estados europeus na Época Moderna

No filme clássico de David W. Grifith, Intolerância (1916), um dos episódios narrados é A Noite de São Bartolomeu, ocorrido em 1572 – o grande massacre de huguenotes (calvinistas) pelos católicos na França. Foi o tempo das “guerras de religião” na França, como em outras partes da Europa ocidental. A rigor, tais guerras começaram no início do século XVI, em pleno território germânico – palco da Reforma Luterana – e só terminaram em 1648, com o fim da Guerra dos Trinta Anos. Isso significa que a intolerância religiosa foi motivo real de muitos conflitos entre reis e príncipes europeus nos primeiros séculos da Época Moderna, embora não estivessem ausentes outras motivações.

O sentimento religioso era mesmo central na definição das identidades individuais e coletivas nesse período. Mas, para entender o fenômeno da intolerância nessa época, é preciso destacar que, a partir do século XVI, os Estados europeus passaram a se definir, em grande medida, como Estados confessionais, isto é, dotados de uma religião oficial. A ruptura da cristandade provocada pelas reformas protestantes fez da identidade religiosa um elemento central para reis e príncipes e, por vezes, um divisor de águas no jogo de alianças e conflitos do período. Um marco desse processo foi estabelecido na Paz de Augsburgo (1555), que pôs fim às guerras entre os príncipes luteranos e o imperador Carlos V, ao estabelecer-se o princípio cujus regio, hujus religio: a religião do príncipe deveria ser a religião dos súditos.

Longe de apaziguar os ânimos, a consagração desse princípio estimulou a intolerância e hostilidade contra minorias religiosas em toda parte. Na Inglaterra anglicana, católicos e puritanos foram perseguidos; na França dilacerada, católicos e calvinistas viviam em guerra fratricida; na própria Holanda, tão afamada por sua tolerância religiosa, o conflito entre gomaristas e arminianos foi dilacerante, os primeiros defendendo o princípio da predestinação de forma literal; os segundos advogando alguma importância para as obras terrenas do devoto.

Contudo, em uma perspectiva comparativa acerca da geografia religiosa na época, pode-se dizer que os Países Baixos forneceram o exemplo de maior tolerância religiosa, ao menos oficialmente. Basta dizer que cerca de um terço da população das sete províncias da República das Províncias Unidas permaneceu católica, ainda que tenham sido cerceadas as missas e procissões. A província da Holanda, em particular, tornou-se o principal refúgio de cristãos-novos ibéricos, sobretudo portugueses, no século XVII. Ali os cristãos-novos apostasiaram do catolicismo, assumindo-se como “judeus públicos” e construindo uma importante comunidade, estimulados pelas autoridades holandesas: a Talmud Tora. Vários deles estiveram no Recife holandês, entre 1636 e 1654, fundando a primeira sinagoga das Américas: a Kahal Kadosh Zur Israel.

No pólo oposto à Holanda, os países ibéricos instituíram a temível Inquisição, tribunal de fé especializado em perseguir os hereges da religião católica, a única permitida nos dois reinos a partir de fins do século XV. No caso ibérico, porém, a intolerância religiosa teve pouco a ver com a Reforma Protestante, devendo-se antes à existência de numerosas comunidades judaicas e muçulmanas ali fixadas desde a Idade Média. Na Espanha, a Inquisição foi instalada em 1478, pois o número de conversos era já elevado desde o final do século XIV, e coincidiu com o início da unificação política dos reis católicos, Fernando de Aragão e Isabel de Castela. A política de intolerância foi poderoso instrumento unificador, sendo a Espanha marcada por enormes diferenças culturais e lingüísticas. Em 1492, a intolerância avançou com a expulsão dos judeus remanescentes e a conquista de Granada, último bastão islâmico na península Ibérica. No início do século XVII, também os mouros foram obrigados à conversão.

Em Portugal, onde havia forte tradição de tolerância e convívio entre os três monoteísmos, d. Manuel decretou a conversão forçada de todos os judeus e muçulmanos do reino, em 1496, em grande parte por influência espanhola. A Inquisição só seria estabelecida, porém, a partir de 1536, já no reinado de seu sucessor, d. João III.

