"Os espelhos estão cheios de gente.
Os invisíveis nos vêem.
Os esquecidos se lembram de nós.
Quando nos vemos, os vemos.
Quando nos vamos, se vão?"
Eduardo Galeano: Espelhos
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terça-feira, 18 de outubro de 2016

Harém: a vida entre prazeres e intrigas (Parte 3)

A pérola do mercador, Alfredo Valenzuela Puelma 

Em uma sociedade na qual a origem étnica tinha pouco significado (a diversidade das origens das mulheres o comprovava), na qual o nascimento se desvanecia diante do mérito (os sultões preferiam as escravas às princesas), o harém funcionava como um instrumento de promoção social. Chamar a atenção do senhor, compartilhar seu leito e dar-lhe um herdeiro garantia à feliz eleita um destino excepcional. Assim, não era surpreendente que, por vezes, as famílias oferecessem suas filhas ao grão-turco, na esperança de que elas vivessem "entre diamantes e esplendores", como era a ideia corrente no Cáucaso. Apesar da abolição da escravatura, proclamada no Império Otomano na segunda metade do século XIX, caucasianas continuaram a ingressar por sua própria vontade no harém.

O ponto mais alto dessa pirâmide, apoiada sobre a multidão anônima de escravos do sexo feminino, era ocupado pela sultana valide, a mãe do sultão reinante, título ambicionado entre todos. Ela era a verdadeira senhora do harém. Ela administrava com a ajuda dos eunucos negros, cuidava de suas finanças, organizava festas e cerimônias, enfim, ordenava toda a vida social da instituição.


Kisler Aga, chefe dos eunucos negros e primeiro detentor do Serraglio, Francis Smith

Suntuosamente sustentada por seu filho, ela possuía um patrimônio considerável, que não parava de crescer graças aos presentes oferecidos pelo alto pessoal político do império e também pelos embaixadores estrangeiros. O primeiro ritual que acompanhava a ascensão ao poder do novo sultão consistia em acolher a sua mãe no pátio do palácio e em saudá-la respeitosamente. Tal cerimônia evidenciava a importância da sua posição. Mais ainda, enquanto durasse o reinado de seu filho, a sultana valide via-se tentada a fazer crescer sua autoridade ao se atribuir um importante papel político.

Lugar de prazeres e centro de uma vida cortesã refinada, o harém podia ser também, de acordo com a personalidade ou a idade do monarca, um ninho de intrigas e de tráfico de influência e até mesmo o cenário de dramas sangrentos. A concorrência era brutal entre as mulheres que disputavam os últimos favores do senhor. [...]

A pouca idade ou a mediocridade dos sultões autorizaram as sultanas mães a controlar os assuntos do Estado, à imagem de Kösen Valide, que exerceu o poder de fato durante 30 anos, sob os reinados de seus dois filhos e de seu neto, antes de, por sua vez, vitimada pelas intrigas palacianas, ser estrangulada em 1651 [...]. Clientelismo, luta de clãs, disputas entre os grão-vizires, traições e assassinatos foram algumas das ignomínias que apimentaram a vida no harém,

Por muito tempo esse foi um mundo fechado. Contudo. no início do século XIX, durante o reinado do sultão reformador Mahmud II (1784-1839), concubinas e favoritas obtiveram a autorização de passear pela cidade ou pelos campos próximos para se distrair, desde que devidamente cobertas e acompanhadas por eunucos vigilantes.

Enquanto a evolução dos costumes dificultava a poligamia entre as elites otomanas - apenas uma ínfima minoria dos homens casados de Istambul tinha mais de uma esposa - o harém imperial contava ainda com 370 mulheres reunidas em torno do último grande sultão, Abdulhamid II (1842-1909), em seu novo palácio de Yildiz, às margens do Bósforo.

A revolução dos Jovens Turcos, que eclodiu em 1909, assinalou o fim do harém e a dispersão de suas pensionistas. Algumas ficaram encantadas de imediato com a liberdade reencontrada, enquanto outras, aterrorizadas pelo mundo exterior, do qual haviam estado separadas por tanto tempo, guardaram a nostalgia de um universo protegido.

Jean-François Solnon. Harém, a vida entre prazeres e intrigas. In: Revista História Viva. Ano XI / Nº 123 / p. 49-51.

domingo, 19 de junho de 2016

As classes sociais e os costumes no Egito Antigo

Poder: ostentando coroa e cetro, símbolos do poder, o faraó ouvia o relatório transmitido por seus ministros sobre os acontecimentos do Império. Faraó Horemheb. Relevo. Artista desconhecido

* O faraó. O faraó ocupava a posição mais elevada na hierarquia social egípcia. Era considerado um deus, filho de Amon-Rá e encarnação de Hórus. O povo adorava-o em vida, submetendo-se a sua autoridade sem resistência, e cultuava-o após sua morte.

"No Antigo Império apareceu a ideia de que o rei, ou faraó, era o senhor absoluto, logo venerado como um deus. A justiça é "aquilo que o faraó ama", o mal "aquilo que o faraó odeia"; ele possui onisciência divina e portanto não necessita de um código de leis para guiá-lo. Mais tarde, no Novo Império, os faraós seriam representados com a estatura heroica dos grandes guerreiros: aparecem em seus carros como poderosos guerreiros, esmagando os inimigos e corajosamente matando animais em sacrifício. Porém, a realeza egípcia permanecia sagrada e temível. "Ele é um deus a quem devemos a vida, pai e mãe de todos os homens, único e sem igual", escreveu um egípcio, funcionário civil do faraó, por volta de 1500 a.C." ROBERTS, J. M. O livro de ouro da história do mundo. Rio de Janeiro: Ediouro, 2001. p. 100.


Diversão: cena de caça. Pintura mural em tumba. Artistas desconhecidos

Além de organizar as atividades econômicas, o faraó comandava o exército e resolvia os casos de justiça de acordo com sua vontade.

Depois da unificação do Alto e do Baixo Egito, o faraó passou a usar uma coroa dupla, que mantinha as cores (branca e vermelha) de cada uma das coroas usadas pelos soberanos dos dois reinos. Além da coroa dupla, que simbolizava a unificação dos dois Egitos sob um só comando, o faraó usava também um cetro, símbolo de seu poder.

O faraó possuía várias esposas, geralmente parentes, mas apenas a primeira mulher com quem havia se casado podia usar o título de rainha.


Cotidiano no palácio: músicos e dançarinas. Pintura mural em tumba. Artistas desconhecidos

"Os faraós e sua família viviam em meio a um tal luxo e conforto, que mesmo hoje, causam admiração. Os palácios eram equipados com móveis de cedro, de ébano, vestidos às vezes de ouro e de marfim; os utensílios de uso diário eram também de qualidade superior, demonstrando a riqueza daqueles que os possuíam, bem como a habilidade e perícia dos artesãos que os fabricavam. A presença de uma legião de servidores - criados, músicos, cantores, dançarinas e copeiros - colaborava ainda mais para tornar confortável a vida diária dos governantes do país. As caçadas e pescarias frequentes, a prática de jogos diversos, contribuíam também para que fosse agradável o dia-a-dia dos "deuses vivos" que governavam o Egito e daqueles que com eles conviviam". FERREIRA, Olavo Leonel. Egito, Terra dos Faraós. São Paulo: Moderna, 1993.


