"Os espelhos estão cheios de gente.
Os invisíveis nos vêem.
Os esquecidos se lembram de nós.
Quando nos vemos, os vemos.
Quando nos vamos, se vão?"
Eduardo Galeano: Espelhos
Mostrando postagens com marcador Guerra. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Guerra. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 9 de setembro de 2015

Os Toltecas. Os Maias



* Os Toltecas. Por volta do séc. IX, surgiram no México novas culturas, mais militarizadas e bem situadas para se aproveitarem da persistente situação de guerra da região. Entre eles estavam os chichimecas, nômades invasores vindos do norte, e uma outra cultura, mais avançada, conhecida como tolteca, da qual os astecas se diziam descendentes.

Os toltecas entraram no México no início do séc. X e, liderados por Topiltzin Quetzalcoatl, construíram  sua capital em Tollan (atual Tula). De lá, entre 950 e 1150, eles controlaram uma parte do vale do México, Puebla e Morelos. Os locais de imolação adornados com os crânios dos inimigos e os temas de sacrifício humano predominantes em seus baixos-relevos indicam uma cultura de povo guerreiro. Por volta de 1180, tribos inimigas invadiram Tollan, incendiando a cidade e pondo fim ao domínio tolteca no México central. PARKER, Philip. Guia ilustrado Zahar. história mundial. Rio de Janeiro: Zahar, 2011. p. 204.


Ruínas de Tollan. Arquitetura tolteca. 

* Os Maias. O conhecimento que se tem da cultura maia baseia-se em pesquisar arqueológicas e no estudo das estelas e dos códigos manuscritos elaborados por esse povo. Os documentos mais antigos são as estelas, monólitos que apresentam um grande número de inscrições e sinais de calendário. Um outro documento de suma importância pela sua antiguidade é a chamada "tabuinha de Leyda", que remonta aos primórdios do período clássico, por volta de 320 d.C. Com relação aos códigos, apenas três salvaram-se da destruição por parte dos conquistadores espanhóis: o de Dresden, o Trocortesiano e o Peresiano. Esses documentos são feitos de cortiça revestida com uma camada fina de cal, onde estão gravadas inscrições e figuras coloridas alusivas ao calendário, a práticas de adivinhação e a rituais religiosos dos maias.

Apenas a terça parte dos textos inscritos nos monólitos já foi decifrada; e no que diz respeito aos códigos, estes carecem de dados especificamente históricos, deficiência em parte compensada pelos relatos que funcionários e sacerdotes europeus redigiram, com base em informações prestadas pelos nativos. Além disso, existem documentos manuscritos em idioma nativo mas com caracteres latinos que datam do período imediatamente posterior à conquista espanhola. Segundo especialistas, tais registros poderiam ser a transcrição de antigos documentos maias que teriam sido destruídos. HISTÓRIA DAS CIVILIZAÇÕES. São Paulo: Abril Cultural, 1975. p. 10-11. Volume 3.

* Os centros cerimoniais. A civilização maia formou-se por volta do século IV, numa região próxima ao oceano Pacífico, na atual fronteira entre o México e a Guatemala. Espalhou-se depois por toda a Guatemala, sul do México, península do Iucatán, Belize e parte ocidental de Honduras. Era constituída por centenas de centros cerimoniais autônomos, que se ligavam por rotas terrestres e fluviais, permitindo uma intensa troca de produtos: obsidiana, jade, plumas de quetzal, cacau, tecidos de algodão, punhais de sílex, peles de jaguar, cerâmica, centre outros. 

Os centros cerimoniais maias não eram exatamente cidades. Eles reuniam os templos, as residências dos governantes, os monumentos políticos e as praças destinadas às celebrações. Neles moravam somente os sacerdotes, os governantes e os servidores dos templos.  Não tinham muralhas nem fortificações. A população vivia em pequenos casebres dispersos pelos arredores e ia ao centro apenas para as cerimônias religiosas e para o mercado.

As construções maias traziam numerosas inscrições com nomes de governantes e datas.  Marcar o tempo era uma grande preocupação de seus sacerdotes, que usavam dois calendários: um religioso, com 260 dias, e um de uso civil, com 360 dias mais 5 dias considerados nefastos. A cada 52 anos, quando os dois calendários coincidiam, começava uma nova era, comemorada com a construção de novos templos sobre os antigos.  RODRIGUE, Joelza Ester. História em documento: imagem e texto. São Paulo: FTD, 2002. p. 118.

Dignitário maia, Campeche, Ilha de Jaina, ca. 600-800. Artista desconhecido

* Economia. Os maias, cuja economia baseava-se na agricultura, dedicavam-se ao plantio do milho. O cultivo desse cereal absorvia apenas 48 dias de trabalho nos campos, permitindo que o tempo restante fosse empregado na construção de centros religiosos, templos monumentais, observatórios astronômicos, plataformas destinadas a danças e jogos e a rituais religiosos sob a direção de uma poderosa classe sacerdotal.  HOLLANDA, Sérgio Buarque de (Org.). História da Civilização. São Paulo: Nacional, 1974. p. 190.

O trabalho na terra era feito coletivamente. As vastas plantações eram irrigadas com o auxílio de sistemas que aproveitavam as águas do rio San Juan e das chuvas. Os maias também praticavam a caça e a pesca com frequência.

No comércio usavam às vezes sementes de cacau ou contas coloridas como moedas. Não só comercializavam produtos agrícolas, mas também mantas de algodão, camisas, jóias e tintas para pintar o corpo.  REZENDE, Antonio Paulo; DIDIER, Maria Thereza. Rumos da história: história geral e do Brasil. São Paulo: Atual, 2005. p. 175.

Um senhor maia proíbe uma pessoa de tocar em um recipiente de chocolate. Artista desconhecido


* As mulheres. As mulheres encarregavam-se dos serviços culinários. Aproveitavam o milho de muitas maneiras, depois de colocá-lo de molho em água e sal e moê-lo. Com esse produto faziam pão, uma pasta muito utilizada na dieta alimentar, uma espécie de leite e até mesmo uma bebida, à qual também misturavam cacau e pimenta.


Cerâmica maia: mulher com criança, Campeche, Ilha de Jaina, ca. 600-900. Artista desconhecido

As mulheres participavam ativamente da vida social. Como assinala F. de Aparício, delas dependiam "o sustento da casa, o pagamento de tributos, a educação dos filhos, a fiação e a tecelagem, bem como o amanho da terra." REZENDE, Antonio Paulo; DIDIER, Maria Thereza. Rumos da história: história geral e do Brasil. São Paulo: Atual, 2005. p. 175-6.

Vaso: mulher maia, ca. 600-900. Artista desconhecido


* Indumentária. Os homens usavam uma faixa de algodão enrolada ao redor do tronco, passando entre as pernas, caindo uma das extremidades para a frente e outra para trás, e um quadrado de fazenda abotoa nos ombros à guisa de capa. Os cabelos eram tonsurados na frente, deixando uma longa cauda cair pelas costas. Até o casamento, o corpo e o rosto eram pintados de negro, depois de vermelho. Os guerreiros pintavam-se de negro e vermelho, os sacerdotes de azul, os prisioneiros de riscas horizontais brancas e pretas. Tatuavam-se e usavam perfumes. Os nobres e sacerdotes apresentavam um aspecto resplandecente: plumas, ornamentos de jade, pingentes de conchas, peles de jaguar, dentes de crocodilo, colares, braceletes e penachos e, para os chefes, as suntuosas plumas da cauda de quetzal, de cor verde-azul irisada.

