"Os espelhos estão cheios de gente.
Os invisíveis nos vêem.
Os esquecidos se lembram de nós.
Quando nos vemos, os vemos.
Quando nos vamos, se vão?"
Eduardo Galeano: Espelhos
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segunda-feira, 1 de maio de 2017

Caçadores-coletadores: evidências mais remotas

Caçar e colher alimentos eram as únicas formas de sobrevivência dos humanos até cerca de 12 mil anos atrás. Era um estilo de vida bem-sucedido que, por sua flexibilidade, tinha grandes vantagens sobre o das sociedades agrícolas que o substituíram. Atualmente, apenas poucas sociedades de caçadores-coletadores sobrevivem na bacia Amazônica e na África, o que fornece uma evidência muito importante do estilo de vida de seus antepassados pré-históricos.

Caçadores-coletadores precisam vencer longas distâncias para obter alimentos, por isso carregam poucos objetos. Em consequência disso, caçadores-coletadores pré-históricos deixaram poucos sinais de seus pertences. Raros achados de bastões para cavar, como os de Gwisho, na África central, e machados de madeira revelam que aquele povo cavava para colher tubérculos e cortava capim nativo. Ossos partidos, espinhas de peixe e pólen revelam detalhes da dieta desses indivíduos, bem como os profundos depósitos de detritos cheios de cascas de moluscos. Sítios como o Starr Carr, no noroeste da Inglaterra, de cerca de 9000 a.C., revelam que caçadores-coletadores podiam voltar várias vezes aos mesmos lugares, estabelecendo permanências sazonais perto dos locais onde a caça era abundante. Pequenas figurinhas e entalhes representando ursos e mamutes descobertos em Dolní Věstonice, na República Tcheca, e notáveis esculturas de peixes de Lepenski Vir, na Sérvia, mostram o nível de sofisticação cultural que as sociedades primitivas chegaram a alcançar.

Imagem: Vênus de Dolní Věstonice

Com o tempo, porém, a caça e a coleta foram substituídas pela agricultura. Provavelmente, quando agricultores passaram a se fixar em seus territórios, alguns caçadores-coletadores adotaram esse novo estilo de vida, enquanto outros foram forçados para as margens dos territórios. Em ambientes marginais, a dependência da agricultura sempre constitui um risco de fome se a colheita fracassar. Ainda hoje há grupos isolados, como os San do deserto do Kalahari, na África, que mantêm as antigas tradições da caça e da coleta.

PARKER, Philip. Guia ilustrado Zahar: história mundial. Rio de Janeiro: Zahar, 2011. p. 68.

sexta-feira, 8 de abril de 2016

Os inconfidentes

Estudo para prisão de Tiradentes, Antônio Parreiras

O filme [produção brasileira de 1972, direção de Joaquim Pedro de Andrade] representa os acontecimentos da Inconfidência Mineira. O movimento é visto aqui através do comportamento e da narrativa dos idealizadores do movimento. Os diálogos do filme foram baseados no Romanceiro da Inconfidência, de Cecília Meireles, e dos Autos da Devassa, documento oficial do inquérito sobre a Inconfidência.

Na trama, é evidenciada a força da Coroa portuguesa, a hipocrisia e a covardia dos inconfidentes. Apenas a figura de Tiradentes é preservada. De todos os patriotas engajados no movimento, Joaquim José da Silva Xavier é o que está mais disposto a levar às últimas consequências a revolução e conseguir a tão sonhada independência. Retratado como um jovem revolucionário muito ativo, Tiradentes encarna o ideal de liberdade, o ativismo político e o amor a uma causa em que se acredita. Nesse sentido, Tiradentes parece ser a síntese do movimento do qual participou. Seus companheiros, no entanto, são a síntese dos intelectuais que formulam críticas, mas não atuam. Quando traídos e presos, além de denunciarem seus próprios companheiros, negam envolvimento no levante e juram lealdade a Portugal para salvar suas vidas.

Jornada dos Mártires, Antônio Parreiras

O filme mostra, assim, a ideologia da Ilustração presente no Brasil do século XVIII. De forma pragmática e utilitarista, o tema da liberdade é central, mas, como expresso nas falas dos inconfidentes, o conceito que os inconfidentes utilizavam é restrito. Trata-se da liberdade econômica, nos moldes liberais, e não da liberdade em geral. Vale notar a opinião deles acerca da escravidão: os inconfidentes eram favoráveis à manutenção da instituição, pois não admitiam a ideia de ter de realizar o trabalho dos escravos.

Toda obra, toda produção humana é filha de seu tempo. Assim, podemos identificar no filme vários elementos da realidade social e política brasileira de 1972 (quando o filme foi feito), momento muito significativo na história do país. Desde a escolha do tema e da documentação em que se baseou, até a ênfase dada a cada personagem e seu papel na trama, todo o filme foi fortemente influenciado pelo contexto. No período da produção, o Brasil vivia sob uma ditadura militar, e muitos setores da sociedade já haviam formado grupos de resistência contra essa forma autoritária de governo.


Resposta de Tiradentes, Leopoldino de Faria

O cenário da trama é Ouro Preto, mas o filme faz claras referências ao que ocorria em cidades como São Paulo e Rio de Janeiro no período militar, em particular no governo do general Médici, e à posição de alguns setores da esquerda, que lutavam desvinculados das expectativas do conjunto da população. A utilização de documentos históricos foi a forma encontrada para burlar a censura do governo militar brasileiro. A obra cinematográfica é uma alegoria por meio da qual estão representados os dois momentos históricos.

Dessa forma, Tiradentes, caracterizado como jovem revolucionário, pode simbolizar os jovens que enfrentaram a ditadura militar. Como Tiradentes, pronto para chegar às últimas consequências na luta contra a opressão metropolitana, alguns jovens no período de produção do filme estavam engajados na luta contra o regime vigente. O filme elogia a coragem desses Tiradentes contemporâneos.

Podemos ver representados neste filme também outros segmentos que constituíam a oposição ditadura no Brasil. Um segmento mais elitizado era constituído por setores da Igreja católica, por militares que não estavam no poder, por políticos alinhados com a ditadura, mas que queriam cargos mais importantes, e por intelectuais de diversas áreas.

PEDRO, Antonio; LIMA, Lizânias de Souza; CARVALHO, Yone de. História do mundo ocidental. São Paulo: FTD, 2005. p. 268-9.

sábado, 23 de janeiro de 2016

Lições do Mundo Antigo

Colheita, Pedro Weingärtner

Para alcançar o estágio de desenvolvimento que atingiu no século V da era cristã, a humanidade passou por períodos sucessivos de evolução marcados por eventos significativos. Na sequência cronológica, o primeiro evento foi o surgimento do bípede, há cinco milhões de anos. Há dois milhões de anos, a caixa craniana do Homo erectus alcançou o mesmo volume que a do homem moderno. A primeira ferramenta, uma pedra amarrada em um pau, foi uma conquista que pode ter ocorrido entre um milhão de anos e 500 mil anos. Esse evento marcou uma mudança radical naquele animal, pois foi seu primeiro ato de consciência. Ele associou ideias para criar um instrumento eficaz com objetivo preciso. A partir daí sua relação com a natureza mudou radicalmente. Não se sabe quando ele passou a usar o fogo ou começou a produzir a chama, com o choque de duas pedras ou a fricção de madeira. Há cerca de duzentos mil anos as ferramentas de corte já eram aperfeiçoadas com a manufatura de facas e de pontas triangulares para lanças e estiletes mantendo certo padrão.

O Homo sapiens aparece em Java pela primeira vez há cerca de 120 mil anos. As primeiras pinturas rupestres e entalhes em rocha representando animais aparecem há cerca de 30 mil anos. De 20 mil anos para cá há um aperfeiçoamento marcante na produção de artefatos, utensílios e armas de vários materiais, chifre de rena, osso, madeira e pedra, e o uso de madeira dura ou osso como broca, a primeira ferramenta para fabricação de instrumentos de pedra polida. A agricultura e a pecuária começaram há cerca de dez mil anos. Há nove mil anos o homem já trabalha o cobre, há cinco mil anos produz a roda e forja o bronze, constrói cidades e domina a escrita, e há quatro mil usa o arado na agricultura e fabrica instrumentos em ferro.