Nobreza: Príncipe Ankhhaf. Busto. Artista desconhecido

* A nobreza. Formada pelos mais importantes funcionários que administravam o Império, a nobreza constituía a alta camada da sociedade egípcia, logo abaixo do faraó. Esses importantes funcionários tanto podiam ser parentes do faraó como pertencer aos comandos do exército. Os nomarcas, que eram os chefes locais da administração, também pertenciam à nobreza.

Os nobres tinham muitos privilégios, como a posse de grandes extensões de terra cedidas pelo faraó. Apesar disso, nos momentos em que o poder real enfraquecia, os nobres transformavam-se em adversários políticos dos faraós.


Mediadores da relação dos homens com os deuses: sacerdotes vestidos com pele de leopardo realizam rituais de purificação. Pintura mural em tumba. Artistas desconhecidos

* Os sacerdotes. Devido à importância da religião na vida do Egito Antigo, os sacerdotes representavam o grupo social de maior prestígio junto à população. Por causa dos conhecimentos que possuíam e da intimidade que diziam ter com os deuses, os sacerdotes exerciam grande poder sobre o povo.

Os sacerdotes possuíam grandes propriedades, que recebiam do faraó. Os que serviam às principais divindades dispunham de riquezas enormes, pois os egípcios costumavam dar presentes valiosos aos deuses que adoravam. [...]

"[...] Eram responsáveis pela administração dos templos e de escolas nas quais os médicos, escribas e outros profissionais obtinham seus conhecimentos". BRAICK, Patrícia Ramos; MOTA, Myriam Becho. História: das cavernas ao terceiro milênio. Das origens da humanidade à Reforma Religiosa na Europa. São Paulo: Moderna, 2010. p. 65.

A carreira sacerdotal era hereditária, isto é, passava de pai para filho.


Saber: escriba. Escultura. Artista desconhecido

"Ponha a sua alma nas escritas [...]
Observe como ela se salva através do trabalho!
Veja, não há nada que supere as escritas
São um barco perfeito!...
Farei com que goste de escrever mais do que de sua própria mãe.
Farei com que sua beleza lhe seja mostrada.
É a profissão mais importante do que qualquer outra.
Não existe igual na Terra".
(Relato escrito por um antigo egípcio chamado Khety. In: MAN, John. A história do alfabeto. Rio de Janeiro: Ediouro, 2002. p. 54.)

* Os escribas. Os escribas eram pessoas letradas. Os jovens que iam se tornar escribas recebiam instrução nas escolas do palácio. Depois de um longo aprendizado, eles conseguiam ler e escrever os complicados caracteres da escrita egípcia - os hieróglifos.

Graças à cultura que adquiriram durante os anos de estudo, os escribas ocupavam cargos importantes no governo. Era entre eles que o faraó escolhia, por exemplo, os magistrados e os inspetores dos trabalhos e das rendas públicas.

"[...] A eles cabia estipular os impostos cobrados, em espécie, dos camponeses e artesãos. Assim, estes funcionários estavam praticamente em pé de igualdade com os sacerdotes, que também cursavam escolas anexas aos palácios e templos e exerciam funções básicas para o Estado, ao mesmo tempo de natureza religiosa e temporal". HISTÓRIA DAS CIVILIZAÇÕES. São Paulo: Abril Cultural, 1975, p, 44-45.

Como eram as únicas pessoas que conheciam aritmética e, portanto, sabiam fazer cálculos, os escribas ficavam responsáveis pela coleta dos impostos e pela supervisão de toda a administração do soberano egípcio. Por isso, eram considerados essenciais ao governo do faraó.

"O escriba recebia salários. [...] Os salários e impostos eram pagos em produtos - como trigo, pão, carne, frutas, gordura, sal - ou trocados por prestação de serviços. Nas guerras, os escribas acompanhavam os exércitos, encarregando-se de manter os registros em dia". BRAICK, Patrícia Ramos; MOTA, Myriam Becho. História: das cavernas ao terceiro milênio. Das origens da humanidade à Reforma Religiosa na Europa. São Paulo: Moderna, 2010. p. 65.


Força: soldados. Modelo funerário. Artesão desconhecido

* Os soldados. Ao contrário dos sacerdotes e dos escribas, os soldados não eram muito prestigiados pela população egípcia. Eles viviam dos produtos recebidos como pagamento e dos saques que podiam realizar durante as guerras de conquista.

No exército egípcio havia também soldados estrangeiros. Estes soldados, em recompensa pelos serviços prestados, recebiam um pedaço de terra.

Os soldados desempenhavam um papel muito importante no Egito Antigo, principalmente durante a fase militarista do Novo Império.

"O exército, profissionalizado, era empregado na defesa das fronteiras do país contra os inimigos externos, além de manter os camponeses e escravos sob dominação e realizar incursões ao Sinai e à Núbia, a fim de conseguir metais (cobre, ouro) e escravos". AQUINO, Rubim Santos Leão de [et alli]. História das sociedades: das comunidades primitivas às sociedades medievais. Rio de Janeiro: Imperial Novo Milênio, 2008. p.. 149


Trabalho 1: camponeses. Os camponeses colhiam o trigo com suas foices e amontoavam em feixes nos barcos, transportando-os pelo rio Nilo para todo o Egito. Cultivavam também cevada, frutas e legumes. Pintura em tumba. Artistas desconhecidos

Trabalho 2: artesão. Pintura. Artista desconhecido

Trabalho 3: transporte de ânforas. Pintura mural. Artistas desconhecidos

* Os camponeses e artesãos. Os trabalhadores braçais - camponeses e artesãos - constituíam a camada inferior da sociedade egípcia e também a mais numerosa. Os camponeses (mais numerosos que os artesãos) trabalhavam nas terras do faraó e da nobreza. Os artesãos eram marceneiros, pintores, escultores, tecelões e ourives, alguns, verdadeiros artistas. Os artesãos trabalhavam nas oficinas pertencentes ao faraó.

"Os artesãos produziam lanças, arcos e escudos para as tropas que combatiam as guerras. Também fabricavam objetos como vasos de cerâmica, cestos, sandálias, perucas, tecidos, barcos fluviais e estátuas gigantescas. Para as camadas privilegiadas, esses profissionais produziam joias, esculturas, quadros e objetos destinados a enfeitar as tumbas. Existiam também artesãs que fabricavam perfumes, óleos para o corpo, roupas e produtos de maquiagem". BRAICK, Patrícia Ramos; MOTA, Myriam Becho. História: das cavernas ao terceiro milênio. Das origens da humanidade à Reforma Religiosa na Europa. São Paulo: Moderna, 2010. p. 65.

As condições de vida desses trabalhadores eram muito duras. Como pagamento pelo seu trabalho, eles recebiam uma pequena parte do que produziam. Moravam em cabanas muito simples e se vestiam pobremente. Conformavam-se, porém, com a expectativa de uma vida melhor depois da morte. Por isso, o que conseguiam poupar era guardado para o funeral [...]. 

"Os camponeses alimentavam-se de pão, cerveja e legumes. Às vezes, peixe e fruta podem entrar no seu cardápio". KOENNING, Viviane. Às margens do Nilo, os egípcios. São Paulo: Augustus, 1990. 

"[...] Os trabalhadores, no entanto, muitas vezes se revoltaram contra seus exploradores. A desagregação do Antigo Império deveu-se, exatamente, a uma série de lutas sociais. [...] Há, até, registros de greves". NEVES, Joana. História Geral - A construção de um mundo globalizado. São Paulo: Saraiva, 2005. p. 59.


