"Os espelhos estão cheios de gente.
Os invisíveis nos vêem.
Os esquecidos se lembram de nós.
Quando nos vemos, os vemos.
Quando nos vamos, se vão?"
Eduardo Galeano: Espelhos
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quinta-feira, 19 de setembro de 2013

Homofobia: crimes de ódio

Toda homofobia tem em algum aspecto da heterossexualidade sua base fundamental. Contudo, a heteronormatividade não passa de uma crença. Uma crença convencionalizada e mal fundamentada construída no costume e em suas repetições acríticas. Nunca no conhecimento e na verdade. A simples existência dos homossexuais no mundo, por si só, comprova a contradição e o tendencionismo dessa crença. Inclusive, o preconceito faz parte do domínio da crença por ter base irracional.  Preconceitos não dizem respeito ao conhecimento – não usam de raciocínios, argumentos e evidências lógicas para se fundamentarem. Preconceitos não são justificáveis. Principalmente quando acompanhados de altas dosagens de violência, intolerância e discriminação. Discriminar alguém com base em sua orientação sexual é promover tratamento desigual – geralmente inferiorizando-o. E promover tratamento desigual é crime no Brasil.

Dois homens nus, François-Xavier Fabre

São indícios preocupantes em todo o mundo. Nosso país tem apontado graus de intolerância contra os homossexuais que estão além da imagem acolhedora que propagamos pelo globo. Em 2009, foram vítimas de homofobia no país em torno de 198 pessoas. Em 2010, nossa sociedade chocou o mundo com imagens de jovens homossexuais sendo agredidos gratuitamente e à luz do dia em plena Avenida Paulista – coração da maior e mais cosmopolita metrópole do país. Mas a homofobia não é peculiaridade brasileira. No país mais poderoso do planeta, os EUA, 17,6% dos crimes de ódio, em 2008, foram motivados por orientação sexual. Outras culturas também indicam intolerância e ignorância ao tratar do tema. Na China pós-Revolução Cultural, por exemplo, os homossexuais se tornaram alvo regular de perseguições policiais – acusados de vandalismo e perturbação da ordem pública. Na Coréia do Norte a homossexualidade é condenada enquanto vício promovido pela decadente cultura ocidental capitalista – supostamente deturpadora de caráter. Todavia, curiosamente, todos os dias noticiários estão abarrotados de casos de violência abusivos por parte de heterossexuais e nem por isso atribuímos tal violência e agressividade a essa orientação sexual. A verdade é que o suposto medo homofóbico desencadeia níveis de violência injustificáveis. Superiores a qualquer ameaça que os homossexuais possam vir a representar aos tradicionais costumes sociais.

Bacanal, Wilhelm von Gloeden

Em suma, a prática homofóbica se manifesta num conjunto de atitudes segregadoras, agressivas e discriminatórias de inferiorização dos homossexuais por parte dos heterossexuais. Trata-se de um preconceito fundamentado numa crença equivocada e irracional de que somente são possíveis no mundo aqueles que se atraem sexualmente pelo sexo oposto (heterossexualidade). Essa falsa crença deve ser sobreposta à conscientização de que homossexuais são seres vivos, seres humanos. Eles existem e estão ativamente dentro da sociedade. Pagam impostos como todo mundo, compram propriedades e se relacionam como todo mundo. Estudam, trabalham, amam, se frustram, possuem amigos e inimigos, são gordos e magros, bonitos e feios, gentis e sacanas, são tímidos e atrevidos como todo mundo. Se eles estão vivos é porque têm lugar para eles no mundo, caso contrário estariam mortos ou não existiriam. Mas existem. Eles existem. Existem. Nascem, têm vida própria, mães, pais e amigos. E, por existirem, seus direitos devem ser preservados e garantidos como os de qualquer outro ser humano, membro da sociedade civilizada e organizada legalmente.


A massagem, Édouard Debat-Ponson

Nossa constituição zela pelo bem-estar da população e prevê que o respeito pelo outro independe das suas escolhas afetivas pessoais. A Constituição Federal Brasileira define como objeto fundamental da República: “promover o bem de todos, sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor, idade ou quaisquer outras formas de discriminação”. A expressão quaisquer outras formas refere-se a todas as formas de discriminação não mencionadas explicitamente no artigo, tais como a orientação sexual, entre outras. Além de a Constituição proibir qualquer forma de discriminação de maneira genérica, várias outras leis estão sendo discutidas no Congresso a fim de se proibir especificamente a discriminação aos homossexuais. Vale lembrar também que países como o Canadá, a Holanda, Portugal, Argentina e Uruguai já legalizaram o casamento homossexual com o objetivo de reconhecer os direitos civis básicos dessa população.