As mulheres vestiam uma túnica de algodão, bordada com flores, pássaros, insetos; usavam um longo manto; cobriam a cabeça com um pedaço de fazenda. Seus cabelos eram longos. Tatuavam-se e perfumavam-se. MOUSNIER, Roland. Os séculos XVI e XVII. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1995. p. 43-4. [História geral das civilizações, v. 10]

Pintura mural, Bonampak. Artistas desconhecidos
Foto: Inakiherrasti


* Produção artística. O alto nível de organização social atingido pelos maias revela-se na extraordinária qualidade de sua produção artística; sobretudo nas artes plásticas, em que se verifica uma acentuada preferência pelos baixos-relevos, presentes nas inúmeras estelas produzidas por esse povo. O grau de perfeição alcançado na pintura pode ser observado nos afrescos descobertos em Bonampak, que cobrem as paredes de três recintos de um edifício, dispostos em largas faixas horizontais superpostas. Estas faixas representam cenas de cerimônias religiosas, danças e batalhas, revelando particularidades a respeito das roupas, ornamentos, armas e instrumentos musicais dos maias. História das Civilizações. São Paulo: Abril Cultural, 1975. p. 16. Volume 3.

Vaso maia: cena de batalha, ca. 600-900, Guatemala. Artista desconhecido

* Festas e guerras. Os maias gostavam de se divertir. Promoviam então bailes que chegavam a durar o dia inteiro, nos quais dançavam e bebiam bastante. O saldo dessas festanças nem sempre era agradável, pois elas resultavam às vezes em brigas violentas e até em mortes. As mulheres apenas serviam bebidas aos homens, não chegando a dançar. Tinham, no entanto, suas festas particulares, quando também se embriagavam.

Festas à parte, os maias eram hábeis guerreiros. Usavam arco e flecha, assim como lanças e machados de metal com cabo de madeira. Protegiam-se com escudos. Quando vencedores, cortavam a mandíbula inferior do inimigo morto para usar como bracelete nas festas e cerimônias. REZENDE, Antonio Paulo; DIDIER, Maria Thereza. Rumos da história: história geral e do Brasil. São Paulo: Atual, 2005. p. 176.

Figura masculina com máscara removível, Campeche, Ilha de Jaina ca. 700-900. Artista desconhecido.


* Legado. Legaram-nos [...] belos exemplos de pintura mural, de cerâmica e de objetos de adorno executados em jade, quartzo e turquesas, os materiais mais preciosos para os maias; desenvolveram um calendário aperfeiçoadíssimo [...] e uma escrita hieroglífica com a qual documentaram acontecimentos históricos, dados de astronomia, rituais, métodos de adivinhação, conhecimentos científicos. HOLLANDA, Sérgio Buarque de (Org.). História da Civilização. São Paulo: Nacional, 1974. p. 190-1.

Referências:
HISTÓRIA DAS CIVILIZAÇÕES. São Paulo: Abril Cultural, 1975. Volume 3.
HOLLANDA, Sérgio Buarque de (Org.). História da Civilização. São Paulo: Nacional, 1974.
MOUSNIER, Roland. Os séculos XVI e XVII. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1995. [História geral das civilizações, v. 10]
PARKER, Philip. Guia ilustrado Zahar. história mundial. Rio de Janeiro: Zahar, 2011.
REZENDE, Antonio Paulo; DIDIER, Maria Thereza. Rumos da história: história geral e do Brasil. São Paulo: Atual, 2005.
RODRIGUE, Joelza Ester. História em documento: imagem e texto. São Paulo: FTD, 2002. 

sábado, 4 de julho de 2015

A guerra na Antiguidade: ocupações, saques e preservação do conhecimento

A queda de Troia, Johann Georg Trautmann

"Como o desencadear de um terrível furacão, avassalei por inteiro o Elam, cortei a cabeça de Teuman, o seu Rei fanfarrão, que planejara o mal. Não tem conta os seus guerreiros que eu matei, e os que apanhei vivos com as minhas mãos [...] Hamanu, a cidade real do Elam, eu cerquei, eu capturei [...] eu a destruí, eu a devastei, eu a incendiei. Eu sou Assurbanípal, o grande rei, o poderoso rei, rei do universo, rei da Assíria, rei das quatro regiões do mundo, rei dos reis, príncipe inigualado, que ao comando de Assur [...] exerce o governo do mar superior ao inferior, e pôs submissos a seus pés todos os príncipes".
(Citado in: KRAMER, Samuel Noah. Mesopotâmia, o berço da civilização. Rio de Janeiro: José Olympio, 1983)


[...]


Tudo o que resta são prédios em ruína e um monte de destroços. A imagem é de destruição e sofrimento. A guerra é a mais primitiva forma de o ser humano resolver seus problemas com os outros. Talvez já existisse na Pré-História, mas foi com a formação das primeiras civilizações que a guerra se generalizou. Lutava-se pela posse de terras, cidades, riquezas, escravos...

O rei ou imperador era respeitado e temido pelas suas conquistas. Para eternizá-las, mandava escrever nos papiros, esculpir em pedra e pintar em seus palácios e túmulo suas vitórias militares e as punições que infligiu aos inimigos. Os reis assírios, por exemplo, que conquistaram a Mesopotâmia (século XII-VIII a.C.), orgulhavam-se do massacre que realizaram e de como destruíram campos de cultivo e canais. O Império Persa, mesmo tendo exercido uma dominação mais tolerante [...], também foi formado à custa da perda de milhares de vidas e da destruição de bens materiais. A ação guerreira desses governantes era muito admirada. O imperador Ciro passou à História como "o Grande", em lembrança de suas conquistas.

[...]

Na Antiguidade, os poderes político e militar estavam reunidos na mesma pessoa: o rei. Era ele quem ia à frente do exército, estimulando seus guerreiros e desafiando a morte. Foi em combate aberto que o imperador persa Ciro morreu, juntamente com a maior parte de seus homens. Havia ocasiões em que os generais inimigos se enfrentavam sozinhos, e o resultado dessa luta definia a guerra.

O vitorioso dessas guerras tinha direito de se apoderar dos bens, da família e dos súditos do perdedor. A sua ideia de riqueza era a quantidade de produtos saqueados do inimigo. Seus soldados eram recompensados com os bens roubados da população conquistada. Ao retornarem ao seu país, faziam questão de desfilar pelas ruas exibindo os objetos e os prisioneiros de guerra. A cidade de Persépolis, por exemplo, foi saqueada pelo exército de Alexandre Magno (século IV a.C.) durante vários dias e depois incendiada. Um escritor grego afirmou que foram usadas 10 mil mulas e 5 mil camelos para transportar os seus tesouros.

[...]

