"Os espelhos estão cheios de gente.
Os invisíveis nos vêem.
Os esquecidos se lembram de nós.
Quando nos vemos, os vemos.
Quando nos vamos, se vão?"
Eduardo Galeano: Espelhos
Mostrando postagens com marcador Vida econômica. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Vida econômica. Mostrar todas as postagens

sábado, 17 de dezembro de 2016

A civilização micênica: organização política, social e econômica

Afresco representando guerreiros armados com capacetes de dente de javali em uma carruagem dual, ca. 1350 a.C., Pilos. Artistas desconhecidos

A importância da herança cretense recolhida pelos micênicos é de tal ordem que, para evitar as repetições inúteis, nos ateremos às diferenças, apesar de tudo sensíveis, entre as duas civilizações, isto é, limitar-nos-emos às novidades que constituem a contribuição dos Aqueus. Esses, com efeito, não as devem à região onde viveram. Entre a Grécia meridional e Creta, a natureza apenas introduz matizes, dos quais o mais importante provém dos rigores ocasionalmente mais acentuados do inverno: nada que pudesse modificar seriamente as condições de existência. Além disso, as civilizações que se haviam manifestado na Grécia até o momento de sua chegada transmitiram-lhes pouca coisa e não dispunham, aliás, senão de muito pouco para legar-lhes: nada que pudesse rivalizar com a civilização cretense. Se, nessas condições, eles se recusaram a calcar inteiramente sua organização e sua vida na dos cretenses, foi porque trouxeram consigo ideias, costumes e hábitos, ao mesmo tempo próprios aos indo-europeus e a homens que viveram longamente em outras áreas, sobretudo, nesse caso especial, nas regiões setentrionais.


Afresco de carruagem, ca. 1200 a.C., Tirinto. Artistas desconhecidos

* Os princípios belicosos. A novidade transparece, de início, na organização política e social, pois os vestígios materiais deixados pelos grandes deste mundo em nada se assemelham aos de Creta.

Os palácios e as grandes tumbas põem-nos em presença de uma pluralidade de príncipes. Esses existiam em Micenas e Tirinto, dois pontos da Argólia, pouco distantes entre si. Mas sua celebridade não deve permitir que esqueçamos a existência de outros, em lugares diversos: na própria Argólida, no oeste e no sul do Peloponeso, na Acrópole de Atenas, na Beócia. A esses estabelecimentos dispersos faltava um Cnossos, incontestavelmente superior a todos. A excepcional riqueza de Micenas em ouro talvez se deva apenas ao acaso dos achados arqueológicos, atestada somente pelos objetos, não é acompanhada de qualquer proeminência na arquitetura e na decoração; mesmo nos poemas homéricos, onde a lembrança da realidade é ampliada pela imaginação, Agamenon, rei de Argos, ou seja, de Micenas, é apenas temporariamente "rei dos reis", em vista de determinada expedição.

O contraste surge ainda mais nítido quando consideramos os palácios em si mesmos. Antes de tudo, são fortalezas, edificadas numa posição cuja defesa é facilitada pela natureza, mais frequentemente numa eminência que se eleva acima da planície local. O acesso é proporcionado por meio de rampas cortadas em ziguezague, portas, escadas cavadas na rocha e poternas secretas. Em parte alguma poupou-se a pedra para a construção desses muros que os gregos denominarão "ciclópicos", tão formidáveis lhes parecerão os blocos que os compunham: na Beócia, numa ilha (Gla) do Lago Copais, a muralha mede 3 quilômetros de periferia; em Tirinto, nos muros de 6 metros de espessura, abrem-se casamatas.

Impossível, em tais condições, pensarmos numa realeza única, ainda que essa concedesse a vassalos poderosos - senhores "feudais", diz-se frequentemente, porque as fortalezas evocam os burgos medievais - certas partes de seu território. Tanto em princípio como de fato, trata-se de príncipes independentes, entre os quais devemos imaginar rivalidades e, portanto, guerras. A hipótese de uma preponderância honorífica, reconhecida a um deles e que justificasse o seu comando nos empreendimentos coletivos, apóia-se apenas na Ilíada. É possível que a Argólida acabasse por predominar; mas Micenas e Tirinto subsistiram lado a lado, e sua coexistência duradoura, em tal proximidade, coloca um problema insolúvel.

Vemos, na realidade, que esses príncipes amam e praticam com frequência a guerra. Fazem-se sepultar com suas armas, capacetes, pesadas espadas que feriam de ponta e de gume, adagas e piques; pelas representações figuradas, conhecemos também suas couraças e escudos, a princípio muito grandes, abrigando o homem como numa torre, e depois, mais manejáveis, arredondados e de menores proporções. Nos intervalos dos combates, exercitavam, assiduamente, a força física na caça, da qual bem mais do que a arte cretense, que já não as ignorava, a arte micênica da época nos transmitiu cenas de violenta energia. Seu ouro, ao menos em parte, provém de rapinagens. Tudo indica que esses indo-europeus, chegando ao sul da Grécia após mil aventuras desconhecidas, abrindo caminho entre povos há muito sedentários, conservam suas predileções belicosas, combinando-as apenas com o sentido de beleza luxuosa, adquirido no contato com os cretenses. Entre eles, o poder ostenta e usa a força, e das mais brutais.


Fragmento de mural representando guerreiros com capacetes de presa de javali, século XIII a.C., Orcomeno. Artistas deconhecidos

* A aristocracia e as classes trabalhadoras. A sociedade sofreu o contragolpe desse estado de coisas.

Apesar da manifesta vontade de imitação, as menos nas representações figuradas que podiam lançar mão de temas anacrônicos, a vida da Corte foi menos brilhante do que em Creta. As mulheres adotam, para suas vestes, penteados e enfeites, as modas de Cnossos e, em Micenas, um afresco mostra-nos algumas exibindo-se no teatro, no primeiro plano de seus camarotes. Mas abandonam as acrobacias e cabe pensar que diminuiu sua liberdade de atitudes exteriores. Na realidade, a vida no coração dos redutos fortificados que constituíam os palácios - menos de 150 metros de comprimento por menos de 50, em Tirinto - não devia ser alegrada por cerimônias muito galantes. Na realidade, também por causa de seu papel militar, o homem, isto é, o guerreiro, devia impor-se sem dificuldade na vida social. Por analogia com outras sociedades indo-europeias e guerreiras, transpondo-se igualmente alguns traços tomados às sociedades homéricas, imaginaríamos, de bom grado, a existência de grupos de "companheiros" ligados ao príncipe por amizade pessoal, quando não por juramento. Mas isso já seria ultrapassar os limites da nossa documentação direta.

O mesmo de verifica com as relações entre as classes dirigentes e as classes trabalhadoras. Encastelados nas elevações, os palácios lembram-nos abrigos de onde os senhores vigiam e exploram o trabalho de seus servos na planície. Tanto mais quanto surge o problema das relações com mas populações anteriores, cuja conquista não poderia determinar o seu total desaparecimento físico: somos tentados a representar seus sobreviventes e sua posteridade submetidos a um estatuto de estrita dependência. Mas a nossa única certeza é a de que uma muralha externa cerca ao mesmo tempo o palácio e a cidade. Ora, essa muralha possui, muitas vezes, um comprimento restrito (750 metros, em Tirinto; um pouco mais de 1200 em Micenas), o que reduz a pouco a superfície da cidade. Nessas condições, o restante da população dispersava-se pelo campo, ou antes, instalava-se no sopé da colina, correndo para trás dos muros em caso de alerta a fim de se refugiar.

A decifração das tabuinhas escritas em linear B veio ressaltar e completar uma imagem sobre a qual, em dúvida, haviam sido projetadas as recordações de Homero. Elas fazem aparecer uma sociedade hierarquizada, tendo a seu comando um Rei (wa-na-ha = anax em grego clássico e não basileus, que designa "funcionários" locais de escalão inferior) e um "comandante de tropas", mestres de impostos, altos dignitários e responsáveis locais, sacerdotes e sacerdotisas ligados aos santuários e, sem dúvida, comunidades aldeãs (damos). Detalham as tarefas dos escravos e as atividades das profissões (têxtil e couro, madeira e metais, armas e cerâmica, além de ungüentos e perfumes). Mostram os lugares de criação de gado ovino e uma agricultura cuja distribuição de tarefas é ainda discutida, mas que assegura aos chefes e ao clero importantes entregas de trigo e azeite.

