"Os espelhos estão cheios de gente.
Os invisíveis nos vêem.
Os esquecidos se lembram de nós.
Quando nos vemos, os vemos.
Quando nos vamos, se vão?"
Eduardo Galeano: Espelhos
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terça-feira, 10 de março de 2015

A lenda de Pigmalião

Dido sentada em um trono olhando para a personificação da África (vestida com pele de elefante). Navio de Enéas ao fundo. Afresco romano do século I d.C. Artista desconhecido

Matan, neto de Ethaal, após um reinado de nove anos, morreu, deixando uma filha já moça, Elisa, e Pigmalião ainda menino. Elisa, que é conhecida na História como Dido, sucedeu ao pai, tornando-se rainha; casou-se com seu tio Sicheus, homem muito rico e poderoso de Tiro, nobre e sumo-sacerdote do deus Melcart.

Quando Pigmalião se tornou maior, deu-se uma revolução em Tiro. Esta, para os historiadores, nada mais foi do que um levante da facção democrática que, destronando Dido e assassinando Sicheus, proclamaria Pigmalião rei knico.

Dido e Enéas. Afresco romano. Artista desconhecido. 
Foto: Stefano Bolognini

Pigmalião desejava apossar-se dos tesouros do cunhado, de cujo assassinato lhe atribuem a responsabilidade. Tal atitude ambiciosa levou Dido a virar-se contra o irmão, embora sem demonstrá-lo.

Temendo ser também assassinada, resolveu ir para outra região onde pudesse viver em paz com os tesouros de Sicheus. Arquitetou, então, um plano de fuga.


Enéas apresentando Cupido vestido de Ascânio para Dido, Giovanni Battista Tiepolo

Estando na ocasião na ilha de Tiro, disse ao irmão que pretendia alojar-se em seu palácio, situado na parte continental. Para isso precisava de um navio, a fim de transportá-la juntamente com os tesouros. Pigmalião deu-lhe a embarcação, recomendando aos marinheiros que vigiassem o tesouro para que chegasse intato ao continente, onde se localizava a outra parte de Tiro.

No entanto, Dido havia mandado encher vários sacos de couro com areia, dando-lhes o aspecto de conter o tesouro, ficando estes em evidência para serem vigiados pela tripulação. O verdadeiro tesouro, Dido escondeu-o num lugar secreto, dentro do navio. Quando estavam em alto mar, Dido disse aos marinheiros que pretendia fazer uma oferenda aos deuses lares de seu marido, os manes, e iniciou a cerimônia jogando os sacos de areia no mar. Os marinheiros de Pigmalião não ousaram interferir na cerimônia religiosa.

A morte de Dido, Joseph Stallaert 

Findo o ato, Dido proclamou-se juntamente com a tripulação responsável pelo desaparecimento do tesouro, afirmando que Pigmalião haveria de se vingar em todos, sem distinção. Temerosos, todos resolveram fugir com Dido para a ilha de Chipre, onde embarcaram vários exilados de Tiro e ainda 80 moças consagradas à deusa Astarté. Daí, os ventos levaram o navio para a costa da África, onde Dido e seus companheiros da facção aristocrática fundaram a cidade de Cartago, que contrastava com a democracia de Tiro.

Dido construindo Cartago, William Turner

CARVALHO, Delgado de. Historia Geral 1: Antiguidade. Rio de Janeiro: Record, s.d. p. 86.

domingo, 6 de julho de 2014

Influência da América sobre a Europa

Da América chegaram à Europa diversas plantas novas, que deviam contribuir para transformar a civilização européia, o milho, a batata, o feijão, que, até meados do século XIX, foi o único legume que na Europa nunca sofreu os ataques de praga, pois sua larva não o acompanhara na travessia do Atlântico, o morando graúdo, o tomate, a quina, o amendoim, que se desenvolveu em seguida na África tropical, a coca e finalmente um narcótico leve, o tabaco. Já no século XVII, entre seus intoxicados, gozava o tabaco a fama de afastar as preocupações, de franquear os condutos e facilitar a circulação dos humores, de preservar dos resfriados, de desopilar o baço etc. Em muitos países era um monopólio do Estado e fonte de apreciável recurso fiscal.

Pipestone Quarries, Catlin

Sobretudo, a América alterou profundamente a vida européia com seus metais preciosos e sua repartição, por meio do grande comércio marítimo, entre as sociedades européias ainda apoiadas sobretudo na terra e na agricultura. [...] Lembremos simplesmente que, por sua influência sobre o movimento dos preços, os metais preciosos da América ritmavam toda a vida econômica, social, política e, por intermédio desta, toda a vida intelectual e religiosa da Europa nos séculos XVI e XVII. Toda a vida da Europa ficou em função da atividade das minas da América.

O conhecimento dos índios americanos apenas lentamente difundiu-se e influiu no pensamento. Tomemos o exemplo da França. Inicialmente, os homens do século XVI estavam mal informados a respeito das descobertas. Informações orais chegam com a volta das expedições. Apresentavam um caráter prático, acima de tudo, e não ultrapassavam o setor das cidades litorâneas. Para além recebiam-se apenas vagos rumores. Maior influência tiveram os índios que todos os capitães, nomeadamente, desde 1504, Jacques Cartier e Villegaignon, levaram consigo para provar a veracidade de seus relatos. Em 1550, na festa brasileira dada por ocasião da entrada de Henrique II em Ruão, figuravam 50 Tupinambás e 250 marinheiros capazes de representar o papel de selvagens. Em 1557, Henrique II distribuiu, aos grãos-senhores, indígenas enviados por Villegaignon. Em 1562, em Ruão, três Tupis-Guaranis foram presenteados a Carlos IX. Montaigne tentou conversar com eles por meio de um intérprete. Em 1564, quando da entrada do rei em Troyes, figuravam no desfile os representantes de diferentes nações selvagens. Muitos índios ficaram na França, integraram-se na civilização cristã pelo batismo, na sociedade mediante o casamento. O filho do Rei Arosca, o brasileiro Essonerico, fixou-se na Normandia, herdou o nome, títulos e parte dos bens de seu padrinho Binot Paulmier de Gonneville. Tais fatos provam a aptidão intelectual dos índios para assimilar a civilização européia e testemunham a favor da unidade da espécie humana e de seu futuro. Isto não significa que, se os índios viessem em grande número, a sociedade branca deixaria de ter reflexos de defesa contra estes concorrentes às herdeiras, às terras e títulos, e que esta mesma sociedade não segregasse as raças. De qualquer maneira, estes índios divulgavam certo conhecimento relativo à sua região de origem.

Narrativas de viagem aparecem a partir de 1515. Mas não permitem distinguir claramente que se tratava de um continente novo e as assertivas pareciam confirmar, para o leitor, as narrativas da Idade Média. Jacques Cartier, provavelmente, sem se dar conta disso, sugeriu a Donnacona as afirmativas deste sobre as pessoas que não comem, só têm uma perna e voam de árvore em árvore. Em 1575, o cosmógrafo Thevet declarava que, na América do Sul, havia homens que atingiam 12 a 15 pés de altura. Descrevia, baseado nos companheiros de Magalhães, um animal com cara de criança que apenas se alimentava de vento. E chegava a afirmar ter possuído um destes animais, durante um mês. Tais relatos não exerceram qualquer influência sobre os escritores. O público preferia as lendas medievais ou as descrições do Império Turco e das Índias Orientais. Publicou-se o dobro das obras e dez vezes mais brochuras sobre os turcos, que então ameaçavam a Europa e a cristandade, do que sobre a América.

