"Os espelhos estão cheios de gente.
Os invisíveis nos vêem.
Os esquecidos se lembram de nós.
Quando nos vemos, os vemos.
Quando nos vamos, se vão?"
Eduardo Galeano: Espelhos
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quarta-feira, 21 de setembro de 2016

Família e sexualidade na Europa Medieval: a família germânica

Antiga família germânica, Grevel

[...]

Os bárbaros germânicos se organizavam em comunidades agrícolas e pastoris com um mínimo de desigualdade social. As lideranças guerreiras gozavam de prestígio, mas este não resultava na dominação e na exploração econômica de um grupo social sobre outro. As terras eram periodicamente redistribuídas, o que impedia que as melhores terras se acumulassem nas mãos de algumas famílias.

Todavia o próprio contato com os romanos foi dissolvendo a organização comunitária germânica. A desigualdade econômica e social foi se generalizando: formou-se uma casta de guerreiros hereditários, com privilégios e riquezas.

Com essa mudança, o casamento passou a ter uma nova importância social e política entre os bárbaros germânicos, pois dele dependia a transmissão dos bens acumulados e do poder estabelecido.

Nessas sociedades bárbaras já transformadas pelo contato com os romanos, o casamento podia resultar de três processos: a compra, o rapto e o consentimento mútuo. Assim, do ponto de vista de seu pai, uma mulher era principalmente um bem móvel. Como tal, era vendida, perdida pelo rapto ou usada para fazer alianças. Uma vez constituído o casal, a mulher se tornava companheira do marido.

PEDRO, Antonio; LIMA, Lizânias de Souza. História por eixos temáticos. São Paulo: FTD, 2002. p. 222.

terça-feira, 8 de dezembro de 2015

O declínio do Império Romano e os povos bárbaros

Reunião do Conselho do Povo Germânico, S. Lankhout & Co.

Agricultores e pastores por necessidade, os bárbaros eram guerreiros por instinto e inclinação. O historiador romano Tácito descreveu-os como uma raça robusta de "olhos azuis e cabelo avermelhado; corpos grandes, especialmente fortes para o ataque", que considerava "fraqueza e indolência conseguir com o suor do rosto o que se pode ganhar derramando sangue".

A organização social deles estava voltada para a luta. O clã, a unidade básica, consistia num grupo de famílias cujos guerreiros reuniam-se periodicamente para aprovar as decisões de um líder eleito, o que faziam batendo as lanças nos escudos. Pouco a pouco, formaram-se bandos maiores por meio de alianças cimentadas por casamentos, trocas de presentes, ou conveniência. Surgiram chefes e até mesmo reis com séquitos de guerreiros que haviam prestado juramento de lealdade em troca da participação no produto das pilhagens.

Contudo, apesar de todo o entusiasmo, as tribos germânicas não passavam de um bando. Sem armamentos, lançavam-se às batalhas aos gritos e seminus, protegidos apenas por escudos de madeira ou vime. Poucos possuíam espadas, ao menos nos primeiros anos; os outros valiam-se de porretes ou lanças de madeira, com pontas afiadas no fogo.

Quando essas turbas bárbaras se defrontavam com as legiões romanas, altamente disciplinadas e armadas, o resultado era quase sempre uma debandada geral. [...]

E assim, durante a primeira metade do século III, os bárbaros foram mantidos a distância, palmilhando sem cessar as terras do outro lado do Reno e do Danúbio, aumentando em número e disposição hostil e tornando-se um grave problema para o império já à beira do colapso devido às desordens internas.

As desordens não eram poucas. O governo de Roma chegara ao fundo do poço da corrupção. Em 211, no seu leito de morte, o imperador Sétimo Severo deu um conselho sucinto a seus filhos: "Enriqueçam os soldados, desprezem todos os outros!" Severo sabia muito bem do que estava falando: ele próprio conquistara o trono do Império Romano pela força de seus leais soldados, após décadas de caos e sangue que se seguiram ao reinado de Marco Aurélio.

História em Revista 200-600. Impérios sitiados. Abril Livros: São Paulo, 1991. p. 16.

domingo, 4 de outubro de 2015

O mundo bárbaro: os costumes

Breviário de Alarico, compilação de leis romanas do reino de Tolosa sob Alarico II (487-507 d.C.). Manuscrito latino, 803-814. Artista desconhecido

Em sua longa existência, o Estado Romano entrou em contato com os mais diversos povos. Muitos desses povos foram vencidos e passaram a fazer parte do Mundo Romano. Outros, no entanto, continuaram fora das fronteiras do Império Romano. Partindo da ideia de que Roma era sinônimo de Civilização, os romanos consideravam bárbaros todos os povos que deles viviam distantemente e falavam outras línguas que não o latim.

Dentre os povos julgados bárbaros pelos romanos sobressaíram os germanos, que, ao penetrarem em massa no Império Romano, contribuíram decisivamente para a formação da sociedade europeia. [...]

[...] Começavam novos tempos, porque a sociedade, resultante da interpenetração de romanos e germanos, evoluiu lentamente ao sentido do feudalismo. E essa transição do escravismo ao feudalismo processou-se do século V ao século X,

A origem dos germanos é discutida. No século III, viviam em terras situadas entre o Rio Reno, os Mares do Norte e Báltico, os Rios Danúbio e Vístula e os Montes Cárpatos: a chamada Germânia.