Nos dois reinos, as principais vítimas da Inquisição foram os cristãos-novos, descendentes dos judeus, embora somente uma pequena parcela deles tenha sido executada na fogueira. [...]


Queima de uma bruxa na fogueira.
Willisau, Suíça, em 1447

A intolerância dos Estados europeus não se restringiu às “grandes religiões”. Os séculos XVI e XVII testemunharam o apogeu da “caça às bruxas”, sobretudo na França: uma autêntica “cruzada” contra as religiosidades populares, meio cristãs, meio pagãs – demonizadas pelos teólogos e juízes. Testemunharam, ainda, perseguições contra os desviantes da moral cristã em matéria sexual, seja no mundo católico, seja no protestante: as maiores vítimas, nesse caso, foram os praticantes de relações homoeróticas. Os chamados sodomitas foram condenados à fogueira em vários países, sobretudo na Holanda, França e principados germânicos. Nos países ibéricos, em comparação, foram mais tolerados. Mas não saíram ilesos.

Ronaldo Vainfas. Intolerância. In: BETING, Graziella. Coleção história de A a Z: [volume] 3: Idade Moderna. Rio de Janeiro: Duetto, 2009. p. 51-52.


NOTA: O texto "A intolerância religiosa dos Estados europeus na Época Moderna" não representa, necessariamente, o pensamento deste blog. Foi publicado com o objetivo de refletirmos sobre a construção do conhecimento histórico.

quarta-feira, 9 de maio de 2012

Cultura afro-brasileira

Dança de negros, Zacharias Wagener

Texto 1: Calundu

No Brasil dos séculos XVII e XVIII, calundu representava a prática de curandeirismo e uso de ervas com a ajuda dos métodos de adivinhação e possessão. O termo calundu era associado à palavra "quibundo", de origem quimbundo (língua banto), que designa a possessão de uma pessoa por um espírito. As pessoas que praticavam o calundu eram conhecidas como curandeiras. Possuíam grande influência sobre a comunidade, pois eram consideradas importantes líderes religiosos. Por isso, eram sempre perseguidos pelas autoridades locais. Na cidade de São Paulo, por exemplo, algumas africanas curandeiras eram famosas, como Maria D'Aruanda e Mãe Conga, procuradas por serem "desinquietadoras de escravos".

Os curandeiros detinham o conhecimento de certas "técnicas medicinais". Na realidade, elas eram uma mistura de costumes africanos, portugueses e indígenas, que consistiam, basicamente, no uso de ervas, frutos e produtos naturais fáceis de encontrar. Com isso, os curandeiros atendiam a doentes de todas as camadas sociais, sobretudo os escravos, que possuíam poucos recursos. Além de produtos naturais, também sabiam manipular substâncias químicas, como venenos, sendo procuradas pelos escravos maltratados desejosos por matar os seus proprietários ou apenas por deixá-los mais tranquilos. Nesse caso, era-lhes dado algum calmante, que os tornavam inofensivos, parecendo estar sob efeito de encanto ou feitiço. Por isso, os curandeiros eram conhecidos como feiticeiros ou bruxos.

Esses indivíduos, na sua maioria africanos, eram considerados verdadeiros líderes, na medida em que conseguiam amenizar as agruras causadas pelo sistema escravista ao "amansar" ou até mesmo matar os senhores mais cruéis, curar as doenças dos cativos, prever-lhes um futuro melhor e, enfim, propiciar apoio e solidariedade aos seus companheiros. Dessa forma, eram perseguidos e controlados pelas autoridades locais.

Por conta de suas características, pode-se afirmar que a prática do calundu ou do curandeirismo recebeu influências das tradições da África Centro-Ocidental, nas quais, além dos ancestrais, outros indivíduos são dotados de caráter sagrado. É o caso dos reis, chefes, pais e os ligados à religião, como aqueles que praticam a adivinhação e o curandeirismo.

