"Os espelhos estão cheios de gente.
Os invisíveis nos vêem.
Os esquecidos se lembram de nós.
Quando nos vemos, os vemos.
Quando nos vamos, se vão?"
Eduardo Galeano: Espelhos
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quinta-feira, 23 de março de 2017

Onde há fumaça, há fogo 4

Em 1492, a  civilização mais complexa na América do Norte se encontrava no vale do México. Essas pessoas se autodenominavam mexicas, mas, em anos posteriores, os espanhóis se referiam a elas como astecas. Sua capital, Tenochtitlán, foi construída em uma ilha do lago Texcoco e era maior do que qualquer cidade europeia. Canoas deslizavam por canais em toda parte. Mercadores traziam produtos de milhares de quilômetros de distância. Havia papagaios à venda, mantos de algodão e chocolate quente, tortillas, peru, coelho, peles de animais, penas bonitas de todos os tipos e ouro em pó, cuidadosamente embalado dentro de bicos de penas de ganso. Tenochititlán ostentava zoológicos e jardins de museus cheios de plantas exóticas. Aquedutos traziam água potável à cidade, de montanhas a quilômetros de distância. A religião e a cultura astecas eram tão avançadas e únicas quanto as de qualquer civilização na Ásia ou na Europa.

Buffalo hunt, Karl Ferdinand Wimar

Por trás da cultura de todo grupo, há uma história - isto é, um relato de como um costume começou. Na América moderna, por exemplo, muitas pessoas usam calça jeans azul unida por rebites. Esse é um costume, e tem uma história. Na verdade, dois norte-americanos, Levi-Strauss e David Jacobs, tiveram a ideia em 1873. De maneira similar, alguém, ou talvez um grupo de índios, deve ter pensado em como confeccionar roupas melhores com pele ou uma lança mais afiada - ou teve a ideia de configurar um sistema político em que as pessoas "honoráveis" recebiam reconhecimento especial. Mas nenhum dos povos originários da América do Norte inventou a escrita. Por isso, não temos histórias contando de que modo os indivíduos contribuíram para a maneira como as pessoas viviam, ou sobre os vilarejos que construíram ou as guerras que travaram.

Indian canoe, Albert Bierstadt

Os arqueólogos assumiram a tarefa de descobrir o que aconteceu antes de haver uma história escrita. Seu trabalho de detetive é realmente impressionante, com novos conhecimentos adquiridos a cada ano. Ainda assim, restam muitos enigmas. O que aconteceu com o povo hohocan, que construiu canais? Antes de 1492, a região desértica do Arizona provavelmente abrigou mais índios do que qualquer outro lugar ao norte do império mexica. Por que os canais foram abandonados? O clima se tornou mais quente ou mais seco, dificultando a sobrevivência? Passou a haver pessoas demais vivendo em uma área pequena? Os índios vindos do norte atacaram esses povos? Não sabemos essa história.

Chippewas à la chasse au caribou, Cornelius Krieghoff

Há um enigma similar em torno da única cidade nos Estados Unidos de nossos dias a ter sido construída antes de 1492. Cahokia cresceu à margem do rio Mississíppi onde hoje fica St. Louis. Por volta de 1050, uma praça central, maior do que dez campos de futebol, foi construída à sombra de uma colina de quarenta metros de altura feita pelo homem. Milhares de pessoas viveram lá e ergueram mais de 120 colinas similares. Alguns arqueólogos acreditam que a cidade foi construída, em parte, do assombro religioso depois que uma luz resplandescente iluminou o céu noturno: uma supernova, a explosão de uma estrela morrendo, que foi vista pelos astrônomos chineses em 1054. Mas esta é apenas uma teoria. Tampouco sabemos por que os habitantes da cidade se mudaram, deixando-a deserta na época em que Colombo chegou à América do Norte. Não havia registros escritos.