Observa-se que há uma aceleração crescente de um evento significativo para o seguinte. Foram três milhões de anos para a caixa craniana dos ancestrais do homem crescer, a partir do momento em que eles começaram a andar sobre dois pés. Mais um milhão de anos para construir o primeiro instrumento, Oitocentos mil anos para diversificar sua fabricação e estabelecer padrão de qualidade. Mais quase duzentos mil anos para gravar figuras nas rochas e polir a pedra. Há dez mil anos ele tornou-se agricultor e criador, constituindo grandes tribos nômades e aldeias diversificadas. Em seguida tornou-se minerador e metalúrgico. Há sete mil anos criou as primeiras aldeias fortificadas com muros de pedras e com casas construídas em tijolo cru. Há cinco mil anos construiu cidades e inventou a escrita, dando início às civilizações. Essas se fizeram impérios, alguns deles efêmeros, produzindo uma dança de poder e o caldeamento das populações e das culturas. Na primeira metade do primeiro milênio a.C. os gregos utilizaram a escrita para contar histórias, fazer poesia e textos de teatro, difundindo a cultura e dando forma definitiva a lendas e mitos. Isso possibilitou a crítica dos textos, o que deu origem à filosofia. No mesmo milênio, em vários locais do mundo, surgiram místicos e filósofos que são objeto de estudo e reverência de bilhões de pessoas na atualidade. Vejamos algumas lições que essa evolução nos deixou.

Os grupos familiares formaram-se naturalmente e se uniram para se defenderem das agressões externas, de animais ou de outros grupos. A ampliação dessa união deu origem às tribos. Estas cresceram, formaram-se castas, e a chefia tornou-se tirânica. Tolheu-se a liberdade dos excluídos das castas. O sedentarismo das cidades ampliou e consolidou as diferenças sociais. Surgiram a escravidão e o poderio militar. As necessidades e a complexidade das relações sociais, cada vez maiores, fizeram crescer ainda mais as diferenças sociais. Os ricos já não se contentam em satisfazer suas necessidades. Eles querem luxo, regalias e mais riquezas do que a cidade lhes pode dar. Isso gerou conflitos e insegurança. As castas já não podiam prescindir do trabalho escravo, então escravizam os inimigos presos. O passo seguinte foi a conquista de outros povos. Inicia-se o período dos impérios, nas suas diversas manifestações. Os teocráticos, como Acádia, Egito, Babilônia, nos grandes vales de agricultura irrigada. Os mercantis escravistas, como Assíria, Grécia, Cartago, Roma. E as chefias pastoris nômades, como hicsos, hititas, cassitas, ários, citas, hunos.

As cidades-Estado helênicas foram um avanço extraordinário na organização social, com a criação da república. Mas com seu desenvolvimento, dirigentes e grandes proprietários formam oligarquias, para exercer o poder e satisfazer suas ambições. Negligenciam os princípios republicanos que sustentaram o progresso da comunidade. Optam pela pilhagem na busca da riqueza. Invadem o território da cidade vizinha para ampliar o seu, gerando a guerra e a insegurança. [...]

[...]

Esse fenômeno da expansão da cidade sobre os domínios de outros, que já preocupava os filósofos gregos, aconteceu também com os reinos que englobavam mais de uma cidade, o que os fez tornarem-se impérios. A propriedade e a concentração de riqueza foram instrumentos de progresso material, mas foram também causas das guerras que abalaram o mundo antigo e nos atingem até hoje. As grandes extensões dos reinos e de impérios resultaram na sua instabilidade e, em muitos casos, na sua destruição. Assim, os reinos, impérios e as civilizações foram se sucedendo no processo histórico, cumprindo seu ciclo de nascimento, florescimento, decadência e morte.

Algumas civilizações não foram vencidas por outras em competição ou guerra. Apenas se tornaram inviáveis, esgotaram-se por seu crescimento ou por seus vícios. Elas deixaram espaço para a formação de reinos menores que se ajustaram às novas circunstâncias. Observando cada período de evolução da humanidade, verificamos que os de maior prosperidade e crescimento ocorreram quando os impérios, por uma ou outra razão, estiveram contidos, como aconteceu depois da grande revolta dos povos dos mares por volta de 1200 a.C. Ausentes os impérios, o Mediterrâneo foi liberado para o comércio sob a hegemonia da Fenícia, um Estado pequeno com pequeno poder militar. Nesse período as cidades-Estado se organizaram, floresceram e se difundiram. O mundo passou por um grande progresso material e cultural.

Não podemos julgar a história, mas devemos analisá-la friamente para que possamos aprender com seus feitos e desfeitos. O processo histórico é uma sucessão de períodos de presença imperial forte, quando prevaleceu a tirania, e de relativa ausência desses impérios, quando floresceu a república e uma democracia incipiente, condicionadas pelas oligarquias nas cidades-Estado, mas com muito mais liberdade que sob o domínio imperial ou na presença dele. Esse processo cíclico de dominação e liberdade facilitou a integração das populações e o caldeamento cultural, ora em benefício dos impérios, ora dos povos.

Nos períodos imperiais desenvolveram-se as tecnologias militares e as forças produtivas, pois era necessário produzir armas e alimentos para as guerras e a sustentação do império. Nos períodos de autonomia das cidades-Estado, desenvolveram-se a cultura, nas suas diversas manifestações, a cidadania, a literatura e a poesia, as artes cênicas, a escultura e a pintura, o artesanato, a filosofia, a religião, a música e os conhecimentos em geral. As relações humanas e as ciências progrediram e o homem tornou-se melhor, mais sociável e mais amoroso.

Na Mesopotâmia, encontramos um período de autonomia das cidades-Estado e dos pequenos reinos, do ano 3000 a.C., no início das civilizações, até o Império Acádio, por volta de 2400 a.C. Depois da queda desse império, em 2150 a.C., houve autonomia e progresso em vários pequenos períodos, nas alternâncias entre os instáveis primeiros impérios, até que o império babilônico de Hamurábi se impõe em 1790 a.C. Muito mais tarde ocorreria no Oriente Médio um período muito importante para a evolução de todos os povos, de 1200 a.C. até cerca de 800 a.C., resultante do retraimento dos impérios que disputavam a região, em face da revolta dos povos dos mares. Já na Ásia Menor e no mar Egeu esse período de autonomia permaneceu até a invasão de Ciro II à costa jônica e às ilhas gregas próximas a ela, em 550 a.C.

As invasões persas ao mundo helênico não foram apenas uma questão geopolítica. Elas traumatizaram as populações invadidas, assim como as ameaçadas. O resultado foi um ódio de tal proporção, que esses povos apoiaram Alexandre nas suas ações de conquistas que destruíram seu inimigo. Esse fato deveria estar presente no pensamento dos líderes mundiais que não encontram limites morais nas suas ações dominadoras, que incluem o genocídio, a destruição de valores morais e de bens materiais.

O processo histórico há pouco referido, que alterna submissão e autonomia, ainda vigora até nossos dias. Hoje, entretanto, enfrentamos uma situação muito mais complexa e perigosa, pelo enorme poder de destruição acumulado e pelo esgotamento da capacidade da natureza em recuperar-se da ação predatória do homem. [...]

Quando Atenas foi invadida e destruída pelos persas, em 480 a.C., já havia sido constituída uma aliança, um ano antes, que criou o mais poderoso exército da Antiguidade. A Liga do Peloponeso, sob a liderança de Esparta, teve papel preponderante nesse acontecimento. Mas, disputas internas, e a visão imperial de Atenas, impediram que ela se consolidasse. Esparta continuou com seus aliados e Atenas formou a Liga de Delos, criando um foco de tensão que só cresceu, e teve seu ápice na Guerra do Peloponeso em 431 a.C. Esta durou 27 anos, destruiu a unidade helênica e permitiu a Filipe da Macedônia assumir o poder na Grécia.

Se houvesse um esforço no sentido da unidade, que suplantasse as disputas entre as aristocracias de Atenas e de Esparta, o mundo helênico poderia oferecer à humanidade um formidável exemplo de cooperação entre Estados independentes formando uma confederação forte, cultural, econômica e militarmente. Poderia tornar-se uma potência formidável, não imperial, a condição mais conveniente para ela estabelecer boas relações com os outros povos da região. Entretanto, o projeto imperial de Atenas era ambicioso demais, enquanto seus governantes eram frágeis discípulos dos sofistas, sem ética e sem compromissos maiores com a população grega. Quando usou o tesouro da Liga de Delos, destinados à defesa comum, Atenas manifestou sua prepotência, enquanto construía seu projeto imperial. Os recursos foram usados para fortificar e reconstruir a cidade e o Parthenon, gerando emprego e prosperidade apenas para ela.