Mercado de escravos: núbios aguardam para serem vendidos. Relevo. Artista desconhecido
* Os escravos. Os escravos eram prisioneiros de guerra e não constituíam um grupo muito numeroso. Realizavam os trabalhos pesados, como a extração de enormes pedras das pedreiras e a construção de templos, palácios e pirâmides.

Comparados a outros povos do período, os egípcios eram mais tolerantes com seus escravos e, em geral, tratavam-nos bem.

"[...] O egípcio considerava obrigação dispensar bom tratamento a seus escravos. O Livro dos mortos inclui, entre os pecados a serem negados, o excesso de trabalho imposto aos escravos e os maus-tratos infligidos aos mesmos. Segundo uma lei antiga, quem matasse voluntariamente um escravo, merecia a pena de morte. Heródoto afirma que no Delta do Nilo existia outrora um templo em que os escravos fugitivos encontravam refúgio.

A condição dos escravos utilizados nas grandes obras públicas era extremamente cruel. Nas minas, nas pedreiras, nas construções monumentais, milhares de escravos deixavam a marca de seu ingente esforço e de seu sofrimento". GIORDANI, Mário Curtis. História da antiguidade oriental. Petrópolis: Vozes, 2012. p. 102-3.


Mulheres: carpideiras. Afresco na tumba de Ramose. Artistas desconhecidos

* A mulher egípcia. "A família egípcia parece apresentar a marca de antigos usos que davam à mulher um lugar muito amplo, talvez mesmo de preponderância. Invocava-se frequentemente, por exemplo, a filiação materna pelo menos em pé de igualdade com a ascendência paterna. Em caso de morte de marido, se não havia um filho adulto, a mulher assumia a chefia da família, inclusive no que dizia respeito às relações com o Estado. De maneira oficial, talvez após um certo tempo, principalmente depois de se tornar mãe, era chamada 'dona de casa', e tal expressão parece ter revestido seu pleno sentido jurídico, embora a casa proviesse do marido." AYMARD, André; AUBOYER, Jeannine. O Oriente e a Grécia. Rio de Janeiro: Difel, 1977. p. 49. (História geral das civilizações, v. 1)

Jovens: filhas do faraó Amenófis IV. Afresco. Artistas desconhecidos

"Seja como for, [...] a mulher egípcia era sui juris, podendo dispor livremente de seus bens, intentar processos na justiça, tomar a iniciativa do divórcio tanto quanto o homem, desempenhar um papel ativo em diversas atividades produtivas, de serviços e eventualmente de gestão, enfim ir e vir com ampla liberdade. Havia, sem dúvida, certas limitações. [...] a direção da vida pública sempre esteve maciçamente em mãos masculinas; e tal tendência se fortaleceu com o tempo.

Na vida privada, porém, em termos gerais se mantiveram os amplos direitos da mulher, igual participação na herança paterna e materna, controle sobre os seus bens pessoais (mesmo quando geridos pelo marido, situação bastante corrente) etc. É certo, entretanto, que a mulher era encarada como tendo uma vocação essencialmente doméstica [...] ligada seja à administração da casa [...], seja à realização de tarefas no seu âmbito: fabricação de pão e cerveja, manufaturas de fios e tecidos. [...] Com maior frequência, era o homem que intervinha em transações e, em geral, na gestão do patrimônio familiar [...].


Família: um casal egípcio sentado. Escultura. Artista desconhecido

O casamento no antigo Egito não era sancionado por qualquer ritual religioso ou ato administrativo. Tratava-se de um ato social, selado por festividades que envolviam a comunidade num nível estritamente local. Em suma, a natureza do matrimônio era secular e, em si mesmo, não tinha caráter jurídico. [...] O Estado só intervinha, eventualmente, em questões de adultério no sentido de manter a ordem pública - limitando, por exemplo, a vingança privada." CARDOSO, Ciro Flamarion. "Algumas visões da mulher na literatura do Egito faraônico (II milênio a.C.)". In: História. São Paulo: Unesp, 1999. v. 12. p. 103-5.

Costumes: senhora em sua toalete ajudada por duas servas. Pintura mural. Artistas desconhecidos


* Costumes. "A maior parte da população vivia em pequenas casas de tijolos de barro, quase sempre recobertas por um teto de palha. Seu principal alimento era pão de cevada, às vezes acompanhado de cebolas, tâmaras e figos. Do pão de cevada obtinha-se uma pasta que, fermentada e espremida, resultava numa cerveja leve, muito apreciada pelos egípcios. A carne, as aves e os peixes eram reservados às pessoas abastadas, e também o vinho produzido no país ou importado da Síria. Consumido por todas as classes, o leite constituía um alimento básico; e o único adoçante utilizado era o mel.


Costumes: moda feminina. Pintura. Artista desconhecido

Homens e mulheres usavam vestimentas de linho. A sendit masculina não passava de uma simples tanga que envolvia os quadris. Mas a roupa feminina cobria o corpo do colo aos tornozelos, sustentada por alças e, às vezes, enfeitada com bordados. Durante o Novo Império, as mulheres introduziram certos refinamentos em suas vestes, principalmente tecidos transparentes com pregas delicadas. Amuletos, flores esmaltadas, pesados peitorais metálicos, pérolas multicoloridas, anéis, brincos, braceletes e pulseiras nos tornozelos eram usados tanto pelos homens como pelas mulheres.

No Egito Antigo, praticava-se comumente a poligamia, apesar de uma das esposas ter uma posição privilegiada no lar. Na família dos faraós, supõe-se que esta honra cabia à mãe do primeiro filho do sexo masculino, o qual, geralmente, herdava o trono. Embora o homem pudesse ter quantas concubinas quisesse em sua casa, só os elementos das classes abastadas possuíam um grande harém. E, ao que tudo indica, a mulher gozava de uma posição importante na família egípcia". HISTÓRIA DAS CIVILIZAÇÕES. São Paulo: Abril Cultural, 1975. p. 16-7.

AQUINO, Rubim Santos Leão de [et alli]. História das sociedades: das comunidades primitivas às sociedades medievais. Rio de Janeiro: Imperial Novo Milênio, 2008.
AYMARD, André; AUBOYER, Jeannine. O Oriente e a Grécia. Rio de Janeiro: Difel, 1977. (História geral das civilizações, v. 1)
ARRUDA, José Jobson. História Total 3: Antiguidade e Idade Média. São Paulo: Ática, 1998. 
BRAICK, Patrícia Ramos; MOTA, Myriam Becho. História: das cavernas ao terceiro milênio. Das origens da humanidade à Reforma Religiosa na Europa. São Paulo: Moderna, 2010.
CARDOSO, Ciro Flamarion. "Algumas visões da mulher na literatura do Egito faraônico (II milênio a.C.)". In: História. São Paulo: Unesp, 1999. v. 12.
FERREIRA, Olavo Leonel. Egito, Terra dos Faraós. São Paulo: Moderna, 1993.
GIORDANI, Mário Curtis. História da antiguidade oriental. Petrópolis: Vozes, 2012. 
HISTÓRIA DAS CIVILIZAÇÕES. São Paulo: Abril Cultural, 1975.
KOENNING, Viviane. Às margens do Nilo, os egípcios. São Paulo: Augustus, 1990.
MAN, John. A história do alfabeto. Rio de Janeiro: Ediouro, 2002. 
NEVES, Joana. História Geral - A construção de um mundo globalizado. São Paulo: Saraiva, 2005.
ROBERTS, J. M. O livro de ouro da história do mundo. Rio de Janeiro: Ediouro, 2001.

terça-feira, 1 de março de 2016

O Antigo Regime: a sociedade

A família afiada, Johann Zoffany

A designação de Antigo Regime foi utilizada inicialmente para as formas de vida e governo da França anteriores à revolução de 1789. Na atualidade, de forma menos rigorosa, aplica-se essa expressão a outros países europeus com características próximas às da França daquele momento histórico. Grosso modo, seus elementos caraterísticos eram o absolutismo, a sociedade estamental, as práticas mercantilistas e o colonialismo.