The War Bonnet, Joseph Henry Sharp

Depois de outubro de 1492, os registros escritos chegaram à América do Norte. Os pássaros voando perto da ilha de São Salvador olharam para baixo e viram algo que nunca tinham visto antes. Sim, como sempre, havia fumaça subindo ao céu, e homens pescando em canoas de tronco. Mas, agora, três embarcações maiores apareceram no vasto oceano azul, com suas velas, gastas pela intempérie, bem estiradas nos mastros. Barcos estranhos com humanos ainda mais estranhos a bordo. As pessoas observando Colombo e seus marinheiros de baixo das árvores da ilha devem ter ficado perplexas. Que roupas estranhas eles usavam! Meias compridas e calças até os joelhos. Casacos acolchoados, quentes e pesados. Quem eram eles? O que sua chegada significava?

A história escrita estava chegando à América do Norte - história escrita, rabiscada em jornais, impressa em livros, armazenada em baús pesados ou enfiada em bolsos. Nada voltaria a ser como antes.

DAVIDSON, James West. Uma breve história dos Estados Unidos. Porto Alegre: L&PM, 2016. p. 13-5.

terça-feira, 21 de março de 2017

Onde há fumaça, há fogo 3

Três mil e duzentos quilômetros para o sul, onde hoje é Oregon, os mesmos gansos voam pelo vale do rio Wilamette. Abaixo, índios consertam uma armadilha para peixes - uma fileira de galhos fincados no fundo de uma corredeira de um rio. Os salmões subindo a correnteza só conseguem passar por umas poucas aberturas, e lá são capturados em cestas trançadas. O climea é mais ameno, e há muitas focas, lontras, moluscos, grandes botos e milhares de pequenos peixes tão gordurosos que podiam ser secos e usados como combustível em uma tocha.


An Indian Painting Pots, Henry F. Farny

Mais ao sul, pássaros atravessando o deserto de Sonora, onde atualmente fica o Arizona, podem ver linhas esculpidas na terra. Estas não são bifurcações de rios, pois as linhas correm retas demais. São feitas pelo homem. Nos séculos depois de 300 d.C., o povo hohocan cavou quase mil quilômetros de canais, alguns com mais de dezoito metros de largura, para trazer água para o feijão, a abóbora e o milho que cultivavam. Os pássaros em 1492 ainda podem ver os restos dos canais, mas os hohokan não estão em parte alguma. [...]

Aquatint by Karl Bodmer from the book "Maximilian, Prince of Wied’s Travels in the Interior of North America, during the years 1832–1834" by Prince Maximilian of Wied.

Em suma, os povos indígenas da América do Norte diferem muitíssimo uns dos outros, em parte porque o ambiente os forçou a inventar diferentes maneiras de sobreviver. No noroeste ameno e úmido à beira do Pacífico, quem pensaria em abrir canais para irrigar plantações? Por outro lado, nenhum índio do deserto inventaria canoas de tronco em uma terra onde não se conhecem árvores grandes.


Salmon Fishing on the Cascapediac River, Albert Bierstadt

O ambiente não é o único motivo pelo qual os índios de 1492 diferiam entre si. Mesmo em climas similares, humanos diferentes pensarão em soluções diferentes para os mesmos problemas. Em 1492, fazia milhares de anos que havia pessoas vivendo na América do Norte - tempo suficiente para desenvolver diferentes crenças, costumes e culturas. Nas terras áridas da Grande Bacia, onde a sobrevivência era difícil, cada pequeno bando era liderado por um caçador que houvesse demonstrado coragem e habilidade. As sociedades indígenas do sudeste tinham povoados muito maiores e sistemas políticos muito mais complexos. Os natchez, por exemplo, se dividiam em hierarquias diferentes, governados por um rei (conhecido como O Grande Sol) e seus parentes (Pequenos Sóis). Abaixo vinham os nobres, os honoráveis e, na base da pirâmide, uma classe mais numerosa chamada indesejáveis. Como o nome O Grande Sol sugere, o culto ao sol exercia um papel importante na vida religiosa dos índios do sudeste.

(Continua no próximo post)

DAVIDSON, James West. Uma breve história dos Estados Unidos. Porto Alegre: L&PM, 2016. p. 12-3.

domingo, 19 de março de 2017

Onde há fumaça, há fogo 2

Onde há fumaça, há fogo, diz o ditado. Bem acima do Mississíppi, a fumaça subia das fogueiras usadas na construção de canoas de tronco. O fogo queimava até que o interior do barco ficasse oco. No rio, dezenas de canoas brilhavam ao sol, com quarenta a sessenta homens em cada uma. Não era extamente uma pequena canoa de casca de bétula! Em um dia de cerimônia ou guerra, os barqueiros pintavam o rosto de marrom avermelhado, e muitas cabeças ostentavam cocares de penas brancas. Alguns índios se ajoelham ao remar; outros ficam atrás deles, seus escudos prontos para evitar um ataque. Uma cobertura na popa faz sombra para o comandante de cada canoa.