Os franceses interessaram-se mais pela América quando os projetos de Coligny a fizeram entrar nas lutas religiosas. Mas procuravam nela menos conhecimentos do que material para polêmica e continuaram a interessar-se ainda mais pelo Império Turco e pela Ásia. Entre 1580 e 1609, editam-se 80 brochuras sobre os turcos, 100 sobre os demais asiáticos e 40 sobre a América. Não obstante, as cartas de Nicolas Barre, companheiro de Villegaignon (1556), as obras do franciscano André Thevet (1557-1584), a Viagem, publicada em 1578, do pastor Jean de Léry, que se demorou dez meses na Ilha dos Franceses em 1557-1558, vulgarizaram as informações dadas pelos intérpretes, 20 a 25 franceses que haviam adotado os costumes indígenas e os apresentavam de maneira favorável. Obnubilados pela lenda da idade do ouro, desejosos de dar uma lição a seus compatriotas considerados maus cristãos, os humanistas buscaram nestes escritos, nos de Las Casas e de sua progenitura espiritual, nas conversas, falseadas pelos intérpretes, que puderam manter com os índios levados à França, os elementos da lenda do “bom selvagem”.

Montaigne é o mais notável desses autores. No capítulo “Do Costume”, utiliza os selvagens para mostrar as contradições humanas, escarnecer da família, da propriedade e da religião, declarar os costumes e a moral como outros tantos preconceitos. Recusa-se a ver que não existem contradições, mas simplesmente reações naturais a situações diferentes.

No “Dos Canibais”, declara a sociedade selvagem como a mais pura, por haver permanecido mais próxima das leis naturais. Escreve que os índios não se servem de vinho, que não praticam o comércio, que são dados ao ócio, que dançam para se distrair, que suas guerras são desinteressadas e empreendidas com o objetivo de conquistar glória. Esquece, é claro, sua tendência à embriaguez, sua sodomia, é indulgente para com seus incestos e desculpa sua antropofagia institucional, sob o fundamento de que os europeus, levados pela paixão, chegaram a queimar vivos os seus inimigos. Para ele, os selvagens deveriam servir-nos de modelos: nós é que somos os bárbaros.

O “bom selvagem”, este personagem mítico, que vive em liberdade, seguindo sua natureza, guiado por seu prazer, ocioso, despreocupado inocente, sem malícia, sem propriedade, sem governo, alegre, feliz, estava destinado a uma espantosa fortuna. Caber-lhe-ia abrir caminho para os libertinos Pierre Charron, La Mothe Le Vayer, contribuir para o abalo dos espíritos e para a crise do século XVII, inspirar em seguida os “filósofos” e os anticolonialistas do século XVIII, para triunfar com Jean-Jacques Rousseau. A corrente de ideias provenientes da América contribuiria para orientar a civilização européia, movida pelo ouro e pela prata americanos.


MOUSNIER, Roland. Os séculos XVI e XVII: a Europa e o mundo. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1995. p. 141-144. (História geral das civilizações, v. 10)

NOTA: O texto "Influência da América sobre a Europa" não representa, necessariamente, o pensamento deste blog. Foi publicado com o objetivo de refletirmos sobre a construção do conhecimento histórico.

sábado, 1 de março de 2014

Pindorama - Os donos da terra

"Antigamente não havia civilizados, mas apenas índios. Uma mulher indígena ficou grávida. Toda vez que ela ia tomar banho no ribeirão próximo da aldeia, seu filho, que ainda não havia nascido, saía de seu ventre e se transformava em animais, brincando à beira da água. Depois voltava outra vez ao ventre materno. A mãe não dizia nada a ninguém. Uma dia o menino nasceu. Era Aukê. Ainda recém-nascido, transformava-se em rapaz, em homem adulto, em velho. Os habitantes da aldeia temiam os poderes sobrenaturais de Aukê e, de acordo com seu avô materno, resolveram matá-lo. As primeiras tentativas de liquidá-lo não tiveram sucesso. Uma vez, por exemplo, o avô o levou ao alto de um morro e empurrou-o de lá no abismo. O menino, porém, virou folha seca e foi caindo devagarinho, voltando são e salvo para a aldeia. Até que o avô resolveu fazer uma grande fogueira e nela atirá-lo. Dias depois, quando foi ao local do assassinato para recolher as cinzas do menino, achou lá uma casa grande de fazenda, com bois e outros animais domésticos. Aukê não havia morrido mas, sim, transformara-se no primeiro homem civilizado. Aukê ordenou, então, ao avô que fosse buscar os outros habitantes da aldeia. E eles vieram. Quando Aukê os fez escolher entre a espingarda e o arco, os índios ficaram com medo de usar a primeira, preferindo o segundo. Por terem preferido o arco, os índios permaneceram como índios. Se tivessem escolhido a espingarda, teriam se transformado em civilizados. Aukê chorou com pena dos índios não terem escolhido a civilização." (MELATTI, J. C. Índios do Brasil. 1970. p. 27-8)

Aí está resumido o mito das várias tribos Timbira, do grupo Jê, que habitam o sul do Maranhão e o norte de Goiás, a respeito da origem dos brancos. Os nativos revelam em suas lendas uma história de dominação, de subordinação perante os europeus. E a atitude dos primeiros donos da nossa terra diante dos civilizados é parecida com a de muitos outros grupos tribais do continente em relação aos conquistadores, tidos como seres excepcionais: cavalo e cavaleiro num só corpo! Demônios donos do raio e do trovão - gerados por seus canhões.


Banquete funerário dos índios Bororó. Brasil Central. Wilhen Kuhnert

O mito dos Timbira diz que "antigamente não havia civilizados, mas apenas índios". Esse "antigamente" vai muito além do que pensamos. As pesquisas já permitem dizer que desde 8000 a.C. grupos humanos habitam a parte do continente sul-americano que hoje constitui o Brasil. Machados e martelos de pedra, pedaços de cristal de quartzo e ornamentos de conchas encontrados na região de Lagoa Santa, atual Estado de Minas Gerais, foram examinados e deram base a essa afirmação.

Mas isso não quer dizer que o ser humano é originário da América. Ele teria chegado ao nosso continente em sucessivas migrações, através do estreito de Bering, principalmente. Acredita-se que os primeiros homens a chegar à América do Norte, oriundos da Ásia, eram simples caçadores. Isso há mais de quarenta mil anos! Na região Ártica está o último grupo a chegar: o dos esquimós.


Índios brasileiros no mapa "Terra Brasilis". Atlas Miller, ca. 1519

E os povoadores do Brasil? Quase nada se sabe sobre a vida humana aqui até a chegada dos europeus. Isso é muito ruim, pois passamos a analisar tudo com noções criadas pelos colonizadores, que sempre se consideraram superiores aos nativos. O próprio termo índio, por exemplo, é uma criação dos espanhóis, fruto de um engano dos que se imaginavam nas Índias...