Nessas sociedades centro-ocidentais africanas, os valores positivos, como a saúde, a harmonia, a fecundidade e a riqueza eram considerados importantes. Tudo aquilo que era contrário, isto é, a doença, a inferioridade e a escravidão, resultava de feitiçarias provocadas por pessoas mal-intencionadas, por espíritos malévolos ou esquecidos pela comunidade. Para conseguir se livrar dos aspectos negativos e retomar a harmonia, era necessário, em primeiro lugar, descobrir a causa dos infortúnios. Por ser oculta, a causa só seria descoberta pelo curandeiro, que, dotado de um poder especial, se comunicava com os ancestrais, que a revelavam. Em segundo lugar, era preciso realizar cerimônias com danças, músicas e rituais de possessão, bem como utilizar símbolos, como os objetos sagrados e mágicos em homenagem aos ancestrais.

Para muitos africanos que estavam no Brasil, o calundu ou curandeirismo, além de ser uma oportunidade de expressar suas visões de mundo e crenças religiosas, era uma forma de luta e de resistência ao sistema escravista, uma tentativa de retomarem o que consideravam importante e que haviam perdido com a escravidão e a diáspora.

No conjunto de crenças africanas sobre o universo, em especial na região Centro-Ocidental, era (e ainda é até hoje) atribuída uma grande importância aos espíritos dos ancestrais, pois são considerados os seres intermediários entre o homem e o Ser Supremo, criador de todo o universo. Para tanto, os ancestrais são dotados de muita energia, chamada de energia vital, adquirida e acumulada durante a sua existência na Terra. Os ancestrais foram grandes homens, que tiveram uma existência repleta de ações dignas e realizações importantes. Deixaram, assim, uma lição, uma herança a ser seguida pelos seus descendentes.

Por isso, para se conseguir os valores positivos e levar uma vida com harmonia, não se poderia deixar de cultuar os seus ancestrais mortos, agradando-os com oferendas, sobretudo, aqueles que deram origem às comunidades. Ainda mais quando se acreditava que, com a morte, a energia vital poderia se dissipar. E, para que isso não ocorresse, era necessário realizar oferendas, preces e rituais fúnebres, objetivando a manutenção da energia vital mesmo depois da morte.

As oferendas e homenagens aos ancestrais eram oferecidas em lugares sagrados, em geral, no meio da natureza, debaixo de árvores, num bosque, em rios, ou mesmo em suas tumbas, nos cemitérios e altares construídos nas aldeias e nas encruzilhadas. Era muito comum oferecer alimentos e bebidas.

Além de serem cultuados e reverenciados, os mortos tinham que receber um enterro digno. Como verdadeiro rito de passagem, no qual acontece a separação física do mundo profano e a chegada do morto ao mundo sagrado dos ancestrais, os enterros deveriam ser realizados conforme as tradições, com velório, preparação do morto, sepultamento e luto.

MATTOS, Regiane Augusto de. História e cultura afro-brasileira. São Paulo: Contexto, 2008. p. 156-159.

Texto 2: Ilê Aiyê

Mulheres africanas, Surama Caggiano


Se me perguntares de que origem 
eu sou
Eu sou de origem africana
Com muito orgulho, eu sou [...]

Pisando firme no chão, cantando alto, valorizando suas raízes, o bloco Ilê Aiyê enche de alegria as ruas de Salvador, na Bahia. E mostra o quanto o Brasil é preto. Mesmo tendo sido abafada durante quatro séculos, a cultura negra espalha-se pelo país. E explode com força nos terreiros religiosos, nas rodas de samba, nos afoxés baianos, como o Filhos de Gandhi e o Badauê, no sonho de Buziga, compositor do Ilê Aiyê:

O que será do Ilê Aiyê
Será integração negras raízes
Pisando firme no chão
Até que um dia haverá de alguém
Compreensão, meu povo
Nós somos todos irmãos [...]

Em diversas cidades, inúmeros grupos negros buscam afirmar o valor de sua gente e denunciar as injustiças que vieram da escravidão. Eles continuam a luta de Zumbi, Isidoro, Chico Dragão do Mar, Tonho Paciência, Nico Mulungu, João Cândido e muitos outros. [...]