Esse exemplo é notável para a compreensão de como as classes dominantes colocam seus interesses acima dos do país e de seu povo. A desunião dos gregos e a fugaz existência do Império Greco-Macedônio abriram o caminho para Roma tornar-se o grande império que foi. Há muitas outras lições a aprender com a história do mundo antigo, na qual encontramos situações semelhantes àquelas vividas mais tarde pela humanidade, inclusive nos nossos dias. Compreender os fenômenos atuais por seu estudo direto é difícil, porque eles envolvem nosso interesse pessoal e nossas emoções. Nós somos parte deles, como autores, vítimas ou cúmplices. Mesmo descontentes, a mudança pode nos ser incômoda e a luta por ela perigosa. Teremos que enfrentar a opinião pública, formada pelos meios de comunicação para defender o status quo. Precisamos do nosso emprego que, mesmo precário, garante nossa subsistência e de nossa família. Nossos conhecimentos limitados bloqueiam nossa visão de conjunto da sociedade, necessária à compreensão do todo. A rotina e a inércia estão a favor do status quo, mesmo se injusto e doloroso.

A única dificuldade na análise dos fatos históricos são os dogmas de fé, Eles bloqueiam nossa mente. Estamos vivendo um momento em que todos falam em mudança, desfazendo-se de muitos dos dogmas do passado. Mas esses são substituídos por novos dogmas, como aqueles contidos no que os intelectuais apelidaram o pensamento único. Sem dogmas e mitos, e sem cumplicidade, podemos nos centrar nas questões essenciais para termos uma visão mais realista delas. Inclusive compreender que mesmo sem nos empenharmos na solução dos problemas a crise se encarregará de fazê-lo. Mas o preço da omissão poderá ser muito caro para todos.


Uma das consequências da nossa assimilação das lições da história é compreendermos a origem comum dos povos e nos certificar de que nenhum deles é mais importante, ou melhor, que qualquer outro. Todos tiveram seus momentos de dificuldades e souberam superá-las. Conheceram a glória, como senhores de impérios, e a humildade dos derrotados e dos escravizados. Não porque fossem mais fortes ou mais fracos, mais ou menos capazes, mas por circunstâncias favoráveis ou desfavoráveis. Foram poderosos por ocuparem terras férteis e dominarem tecnologias mais desenvolvidas e adequadas. Por serem, naquele momento, mais numerosos e disporem de tecnologia inovadora ou superioridade militar. Foram fracos quando vítimas de mudanças climáticas catastróficas, ou de lideranças corrompidas ou irresponsáveis, ou quando eram pouco numerosos e detinham pequeno efetivo militar.

A alternância de dominação que ocorreu em todo mundo ocidental conhecido na época, Oriente Médio, Ásia Menor, Egito e Mediterrâneo, demonstra que todos os povos são aptos para o exercício de qualquer atividade econômica, artística ou guerreira. A alternância no poder de comunidades nos países e destes como impérios, provam que o poder provém da produção material, terra, matéria-prima, tecnologia e massa crítica de população, e não das qualidades humanas que são, na média, iguais para todos os povos. O que realmente importa para a realização dos povos são seu nível de conhecimento e suas relações sociais equilibradas e harmoniosas. O reconhecimento do direito dos cidadãos é o principal quesito para a valorização de uma civilização.

A força e a bravura dos guerreiros são virtudes que podem ser determinantes na decisão de um conflito, mas os registros mais importantes da história não são os feitos bélicos, mesmo quando gravados em pedra pelos vencedores. São as obras de arte, a filosofia, a literatura, a poesia, as construções, sejam elas magníficas ou simplesmente úteis, e as ações e atitudes humanitárias, como o amor latente na pregação dos grandes líderes religiosos.

As diferenças genéticas ou culturais devem ser vistas como vantagem universal. A primeira favorece a sobrevivência de parte da humanidade em situações climáticas rigorosas. A segunda aumenta a probabilidade de um grupo possuir as qualidades adquiridas de adaptação às diferenças do meio, através dos seus hábitos, métodos de trabalho, estilo de vida, conhecimentos e crenças. E também de terem uma cultura mais adequada à adaptação a novas condições sociais e institucionais, em momentos de crise civilizacional. Assim, a humanidade pode seguir sua senda de experiências, dificuldades, sofrimentos, êxitos e realizações. A questão racial por conta da cor da pele é ridícula sob todos os aspectos, e já foi desmascarada pela ciência, sobretudo depois da descoberta do DNA. A migração para o norte no período glacial, por exemplo, favoreceu os albinos proliferarem e se mesclarem com os outros reduzindo a melanina do grupo. Como não existe uma raça albina, seus descendentes não podem alegar serem de raça distinta apenas pela menor quantidade de melanina na pele.

O conhecimento da história do mundo antigo é suficiente para ensinar à humanidade como proceder para uma vida melhor e uma maior realização humana. Ela nos mostra que o respeito ao próximo evita conflito e cria a cooperação, e a sinergia colabora para um maior desenvolvimento de todos. Já o conhecimento científico nos dá condições de saber mais sobre a natureza e o cosmos, e nos ajuda a comportarmos em consonância com as leis naturais que não podemos mudar. Mas a história sempre foi mal conhecida ou deturpada, no interesse daqueles que ocupam o poder. Estes criaram as castas e as tiranias, e construíram barreiras contra a difusão do conhecimento, que eles monopolizaram. O domínio da informação por uns poucos, obrigou aos que não se submeteram a criar o ocultismo e as seitas. A dominação também aprofundou a desigualdade, imobilizou um grande potencial de desenvolvimento humano, perpetuou a ignorância, o maior dos males.

As castas produziram as ideologias, corpos de ideias que buscam justificar seus interesses e as ações para defendê-los. Elas geraram a discriminação e toda sorte de desumanidade, a violência, a injustiça. Estigmatizaram adversários e concorrentes para que fossem desprezados. Incentivaram os conflitos para evitar a unidade das populações. Estabeleceram instituições manipuláveis e apropriadas à defesa de seus privilégios. Assim, o poder, seja qual for sua forma ou expressão, representa sempre esse corpo de ideias, a ideologia da classe dominante, que coloca os povos em camisa de força.

Esses ensinamentos estão todos lá no mundo antigo. Quando Jesus de Nazaré disse, conhecereis a verdade e a verdade vos libertará, ele talvez quisesse nos dizer que o maior inimigo do homem é a ignorância. O mesmo disse Buda. É da ignorância e da avidez que surge o mundo do erro, e suas causas e condições existem apenas dentro da mente, em nenhum lugar mais. Mas essas mensagens foram deturpadas e a verdade negligenciada. [...]

[...]

Há uma questão renitente na atualidade, que parece não ter solução, o propalado "ódio" entre árabes e judeus, Uma forma viciada de apresentar um conflito como se houvesse uma razão histórica consistente para isso. Não há nada que possa justificar esse conflito. Os dois são povos semitas, da mesma raiz linguística e que viveram lado a lado durante séculos. Muito menos no que concerne às relações entre judeus e libaneses. Estes são descendentes dos fenícios que conviveram com os hebreus e deram apoio ao seu Estado por séculos. Somente a partir da presença inglesa na região, depois da descoberta do petróleo, esse conflito foi alimentado e manipulado. Nem na história antiga, nem na religião, podemos encontrar explicações para esse impasse. O fundamento alegado é a diáspora dos judeus, no tempo de Roma, mas, hoje, sua causa é o interesse das potências modernas no petróleo.

MOURTHÉ, Arnaldo. História e colapso da civilização: é melhor o incômodo da advertência que a tragédia da ignorância. Rio de Janeiro: Editora Mourthé, 2012. p. 219-227.

quinta-feira, 22 de outubro de 2015

O legado do Egito faraônico

Lago sagrado de Karnak, Carl Wuttke

As valiosas contribuições que o Egito faraônico legou à humanidade podem ser verificadas em diversos campos, como a história, a economia, a ciência, a arte e a filosofia. [...]

De fato, essa herança - ou pelo menos os seus testemunhos, tão importantes para a história da humanidade - transmitiu-se, em grande parte, através da Antiguidade Clássica [...] antes de chegar aos árabes.

Um dos mais antigos e notáveis avanços da civilização egípcia verificou-se no campo da economia. Ao final do Neolítico [...] os antigos egípcios transformaram gradualmente o Vale do Nilo, permitindo que seus habitantes passassem de uma economia de coleta a uma economia de produção de alimentos; [...] O desenvolvimento da agricultura possibilitou aos antigos egípcios adotarem uma forma de vida aldeã, estável e integrada, o que, por sua vez, afetou seu desenvolvimento social e moral, não apenas no período pré-histórico, mas também durante o período dinástico.

Decorre daí um outro desenvolvimento fundamental: a introdução de um novo sistema social no interior da comunidade, ou seja, a especialização do trabalho. Trabalhadores especializados surgem na agricultura, na irrigação, nas indústrias agrícolas, na cerâmica e em diversas outras atividades afins. [...]