Seus costumes eram simples. Viviam em aldeias, sendo a caça importante atividade econômica. [...] Praticavam a agricultura, a criação de gado e a pilhagem, como atividade econômica complementar. Desconheciam a escrita, e o comércio era feito à base de trocas, embora muitos germanos, localizados próximos às fronteiras do Império Romano começassem a utilizar moedas. Seu artesanato era rudimentar.

A união de várias aldeias formava uma tribo. As tribos agrupavam-se em povos, como os visigodos, os ostrogodos, os alanos, os vândalos, os alamanos, os suevos, os saxões, os anglos, os jutos, os francos etc.

Em épocas recuadas, sua principal instituição política era a Assembleia dos Guerreiros, que, uma vez por ano, decidia da necessidade, ou não, de empreender uma expedição de guerra. Geralmente, elegia um chefe guerreiro, o chamado Koenig, que os romanos chamaram Rei. A continuidade das guerras permitiu que se consolidasse a autoridade dos Chefes Guerreiros ou Reis.

Sua religião era politeísta: adoravam inúmeros deuses, os quais se identificavam com as forças da Natureza. Odin ou Wotan era o senhor do Céu e deus da guerra e do fogo; Thor, o deus do trovão; Mon, a deusa Lua; Sunna, a deusa do Sol; Fréia, a deusa da primavera e do amor.

"Nas modernas línguas germânicas, o alemão e o inglês, os nomes de alguns dias originam-se dos nomes daquelas antigas divindades. Assim, domingo, em alemão, é Sunntag, e Sunday, em inglês, palavras que significam dia do Sol (Sunna); segunda-feira é Montag, em alemão, e Monday, em inglês, dia da Lua (Mon); sexta-feira é Freitag, em alemão, e Friday, em inglês, dia de Fréia."

Acreditavam os germanos que os deuses moravam no Valhala, para onde iriam os guerreiros valentes, mortos em combate. Para lá seriam conduzidos pelas Valquírias, deusas guerreiras que montavam cavalos alados.

A propósito, veja o depoimento de Amiano Marcelino (320-390), historiador romano, a respeito dos alanos:

"Os alanos são geralmente belos e garbosos. Seus cabelos puxam para louro; o olhar é antes marcial que selvagem. Na rapidez do ataque, nada ficavam devendo aos hunos [...] O gozo que os espíritos mansos e pacíficos encontram em um lazer espiritual, eles colocam nos perigos e na guerra. A seus olhos, o supremo bem é perder a vida em um campo de batalha. Morrer de velhice ou por um acidente é um opróbrio [vergonha], que eles cobrem de horríveis ultrajes. Matar um homem é um heroísmo para o qual não medem os elogios. O mais glorioso troféu é a cabeleira do inimigo escalpado. Serve de enfeite para o cavalo de guerra. Não se vê junto a eles nem templos nem santuário nem mesmo nicho coberto de palha. Uma espada nua, fincada na terra, segundo o rito bárbaro, torna-se o emblema de Marte. Honram-na devotadamente como a soberana das regiões que percorrem."

Não lhe parece que aquele autor romano se mostra claramente impressionado pelo culto da força e pelo caráter guerreiro dos alanos?

Também as palavras do historiador Tácito (54-130), no seu livro Costumes dos Germanos, revelam como o espírito guerreiro dos germanos impressionava a sociedade romana. Veja, a seguir, como a descrição dos vândalos apresenta este povo como verdadeiros cavaleiros da Morte:

"[...] São selvagens e aumentam sua selvageria natural, emprestando os socorros da arte e do momento. Seus escudos são negros, seus corpos, cobertos de pintura. Para combater, escolhem noites escuras. Só pelo horror e a sombra, que encobrem este exército fúnebre, levam o terror ao inimigo. Ninguém poderia suportar a visita estranha e como que infernal. Pois, em toda a batalha, os olhos são os primeiros vencidos."

Alguns desses povos se haviam convertido ao Arianismo, heresia do Cristianismo [...]. Seria mais um ponto de atrito com as populações que viviam dentro das fronteiras do Império Romano, que desmoronou diante das invasões dos séculos IV e V.

AQUINO, Rubim Santos Leão de. [et alli]. Fazendo a História: da Pré-História ao Mundo Feudal. Rio de Janeiro: Ao Livro Técnico, 1989. p. 110-11.

quinta-feira, 1 de outubro de 2015

O mundo bárbaro: o fim do Império Romano

Invasão dos bárbaros ou Os hunos se aproximando de Roma, Ulpiano Checa

"Repara com que surpresa repentina a morte pesou sobre o mundo inteiro, quando a violência da guerra abateu os povos. Nem o solo rude dos matagais espessos ou das altas montanhas, nem a corrente dos rios, em seus turbilhões rápidos, nem o abrigo que a Natureza proporcionou as cidadelas, os muros, às cidades, nem a barreira formada pelo mar, nem as tristes solidões do deserto, nem as gargantas, nem mesmo as cavernas, sobre os quais pendem sombrios rochedos, puderam escapar às mãos dos bárbaros.