Cego, Cornelis Troost

Apesar das incertezas com relação aos números, estima-se que a população europeia tinha saltado dos 100 milhões, em 1650, para 187 milhões, em 1750. O meio rural e as atividades agrícolas absorviam aproximadamente 85% da população. Com exceção dos Países Baixos, a urbanização não excedia aos 20% da população total das regiões europeias. Cidades como Londres, Paris, Viena e Berlim apresentavam uma população média que variava de 120 mil a 500 mil habitantes. A posse da terra e o prestígio daí decorrente ainda marcavam o compasso da sociedade do Antigo Regime.

O rapaz da adega, Jean Siméon Chardin

No século XVIII, apesar de todos os progressos econômicos, a sociedade permanecia vinculada à divisão estamental do final da Idade Média. Nela, cada estado ou estamento refletia uma função: o clero orava, a nobreza guerreava e o restante da população (Terceiro Estado) se encarregava de manter os dois primeiros. Todavia, essa estratificação por funções já havia perdido a maior parte de suas justificativas. Também já não existia uma uniformidade econômica, social ou política dentro dos estamentos.

A lavadeira, Jean Siméon Chardin

Ao lado de um clero poderoso, composto por cardeais, bispos e outras altas funções eclesiásticas, havia um clero humilde, de parcos recursos econômicos e formação intelectual pobre. Era a estes últimos que cabia o contato com a maior parte da população. A nobreza, de forma geral se tripartia. Um de seus segmentos era poderoso, desempenhando cargos burocráticos junto à monarquia e recebendo pensões. Outro se encontrava marginalizado dessas funções junto ao Estado, tendo de viver às suas expensas. Um terceiro segmento nobiliárquico era constituído por burgueses que compravam títulos.

A oração antes da refeição, Jean Siméon Chardin

Congregando a maioria da população, o Terceiro Estado apresentava uma composição extremamente complexa. Era encabeçada pela burguesia, que, a partir de diversas atividades econômicas, se encontrava fracionada em distintas condições jurídicas e políticas. Nas cidades, em função do desenvolvimento industrial, crescia um proletariado geralmente vitimado pela saturação da oferta de mão-de-obra e pelos baixos salários. Nos campos, aflorava a servidão legal (não apenas econômica) na Europa oriental, enquanto a ocidental assistia ao fim de seus últimos resquícios.

FRANCO JR., Hilário; FILHO, Ruy de Oliveira Andrade. Atlas História Geral. São Paulo: Scipione, 1994. p. 46.

segunda-feira, 26 de outubro de 2015

O poder monárquico e o ódio do povo

Retrato de um sans-culotte, Louis-Léopold Boilly

Para o imaginário popular da Idade Moderna, apesar do avanço do poder monárquico, os reis não eram percebidos como exploradores e opressores. Ao contrário, as pessoas comuns pareciam acreditar que aqueles que os subjugavam faziam-no à revelia do rei.

Segundo o historiador inglês Peter Burke, o ódio popular deslocava-se para os grupos da classe média: advogados, funcionários (do rei), comerciantes e médicos. A atuação desses profissionais era percebida como contrária ao povo. Afinal, representavam problemas com a justiça, a cobrança de taxas, o custo de vida, a saúde e a morte. Nem sempre ficava claro que esses profissionais agiam em nome do rei ou em função do que estabeleciam as instituições oficiais.

Os funcionários - conselheiros ou executantes das deliberações governamentais - eram odiados, principalmente o coletor de impostos. Da França, onde essa coleta era arrendada, proveio a expressão engabeladores (cobradores da gabela, imposto sobre o sal), que indica os que enganam e expoliam o povo. Palavras como tiranos, canibais, sugadores de sangue eram utilizadas para designar os coletores, muitas vezes atacados ao executar as cobranças.

Também eram alvo do ódio popular os comerciantes, sobretudo os que emprestavam dinheiro a juro ou os que açambarcavam cereais ou detinham monopólios, e os médicos, que aparecem nos contos e peças populares como ignorantes, pedantes, dissimulados e gananciosos.

No entanto, houve também heróis da classe média. Santo Ivo foi um advogado honesto, considerado mediador entre ricos e pobres.

NEVES, Joana. História Geral - A construção de um mundo globalizado. São Paulo: Saraiva, 2002. p. 266.

terça-feira, 9 de junho de 2015

Lugar da história na sociedade africana

Homem mucubai, Angola

O ser humano é um animal histórico. Os africanos não fogem a essa definição. A consciência histórica que os africanos possuem de sua própria história e da história em geral está marcada por seu singular desenvolvimento. O tempo africano é, às vezes, mítico e social, mas os africanos também têm consciência de serem os agentes de sua própria história. O tempo africano é um tempo realmente histórico. Por um lado, o mito, em geral, domina o pensamento dos africanos na sua concepção do desenrolar da vida dos povos. Sob a forma de “costumes” vindos de tempos imemoriais, o mito governava a História, encarregando-se, também, de justificá-la. Nesse contexto, aparecem duas características do pensamento histórico: sua intemporalidade e sua dimensão essencialmente social. O tempo é o ritmo respiratório da coletividade que engloba e integra a eternidade em todos os sentidos. As gerações passadas não estão perdidas para o tempo presente. À sua maneira, elas permanecem sempre contemporâneas e tão influentes quanto o eram durante a época em que viviam. Assim sendo, a causalidade atua em todas as direções: o passado sobre o presente e o presente sobre o futuro, não apenas pela interpretação dos fatos e o peso dos acontecimentos passados, mas por uma irrupção direta que pode se exercer em todos os sentidos. Nesse tempo “suspenso”, a ação do presente é possível mesmo sobre o que é considerado passado, mas que permanece, de fato, contemporâneo.

Esse enfoque mítico está na origem da história de todos os povos. Toda história é originalmente uma história sagrada. Do mesmo modo, esse enfoque acompanha o desenvolvimento histórico, reaparecendo de tempos em tempos sob formas maravilhosas ou monstruosas.

Pode-se pensar que essa visão do processo histórico seria estática e estéril, já que, ao colocar a perfeição do arquétipo na origem dos tempos, parece indicar como ideal para o conjunto das gerações a repetição estereotipada dos gestos do ancestral. Porém, não podemos nos ater unicamente a esse enfoque do pensamento histórico entre os africanos.

No período pré-colonial, numerosas sociedades africanas elementares, quase fechadas, dão a impressão de que seus membros só tinham consciência de estar fazendo história numa escala e numa medida bastante limitadas. Em compensação, nas sociedades fortemente estruturadas, a concepção africana de chefe dá a este último um espaço exorbitante na história dos povos dos quais ele literalmente encarna o projeto coletivo. Assim, não é de se admirar que a tradição relembre toda a história original dos Malinke no “Elogio a Sundiata”. O mesmo acontece com Sonni Ali entre os Songhai da curva do Níger. Isso não significa um condicionamento “ideológico” que destrói o espírito crítico. Por outro lado, a história mais recente da África pré-colonial demonstra que a posição dedicada aos líderes africanos nas representações mentais das pessoas provavelmente não é superestimada. A ideia de um líder que atua como motor da história quase nunca se reduz a um esquema simplista, creditando a um só homem todo o desenvolvimento humano. Geralmente trata-se de um grupo dinâmico, celebrado como tal, onde os companheiros dos chefes frequentemente entram para a história como heróis.