Apesar das guerras, ocupações e saques, os conhecimentos desenvolvidos pelos homens e mulheres não foram totalmente perdidos. Muitas vezes, por iniciativa do novo governante (mesmo estrangeiro) e pela persistência da população, as criações humanas foram preservadas. Desse modo, os textos mesopotâmicos, incluindo o código de Hamurábi, foram copiados e reunidos nas bibliotecas dos reis conquistadores; os estudos astronômicos continuaram a ser realizados, mesmo sob o domínio estrangeiro; a técnica dos artesãos, a habilidade comercial dos mercadores e o saber tradicional dos escribas não se dispersaram totalmente quando as cidades mudaram de senhores; a experiência agrícola dos camponeses, as técnicas de fiação e tecelagem foram transmitidas pelos pais ao seus filhos e filhas.

Assim, parte do conhecimento sobreviveu à destruição material e humana provocada pelas guerras. E isso graças à ação de homens e mulheres que, mesmo arruinados pelos saques, continuaram a transmitir o que sabiam aos seus descendentes. Se assim não fosse, ao fim de cada guerra, os perdedores teriam de descobrir, por sua própria experiência. o que seus antepassados levaram séculos ou milênios para aprender e desenvolver. Nos dias atuais, a população de países envolvidos em guerras também não se esquece de seus conhecimentos e práticas cotidianas. É comum, por exemplo, que professores ensinem crianças a ler e escrever dentro de campos de refugiados.

Hoje, quando visitamos as ruínas de capitais dos impérios antigos, ficamos maravilhados com a grandiosidade de seus palácios, a imponência de suas colunas e a riqueza de suas decorações. Imaginamos os imperadores vaidosos e orgulhosos de suas conquistas desfilando com seus exércitos e ordenando a decapitação dos inimigos. O que restou de suas vitórias e domínios são, agora, vestígios arqueológicos. No entanto, o conhecimento cultural, técnico e artístico dos povos conquistados preservou-se e propagou-se, e faz parte do nosso dia-a-dia. A roda, a metalurgia, o alfabeto, os cálculos matemáticos e geométricos, o pensamento religioso, os contos e mitos sobreviveram ao tempo e às guerras.

[...]

RODRIGUE, Joelza Ester. História em documento: imagem e texto. São Paulo: FTD, 2002. p. 153-55.

sábado, 7 de setembro de 2013

Guerra e resistência

A Segunda Guerra Mundial sujeitou grande parte da Europa e do leste da Ásia à ocupação militar estrangeira. As respostas dos povos ocupados variaram de um lugar para outro e entre as populações – algumas vezes até mesmo entre os membros da mesma família – da mesma comunidade. Nas Índias Holandesas do leste, os invasores japoneses foram inicialmente bem recebidos como libertadores do domínio colonial ocidental. Na Noruega, a maioria dos cidadãos resistiu tanto contra os nazistas quanto ao punhado de colaboradores noruegueses reunidos pelos nazistas como um governo marionete. Algumas vezes, o caminho da resistência ofereceu complicados dilemas morais. Por exemplo, aqueles que espionavam para o inimigo ou que escondiam crianças judias e outros refugiados foram, com freqüência, obrigados a agir de forma que colocava em perigo suas próprias vidas e as vidas de suas famílias, vizinhos e colegas.

Nem toda resistência ocorreu como atos individuais de consciência moral. Após a queda da França, em 1940, duas formas de oposição francesa contra os alemães surgiram. Os patriotas franceses, liderados pelo General Charles de Gaule (1890-1970), organizaram a resistência contra os alemães a partir do exterior. Dentro ou fora da França, nos territórios franceses norte-africanos, um movimento de resistência secreto, camuflado, operou com muito sucesso para esconder judeus e pilotos britânicos e norte-americanos abatidos e para ajudar alguns deles a escapar das autoridades alemãs. Muitos homens e mulheres deram sua vida à Resistência. Houve também movimentos de resistência em comunidades na Dinamarca e na Holanda. A resistência iugoslava tomou a forma de guerrilha contra as forças de ocupação alemãs e italianas, conduzidas por dois grupos: os leais à monarquia e os “partisans”, apoiados pela União Soviética e liderados por Josef Broz (1892-1980), conhecido como Tito.

Movimentos de resistência dentro da Alemanha e da Itália opuseram-se aos nazistas e aos fascistas de Mussolini. Por exemplo, Rosa Branca foi o nome de um pequeno grupo de estudantes, professores e intelectuais alemães que se opunham à guerra e distribuíam panfletos pedindo que o povo alemão resistisse aos nazistas e aos esforços de guerra. Dois estudantes e um professor da Universidade de Munique foram executados, em 1943, por conta de suas atividades com a sociedade Rosa Branca. A resistência judia foi extremamente difícil nos campos fortemente vigiados, embora tenha havido focos de protestos isolados, mas notáveis. No gueto de Varsóvia, onde milhares de judeus poloneses estavam confinados em um bairro da cidade e sujeitos ao superpovoamento e à fome, uma rebelião armada ocorreu, em 1943. Os membros da resistência não receberam qualquer apoio externo e a maioria acabou sendo morta pelos nazistas.

Soldados alemães prendem judeus durante a revolta do Gueto de Varsóvia, maio de 1943

É difícil encontrar a documentação da resistência de grande escala contra o governo nazista na sociedade alemã. Um exemplo de resistência massiva das mulheres alemãs ocorreu em 1943, quando cerca de 600 mulheres desarmadas marcharam até um prédio próximo ao quartel general da Gestapo, em Berlim, exigindo que fossem libertados os prisioneiros recolhidos como resultado das leis que restringiam o casamento entre judeus e não judeus. As mulheres manifestantes tiveram sucesso em assegurar a libertação daqueles acusados; suas ações salvaram as vidas de muitos alemães.


GOUCHER, Candice; WALTON, Linda. História mundial: jornadas do passado ao presente. Porto Alegre: Penso, 2011. p. 353-354.

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

A desigualdade, a escravatura e a guerra

As diferenças entre ricos e pobres, que as grandes novidades do Neolítico tinham reforçado, tornaram-se um traço comum a todas as sociedades. Mesmo nas tribos nómadas distinguiam-se famílias nobres que se agrupavam em torno de chefes. Nas cidades-estados, houve sempre "grandes famílias" e gente pobre. Quando o comércio era próspero, as riquezas aumentavam, mas a diferença entre ricos e pobres também aumentava.

Assim, quando os romanos dominavam todo o Mediterrâneo, o comércio fazia afluir a Roma produtos de luxo, como a seda proveniente da China. Os romanos ricos tinham comprado terras que, pouco a pouco, se transformaram em enormes propriedades. Mas os camponeses espoliados comprimiam-se nos bairros pobres de Roma, e numerosos escravos passaram a cultivar esses grandes domínios. [...]

[Os poderes dos grandes chefes feiticeiros] Os chefes fizeram muitas vezes com que as pessoas acreditassem que os seus poderes vinham dos deuses, e tiraram enorme partido disso. Na África negra, nos reinos em que as chefias agrupavam várias aldeias de agricultores, os chefes estavam, em geral, rodeados de funcionários e de parentes que beneficiavam de toda a espécie de vantagens. Entre alguns povos, os chefes trabalhavam na terra como toda a gente. Noutros lados, com o apoio dos feiticeiros, os chefes pretendiam possuir um poder mágico, e cobravam impostos aos seus súbditos. Quando praticavam a justiça ao ar livre, sob um pálio (uma espécie de tecto feito de tecido), os seus conselheiros colocavam-se à sua volta segundo a sua ordem de importância!