A civilização faraônica distinguiu-se pela continuidade do seu desenvolvimento. Toda aquisição é transmitida - e aperfeiçoada - do começo ao fim da história do antigo Egito. Assim, as técnicas do Neolítico foram enriquecidas no período pré-dinástico (-3500 a -3000), mantendo-se ainda em pleno período histórico. É o que testemunha, por si só, a arte de trabalhar a pedra.

Já por volta de -3500, os egípcios, herdeiros do Neolítico do vale, utilizaram-se dos depósitos de sílex ali localizados para esculpir instrumentos de qualidade incomparável, dos quais a faca de Djebel el-Arak é um exemplo entre centenas de outros. A mesma perícia está presente na confecção de vasos de pedra. As técnicas de talhar a pedra foram transmitidas posteriormente ao mundo mediterrânico. Tudo leva a crer que as técnicas de confecção dos vasos de pedra cretenses tenham sido aprendidas se não no próprio Egito, pelo menos num meio inteiramente impregnado da cultura egípcia, como o corredor sírio-palestino. [...]

A habilidade dos canteiros que trabalhavam com pedra dura transmitiu-se aos escultores, o que se pode constatar pelas grandes esculturas egípcias nesse material. A técnica passou, então, para os escultores do período ptolomaico e posteriormente encontrou expressão na estatuária do Império romano.

[...] O legado material compreende o artesanato e as ciências (geometria, astronomia, química), a matemática aplicada, a medicina, a cirurgia e as produções artísticas; o cultural abrange a religião, a literatura e as teorias filosóficas.

A contribuição do antigo Egito à produção artesanal aparece nos trabalhos em pedra, mas também no artesanato em metal, madeira, vidro, marfim, osso e muitos outros materiais.

Já nos primórdios do período dinástico (cerca de -3000), os egípcios conheciam e empregavam todas as técnicas básicas da metalurgia. Além dos utensílios, foram encontradas grandes estátuas egípcias de cobre, datadas de -2300, e cenas de mastabas de um período ainda mais remoto mostram as oficinas onde o ouro e o electro são transformados em joias. [...]

A cultura precoce do linho fez com que muito cedo os egípcios adquirissem grande habilidade na fiação manual e na tecelagem. [...] Para os faraós, os tecidos constituíam um produto de troca particularmente apreciado no exterior. O mais fino, o bisso, era tecido nos templos e gozava de fama especial. A administração central dos Ptolomeus organizava as vendas ao estrangeiro que trouxeram ao rei grandes lucros. Temos aqui um exemplo de uma das maneiras pelas quais se transmitiu o legado egípcio.

As indústrias da madeira, do couro e do metal aperfeiçoaram-se, e os seus produtos conservaram-se em boas condições até nossos dias. Os antigos egípcios tinham um talento especial para tecer junco selvagem, confeccionando esteiras, e a fibra da palmeira possibilitou a produção de redes e cordas resistentes.

A manufatura da cerâmica teve início na Pré-História, com formas bastante rudimentares, evoluindo em seguida para uma cerâmica mais fina, vermelha e de bordas negras, mais tarde polida e gravada. A crença em determinados valores e, em particular, na vida eterna, por exigir a manufatura de uma grande quantidade de objetos para os mortos, levou a uma grande produção, de alto grau de perfeição.

Deve-se ao Egito, se não a invenção, pelo menos a difusão das técnicas de fabricação do vidro a toda a civilização mundial. [...] A partir de -700 aproximadamente, os vasos egípcios de vidro conhecidos como "alabastro" difundiram-se por toda a região do Mediterrâneo. Os fenícios os copiaram, e sua manufatura transformou-se em indústria.

Uma das indústrias mais importantes do antigo Egito foi a do papiro, de invenção autóctone. Nenhuma outra planta teve, no Egito, papel tão significativo. As fibras do papiro eram usadas na fabricação ou calafetagem de embarcações e na confecção de pavios de candeeiros a óleo, esteiras, cestos, cordas e cabos. Vinte folhas de papiro, unidas enquanto ainda úmidas, formavam um rolo de 3 a 6 m de comprimento. Vários rolos podiam ser unidos de modo a formar uma unidade de 30 ou 40 m de comprimento; tais rolos constituíam os "livros" egípcios. Eram segurados com a mão esquerda e desenrolados à medida que se fazia a leitura. O herdeiro direto desse rolo é o "volume" da Antiguidade Clássica.

De todos os materiais empregados como suporte para a escrita na Antiguidade, o papiro certamente foi o mais prático, por ser flexível e leve. A fragilidade, porém, era o seu único inconveniente. Utilizado no Egito desde a I dinastia (cerca de -3000) até o fim do período faraônico, o papiro foi, mais tarde, adotado pelos gregos, romanos, coptas, bizantinos, arameus e árabes. Os rolos desse material constituíam um dos principais produtos de exportação do Egito. O papiro foi, sem sombra de dúvida, um dos maiores legados do Egito faraônico à civilização.

[...]

A tradição e a perícia na construção em pedra não foram uma contribuição técnica menor dos egípcios ao mundo. Não era nada fácil transformar os imensos blocos brutos de granito, calcário, basalto e diorito em blocos bem talhados e polidos, destinados a diferentes projetos arquitetônicos. Além disso, a busca de pedras para a construção dos monumentos, assim como a prospecção de minérios metálicos e a procura de fibras, de pedras semipreciosas e de pigmentos coloridos contribuiu para a difusão das técnicas egípcias na África e na Ásia.

A perícia dos egípcios no trabalho da madeira manifesta-se brilhantemente na construção naval. [...]

O Egito faraônico nos deixou valiosa herança nos campos da física, química, zoologia, geologia, medicina, farmacologia, geometria e matemática aplicada. De fato, legou à humanidade uma grande reserva de experiências em cada um desses domínios, alguns dos quais foram combinados de modo a possibilitar a realização de objetivos específicos.

Um dos melhores exemplos da engenhosidade dos antigos egípcios é a mumificação, que ilustra o conhecimento profundo que tinham de inúmeras ciências [...]. Foram sem dúvida os conhecimentos adquiridos com a prática da mumificação que permitiram aos egípcios o desenvolvimento de técnicas cirúrgicas desde os primeiros tempos de sua história. A cirurgia egípcia é bastante conhecida graças ao Papiro Smith, cópia de um original escrito durante o Antigo Império, entre -2600 e -2400, um verdadeiro tratado sobre cirurgia dos ossos e patologia externa. Ainda hoje são aplicados vários tratamentos indicados nele.

Por sua abordagem metódica, o Papiro Smith serve como testemunho da habilidade dos cirurgiões do antigo Egito, habilidade que, supõe-se, foi transmitida pouco a pouco à África, à Ásia e à Antiguidade Clássica pelos médicos que acompanhavam as expedições egípcias aos países estrangeiros. Além disso, sabe-se que [...] Hipócrates tinha acesso à biblioteca do templo de Imhotep em Mênfis. Posteriormente, outros médicos gregos seguiram-lhe o exemplo.

Pode-se considerar o conhecimento da medicina como uma das mais importantes contribuições científicas do antigo Egito à história da humanidade. Documentos mostram detalhadamente os títulos dos médicos egípcios e seus diferentes campos de especialização. [...] A influência egípcia sobre o mundo grego, tanto na medicina como na farmacologia, é facilmente reconhecível nos remédios e nas prescrições.

A farmacopeia egípcia abrangia grande variedade de ervas medicinais, cujos nomes, lamentavelmente, são intraduzidas. As técnicas medicinais e os medicamentos egípcios gozavam de grande prestígio na Antiguidade, conforme revela Heródoto. Para a execução de seu trabalho, os médicos dispunham de uma grande variedade de instrumentos.

Outro importante domínio da ciência a que os antigos egípcios se dedicaram foi a matemática. As medições acuradas dos seus enormes monumentos arquitetônicos e escultóricos constituem uma excelente prova e sua preocupação com a precisão. [...]

Do Médio Império (-2000 a -1750) chegaram-nos dois importantes papiros matemáticos: o de Moscou e o Rhind. O método egípcio de numeração, baseado no sistema decimal, consistia em repetir os símbolos dos números (unidades, dezenas, centenas, milhares) tantas vezes quanto fosse necessário para obter o número desejado. Não existia o zero. Na matemática egípcia podem-se distinguir três partes: a aritmética, a álgebra e a geometria.

O conhecimento da geometria encontrou considerável aplicação prática na agrimensura, que desempenhou um papel significativo no Egito.

[...]

O calendário civil egípcio constava de um ano de 365 dias, o mais exato conhecido na Antiguidade. Ao lado desse calendário civil, os egípcios também utilizavam um calendário religioso, lunar, estando aptos a prever com razoável precisão as fases da Lua.