A mesma observação vale para as mulheres, que ocupam na consciência histórica africana uma posição sem dúvida mais importante que em qualquer outro lugar. Nas sociedades de regime matrilinear isto é facilmente compreensível. As mulheres são vistas como protagonistas na evolução histórica dos povos. Filhas, irmãs, esposas e mães de reis ocupavam posições que lhes permitiam influir nos acontecimentos. Essa ideia permanece viva até hoje na África. Pela sua participação no trabalho da terra, no artesanato e no comércio, pela sua ascendência sobre os filhos, por sua vitalidade cultural, as mulheres africanas sempre foram consideradas personagens eminentes da história dos povos. A mulher é a vida e a promessa de expansão da vida. É através dela que os diferentes clãs consagram suas alianças.

Por outro lado, tudo se passa como se na África a frágil envergadura das sociedades tivesse tornado a história uma questão que diz respeito a todos. Este sentimento de fazer a história mesmo na escala microcósmica da aldeia, assim como a sensação de ser somente uma molécula na corrente histórica criada pelo rei, visto como demiurgo, são muito importantes porque constituem em si mesmos fatos históricos e contribuem para criar a história.

O próprio caráter social da concepção africana da história lhe dá uma dimensão histórica incontestável, porque a história é a vida crescente do grupo. Desse ponto de vista, para o africano o tempo é dinâmico. Nem na concepção tradicional, nem na visão islâmica que influenciará a África, o homem é prisioneiro de um processo estático ou de um retorno cíclico. O tempo permanece um elemento vívido e social, porém, não se trata de um elemento neutro e indiferente, já que é o lugar onde o homem pode lutar pelo desenvolvimento de sua energia vital. Tal é a dimensão principal do “animismo” africano em que o tempo é o campo fechado no qual se confrontam ou negociam as forças que habitam o mundo. Existe assim no africano uma vontade constante de invocar o passado que não significa o imobilismo e não contradiz a lei geral da cumulação das forças e do progresso.

O poder na África negra se expressa em geral por uma palavra que significa “a força”. Essa sinonímia assinala a importância que os povos africanos outorgam à força e mesmo à violência no desenrolar da história. Trata-se da energia vital que reúne uma polivalência de forças, que vão da integridade física à sorte e à integridade moral. O valor ético é considerado como uma condição sine qua non do exercício benéfico do poder. Esta visão do mundo em que os valores e exigências éticas são parte integrante da própria organização do mundo pode parecer mítica, mas ela exercia uma influência objetiva sobre o comportamento dos homens. Nesse sentido, se a história é justificação do passado, ela é também exortação do futuro.

A consciência do tempo passado era muito viva entre os africanos. No entanto, esse tempo, que tem um grande peso sobre o presente, não anula o seu dinamismo. A concepção do tempo tal como a detectamos nas sociedades africanas é a marca de um estágio no desenvolvimento econômico e social. O essencial é que a ideia de desenvolvimento a partir das origens esteja presente. Mesmo sob a forma de contos e de lendas, trata-se de um esforço para racionalizar o desenvolvimento social. Às vezes, têm-se verificado esforços ainda mais positivos no sentido de iniciar o cálculo do tempo histórico relacionado com o espaço ou a vida biológica e, mais frequentemente, relacionado aos fenômenos cósmicos, climáticos e sociais. Mas o passo decisivo nesse campo só será dado pela utilização da escrita, que ao menos permitiu estabelecer pontos de referência que organizam o curso do fluxo histórico. A introdução das religiões monoteístas baseadas num determinado processo histórico contribuiu para fornecer uma outra representação do passado coletivo.

Mas a grande reviravolta na concepção africana do tempo se opera sobretudo pela entrada desse continente no universo do lucro e da acumulação monetária. Só agora o sentido do tempo individual e coletivo se transforma pela assimilação dos esquemas mentais em vigor nos países que influenciam os africanos econômica e culturalmente. Descobrem então que, em geral, é o dinheiro que faz a história. O homem africano, tão próximo de sua história que tinha a impressão de forjá-la ele próprio em suas microssociedades, enfrenta agora, ao mesmo tempo, o risco de uma gigantesca alienação e a oportunidade de ser coautor do progresso global.


SILVÉRIO, Valter Roberto. Síntese da coleção História Geral da África: Pré-história ao século XVI. Brasília: UNESCO, MEC, UFSCar, 2013. p. 29-32.

quinta-feira, 26 de setembro de 2013

Conservador é liberal, liberal é conservador

Charge na qual D. Pedro II aparece controlando “carrossel” político da época

O que é um conservador?

É aquele para quem a História é uma carroça abandonada. Ele quer conservar a sociedade do jeito que a encontrou, evitando mudanças. Isso é lógico, a sociedade o favorece:

- Se está boa para mim, deve estar para todo mundo - pensa o conservador.

Nada deve ser mudado, mesmo que a maioria esteja puxando a carroça da História, e ele, o conservador, esteja em cima, sendo levado sem se cansar...

Para os conservadores, o Brasil não podia existir sem a grande propriedade, sem a agroexportação, sem a escravidão, sem os partidos políticos da elite. E sem os conservadores! Eles acreditavam que só uma minoria é capaz de dirigir a nação. E quando não houver mais jeito, quando alguma mudança for inevitável, que ela seja pequena e consiga evitar transformações maiores:

- Vamos mudar um pouco, para continuar tudo como está. - Vão-se os anéis, mas ficam os dedos!

Não se pense que os conservadores achavam o Brasil uma maravilha! Eles reconheciam os nossos problemas e julgavam saber os motivos:

- O brasileiro é preguiçoso e atrasado. Uma raça ruim, resultado da mistura de negros e índios. Um povo mestiço, inferior. Ai do país se não fôssemos nós, da elite!

O que é um liberal?

Como o nome diz, é a pessoa que defende a liberdade. Na História da Europa, os liberais surgiram com a burguesia, lutando contra as imposições do tempo do feudalismo e do absolutismo.

No Brasil Império, entretanto, a maioria dos políticos liberais era contra a liberdade dos escravos. Sobretudo porque muitos deles eram donos de escravos... Os liberais queriam mudanças, desde que feitas sob o controle da classe dominante. No duro, só eram liberais quando estavam fora do governo, na oposição. Quando mudava a situação política e os liberais ficavam por cima, tornavam-se tão conservadores quanto os conservadores.

Os liberais brasileiros eram liberais-conservadores. Donos de fazendas de gado, de açúcar ou de café - como os conservadores - os liberais daqui não podiam agir da mesma maneira que os liberais europeus, que surgiram na História como revolucionários. Nem sempre a nossa aristocracia conseguiu imitar a velha Europa!

ALENCAR, Chico [et al]. Brasil vivo 1: uma nova história da nossa gente. Petrópolis: Vozes, 1991. p. 137.

domingo, 13 de janeiro de 2013

O controle da Igreja sobre a moda e a beleza feminina na Baixa Idade Média

Moda medieval da nobreza. Livro de Horas do Duque de Berry, cerca de 1410


O ideal de beleza das heroínas medievais, descrito nos romances, era: pele clara, rosto alongado, cabelos louros, boca pequena, olhos azuis e sobrancelhas bem desenhadas.