Só os clãs que continuavam a viver da caça e da recolecção conheciam, nesse tempo, uma espécie de igualdade, ligada à simplicidade das suas vidas. Este era o caso dos pigmeus das florestas da África central, ou de outros grupos humanos nas grandes planícies da América, nas regiões polares ou na Oceania.

[Um mundo à vontade dos deuses] As pessoas dessas épocas não tinham o sentimento, como nós hoje em dia, de que havia coisas justas e injustas. Tudo dependia das forças invisíveis e dos deuses, e as pessoas infelizes aceitavam a sua situação. A diferença entre ricos e pobres fazia parte da ordem das coisas. É claro que era mais fácil pensar assim. Sobretudo para aqueles que nunca sofriam as dificuldades da vida.

Por fim, quando os mais infelizes já não aguentavam, revoltavam-se. Mas, durante a Antiguidade, tais revoltas acabavam sempre mal, e os pobres eram massacrados pelos soldados do rei ou do chefe. [...]

[Na Índia forma-se uma sociedade de "castas"] Nos tempos que se seguiram à invasão dos arianos, sacerdotes e brâmanes interpretavam os Vedas, os textos sagrados dos arianos. Esses sacerdotes, que tinham um papel importante ao lado dos chefes guerreiros, afirmavam que os seres humanos estavam divididos em três principais grupos separados, ou seja, em três "castas": os brâmanes, os guerreiros e as pessoas responsáveis pela produção (camponeses, artesãos, mercadores). Mais tarde, apareceu uma quarta casta, a dos servidores das outras três. E, mesmo fora das castas, os rejeitados pela sociedade, os intocáveis, praticavam, e ainda hoje praticam, ocupações que continuam a ser consideradas impuras, por tocarem em animais mortos ou em desperdícios humanos. Na realidade, os intocáveis exercem profissões indispensáveis, tais como sapateiros, lavadeiros, trabalhadores dos esgotos e coveiros.

As castas existiam em total separação. Os brâmanes ensinavam as sagradas escrituras, mas também podiam ser funcionários ricos. Os guerreiros faziam a guerra e governavam. Proibiram-se casamentos entre as castas. Os intocáveis eram relegados para o exterior das aldeias.

Na religião dos brâmanes, a única esperança é que a alma encarne, depois da morte, no corpo de um membro de uma casta superior.

O Buda tinha pregado e não-violência e a pobreza nessa sociedade tão dura para os menos favorecidos. O imperador Açoka, depois de ter sido um grande conquistador, converteu-se ao budismo. Este imperador esforçou-se por fazer com que reinasse a paz e a tolerância à sua volta. Mas tal não durou muito. Hoje em dia, o budismo quase desapareceu da Índia.

[A escravatura nas cidades gregas e no Império Romano] As novas religiões, o cristianismo e o islamismo, não puseram fim à escravatura que já existia há muito tempo em volta do Mediterrâneo.

Ser um homem "livre" era aí uma exceção. Que homens e mulheres fossem "escravos", era, até certo ponto, algo de normal. Ora, um "escravo" era um objecto que fazia parte da propriedade de uma família. Também podia pertencer ao Estado ou ao templo de um deus. Mas os escravos não eram todos tratados da mesma maneira.

* Em Atenas, os escravos eram muito numerosos: talvez 400 000, enquanto a população total era de 550 000. Algumas grandes famílias podiam ter mais de cinquenta escravos. Um cidadão pobre, um ou dois. Os escravos na Grécia eram sobretudo prisioneiros de guerra, mas estes também se poderiam comprar em mercados especializados. A sua situação era mais ou menos difícil. Os escravos domésticos não eram muito infelizes. Alguns eram por vezes mais instruídos que os seus senhores e serviam-nos como administradores. Muitos "pedagogos" (professores) eram escravos. Outros eram secretários ao serviço do Estado.

Mas, nas minas de prata, a sua condição era terrível. Muitos desses escravos, alistados à força no exército, acabavam por fugir. Havia inúmeros escravos fugitivos e ofereciam-se recompensas a quem os encontrasse.

* Em Roma, as  grandes conquistas fizeram um grande número de escravos. Milhares trabalhavam nas grandes propriedades para um só senhor. Os romanos também os obrigavam a ser "gladiadores", ou seja, a combater até à morte, com animais selvagens ou outros escravos, para o prazer das multidões. Alguns escravos organizaram grandes revoltas, como Spartacus, um antigo pastor. Este conseguiu juntar 100 000 homens, mas acabou por morrer em combate enquanto os seus companheiros foram feitos prisioneiros e torturados até a morte.

Mas certos romanos também tinham o hábito de alforriar, ou seja, tornar livres os seus escravos.

E houve imperadores, como por exemplo Adriano, que tomaram medidas a favor deles. A situação melhorou assim um pouco.


Mosaico romano de Dougga, Tunísia, século II. Os dois escravos carregando jarras de vinho usam vestimenta típica de escravos e amuleto contra mau-olhado no pescoço. O jovem escravo à esquerda carrega água e toalhas, e o da direita carrega um cesto de flores.


[Mesmo os filósofos o achavam "normal"] A escrita não melhorou a vida dos escravos. E os escritores gregos ou romanos raramente tomaram posição contra a escravatura.

A Ilíada e A Odisseia põem em cena um mundo de guerreiros mas também de escravos, servidores das grandes famílias. Quando se lê o texto de Homero, que nos encanta pela sua poesia, não nos apercebemos de que a escravatura seja um assunto para ser discutido.

Os dois grandes filósofos, Platão e Aristóteles, não consideravam os escravos como seres humanos. Nunca desejaram que as suas vidas fossem melhoradas. Platão lamentava o facto de certos escravos serem tão livres como as pessoas que os tinham comprado. E Aristóteles dizia que a guerra permitia vermo-nos livres dos animais selvagens e dos escravos. Ele indignava-se com o facto de que os escravos, "que tinham nascido para servir", se recusassem a obedecer.

Mas, mais tarde, alguns escritores latinos afirmavam que os escravos eram homens e não coisas. Deste modo, o filósofo latino Séneca lembrava a um senhor: "O teu escravo goza do mesmo céu e respira, vive e morre como tu."

[A escravatura na Bíblia e no Corão] As três religiões, judaica, cristã e muçulmana, nunca se preocuparam com o problema da escravatura.

* A Torah (os cinco primeiros livros da Bíblia) fala da escravatura como de uma coisa natural. Mas o profeta Jeremias, no momento em que muitos judeus vão ser deportados para Babilônia pelo rei da Assíria, indigna-se contra certos hebreus por se apossarem de escravos que eles próprios já tinham alforriado (Jeremias 34, 15-17).