Para os diferentes grupos tribais que viviam aqui não existia Brasil. A nação de um índio é a sua terra, é a área onde ele vive com sua tribo. É Pindorama, a terra das palmeiras, para uns, é Piratininga para outros e assim por diante. Como disse um chefe Seattle ao presidente norte-americano em 1855, "somos parte da terra e ela é parte de nós".


Dança em frente ao tronco. Festa do Kuarup, na aldeia Kamayurá. Alto Xingu (MT). Foto: Marcello Casal Jr. Agência Brasil

Os grupos tribais mais importantes eram os do tronco Jê, Nu-aruak e Karib, além do Tupi. Não podemos generalizar os costumes dos Tupi para todos os outros grupos. Isso aconteceu porque foi com as tribos do tronco Tupi que os colonizadores tiveram o primeiro contato. Disso resultou que muitos indígenas aprenderam o tupi-guarani com missionários portugueses, pois não falavam essa língua. E, embora tivessem outras divindades, foram catequizados para crer em Tupã, o ser sobrenatural que, segundo a crença tupi, controlava o raio e o trovão.

Assim como os Tupi não eram o único grupo tribal brasileiro, havia na América pré-colombiana um grande número de povos, com modos de vida bastante diversos. Uma enorme riqueza e variação em matéria de vida social! Os Asteca, os Inca e os Maia realizaram magníficas obras arquitetônicas e artísticas e construíram grandes cidades, como Tenochtitlán, Cuzco e Chichén Itzá, além de conhecerem eficientes técnicas de irrigação e fertilização do solo. Povos como os Jê, os Charrua e os Esquimó, por outro lado, eram nômades ou seminômades, extremamente hábeis na pesca, na caça, na coleta ou na prática de uma agricultura simples.

Foi com os nativos da América que os europeus conheceram o tabaco, o cacau, o milho, o tomate e a batata. Cada sociedade indígena que os conquistadores "conheciam" tinha um novo mundo a revelar.

[...]

Em geral, os nativos do Brasil viviam - e os remanescentes ainda vivem - em regime de comunidade primitiva. A terra pertence a todos e cada casal faz uma roça, de onde extrai alimentos para si e seus filhos. Quando aquele pedaço de terra é abandonado, outros podem utilizá-lo. Arcos, flechas, machados de pedra e outros instrumentos de trabalho, quase sempre rudimentares, são de propriedade individual. A divisão das tarefas de sobrevivência é natural, isto é, por sexo e por idade. Todos trabalham! As mulheres cozinham, cuidam das crianças, plantam e colhem, ajudando diariamente os homens, nesse caso. Estes participam de atividades guerreiras, da caça e da pesca, da derrubada da floresta para fazer a lavoura. Troncos e tocos são queimados antes da semeadura: é a coivara, método que até hoje é utilizado no campo brasileiro.


Aldeia de caboclos, Jean-Baptiste Debret

Uma sociedade organizada dessa maneira não tem classes sociais. O trabalho para a sobrevivência também cabe aos chefes de aldeias, unidades políticas independentes que compõem as tribos. O índio é tão consciente de sua função social que muitos velhos preferem isolar-se do resto do grupo, para não atrapalhá-lo. [...]

Numa sociedade sem classes, a competição não é tão acirrada. Isso explica a forma curiosa como os índios Kanela terminam suas partidas de futebol, jogo que aprenderam com o branco: sempre fazem o possível para dar empate.

Vivendo solidariamente, a penúria de um é a de todos e a fartura chega também para toda a tribo. Assim, nas épocas de escassez, todos emagrecem, voltando ao peso normal nos períodos de abundância. Por isso, se entende o espanto dos índios, neste relato do sertanista Chico Meirelles:

"Quando levei os Xavante ao Rio de Janeiro pela primeira vez, eles quiseram saber de onde vinha nossa comida. Levei-os ao mercado, onde existe uma quantidade enorme de frutas e legumes, mas também existe uma multidão de crianças e velhos catando comida no lixo. Eles me perguntaram como que nós, tão ricos, que dávamos presentes a eles, permitíamos aquele espetáculo. A cena foi um choque para eles. Muitas vezes a camisa que damos ao índio, ele entrega a um trabalhador." (Revista Veja, 23/05/1973)

Numa sociedade com pequeno desenvolvimento técnico, a produção de excedentes é reduzida. Por isso, as trocas são poucas, quase que só existindo no caso de um grupo produzir o que o outro não tem. As trocas rituais servem para estreitar os laços de amizade e isso é feito também com os brancos, conforme comprova o interessante relato de Meirelles:

"No fim da tarde, reúno sanfoneiro, tocador de cavaquinho, de pandeiro, começo a fazer barulho. Passado algum tempo, os índios chegam perto e - sem sair a mata - imitam onças, guarás, gaviões. É fácil perceber que são índios, pois não é possível aparecer tanto bicho diferente de uma só vez... Com os Cinta-Larga, um dos presentes que deixamos foi meia dúzia de cachorrinhos, nascidos em nosso acampamento. Eles ficaram malucos com os animais, mas não sabiam como pedir mais cachorros. Sabe o que fizeram? Pegaram um camaleão, cortaram o rabo e deixaram amarrado numa árvore. Existe muito camaleão na floresta e eles não precisam dessa bicho. Deixei, então, mais cinco cachorros e, quando voltamos, já tinham pegado os cães e havia mais de cem camaleões amarrados nas árvores!"

Nada mais eficiente do que a educação entre os índios. Os curumins aprendem e se divertem ao mesmo tempo: conhecer não é algo desligado da vida, como hoje em dia acontece muitas vezes conosco. As indiazinhas brincam com bonecas, os meninos flecham calangos e passarinhos com pequenos arcos. Nesses jogos infantis, eles imitam os adultos. E os ajudam também: as meninas menores tomam conta de irmãos pequeninos, as maiores mastigam as raízes com que se fazem as bebidas. Os meninos, muitas vezes junto com os velhos, carregam armas e caças ou espantam os pássaros das roças, nas vésperas das colheitas. O valor que os nativos dão aos seus filhos está comprovado num simples exemplo: em muitas tribos os adultos só conversam com as crianças acocorados, ficando assim em pé de igualdade com elas.

Em suma, um universo diferente do nosso. Hoje já se revê tudo que se disse preconceituosamente sobre o "atraso" e a "preguiça" dos índios. E nem todos acham importante "integrar o índio à civilização". Uma grande autoridade no assunto, o sertanista Orlando Villas Boas, criador do Parque Nacional do Xingu, comenta:

"Que diferença enorme entre as duas humanidades: uma tranquila, onde o homem é dono de todos os seus atos; outra, uma sociedade em explosão, onde é preciso um aparato, um sistema repressivo para poder manter a ordem e a paz. Se um indivíduo der um grito no centro de São Paulo, uma rádio-patrulha poderá levá-lo preso. Se um índio der um tremendo berro no meio da aldeia ninguém olhará para ele, nem irá perguntar por que ele gritou. O índio é um homem livre." (Revista Visão, 10 fev. 1975)

A vida em Pindorama era extremamente oposta à do nosso país de hoje. Talvez por isso o escritor paulista Oswald de Andrade (1890-1954) tenha afirmado que "antes dos portugueses descobrirem o Brasil, o Brasil tinha descoberto a felicidade..."