Com exceção do rosto, as partes do corpo feminino raramente foram descritos. A maioria dos autores omitiu castamente tudo o que se encontrava abaixo do pescoço. Conclui-se, apenas, que os homens do século XII gostavam de mulheres de corpo delgado, linhas delicadas, pernas longas, seio alto e pequeno.

Porém, a mulher que cuidava da aparência era criticada pelos escritores e pregadores da época, que chegavam a afirmar:

Mulher aposta naturalmente na aparência porque se sabe deficitária na substância; a sua tradicional falta de racionalidade e de firmeza leva-a a privilegiar os bens caducos e imperfeitos da exterioridade, incapaz como é de perseguir sozinha os bens perfeitos e duradouros da virtude. (VARAZZE, Tiago. Chronica.)

A dama medieval dos séculos XI e XII foi impelida ao uso de boa roupa porque as transformações econômicas e sociais da época estavam ligadas aos tecidos, que eram mercadoria essencial no comércio europeu e um produto industrial básico nas novas cidades.

O vestuário, portanto, tornou-se uma marca da posição social, como também um meio que possibilitava distinções políticas, o que originou a lei sumptuária, publicada por Filipe, o Belo, em 1294. Essa lei proibia à burguesa a indumentária distintiva da aristocracia e era, na realidade, uma concessão à nobreza ressentida com a proteção régia a essa classe influente e versátil.

As mulheres mostraram-se particularmente vulneráveis à modelação social que o vestuário permitia porque as roupas que lhes eram destinadas simbolizavam os direitos dos maridos sobre elas. Quando rainhas se casavam com estrangeiros, muitas vezes faziam questão de continuar usando a moda de sua terra de origem como que rejeitando ao mesmo tempo um selo conjugal e um selo nacional. Mulheres burguesas que mudavam de vestuário segundo os caprichos da moda ameaçavam desenvolver uma personalidade que desafiava a autoridade dos maridos e enfraquecia a identidade coletiva de uma linhagem.

Outras mulheres, que possuíam convicções espirituais, consideravam que o valor social do vestuário era uma ameaça para a integridade de sua alma, como acreditava uma mãe do século XIII que alertou sua jovem filha sobre o perigo das roupas finas: "Odeia, portanto, bela filha, e despreza, no teu íntimo, as roupas e as elegâncias do mundo, visto que as tens por vezes que usar". (HUGUES, Diane Owen. As modas femininas e o seu controle.)

Outro exemplo é o da esposa de Jacopone da Todi, que, apesar de usar os adornos como símbolo da posição da família, vestia por baixo uma camisa de crina para proteção do seu espírito. Para ela, a camisa de crina constituía um modo secreto de impedir que as marcas coletivas e públicas do vestuário queimassem a sua carne e corrompessem a sua alma. Somente após sua morte, essa sua prática foi descoberta, servindo para conversão de seu esposo.

As mulheres daquela época também gostavam de parecer delgadas; para isso, as damas da nobreza usavam uma comprida camisa de linho, sobre a qual punham um manto guarnecido de pele, muito justo, ao qual acrescentavam uma blusa também justa. Elas usavam cintos cravejados de joias, bolsas de seda e luvas de pelo de camelo. Adornavam de flores os cabelos ou prendiam-nos com fitas de seda cobertas de joias. "Algumas irritavam o clero e, sem dúvida, o marido, com o uso de chapéus altos em forma de cone, enfeitados com chifres. Houve um tempo em que uma mulher ficava sujeita a cair no ridículo se não tivesse chifres no chapéu". (BUTLER, P. Women of medieval France.)

Tronou-se moda nos últimos tempos da Idade Média o uso de sapatos com solas altas. Os moralistas queixavam-se de que as mulheres sempre achavam pretexto para levantar os vestidos uma ou duas polegadas e mostrar os finos tornozelos e os belos sapatos. Também criticavam a maquiagem nas mulheres, afirmando:

A mulher maquiada e vestida com sumptuosidade privilegia, contrariamente à ordem querida por Deus, a vil exteriorização do seu corpo em relação à preciosa interioridade da sua alma; o excessivo agrado que mostra por uma roupa que lhe envolve o corpo, pela cor de um tecido que a valoriza ou por um penteado que lhe fica bem, trai um interesse todo voltado para o cuidado exterior do corpo, que não deixa espaço nem tempo para o cuidado amoroso da virtude. A cosmética, em especial, revela uma soberba sem limites: a mulher que pinta suas faces de vermelho ou que altera a cor dos cabelos ou que esconde os sinais de envelhecimento sob cosméticos e perucas é uma mulher que, a par de Lúcifer, contesta e pretende melhorar a imagem que Deus lhe deu, chegando até a se julgar capaz de intervir nas leis da temporalidade governadas por Ele. (CASAGRANDE, Carla. A mulher sob custódia.)

O autor anônimo de um texto do século XIII, denominado Ornatus mulierum (O ornamento das damas), discordando do discurso moralista anterior, afirma que escreveu seu livro para ajudar as mulheres a encontrarem os meios para preservar corretamente os traços físicos e aprender a melhorar a aparência, pois:

[...] quando Deus criou a mulher, deu-lhe a enorme beleza da juventude, mas Eva a perdeu por causa do diabo, depois que comeu a maçã (sic). As damas de sua época, herdeiras do castigo imposto a Eva, continuavam a pagar pelo pecado praticado no Paraíso: quando jovens tinham a pele delicada, clara e rosada, mas perdiam a beleza após o casamento; outras, em nenhum momento da vida gozaram de tal qualidade. (RUELLE, Pierre. (ed.) Ornatus mulierum.)

Para ele, a beleza feminina devia ser valorizada, e não ocultada. Recuperando e mantendo a beleza, a mulher poderia livrar-se da culpa ancestral herdada de Eva. Seu manual de beleza contém 88 indicações de cosméticos e remédios destinados aos cuidados femininos.

[...]

Para os religiosos da Idade Média, o cuidado excessivo com a aparência constituía um grave defeito moral. A vaidade era considerada um defeito que devia ser evitado. Os escritores cristãos, principalmente os vinculados ao clero regular, trabalharam arduamente para restringir a difusão de ideias de valorização dos traços físicos e da aparência.

Tomás de Aquino orientava a tratar o amor ao vestuário como um pecado venial, quando era induzido pela vaidade mais do que pela luxúria; já os pregadores mendicantes posteriores o consideravam um pecado mortal.

Os cardeais elaboraram até algumas leis sobre o comprimento dos vestidos e decretaram que as mulheres deveriam usar véus. Então, elas mandaram fazer véus de musselina e seda muito fina com fios de ouro, com os quais se mostravam mais belas e provocavam ainda mais os olhares dos homens.

Os eclesiásticos tentaram, no século XIII, criar uma categoria visual de honra feminina insistindo no véu como um sinal de mulher convenientemente casada - uma moda expressamente recusada por muitos governos urbanos a prostitutas públicas, que tinham de andar na rua com o rosto descoberto. Essa iniciativa fracassara com a invenção de véus de seda transparente que nada ocultavam e com a de outros véus mais complicados que escondiam demais, dissimulando perigosamente a identidade e o estatuto de uma mulher. (HUGHES, Diane Owen. As modas femininas e o seu controle.)

O monge Guyot de Provins queixava-se de que as mulheres usavam tanta pintura no rosto que nada sobrava depois para colorir as imagens; preveniu-as de que, ao usarem cabelos postiços ou ao aplicarem no rosto cataplasmas de feijões moídos e leite de vaca para melhorar a sua cútis, estariam, com isso, prolongando por muitos séculos o seu sofrimento no purgatório.