[...] Mas, que aproveita contar a morte de um mundo que desmorona, seguindo a lei ordinária de tudo o que perece? Que aproveita relembrar o número dos que morrem por todo o Universo, quanto tu mesmo vês teu último dia chegar a grandes passos? Quantos males podem causar as espadas, os edifícios que desmoronam, o fogo, o veneno, as torrentes de água? Quanta gente leva a perecer as guerras, a fome, o desencadear das epidemias, a morte, enfim, que, por caminhos diversos se apresenta igual para todos! [...] Em uma corrida [...] nossa vida termina faz precipitarem-se nossos últimos dias."

As palavras anteriores são da autoria de Orêncio, sacerdote e escritor romano, que viveu no século V. Não lhe parece que as palavras estão cheias de angústia e de insegurança? São elas o reflexo da crise, que muitos então viviam. Era o fim de uma época, destruída por forças que não se detiveram diante de nada. Nem obstáculos naturais, nem barreiras levantadas pelos homens do moribundo Mundo Romano conseguiram deter os invasores.

Estes invasores eram os povos bárbaros, como os romanos chamavam os germanos [...].


"As escassas informações existentes sobre os germanos primitivos chegaram até nós através do historiador romano Tácito e de achados arqueológicos, como desenhos em cavernas, gravuras em pedra, utensílios, armas, vestimentas." (HOLLANDA, Sérgio Buarque de (Org.). História da Civilização. São Paulo: Nacional, 1974. p. 125)

"Sua ferocidade supera tudo. Por meio de um ferro, marcam com profundas cicatrizes as faces dos recém-nascidos [...] Têm um corpo grosso, os membros robustos, a nuca espessa. Suas espáduas largas tornam-nos assustadores [...] Os hunos não cozinham, nem temperam o que comem. Nutrem-se apenas de raízes silvestres ou de carne crua do primeiro animal que aparece [...] Entre eles não se usam casa, nem tampouco túmulos. Não encontraríamos nem mesmo uma cabana [...] Cobrem-se de um linho ou de peles de ratazanas do mato, cozidas entre si. Não possuem veste interior, nem roupa para visita. Uma vez que enfiaram a túnica de uma cor desbotada, não a deixam mais, até que ela caia de velha. Cobrem a cabeça com chapéus de abas caídas. Envolvem-se em peles de cabra as peludas pernas [...] A cavalo, dia e noite, é de lá que negociam suas compras e vendas. Não põem pé em terra, nem para comer nem para beber. Dormem reclinados sobre o magro pescoço de sua cavalgadura, onde sonham bem à vontade."

Que sensação lhe provocou a leitura do texto anterior, escrito, em fins do século IV, por Amiano Marcelino, historiador romano? Que sentiria você, se tivesse de enfrentar esse povo que, em seus velozes cavalos, avançava contra sua cidade?

É provável que também fosse tomado pelo mesmo terror vivido pelos romanos, quando souberam da aproximação ameaçadora dos hunos.

De onde vinham esses temíveis cavaleiros? Aos milhares, haviam partido de regiões da Ásia, fronteiriças à China, e iniciado uma caminhada que os levou à Europa. Vivendo da criação de cavalos e da pilhagem, eram nômades bastante primitivos.

Quando chegaram às terras da Europa Oriental, a crueldade dos hunos e a devastação por eles provocada acarretaram um grande deslocamento de povos. Fugindo dos hunos, germanos empurraram-se uns aos outros, acabando por invadir as fronteiras do Império Romano (século IV).

Aos milhares, os visigodos atravessaram o Rio Danúbio, acreditando que estariam protegidos no interior do Império. Com as autoridades romanas fizeram um acordo: protegeriam as fronteiras contra outros invasores, recebendo em troca alimentos, terras e uma elevada soma em dinheiro. Tornaram-se então, federados do Império, prática utilizada, desde o século III, pelos Imperadores romanos: como as legiões romanas eram insuficientes para guarnecer as fronteiras, faziam um tratado (foedus) com um chefe bárbaro, tornando-o aliado ou federado.

Como as autoridades romanas não respeitaram os compromissos assumidos, os visigodos revoltaram-se. Começaram a saquear as cidades dos Bálcãs. O Exército Romano, que tentou contê-los, foi derrotado em Andrinopla (378).

Em 406, vândalos, alanos e servos, em número não calculado, cruzaram o Rio Reno e invadiram a Gália. Também fugiam dos hunos, mas provocaram o pânico e a destruição por onde passaram. Enquanto os suevos e os alanos permaneceram na Península Ibérica como federados, os vândalos deslocaram-se para o Norte da África, onde fundaram seu Reino.

A desagregação do Império Romano acelerou-se com novas invasões:

* os borgúndios também ultrapassaram o Reno e se localizaram a Leste da Gália;
* os saxões e anglos atravessaram o Canal da Mancha e dominaram a Bretanha (atual Inglaterra).

Em meio à crise provocada por tantas devastações, pareceu a muitos habitantes do Império que o fim do mundo estava próximo. E o temor aumentou, quando se espalhou a notícia de que Roma, a antiga capital, fora saqueada pelos visigodos.

O depoimento de São Jerônimo [...] revela o desespero causado pelo ataque a Roma.