Não podemos, entretanto, mitificar o índio, imaginando-o um ser humano perfeito e suas tribos o paraíso na terra. Como qualquer sociedade, a comunidade primitiva tem suas "falhas": em muitos casos a mulher é discriminada, por vezes ocorrem guerras violentas entre grupos e a solidariedade quase sempre provém mais das adversidades da natureza do que de uma escolha racional. O que não existe é a exploração de uma classe por outra, e isso traz consequências positivas para todo o corpo social.

ALENCAR, Francisco [et alli]. História da sociedade brasileira. Rio de Janeiro: Ao Livro Técnico, 1996. p. 4-8.

NOTA: O texto "Pindorama - Os donos da terra" não representa, necessariamente, o pensamento deste blog. Foi publicado com o objetivo de refletirmos sobre a construção do conhecimento histórico.

domingo, 10 de novembro de 2013

O escândalo das Bacanais 2: abordagens [um escândalo religioso revelado]

O retumbante escândalo das Bacanais, que foi relatado por Tito Lívio com todos os detalhes, é confirmado no século XVII com a descoberta, na Calábria, de uma placa de bronze com o texto gravado do senátus-consulto, condenando a seita das bacantes em outubro de 186 a.C. É possível dar crédito a esse relato cujos personagens e peripécias se assemelham às intrigas dos melodramas tão apreciados pelos contemporâneos de Tito Lívio? O autor apresenta apenas as peças da acusação, que não procura relativizar. É, portanto, a versão oficial do escândalo que ele nos conta. Apesar de algumas improbabilidades, contudo, o relato de Tito Lívio tem o mérito de ser o único documento literário relativo aos mistérios dionisíacos em Roma.


"Esses charlatães se haviam instalado em Roma, auferindo, do desvio dos espíritos, lucros fáceis [...]"

Triunfo de Baco. Mosaico romano, século II

O affaire das Bacanais revela claramente a propagação em Roma dos movimentos filosófico-místicos a partir do final do século III a.C. Durante os primeiros anos da segunda guerra púnica, os romanos sofreram uma série de derrotas espetaculares que permitem a Aníbal e aos exércitos púnicos ocupar a Campânia. Numerosos italianos do sul da península e da Sicília vão se refugiar em Roma e se misturam com a plebe da cidade. Trazem consigo novos deuses, novas superstições, novas técnicas para conjurar a sorte. Os romanos, desorientados por suas derrotas e temendo que Aníbal se apodere de sua cidade, encontram nessas crenças estrangeiras respostas a suas interrogações sobre o futuro que pode lhes conceder novamente esperança. "Não era mais somente em segredo, escreve Tito Lívio, e dentro das casas que os ritos romanos eram abolidos. Em público, no Fórum, no Capitólio, via-se uma multidão de mulheres não observar nem em seus sacrifícios nem em suas orações aos deuses os costumes de seus pais. Sacrificadores, adivinhos se haviam apoderado de seus espíritos. Seu número aumentou graças à afluência da plebe camponesa expulsa, pela pobreza e pelo medo, de seus campos, que se haviam tornado incultos e perigosos por causa de uma guerra prolongada. Esses charlatães se haviam instalado em Roma, auferindo, do desvio dos espíritos, lucros fáceis e enriqueciam com essas práticas como pelo exercício de um ofício permitido."

Um capricho arquitetônico com uma procissão bacariana, Giovanni Benedetto Castiglioni

As autoridades romanas se inquietam com esses desvios religiosos que ameaçam a ordem. Mandam recolher todos os livros de profecias e as fórmulas de orações para queimá-los em público. Ao mesmo tempo, para restabelecer a confiança nos cultos oficiais, são adotados às pressas novos cultos ou, então, retorna-se aos ritos arcaicos: voto de uma "primavera sagrada" (velha prática do culto a Marte), anseios por santuários dedicados a Mens (deusa da inteligência) e a Vênus Encina (divindade greco-púnica), sacrifícios humanos de um casal de gauleses e de um casal de gregos enterrados vivos, dedicação de jogos a Apolo etc. Essa sequência heteróclita de medidas traduz o embaraço e a impotência das autoridades em dominar a efervescência religiosa dessa época. Além disso, essas intervenções oficiais não podem refrear o sucesso das crenças e dos cultos vindos de outros lugares, importados para Roma mais ou menos clandestinamente. Deuses estrangeiros (o grego Dioniso, o trácio Sabázio) e correntes místicas como o pitagorismo seduzem os romanos que duvidam da eficácia da religião oficial. Todos esses novos movimentos têm como objetivo dirigir-se a cada indivíduo em especial, e não mais à coletividade.

Bacanal, Lovis Corinth

Essas preocupações religiosas se incluem também na luta interna que se origina no seio da nobreza romana perante a expansão do helenismo. Durante a segunda guerra púnica, Aníbal, instalado na região de Cápua, assina tratados com as cidades da Campânia, da Sicília e com o rei da Macedônia. Favoráveis até então aos costumes e aos modos gregos, os romanos veem doravante no helenismo um perigo. Duas correntes antagônicas existem no seio da nobreza. Uns tratam com rigor tudo o que vem da Grécia e pregam o respeito absoluto da tradição nacional. Outros, abertos aos aportes externos, pedem mudança e abertura às influências gregas e orientais. Fabius Maximus Verruscosus, dito Cunctator, durante a segunda guerra púnica, depois Catão, o Velho, no início do século II, reúnem em torno deles os nacionalistas intransigentes opostos a qualquer modificação do mos maiorum (costume dos antepassados) e hostis ao imperialismo romano. Em contrapartida, os filo-helênicos, dentre os quais os mais ativos são os Cipiões e os Emílios, desejam a expansão romana para além das fronteiras da Itália. Muito influentes, no início do século II, levam a guerra contra a Macedônia e, após a vitória de Cinoscéfalos, o filo-helênico Flamínio declara a liberdade da Grécia em 196 a.C. Os conservadores retomam a vantagem a partir de 190 a.C. e não é surpreendente constatar que Catão, o Velho, obtém a censura - a mais alta magistratura romana - no ano que se segue ao escândalo das Bacanais.


Bacantes, Lovis Corinth

O culto de Dioniso é antigo, visto que foi trazido pelos gregos por ocasião da conquista do sul da península no século VII a.C. Depois, tiasos (confrarias mais ou menos secretas consagradas a um deus) se multiplicaram e se difundiram por toda a Itália. O sucesso da seita dionisíaca é garantido pela promessa de imortalidade a seus adeptos. Esses tiasos não conservaram os rituais arcaicos do culto, como as corridas desenfreadas dos bacantes brandindo seus tirsos, dardos encimados por uma pinha, ou o desmembramento com as próprias mãos das vítimas das quais consomem a carne crua. Essas práticas bárbaras não são mais observadas pelos fiéis do deus que se reúnem em pequeno número em santuários onde celebram os ritos de iniciação.