* Segundo os Evangelhos, Jesus vivia pobremente e pregava ao ar livre por entre uma multidão de pessoas simples, Ele tinha contra si as pessoas poderosas, escribas, sacerdotes e dirigentes romanos que finalmente o condenaram à morte. Jesus pregava a não-violência. Mas nem ele nem os apóstolos propuseram suprimir a escravatura, fosse na Palestina, fosse nas cidades do mundo mediterrânico. Em contrapartida, para eles, os escravos eram pessoas tais como os seus amos, e não simples objectos. Os primeiros cristãos foram, muitas vezes, escravos.

* O Corão não aconselha a supressão da escravatura, mas aconselha, por vezes, que os escravos devem ser alforriados.

[Na Europa cristã] Durante a longa história da Igreja e dos cristãos, que começa com a morte de Jesus, a escravatura continuou a ser admitida por muito tempo. Desenvolveu-se até, mesmo após as grandes migrações que puseram fim ao Império Romano do Ocidente. Ainda que se tivessem tornado cristãos, os chefes francos traziam numerosos prisioneiros das suas expedições de conquista e de pilhagem; estes tornavam-se escravos nos grandes domínios desses chefes.

Os bispos tentaram em seguida proibir os cristãos de reduzirem à condição de escravos as pessoas que tinham sido baptizadas como cristãs. Mas tal proibição nunca foi respeitada. No leste da Europa, durante muito tempo, os escravos eram capturados e arrebanhados pelos mercadores cristãos e vendidos aos muçulmanos.

[Nos países muçulmanos] Os árabes, antes de Maomé, tinham escravos. Tal como a Torah e o Novo Testamento, o Corão não defendeu a supressão da escravatura. Este estado de coisas manteve-se durante muito tempo nos países muçulmanos. Os escravos eram propriedade dos seus amos mas estes tinham que observar algumas regras. Os escravos casados viviam juntos com os filhos. Os maus tratamentos, em princípio, eram proibidos. Tal como em Roma, os escravos domésticos eram menos infelizes do que aqueles que trabalhavam nos grandes domínios ou nas empresas do Estado. Rebentaram revoltas. No século IX, na Mesopotâmia, deu-se o levantamento dos Zanj, escravos [...] de origem africana, que durou quinze anos. O seu chefe, cognominado "O Encoberto" acabou por ser executado, e os sobreviventes foram assassinados selvaticamente.

A partir do momento em que o islamismo se estendeu da Espanha até à Índia, o tráfico de escravos fez-se em grande escala. Os negros eram capturados na costa oeste da África. As mulheres brancas da região do Cáucaso eram muito procuradas para escravas domésticas.

Mercadores cristãos participavam nesse tráfico ao lado dos mercadores muçulmanos e de certos chefes negros.

[A servidão na Europa] A escravatura acabou por desaparecer na Europa cristã. Mas foi substituída por outra desigualdade, a servidão.

Perante o perigo dos ataques dos vikings e dos húngaros, os camponeses livres pediam a protecção dos senhores instalados nos seus castelos.

Os senhores estavam seguros da obediência daqueles que protegiam. Então libertaram grupos de escravos e instalaram-nos em pequenas propriedades. Os antigos escravos e os antigos camponeses livres eram protegidos pelo senhor, mas tinham de prestar-lhe toda a espécie de serviços. Todos eles se tinham tornado "servos".

No entanto, trabalhavam agora no seu pedaço de terra com mais afinco. E as culturas progrediram, mesmo que uma parte da colheita tivesse que ser entregue ao senhor.

[Os que rezam, os que combatem e os que trabalham] A Igreja, à qual alguns cristãos piedosos tinham cedido enormes propriedades, tornara-se muito rica. Os bispos e os chefes da Igreja pertenciam quase sempre a famílias nobres. Contrariamente, nos campos, a vida dos padres era semelhante à dos camponeses. E, durante muito tempo, estes padres eram casados. Mas não eram estes que dirigiam a Igreja.

Por volta do ano 1000, alguns bispos instruídos escreveram textos defendendo a ideia de que os cristãos estavam divididos em três grupos, três "ordens": os que rezavam (os padres), os que combatiam (os senhores), e os que trabalhavam para sustentar os outros (os camponeses). Os padres e os senhores eram "os superiores"; os camponeses "os inferiores". Era um pouco a mesma divisão que se observava na sociedade indiana, excepto que não havia "intocáveis".

Deste modo, na Europa cristã, a desigualdade era justificada por aqueles que possuíam os conhecimentos, o poder e as riquezas. Diziam que esta era a ordem determinada por Deus desde a criação do mundo, como afirmavam, por seu lado, os brâmanes na Índia ou os chefes feiticeiros na África.

[...]

[Guerras santas e perseguições religiosas] [...] Os combates entre tribos nómadas e povos sedentários, as pilhagens e as conquistas de reinos e de impérios fizeram-se sempre com a ajuda de armas, mesmo se em seguida as lentas misturas entre povos de origens diferentes se puderam produzir com menos violência e, por vezes, de um modo mais feliz.

* Conquistar em nome de Deus e de Alá. No Velho Testamento, Israel, após se ter libertado da escravatura no Egipto, torna-se um povo de guerreiros que conquista a região de Canaã - a Palestina -, repelindo os seus habitantes, e que, em seguida, se terá que defender.

O cristianismo e o islamismo nada fizeram para impedir as guerras. Antes pelo contrário, como cada uma dessas religiões pensava que só ela era a detentora da verdade, isso iria dar aos crentes novas razões para o combate: faziam-no, então, em nome de Deus.

Contudo, Jesus tinha dito no Evangelho: "felizes os 'pacíficos' (os que querem a paz), pois eles serão chamados 'filhos de Deus'." E, no Corão, cada capítulo ou surata começa por "Em nome de Deus clemente e misericordioso", ou seja, "benevolente e que perdoa".

Apesar desses textos, a religião, muitas vezes, serviu-se do espírito de conquista e da vontade de dominar.

- Do lado cristão, a Igreja deu apoio, nas suas guerras contra os não-cristãos - os pagãos -, aos chefes e aos príncipes que aceitassem reconhecer a sua autoridade, como por exemplo Clóvis ou Carlos Magno. O Grande Império Carolíngio alargou-se à custa de massacres e da submissão dos saxónios convertidos à força ao cristianismo.

- A partir da Hégira - a fuga de Maomé para Medina -, as conquistas árabes foram fulgurantes. Num século, da Espanha e de Marrocos até ao rio Indo na Índia, um imenso império muçulmano tinha nascido, em breve partilhado entre vários califas.

* Muçulmanos bastante tolerantes. Nos livros de História de França, insisti-se muito nas pilhagens e nas razias dos muçulmanos, que os cristãos da época chamavam sarracenos. O objectivo dos árabes nas suas conquistas foi primeiramente o de converter toda a gente ao islamismo. Mas logo que os muçulmanos se instalaram no poder, os não-convertidos não ficaram sujeitos a violências. Os cristãos e os judeus tinham que pagar um imposto e isso enriquecia os califas. Mas, como quer uns quer outros pertenciam também ao povo do Livro (a Bíblia), os cristãos e os judeus beneficiavam de uma protecção especial.