Dom José Maria Pires, negro, arcebispo da Igreja Católica de João Pessoa, na Paraíba, resume num sermão os novos tempos:

- Pretos, meus irmãos! Como nossos antepassados, viemos de vários lugares. Diferentes deles, trazemos na pele colorações variadas. Na alma, crenças diferentes. Mas neles e em nós estão presentes as marcas da negritude. Somos negros e não nos envergonhamos, não queremos mais nos envergonhar de sê-lo!

ALENCAR, Chico et alli. Brasil vivo 2: a República. Petrópolis: Vozes, 1991. p. 255.

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

Brasil: Religiosidades na Colônia

Negras novas a caminho da igreja para o batismo,  Jean Baptiste Debret

O Brasil nasceu à sombra da cruz. Não apenas da que foi plantada na praia do litoral baiano, para atestar o domínio português, ou da que lhe deu nome - Terra de Santa Cruz -, mas da que unia Igreja e Império, religião e poder. Mais. Essa era uma época em que viver fora do seio de uma religião parecia impossível. A religião era uma forma de identidade, de inserção num grupo social - numa irmandade ou confraria, por exemplo - ou no mundo. A colonização das almas indígenas não se deu apenas porque o nativo era potencial força de trabalho a ser explorada, mas, também, porque os índios não tinham "conhecimento algum do seu Criador, nem de cousa do Céu". Isso foi fundamental para dar uma característica de missão à presença de homens da Igreja na América portuguesa. [...]

O zelo fanático em extirpar idolatrias e heresias, num momento delicado em que católicos e protestantes se digladiavam pela hegemonia religiosa no Velho Mundo, somou-se à necessidade de pregar a palavra de Deus, evangelizando, catequizando e impondo ideias. "Todos temem e todos obedecem e se fazem adeptos para receber a fé", registrava, no século XVI, o jesuíta Antonio Blasques. [...]

Os primeiros religiosos a desembarcar entre nós foram oito franciscanos membros de importante ordem estabelecida, há tempos, em Portugal. Sua presença como capelães de bordo na navegação portuguesa era comum, mas sua participação na evangelização do gentio ou nas práticas religiosas de colonos só ganha envergadura a partir de 1580, quando da conquista da Paraíba. Junto a eles, multiplicaram-se carmelitas e beneditinos. Papel bem mais relevante, contudo, teriam os jesuítas. Vindo com Mem de Sá em 1549, o primeiro grupo era composto por seis missionários da recém-fundada Companhia de Jesus, liderados por Manuel da Nóbrega [...]. Sua primeira providência? A organização de uma escola que, como outras que se seguiram, consistia na base da missão. Um ano mais tarde, chegavam mais padres acompanhados de "órfãos de Lisboa, moços perdidos, ladrões e maus", que teriam papel relevante, embora anônimo, nos projetos da Companhia. Chamados "meninos-língua", cabia-lhes aprender o tupi-guarani, tendo como tarefa a conversão das crianças nativas. [...]

As cartas escritas pelos padres jesuítas a seus superiores na Europa revelam como transcorria o cotidiano nas missões onde se juntavam padres e indígenas. [...] A clientela era feita de filhos de índios e mestiços, acrescida, de tempos em tempos, de um "principal", ou seja, um chefe. As atividades consistiam em recitar juntas, na igreja, ladainhas ou Salve-Rainha. Nas sextas-feiras, disciplinavam-se em cerimônias de autoflagelação e, com o corpo coberto de sangue, saíam em procissão. Cantavam hinos [...] e revezavam-se entre aulas de flauta e canto. [...] Confessavam-se de oito em oito dias e todas as tardes saíam para caçar e pescar, pois não havia qualquer forma regular de aprovisionamento. A alimentação baseava-se na "farinha-de-pau" (nome dado à farinha de mandioca) e na caça [...]. O pescado era considerado "gostoso", e o cardápio engrossado por legumes, favas, folhas de mostarda e abóbora, e "em lugar de vinho [...] milho cozido em água a que se ajunta mel". As meninas indígenas eram ensinadas a tecer e fiar algodão, capaz de vestir os jovens nus. O tempo livre das crianças ficava por conta do banho de rio ou de "ver correr as argolinhas", brinquedo, segundo Nóbrega, importado de Portugal. [...] As atividades físicas mais simples impregnavam-se de cantos e danças nos quais a cultura indígena se impunha. Em festas de aldeamentos, os meninos levantavam-se à noite para a seu modo cantar e dançar "com taquaras que são canos grossos que dão no chão e com o som que fazem, cantam e com as maracas que são umas frutas, umas cascas como cocos furados por onde deitam pedrinhas dentro". A sensibilidade musical do indígena fazia crer aos jesuítas que, "tocando e cantando entre eles, os ganharíamos" [...] anotava Nóbrega, não haveria cacique que recusasse seus filhos à escola jesuítica. Nos batismos em grupo, os meninos índios eram vestidos com "roupas brancas, flores na cabeça e palmas na mão", sinal da vitória que teriam alcançado contra o Demônio.