A bacanal, Peter Paul Rubens

Para as bacantes, o menino Zagreus, filho de Zeus e de Semela, foi criado por Hera, que ordena aos Titãs despedaçá-lo e comê-lo. Zeus consegue recuperar pedaços de Zagreus e o regenera, de onde provém o novo nome do deus, Dioniso, "duas vezes nascido". Os fiéis, pela iniciação aos mistérios, podem sair de seu "eu" corporal para se comunicar com o deus numa exaltação mística, o extasis (êxtase), que é obtido pela absorção de vinho e drogas. O futuro iniciado é posto nessas condições pelas danças das mulheres, pelos urros misturados aos sons lancinantes dos tamborins e címbalos. Máquinas de teatro permitem simular as descidas aos Infernos que precedem a descoberta da revelação do deus Baco a seus fiéis e que lhes promete a imortalidade.

A decadência dos romanos, Thomas Couture

Tito Lívio mostra-se pouco preciso sobre as condições de instalação do tiaso de Baco em Roma. Segundo ele, um homem miserável e inculto, "um mesquinho sacerdote grego, um contador de aventuras", vem da Etrúria para fundar uma seita clandestina. Mais adiante, evoca a sacerdotisa campana Pacula Ânia que introduz modificações no ritual. Essas duas origens do tiaso não são incompatíveis. Em 186 a.C., muitos etruscos e habitantes da Campânia se misturaram com a plebe romana. É necessário acrescentar a eles os prisioneiros gregos trazidos para Roma depois da primeira guerra da Macedônia e da expedição na Síria (200-197 a.C.).

O triunfo de Baco, Nicolas Poussin

Tito Lívio faz também uma análise interessante dos "danos" causados pelas cerimônias da casa do Aventino. A vizinhança começa a se queixar do barulho noturno dos adeptos de Dioniso. Na esteira dos comentários, os bacantes são acusados de liberar seus instintos perversos em uniões proibidas. Uma vez que os rumores crescem a respeito, eles são vistos como trapaceiros, falsificadores de testemunhos e de testamentos e, por fim, criminosos que encobrem, pela algazarra de seus gritos e de seus instrumentos de música, os urros de suas vítimas. Não é muito original, pois nisso se vislumbra o arsenal habitual das calúnias que cercam as sociedades secretas.

Dioniso segurando um cântaro. Cerâmica grega.

A rapidez da reação de Postúmio prova que ele já conhece há mais tempo a seita dos bacantes e refletia a respeito dos meios a utilizar para erradicar o culto dionisíaco. É mais que provável que ele faça parte dos conservadores e que tenha se aproveitado da aventura de Ebúcio e de Híspala para pôr, de maneira espetacular, um freio à penetração das crenças estrangeiras em Roma. É provável que o tiaso do Aventino não tivesse mais que uma dezena de fiéis, sem dúvida inofensivos. Ao demonizar os bacantes em seus discursos perante o Senado e o povo, consegue fazer com que todos os romanos aceitem a campanha de depuração desse grupo religioso acusado de tramar contra a ordem da cidade.

Dioniso. Mosaico romano

A repressão é terrível, primeiramente em Roma, depois em toda a Itália. Para evitar serem acusados, muitos denunciam seus parentes e seus vizinhos. Homens e mulheres se suicidam para escapar do castigo, Outros tentam fugir de Roma, mas são detidos pelas patrulhas que vigiam as portas da cidade. Todos os negócios em curso são interrompidos para dar lugar a tribunais de exceção. Mais de 7 mil pessoas, homens e mulheres de todas as condições sociais, são detidas em Roma e seria caso de se questionar quantas delas realmente pertenciam à seita dionisíaca. Aqueles que se contentaram em repetir as fórmulas sagradas são encarcerados, os culpados de libertinagem, de crimes e de trapaças são condenados à pena capital. As mulheres são devolvidas a seus pais ou a seus maridos para que sejam mortas na casa deles em virtude do arcaico direito do páter famílias. Na Itália, a investigação dura mais de cinco anos e se traduz também por milhares de condenações. Um senátus-consulto regulamenta com toda a severidade o culto de Baco para impedir a reconstituição dos tiasos: interdição das reuniões secretas e dos juramentos, limitação da assembleia a cinco pessoas: três mulheres e dois homens.

Mosaico romano: Baco, Arianna, Sileno e Sátiro. Século II d.C.

O escândalo das Bacanais assinala provisoriamente um duro golpe à penetração do helenismo em Roma. Por meio dele, a parte mais conservadora do Senado impôs de maneira sangrenta o retorno aos valores nacionais.

SALLES, Catherine. (Dir.). Larousse das civilizações antigas 3: das Bacanais a Ravena. São Paulo: Larousse do Brasil, 2008. p. 238-239.

segunda-feira, 15 de julho de 2013

Minos: lenda e realidade

Essa grandeza, o desabrochar durante séculos de uma civilização excepcional por sua arte e qualidade de vida, a prosperidade da ilha evocada por Homero - "Bela, rica, bem-irrigada, ela possui homens em número infinito e noventa cidades" -, o poder de sua marinha, que põe termo às piratarias no mar Egeu, a difusão e o prestígio de seus produtos, tudo isso está na origem da lenda de Minos. Filho de Zeus Astério, simbolizado por um touro, e da bela Europa, Minos foi o sábio soberano a quem seu pai ditava, numa gruta do monte Iouktas, leis admiráveis. Outras personalidades lendárias o cercam, a maioria com um significado religioso: Pasifaeia, sua esposa, o Minotauro, Ariadne e Fedra, seus filhos, Radamanto, seu irmão, que se torna juiz dos Infernos com Éaco e o próprio Minos. Culto, amante das coisas belas, Minos atraía para perto e si artistas, como o universal Dédalo, autor do Labirinto e da vaca de bronze onde Pasifaeia, loucamente apaixonada por um touro divino, concebeu o monstruoso Minotauro, Dédalo cuja evasão trágica com o filho Ícaro arrastou Minos, em sua furiosa perseguição, até a Sicília, onde morreu depois de ter fundado um reino.

Minotauro. Cerâmica grega. Ca. 515 a.C.
 Foto: Marie-Lan Nguyen


Lenda, é verdade, mas baseada parcialmente em fatos reais. Havia, ainda na época clássica, cidades e feitorias chamadas Minoa em quase toda a costa do Mediterrâneo oriental. O que as escavações de Cnossos e dos outros sítios cretenses nos informam sobre o rei-sacerdote, sobre o importante papel do touro na religião e na simbólica, sobre a planta complicada, a rede de salas e corredores do palácio (donde o mito do Labirinto) corresponde a muitos traços dessa lenda. As principais ressalvas a fazer dizem respeito à cronologia: os atenienses consideravam Minos contemporâneo de Teseu (século XIII), Heródoto remonta-o ao século XIV, mas é provável que os antigos tenham simbolizado num personagem único toda a série de soberanos que fizeram no segundo milênio a grandeza de Creta e que tinham provavelmente o nome de Minos, seja como título, seja como nome dinástico, conservado de pai para filho.