[...]

As mulheres laicas viviam debaixo de assídua vigilância e repressão também em relação a seus gestos e movimentos, condenados a fixidez e imobilidade [...].

Além disso, os religiosos condenavam mulheres que dançavam e cantavam, chegando a afirmar: "A mulher que dá início ao canto é a capelã do diabo, e aqueles que a acompanham, os sacerdotes". (VITRY, Tiago de. Ad virgines.)

Recomendações feitas às mulheres, por parte dos leigos, eram menos rígidas, permitindo a dança, mas com compostura, sem deixar, porém, de acrescentar outras normas a serem observadas: não ficar debruçadas na janela ou postadas à porta [...], não se divertir demasiado, não comer muito e mover-se com contenção.

As mulheres de vida secular dispensavam cuidados com sua aparência, apesar de criticadas pelos religiosos, porém as monjas, que eram consideradas quase santas pela vida reclusa e espiritual, tornavam-se mais belas pelo uso de adornos simbólicos [...].

ALMEIDA, Rute Salviano. Uma voz feminina calada pela Inquisição. São Paulo: Hagnos, 2011. p. 63-72.

sábado, 3 de novembro de 2012

América Andina: a formação do Império Inca

O Império Inca se estendia ao longo da cordilheira dos Andes,     da Colômbia ao Chile. O Equador, o Peru, as terras altas da Bolívia,  o norte da Argentina e o Chile [...] formavam parte de seu território.

Em seu interior encontramos diferenças geográficas notáveis e povos de diferentes civilizações, centralizados num esquema unificador. O Estado inca, respeitando as antigas funções das comunidades aldeãs chamadas ayllus, incorporou militarmente outros Estados, impondo uma unidade política, econômico-social e religiosa, justificando a denominação de Império.


Machu Picchu

[...]

O Império Inca integrou povos de diferentes culturas [...]. Quatro grupos de povos sobressaem: os chimus, no litoral norte do Peru; os urus, que viviam nas proximidades do lago Titicaca (na Bolívia); os aimarás, na região sul e leste do mesmo lago; e os quíchuas, que formavam o maior contingente do Império.

[...]

A comunidade aldeã estava unida por laços sanguíneos em diferentes graus de parentesco e pela crença comum de ser descendente de um mesmo passado místico. Dentro dela não havia a propriedade privada da terra. [...]

[Origens] Os Incas impuseram a 15 milhões de pessoas a mesma língua, a mesma cultura, a mesma religião (ainda que respeitando os deuses locais, considerados secundários) e um Estado centralizado. A construção desse projeto unificador foi feita através da violência generalizada, da coerção e do convencimento ideológico. [...]

[...]

Os incas possuíam um excelente esquema de comunicação. Os chasquis, ou correios dos incas, atravessavam os caminhos ziguezagueantes do Império, através de desertos, montanhas e rios. Eram homens que se colocavam a distâncias consideráveis para receber e transmitir a outro ponto, mediante longas corridas, qualquer sinal de perturbação. Pontos de descanso, chamados tambos, continham alimento, água e um lugar de repouso para os fatigados servidores.

[...]

* Chavín de Huantar. Chavín de Huantar foi um centro cerimonial localizado nas serras setentrionais do Peru, sobre um afluente do rio Maranhão, para onde convergiam peregrinos de toda a região. Chavín é um conjunto arquitetônico feito de pedras colocadas alternadamente em camadas finas e grossas, sem revestimentos ou massas soldantes.

[...]

O centro cerimonial de Chavín de Huantar foi construído graças aos donativos e às oferendas em trabalho de milhares de peregrinos, dirigidos pelos sacerdotes do "jaguar" num culto similar ao de Quetzalcoatl-Kukulkán. [...]

[...]

Chavín possibilitou a unidade cultural das aldeias espalhadas pelo Peru, que possuíam uma agricultura diversificada, com mandioca, milho, abóbora, etc. [...]

* A costa norte: a cultura mochica. Numa superfície de 66 000 km², através de vales e serras, estendeu-se a cultura mochica, a partir de seus centros localizados nos vales de Moche, Vicus e Chicamba. [...]

Entre o rio Moche e o Serro Branco se localiza o conjunto arquitetônico mais representativo da cultura mochica. Trata-se de Huanca do Sol e Huanca da Lua. A primeira é uma plataforma de 228 metros de comprimento e 18 m de altura. Sobre ela se levanta a pirâmide propriamente dita, de 103 m de lado por 23 m de altura, igualmente escalonada como a base.

A Huanca da Lua consta de uma plataforma de 80 m de lado por 60 m de altura, e uma pirâmide de 21 m, construídas de barro e não de pedras. Esta é uma característica fundamental da arte mochica: a utilização do barro, tanto nas construções como no artesanato, que reproduzia fielmente o meio ambiente que os rodeava. [...]

[...]

* Costa sul: a cultura nazca. Nos vales de Pisco, Ica e Nazca se desenvolveu uma cultura denominada simplesmente nazca, que evoluiu de uma anterior, a paraca. Sua arquitetura é desconhecida, pois só sobreviveram pequenas bases de terraços construídos de barro. [...] O que o tempo nos legou, e a partir do que é possível inferir a existência de uma cultura, são os artísticos trabalhos em barro e as coloridas artes têxteis. [...]

* A serra: a cultura recuay. Na serra setentrional peruana, num local denominado Callejón de Huyalas, encontramos a civilização "subterrânea" de recuay. Ao contrário da mochica e da nazca que utilizavam o barro, a recuay trabalhou a pedra como matéria-prima para suas construções.

Os edifícios são unidos por longas galerias fechadas, entrando e saindo desses corredores por buracos abertos em sua parte superior. [...]

As vasilhames apresentam homens e mulheres sentados com os joelhos sobre a cintura. Nas pedras esculpidas encontramos o jaguar, com o corpo de perfil e o rosto de frente, resquícios da influência chavín. [...]

* Tiahuanaco. Atualmente um pequeno povoado [...] e um conjunto de ruínas situadas no altiplano boliviano [...] ao sul do lago Titicaca, levam o nome de Tihuanaco. [...]

A devastação começou seguramente com a chegada dos incas e continuou com os espanhóis. Tanto o moderno povoado de Tiahuanaco, as obras da estrada de ferro, como os grandes edifícios de La Paz foram construídos com material extraído de Tiahuanaco. [...]


Porta do Sol, Tihuanaco  

Mais que uma cidade ou centro de um império, Tihuanaco, da mesma forma que Chavín de Huantar ou Teotihuacán, foi um centro religioso. [...]
[...]

[A expansão inca] Conta a tradição que oito irmãos, "filhos do sol", saíram de um conjunto de cavernas, existente a 8 léguas da cidade de Cuzco, iniciando uma migração à procura de terras férteis. Depois de longos anos de peregrinação, nos quais os irmãos foram morrendo, chegaram ao vale de Cuzco, onde se instalaram. Nesse caminhar, os dois únicos sobreviventes, Ayac-Manco e sua irmã Mama Oclla, se casaram dando início à dinastia Inca, com o nome de Manco-Capac.

Os oito irmãos representavam as comunidades que foram se estabelecer no vale, e a peregrinação significa a migração dos incas desde o lago Titicaca até a futura capital do Império. Os incas procediam da região Colha, de língua aimará. Uma vez submetida a população local de língua quíchua, Manco-Capac concentrou seus esforços na dominação no vale. Sete Incas o sucederam no cargo.

[...]