O mundo muçulmano englobava as regiões do Médio Oriente onde existiam as mais velhas cidades do mundo e onde o comércio era florescente. No Médio Oriente e na Espanha, os árabes viviam lado a lado com os judeus e com os cristãos. Sábios e filósofos eram aí bastante numerosos.

O mundo muçulmano era assim muito mais variado do que o mundo europeu cristão. Os muçulmanos também se dividiram a propósito das suas crenças e também se guerreavam entre si. Mas, cerca do ano 1000, o mundo muçulmano aceitava melhor os não-muçulmanos que o mundo cristão aceitava aqueles que não eram cristãos. 

Certos conquistadores muçulmanos fizeram, no entanto, terríveis razias, como, por exemplo, o califa Al-Mansur nos finais do século X, na parte cristã da Espanha. Um dos mais terríveis foi Tarmelão, de origem turca, que mandou massacrar dezenas de milhares de pessoas na Pérsia e na Índia.

* Na Europa cristã, antes do ano 1000, judeus e cristãos viviam lado a lado. Durante séculos, judeus viveram em boa vizinhança com os cristãos. Depois da sua dispersão pelas cidades do Império Romano, os judeus espalharam-se pelas regiões onde os príncipes se tinham convertido ao cristianismo.

Na época de Carlos Magno, alguns judeus eram grandes viajantes. Estes circulavam por terra e por mar e facilitavam as relações entre o Oriente e os países europeus. Falavam, na maior parte dos casos, várias línguas, a dos francos, dos eslavos, dos espanhóis, mas também o persa, o árabe e o grego. Tal como no mundo muçulmano, os judeus eram então altamente considerados pelos príncipes e podiam viver de acordo com as suas próprias leis. 

Por vezes, até os cristãos se convertiam ao judaísmo e certos bispos começaram a inquietar-se. Para eles, os judeus eram pessoas ímpias, infiéis que não queriam reconhecer Cristo nem a autoridade da Igreja. No entanto, a situação dos judeus continuava a ser boa. Eram numerosos na Provença, no condado de Tolosa, e comunidades novas criaram-se nas duas margens do Reno. Tudo iria mudar com a primeira cruzada.


Cavaleiro prestando juramento antes da cruzada. Ca. 1250


* A Cruzada cristã contra os infiéis. Depois do ano 1000, acabaram as invasões dos vikings e dos húngaros. Mas os senhores mantinham ainda um espírito batalhador. Alguns homens da Igreja pensavam que os cristãos não se deveriam combater uns aos outros e tentaram proibir a guerra ao domingo, através da "trégua de Deus".

Para os afastar da Europa, a Igreja propôs-lhes partirem para longe para irem combater na Palestina para "libertar o túmulo de Cristo", caído nas mãos dos muçulmanos de origem turca, os seljúcidas. Prometiam-lhes, se partissem assim em "cruzada", se se tornassem "cruzados", ser-lhes-iam perdoadas todas as suas más acções, ou seja, os seus pecados.

Deste modo, as cruzadas foram guerras imaginadas pelo papa para reconquistar a Palestina e Jerusalém aos muçulmanos.

Para os cristãos, o importante era os lugares santos onde Jesus Cristo tinha morrido. Mas, para os árabes, os cruzados a que eles chamavam "franj", apresentaram-se durante a primeira cruzada como terríveis assassinos. Com efeito, logo que chegaram à Síria, os cruzados destruíram aldeias pacíficas e fizeram perecer a população de Jerusalém através de um horrível banho de sangue.


Cruzados atacam Constantinopla, Geoffreoy de Vilehardouin, Veneza, ca. 1330.


* Os pequenos reinos cristãos no Médio Oriente. Houve oito cruzadas durante duzentos anos. Em 1204, os cruzados pilharam atrozmente Bizâncio, cidade cristã ortodoxa. Os "franj", cristãos da Europa, criaram reinos no Médio Oriente. Mas Jerusalém foi rapidamente reconquistada pelo sultão Saladino. Finalmente, os europeus tiveram que abandonar o Oriente que os tinha maravilhado e instruído. Os árabes, porém, nunca se esqueceram das atrocidades cometidas pelos "franj".


Batalha de Ager: cristãos x muçulmanos. Ca. 1337


* Outras cruzadas na Europa e a Inquisição. Outras cruzadas tiveram lugar na Europa. Primeiro, contra os califas muçulmanos de Espanha. Os cristãos chamaram a esses combates a Reconquista. Esta durou quase quinhentos anos.

Houve também cruzadas contra aqueles que a Igreja apodava de heréticos, aqueles cujas ideias o papa condenava como, por exemplo, os cátaros.

Com efeito, desde que o cristianismo se tornou religião obrigatória, a Igreja foi sempre muito rígida no que dizia respeito ao que se podia ou não se podia acreditar. Os bispos reuniam-se em assembleias, em concílios, para decidirem sobre o que se deveria acreditar. O papa tinha ganho cada vez mais importância.

Para exterminar os heréticos, um monge espanhol, Domingos, criou, em 1231, um terrível tribunal, a Inquisição. Padres interrogavam os suspeitos de não pensarem como recomendava a Igreja. E, se eles não reconhecessem os seus erros, eram queimados vivos numa fogueira.

Joana d'Arc, condenada pela Inquisição, foi queimada como "bruxa" em 1431. Os processos de bruxaria eram raros nessa época. Mas, mais tarde, nos séculos XVI e XVII, milhares de pobres mulheres jovens e velhas foram condenadas e queimadas como bruxas em toda a Europa cristã. E essas nunca foram "reabilitadas" (reconhecidas como inocentes) pela Igreja, como Joana d'Arc em 1456.

* A primeira cruzada foi fatal para os judeus. Cerca do ano 1000 as coisas começaram a ficar mal para os judeus. Muitos cristãos começaram a ficar inquietos. Pensavam que o fim do mundo vinha aí, precedido de toda a espécie de acontecimentos terríveis. Deram então ouvidos às afirmações dos bispos sobre a maldade dos judeus que tinham condenado Jesus à morte. Pensavam que os judeus os ameaçavam e atribuíam-lhes actos de bruxaria e o assassínio de crianças cristãs... Tinham esquecido completamente que o próprio Cristo era judeu!

Mas a infelicidade dos judeus na Europa cristã começou realmente com a Primeira Cruzada. Alguns cruzados, animados pela ideia de irem combater os "infiéis", quiseram, antes de ganhar a guerra santa, começar por matar os infiéis que viviam em terras cristãs. Pilharam e massacraram as pacíficas comunidades judaicas que encontraram pelo caminho.

Horríveis matanças de homens, mulheres e crianças tiveram lugar em Ruão, depois no vale do Reno em Spira, em Worms, em Colónia e em Trèves. Tudo se passou durante o Verão de 1096.

* Perseguições e expulsões. A Primeira Cruzada marcou realmente o início das perseguições aos judeus na Europa cristã. O papa decidiu que estes deveriam trazer uma marca que os distinguisse, uma roda em tecido, a "rodela" sobre os seus fatos. Os judeus começaram, cada vez mais, a agrupar-se em bairros à parte, que se chamaram guetos. No reino de França, o rei Luís IX (São Luís) foi o primeiro a fazê-los usar a rodela. Mais tarde, em 1394, foram expulsos do reino.