Até 1580, os jesuítas procediam como uma espécie de missionários oficiais da Coroa. A anexação de Portugal à Espanha, no período da União Ibérica (1580-1640), mudou, contudo, essa hegemonia, inaugurando-se o ingresso de outras ordens religiosas ao Brasil. Os franciscanos destacaram-se por seguir a ocupação do litoral nordestino, do Rio Grande do Norte a Alagoas. Unidos aos senhores do açúcar, desenvolviam sua ação dentro das capelas de engenhos, rezando missas, realizando batismos e casamentos comunitários, abençoando as moendas e os animais. Acompanharam os bandeirantes em suas expedições de apresamento de índios e, ao contrário dos jesuítas, situaram-se mais do lado do branco do que do índio. Nas expedições oficiais para a conquista da Paraíba, por exemplo, jamais apoiaram tabajaras e potiguares, e entre 1588 e 1591 começaram a estabelecer-se em conventos, lado a lado com beneditinos e carmelitas.

Instalados ao final do século XVI em Olinda, os carmelitas ensinavam teologia e língua brasílica, ou seja, o tupi, e daí enviaram seus missionários Brasil afora. Foram vigorosos defensores dos interesses portugueses na Amazônia, perdendo rapidamente o interesse pelo caráter missionário e investindo nas relações com as populações de vilas interessadas no comércio de especiarias, como o cacau. Mais dedicados à vida contemplativa do que a qualquer outra atividade, os beneditinos pertenciam, por sua vez, a uma ordem rica, possuidora de inúmeros imóveis e fazendas sustentadas por escravos. [...]

À medida que a colonização, a fome e as guerras dizimavam os índios do litoral e que os negros africanos, chegados para o trabalho nos engenhos, eram catequizados em massa - sem que nenhuma autoridade religiosa argumentasse contra sua escravização -, os movimentos missionários se deslocavam para o interior da Colônia à procura de novas almas. Nos sertões do rio São Francisco, capuchinhos franceses, aliados das reformas propostas pelo Concílio de Trento, e oratorianos italianos, muito voltados para as práticas piedosas de orações e devoções, tiveram destacada atuação. [...] Suas missões lhes permitiram estar mais próximos do povo humilde que habitava, disperso e sem auxílio, as ermas vastidões do interior.

Mas havia muitos espinhos nos caminhos da evangelização. Os conflitos entre leigos e o clero se sucediam. Os mais importantes deram-se em torno da escravização dos indígenas, verdadeira pedra no sapato - ou melhor, nas alpargatas - dos padres que desejavam a catequese e a conversão do gentio. Desde o século XVI, a Companhia de Jesus conseguiu que o governo proibisse a escravização dos nativos. Todavia, grupos importantes de plantadores de cana, donos de engenhos e, posteriormente, bandeirantes que obtinham grandes lucros com a escravização dos "negros da terra" consideravam sua proteção uma ruína para a Colônia. Eles não apenas insistiam junto às autoridades do Reino para que estas lhes concedessem liberdade para usar o trabalho compulsório dos índios, como também, através de pressões e ameaças, retardaram, o quanto puderam, a supressão da escravatura. [...]


[...]