"Chega-nos do Ocidente um rumor aterrador, Roma é atacada. Os cidadãos resgatam a vida a preço de ouro [...] Depois de terem perdido seus bens, ainda é preciso que percam a vida. Minha voz se estrangula e as convulsões me interrompem, enquanto dito estas palavras. É conquistada a cidade que conquistou o Universo."

Prosseguindo seu avanço devastador, os visigodos abandonaram a arruinada Península Italiana, invadiram e pilharam a Gália, indo fixar-se na Península Ibérica, onde já viviam alanos e suevos.

Parecia que a paz retornara ao Ocidente.

"A ilusão logo se desfez, pois os hunos, chefiados por Átila (439-453), retiraram-se de terras da atual Hungria, devastaram os Bálcãs e, em troca de elevada soma em dinheiro, renunciaram a atacar Constantinopla. Em 451, invadiram a Gália, destruindo tudo, até serem derrotados na batalha de Campos Mauríacos [...] Para deter os hunos, formara-se uma força militar heterogênea composta de legiões romanas e de contingentes de francos, borgúndios, visigodos, saxões e alanos."

Obrigados a se retirarem da Gália, os hunos voltaram-se contra a Península Italiana, assaltando, incendiando e destruindo cidades, escravizando e massacrando populações. Chamado de Flagelo de Deus, Átila liderou seus terríveis guerreiros para mais um saque de Roma. Embora sua carroças estivessem carregadas de riquezas pilhadas, a fome e a peste vitimaram os hunos, que renunciaram ao saque de Roma e se comprometeram a retirar-se da península; recebendo, em troca, vultoso tributo pago pelo Papa Leão Magno (452). No ano seguinte, com a morte de Átila, os hunos se dispersaram ao nomadismo pastoril.

Durante o século V, a desagregação do Império Romano prosseguiu, em meio às destruições causadas pela guerra e pela formação dos Reinos Bárbaros. Na própria Itália, os hérulos, chefiados por Odoacro, depuseram o Imperador Rômulo Augústulo, fato que, no entender de diversos historiadores, marcou o início da Idade Média (476).

Leia o depoimento de Salviano, monge do século V, sobre o fim do Império Romano do Ocidente, atribuindo a queda de Roma a um castigo divino:

"Já que quase todas as nações bárbaras beberam sangue romano e rasgaram nossas entranhas, por que será que nosso Deus entregou o mais poderoso dos Estados e o povo mais rico, que leva nome de romano, ao forte domínio de inimigos, que eram tão fracos? Por quê?

[...] Os acontecimentos provam o julgamento de Deus sobre nós e sobre os godos e os vândalos. Eles aumentam dia a dia; nós descemos cada dia mais. Eles prosperam; nós somos humilhados. Eles florescem; nós fenecemos.

[...] Eu desejaria, se a fraqueza humana permitisse, gritar além de minhas forças, a fim de ser ouvido no mundo inteiro: Ó cidadãos romanos, tende vergonha; tende vergonha de vossas vidas! Poucas cidades estão livres dos antros de perdição, estão totalmente livres de impurezas, exceto as cidades habitadas pelos bárbaros [...] Não é o vigor natural de seus corpos que os capacita a conquistar-nos, nem foi a nossa fraqueza natural a causa de nossa derrota. Que ninguém se convença do contrário. Que ninguém pense de outra maneira. Fomos derrotados, exclusivamente, pelos vícios de nossa vida má."

Os hérulos, no entanto, logo perderam o domínio de Roma e da Itália para novos invasores: os ostrogodos, que organizaram seu Reino na Península Italiana.

Começavam novos tempos...

AQUINO, Rubim Santos Leão de. [et alli]. Fazendo a História: Da Pré-História ao Mundo Feudal. Rio de Janeiro: Ao Livro Técnico, 1989. p. 106-9.
HOLLANDA, Sérgio Buarque de (Org.). História da Civilização. São Paulo: Nacional, 1974. p. 125)

sexta-feira, 6 de junho de 2014

Civilização e vida espiritual nos Reinos Bárbaros do Ocidente IV: A vida intelectual e artística

Coroas votivas: À esquerda: ouro e vidro; à direita: ouro, madrepérola, ametistas, safiras, esmeraldas e vidro. Espanha visigótica, século VII. (Tesouro Guarazzar)
Foto: Daderot


Afirmar que as invasões bárbaras destruíram a civilização romana impondo tradições completamente novas é um  ponto de vista errôneo. Certamente, o direito bárbaro dá testemunho de uma mentalidade e de práticas originais: responsabilidade coletiva da família, resgate de crimes por indenizações - wergeld -, duelos ou provas judiciárias. As leis bárbaras, porém, como o Código de Eurico ou a Lei Sálica, redigidas em latim, mostram-se profundamente influenciadas pelo próprio direito romano, ao menos por algumas de suas formas provinciais.