[...]

Para determinar as horas do dia, que também variavam conforme as estações, os egípcios utilizavam um gnomon, isto é, uma simples vara plantada verticalmente numa prancha graduada, munida de um fio de prumo. O instrumento servia para a medição do tempo gasto na irrigação dos campos, uma vez que a água tinha de ser distribuída imparcialmente. Assim como o gnomon, os egípcios tinham relógios de água colocados no interior dos templos. Esses relógios foram tomados de empréstimo e aperfeiçoados pelos gregos: são as clepsidras da Antiguidade. Eram feitos no Egito já em -1580.

Os antigos egípcios aplicaram seus conhecimentos de matemática à extração, transporte e assentamento dos enormes blocos de pedra utilizados em seus projetos arquitetônicos. O Egito desenvolveu uma grande variedade de formas arquitetônicas, das quais a pirâmide, sem dúvida, é a mais característica. [...]

Até a conquista romana, a arquitetura civil continuou a empregar o tijolo cru, mesmo nas construções de palácios reais. Outra contribuição no campo da arquitetura é a criação da coluna, que, a princípio, era embutida na parede e mais tarde tornou-se isolada.

A paisagística e o urbanismo são outros aspectos da arquitetura egípcia. Esse gosto egípcio por jardins-parque transmitiu-se aos romanos.

[...]

Um fato, ao menos, parece confirmado: as tradições arquitetônicas dos faraós penetraram na África através de Méroe e, depois, de Napata, que transmitiram formas - pirâmides e pilonos, entre outras - e técnicas - construção com pedras talhadas pequenas e bem modeladas.

A contribuição cultural, esse aspecto abstrato do legado egípcio faraônico, abrange as contribuições nos domínios da escrita, da literatura, da arte e da religião.

Os egípcios desenvolveram um sistema de escrita hieroglífica em que muitos dos símbolos derivaram do seu meio ambiente africano. Pode-se afirmar, portanto, que não se trata de um empréstimo, mas de uma criação original.

Os contatos culturais com a escrita semítica ocorridos no Sinai devem ter contribuído para a invenção de um verdadeiro alfabeto. Este foi tomado de empréstimo pelos gregos, e sua influência estendeu-se à Europa. Os antigos egípcios inventaram igualmente os instrumentos de escrita. A descoberta do papiro, transmitido à Antiguidade Clássica, certamente contribuiu para a difusão de ideias e conhecimentos. A extensa literatura da época faraônica cobre todos os aspectos da vida dos egípcios, desde as teorias religiosas até os textos literários, como narrativas, peças de teatro, poesia, diálogos e crítica. [...]

Bom exemplo dos sentimentos expressos na literatura egípcia é o texto inscrito em quatro urnas funerárias de madeira encontradas em el-Bersheh, no médio Egito. Pode-se admitir, finalmente, que determinados elementos da literatura egípcia tenham sobrevivido até nossos dias graças às maravilhosas narrativas da literatura árabe. Esta, com efeito, parece ter suas fontes na tradição oral egípcia.

[...] Os antigos egípcios aliavam às suas atividades terrenas a esperança de uma vida após a morte; assim, a arte egípcia é particularmente expressiva por representar crenças profundamente arraigadas.

[...]

Pode-se considerar a religião como uma das contribuições filosóficas do Egito. Os antigos egípcios desenvolveram inúmeras teorias sobre a criação da vida, o papel das forças naturais e a reação da comunidade humana frente a elas, assim como sobre o mundo dos deuses e sua influência no pensamento humano, os aspectos divinos da realeza, o papel dos sacerdotes no interior da comunidade e a crença na eternidade e na vida além-túmulo.

Essa profunda experiência do pensamento abstrato influenciou a comunidade egípcia de tal modo que terminou por produzir um efeito duradouro sobre o mundo exterior. Para o historiador, é visível a influência religiosa egípcia sobre certos aspectos da religião greco-romana, como se pode constatar pela popularidade da deusa Ísis e do seu culto na Antiguidade Clássica.

A Fenícia desempenhou um papel especialmente importante na transmissão do legado faraônico ao resto do mundo. A influência do Egito sobre a Fenícia pode ser atribuída aos contatos econômicos e culturais entre as duas regiões. [...] Os contatos com a Fenícia eram indispensáveis para a importação de matérias-primas vitais, como a madeira. Os comerciantes egípcios estabeleceram um santuário em Biblos, cidade com que mantinham estreitos contatos comerciais. A cultura e as ideias egípcias difundiram-se por toda a Bacia do Mediterrâneo por intermédio dos fenícios.

A influência da cultura egípcia sobre a sabedoria bíblica, entre outras, é notável. As relações comerciais e culturais com o Levante estabeleceram-se ao longo do II e do I milênio antes da Era Cristã, período que compreende o Médio e o Novo Império, bem como as últimas dinastias. Os contatos desenvolveram-se naturalmente, acompanhando a expansão política e militar egípcia; traços da arte egípcia aparecem em vários sítios sírios e palestinos.

[...]

Vestígios da escrita hieroglífica egípcia foram encontrados nos textos semíticos do Levante. [...]

Esse vasto legado faraônico, disseminado pelas civilizações antigas do Oriente Próximo, foi por sua vez transmitido à Europa moderna por intermédio do mundo clássico. Os contatos econômicos e políticos entre o Egito e o mundo mediterrânico oriental, no período histórico, resultaram na disseminação de objetos da civilização faraônica por regiões como a Anatólia e o mundo egeu pré-helênico.


Os fragmentos retratam cenas da famosa expedição promovida pela rainha Hatshepsut para o reino de Punt. Relevo em pedra calcária, XVIIIª dinastia (c. 1473-1458 a.C.). A cena mostra o governante de Punt e sua esposa. O príncipe, com cabelos curtos e barba longa, usa um saiote com uma adaga na cintura e um bastão na mão esquerda. A esposa  é retratada como uma figura obesa. Os nativos de Punt carregam produtos para a delegação egípcia.

Ao lado das relações entre o Egito faraônico e o mundo mediterrânico, é importante sublinhar a presença de laços culturais a unir o Egito ao interior africano. Tais vínculos existiram tanto na pré-história quanto na época histórica. A civilização egípcia impregnou as culturas africanas vizinhas. Estudos comparativos comprovaram a existência de elementos culturais comuns à África negra e ao Egito, como, por exemplo, a relação entre a realeza e as forças naturais. [...]

SILVÉRIO, Valter Roberto (coord.). Síntese da coleção História Geral da África: Pré-história ao século XVI. Brasília: UNESCO, MEC, UFSCar, 2013. p. 172-5, 177-181.

sábado, 19 de setembro de 2015

O que aprendemos com os povos indígenas

Guerreiro cheyenne com cocar, escudo e lança, ca. 1915-1937. Monroe Tsatoke

Tomate, batata, feijão, milho, mandioca e cacau são algumas das dezenas de plantas descobertas e cultivadas pelos povos nativos da América, há milhares de anos. Hoje, a dieta básica de milhões de pessoas de todo o mundo contém espécies vegetais originadas do continente americano. Mesmo o chiclete, a goma de mascar popularizada pelos norte-americanos, foi tomado dos maias, inclusive seu nome; ainda hoje sua matéria-prima é extraída das florestas tropicais da Meso-América, onde estão os sapotis, a árvore de onde se extrai o "chicle". É igualmente grande o número de plantas empregadas na indústria que os antigos povos da América já utilizavam: borracha, palmeira, carnaúba, amendoim, castanha-do-pará, girassol, tabaco, algodão, juta e sisal são alguns exemplos. O conhecimento acumulado pelos ameríndios ao longo de muitas gerações está merecendo, atualmente, a atenção dos cientistas.


O presente, 1922. Ernest L. Blumenschein

Os grupos indígenas desenvolveram uma ciência própria. Alguns, por exemplo, classificam o solo de acordo com as plantas e a matéria inorgânica (areia e argila, por exemplo) que a compõem. Dão nomes específicos a cada tipo de solo e discriminam as plantas ideais para cultivar em cada um. Na mata virgem, identificam centenas de espécies vegetais, muitas das quais desconhecidas pelos botânicos. Além das alimentícias, os indígenas reconhecem plantas medicinais (curativas, anestésicas, antissépticas etc.), inseticidas, tóxicas, corantes, fertilizantes, lubrificantes, além daquelas usadas para cobrir casa, trançar cestos e esteiras, fabricar ferramentas e armas, conter encostas e barrancos.