Indian Telegraph, John Mix Stanley

Nas Planícies, os índios fazem fogueiras para marcar búfalos e, na Grande Bacia, queimam pastos para eliminar lagartos do solo. Alguns povos queimam campos para encorajar o crescimento de mirtilos ou girassóis; outros tocam fogo para afastar hordas de mosquitos nocivos. Nas Rochosas. os índios usam fogo inclusive para celebrar. Abetos inteiros são queimados, seus galhos soltando fagulhas na noite como fogos de artifício. Humanos de uma ponta a outra do continente usam o fogo como ferramenta para moldar o território a seu gosto.

Equipment for curing fish used by the North Carolina Algonquins, John White

Em outros aspectos, os povos indígenas diferiam muitíssimo. De fato, podemos dizer que o lema da América do Norte em 1492 era o oposto de E pluribus unum. Não De muitos povos, um, mas De um continente, muitos povos. Dependendo de que pássaros você seguirt, verá enormes diferenças nas maneiras como os índios se adaptaram ao mundo à sua volta. Alguns viviam em bandos simples, caçando e coletando alimentos. Outras civilizações ostentavam campos cultivados, monumentos, templos, cidades, astrônomos, sacerdotes e governantes.


The Harvest Song, E. Irving Couse

Um bando de gansos partindo do Ártico ocidental avistaria grupos de inuítes caçando baleias em umiaks - embarcações abertas feitas de pele de morsa estirada sobre madeira flutuante. Os inuítes (também conhecidos como esquimós) possuem arpões fortes o suficiente para perfurar a pele grossa das baleias, uma fonte de alimento valiosa. (Gordura de baleia tmbém é um bom combustível em lamparinas a óleo). As mulheres inuítes desenvolveram a habilidade de costurar intestino de foca e pele de peixe para fazer roupas que se ajustam mais ao corpo e, portanto, aquecem melhor os que vivem nessas terras invernais.

(Continua no próximo post)

DAVIDSON, James West. Uma breve história dos Estados Unidos. Porto Alegre: L&PM, 2016. p. 11-2.

sexta-feira, 17 de março de 2017

Onde há fumaça, há fogo 1

Em um dia agradável de outono, o sol aquece as encostas dos montes Apalaches. À medida que o ar quente sobe, cria uma corrente ascendente que um gavião usa para sobrevoar a terra à procura de uma presa. A visão de um gavião é incrivelmente aguçada. Empoleirado sobre uma árvore de dezoito metros de altura, ele pode avistar no chão um inseto do tamanho desde i.


Pipestone Quarries, George Catlin

Imagine o que você veria se acompanhasse esses pássaros em sua jornada rumo ao sul. A maioria das pessoas pensa na América do Norte em 1492 como um território vasto e intocado, cheio de animais selvagens. Imaginam que, de vez em quando, é possível avistar índios atravessando um lago a remo em uma canoa feita de casca de bétula ou perseguindo búfalos a cavalo. Mas tal imagem seria extremamente equivocada. Para corrigir um detalhe imediatamente, elimine os cavalos. Em 1492, fazia 13 mil anos que não se viam cavalos na América do Norte. De fato, alguns arqueólogos acreditam que os primeiros humanos na América do Norte exterminaram os cavalos, bem como muitos mamíferos gigantes que vagavam por essas terras, incluindo mastodontes e mamutes lanudos, preguiças gigantes mais altas que uma girafa e leões de mais de dois metros de altura.