Em relação às demais populações católicas, um importante espaço de práticas religiosas para homens e mulheres coloniais eram as irmandades ou confrarias. Associações de caráter local, tais instituições auxiliavam a ação da Igreja e promoviam a vida social, desempenhando tarefas que, muitas vezes, deveriam caber ao tão ausente governo português: fundação e manutenção de seminários de meninos pobres, de hospitais e recolhimentos de órfãos. Sua finalidade específica era promover a devoção a um santo. Em torno de festas, do culto e da capela do mesmo, um grupo de pessoas, fossem brancos, mulatos ou negros, se organizava. O que caracterizava a irmandade era justamente a participação de leigos no culto católico [...]. Confrarias e irmandades demonstravam toda a força por ocasião da festa do padroeiro: ruas e igrejas eram decoradas com tapetes e ervas perfumadas, e iluminadas por tijelinhas de barro cheias de óleo de baleia. Irmãos de opa vermelha, tocheiros à mão, abriam a procissão, seguida de carros alegóricos ricamente enfeitados, atrás dos quais volteavam músicos e bailarinos. A diversidade de instrumentos musicais não ficava atrás da pompa coreográfica dos cortejos. Ritmos profanos e peças sacras se mesclavam à sonoridade dos batuques africanos. Músicos negros vestidos de seda e cobertos de plumas, tocando címbalos, pífaros e trombetas, misturavam-se a brancos tocadores de clarins e charamelas. Uma imensa variedade de sons rasgava o ar, enquanto fiéis, piedosamente, desfilavam os estandartes e as imagens religiosas.


Seguindo o costume português, a vida doméstica também consistia em importante espaço espiritual. Nas paredes das casas de moradia, era comum encontrarem-se cruzes de madeira, gravuras do anjo da guarda ou do santo onomástico. [...] Ao levantar-se, pela manhã, o cristão benzia-se murmurando o Pelo Sinal. Oratórios, ou quartos de santos, eram iluminados por lâmpadas votivas que queimavam diuturnamente e onde as imagens eram vestidas e adornadas pelas mulheres. Flores naturais ou de papel, palhas bentas no Domingo de Ramos, medalhas milagrosas, escapulários e livros de oração compunham o arsenal do devoto na luta contra Satã. [...] Santos de estimação, como, por exemplo, Santo Antônio, eram invocados para interceder em favor do fiel em caso de escravos fugidos, cavalos extraviados ou roubos. As solteiras costumavam invocá-lo para arranjar maridos [...]. Orações em que se nomeavam os santos, Jesus ou Maria eram usadas por benzedeiras e curandeiras para aliviar as dores, feridas e maleitas dos fiéis [...].


Além do catolicismo, a Colônia foi palco de outros credos e práticas religiosas. Descendentes de judeus, por exemplo, buscaram refúgio nessas terras, que lhes pareciam de promissão. O movimento migratório começara em inícios do século XVI em função de perseguições que lhes eram movidas na península Ibérica. Instalados sobretudo na Bahia, em Pernambuco e no Maranhão, os recém-chegados integravam-se rapidamente à língua, aos costumes e à economia local, misturando-se aos cristãos, com quem dividiam cargos administrativos, burocráticos e comerciais. Os cristãos-novos, nome que se dava aos convertidos, detinham engenhos, escravos e terras. Para manter vivos os laços comunitários e de identificação, realizavam clandestinamente práticas e atos religiosos do judaísmo, mesmo que sob a ameaça da Inquisição. Mas como é que se fazia presente na Colônia?