* O comércio e a riqueza. O acúmulo desses produtos agrícolas e artesanais nos palácios explica como tais Estados e tal sociedade conheceram a riqueza e a expansão. Lentamente, é verdade, e segundo o exemplo de Creta, que acabaram por suplantar após cerca de dois séculos de aprendizado. Mas sua atividade econômica tomou grande impulso depois da destruição de Cnossos.

Construíram-se estradas e mesmo portos. Os habitantes das fortalezas, todas situadas a certa distância do litoral, não se encontravam tão afastados da costa que não pudessem vigiar a vida marítima e, até mesmo, dela participar. A princípio, praticaram a pirataria e, em seguida, dominaram o mar, passando as expedições comerciais a substituir as incursões de pilhagem. Viagens longínquas, por vezes, somado ao que provinha do Cáucaso e chegando em maiores quantidades, o estanho ocidental facilitou a fabricação do bronze; continuaram a importar - por intermédio de quem? - o âmbar do Báltico, ignorado pelos cretenses, mas cujo pálido e misterioso reflexo os indo-europeus aprenderam a apreciar no decorrer de suas permanências nórdicas. Mas os navios micênicos também singraram os mares próximos; os achados de objetos característicos, que nos fornecem informações seguras, atestam a importância e a ampla dispersão da produção metalúrgica e da cerâmica. Vindos do norte, de um clima mais rude, levaram à Grécia a fíbula metálica que lhes permitia prender as mais pesadas vestimentas: os mediterrâneos adotaram-na. Seus bronzes, suas jóias, suas pedras gravadas e, sobretudo, sua cerâmica com uma decoração cada vez mais estilizada, tendendo ao geometrismo, são encontrados em numerosos lugares: na Sicília e na Itália do Sul, nas Cíclades, na costa da Ásia Menor, em Chipre e, por fim, na Fenícia, onde Minet el-Beida, o porto de Ugarit-Ras Chamra, lhes servia de entreposto tão ativo, que nos é lícito considerá-lo uma espécie de colônia de onde a exportação atinge certos pontos do vale do Eufrates.

Espólio de guerra e pirataria, tributos, indústria e comércio: o resultado foi a riqueza. No mundo grego, nenhum lugar forneceu aos arqueólogos tanto ouro quanto Micenas (14 quilos antes dos achados de 1952). Os gregos guardaram a lembrança desse fausto: nos poemas homéricos, "rica em ouro" é o epíteto de Micenas, despojada com o tempo, transformada num simples povoado do território de Argos. De fato, só com o período helenístico e com o lançamento em circulação dos tesouros persas, verificar-se-á, numa região que o produz, um afluxo análogo do mais precioso dos metais.

AYMARD, André; AUBOYER, Jeannine. O Oriente e a Grécia Antiga: o homem no Oriente Próximo. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2003. p. 42, 45-9. (História geral das civilizações, v. 2)

sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

Os tempos da plantação e da mina na Oceania

Vista do interior do Forte de Honolulu, 1853, Paul Emmert

Após 1850 prolongam-se as atividades de pilhagem. Por sua vez, o Estreito de Torres é cenário de um avanço sobre suas ostras perolíferas e adquire o sinistro cognome de "esgoto do Pacífico". Mas desenvolvem-se novas formas de exploração que, aliás, tem como corolário o recurso generalizado ao trabalho forçado.

A partir de 1835 as Havaí chamam a atenção pelas facilidades oferecidas à cultura da cana. Sociedades americanas compram terras, mandam vir chineses, japoneses, filipinos e, depois, portugueses. As Fidji voltam-se para a produção açucareira, após o malogro do algodoeiro, no qual se haviam fundamentado as esperanças, durante a Guerra de Secessão.

Mas a Oceania é tida, sobretudo, como fornecedora de noz de copra. Fala-se de uma civilização do coqueiro, pois esta árvore garante a subsistência dos insulares, dando-lhes não só alimentação e um licor, mas também o material para a construção da choupana e a matéria-prima para fabrico de toda espécie de objetos. Em muitos arquipélagos os indígenas ganham a vida entregando coco aos seus chefes, que tratam com os mercadores. Dada a falta de mão-de-obra nas Samoa, a firma Godeffroy, de Hamburgo, recorre sem grande êxito a melanésios e a cules chineses; nas Salomão faz-se o recrutamento para as Fidji.

Maior ainda é a falta de braços para a exploração do subsolo. Os baleeiros reconheceram a presença de guano em milhares de recifes, por vezes nus e desabitados, e companhias empreenderam a exploração do precioso excremento: é preciso acostar através dos cachopos, subsistir com víveres levados cada três ou quatro meses de Honolulu e de Ápia, arrastar até os pontos de embarque os sacos cheios de adubo; numerosíssimas são as vítimas entre os polinésios, especialmente nas Fênix. Por volta de 1900 começa-se a falar dos fosfatos de Nauru e de Ocean, onde são introduzidos japoneses. Na Nova Caledônia começa a extração do níquel, do cromo e do cobalto, prejudicada pelas más disposições dos canacas, que não admitem também as expropriações de terras feitas em favor dos colonos franceses para a cultura do cafeeiro ou para a criação; em seguida a uma grave revolta, em 1878, as casas de jogo e de ópio de Hong-Kong e Cantão recebem encomenda de cules.

SCHNERB, Robert. O século XIX: as civilizações não-europeias; o limiar do século XX. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1996. p. 164 e 167. (História geral das civilizações, v. 14)

sexta-feira, 3 de junho de 2016

Dos descobrimentos à colonização - Parte 3

[A colonização europeia do continente americano]


Carta geográfica da Nova França, 1612, Samuel de Champlain 

Foi nas Américas que a iniciativa colonizadora dos europeus tomou maior impulso. As riquezas procuradas nas Índias e finalmente descobertas no novo continente atraíram a Europa cada vez mais para as terras do Atlântico.

Franceses
Na América do Norte ocupam, no início do século XVII, regiões do atual Canadá. Posteriormente fundam Québec (1608) e Montreal (1642). Em meados do século XVII expandem-se em direção ao sul dos atuais EUA, descendo o rio Mississipi até o Golfo do México; fundam a colônia da Luisiana, em homenagem a Luís XIII, rei da França, e a cidade de Nova Orléans (1731).

Na América Central estabelecem-se, a partir dos meados do século XVII, nas Antilhas (atuais Haiti, República Dominicana, Guadalupe, Martinica e em outras pequenas ilhas).

Na América do Sul um grupo de protestantes franceses, fugindo a perseguições religiosas em seu país, tentam, sem êxito, estabelecer-se no Brasil fundando a França Antártica (1555) na Ilha de Villegaignon, na baía de Guanabara. Outro grupo análogo funda (1612), no Estado do Maranhão, a França Equinocial, na ilha que batizaram de São Luís em honra ao rei Luís XIII. Expulsos do Brasil, fixam-se na atual Guiana Francesa, fundando Caiena.

Na América do Norte, no Canadá, incorporando à Coroa com o nome de Nova França, exploram intenso comércio de peles, a caça, a pecuária, a agricultura produzindo trigo e forragem (cereais) e gramíneas para alimentação de animais. Na Luisiana cultivam arroz e tabaco.

Nas Antilhas cultivam tabaco, cana-de-açúcar, algodão, em seguida café, cacau, anileira (para produção de substância corante), servindo-se, como na Luisiana, do trabalho de escravos africanos. O comércio de produtos coloniais era monopólio de portos franceses do Atlântico (Ruão, Nantes, La Rochelle e Bordeaux).

Ingleses
Na América do Norte fundam (1584) a primeira colônia que recebeu o nome de Virgínia em honra à rainha Elisabete I, cognominada a Rainha-Virgem.