Princesa merovíngia, Évariste Vital Luminais

Dificilmente encontraremos, no domínio literário e intelectual, traços de uma verdadeira cultura germânica. A escrita rúnica, utilizada pelas línguas nórdicas, jamais teve grande influência no continente, adotada tardiamente, tende ela a desaparecer desde o século VI (L. Musset). A língua gótica, escrita em alfabeto grego, brilhante no momento da conversão dos godos, cede definitivamente sua influência ao latim dois séculos mais tarde. Por outro lado, na época dos reinos bárbaros, as manifestações de uma cultura popular, de um folclore rural oposto à cultura dos letrados, parecem ainda difíceis de definir e de analisar. São sem dúvida, em grande parte a marca de revivescências de antigos temas indígenas, celtas, mais do que de contribuições realmente novas.

A vida literária liga-se sempre às expressões antigas. A língua latina, o gosto pela retórica mantêm-se com brilho nos reinos godos. Assim em Ravena com Boécio [...] e Cassiodoro [...]; assim, após a reconquista bizantina, no mosteiro de Vivarium, na Calábria, onde Cassiodoro dirige uma espécie de Academia literária e científica, dotada de uma considerável biblioteca. Na Espanha, Isidoro de Sevilha [...]. Depois dele, numerosas obras profanas de valor testemunham sempre o prestígio das letras romanas [...]. Os mosteiros [...], as escolas episcopais [...], os reis e os nobres da Espanha enriquecem suas bibliotecas com livros antigos. Na Irlanda, o latim permanece uma língua de sábios, erudita, protegida dos atentados do vulgar. Na própria Gália, pode-se encontrar alguma afetação nas lamentações de Gregório de Tours que deplora o declínio das letras: a cultura antiga sobrevive sempre na Provença (Arles) e em Viena [...].

[...]

As migrações bárbaras trazem para o Ocidente, ao que parece, expressões artísticas totalmente novas. Nos tempos bárbaros, as artes ditas “menores” [...] superam a arquitetura e a grande escultura à maneira antiga. Pode-se, numa certa medida, ligar essa nova arte às tradições nômades, ao desejo de manter a riqueza nas armas, nas vestimentas e nas jóias. A espantosa habilidade dos trabalhadores godos ou francos, primeiramente ambulantes e depois fixados nas margens do Reno, em Worms, Colônia ou Bonn, onde seus ateliers são célebres já no século VI, demonstra todo o interesse mantido no trabalho e na decoração de armas, na joalheria religiosa ou profana (fíbulas, fivelas de cintos, colares de ouro). O trabalho sempre precioso, atento, de um objeto original ao qual o artesão dá o máximo de si, rompe claramente com a produção grosseira, em série, da Gália romana. Afirmam-se então novas técnicas: trabalho em finas folhas de metal, em filigrana, em placas cloisonnées incrustadas de esmalte. Das tradições nômades e do Oriente, os bárbaros conservam também o gosto pelo luxo, os metais preciosos e as cores vivas, as vestimentas suntuosas, jóias de ouro e prata, de bronze dourado incrustado de pedras duras ou preciosas. Um grande número de testemunhos tratam do luxo bárbaro: as descrições de Sidônio Apolinário, as dos cronistas árabes que mostram os nobres visigodos cativos em Damasco após a conquista, os tecidos e as jóias encontrados no túmulo da princesa Arnegunda em Saint-Denis (por volta de 570), principalmente os extraordinários tesouros visigóticos da Espanha (as coroas descobertas em Guarrazar) e as jóias lombardas de Monza.


Fíbula lombarda. Séculos VI-VII.
(Walters Art Museum)

Esta arte bárbara liga-se à decoração Fisa e negligencia decididamente o relevo: pedras gravadas, desenhos em filigrana. Além disso indica bem um novo gosto: motivos abstratos, entrelaçamentos geométricos, formas estilizadas em todo caso. A arte animalista dos godos (águia, peixe) enriquece-se a seguir, com a chegada dos lombardos cuja influência parece considerável, com temas tomados à arte das estepes (arte dos cito-sármatas), animais fantásticos tais como grifos e dragões. É também uma arte de movimento: feras digladiando-se em duros combates, entrelaçadas, monstros contorcidos.


Fivela de cinto. Bronze visigótico, ca. 520-560. Espanha.
Foto: Daderot

Entretanto, deve-se, evitar exageros quanto à importância das contribuições propriamente germânicas. A arte bárbara é também uma arte de síntese, que reúne elementos bastante complexos, de origem por vezes incerta. As tradições romanas permanecem ainda bem vivas nos reinos mediterrâneos dos godos onde são erguidas as grandes igrejas de Ravena, de Mérida ou de Évora; mais tardias (segunda metade do século VII) as de S. João de Baños, na região de Valência, e de Terrassa, próximo a Barcelona, com plano cruciforme, ornadas com arcos em ferradura, são cobertas por abóbadas de pedra. Santo Isidoro consagrou três capítulos de suas Etimologias à construção dos edifícios religiosos ou profanos. Nas regiões do Norte, por outro lado, onde se enfraqueciam as técnicas arquitetônicas, os temas ornamentais não são somente bárbaros. Muitos provêm de antigo fundo celta. A arte irlandesa, através dos magníficos manuscritos iluminados nos mosteiros (o Book of Kells, por exemplo) e as grandes cruzes de pedra esculpida, ofereceu um exemplo apaixonante dessa síntese de elementos diversos: decoração tomada aos sarcófagos gauleses dos séculos IV e V (sacrifício de Abraão; Daniel na gruta dos leões), cenas populares, imitações da joalheria saxônica, imagens pagãs. Os escribas irlandeses adotam naturalmente os motivos pagãos, transformam-nos em símbolos cristãos que, entretanto, respeitam as antigas crenças (os entrelaçados simbolizando a água corrente, os patos símbolo da fertilidade). Enfim, por todo o Ocidente, numerosas contribuições bárbaras refletem empréstimos às civilizações orientais, a Bizâncio, ou à Pérsia dos sassânidas. De maneira que, assim, reforçam a evolução da arte romana, já no fim do Império cada vez mais influenciada pelo Egito e pela Síria, evolução cujos monumentos e objetos bizantinos de Ravena testemunham de forma decisiva. De fato, sem menosprezar a importância das novas técnicas, principalmente no trabalho do metal, a estética bárbara deve muito ao Oriente mediterrânico.