Mestre de cerimônias, 1925. Gerald Cassidy

Alguns medicamentos da medicina ocidental foram feitos a partir de plantas há tempos utilizadas pelos indígenas, como o ipecacuanha (tratamento de infecções gastrintestinais), a capaíba (contra afecções das vias urinárias), a quinina (contra a malária), a coca (como anestésico local), o curare (em cirurgias cardíacas) e o peiote (em tratamentos psiquiátricos) - plantas perigosas que, entre os ameríndios, só eram manipuladas pelos curandeiros ou sacerdotes, pois o erro na dosagem podia matar o doente.

A indústria têxtil usa espécies de algodão há milênios cultivadas pelos indígenas da América e consideradas as melhores do mundo.

[...] astecas e incas, para aproveitar os espaços e ampliar as áreas de cultivo [criaram] as chinampas, os canais de irrigação e o uso de fertilizantes naturais. Muitos pesquisadores já demonstraram que essas técnicas são mais simples, baratas e tão produtivas quanto aquelas que utilizam as modernas e caras máquinas e fertilizantes químicos de hoje.


O cacique do pueblo, 1916. Walter Ufer

Outras culturas nativas americanas também desenvolveram eficientes técnicas agrícolas. Ao contrário do que muitos pensam, os indígenas interferiram na natureza, criando artificialmente terrenos propícios à lavoura. No Brasil, por exemplo, há grupos indígenas que espalham sobre a área de cultivo uma mistura de palha com terra de cupinzeiros e formigueiros esmagados. Colocam cupins e formigas vivas na terra recém-cultivada para que os insetos lutem entre si e não ataquem os brotos. Transplantam espécies vegetais para locais onde elas não são comuns.

Na Amazônia, onde o solo se esgota rapidamente e a camada de húmus é muito fina, os indígenas desenvolveram a agricultura itinerante. Uma família derruba apenas a área correspondente à sua capacidade de trabalho (em geral um hectare). A mata derrubada é deixada  para secar por dois ou três meses. Procede-se, então, à primeira queima, que é, depois, seguida de nova queimada com os galhos e folhagens que restaram.


Nas Colinas de Pé, 1896. John Hauser

Os indígenas que utilizam a técnica da coivara sabem quando é chegada a hora da queima. Observam a direção do vento e se orientam por alguns sinais da natureza. Os kuikuro, por exemplo, que vivem no Alto Xingu, só procedem à queimada quando a constelação do Pato aparece do lado leste do céu, antes do raiar do sol, e quando as tracajás desovam nas praias do rio Culuene. Não se sabe qual é a relação entre esses fenômenos e o sucesso da queima, mas sabe-se que os kuikuro nunca provocaram um incêndio na floresta.

A cinza obtida fertiliza imediatamente o solo e o carvão é enterrado para servir de adubo extra que a planta absorverá durante seu crescimento. Inicia-se, então, o cultivo de diversas espécies com alturas diferentes - o que reduz o impacto dos ventos e das fortes chuvas e evita a propagação de pragas. Pela mesma razão, o mato que cresce entre as plantas cultivadas não é arrancado. depois que a terra se esgota, ela descansa por dois ou três anos. Ali crescerão brotos e folhagens que alimentarão pacas, queixadas e caititus, transformando-se em uma área de caça para a tribo.


Dança do búfalo, 1860. Karl Ferdinand Wimar

As técnicas agrícolas indígenas, do tipo extensivo e policultor, têm a vantagem de manter a fertilidade do solo e permitir a rápida recuperação da floresta. Já as fazendas de gado da Amazônia mostram um resultado inverso. Uma única fazenda desmata cerca de 10 mil hectares num ano para formação de pastagens. O desmatamento é total, e a superfície do solo fica exposta ao calor do sol e às pancadas de chuva, provocando sérias alterações no meio ambiente. Além disso, cada hectare produz somente 30 kg de carne bovina ao ano. Isso significa que um boi come o equivalente ao que alimenta uma família indígena no mesmo período, com a agravante de destruir o solo.

RODRIGUE, Joelza Ester. História em documento: imagem e texto. São Paulo: FTD, 2002. p. 128-130.

segunda-feira, 7 de setembro de 2015

A maneira tupi-guarani de ver e explicar o mundo

O Tupi-Guarani é um grupo linguístico que inclui um grande número de povos indígenas, do passado e do presente. Dele fazem parte, por exemplo, os Tupinambá, que não existem mais, e os Araweté, que vivem na Amazônia. Temos comunidades indígenas pertencentes a esse grupo vivendo tanto em regiões afastadas, cobertas de florestas, como em áreas muito urbanizadas, próximas a grandes metrópoles. Neste último caso, estão, por exemplo, os Guarani Ñandeva, que vivem numa aldeia no morro do Jaraguá, em plena cidade de São Paulo.

Apesar das grandes diferenças nos costumes, mitos e rituais entre os vários povos, do passado e do presente, que pertencem ao grupo Tupi-Guarani, os estudiosos conseguiram perceber alguns aspectos comuns a todos eles. É possível, assim, falarmos de uma cosmologia tupi-guarani.


Índio tupi, 1643. Albert Eckhout

Para entender essa cosmologia, é fundamental sabermos a concepção de pessoa para os Tupi-Guarani. Para eles o homem vive uma situação de transição. A sociedade seria um ponto de passagem entre a condição animal e a divina. Entre todos os povos Tupi-Guarani, é possível observar nos mitos, rituais e costumes essa classificação, que estabelece uma série animal, outra humana e uma terceira divina. Elas podem ser simbolizadas, por exemplo, pelo podre (a natureza), o cru (a cultura) e o cozido (o sobrenatural). Em outros casos, é bem marcada a diferença entre natureza e cultura, formando-se pares de oposição: palavra/natureza animal; osso/ carne e sangue; alimentação vegetal/alimentação de carne.

A pessoa, então, vive essa tensão dada por uma identidade dividida em três. Ela não é mais o que foi (natureza), nem é ainda o que deverá ser (divina). A morte separa a dimensão divina da dimensão terrestre da pessoa.

A alma terrestre está ligada ao temperamento individual, à alimentação, ao corpo, e foi formada ao longo da vida do indivíduo. É uma espécie de resumo da sua história. Assim como o corpo físico, essa alma desaparece lentamente após a morte.

A alma divina, pelo contrário, não foi formada, mas dada pronta. Ela se juntará aos deuses e se tornará um deles.

Embora os mitos variem de povo para povo, eles normalmente falam de um cataclismo inicial que separou o mundo divino do terreno. Uns foram para o mundo divino e outros ficaram para trás.


Índia tupi, 1641. Albert Eckhout

Dessa forma, a religiosidade tupi-guarani está marcada pelo desejo de alcançar um mundo de eterna juventude, sem trabalho e sem morte, onde eles viveriam ao lado dos seus antepassados, tornando-se deuses como eles.

No passado muitos povos Tupi-Guarani empreenderam migrações religiosas à procura da Terra sem Mal, o lugar dos deuses, ora na direção oeste, ora na direção leste. Guiados pelos karai, líderes proféticos, eles abandonavam tudo movidos por essa crença.

Atualmente, os Guarani substituíram a prova da migração pelo sofrimento da vida social. A sociedade mais justa do passado deixou de existir, e é preciso passar pela prova da vida social atual para atingir a Terra sem Mal.

A vida em sociedade tanto pode ajudar como atrapalhar o indivíduo a passar para a condição de deus. Se ele reparte as suas coisas com o grupo, se é solidário, dificilmente ele voltará ao estado de animal. Mas se ele come a sua caça sozinho na mata, negando sua solidariedade ao grupo, pode cair novamente na animalidade.

Porém, ao procurar solitariamente a imortalidade, rompe os laços que o prendem ao seu grupo, à vida social, atingindo a condição de deus.

[...]

Um dos elementos essenciais da cosmologia tupi-guarani é a recusa da aliança e da troca e o desejo de superar a necessidade. Para isso é preciso abolir a diferença. É isso que explica a presença do canibalismo e do incesto na cosmologia tupi-guarani. [...]

PEDRO, Antonio; LIMA, Lizânias de Souza. História por eixos temáticos. São Paulo: FTD, 2002. p. 165-6.

terça-feira, 1 de setembro de 2015

Os ancestrais dos índios norte-americanos

Povos indígenas do Norte do Novo México, 1861. Artista desconhecido

"Os historiadores da pré-história nos dão notícia de quantos milênios foram necessários para que os homens do paleolítico substituíssem as grosseiras facas ou os rudes machados de dois gumes pelas admiráveis lâminas do solutreano [período cultural da pré-história europeia]. Segundo outro ponto de vista, observa-se que a descoberta da agricultura e a domesticação das plantas são quase contemporâneas na América e no Velho Mundo. E impõe-se constatar que os ameríndios em nada se mostraram inferiores, muito pelo contrário, no que se refere à arte de selecionar e diferenciar múltiplas variedades de plantas." (CLASTRES, Pierre. A sociedade contra o Estado. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1978. p. 134.)