Um grupo de protestantes ingleses, chamados puritanos, fugindo a perseguições religiosas em seu país, emigram para o continente americano fundando Plymouth e a colônia de Massachusetts. Sucedem-se vários grupos colonizadores, de católicos e de protestantes, dando origem a novas colônias, as quais se agrupam em uma confederação. Até meados do século XVIII a confederação englobava 13 colônias, controladas pela Coroa, mas com certa autonomia local. No século XVIII, como ocorreu na Ásia, os ingleses entram em choque com os colonos franceses e a França é obrigada a renunciar a suas pretensões na América do Norte.

Na América Central tomam pé, até o século XVIII, nas Antilhas ocupando Barbados, as Bahamas, as Bermudas, Jamaica, Antígua e outras.

Na América do Sul estabelecem-se no século XVIII nas Guianas.

Na América do Norte, nas colônias setentrionais (New Hampshire, Massachusetts, Rhode Island, Connecticut) desenvolvem, em pequenas propriedades, culturas várias (milho, trigo, legumes, macieiras). Dedicam-se à criação de gado, à pesca, à extração de madeiras, à produção de peixe salgado, carne-seca e rum. Nas colônias do centro (Nova York, New Jersey, Pennsylvania, Delaware) desenvolvem, em pequenas e grandes propriedades, o cultivo do trigo, a produção de farinhas, a extração de madeiras, a construção de navios. Nesta região estabelecem-se os comerciantes. Nas colônias do sul (Maryland, Virgínia. Carolina do Sul, Carolina do Norte, Geórgia) domina a grande propriedade, em base de trabalho escravo. Cultivam-se o tabaco, o arroz, mais tarde o algodão (séc. XVIII), e cria-se gado.

Nas Antilhas, com o concurso da mão-de-obra africana, desenvolvem as lavouras de cana-de-açúcar e mantêm intenso comércio com a América espanhola e suas próprias colônias na América do Norte.

Holandeses
Na América do Norte um grupo de protestantes, fugindo a perseguições religiosas nos Países Baixos, funda (1623) o núcleo de Nova Amsterdã (origem de Nova York), que perdem, logo depois (1664), para os ingleses.

Na América Central estabelecem-se nas Antilhas, na Ilha de Curaçao e em outras menores.

Na América do Sul, através da Companhia Holandesa das Índias Ocidentais, tentam estabelecer-se no nordeste do Brasil, antes na Bahia (1624), depois em Pernambuco (1630), onde fundam a colônia da Nova Holanda, de onde são expulsos em 1654. Os holandeses conseguem fixar-se nas Guianas (séc. XVII).

A base da economia holandesa era a cana-de-açúcar, cultura desenvolvida nas Antilhas.

Espanhóis
Na América do Norte, a partir da conquista de Cortés no México, penetram no século XVI em vastas zonas do sul e sudoeste dos atuais EUA (Califórnia, Novo México, Texas, Flórida), formando o Vice-Reinado da Nova Espanha, com capital Cidade do México.

Na América Central ocupam (séc. XVI) praticamente toda a área do continente, dominam nas Antilhas Cuba, Porto Rico, Trinidad e Jamaica (esta última perdida para os ingleses no séc. XVII).

Na América do Sul, a partir da conquista de Pizarro no Peru, ocupam todas as terras ao longo do Oceano Pacífico (à exceção da Patagônia), formando o Vice-Reinado do Peru, compreendendo territórios dos atuais Peru, Bolívia e Chile, com capital em Lima. No século XVIII criam o Vice-Reinado de Nova Granada, compreendendo territórios dos atuais Equador, Colômbia, Venezuela, Panamá, com capital Bogotá. Estabelecem-se em regiões dos atuais Argentina, Uruguai, Paraguai e Bolívia, formando o Vice-Reinado do Prata, com capital Buenos Aires.

A penetração do continente americano foi estimulada pela busca e exploração de jazidas de ouro e de prata. Já a partir do século XVI exploram em larga escala as minas de ouro do México e as de prata de Potosí (na atual Bolívia). Na região dos pampas argentinos introduzem o gado bovino e ovino (carneiros), desenvolvendo o comércio de lã e de couro. Desenvolvem também a agricultura explorando plantas nativas (tabaco, milho, mandioca, algodão) e outras provenientes da Europa (limoeiro, laranjeira, vinha, trigo, cânhamo) ou do Oriente (amoreira, cana-de-açúcar, cafeeiro).

Portugueses
Na América do Sul possuem regiões do atual Brasil, com Salvador como capital. Até o fim do século XVIII ultrapassam a linha de Tordesilhas, penetram e ocupam vastos territórios, dando à colônia uma forma geográfica que correspondia aproximadamente à forma do Brasil atual, transferindo a capital para o Rio de Janeiro.

A base da economia portuguesa era essencialmente agrícola. De início a extração da madeira pau-brasil, em seguida o plantio intensivo da cana-de-açúcar. Desenvolvem o cultivo de plantas nativas (milho, mandioca, tabaco, algodão, cacau, baunilha, canela); introduzem o arroz e o linho. Desenvolvem também, a partir do século XVI, a criação de gado bovino e cavalar em várias regiões de sua colônia; iniciam o comércio de couros. No século XVII descobrem e exploram jazidas de ouro (no atual Estado de Minas Gerais) e de diamantes (nos atuais Estados de Goiás e de Mato Grosso).

HOLLANDA, Sérgio Buarque de (org.). História da Civilização. São Paulo: Nacional, 1974. p. 186-188.

sábado, 29 de agosto de 2015

A era do absolutismo: A ascensão da França nos séculos XVI e XVII

Rei Luís XIV, Nicolas-René Jollain

No século XVI a França foi cenário de violentas lutas religiosas entre católicos e protestantes calvinistas - chamados huguenotes -, as quais culminaram com o massacre da Noite de São Bartolomeu (1572) quando milhares de huguenotes foram eliminados, por ordem de Catarina de Médicis, regente do trono francês. A paz religiosa só pôde estabelecer-se no reinado de Henrique IV que, através do Edito de Nantes (1598), concedeu liberdade de culto aos protestantes [...].

O Edito de Nantes favoreceu o crescente prestígio político da França, a renovação de seu comércio e de sua indústria, responsável por um grande desenvolvimento econômico nos séculos seguintes.

O poder da França acentuou-se após a última das guerras de religião, a Guerra dos Trinta Anos (1618-1648).

Esta guerra desenrolou-se na Alemanha, dividida em vários reinos e principados, uns protestantes outros católicos. Começando como uma luta religiosa terminou, entretanto, como conflito armado pela hegemonia na Europa; envolveu diversas nações, mas foi particularmente uma luta na qual a França se empenhou para cercear o poderio da casa real dos Habsburgo, herdeira do império de Carlos V. O conflito irrompeu na Boêmia quando o rei Fernando II de Habsburgo, católico, tentou impor sua religião em um território onde havia agrupamentos de protestantes. Os príncipes alemães católicos entraram em choque com os príncipes alemães protestantes; estes foram derrotados e a dominação dos Habsburgo afirmou-se na Boêmia. No entanto, o conflito alastrou-se gradativamente sobre boa parte da Europa provocando a guerra entre nações protestantes - Dinamarca, Suécia, Províncias Unidas - e nações católicas em poder dos Habsburgo - Áustria e Espanha. A França, embora católica, entrou na guerra ao lado das nações protestantes para refrear o prestígio dos Habsburgo. Assim, o longo conflito, durante o qual se alternaram vitórias e derrotas de ambos os lados, terminou com a intervenção decisiva da França que forçou a Áustria e a Espanha a renderem-se. Foram assinadas a Paz de Mestfália (1648), entre França e Áustria, e mais tarde (1659) a Paz dos Pirineus, entre França e Espanha.

A Paz de Westfália assinalou o fim das guerras de religião. assegurando tolerância de fé; politicamente, acabou com o predomínio e a força dos Habsburgo. [...]

[...]

Internamente, desde o reinado de Henrique IV, a França vinha passando por importantes transformações políticas, que levaram o rei a concentrar em suas mãos todos os poderes do Estado. Contribuíram para essa centralização do poder medidas tomadas por dois ministros, o Cardeal Richilieu (na regência de Maria de Médicis e no reinado de Luís XIII) e o Cardeal Mazzarino (na regência de Ana d'Áustria e no início do reinado de Luís XIV): ambos afastaram sistematicamente nobres dos corpos administrativos, confiando-os a funcionários de origem burguesa. Tais medidas contra a aristocracia, e que não deixaram de provocar agitações sociais e guerras civis, foram ainda mais reforçadas por Luís XIV, ao assumir o trono (1661).