GABRIEL-LEROUX, J. As primeiras civilizações do Mediterrâneo. São Paulo: Martins Fontes, 1989. p. 39-40.

quinta-feira, 18 de abril de 2013

A origem do milho [Relato Kaingang]

๏๔ Mito dos Kaingang do Paraná ๔๏
๔๏



Nossos antepassados alimentavam-se de frutas e mel. Quando estes faltavam, sofriam de fome. Um velho de cabelos brancos, de nome Nór, ficou com dó deles.

Um dia disse a seus filhos e genros que com cacetes fizessem uma roçada nos taquarais e a queimassem. Feito isso, disse aos filhos que o conduzissem ao meio do terreno roçado.

Ali se sentou e disse aos filhos e genros:

- Tragam cipós grossos.

Quando trouxeram, disse-lhes o velho:

- Agora vocês amarrem os cipós no meu pescoço e arrastem-me pela roça em todas as direções. Quando estiver morto, enterrem-me no centro dela e vão para o mato durante três luas. Quando voltarem, passado esse tempo, acharão a roça coberta de frutos, que, plantados todos os anos, livrarão vocês da fome.

Eles principiaram a chorar, dizendo que tal não fariam. Mas o velho disse:

- O que ordeno é para o bem de vocês. Se não fizerem o que mando, viverão sofrendo e muitos morrerão de fome. E, além disso, já estou velho e cansado de viver.

Então, com muito choro e gritos, fizeram o que o velho lhes mandara e foram para o mato comer frutas.

Passadas as três luas, voltaram e encontraram a roça coberta de uma planta com espigas, que é o milho, além do feijão grande e da moranga. Quando a roça ficou madura, chamaram todos os parentes e repartiram com eles as sementes.

É por isso que temos o costume de plantar nossas roças e depois comer frutas e caçar por três ou quatro luas.

O milho é nosso, aqui da nossa terra. Não foram os brancos que o trouxeram da terra deles. Demos ao milho o nome de nór, em lembrança do velho que tinha esse nome e, com seu sacrifício, o produziu.

GUARANI, Emerson; PREZIA, Benedito. A criação do mundo e outras belas histórias indígenas. São Paulo: Formato Editorial, 2011. p. 35.

terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

A relação Mito-História

Júpiter e Tétis, Ingres

Você conhece a Mitologia grega?

E sabe o que é um mito?


O Homem, no seu enfrentamento diário com a Natureza e com os outros homens, tem necessidade de compreender os fenômenos que ocorrem à sua volta: sua atuação, tanto do ponto de vista individual quanto social, exige um conhecimento do mundo que o rodeia. Não sabemos quando, onde, como e por quem foi lançada pela primeira vez a pergunta por quê? No entanto, podemos constatar que os homens sempre procuraram respondê-la, isto é, sempre procuraram compreender os fenômenos.

Sabemos que, em contextos culturais mais primitivos, o Homem se vincula à vida através de uma percepção predominantemente sensorial. É extremamente dependente do meio ambiente: os problemas de sobrevivência lhe tomam todo o tempo; todo os seus sentidos e seu pensamento estão voltados para isso. E não poderia ser de outra forma. Por isso, o Homem primitivo apenas simboliza: criando um conjunto de símbolos para representar a realidade, ele dá respostas aos porquês; as magias, os totemismos, os mitos nada mais são do que uma expressão desse esforço de compreensão do mundo. Portanto, todo o grupo humano no seu enfrentamento com o mundo cria cultura, isto é, cria objetos, para satisfazer a suas necessidades físicas e materiais, e cria ideias, para satisfazer a suas necessidades intelectuais.

Então, o que você pode concluir?

Toda cultura tem sua forma de explicar a realidade. O que varia é a forma de apreensão dessa realidade, e isso depende das possibilidades de o Homem, em uma dada sociedade, com determinadas condições de vida, tomar consciência de si mesmo, de tudo que o cerca e de sua historicidade. Logo, o mito é uma explicação do mundo, fruto de uma apreensão sensorial-afetiva. É uma explicação que incorpora todos os fenômenos em um contexto transcendental, heróico, divino, mágico...

E, o que é mais importante: os mitos, as magias, os totemismos são explicações do mundo vividas e compartilhadas por todos os elementos de um grupo, em um estágio de comunidade primitiva onde o regime de propriedade é coletivo. Assim, a produção intelectual dessas sociedades significa um esforço de compreensão do mundo, cujo resultado é transmitido através de uma linguagem inteligível para todos no grupo... É, sem dúvida, um estágio de pensamento que ainda hoje convive conosco, mesmo nos grandes centros urbanos... Por quê?

Repare! Quando perguntamos se você conhece a Mitologia grega é porque ela representa um primeiro estágio de explicação do mundo dentro da nossa cultura. Estágio que, longe de ser superado, sobrevive simultaneamente com explicações presididas pelo logos, isto é, por uma apreensão racional.

Ora, qual o significado de uma apreensão racional? Quais as condições necessárias ao seu surgimento?

Quando o grupo humano, vivendo sob o regime da comunidade primitiva, conseguiu, através de um aperfeiçoamento técnico, produzir um excedente econômico, criou condições para maior divisão do trabalho. Evidentemente, os elementos do grupo que passaram a ter por função o controle desse excedente econômico assumiram um poder de coação sobre os demais membros do grupo. Ora, essa minoria, cujo trabalho passou a se fundamentar em tarefas de organização e administração, sentiu a exigência de um maior nível de abstração da realidade, além da necessidade de escrever para registrar os dados importantes. Daí, compreendemos que a própria racionalização começava a ser mais uma forma de exercício do poder dessa minoria em relação aos demais membros do grupo, de vez que a linguagem utilizada para expressar os resultados de seus esforços de compreensão do mundo não mais era compartilhada por todos os membros do grupo.

Percebeu, então, quanto é importante para nós, homens do século XXI, procurarmos reviver todos esses momentos de nossa cultura?

Se desejamos realmente crescer como seres humanos, amadurecer emocional e intelectualmente, precisamos superar etapas. Mas isso só será possível quando a totalidade dos homens puder viver todos os níveis de abstração de sua cultura.

O ato de conhecer, que existe no Homem como essência mesmo - na medida em que sem o conhecimento do mundo não poderia sobreviver (sem conhecer as utilidades do fogo, por exemplo, ele não poderia usá-lo) - passou a ser considerado um saber que, se tornando atributo de alguns poucos "eleitos", fez surgir as figuras do sábio, do filósofo, do cientista... Aprofundou-se a hierarquia e a dicotomia entre os que sabiam e os que não sabiam. Na verdade, a dicotomia era entre os que possuíam e os que trabalhavam...

Agora, preste atenção! Voltemos ao termo "História". Evidentemente, a História não foge à análise que fizemos até aqui. A princípio, você pode imaginar, a História esteve associada às lendas e aos mitos, revividos por todos os elementos do grupo através de rituais. Era a forma de o grupo manter viva na lembrança de todos a História - as tradições culturais transmitidas oralmente. Aos poucos, no entanto, foi-se tornando um saber: a vida vivida por todos a ser revivida por alguns através da palavra escrita. E o saber histórico, isto é, a forma de conhecimento da realidade, assumida como ofício por alguns elementos da nossa cultura, é, aqui, o objeto de nossas preocupações.