Espécie de justiça ambulante, as visitas de inquisidores - realizadas em 1591, 1618 e 1627, ao Nordeste, e de 1763 a 1769, ao Pará - tinham por objetivo combater as heresias e zelar pela fé e boa moral dos católicos. Nesse quadro, ritos, preceitos ou cerimônias judaicas eram alvo dos monitórios gerais, ou seja, um documento eclesiástico com aviso aos fiéis que descrevia minuciosamente tais ritos e era afixado às portas das igrejas. Pequenos atos do cotidiano serviam para indicar judaísmo. Guardar os sábados, por exemplo, revelava-se através do hábito de vestir roupas limpas e arrumar a casa de véspera - limpar e cozer alimentos, acender candeeiros etc. - para que não houvesse necessidade de trabalhar nesse dia. [...] Enterravam os mortos em mortalha nova e terra virgem [...]. Os meninos eram circuncidados. Mesmo não seguindo as práticas judaicas de modo inteiramente consciente, os cristãos-novos conservavam a essência de sua cultura original. Repudiavam as imagens dos santos que enfeitavam os oratórios, consideravam a religião católica uma idolatria, esquivavam-se do sacramento da confissão [...].


Ao contrário dos cristãos-novos, os judeus que se instalaram em Pernambuco quando da invasão holandesa, de 1630 a 1654, encontraram melhores condições para exercer sua religiosidade. Concentrados numa rua do Recife, a Jodenstraat (rua dos judeus), aí construíram a sinagoga da comunidade Zur Israel: uma casa de muitas janelas, com o térreo ocupado por duas lojas, tendo no andar de cima uma ampla sala mobiliada para utilização religiosa. Ao rabino [...] Isaac Aboab da Fonseca, devem-se as primeiras páginas literárias, em hebraico, escritas no Brasil: um poema que descreve os sofrimentos suportados pelos judeus em 1646, quando Recife ficou sitiado pelos luso-brasileiros.


O protestantismo teve, entre nós, dois momentos marcantes. O primeiro vai de 1555 a 1560, quando chega à baia de Guanabara o vice-almirante francês Nicolau Durand de Villegaignon, para fundar [...] uma colônia, a França Antártica, com franceses calvinistas (huguenotes), hostilizados em sua terra. O segundo [...] foi o da colonização holandesa no Nordeste. [...]


[...]


[...] Sob a regência de Maurício de Nassau, o domínio holandês estendeu-se temporariamente do Maranhão até abaixo do rio São Francisco. Nesse governo, a liberdade religiosa era para todos. Católicos eram livres para exercer seu culto e manter relações com a sede episcopal da Bahia. Sinagogas e escolas hebraicas funcionaram no Recife e foram as primeiras da América. O protestantismo, considerado a verdadeira religião, lutava para instalar-se no Brasil. A chave para sua compreensão era a subordinação de todos os aspectos da vida aos sagrados mandamentos. [...]


Os africanos também trouxeram seus credos para a América portuguesa. Entre eles, cerimônias religiosas como o acotundá, o candomblé e o calundu, além de cultos envolvendo os mortos, corriqueiramente praticados. Em casas humildes, cobertas de capim, de paredes de barro, preferencialmente à beira de um córrego ou de uma fonte, celebrava-se a dança de tunda ou acotundá. Altares com banquetas de ferro, onde se misturavam ordenadamente cabaças, panelas e recipientes variados de barro e imagens antropomorfas, sinalizavam o espaço sagrado. O som de tambores e atabaques, e cantos, no dialeto courá, da Costa da Mina, enchiam a noite. Vindas das camarinhas, mulheres vestidas com panos brancos [...] dançavam e cantavam [...].


Havia ainda outras formas de religiosidade africana. Vindos do Daomé, atual Benin, na costa ocidental da África, rituais de origem jeje conhecidas como calundus eram conduzidos, na Colônia, por um vodunô, líder espiritual [...]; o ritual consistia em danças e cantos na língua jeje, ao som de ferrinhos (agogôs e gans) e atabaques. O centro da cerimônia abrigava ervas, búzios e aguardente. Folhas de diversas plantas serviam na preparação de alimentos oferecidos às divindades, os ebós, mas também em rituais de iniciação e limpeza do corpo. Um sentido para a vida, segurança e proteção contra um mundo hostil, espaço para sensibilidades e solidariedades eram as funções desses rituais religiosos. Dessa maneira, a Colônia crescia à sombra da cruz e de vários credos que ainda hoje hidratam nossa cultura.


PRIORE, Mary Del; VENÂNCIO, Renato Pinto. O livro de ouro da História do Brasil. Rio de Janeiro: Ediouro, 2001. p. 36-49.