O monarca afastou os nobres dos cargos administrativos que ainda ocupavam, em compensação atraiu-os para a sua corte e manteve-os isentos de impostos, que eles, todavia, continuaram cobrando dos lavradores de suas terras. Os postos administrativos foram ocupados por elementos da classe burguesa, ministros e funcionários diretamente nomeados e controlados pelo rei, o qual ainda favoreceu a rica burguesia dando grande impulso à indústria (manufatureira, construção civil, naval e de armamentos) e ao comércio (importação e exportação de matérias-primas e gêneros de primeira necessidade).

Concentrando todos os poderes do Estado em suas mãos, Luís XIV passou a encarnar o próprio reino da França e tornou-se assim símbolo vivo do absolutismo, sintetizado na frase a ele atribuída: L'état c'est moi (O Estado sou eu). Luís XIV deu à França o máximo de esplendor e projeção, tanto assim que sua época passou à história como o século de Luís XIV. Mereceu o nome de rei-sol, pois sua corte foi uma das mais brilhantes e luxuosas de que temos notícia, dela recebendo homenagens como se fora um deus.

O período de projeção que a França conheceu no século XVII foi resultado de importantes iniciativas do monarca, auxiliado por homens de visão, diplomatas, chefes militares e ministros, dentre os quais destacou-se o ministro da economia e das finanças, Colbert.

Colbert desenvolveu a política do mercantilismo, doutrina econômica fundamentada na pequena importação e na grande exportação. Mas, para exportar, era necessário produzir em larga escala objetos manufaturados de alta qualidade, transportá-los por mar e encontrar no estrangeiro matérias-primas e bons mercados. Colbert, pois, regulamentou a produção de mercadorias. exigiu o emprego de mão-de-obra qualificada e especializada, modernizou os estaleiros para a construção de navios, estimulou a exploração sistemática e a expansão das colônias francesas nas Américas (Canadá, Luisiana, Antilhas). A fim de a França poder competir com as poderosas companhias das Índias, holandesa e inglesa, fundou-se a Companhia Francesa das Índias Orientais. Reorganizando sua marinha, a França passou a concorrer comercialmente com a Holanda.

[...]

A França alcançara enorme prestígio internacional, mas internamente começara a delinear-se uma situação social bastante crítica. Na cidade, a nobreza ligada à corte de Luís XIV vivia ociosa e luxuosamente, enquanto a burguesia detinha influência considerável na administração e no comércio. No campo, os nobres empobreceram cada vez mais, pois os lavradores pagavam-lhes os impostos devidos não mais em dinheiro e sim em gêneros. Assim muitos nobres viram-se obrigados a vender parte de suas terras a burgueses da cidade. A situação dos camponeses agravava-se dia a dia, devido à falta de progresso sensível nas técnicas agrícolas, aos rendimentos diminutos, às elevadas taxas, aos caprichos da natureza, fortes geadas, prolongadas secas, trazendo fome, doenças e miséria.

Além disso, tendo Luíz XIV revogado o Edito de Nantes, recomeçaram as perseguições contra os protestantes que, obrigados a abandonar a França, emigraram em grande número para o exterior, levando consigo seus haveres e sua capacidade de trabalho, o que prejudicava seriamente o país. Prejuízos maiores sobrevieram quando outras nações europeias se coligaram para refrear as ambições desmedidas de Luíz XIV. Nos últimos anos de seu reinado a França enfrentou uma coligação europeia na Guerra de Sucessão da Espanha, à qual o Tratado de Utrecht (1713) pôs fim, pondo fim também à supremacia francesa.

HOLLANDA, Sérgio Buarque de (Org.). História da Civilização. São Paulo: Nacional, 1974. p. 195-8.

sexta-feira, 15 de maio de 2015

A vida cotidiana dos astecas: Vida rural e vida urbana

Homens astecas compartilhando uma refeição. Artistas desconhecidos, Codex Florentine

Tudo leva a crer que quando os “bárbaros astecas” (Azteca Chichimeca) do século XII iniciaram sua migração ainda não praticavam a agricultura. A caça, a pesca (dizia-se que Aztlán era uma ilha no meio de um lago) e a coleta constituíam a base da sua subsistência. Foi em contato com as populações sedentárias do planalto Central que os mexicanos, à semelhança de outros “bárbaros”, adotaram o modo de vida tradicional, com suas técnicas praticamente inalteradas desde o IV milênio a.C., isto é, a cultura de milho, vagens, plantas oleaginosas (amaranto e sálvia), abóbora, tomate e pimenta; a tecelagem (fibras de agave: ixtle) e a cerâmica. Essas técnicas subsistiram até hoje no essencial como base da vida rural de todos os povos indígenas, quaisquer que fossem as suas etnias. Fixando-se nas ilhas do lado, os astecas aí encontraram terras escassas demais para o cultivo. Seu modo de vida inicial também era semelhante ao das tribos ribeirinhas, que se denominavam atlaca chichimeca, “povos bárbaros da água” ou “selvagens lacustres”: os peixes, crustáceos e moluscos do lago, assim como os pássaros de água, em muito contribuíram para sua alimentação. É significativo que eles tenham adotado divindades próprias dos “selvagens lacustres” de Tláhuac e de Churubusco, e que tenham até mesmo cantado nos templos do México, hinos como o de Aminitl, o deus da caça aos pássaros aquáticos, expressos em “chichimeca”, ou seja, um dialeto bárbaro incompreensível para os astecas.

No apogeu do Império, essa situação já estava profundamente alterada. Graças às suas conquistas, a tribo dispunha de extensas áreas no vale e nas províncias. O culto de Tlaloc e dos deuses do milho desempenhavam um papel preponderante no ritual. Todavia, uma parcela importante dos recursos alimentares ainda procedia da pesca e da caça. Por outro lado, uma considerável proporção da população asteca consagrava-se inteira ou parcialmente a atividades não agrícolas: serviço militar, sacerdócio. Administração e artesanato. Os gêneros alimentícios provinham tanto de trocas, como dos impostos em espécie arrecadados nas províncias. Com os campos, hortas e jardins, as criações de perus e os bosques, os domínios atribuídos aos dignitários formavam unidades econômicas semelhantes às “vilas” romanas do Baixo Império. Ali se produzia toda a espécie de gêneros agrícolas; e as mulheres ou os escravos fiavam e teciam.

A cerâmica asteca, mais utilitária do que artística, parece ter sido produzida em massa nas oficinas. A cerâmica de luxo, maravilhosamente decorada com motivos policromados, era importada de Cholulá e do território mixteca. Foi por essa época que os astecas, à frente de um vasto império, adotaram a vida urbana. Sua capital, Tenochtitlán, ampliada em 1476 pela anexação de Tlatelolco, estendia-se então por um milhar de hectares de ilhas e terras pantanosas, que dois séculos de labuta gigantesca haviam transformado em uma rede geométrica de canais, ruas e praças, verdadeira Veneza ligada às margens por três passagens elevadas: Tepeyacac, ao norte, Tlacopan, a oeste, e Iztapalapan, ao sul. A cidade abrigava de 80 mil a 100 mil domicílios, ou seja, um total de mais de 500 mil habitantes. Essa população estava em via de se ampliar, como a dos subúrbios costeiros, que também tendiam a avançar sobre a lagoa com casas construídas sobre pilotis. Toda a população, incluindo a de cidades como Azcapotzalco, Chapultepec, Coyoacán etc., devia ultrapassar 1 milhão de habitantes.

[...]