Ceremony of Secotan warriors in North Carolina, John White

Mais tarde, porém, os colonizadores europeus relataram grandes números de animais selvagens na América. Os rios da Virgínia estavam tão cheios de peixes que os cascos dos cavalos os pisoteavam quando os colonos ingleses trotavam em águas rasas. Os pescadores de Nova York capturavam lagostas de trinta centímetros de comprimento, que eles preferiam para "servir à mesa" porque eram mais convenientes de comer do que as lagostas de um metro e meio que eles também pescavam. Bisões não só perambulavam pelas Grandes Planícies como também eram vistos na Pensilvânia e na Virgínia, muito mais à leste. Havia tantos pombos-passageiros escurecendo os céus que quando pousavam para dormir os galhos das árvores quebravam sob seu peso. Em 1492, portanto, certamente veremos vida selvagem em abundância. Ainda assim, tais relatos de abundância podem ser enganosos. [...] essa grande quantidade de animais pode ter sido, em parte, criada pela chegada dos europeus na América do Norte, por mais estranho que isso possa parecer.


The Silent Fisherman, N. C. Wyeth

Em 1492, cerca de 8 milhões de índios viviam na América do Norte. Esse número não é grande, especialmente para um continente inteiro. Mais de 8 milhões de pessoas vivem hoje na cidade de Nova York. Ainda assim, o número é significativo. Para comparar, as ilhas Britânicas tinham de 2 a 3 milhões de habitantes em 1492. A França, o país mais populoso da Europa, tinha em torno de 15 milhões de pessoas. E na Ásia, mais de 100 milhões viviam somente na China. Então, pensando em 8 milhões de índios espalhados pela América do Norte, juntemo-nos aos gaviões em seu voo. O que vemos abaixo é um continente que é menos selvagem do que esperávamos. Não importa onde sobrevoamos, quase em toda parte vemos nuvens de fumaça.

(Continua no próximo post)

DAVIDSON, James West. Uma breve história dos Estados Unidos. Porto Alegre: L&PM, 2016. p. 10-1.

quarta-feira, 1 de março de 2017

O fogo

Taos Pueblo - Luar, Eanger Irving Couse

As noites eram de gelo e os deuses tinham levado o fogo embora. O frio cortava a carne e as palavras dos homens. Eles suplicavam, tiritando, com a voz quebrada; e os deuses se faziam de surdos.

Uma vez lhes devolveram o fogo. Os homens dançaram de alegria e alçaram cânticos de gratidão. Mas de repente os deuses enviaram chuva e granizo e apagaram as fogueiras.

Os deuses falaram e exigiram: para merecer o fogo, os homens deveriam abrir peitos com um punhal de pedra e entregar corações.

Os índios quichés ofereceram o sangue de seus prisioneiros e se salvaram do frio.

Os cakchiqueles não aceitaram o preço. Os cakchiqueles, primos dos quichés e também dos maias, deslizaram com pés de pluma através da fumaça e roubaram o fogo e o esconderam nas covas de suas montanhas.

GALEANO, Eduardo. Memória do fogo: Os nascimentos. Porto Alegre: L&PM, 2013. p. 21-2.

terça-feira, 8 de setembro de 2015

Teotihuacán. Os Zapotecas

Disco da morte. Arte teotihuacana, ca. 250-600. Artista desconhecido

Durante o período Clássico, por volta de 200 a.C., várias culturas floresceram na América Central. Os olmecas foram suplantados por vários grupos novos, entre eles os habitantes de Teotihuacán, os zapotecas da costa do golfo do México e, principalmente, a civilização maia, que se espalhou por todo o sul do México, o Yucatán e a Guatemala. Na América do Sul, culturas regionais como a Moche, a Nazca e a Paracas sucederam Chavín do Peru.

* Teotihuacán. A cidade mais importante do período Clássico no México foi Teotihuacán. Iniciada no séc. II d.C., essa enorme área urbana foi planejada com avenidas paralelas e perpendiculares cujo eixo principal (a "Avenida dos Mortos"), de 6 km, a atravessava de norte a sul. No centro desse eixo ficava um grande complexo palaciano, e no seu ponto mais ao norte erguia-se a pirâmide da Lua. Na extremidade sul ficava a pirâmide do Sol, construída com cerca de 1,2 milhão de metros cúbicos de tijolos secos ao sol e de pedras.