[...]

AQUINO, Rubim Santos Leão de et alli. História das sociedades: das comunidades primitivas às sociedades medievais. Rio de Janeiro: Imperial Novo Milênio, 2008. p. 39-41.

domingo, 16 de setembro de 2012

Os deuses da Grécia e sua mitologia

Posêidon

Os poemas homéricos contribuíram para fixar a aparência física dos deuses gregos e suas atribuições. O universo se organiza entre os deuses do Alto (o Céu) e os deuses de Baixo (os Infernos). Os doze deuses principais que vivem no Olimpo têm, cada um, um domínio de ação privilegiado. Todos têm um elemento físico característico (a barba de Zeus e de Posêidon, os longos cachos de Apolo) e atributos distintivos (o raio de Zeus, o arco e a flecha de Ártemis, o caduceu de Hermes). Os gregos estão familiarizados com a representação dos deuses, cujas estátuas cultuais ornam os templos. Ao lado dos doze deuses estão os "heróis", homens que, por suas brilhantes ações, se tornaram iguais aos deuses, como Hércules que realiza doze trabalhos para eliminar os monstros da Terra, Teseu que mata o Minotauro, Jasão que conduz a expedição dos Argonautas em busca do Tosão de Ouro etc. Os diferentes episódios das lendas relativas aos deuses e aos heróis bem como os poemas homéricos, a Ilíada e a Odisseia, forneceram aos artistas um repertório inesgotável de motivos para os vasos e os baixo-relevos.

SALLES, Catherine. (dir.) Larousse das antigas civilizações: da Babilônia ao Exército Enterrado Chinês. São Paulo: Larousse, 2008. p. 142.

domingo, 2 de setembro de 2012

Mito ou realidade? A Atlântida de Platão

Afresco da Idade do Bronze em Santorini (Grécia): rebanhos, pastores, guerreiros e um naufrágio

Os arqueólogos já encontraram muitas cidades perdidas. Isto significa que toda civilização perdida foi real? Significa, por exemplo, que os cientistas ou exploradores algum dia encontrarão a nação submersa de Atlântida? Opa. Eu disse Atlântida? Não há espaço [...] para entrar nem em uma pequena fração das teorias sobre onde ficava e o que foi Atlântida - se é que ela existiu [...].

Cabeça feminina,  c. 2800-2300 a.C.

Crianças boxeando, afresco (Akrotiri)



A história do continente perdido de Atlântida descreve uma terra de paz e fartura destruída por um cataclisma repentino. A história data dos escritos do filósofo grego Platão (por volta de 428 - 347 a.C.), que usou Atlântida para explicar a relação entre a ordem social e o bom governo. Mas a descrição de Platão abre espaço para interpretações e as pessoas vêm interpretando há mais de 2000 anos.

Harpista, c. 2800-2700 a.C.


Se Atlântida não ficava no Oceano Atlântico, logo após Gibraltar, saindo do Mediterrâneo (e a geologia parece apontar que ela não poderia ficar lá), então, onde ela ficava? Historiadores, arqueólogos, místicos e profetas autodeclarados discutem ferozmente sobre o local. Suposições contrárias colocam o continente perdido em toda parte, desde a Inglaterra até o Triângulo das Bermudas e a Bolívia, do Colorado até o Mar da China. Uma das teorias afirma que Atlântida ficava em outro planeta. E há histórias em quadrinhos que ilustram Atlântida dentro de uma enorme bolha de plástico no fundo do oceano. Praticamente todas as teorias devem levar em consideração o fato de Platão ter pego a história de Atlântida indiretamente de um estadista ateniense, Sólon, que, supostamente, a pegou com sábios em uma visita ao Egito, em aproximadamente 590 a.C. Como Platão escreveu sua versão quase dois séculos depois, por volta de 360 a.C., os detalhes podem ter mudado ao longo do percurso, ou pelo menos é o que creem muitos buscadores de Atlântida.

Garoto nu, afresco em Santorini (Grécia)


Uma das teorias menos absurdas é a de que a história da Atlântida é uma interpretação do desastre vulcânico que destruiu Santorini, uma ilha do Mediterrâneo. Arqueólogos e geólogos modernos estudaram o modo como o cataclisma de Santorini provocou um monstruoso tsunami, seguido pelo escurecimento do céu por causa das cinzas, e que devastou a civilização Minoana nas proximidades de Creta.

Figura masculina, c. 2800-2300 a.C.


Santorini (também conhecida como Thera) fica a aproximadamente 72 quilômetros ao norte de Creta, que era o centro da cultura Minoana. As ruínas minoanas são cheias do que restou de Santorini, mas isso é apenas uma pequena parte do que foi a ilha até aproximadamente 1500 a.C., quando o vulcão de 1500 metros que existia no centro da ilha explodiu e afundou no mar. Desde então, a ilha é um crescente ao redor de uma lagoa que fica dentro da cratera do vulcão. As erupções vulcânicas continuaram por 30 anos, chegando a um clímax devastador: uma enorme onda. Ela derrubou as casas das ilhas de toda a região.

Flotilha, afresco em Santorini (Grécia)

Dama de Akrotiri com papiro, afresco em Santorini



O tsunami dizimou a população e a chuva de cinzas vulcânicas que se seguiu acabou com a civilização Minoana. Ninguém sabe ao certo se o sumiço de Santorini tem algo a ver com o início da lenda de uma civilização perdida, mas as notícias de um evento catastrófico como este se espalharam pelo Mediterrâneo e, com o tempo, se transformaram em lenda.

HAUGEN, Peter. História do Mundo para Leigos. Rio de Janeiro: Alta Books, 2011. p. 25-26.

quarta-feira, 8 de agosto de 2012

Características da estrutura mental antiga

"Roma legou ao Ocidente sua estrutura política, administrativa e jurídica. Ela define as fronteiras, a articulação geográfica, a rede de comunicações, mas não trouxe nada de novo para a ordem intelectual e espiritual. A cultura grega, nascida da cidade, elevou-se com o Estoicismo e o Epicurismo, até o grau do Império. Os romanos não aumentaram esse tesouro, que assimilaram pelo direito de conquista. Na realidade eles foram bárbaros que galgaram uma posição. Mais dotados do que os que vieram depois, trouxeram a autoridade que dá a paz, a técnica que assegura a posteridade. Mas a grande organização romana conserva, quanto ao essencial, uma alma helênica." (GUSDORF, G. Introduction aux Sciences Humaines. Paris: Belles Lettres, 1960. p. 43.)


A Escola de Atenas (detalhe), Rafael. Ao centro, os filósofos Platão e Aristóteles

[...]

Na Antiguidade Clássica, a concepção que se tinha da relação entre o ser que compreende e os seres compreendidos se caracterizava por certa ausência de consciência que o sujeito possui nesta relação.

Vejamos o que isto quer dizer: de certa forma o Homem se sentia subordinado à Natureza. Para ele, a Natureza era uma presença e o sábio era, na verdade, apenas o guardião do que fosse revelado a ele pela Natureza. O sábio era, segundo os gregos, o guardião da alethéia, isto é, guardião da revelação da verdade.