O principal centro comercial da cidade situava-se em Tlatelolco. Sobre uma imensa praça rodeada de arcadas e próximo a uma pirâmide, existia um mercado, ao qual compareciam diariamente de 20 mil a 25 mil pessoas, e de 40 mil a 60 mil pessoas a cada cinco dias. Enormes quantidades de mercadorias, cada qual com uma localização determinada, eram aí trocadas: tecidos e vestimentas, plumas e jóias, peles e plumagens, milho, vagens, pimentas, legumes, frutas e ervas, pássaros e caça, peixes, rãs, vasos, utensílios de sílex, obsidiana e cobre, madeira, tabaco e cachimbos, móveis e esteiras. Havia lojas de boticários, cabeleireiros, vendedores de bolos de milho e guisados assados. Uma polícia especial zelava pela boa ordem do tianquiztli (mercado), e um tribunal composto de três magistrados estava permanentemente a postos para resolver os litígios.

A suntuosidade dos palácios dos poderosos maravilhou os conquistadores espanhóis. [...] Em Texcoco, o rei Nezaaulcoyotl ordenara a construção de um palácio com mais de 300 peças, com jardins ornados de fontes e chafarizes. Pássaros, peixes e outros animais eram aí conservados vivos ou representados em ouro ou pedra. Em Tetzcotzinco, o mesmo soberano criara um parque de extraordinária magnificência, irrigado por um engenhoso sistema de canais. Motecuhzoma dispunha de residências campestres, onde pássaros de toda espécie eram alimentados e tratados por uma multidão de serviçais.

Não é preciso dizer que as casas dos maceualtin eram muito simples. Cada casa, entretanto, possuía, em seu próprio terreno, um jardim e um banho a vapor (temazcalli).

Mesmo nas casas dos dignitários, o mobiliário reduzia-se a pouca coisa: esteiras (petlatl), cadeiras de espaldar em vime, mesas baixas, biombos ou para-ventos de madeira, cestos, pinturas em tecidos ou em peles. Nas casas populares, a lareira, cercada de três pedras, ocupava o centro da habitação. Cozinhava-se a lenha ou carvão vegetal. A iluminação se fazia por meio de tochas resinosas.

O México precisava de água potável, visto ser salobra a das lagunas. No início, os astecas puderam contentar-se com as fontes que brotavam entre os rochedos da ilha, onde se erigia o templo de Uitzilopochtli. Com o aumento da população, porém, tornou-se necessário construir, sob o reinado de Motecuhzoma o Antigo, o primeiro aqueduto para transportar até o centro da cidade a água das fontes de Chapultepec. Esse aqueduto, com cinco quilômetros de extensão, era formado por dois condutores, apenas um dos quais era utilizado de cada vez, enquanto se limpava o outro. No tempo de Auitzotl foi construído um segundo aqueduto entre Coyoacán e o centro. A água era distribuída por carregadores que circulavam de barco pela cidade. Vendiam-na também em jarros nos mercados.

Terríveis inundações devastavam periodicamente a cidade. Sob Motecuhzoma I, construiu-se, em 1449, um dique de 16 quilômetros de comprimento, destinado a proteger a cidade contra as inundações do grande lago. Auitzotl precisou fazer mergulhadores obstruírem a fonte da Acuecuexatl, cujas águas, jorrando com violência, haviam elevado o nível das lagoas, destruindo inúmeras casas. Nessa ocasião. Ele distribuiu à população esfaimada 200 mil carregamentos de milho, vestimentas e 32 mil barcos.

Equipes de trabalhadores, sob a direção das autoridades locais dos bairros, asseguravam a manutenção dos canais e aquedutos e a limpeza das ruas. Testemunhos da época são unânimes em reconhecer a higiene das vias públicas. De modo geral, Tenochtitlán era uma cidade organizada e salubre. Cortez, escrevendo a Carlos V, louvou intensamente a beleza das construções, a organização da vida coletiva e a “razão que os índios emprestam a todas as coisas”.


SOUSTELLE, Jacques. A civilização asteca. Rio de Janeiro: Zahar, 2002. p. 42-3, 45-7. (As civilizações pré-colombianas).

domingo, 31 de agosto de 2014

Atividades produtivas no mundo antigo oriental

A base da economia era, então, a agricultura e a criação de animais. No entanto, em algumas épocas, houve conflitos entre as duas atividades, representados pelo choque entre grupos pastores - povos ainda nômades - e os agricultores - povos sedentários. Muitas vezes, as inúmeras invasões sofridas pelos reinos organizados eram resultado desse processo.

Nas cidades, geralmente sob o controle de templos e palácios, desenvolvia-se o artesanato, destacando-se a cerâmica, a tecelagem e o trabalho com metais e pedras preciosas como os setores mais importantes, que cresciam desde longa data.

O artesanato de luxo, produzindo jóias, tecidos finos e ricos, era praticado principalmente na região Sírio-Palestina e particularmente entre os fenícios, que eram também os principais fornecedores para os grandes reinos e impérios.

No decorrer do I milênio a.C., generalizou-se a metalurgia, principalmente a do ferro, que conferiu aos povos que a dominavam uma extraordinária superioridade bélica, em virtude da produção de armas muito mais resistentes do que as feitas de bronze ou pedras. A utilização do ferro para o fim militar parece ter sido iniciada pelos hititas e, mais tarde, largamente utilizada pelos assírios.

Além das atividades produtivas, agropastoril e manufatureira, havia o comércio, outra atividade tipicamente urbana e controlada pelo Estado.

A vinculação entre o comércio e o governo teve seu ponto alto nos reinos semitas da região Síria-Palestina. Os reis eram, antes de tudo, grandes mercadores. O rei Salomão, dos hebreus, é o exemplo clássico.

Os maiores comerciantes da Antiguidade foram, porém, os fenícios, que eram os grandes navegadores do mundo antigo. Eles faziam um comércio verdadeiramente mundial (no contexto da Antiguidade), na medida em que integravam, pela navegação, toda a orla mediterrânea e traziam para os seus portos os produtos e as matérias-primas existentes nos mais diferentes lugares, inclusive grande quantidade de escravos. As cidades fenícias podiam, assim, suprir todo o restante da Ásia e até mesmo o Egito.


Transporte de cedro do Líbano. Baixo-relevo do Palácio de Sargão II, ca. 713-716 a.C., Dur Sharrukin , Assíria

Enquanto os fenícios se destacavam no mar, os arameus eram os grandes distribuidores terrestres. O comércio terrestre de longa distância foi beneficiado pela montagem dos grandes impérios, que construíram extensas vias de comunicação (estradas). Além disso, criaram formas de organização e controle (inclusive defesa contra salteadores) das grandes rotas e caravanas, capazes de transportar as mercadorias para os lugares mais distantes, até mesmo para a Índia ou a China, conforme comprovam escavações mais recentes. No Império Persa, por exemplo, foram construídas estradas, como a que ligava Sardes, na Lídia, a Susa, no Elam, com cerca de 2400 km de extensão.


Ataque assírio a uma cidade com arqueiros e um aríete com rodas. Baixo-relevo do Palácio de Nimrud, ca. 865-860 a.C.

Nos grandes impérios, a própria guerra era, muitas vezes, mais uma empresa comercial do que política ou militar. Algumas campanhas eram levadas a efeito tendo em vista os espólios (saques) de guerra. A conquista militar era também uma conquista econômica, representada pelo confisco dos bens e das propriedades das populações dominadas. Prisioneiros eram transformados em escravos e havia sempre a imposição de tributos, que os povos conquistados, ou seus soberanos, deveriam pagar periodicamente sob a forma de presentes aos conquistadores.


Representação de Hoshea, rei de Israel, pagando tributo ao rei Shalmaneser III da Assíria (2 Reis 17:3). Obelisco negro de Shalmaneser III de Nimrud, ca. 827 a.C. 
Foto: Steven G. Johnson

De certo modo, a guerra substituía o comércio e era a forma, por excelência, de expropriação de riquezas. A formação de um Império Assírio, rico e poderoso, por exemplo, foi o resultado e não a motivação inicial das guerras.

A guerra também tinha um sentido econômico na medida em que beneficiava a classe dos militares: os soldados, além de receberem parte do saque, passaram a ser recompensados com a propriedade da terra e de escravos. Além disso, muitos militares passaram a integrar os privilegiados quadros de altos funcionários do governo.

Mas mesmo o comércio, propriamente dito, era vinculado ao Estado.

NEVES, Joana. História Geral - A construção de um mundo globalizado. São Paulo: Saraiva, 2005. p. 77-78.