Por volta do séc. IV d.C., a população de Teotihuacán chegava a 200 mil pessoas e sua influência se espalhava por todo o México. Sua riqueza advinha do controle dos recursos do fértil vale do México e do domínio das rotas de comércio até as costas mexicana do golfo e do Pacífico. Artefatos dessa civilização foram encontrados em lugares distantes como a cidade maia de Kaminaljuyu, na Guatemala.

Em algum momento durante o séc. VII d.C., os palácios de Teotihuacán foram incendiados, e seus templos, desfigurados. A crise que levou a esse ato de vandalismo é desconhecido. A cidade abandonada foi, a partir de então, tratada por sucessivas culturas mexicanas, inclusive a asteca, com grande reverência.

Homem sentado. Arte zapoteca, ca. 100-700. Artista desconhecido

* Os Zapotecas. Em cerca de 500 a.C., uma nova e poderosa cultura regional, a dos zapotecas, surgiu no vale de Oaxaca, perto da costa do golfo do México, baseada em torno da cidade de Monte Albán. Construída em um platô no alto de uma colina, a cidade floresceu por mais de mil anos.

Um dos monumentos mais evocativos da cidade é o Templo de los Danzantes, que contêm centenas de entalhes de homens em posições distorcidas, com membros desarticulados e olhos fechados, provavelmente representando não os dançarinos ("Danzantes"), como antes se supunha, mas sim chefes de cidades rivais mortos pelos governantes de Monte Albán. Glifos entalhados nas pedras dos Danzantes revelam que os zapotecas usavam um sofisticado sistema de escrita em seu calendário.

Em seu período Clássico, iniciado em 200 d.C., Monte Albán teve cerca de 25 mil habitantes, com uma quantidade de povoamentos-satélites nas terras mais baixas que cercavam a cidade. Cerca de 170 túmulos subterrâneos de nobres desse período foram encontrados. Entre 150 a.C. e 150 d.C., a cidade se expandiu, com a construção de uma grande plaza principal, na qual uma série de inscrições representa cabeças decepadas em posição invertida que provavelmente se referem a períodos de expansão por conquistas. Porém, em 900 d.C., o centro urbano de Monte Albán estava praticamente deserto. Ninguém sabe por que a cidade foi abandonada, mas ela permaneceu vazia até ser parcialmente ocupada pelo povo da cultura Mixteca, nos sécs. XII e XIII d.C.

PARKER, Philip. Guia ilustrado Zahar. história mundial. Rio de Janeiro: Zahar, 2011. p. 154-5.

quarta-feira, 2 de setembro de 2015

A cultura Chavín do Peru. Os Olmecas

A partir de meados do II milênio a.C., sociedades avançadas começaram a se desenvolver nas Américas em dois lugares separados - Peru e Mesoamérica. As civilizações mais antigas dessas regiões foram as culturas Chavín e Olmeca, respectivamente. Ambas construíram grandes centros de cerimoniais e cultuaram o jaguar em seus sistemas de crenças religiosas, mas pouco ou nada deixaram em forma de registros escritos, e sua história política é quase impossível de ser reconstituída.

Cabeça. Arte Chavín. Artista desconhecido

* A cultura Chavín do Peru. Por volta de 1250 a.C., já havia aldeias baseadas no cultivo de milho e na produção de cerâmica por toda a costa do peru e nas montanhas. Mas foi somente por volta de 900 a.C. que a primeira cultura identificável se espalhou por quase toda a região. Centrada no grande templo de Chavín de Huantar, na cordilheira dos rios Wacheqsa e Mosna, a cultura Chavín chegou a todas as partes do Peru, exceto o extremo sul. Como não há evidência de fortes, exércitos ou qualquer outra parafernália de império, a difusão da cultura provavelmente não foi feita pelo uso da força.

O sítio de Chavín de Huantar revela a grande experiência do povo Chavín na engenharia e na arquitetura. O Velho Templo foi construído em cerca de 900 a.C. em uma enorme pirâmide encimada por um terraço. Da plataforma central projetava-se uma série de monstros assustadores cheios de dentes, e no centro do templo ficava o Lanzôn, uma enorme estela de granito de 4,5 m de altura que pode ter sido uma imagem de devoção. O sítio também contêm um grande pátio, talvez um local de reuniões para cultos religiosos. Em algum momento após 500 a.C., um Novo Templo, com o dobro do tamanho do anterior, foi construído. Porém, o poder dessa cultura já estava se enfraquecendo, e começou a haver dissidências religiosas. Por volta de 200 a.C., o período da cultura Chavín terminou.