[...]


Do Alasca e das regiões árticas, as tribos provenientes da Ásia difundiram-se no Novo Mundo seguindo três rotas principais: a costa setentrional do Alasca e do Canadá, as pradarias situadas a leste das montanhas Rochosas, e a costa do Oceano Pacífico.

A reconstrução mais aproximada que se pode obter da história dessas populações pioneiras depende basicamente dos fósseis e vestígios que deixaram através dos tempos. [...]

Numerosos vestígios foram encontrados na parte sul-ocidental dos Estados Unidos: o clima quente e seco favoreceu sua conservação. Nessa região, desenvolveram-se as mais antigas culturas pré-colombianas, às quais se deu o nome da localidade onde os principais vestígios foram encontrados. Assim, em um período compreendido entre 15 000 e 7 000 a.C., floresceram as culturas de Sandia, de Clóvis e de Folson (todas situadas no Novo México), a cultura de Yuma (Arizona) e a cultura de Cochise (Texas central e Arizona meridional).


Mulher e menina zuni transportando água, 1890. Henry F. Farny

As mais antigas formas culturais da região ártica devem-se às populações esquimós. Elas se desenvolveram no Alasca, Groenlândia, Labrador e Canadá, tendo sido unificadas, por volta de 900 a.C., pela cultura de Thule, uma cultura de navegadores e caçadores de baleias.

Nesse mesmo período. desenvolveu-se na Groenlândia a cultura de Dorset. Ao que parece, esse povo entrou em contato com os Vikings, que desembarcaram na ilha por volta do final do século X, chefiados por Erik, o Vermelho. Nas costas meridionais da Groenlândia, os Vikings fundaram duas colônias que, após uma notável prosperidade, entraram em declínio no século XV devido ao isolamento da terra de origem, e acabaram sendo abandonados.

A partir do início da Era Cristã, desenvolveu-se a cultura dos Basket-Makers ("Cesteiros"), na região sudoeste da América do Norte, que corresponde aos atuais Estados norte-americanos de Utah, Colorado, Arizona e Novo México. Os basket-makers receberam este nome por terem sido hábeis fabricantes de cestos de vime, cujos vestígios podem ser datados do século I ao VIII. Esse povo dedicava-se basicamente à caça e ao cultivo de milho e abóbora e, provavelmente, seus hábitos seminômades dos primeiros tempos evoluíram aos poucos para uma vida sedentária. A partir do século VIII, a cultura dos Cesteiros deu lugar à dos Pueblos.


Mulher zuni transportando água, 1900. Henry F. Farny

A designação pueblo (em espanhol, "povo", e por extensão, "aldeia") exprime a característica mais significativa dessa nova cultura, isto é, sua organização espacial. As aldeias eram formadas por casas altas de dois ou três andares, que se aglomeravam umas ao lado das outras em grupos compactos, situadas no interior de um alto muro de adobe. No centro desses aglomerados, havia uma espécie de praça, dentro da qual era cavada uma grande sala - a kiva - que desempenhava um importante papel na vida social e religiosa, funcionando também como local de reunião e cerimônias. As populações da cultura dos Pueblos dedicavam-se à agricultura, cultivando seus campos por meio de um sistema de irrigação bastante racional. Fabricavam peças de cerâmica decoradas com motivos geométricos e possuíam uma refinada arte têxtil.

Essa cultura entrou em declínio entre o final do século XIII e o início do XIV, devido a uma prolongada seca. Também para isso muito contribuiu a invasão dos navajos e apaches, que obrigou os pueblos a se concentrarem num território bem menos extenso. A partir de 1598, os espanhóis fundaram colônias em suas terras, mas enfrentaram uma tenaz resistência desse povo que, em 1680, expulsou os conquistadores. Finalmente, em 1690, os espanhóis conseguiram submetê-los. Ainda hoje, a cultura dos Pueblos subsiste com seus traços tradicionais, especialmente representada pelos hopi do Arizona e pelos zunñi do Novo México.


Mulher zuni transportando água, 1877. Artista desconhecido

Na região da bacia do rio Mississípi, talvez em meados do século IV, floresceu a cultura dos Moundbuilders ("Construtores de Túmulos"). Como no caso da cultura dos Pueblos, esse nome deriva de sua principal característica: numerosos túmulos de terra batida, de várias formas e tamanhos, que provavelmente eram utilizados como infra-estrutura para templos ou moradias dos chefes. Os mais interessantes desses monumentos possuem forma de animais, como tartarugas e serpentes; outros constituem pirâmides truncadas. No interior desses túmulos encontram-se objetos de cobre e cerâmica, estatuetas, máscaras de madeira, ornamentos de osso e mica, fragmentos de couro, conchas decoradas - enfim, um material minuciosamente trabalhado, que revela uma arte muito rica. Diante dessa produção tão variada, supõe-se que as comunidades moundbuilders levavam uma vida relativamente próspera. As populações que desenvolveram esta cultura constituem os longínquos antepassados de conhecidos grupos de "índios" modernos, como os sioux e os iroqueses.

CLASTRES, Pierre. A sociedade contra o Estado. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1978. p. 134.
HISTÓRIA DAS CIVILIZAÇÕES. São Paulo: Abril Cultural, 1975. p. 2, 3 e 5. [Volume 3].

sábado, 4 de julho de 2015

A guerra na Antiguidade: ocupações, saques e preservação do conhecimento

A queda de Troia, Johann Georg Trautmann

"Como o desencadear de um terrível furacão, avassalei por inteiro o Elam, cortei a cabeça de Teuman, o seu Rei fanfarrão, que planejara o mal. Não tem conta os seus guerreiros que eu matei, e os que apanhei vivos com as minhas mãos [...] Hamanu, a cidade real do Elam, eu cerquei, eu capturei [...] eu a destruí, eu a devastei, eu a incendiei. Eu sou Assurbanípal, o grande rei, o poderoso rei, rei do universo, rei da Assíria, rei das quatro regiões do mundo, rei dos reis, príncipe inigualado, que ao comando de Assur [...] exerce o governo do mar superior ao inferior, e pôs submissos a seus pés todos os príncipes".
(Citado in: KRAMER, Samuel Noah. Mesopotâmia, o berço da civilização. Rio de Janeiro: José Olympio, 1983)


[...]


Tudo o que resta são prédios em ruína e um monte de destroços. A imagem é de destruição e sofrimento. A guerra é a mais primitiva forma de o ser humano resolver seus problemas com os outros. Talvez já existisse na Pré-História, mas foi com a formação das primeiras civilizações que a guerra se generalizou. Lutava-se pela posse de terras, cidades, riquezas, escravos...

O rei ou imperador era respeitado e temido pelas suas conquistas. Para eternizá-las, mandava escrever nos papiros, esculpir em pedra e pintar em seus palácios e túmulo suas vitórias militares e as punições que infligiu aos inimigos. Os reis assírios, por exemplo, que conquistaram a Mesopotâmia (século XII-VIII a.C.), orgulhavam-se do massacre que realizaram e de como destruíram campos de cultivo e canais. O Império Persa, mesmo tendo exercido uma dominação mais tolerante [...], também foi formado à custa da perda de milhares de vidas e da destruição de bens materiais. A ação guerreira desses governantes era muito admirada. O imperador Ciro passou à História como "o Grande", em lembrança de suas conquistas.

[...]

Na Antiguidade, os poderes político e militar estavam reunidos na mesma pessoa: o rei. Era ele quem ia à frente do exército, estimulando seus guerreiros e desafiando a morte. Foi em combate aberto que o imperador persa Ciro morreu, juntamente com a maior parte de seus homens. Havia ocasiões em que os generais inimigos se enfrentavam sozinhos, e o resultado dessa luta definia a guerra.

O vitorioso dessas guerras tinha direito de se apoderar dos bens, da família e dos súditos do perdedor. A sua ideia de riqueza era a quantidade de produtos saqueados do inimigo. Seus soldados eram recompensados com os bens roubados da população conquistada. Ao retornarem ao seu país, faziam questão de desfilar pelas ruas exibindo os objetos e os prisioneiros de guerra. A cidade de Persépolis, por exemplo, foi saqueada pelo exército de Alexandre Magno (século IV a.C.) durante vários dias e depois incendiada. Um escritor grego afirmou que foram usadas 10 mil mulas e 5 mil camelos para transportar os seus tesouros.

[...]