NOTA: O texto "Atividades produtivas no mundo antigo oriental" não representa, necessariamente, o pensamento deste blog. Foi publicado com o objetivo de refletirmos sobre a construção do conhecimento histórico.

segunda-feira, 28 de julho de 2014

A vida material e social na Grécia Antiga: as trocas

Vendedor de rua oferecendo frutas e bolos empilhados em um cesto. Ca. 489-470 a.C. Pan.
Foto: Marie-Lan Nguyen

Mesmo nos momentos mais felizes do período clássico, quando essa vida rural não sofre nem com as misérias da guerra, nem com as perturbações civis, ela só fornece à economia grega uma base muito restrita. Embora a sua população seja frugal, a Grécia não a pode alimentar unicamente com suas colheitas, exceto em algumas regiões favorecidas pela natureza ou de fraca densidade humana. Normalmente, é necessário importar produtos alimentícios: a Sicília, a Itália do Sul, o Egito e as margens setentrionais do Mar Negro são seus fornecedores necessários. Mas, para pagar o que lhes compra, a Grécia está na obrigação de vender-lhes qualquer coisa. Vende-lhes azeite e vinho, únicos produtos para os quais sua agricultura proporciona excedentes disponíveis, bem como os produtos de sua indústria. [...]

[...] Vendas e compras no exterior pressupõem a existência de uma marinha, que, atingindo certa importância, não mais encontra em quantidade suficiente, na velha Grécia, os materiais indispensáveis à construção e manutenção de navios; mas essa marinha mesma é uma fonte de lucros, pois permite que os armadores exerçam um papel de intermediários e de corretores, papel que se estende a toda a bacia do Mediterrâneo. Enfim, o incremento do tráfico provoca, por sua vez, a multiplicação das operações de troca e, depois, das transferências de fundos, dando assim margem ao florescimento do comércio do dinheiro, que evolui no sentido da atividade bancária.


Um antigo navio grego. Artista desconhecido

Essa economia diversificada não predomina sobre a economia rural senão em raros pontos da Grécia, em certas cidades e certos portos localizados em posições geográficas propícias, com população mais empreendedora ou mais ameaçada pela fome, e servida, também, por circunstâncias políticas favoráveis.

[...] Na Sicília, Siracusa aumenta a superioridade de que já gozava outrora. O prestígio e as forças militares que lhe valem suas vitórias sobre Cartago permitem-lhe criar um império, que não é somente político. Destrói ou submete outras cidades ou, pelo menos, tira proveito de sua destruição por parte de terceiros. Uma imigração, ora espontânea, ora forçada, facilitada e mesmo imposta pelos tiranos, que se mostram generosos em relação ao direito de cidadania, a fim de destruir a coesão moral de seus súditos, aumenta consideravelmente sua população. Na Itália meridional, Tarento, sem pretender semelhante fortuna, acaba também por destacar-se, servida pelo declínio de suas vizinhas que se arruínam umas às outras ou que resistem menos à pressão dos itálicos. Na própria Grécia, os centros prósperos da vida econômica são menos numerosos do que outrora. Cálcis, Erétria, Egina, estão decadentes ou mortas, sufocadas pelo crescimento de Atenas. As cidades gregas da Ásia vegetam [...]. Ao contrário, Corinto continua importante, maravilhosamente situada para o comércio com a Sicília e a Itália, onde mantém relações políticas amistosas [...].

[...]


Escravos trabalhando nas minas de Laurion. Artista desconhecido. Século V a.C.

Grande importadora de produtos alimentícios e matérias-primas, Atenas exporta o vinho e o azeite dos campos da Ática, seus artigos manufaturados e, principalmente, a cerâmica, cujos cacos se encontram hoje desde as costas da Gália até a Rússia meridional. Servida por numerosa marinha mercante que suas esquadras protegem contra os inimigos e os piratas, seu porto do Pireu é, como diz Isócrates, “um mercado no meio da Grécia... onde a superabundância é tal que os objetos que não se podem encontrar em outras partes senão com esforço, e isoladamente, são aqui facilmente adquiríveis”. Enfim [...] Atenas exporta suas moedas. A prata extraída das minas do Laurion permite-lhe fazer a cunhagem em grande quantidade, com apreciável lucro, de moedas de excelente título e peso escrupuloso [...].

AYMARD, André; AUBOYER, Jeannine. O Oriente e a Grécia Antiga: o homem no Oriente Próximo. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2003. p. 186-188. (História Geral das Civilizações, v. 2)

NOTA: O texto "A vida material e social na Grécia Antiga: as trocas" não representa, necessariamente, o pensamento deste blog. Foi publicado com o objetivo de refletirmos sobre a construção do conhecimento histórico.

segunda-feira, 3 de março de 2014

Nem só de açúcar e ouro vivia o Brasil Colônia

Embora com uma produção determinada  pelo interesse externo, a colônia não se limitou aos "ciclos" do pau-brasil, do açúcar e do ouro. Em diferentes regiões e épocas outros gêneros foram produzidos.

O algodão teve o Maranhão e o Grão-Pará como área de cultivo mais antiga. Com ele eram feitos tecidos, apesar da proibição metropolitana, e em alguns casos os seus novelos serviam como moedas. Ceará, Pernambuco, Rio de Janeiro, São Vicente e Goiás foram outras áreas onde seu plantio ocorreu. A partir da segunda metade do século XVIII houve uma grande expansão da produção algodoeira, especialmente maranhense. Grande compradora de algodão - matéria-prima importante da Revolução Industrial, a Inglaterra deixou, a partir da Guerra de Independência dos Estados Unidos, de se abastecer com produto das fazendas do Sul daquele país, passando a comprar o gênero brasileiro para alimentar suas fábricas têxteis.

O fumo, desenvolvido paralelamente à lavoura canavieira, servia como valor de troca na África e era também exportado para a Europa. Seu principal centro produtor foi a capitania da Bahia.

O cacau, de início coletado como droga do sertão, passou a ser produzido na época de Pombal. Licores, chocolates e manteiga eram resultantes do seu aproveitamento. Os primeiros cacauais localizaram-se na Bahia.

Ligado à pecuária e extraído nas margens do rio São Francisco e no litoral, do Maranhão ao Rio de Janeiro, o sal começou a sofrer restrições na sua produção a partir de 1665. Ele fazia concorrência com a produção de Setúbal, Figueira e Alverca, regiões salineiras portuguesas. A Coroa chega ao monopólio real sobre o extrativismo, provocando reações dos colonos - como o Motim do Maneta, na Bahia, no início do século XVIII.


Pesca da baleia na Baía de Guanabara, fim do século XVIII. Leandro Joaquim

A pesca da baleia desenvolveu-se nos séculos XVII e XVIII. Do cetáceo se extraía o óleo para iluminação, o alimento, a massa para construções (misturada com a cal) e objetos de preparo artesanal. De início a atividade era de estanco, mas a diminuição dos animais em mares brasileiros - determinada pela ação de baleeiros ingleses e norte-americanos nas ilhas Malvinas - leva à abolição do monopólio real, em 1801.

ALENCAR, Francisco [et alli]. História da sociedade brasileira. Rio de Janeiro: Ao Livro Técnico, 1996. p. 78-9.

NOTA: O texto "Nem só de açúcar e ouro vivia o Brasil Colônia" não representa, necessariamente, o pensamento deste blog. Foi publicado com o objetivo de refletirmos sobre a construção do conhecimento histórico.

quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

Alimentação nas sociedades contemporâneas

Os dois últimos séculos trouxeram para a alimentação os efeitos combinados da Revolução Industrial, agrícola e dos transportes, provocando a maior globalização da história alimentar com o intercâmbio de produtos e a difusão de tecnologias de refrigeração, conservação, cozimento a gás e elétrico.

Consolidou-se também o intercâmbio que fez os produtos americanos como o milho, a batata, o tomate, o pimentão e muitos outros incorporarem-se à agricultura e à culinária europeia, africana e asiática, de onde, da mesma forma, vieram produtos como o trigo, o centeio, o arroz e tantos outros que se espalharam pelo mundo, integrando-se às tradições culinárias locais.