Ora, devido a esses dois traços da relação sujeito-objeto da Antiguidade, qual seria a forma de fixar os conceitos?

Se a Natureza se revelava ao sujeito, o trabalho deste era apenas o de constatar o real e, portanto, os conceitos eram fixados de forma categorial, inquestionáveis. Eram como verdades absolutas, frutos de uma revelação, e, por isso, não competia ao sábio nem a ninguém questioná-las, mas apenas aprendê-las e transmiti-las.

[...] Esta forma de abordar a realidade fez com que durante muito tempo os estudiosos da cultura clássica teimassem em afirmar que na Antiguidade não houve experimentação - ou seja, segundo alguns, os gregos não se teriam preocupado em experimentar a exatidão das suas ideias, dos seus conceitos.

[...]

[...] A experimentação também existiu na Antiguidade, apenas de forma diferente, ou melhor, uma experimentação que estava de acordo com a forma de conceber a realidade e a relação sujeito-objeto e com a forma de fixar os conceitos. Entre os gregos, a experimentação tinha caráter probatório, ou seja, eles se voltavam para a Natureza apenas para ver mais uma vez o que já havia sido revelado, para comprovar o que já sabiam, para constatar uma presença, ou seja, para constatar o real, aquilo que se apresentava.

[...]

Hoje não nos é difícil compreender... Se tantos estudiosos cometeram esse erro é sinal de que estudaram a Antiguidade imbuídos da concepção moderna de Ciência. Ou seja, para esses estudiosos, experimentação era sinônimo de verificação e, por isso, não a encontraram na Antiguidade. Para eles a experimentação só podia ter o caráter de verificação.

Ora, certamente, você está raciocinando: para que esse tipo de experimentação existisse era necessário que a relação sujeito-objeto fosse outra, e, ainda, que a concepção que se tinha do real também fosse outra. Exatamente!


Na modernidade, a experimentação verificadora era  a consequência lógica de uma nova relação sujeito-objeto: o Homem afirmou-se como o sujeito por excelência, como o elemento que avança em direção a alguma coisa e que se assegura dela - o Homem é o elemento que elabora o real, intervém no real e se assegura do real como um objeto. Em outras palavras, na modernidade, o Homem toma o lugar do sujeito, e isto é reconhecido conscientemente. Logo, o real passou a ser aquilo que se apresenta, aquilo que o sujeito procura conhecer e representar, e a todo instante deve verificar se os conceitos que emite sobre o real estão corretos, ou seja, se são a representação correta da realidade. Assim, a experimentação verificadora corresponde a uma fixação hipotética dos conceitos por um sujeito que se assumiu como tal.

[...] quando falamos em modernidade estamos nos referindo à Idade Moderna, período em que a estrutura mental do Mundo Ocidental passou por uma viragem importantíssima - o antropocentrismo pregado pelos humanistas (como reação ao teocentrismo medieval) foi integralmente assumido, e para isso muito contribuiu o Renascimento. Esse movimento intelectual, que buscou inspiração nas obras da Antiguidade Clássica, favoreceu o desenvolvimento da Ciência moderna, a qual, retomando os caminhos seguidos por Sócrates, Platão e Aristóteles, passou a supervalorizar a Razão.


[...]


No período medieval, durante o qual o Escravismo deu lugar ao Feudalismo, a Igreja Católica Apostólica Romana assumiu enorme poder econômico e político, o que lhe garantiu a predominância ideológica: a Igreja, para se estruturar ideologicamente, fundamentou-se no classicismo greco-romano e realizou a síntese teológica medieval, conciliando a fé cristã com a Lógica aristotélica. Os humanistas, no início da Época Moderna, como reação ao teocentrismo medieval - Deus como centro de todas as coisas - retomaram o estudo das obras greco-romanas, situando-as, porém, em uma perspectiva antropocêntrica - o Homem como centro de todas as coisas. [...]


A perspectiva antropocêntrica significaria retomar a forma de abordagem da realidade apresentada pelos Sofistas? O Homem é a medida de todas as coisas..., disse Protágoras. Essa perspectiva foi assumida, porém, enquadrada na linha do pensamento de Sócrates: valorizar o lado espiritual do Homem, valorizar o mundo das Ideias, valorizar no Homem, não a sua capacidade sensível de perceber a realidade mutável, mas a sua capacidade intelectual, capacidade de raciocinar sobre a realidade.


O processo se deu da seguinte forma: se o Homem é o centro de todas as coisas, e não mais Deus, precisa-se valorizar aquilo que faz o Homem, ou seja, aquilo que o distingue dos outros animais e que o assemelha a Deus. O que deve, então, ser valorizado? Isso mesmo, a Inteligência, a Razão.


O século XVII foi, então, a época do Racionalismo, escola filosófica fundada por Descartes que ainda hoje influencia, de maneira decisiva, nossa apreensão da realidade. Segundo Descartes, o Homem deve depurar-se de todas as sensações, atributos que são resquícios animalescos, para chegar à perfeição: só a Razão pura assegura o conhecimento da realidade.

[...]


A própria ideia de "milagre grego", ainda que falsa, contribuiu para o desprezo de toda a produção intelectual daqueles gregos que viveram em épocas remotas e a expressaram na Mitologia. Os mitos agrários constituem exemplos da produção intelectual de homens cuja vinculação com a terra e com o duro trabalho diário era intensa: descrevem, através de alegorias, todo o processo de fecundação e nascimento das sementes.


Assim, se queremos realmente crescer em termos humanos, tanto individual quanto socialmente, não podemos desprezar a experiência sensorial do Homem, a pretexto de ela ter sido a base da apreensão mítica da realidade. Em nossa cultura, as sensações são relegadas a segundo plano e somente o racional tem absoluta prioridade cultural: "O conhecer reduziu-se a um saber, e o saber, a um teorizar. A compreensão sensível das coisas integrando experiência e inteligência, parece ter sido abolida [...] Não seria por acaso que, hoje em dia, as palavras poético, lírico, possam surgir até como conotações pejorativas, como visões desligadas da realidade do viver." (F. Ostrower)


[...]


Ora, é natural que nos interessemos mais por compreender a nossa cultura, pois temos problemas sem soluções há séculos, mas é inadmissível que a coloquemos como superior a todas as outras. Ou, ainda, que desprezemos o conhecimento dos mitos por serem frutos de uma apreensão sensorial-afetiva do mundo, como forma de expressão humana que, longe de ter sido superada, ainda convive conosco e até norteia nossos atos... Na verdade, a apreensão mítica não foi superada, mas sufocada e, por isso, coexiste em nós, representando, é claro, uma de nossas inúmeras contradições.


Se você procurar conhecer o mito da origem dos deuses e dos homens na cultura grega, poderá perceber que eles eram concebidos como semelhantes na sua essência. Pense um pouco... Não teria o humanismo do pensamento grego - "O Homem como medida de todas as coisas" - também uma origem mítica?


[...]


AQUINO, Rubim Santos Leão de et alli. História das sociedades: das comunidades primitivas às sociedades medievais. Rio de Janeiro: Imperial Novo Milênio, 2008. p. 384-390.