HEERS, Jacques. História Medieval. São Paulo: Difel, 1974. p. 35-39.


NOTA: O texto "Civilização e vida espiritual nos Reinos Bárbaros do Ocidente IV: A vida intelectual e artística" não representa, necessariamente, o pensamento deste blog. Foi publicado com o objetivo de refletirmos sobre a construção do conhecimento histórico.

quarta-feira, 4 de junho de 2014

Civilização e vida espiritual nos Reinos Bárbaros do Ocidente III: A Igreja e a evangelização

Hermann e Thusnelda, 
Johann Heinrich Wilhelm Tischbein

As migrações bárbaras, sem dúvida alguma, favoreceram a reaparição de antigas heresias, muitas vezes latentes nas populações rurais. Isso ocorre na África e, sobretudo, na Espanha [...].

Os godos, antes de seu estabelecimento no Ocidente, haviam sido convertidos ao cristianismo. Porém conduzidos por Ulfila, um dos seus que estivera em Constantinopla quando do triunfo do arianismo, tornaram-se arianos. Ulfila foi consagrado bispo em 341 e, por volta do fim do século, as conversões maciças multiplicaram-se entre os godos. A fé ariana propagou-se a seguir entre os vândalos, borgúndios, suevos e, mais tarde, entre os lombardos. O antagonismo religioso foi, constantemente, um obstáculo à fusão entre germanos e romanos: igrejas separadas, proibição de casamentos, conversões difíceis. Na África, sérias perseguições provocadas certamente também pelo desejo de exterminar a aristocracia romana e a autoridade dos bispos, expulsam os cristãos de suas igrejas, forçam comunidades inteiras ao exílio na Espanha. Outros povos, é verdade, foram mais tolerantes, porém o problema ariano retardou em todo lugar a unidade e ameaçou a paz interior.

[...]

Muito mais difícil e longa foi a evangelização dos pagãos. Na Gália e no norte da Espanha, presencia-se, no século V, um vivo reflorescimento de antigas superstições e idolatrias. A chegada dos germanos, dos francos principalmente, reforça efetivamente esse paganismo, que havia, outrora, resistido às tentativas dos romanos e dos bispos. Sem dúvida, a conversão de reis e chefes foi rápida e espetacular. [...] De fato, no século VI ainda, se as cidades contam com sólidas comunidades cristãs reunidas em torno de seus bispos, a massa da população rural, na Gália, e mais ainda na Germânia além do Reno, permanece ligada às suas antigas crenças. A mesma palavra, paganus, designa, então o camponês e o pagão.


Germano com pele de urso polar, Hermann Katsch 

Dessa ligação às superstições e ao paganismo dão testemunhos a literatura da época [...], as práticas e o mobiliário funerário estudado por E. Salin. Os homens carregam inúmeros amuletos, presas de javalis, dentes de ursos, medalhões de resina ou de âmbar. Alimentam fogos purificadores sobre os túmulos, onde são celebradas refeições rituais. Levam oferendas aos deuses das fontes, dos lagos e das florestas; outros adoram o Sol e o fogo, cujos símbolos (rodas estilizadas, monstros contorcidos) enfeitam as pedras e os objetos familiares; outros, na Germânia, erguem ainda templos às divindades do antigo panteão romano, a Diana, por exemplo.

Nos primeiros tempos bárbaros, o bispo permanece como o único senhor da cidade, encarna a única força espiritual do momento e, muitas vezes, se identifica mesmo com a “nação” romana. Nessa época conturbada, a escolha dos cristãos recai freqüentemente sobre um leigo, pio e poderoso, já acostumado ao andamento dos assuntos públicos, Membro da aristocracia, rico proprietário, administrador experiente, o bispo protege a cidade contra pilhagens e desordens; assegura o abastecimento e controla o mercado, constrói e mantém hospitais e escolas. Perto da catedral faz trabalhar um grupo de pequenos artesãos e lojistas.

Os campos, porém, permanecem ainda, no século VI, pouco influenciados pela vida cristã. As paróquias são pouco numerosas e isoladas [...].

As conquistas longínquas do cristianismo, entretanto, na Gália do Norte e na Germânia, foram principalmente obra de monges missionários ligados, em sua maioria, a duas grandes famílias espirituais, por muito tempo opostas.