Esse processo dividiu a economia global em países produtores de matérias-primas, que foram submetidos a regimes de exploração colonial para sua especialização em monoculturas de exportação para os países centrais. Assim o açúcar, o café, o chá, o cacau, a carne e outros alimentos foram concentrados em regiões produtoras periféricas, embora o consumo maior se realizasse nas metrópoles europeias.

A invenção da lata, em 1804, também foi uma conseqüência imediata das guerras napoleônicas e da necessidade militar de garantir abastecimento. Depois disso, a invenção da indústria de refrigeração permitiu, a partir do final do século XIX, o transporte internacional de carne em navios frigoríficos. Isso fez países como a Argentina e a Nova Zelândia passarem a economias de intensa especialização pecuária, começando uma criação de animais em grande escala. Mais tarde, a pasteurização e as técnicas de higiene e assepsia também aumentaram a qualidade e a integridade dos alimentos.


Campbells.
 Imagem: Balougador

No século XX, a expansão da eletricidade e do gás na vida doméstica fez com que a cozinha das casas se tornasse o local de maior influência da Revolução Industrial na vida cotidiana do lar. Primeiro fogões e geladeiras e, depois, especialmente no segundo pós-guerra, eletrodomésticos se tornaram bens de consumo de massa.

A descoberta dos fertilizantes artificiais, no início do século XX, após o uso de insumos como o guano e o nitrato, e a utilização maciça de agrotóxicos ampliaram enormemente o volume de grãos produzidos, mas não conseguiram acabar com a fome no mundo, pois as estruturas de renda desiguais entre os países e em seu interior não permitiam o acesso dos famintos aos alimentos.

As conseqüências socioambientais do modelo agroindustrial baseado em grandes unidades de produção extensiva de monocultura com uso intensivo de insumos técnicos são cada vez mais preocupantes. A eutrofização (causada pelos fertilizantes nitrogenados) das águas, a expansão de doenças devido à criação animal intensiva em confinamento (como a vaca louca e, mais recentemente, as gripes aviária e suína) e o uso de terras para a produção maciça de forragem animal como a soja, por exemplo, trazem graves problemas sociais e ambientais. A expansão de um modelo de alimentação excessivamente rico em gorduras animais, açúcares e carboidratos, com o aumento exponencial da obesidade, também é uma característica marcante de um modelo agroindustrial e cultural cujos efeitos são catastróficos para o equilíbrio ambiental do planeta, devido à busca da produtividade máxima a qualquer custo. O consumismo voraz e perdulário nos países centrais é associado a pólos crescentes de miséria e fome nas grandes cidades e nos países periféricos. A alimentação contemporânea faz parte, assim, de um modelo insustentável que compromete os recursos naturais e humanos em contradição com as grandes conquistas tecnológicas que ampliaram a capacidade produtiva.

Henrique Carneiro. Alimentação. In: BETING, Graziella. Coleção história de A a Z: [volume] 4: Idade Contemporânea. Rio de Janeiro: Duetto, 2009. p. 8-9.

NOTA: O texto "Alimentação nas sociedades contemporâneas" não representa, necessariamente, o pensamento deste blog. Foi publicado com o objetivo de refletirmos sobre a construção do conhecimento histórico.

domingo, 9 de junho de 2013

O remédio dos bandeirantes

A morte do bandeirante, Antônio Parreiras

A capitania de São Vicente, em cujo litoral se fundou a primeira vila brasileira, logo ficou isolada de outras áreas vinculadas à lavoura de exportação. O Engenho do Senhor Governador não tinha condições de concorrer com seus congêneres nordestinos; a lavoura canavieira ali não iria para frente, ao contrário do que indicava o esforço inicial da colonização. Sua prosperidade (que nunca beneficiou os trabalhadores negros e índios) foi efêmera.

O que explica esse declínio? A distância dos mercados consumidores é um fator que não atraía os capitais mercantis. Durante muito tempo, apenas um barco metropolitano por ano aportou no ancoradouro vicentino. A estreiteza da baixada litorânea e a pobreza de seus solos também não estimulavam os esforços agrícolas. Nessas condições e expostos a ataques marítimos de contrabandistas, os vicentinos subiram a serra do Mar.

Essa transferência de parte da população para o planalto, onde se localizavam as vilas de Piratininga e Santo André da Borda do Campo, resultou em maior isolamento e no aguçamento da pobreza. Para os primeiros paulistas, milho, sal e farinha de mandioca constituíam a dieta principal. Poucas trocas, pequeno consumo, economia de subsistência, com a produção de alguns gêneros similares aos europeus e reduzida exportação para o Rio de Janeiro, em certas épocas. Vida monótona, apagada, a lembrar as velhas aldeias portuguesas, assim era Piratininga:

"Coberto de sapé era tudo o mais: a igreja, a cadeia, a casa do Conselho. Esta, em 1580, caiu, passando a Câmara a reunir-se na casa de um outro vereador. Só em 1585 é que se está em via de construção de nova casa, que serviria também para cadeia." (MOTA, Otoniel. Do rancho ao palácio. São Paulo: Nacional, 1941. p. 10)

A essa pobreza correspondia o isolamento político. É ele que determina o episódio curioso da Aclamação de Amador Bueno, em 1641, quando chega à capitania e à vila de São Paulo a notícia da restauração da monarquia portuguesa. Possivelmente insuflados por espanhóis, que frequentavam muito a região, os paulistas decidiram não aceitar a vinculação com a nova dinastia portuguesa de Bragança. E aclamaram Amador I, rei de São Paulo! Realista - e sem querer ser rei -, Amador teve de se refugiar num convento até que a exaltação autonomista dos seus conterrâneos passasse.

Quem passeia hoje pela capital paulista não imagina que os poluídos rios Tietê, Pinheiros e Tamanduateí já representaram a grande esperança dos poucos paulistanos do início do século XVII. Esperança de ganhar o sertão, para encontrar remédio para sua pobreza. A suave inclinação dessas vias fluviais para o interior favorecia isso. Os versos de Guilherme de Almeida, no Monumento aos Bandeirantes, no Ibirapuera, tentam retratar a epopéia:

"Brandindo achas e empurrando quilhas
Vergaram a vertical de Tordesilhas!"


Monumento às bandeiras, Vitor Brecheret 

De início, ainda no século XVI, foi o ciclo do ouro de lavagem. Homens como Luís Martins e Brás Cubas (fundador da vila de Santos) descobrem ouro na própria capitania de São Vicente. Realiza-se a exploração do litoral na direção sul e Heliodoro Eobanos separa do cascalho do leito dos rios o metal precioso, a partir de Iguape. Jerônimo Leitão realiza uma entrada e descobre ouro de aluvião na área onde surgiria logo um núcleo de povoamento, Curitiba, só elevada à condição de vila em 1693.


Caçadores de bugres retornando com escravos presos nas matas de Curitiba,  Jean-Baptiste Debret 

Essa expansão bandeirante à cata de ouro teve efeitos colonizadores no litoral do Paraná e de Santa Catarina. Seguidores dos primeiros vicentinos prosseguem explorando a região e fundam as vilas de Paranaguá, São Francisco do Sul, Nossa Senhora do Desterro (hoje Florianópolis) e Laguna, a partir da segunda metade do século XVII.

A importância desse ouro aluvionário é atestada pela própria medida administrativa tomada pela metrópole, instalando entre 1608 e 1612 a repartição Sul (separada do Estado do Brasil) e decretando o Código Mineiro, ainda no início do século XVII, pelo qual o governo garantia para si a quinta parte da produção e autorizava a fundição do ouro em barras em casas especiais.

O surgimento desses núcleos coincide com o declínio da atividade do garimpo. A pecuária vai manter a ocupação.

[...] é prática comum das áreas com poucos recursos a escravização do nativo. Em São Vicente isso sempre aconteceu. Os colonos, muitas vezes, estimulavam as malocas - expedições de índios para aprisionar e escravizar índios inimigos. Essa reação acaba virando um grande negócio.

Entre 1617 e 1641 a Holanda monopoliza o fornecimento de escravos ao Brasil. A Companhia das Índias Ocidentais controla as praças de São Jorge da Mina, São Tomé e São Paulo de Luanda, gerando grande escassez de mão-de-obra nas áreas fora do controle flamengo. Quem tem monopólio impõe os preços.