Na sua expansão pelos vales vizinhos, os incas enfrentaram a Confederação Chanca, formada pela união de várias comunidades aldeãs, num Estado ainda não suficientemente forte para resistir às tropas [...].

A derrota dos chancas consolidou a tendência expansionista dos incas [...].

[...] No vale do Canhete os incas encontraram forte resistência. Os chichas do vale do Nazca e Ica mantiveram-se em luta durante anos, não hesitando em destruir os canais de irrigação na vã tentativa de barrar o avanço inca. [...]

Cajamarca, no vale do Maranhão, foi a próxima região a ser submetida. Em Cajamarquinha, tropas dos povos agricultores, caçadores e pescadores não foram obstáculos para os incas. [...]

[...]

A característica fundamental desses Estados era sua acentuada urbanização. A cidade de Chanchan era um conjunto de 18 km² de superfície, divididos em 10 bairros separados por altos muros. Os chimus tinham uma cerâmica monocromática e uma arte têxtil desenvolvida, mas era na metalurgia, no trabalho com o ouro, a prata, o cobre e o bronze, que estavam mais adiantados. [...]

Dessa civilização os incas adaptaram o sistema de comunicação feito a pé, de homem para homem situados em pontos preestabelecidos, possibilitando um contato rápido entre a capital e as localidades mais distantes. Também o sistema numérico através de cordas [...] teve sua origem entre os chimus.

[...]

A partir de Cuzco, capital do Império, o território inca estava dividido num sistema mais ideal que real: em duas partes subdivididas em quatro. A parte de cima correspondia a Chinchaysuyu e Antisuyu, e a parte inferior a Cuntisuyu e Collasuyu.

Ao mesmo tempo existia uma hierarquia nas duas metades. [...]

[...]

As comunidades aldeãs, por sua vez, eram governadas por um representante do Estado chamado curaca, que fracionava a população em grupos de 10 ou 50 pessoas, vigiadas por uma espécie de capataz. A missão de todos era a vigilância contínua. Periodicamente partiam de Cuzco delegados imperiais encarregados de fiscalizar os chefes provinciais e locais, numa espécie de "auditoria".

À frente do Estado encontramos o Inca, pessoa divinificada, adorada e reverenciada por todos. Herdeiro de Manco-Capac, ninguém podia olhar seu rosto e os nobres deviam apresentar-se diante dele descalços e com um peso nas costas que os obrigasse a se manterem curvados. O Inca era vestido pelas "virgens do Sol", escolhidas entre as crianças das aldeias que demonstrassem melhores aptidões nas artes têxteis.

Quando o Inca morria, suas propriedades passavam ao poder de seus familiares, encarregados de manter a múmia do soberano. [...]

Integravam a nobreza os familiares dos dirigentes dos onze ayllus reais [...]. Entre eles eram selecionados os membros da alta burocracia estatal e os membros do estado-maior do exército. Existia uma nobreza menor formada pelos funcionários das províncias e autoridades alocadas em funções locais.

Junto ao Inca encontramos o sumo sacerdote, o huillac umu, geralmente irmão do Inca. Os sacerdotes eram escolhidos entre a nobreza e sua função nos rituais sagrados consistia em manter o templo, fazer sacrifícios e se comunicar com os deuses. [...]

Os sacerdotes faziam cálculos, feitiçarias, adivinhações, realizavam sacrifícios, interpretavam sonhos e ensaiavam curas milagrosas. Todo esse aparato servia à transmissão de lendas, histórias, normas e regulamentos, que asseguravam o sistema de dominação aplicado pela burocracia estatal e garantido pelos guerreiros.

[...] Dado o caráter guerreiro do Império Inca, o treinamento da nobreza era rigoroso. Incluía o estudo da história dos povos submetidos, das campanhas dos incas, envolvia geografia, a arte de defesa e do ataque, cercos a cidades, fortificações, diplomacia, espionagem, etc. Exigia o que hoje denominaríamos das artes militares, que nada adiantaram contra os cavalos, as armas de fogo e os cães de guerra dos espanhóis.

A classe-Estado (sacerdotes, guerreiros, funcionários) se mantinha graças ao excedente extraído das comunidades aldeãs. [...]

Os trabalhadores das comunidades aldeãs eram chamados llacta-runa. Ao mesmo tempo que se dedicavam a extrair do solo o sustento necessário para sua auto-subsistência, tinham a obrigação de trabalhar as terras do Sol, do Inca e dos curacas.

O Estado requeria grandes contingentes de mão-de-obra para as construções de centros urbanos, fortalezas, caminhos, pontes, terraços e canais de irrigação bem como para sua manutenção. A mita era um serviço pessoal e periódico feito ao Inca durante um tempo prefixado (durava de dois a três meses) em que o Estado simplesmente os sustentava. [...]

Num degrau inferior da escala social existiam os yanaconas, cuja origem foi a sublevação da cidade de Yanacu, condenados pelo Inca à servidão perpétua, castigo estendido a seus descendentes. [...]

[...]

Os yanas eram utilizados nos mais diversos serviços. Trabalhavam como carregadores, cumpriam funções domésticas, limpavam os templos, etc., mas sua principal tarefa era servir nas terras particulares. [...]

Os artesãos especializados eram outra mão-de-obra que estava sendo separada dos ayllu. Trabalhadores metalúrgicos, tapeceiros, ceramistas, ourives, escultores, etc. eram selecionados por delegados do Inca e remetidos a Cuzco, passando a depender diretamente do Estado. [...]

Uma sociedade que tributava as pessoas e não a produção devia possuir um sofisticado esquema de controle. O Estado inca conhecia a quantidade de homens, mulheres e crianças de cada ayllu, conhecia o número de indivíduos com que podia contar para montar um exército sem afetar a produção, sabia quanta mão-de-obra era necessária para construir uma ponte e onde requisitá-la. Sabia das necessidades em alimento, roupas e armas para sustentar os mitamáes.

O segredo dessa contabilidade sem computadores são os quipos, longos cordões aos quais eram amarrados uma multiplicidade de cordõezinhos, onde se faziam diferentes tipos de nós, como sinais. [...]

[...]

Quem fazia a leitura dos quipos eram os funcionários chamados de quipucamayucs. Qualquer erro na confecção ou na leitura dos quipos era pago com a morte. Uma gigantesca burocracia mandava informações ao poder central, que transmitia suas ordens da mesma forma.

Quipos 

O sistema de dominação imposto pelos incas fazia com que a terra e a água fossem propriedades do Estado, que concedia às comunidades o direito de permanecer e usufruir sua produção. Qualquer revolta significava perder esse direito. [...]

[...]

A região do Titicaca se especializou na criação de rebanhos de lhamas, guanacos, vicunhas e alpacas. [...]

[...]

A batata-doce, o manco (cereal desaparecido), o quinua (legume cujas folhas se utilizam como espinafre), o tomate, a goiaba, a anona (fruto parecido com a maçã), o abacate, o amendoim, etc. eram produtos plantados pelas comunidades aldeãs.

Graças a um século de experiências, os americanos conseguiram produzir setecentas variedades de batata que se adaptaram aos mais diversos climas. [...] A produção da batata, anterior ao milho, desenvolveu-se principalmente nas regiões do altiplano, e o milho nas regiões temperadas.

A batata é um produto típico das comunidades aldeãs auto-suficientes, enquanto o milho é produto das grandes obras públicas levadas adiante pelo Estado.

[...]

PEREGALLI, Enrique. A América que os europeus encontraram. São Paulo: Atual, 2003. p. 49-67.