No século XIV, uma terrível epidemia de peste devastou toda a Europa. Acusaram então os judeus de terem envenenado os poços e houve novos massacres.

Os judeus, expulsos de Inglaterra e de França, refugiaram-se primeiramente no Império Germânico. Finalmente, foram bem acolhidos na Polônia e na Lituânia pelo rei cristão Casimiro, o Grande.

Numerosas comunidades judaicas foram então estabelecidas no leste da Europa. Estas existiam ainda antes da Segunda Guerra Mundial.

Os judeus tinham podido viver durante séculos na Espanha muçulmana, mas tudo mudou depois da "Reconquista" cristã. Os reis católicos Isabel e Fernando obrigaram todos os judeus que não se quisessem converter ao cristianismo a deixar a Espanha. Algumas famílias viviam aí há mais de mil anos. Os judeus partiram então em grande número, alguns para a Holanda e a maior parte para os países muçulmanos.

Os espanhóis que quisessem permanecer muçulmanos foram também obrigados a partir.

[...]

CITRON, Suzanne. A história dos homens. Lisboa: Terramar, 1999. p. 133-153.

quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

O masculino e o feminino nas sociedades indígenas

Casal de índios guaranis (carijós). O arco e o cesto designam suas funções sociais e evocam a guerra e a abundância. Gravura extraída da crônica de Ulrich Schmidl (1599).

A sociedade indígena [...] é uma sociedade de guerreiros. [...]

Nenhuma sociedade sobrevive sem gastar algum tempo do dia na obtenção de alimentos e outros bens necessários à preservação da vida. Os indígenas, obviamente, não eram uma exceção.

Porém, devemos fazer uma distinção básica: podem-se obter meios de subsistência coletando-os ou produzindo-os. Os indígenas eram, no essencial, coletores de alimentos. A diferença entre uma economia coletora e uma produtora está em que, no segundo caso, o trabalho se torna uma condição de existência do homem. Naturalmente, a atividade coletora, como a pesca e a caça, é, num certo sentido, "trabalho". Contudo, não seria correto colocar no mesmo plano a coleta e a produção de alimentos.

A agricultura é o exemplo típico de uma economia produtora. No Brasil, o mais antigo vestígio dessa atividade data de 1400 a.C., aproximadamente. Ela era praticada pelos índios na época da chegada dos portugueses, mas essa era uma tarefa essencialmente feminina. Os homens limitavam-se à derrubada de árvores e à preparação do terreno, enquanto às mulheres cabia semear, conservar e colher.

Comparativamente aos homens, as mulheres nas sociedades indígenas suportavam "uma carga extremamente pesada no sistema de ocupação", afirma Florestan Fernandes. Além da agricultura, elas se dedicavam à coleta de frutos silvestres, colaboravam na pesca, transportavam produtos da caça, fabricavam farinha, cauim, azeite de coco, fiavam o algodão, teciam as redes e cestos, fabricavam utensílios de cerâmica, cuidavam dos animais, dos filhos, preparavam os alimentos para as refeições, etc. Era tarefa masculina, além da preparação ocasional do terreno para o cultivo, a caça, a pesca, a fabricação de canoas, a construção de moradias (malocas) e, principalmente, a atividade guerreira.

Como se pode observar, os indígenas se ocupavam, portanto, de inúmeros afazeres para assegurar o próprio sustento. Mas notemos que a divisão sexual do trabalho era feita de tal modo que as atividades que cabiam às mulheres estavam mais próximas daquilo que comumente concebemos como "trabalho" propriamente dito, em sua rotina diária.

Porém, considerando-se a sociedade indígena em seu todo, não seria correto caracterizá-la como pertencente à categoria da economia produtora.

De fato, a agricultura tivera um papel subordinado à coleta e, desse modo, complementar. Numa economia produtora, ao contrário, a coleta - a caça, a pesca, etc. - é que tem uma função complementar e subordinada. De modo que a caracterização de uma economia como "coletora" ou "produtora" depende de qual das atividades é predominante: a coleta ou a produção de alimentos. [...]

Um ponto sobre o qual gostaríamos de chamar a atenção é a natureza das tarefas femininas [...]. Os arqueólogos descobriram inúmeras evidências de que aquelas eram também as tarefas femininas na pré-história e, por isso, atribuíram à mulher várias e importantes descobertas e invenções que prepararam o caminho para a grande revolução econômica que deu origem à economia produtora. Um arqueólogo australiano, Gordon Childe, deu a esse acontecimento o nome de "Revolução Neolítica", que teria ocorrido por volta de 9 mil anos a.C. na região atual da Palestina, no Oriente Médio. Data desse período a constituição das primeiras sociedades produtoras de alimentos que fizeram do trabalho [...] a condição permanente da existência do homem.

Essa relação íntima entre a mulher e o trabalho nos leva à suposição plausível de que, nas sociedades indígenas, a oposição entre masculino e feminino ganhava também a forma de oposição entre guerra e trabalho. Os homens eram, por definição, guerreiros e as mulheres eram, por assim dizer, as "trabalhadoras".

Num belo ensaio em que estudou a oposição entre o masculino e o feminino entre os índios, Pierre Clastres identificou esses dois mundos através de objetos-símbolos - o arco, que simbolizava o homem, e o cesto, que simbolizava a mulher. Nessa oposição está implícita a referência à guerra (arco e flecha) e ao trabalho (o cesto). É verdade que o "arco" pode ser entendido como um símbolo da caça e, portanto, tal como o "cesto", pertenceria à esfera do trabalho. Contudo, essa arma útil para a caça pode ser voltada contra outro homem - um inimigo -, transformando-se em arma de guerra, ao passo que um utensílio doméstico como o cesto não tem essa propriedade. De modo que é em sua função guerreira que o arco simboliza o masculino, e não como instrumento de trabalho, reafirmando, assim, a nossa hipótese.

Assim sendo, a simbolização do masculino pela guerra e do feminino pelo trabalho dá às diferenças entre os sexos um significado preciso. Nas sociedades indígenas, há entre homem e mulher não apenas uma diferença, mas também uma hierarquia, na qual se torna patente a superioridade masculina, obtida pela inferiorização da mulher. [...]

Mas resta observar que as atividades domésticas das mulheres - a criação dos filhos, o cultivo e o preparo dos alimentos - estão, sem dúvida, ligadas estreitamente à vida. Em contrapartida, se os homens se caracterizam socialmente como guerreiros - a sua atividade típica -, encontram-se obviamente relacionados à morte e à destruição.

[...]

KOSHIBA, Luiz. O índio e a conquista portuguesa. São Paulo: Atual, 2012. p. 30-33

terça-feira, 9 de outubro de 2012

O aparecimento do Estado

Afresco. Palácio de Cnossos, Creta

Junto aos grandes rios, os chefes encarregaram-se de controlar os sistemas de canais. Aí, onde a terra era fértil, os camponeses produziam uma quantidade suficiente de cereais para alimentarem dezenas de milhares de pessoas.

Todas as condições se reuniam então para que aparecesse uma nova organização na vida dos homens.