O índios torna-se mercadoria altamente valorizada e mais uma vez os paulistas vão vislumbrar a possibilidade de curar sua pobreza: é o ciclo da caça ao índio. Mais uma vez os choques com os jesuítas vão se acirrar. Um dos momentos importantes desse atrito é o movimento ocorrido em São Paulo do campo de Piratininga, em 1641, quando os colonos indispostos com a Companhia de Jesus tentam realizar a "botada dos padres fora", além de aclamar seu rei.

O nativo das missões, acostumado ao trabalho agrícola em regime semi-servil, será o objeto da ação dessas bandeiras comandadas pelos vicentinos. Elas mobilizavam toda a vila, onde só permaneciam mulheres, crianças e velhos. É importante destacar que os índios são o maior contingente: no ataque à região missioneira de Guairá, em 1629, Antônio Raposo Tavares e Manuel Preto comandam 69 brancos, 900 mamelucos e 2.000 índios auxiliares. É a guerra fratricida na terra de Pindorama.

"Os paulistas, conhecidos também pelo nome de mamelucos, tinham levado a cabo pequenas expedições contra guaranis, desde 1618. Em 1628 e nos anos seguintes marcharam com autênticos exércitos. Caíram primeiro de surpresa sobre a redução de Encarnación, que devastaram. Os trabalhadores dispersos pelos campos foram postos a ferro e levados; os recalcitrantes, massacrados. As crianças e os velhos muito fracos para seguirem a coluna em marchas forçadas, foram igualmente mortos pelo caminho." (Relatório dos jesuítas Duran e Crespo, apud LUGON, C. A República Comunista Cristã dos Guaranis. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1968. p. 46)

As reduções dos jesuítas espanhóis foram as escolhidas para o ataque. Elas acompanhavam a ocupação castelhana no oeste do atual Paraná, onde desde o século XVI existiam a Ciudad Real del Guairá e a Villa Rica del Espírito Santo. Em 1631 também elas são destruídas. Após os primeiros ataques, devastadores, favorecidos pela omissão das autoridades espanholas em função da vigência da União Ibérica, os jesuítas migram e formam novos aldeamentos, a sudoeste do atual Mato Grosso do Sul e centro-oeste do atual Rio Grande do Sul. Ali desenvolvem a criação do gado bovino e eqüino.

A partir de 1632, as missões do Itatim, Tape e Uruguai são atacadas pelas bandeiras paulistas, forçando a retirada dos jesuítas para a margem direita do rio Uruguai.

Com o fim da União das Monarquias Ibéricas e o conflito luso-espanhol (1640-1668), Felipe IV dá ordens aos jesuítas de se armarem. Mas as vitórias que eles conseguem a partir daí se explicam mais pelo declínio do interesse na mão-de-obra. As praças africanas, nessa mesma época, estavam sendo reconquistadas pelos portugueses.

Em 1648, ano da retomada de Angola, Raposo Tavares volta a Itatim e realiza seu périplo, através do vale amazônico, retornando por via marítima a São Vicente. Percorrera 10.000 quilômetros durante três anos. Dos 1.200 componentes da sua bandeira, apenas 58 chegaram a Santo Antônio do Gurupá, nas proximidades de Belém. O pior, para o velho sertanista, era não ter conseguido aproximar-se de Potosí nem encontrado a tão sonhada prata...

Desvalorizado o escravo índio, rareado o ouro de lavagem, nunca encontrada a prata, os vicentinos buscam outras atividades. Uma delas está transcrita na Resolução do Conselho Ultramarino, organismo criado após a restauração Bragantina, para melhor explorar as colônias portuguesas: "o contrato que se fez é terem a sua assistência nos mesmos Palmares, para dali fazerem guerra aos negros levantados, sendo esta a causa principal para que foram chamados."

Trata-se do ciclo do sertanismo de contrato. Grandes proprietários pecuaristas, senhores de engenho do Nordeste e autoridades coloniais contratam vicentinos para a ação repressiva contra o principal obstáculo ao progresso colonizador: a resistência das tribos indígenas e dos negros aquilombados.

As primeiras lutavam pela sua permanência na terra, ameaçada pela expansão das plantações de cana-de-açúcar e pela pecuária extensiva. A desigualdade bélica determinou o extermínio de muitas comunidades primitivas rebeladas, como foi o caso dos Cariri, na Guerra dos Bárbaros ou do Açu. A repressão foi comandada por Domingos Jorge Velho e Matias Cardoso. Na dizimação dos autóctones também se destacou um não-vicentino, rendeiro da Casa da Torre, Domingos Afonso Mafrense, alcunhado "o Sertão".


Domingos Jorge Velho, Benedito Calixto

Quanto aos quilombos, caracterizavam claramente a luta dos escravos pela sua liberação e geravam uma reação violenta dos opressores, que viam nos mocambos uma ameaça a toda a estrutura colonial. A contradição entre os escravos e senhores chegou ao clímax na epopéia de Palmares. 

[...]

De fato, os negros de nenhum modo retornaram para as fazendas de seus ex-senhores. Após quase um século de lutas, o vicentino Jorge Velho, à frente de grande tropa, destruiu o último do quilombo.

No século XVIII, na região das Minas Gerais, as colunas do bandeirante Bartolomeu Bueno do Prado destruíram o quilombo do rio das Mortes.

Na segunda metade do século XVII, a situação de Portugal é crítica: o Tratado de Haia (1661) legalizou a perda da maior parte das suas colônias no Oriente; a Guerra de Restauração contra a Espanha (1640-1668) levou ao fim o lucrativo direito de asiento; as alianças europeias forçam o Estado português a fazer grandes concessões comerciais à Inglaterra, à França e às Províncias Unidas.

O Brasil, agora a principal área colonial lusa, será objeto de grande atenção por parte de Dom João IV, Dom Afonso VI e Dom Pedro I. O sonho era o mesmo dos tempos de Pero Vaz de Caminha, Martim Afonso, Tomé de Souza, Brás Cubas: a descoberta do Eldorado...

Animadas com o declínio da produção mineral na América Espanhola, as autoridades portuguesas incentivam a retomada das pesquisas minerais aqui. A depreciação do açúcar no mercado europeu determina a busca de outras atividades mais lucrativas.

Assim, em 1674 parte na direção do rio das Velhas a bandeira chefiada pelo mais rico e poderoso patriarca paulista, Fernão Dias Pais.

"Doenças, acidentes, deserções, combates com os índios iam dizimando paulatinamente a tropa. [...] Num dos momentos mais difíceis da aventura, o filho bastardo de Fernão, José Pais, compreendeu que a única maneira de retornar à casa seria matando o obstinado líder da bandeira. Mas Fernão descobriu a conspiração e quem morreu - enforcado à vista do arraial - foi José. E com ele seus companheiros de conjura." (MOREIRA DOS SANTOS, C. Jornal do Brasil, Caderno B, 27/04/1974)

O fracasso de Fernão não desanimou outros vicentinos como Garcia Rodrigues e Borba Gato. Em 1695, o governador do Rio de Janeiro comunica à corte a descoberta das primeiras minas, realizada por Antonio Rodrigues Arzão. Borba Gato vai descobrir mais tarde jazidas em Sabará. Sete anos depois, Bartolomeu Bueno [...] repete o feito em Goiás.


Partida da monção, Almeida Junior

As dificuldades desses desbravadores do interior brasileiro estão contadas no relato de um padre participante das monções (bandeiras fluviais que penetravam pelo Tietê, paraná e Pardo) na direção centro-oeste, citado por Capistrano de Abreu em Os caminhos antigos e o povoamento do Brasil: "depois de comidos os cachorros e alguns cavalos, fiz 35 sermões sem mudar de tema, animando a todos que não esmorecessem, certificando-lhes para diante dos rios de muitos peixes, campos de muitos veados, matos de muita caça, mel e guarirobas".

ALENCAR, Francisco et alli. História da sociedade brasileira. Rio de Janeiro: Ao Livro Técnico, 1996. p. 58-63.