Psiquê, Évariste Vital Luminais

A Irlanda, situada à margem do mundo romano e, posteriormente da Bretanha anglo-saxônica, conserva seus antigos costumes, suas estruturas políticas e sociais bem particularizadas: grandes famílias tribais dominadas por chefes, reis, submissos eles próprios a reis mais poderosos. A evangelização da região foi obra de missionários: sacerdotes enviados pelo papa (em 431 por Celestino I) e, sobretudo, Patrício [...]. A nova Igreja, rapidamente toda-poderosa, organiza-se principalmente em volta de mosteiros que, na ausência de cidades e bispos, exercem toda a autoridade espiritual sobre as zonas rurais, convertendo-se nos únicos centros de vida religiosa e intelectual.

[...]

Os monges irlandeses certamente devem às tradições aventureiras dos escotos (pirataria, expedições nas costas da Bretanha e da Escócia) seu gosto por viagens longínquas e a vida errante; toda uma literatura épica e popular dá testemunho disso. A peregrinatio, o desejo de isolamento, virtudes fundamentais, explicam os sítios escarpados dos mosteiros, erguidos sobre ilhotas rochosas ou montanhas abruptas e as longas migrações solitárias [...].

Na Gália do Sul, entretanto, os primeiros mosteiros foram, de início, fundados nas costas da Provença, onde se exerciam mais intensamente as influências do Oriente [...].

[...]

A atividade missionária foi um dos aspectos essenciais dessa obra de restauração. Permitiu dessa forma reduzir os particularismos, a autonomia e o poder da Igreja da Irlanda. Em 597, Gregório enviou à Inglaterra, para evangelizar os saxões, Agostinho, abade do mosteiro que fundara em Roma no monte Coelio. Agostinho consegue rapidamente converter o rei Etelfrido e organiza prontamente a Igreja da Inglaterra: primado de Cantuária, províncias de Londres e York. Esta cristianização, entretanto, é superficial e os sucessores de Agostinho tiveram que lutar por muito tempo contra os reaparecimentos do paganismo. Somente por volta do fim do século VII, a maior parte da Inglaterra parece cristã. No mais, o estabelecimento da Igreja romana provoca um sensível descontentamento entre os monges irlandeses, que já haviam instalado mosteiros e centros de evangelização na ilha. A rivalidade entre as duas igrejas agrava-se ainda devido ao apego dos irlandeses a seus usos particulares: maneira da tonsura dos clérigos e fixação da festa da Páscoa. [...]

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HEERS, Jacques. História medieval. São Paulo: Difel, 1974. p. 30-35.


NOTA: O texto "Civilização e vida espiritual nos Reinos Bárbaros do Ocidente III: A Igreja e a evangelização" não representa, necessariamente, o pensamento deste blog. Foi publicado com o objetivo de refletirmos sobre a construção do conhecimento histórico.

segunda-feira, 2 de junho de 2014

Civilização e vida espiritual nos Reinos Bárbaros do Ocidente II: Os gêneros de vida; Os Bárbaros e a cidade

Armim diz adeus a Thusnelda, Johannes Gehrts

Tornou-se um lugar comum relacionar a civilização germânica a uma vida mais ou menos nômade ou errante, estranha todavia às tradições da vida urbana. As invasões bárbaras teriam então provocado uma desintegração das cidades, das relações do comércio e do artesanato urbano, da própria economia monetária. [...]

Certamente, o habitat natural dos germanos, nas regiões do Norte ao menos, não era a cidade cercada por muralhas, nem a villa romana de pedra, mas a aldeia, onde as cabanas de madeira alinhavam-se em filas. Não se sabe se estas aldeias correspondem a novos estabelecimentos ou se foram instalados sobre ruínas de villae destruídos. Muitas também, sem dúvida, são uma continuidade das antigas aldeias celtas, do mesmo tipo, que a ocupação romana não havia feito desaparecer completamente. Desse modo, a extinção ou o enfraquecimento dos gêneros de vida propriamente romanos explicam-se tanto pela revivescência de “barbáries indígenas” como pelo êxito de “barbáries importadas” (L. Musset). A evolução certamente foi muito lenta e pouco perceptível aos olhos dos contemporâneos, que continuaram a empregar o mesmo nome: villa depois village.

Em todo o Ocidente, todavia, o estabelecimento dos bárbaros marca um certo declínio das cidades, bem desigual, é verdade. Essa regressão foi, efetivamente, bem mais forte na Gália: os habitantes abandonam uma parte importante da cidade e se refugiam num núcleo fortificado, perto das arenas ou frequentemente próximo a uma porta. [...] Ao passo que na Espanha e na Itália, quase todas as cidades conservam, senão suas atividades, ao menos sua importância como outrora [...].

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Godos atravessam um rio, Évariste Vital Luminais

Na Gália, na Espanha e na Itália, os reis francos ou godos não eram reis nômades, mas mantinham seus palácios em várias cidades administrativas. Uma feliz abordagem do assunto realizado por E. Ewig salienta a importância das cidades capitais, residências reais, enriquecidas por uma corte, estabelecimentos administrativos, escolas, santuários, uma basílica funerária para a dinastia. [...] As grandes residências principescas, condais ou episcopais, fortificadas, cercadas de casas da família, os santuários dispersos pela cidade ou fora de seus muros, os burgos abaciais, frequentemente cercados por muralhas, movimentados pelo mercado e pelo trabalho dos artesãos, caracterizam de maneira decisiva a paisagem urbana da Gália, entre o Sena e o Reno. Às antigas cidades romanas já se substituem cidades mais anárquicas, principalmente cidades duplas ou múltiplas, aglomerações, “conglomerados de cidades”.