[Algumas aldeias tornaram-se cidades] As profissões multiplicaram-se e as riquezas também. Entre uma e outra aldeia começou-se a trocar objectos de artesanato e alimentos. O comércio fez assim a sua aparição. As primeiras cidades apareceram cerca de 4000 anos a.C., na Mesopotâmia. A Mesopotâmia é a região fértil situada entre os rios Tigre e Eufrates.

Depois, o vale do Indo, o do Nilo e, mais tarde, o do rio Amarelo na China, viram nascer cidades. No vale do Indo, Harapa e Mohenjo-Daro tinham 60 000 habitantes. Em Mohenjo-Daro as casas eram construídas em torno de um pátio interior. Possuíam mesmo casas de banho. Na China, a primeira cidade conhecida foi fundada cerca de 1900 a.C.

[Como surgiram os primeiros reis] Doravante, na superfície da Terra, os homens viviam de maneiras diferentes. Os caçadores-recolectores era ainda os mais numerosos, por exemplo na América. Em todos os continentes, as pessoas agruparam-se em aldeias. Na África, na Ásia, criadores de gado percorriam grandes extensões de terreno atrás dos seus rebanhos. E, nas primeiras cidades do Médio Oriente, surgem ainda novas mudanças.

Entre os caçadores-recolectores não havia propriamente ninguém que comandasse, as decisões eram tomadas pelo grupo e, por vezes, pelos homens mais velhos.

Mas nas cidades, um chefe único, descendente de uma grande família conseguiu impor a sua autoridade. Ele tornou-se rei fazendo crer aos outros que era protegido pelos deuses. Os sacerdotes, que pertenciam às famílias ricas, apoiavam-no. Os templos desempenhavam um papel muito importante. Eram ao mesmo tempo entrepostos de mercadorias e lugares de culto.

[O rei e seus funcionários] O rei, cada vez mais poderoso, rodeava-se de pessoas que executavam as suas ordens e as faziam respeitar pela população. Desde então, o poder de decidir pertencia ao rei, que governava sozinho com a ajuda de funcionários, homens que deviam obedecer às suas ordens. Tinha nascido o Estado, ou seja, um conjunto de pessoas que decide e dá instruções aos outros. Os camponeses e os artesãos apenas tinham que se submeter. A cidade tinha-se tornado numa cidade-estado governada por um rei.

[Uma praga para a humanidade: a guerra] Será que a guerra, que nunca deixou de assolar a história do homem, existiu sempre? Ou foi uma terrível invenção que acompanhou as outras grandes mudanças do Neolítico?

É uma questão muito grave e muito difícil, sobre a qual os estudiosos discutem há muito tempo. E eles nunca estiveram todos de acordo. A violência é, sem dúvida, uma característica do homem, desde o tempo dos austrolopitecos. Os caçadores do Paleolítico davam largas à sua agressividade na caça; provam-no as hecatombes de mamutes. Mas a caça servia para se sustentarem.

Os caçadores-recolectores cuja maneira de viver foi estudada por etnólogos não tinham todos a mesma atitude. Por exemplo, os esquimós ignoravam a guerra, e ainda hoje a ignoram. Por outro lado, certos grupos de índios da América praticavam-na contra outros índios. Mas essas guerras eram ataques breves, incursões de surpresa. Tinham, sobretudo, por objectivo, o prestígio do guerreiro que obtém o escalpe do inimigo que matou. As guerras não impediam as dádivas recíprocas e os hábitos de troca entre os clãs.

[Escaramuças e pilhagens através de grandes expedições armadas] Quando as riquezas aumentaram, quando os aldeãos fizeram grandes armazenamentos, a guerra começou a ter outro objectivo. A separação entre os agricultores instalados nas suas aldeias e os criadores de gado que continuavam a ser nómadas, atrás dos seus rebanhos, agravou a violência entre os homens. Clãs de criadores de gado foram tentados a pilhar os celeiros dos aldeãos.

A partir do nascimento das cidades-estados, os reis, não contentes por reinarem apenas a sua cidade, procuraram expandir os seus territórios. Graças à metalurgia do bronze, os chefes dispunham de armas novas mais eficazes. Os reis, em luta uns contra os outros, criaram exércitos, ou seja, juntaram homens cuja tarefa era combater. As guerras multiplicaram-se.

[Uma outra praga: a escravatura] Nas suas campanhas assassinas, os guerreiros começaram a fazer numerosos prisioneiros. E um terrível hábito nasceu do triunfo dos fortes sobre os fracos: a escravatura. Os prisioneiros foram deportados para as cidades-estados vitoriosas, e homens, mulheres e crianças tornaram-se os escravos do rei e das grandes famílias. Isto quer dizer que eram a propriedade de outros homens, que dispunham inteiramente das suas vidas e das suas mortes. As crianças que nasciam de pais escravos sê-lo iam, por sua vez. Angariar escravos tornou-se um outro objectivo da guerra. Os escravos eram indispensáveis para os grandes trabalhos que os reis mais poderosos tinham iniciado.

No Médio Oriente, graças às suas vitórias, certos reis apoderaram-se de vastos territórios. Nasciam assim os primeiros impérios, ou seja, a reunião sob o comando de um rei e dos seus funcionários de um grande território com as suas aldeias e cidades. Os mais antigos são Acad e a Suméria a sul da Mesopotâmia. Mas o Império Egípcio é o mais conhecido.

[Grandes impérios, grandes trabalhos, grandes monumentos] À força de vitórias e de derrotas, em todo o Médio Oriente, numerosos impérios surgiram e desapareceram durante vários milhares de anos.

Do mesmo modo, quando a agricultura se tornou próspera, surgiram impérios em outras partes do mundo: na China e nos Andes, na América do Sul. Os chefes desses grandes impérios rivalizavam no orgulho. Queriam mostrar as suas riquezas aos olhos de todos e adular os sacerdotes que os apoiavam. Tinham como ponto de honra construir os maiores e os mais belos monumentos, palácios, templos ou túmulos. Ainda hoje se podem admirar alguns. As pirâmides do Egipto são os mais célebres.

Mas houve muitos outros monumentos desses. Foi necessário o trabalho de milhares de escravos. de camponeses e de artesãos para criar essas "maravilhas do mundo".

[Todas as maravilhas do mundo] Os megálitos encontram-se entre os mais antigos monumentos do mundo. Trata-se de enormes pedras que foram levantados cerca de 3000 a.C., e que serviam de túmulos. Encontramo-los dispersos em torno do oceano Atlântico e do norte da Grã-Bretanha até o sul de Espanha.

Mais ou menos na mesma altura, dois magníficos templos ornados de mosaicos, de pedras preciosas e de diamantes foram construídos em Uruk.

As pirâmides egípcias de Gizé remontam a cerca de 2500 a.C.

Ao sul da Mesopotâmia os zigurates eram enormes edifícios de tijolos. Eram construídos em terraços tendo ao alto um templo consagrado a um dos deuses da cidade. Os primeiros foram construídos cerca de 2000 a.C.

Na ilha de Creta, o palácio mais antigo, o de Cnossos, data dessa mesma época.

CITRON, Suzanne. A história dos homens. Lisboa: Terramar, 1998. p. 37-43.