Jovem com bebê jaguar no colo. Arte olmeca. Artista desconhecido

* Os Olmecas. A cultura Olmeca estabeleceu-se nas terras baixas do sul do México pouco depois de 1800 a.C. Por volta de 800 a.C., sua influência já se espalhara por uma extensa área da Mesoamérica, cuja economia agrícola simples se baseava no cultivo do milho.

O primeiro centro olmeca importante foi San Lorenzo, ao sul do México, que chegou ao auge entre 1200 e 900 a.C. A cidade parece ter tido um avançado sistema de drenagem, e seus prédios, construídos sobre elevações de terra ao redor de amplas praças, consistiam de um templo e de casas feitas de troncos e palha. Havia também muitos monumentos, como gigantescas cabeças entalhadas, estruturas semelhantes a altares, enormes esculturas de pessoas sentadas e representações de uma variedade de animais, principalmente o jaguar.


Crianças. Arte Olmeca. Artista desconhecido

Próximo ao sítio de San Lorenzo, em Cascajal, arqueólogos encontraram uma pedra de cerca de 900 a.C. Nela há símbolos que podem ser de escrita olmeca, possivelmente o primeiro sistema de escrita da Mesoamérica.

Há vestígios de destruição generalizada de monumentos por volta de 900 a.C., quando o sítio de San Lorenzo parece ter chegado ao fim. Outro importante centro olmeca foi a cidade de La Venta, perto dos limites entre os Estados de Tabasco e Veracruz, que teve uma população muito maior do que a de San Lorenzo.

Entre 900 e 400 a.C., La Venta passou a ser o principal centro da cultura Olmeca, em substituição a San Lorenzo. Como em San Lorenzo, lá também foram encontradas cabeças colossais em pedra, figuras de jaguar, bem como templos e monumentos para cerimoniais, inclusive uma gigantesca pirâmide. Os principais prédios do sítio eram alinhados com precisão, talvez ligados a alguma orientação astronômica. Por volta de 400 a.C., a cultura Olmeca entrou em declínio, embora sua influência tenha se mantido em culturas regionais, principalmente a dos zapotecas de Monte Albán.

PARKER, Philip. Guia ilustrado Zahar: história mundial. Rio de Janeiro: Zahar, 2011. p. 106-7.

sexta-feira, 8 de março de 2013

La literatura entre los mayas y los pueblos del Valle de México

Este es un fragmento del Códice Dresden, llamado asi porque se conserva en la Biblioteca Real de Sajonia, en la ciudad de Dresden, Alemania. 

Con la misma profundidad y magnificencia con que se esculpió la piedra, se erigió el monumento y se forjo el metal, los pueblos mesoamericanos trabajaron su lenguaje para producir notables piezas literárias. Gran parte de esa rica producción desapareció con la conquista. Sin embargo, algo pudo rescatarse gracias a la perseverante tradición oral y a la paciência de algunos frailes misioneros venidos de España, que tradujeron cantos y poemas al alfabeto fonético.

El principal documento literário de la cultura maya-quiché es el Popol Vuh, libro de carácter sagrado escrito por um indígena anónimo en alfabeto fonético poco tiempo después de la conquista. En este libro se cuenta la historia, las leyendas y los mitos de esse antiguo pueblo. Leamos un fragmento del Popul Vuh, el cual un intento fallido de los dioses por crear a los hombres y cuyo producto fueron los monos:

“Y al instante fueron hechos los muñecos labrados en madera. Se parecian al hombre, hablaban como el hombre y poblaron la superfície de la tierra.

Existeron y se multiplicaron; tuvieron hijas, tuvieron hijos, los muñecos de palo; pero no tenian alma, ni entendimiento, no se acordaban de sua Creador, de su Formador; caminaban sin rumbo y andaban a gatas...

En seguida fueron aniquilados, destruídos y deshechos los muñecos de palo, recibieron la muerte.

Una inundación fue producida por el Corazón del Cielo; un gran diluvio se formó, que cayó sobre las cabezas de los muñecos de palo.