Na Espanha, os visigodos, criadores de gado, estabelecem-se nos altos planaltos do centro. Sua instalação provoca sem dúvida um enfraquecimento da vida urbana: episódio dramático dessa fase foi a destruição de Cartagena, retomada aos bizantinos em 618. Os godos mantêm, entretanto, algumas guarnições nas cidades do Norte; alguns casam-se com mulheres da aristocracia hispano-romana; [...]

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HEERS, Jacques. História medieval. São Paulo: Difel, 1974. p. 28-29.


NOTA: O texto "Civilização e vida espiritual nos Reinos Bárbaros do Ocidente II: Os gêneros de vida; Os Bárbaros e a cidade" não representa, necessariamente, o pensamento deste blog. Foi publicado com o objetivo de refletirmos sobre a construção do conhecimento histórico.

domingo, 1 de junho de 2014

Civilização e vida espiritual nos Reinos Bárbaros do Ocidente I: Continuidade romana e contribuições bárbaras

Derrota dos germanos após a batalha de Tolbiac, 
Évariste Vital Luminais

As migrações germânicas provocaram, nas províncias romanas do Ocidente, encontros de civilizações originais, frequentemente bem complexas. Desses choques nasceu nossa civilização medieval, civilização de síntese, onde é difícil distinguir as tradições romanas e as múltiplas contribuições bárbaras. [...]

Parece ainda impossível avaliar [...] a importância do povoamento bárbaro. Os estudos recentes concordam, geralmente, em destacar o número relativamente pequeno de invasores e, desde muito tempo, abandonou-se a ideia de uma onda humana ou de vagas irresistíveis que tivessem submergido o Império, totalmente destruído por sua passagem. Em região alguma se instalou uma ordem política absolutamente nova, impondo modos de vida totalmente diferentes. Essas migrações bárbaras são, principalmente, do ponto de vista humano, infiltrações de grupos étnicos pouco numerosos entre populações já bem diversificadas.

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Parece mais fácil definir as formas da resistência romana, da qual dependia, em suma, a manutenção dos gêneros de vida, da língua e do direito tradicional. [...]

Combate entre gauleses e romanos, Évariste Vital Luminais

A resistência apresenta-se bem desigual. Não se estabelece mais, no século IV, sobre uma frente contínua, sobre o limes intacto. Esse limes destruído ou enfraquecido, arruinado em vários pontos, mantém, entretanto, um vigor concreto: permanece uma zona fronteiriça entre duas civilizações em si estranhas. Isto principalmente em relação à Germânia, onde o limes apoiava-se em sólidas cidades, cidades de guarnições, grandes centros administrativos e mercados prósperos, que mantêm durante muito tempo o povoamento, os estilos de vida, as atividades econômicas do tempo dos exércitos romanos. No Reno, na região do Mosela, em toda a porção norte da Gália mesmo, esta “rua de cidades” fortificadas marcou profundamente, durante séculos, a civilização, as formas de expressão das regiões vizinhas. Em certos pontos, a persistência de uma estrutura social estreitamente ligada à cidade, a das villae urbanae, mantém importantes “ilhas” romanas em plena terra germânica. [...]

Do ponto de vista propriamente militar, entretanto, a defesa romana contava menos com as fortificações do que com os grandes exércitos de campanha, forças de intervenção eficazes, estacionadas uma na Gália do Norte [...] e a outra na planície do Pó, nas proximidades de Milão, Verona e Ravena [...]. Nas regiões do Sul, a defesa dependia mais ainda da frota, por muito tempo senhora do Mediterrâneo, capaz de assegurar a proteção dos comboios de trigo, das grandes rotas mercantes, dos portos, das relações com a Grécia e o Bósforo, capaz também de enviar reforços. É por mar que os imperadores do Oriente mantêm sua dominação ou influência, que chegam os exércitos, os funcionários, os clérigos e monges formados e instruídos em Constantinopla. Graças ao mar, a cidade do Bósforo torna-se a capital espiritual e intelectual do mundo romano. Enfraquecido em terra, suas defesas destruídas, o Império guarda ciosamente a dominação no mar e impede seus súditos de ensinar aos bárbaros a arte de construir navios. Do que resulta o choque decisivo das duas civilizações: a dos germanos nômades ou seminômades, cavaleiros pastores ou infantes, a dos romanos, de cidades e portos movimentados por rotas ancestrais.

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HEERS, Jacques. História medieval. São Paulo: Difel, 1974. p. 25-27.


NOTA: O texto "Civilização e vida espiritual nos Reinos Bárbaros do Ocidente I: Continuidade romana e contribuições bárbaras" não representa, necessariamente, o pensamento deste blog. Foi publicado com o objetivo de refletirmos sobre a construção do conhecimento histórico.