Apesar das guerras, ocupações e saques, os conhecimentos desenvolvidos pelos homens e mulheres não foram totalmente perdidos. Muitas vezes, por iniciativa do novo governante (mesmo estrangeiro) e pela persistência da população, as criações humanas foram preservadas. Desse modo, os textos mesopotâmicos, incluindo o código de Hamurábi, foram copiados e reunidos nas bibliotecas dos reis conquistadores; os estudos astronômicos continuaram a ser realizados, mesmo sob o domínio estrangeiro; a técnica dos artesãos, a habilidade comercial dos mercadores e o saber tradicional dos escribas não se dispersaram totalmente quando as cidades mudaram de senhores; a experiência agrícola dos camponeses, as técnicas de fiação e tecelagem foram transmitidas pelos pais ao seus filhos e filhas.

Assim, parte do conhecimento sobreviveu à destruição material e humana provocada pelas guerras. E isso graças à ação de homens e mulheres que, mesmo arruinados pelos saques, continuaram a transmitir o que sabiam aos seus descendentes. Se assim não fosse, ao fim de cada guerra, os perdedores teriam de descobrir, por sua própria experiência. o que seus antepassados levaram séculos ou milênios para aprender e desenvolver. Nos dias atuais, a população de países envolvidos em guerras também não se esquece de seus conhecimentos e práticas cotidianas. É comum, por exemplo, que professores ensinem crianças a ler e escrever dentro de campos de refugiados.

Hoje, quando visitamos as ruínas de capitais dos impérios antigos, ficamos maravilhados com a grandiosidade de seus palácios, a imponência de suas colunas e a riqueza de suas decorações. Imaginamos os imperadores vaidosos e orgulhosos de suas conquistas desfilando com seus exércitos e ordenando a decapitação dos inimigos. O que restou de suas vitórias e domínios são, agora, vestígios arqueológicos. No entanto, o conhecimento cultural, técnico e artístico dos povos conquistados preservou-se e propagou-se, e faz parte do nosso dia-a-dia. A roda, a metalurgia, o alfabeto, os cálculos matemáticos e geométricos, o pensamento religioso, os contos e mitos sobreviveram ao tempo e às guerras.

[...]

RODRIGUE, Joelza Ester. História em documento: imagem e texto. São Paulo: FTD, 2002. p. 153-55.

segunda-feira, 1 de junho de 2015

A herança medieval no Brasil

Bumba meu boi, Portinari

Mesmo no Brasil, que vivia na Pré-história enquanto a Europa estava na chamada Idade Média, muitos elementos medievais continuam presentes. A colonização portuguesa introduziu práticas que, apesar de já então superadas na metrópole, foram aqui aplicadas com vigor, inaugurando o clima de arcaísmo que marca muitos séculos e muitos aspectos da história brasileira. Luis Weckmann detectou com pertinência a existência de uma herança medieval no Brasil, porém limitou sua presença apenas até o século XVII. E, na realidade, ela continua viva ainda hoje nos nossos traços essenciais.

Os dois elementos culturais que enquadram a consciência de nacionalidade são de origem medieval. O nome de nosso país vem da "ilha afortunada" O'Brazil, identificada nos séculos XIV-XV com as Canárias, antes de sê-lo com a América. A tradicional associação da terra descoberta por Cabral com a madeira tintorial aí encontrada (o pau-brasil) desconsidera que a própria madeira tirara seu nome da mítica ilha medieval. O idioma, obviamente, é aquele introduzido e imposto pelos colonizadores, idioma que, como todos os do mundo ocidental, nascera na Idade Média.

Na vida política, a duplicidade de um poder central teoricamente forte e a realidade dos poderes locais atuantes permanece. O ponto de partida, que deixou fundas raízes, foi o sistema de capitanias. Isto é, o sistema usado pelas comunas italianas medievais nas suas colônias do Oriente Médio e das ilhas mediterrâneas, mais especificamente por Gênova, que nos séculos XIV-XV mantinha estreitas relações com Portugal. As primeiras capitanias portuguesas, nas Ilhas Canárias, foram entregues em 1370 a um "capitão" genovês. O funcionamento do sistema foi o mesmo na Idade Média e nos séculos XVI-XVII: cada donatário tinha o usufruto das terras e nelas poderes regalianos como arrecadar impostos, aplicar justiça, convocar milícias. Intermediária privilegiada entre o poder monárquico e os colonos, a figura do donatário gerou no Brasil o personalismo típico das relações medievais, responsável pela fraqueza das instituições políticas brasileiras dos séculos seguintes.

Na vida social, por muito tempo, e ainda hoje em certas regiões, prevaleceu a família patriarcal, que dificulta a transformação do indivíduo em cidadão, dos interesses particulares em interesses gerais e, por consequência, a consolidação do Estado. O patriarca - termo correspondente linguística e funcionalmente ao senior ("o mais velho") feudal - constituía-se em suas amplas terras uma espécie de micro-Estado que produzia quase todo o necessário para a vida de sua população. O patriarca detinha ali poder de vida e morte sobre seus familiares. Dependentes das riquezas e da proteção fornecidas pelo patriarca, os demais habitantes daquela terra também estavam submetidos ao seu poder. Essa organização colonial e imperial transferiu-se para a República, por longo tempo dominada por aqueles aristocracias regionais. Mesmo a democratização recente do país não eliminou ainda o clientelismo e seu pressuposto, a prática do "dando é que se recebe".

No plano jurídico. as normas formalmente derivadas do Direito Romano não escondem a força de um direito consuetudinário informal, paralelo, de um conjunto de ilegalidades socialmente aceitas. Estas quase sempre são praticadas em detrimento do Estado, cotidianamente assaltado nas suas prerrogativas, muitas vezes por dentro, por parte de altos funcionários e dos próprios governantes. Como na época feudal, o Estado brasileiro não é uma "coisa pública" (res publica), é propriedade dos mais fortes e espertos. Ao longo de nossa história pouco se distinguiram as noções de público e privado, da mesma forma que ocorria na sociedade feudal, na qual tudo é privado e ao mesmo tempo tudo se torna público.

No plano econômico, a situação brasileira, fundamentalmente agrária até meados do século XX, denuncia o passado medieval transplantado pelos portugueses e prolongado pelo sistema colonial mercantilista e pelo neocolonialismo industrial. Da mesma forma que o sistema de valores medieval exaltava a aventura do cavaleiro andante, o destemor religioso do cruzado, o espírito de risco do mercador que partia para locais distantes, por muito se desprezou no Brasil o trabalho cotidiano e rotineiro. A ocupação do solo e a exploração das riquezas naturais deram-se, no Brasil "moderno" e "contemporâneo", de forma predatória semelhante à praticada na Europa "medieval". Associada ao caráter agrário da sociedade, a urbanização europeia fora fraca até o século XI, a brasileira até fins do século XIX.

No plano cultural, apesar da globalização neste início de milênio, alguns elementos medievais ainda são visíveis. Artur e Carlos Magno estão presentes com frequência na literatura nordestina de cordel, cujo espírito, temática, transmissão e recepção essencialmente orais prolongam a poesia europeia da Idade Média no Brasil do século XX. Mesmo certas criações eruditas do Nordeste, como os textos de Ariano Suassuna e as músicas de Elomar,, bebem fundamentalmente de fontes medievais. O calendário brasileiro atual tem 14 feriados oficiais, dos quais 11 são de origem medieval. Festas como o Carnaval, no Rio de Janeiro e no Nordeste, o Bumba meu boi, em São Luís do Maranhão, a Procissão de Círio, em Belém do Pará. têm inegáveis raízes medievais.

A religiosidade nacional, sincrética, exacerbada, informal, traz em si diversos traços medievais: as irmandades. o culto a santos não canonizados (caso de Padinho, o padre Cícero), a visão mágica de sacramentos (roubar hóstias consagradas para fazer amuletos foi comum na Europa medieval e no Brasil colonial), o sentimento messiânico-milenarista (como mostram o sebastianismo, Canudos, certos eventos políticos recentes), várias superstições (espelho quebrado, saliva cura e mata, pé direito etc.). O processo de formação do catolicismo brasileiro também lembra o fenômeno na Idade Média. Nesta ocorreu uma cristianização do paganismo e uma paganização do cristianismo, no Brasil uma cristianização do culto africano e uma africanização do cristianismo. A sensibilidade coletiva brasileira é de forte instabilidade emocional, oscilando do pessimismo mais negro ao otimismo mais eufórico, semelhante ao constatado por Marc Bloch na Europa feudal.

FRANCO JÚNIOR, Hilário. A Idade Média, nascimento do ocidente. São Paulo: Brasiliense, 2011. p. 168-170.