Y dicen que la descendencia de aquéllos son los monos que existen ahora en los bosques; éstos son la muestra de aquéllos, porque solo de palo fue hecha su carne por el Creador y el Formador.” (Gabriel Zaid: Ómnibus de poesia mexicana, 12. Quiche.)

Otra importante muestra de la literatura maya son los 18 libros del Chilám Balám, en los que se recopilan cantos, poemas, profecias, historias y conocimientos de medicina, transmitidos durante siglos de uma generación a otra. También fueron escritos después de la conquista en lengua cakchiquel por un autor anónimo. Uno de los más divulgados es el Chilám Balán de Chumayel. Leamos un fragmento en el que se lamenta la llegada de los conquistadores:

“Los Buenos señores de las estrellas,
Todos ellos brancos.
Ellos teniam la sabiduria, lo santo,
no habia maldad en ellos.
Habia salud, devoción,
no habia enfermedad,
dolor de huesos, fiebre o viruela,
ni dolor de pecho ni de vientre.
Andaban con el pecho erguido.
Pero vinieron los conquistadores
y todo lo deshicieron.
Enseñaron el temor, marchitaron las flores,
chuparon hasta matar la flor de los otros
porque viviese la suya.
Mataron la flor de Nacxitl.
Ya no habia sacerdotes que nos enseñaran.
Y asi se assento el segundo tiempo, comenzó a señorear,
y fue la causa de nuestra muerte.
Sin sacerdotes, sin sabeduria, sin valor
y sin vergüenza, todos iguales.
¡Los conquistadores solo habian venido a castrar al Sol!
Y los hijos de sua hijos quedaron entre nosotros,
que sólo recibimos su amargura.”
(Gabriel Zaid: Ómnibus de poesia mexicana. 6. Maya peninsular.)

En el Valle de México la literatura en lengua náhuatl sobreviviente a la conquista es más abundante. En gran parte anónima, fue conservada por la tradición oral, por el trabajo de cronistas indígenas y por la recopilación realizada por frailles misioneros. Gracias a esto sabemos que la literatura náhuatl fue muy rica y que abarco casi todos los aspectos de la vida. Los antiguos mexicanos estaban orgullosos de su lengua, amaban sus libros, les agradaba la poesia sobremanera y la acompañaban con música.

Los cantos de Netzahualcóyotl (1402-1427), sábio gobernante de Texcoco, son un ejemplo de su gran inspiración; en el siguiente poema, Netzahualcóyotl expresa una visión nostálgica de la vida como producto de la conciencia de la muerte. Nada es eterno, la vida es breve parpadeo cuyo fin es inevitable:

YO LO PREGUNTO

“Yo, Netzahualcóyotl lo pergunto:
¿acaso de veras se vive con raiz en la tierra?
No para siempre en la tierra:
sólo un poço aqui.
Aunque sea de jade se quiebra,
aunde sea de oro se rompe,
aunde sea plumaje de quetzal se desgarra.
No para siempre en la tierra;
sólo un poço aqui.”
(Miguel León-Portilla: Xochicuicatl, Cantos floridos y de amistad.)

Sin embargo, junto con la visión nostálgica de la vida, floreció en la poesia náhuatl el canto a la amistad, a las cosas bellas del mundo y al arte miesmo como la huella que deja el hombre a su paso por la tierra. Muestra de ello es el siguiente poema, de autor anónimo:

CANTO A LA HERMANDAD

“He llegado oh amigos nuestros,
con collares os ciño,
con plumaje de guacamaya os adorno,
cual ave preciosa aderezo con plumas,
con oro yo pinto,
rodeo a la hermandad.
Con plumas de quetzal que se estremecen,
con círculos de cantos,
a la comunidad yo me entrego.
La llevaré commigo al palacio
hasta que todos nosotros,
algún dia,
todos juntos nos hayamos marchado,
a la región de los muertos.
¡Nuestra vida ha sido sólo prestada!”
(Miguel León-Portilla: Xochicuicatl, Cantos floridos y de amistad.)

GÓMEZ, Ortiz. Historia 3: A través de los Tiempos de México. México: Prentice Hall, 1998. p. 29-31.