Amantes do sol, Henry Scott Tuke

No sentido de regulamentar os direitos civis dos homossexuais no Brasil, a partir de 2011 passamos a permitir a legalidade da união estável entre indivíduos do mesmo sexo. O que a legitimação desse tipo de união vem estimular é a defesa de que a união deve ser legal em função do afeto nela presente. Casamentos não são mais (desde o século XVIII) obrigações sociais, nem alianças sociais e políticas entre famílias, não são meios de salvação da alma nem garantias de renda e muito menos mecanismo para manutenção da espécie. Casamentos são celebrações do direito de união afetiva com parceiros de nossa livre escolha. Legitimar a união e, daqui para frente, o casamento entre os homossexuais é afirmar que seus direitos fundamentais estão preservados, bem como o de qualquer outro brasileiro. É uma questão de justiça. O texto das uniões estáveis padronizado nos cartórios brasileiros é enfático: uniões estáveis asseguram direitos civis e a constituição familiar (não a tradicional, mas todos os tipos de família). Afinal, quem é a favor da família – enquanto núcleos funcionais de afeto e compreensão – tem de ser a favor de todos os tipos de famílias possíveis no mundo.


Duas mulheres valsadoras, Henri de Toulose-Lautrec

Por fim, extinguir a homofobia e legalizar os homossexuais na sociedade são atos imperativos para a garantia da qualidade de vida de toda uma geração que está por vir. Seja por adoção, seja por inseminação artificial e uso de barrigas de aluguel ou ainda pela reprodução genética entre duas mulheres, o que importa é que novas famílias estão se constituindo a partir das relações afetivas homossexuais. Assim como no século XX, novas famílias também se constituíram a partir de relações afetivas oriundas de divórcios. E a nova geração de brasileiros que se forma agora não pode vir a sofrer com a homofobia lançada sobre seus pais e mães. Assim como filhos de mulheres e homens divorciados não mereciam sofrer preconceito nas décadas passadas, quando o divórcio ainda era tabu social. Temos de minar a homofobia agora, não só pelo movimento LGBT em si, mas para que as novas gerações não precisem viver marginalizadas e clandestinas dentro da sociedade. Os recentes debates – mesmo que 20 anos atrasados – sobre o assunto são frutíferos e necessários para o amadurecimento de toda a sociedade brasileira. Espera-se que seus resultados sejam racionais, tolerantes, imparciais e objetivos – como toda verdadeira Ética deve ser.

Ana Augusta Carneiro. Crimes de ódio. In: Filosofia. Ano VII, nº 83, junho de 2013. p. 49-50.

sábado, 14 de setembro de 2013

Posições politicas: desigualdades de raça, classe e gênero no Brasil

A exuberante fama de país sensual esconde em seus bastidores desigualdades de raça, classe e gênero

Por Maria Elvira Diaz-Benítez*

Uma das principais imagens que surgem quando se pensa no Brasil é uma suposta sexualidade desenfreada. Aqui o sexo e as sexualidades teriam características próprias, excepcionais, territórios de proezas e exotismo.

Este é um lado da moeda. Mas existe outro. A grande da liberação sexual oblitera uma realidade sensível: as desigualdades na participação democrática efetiva. Hoje, o país presencia um embate sociopolítico em que as bancadas mais conservadoras, afiliadas a grupos religiosos, ganham espaço considerável no Congresso, elevando seus gritos de protesto contra direitos sexuais já conquistados e ameaçando a laicidade do Estado. Se, por um lado, para o mundo, o Brasil é um lugar de eterno verão, produtor de um carnaval lascivo, de corpos e prazeres tropicais e com grande oferta de turismo sexual, por outro, assistimos à eleição de um pastor para a presidência da Comissão de Direitos Humanos e Minorias na Câmara, apesar de suas posições polêmicas sobre homossexuais, negros e os direitos das mulheres.


Protesto a favor dos direitos LGBT em frente ao Congresso Nacional, Brasília, 2009. 
Foto: Antonio Cruz / ABr

Se todo sexo é político, como afirmou a antropóloga norte-americana Gayle Rubin, a sexualidade brasileira também não é neutra. Ela está envolvida em relações de poder. Evoca aqueles discursos do começo do século XX sobre raça, mestiçagem e o futuro da nação, os métodos eugênicos, a criação das patologias e dos pervertidos sexuais. Em poucas palavras, sexualidade e raça se encontram intimamente ligadas nos imaginários coletivos de brasilidade – que foram construídos pela história, a medicina, a literatura, a criminologia, a religião, a mídia, a pornografia – envolvendo questões de classe e de gênero.

O Brasil é uma chave para se pensar na sexualização da raça e na racialização do sexo. Foi o primeiro país na América latina a ter um movimento eugênico organizado. O termo Eugênia foi criado por Francis Galton, antropólogo, matemático, geógrafo e médico inglês. Seria o estudo dos agentes que podem melhorar ou degenerar as qualidades raciais de uma população em gerações futuras. Inspirado na obra maior de seu primo, o biólogo evolucionista Charles Darwin, A origem das espécies (1859), Galton acreditava que a espécie humana poderia ser melhorada evitando-se cruzamentos indesejáveis, isto é, através de uma seleção artificial. Para os cientistas e seguidores do movimento eugenista europeu, o Brasil era considerado um país disgênico (degenerado geneticamente) por excelência e seu futuro estava ameaçado devido ao clima tropical e à população altamente miscigenada.

Os eugenistas brasileiros preocupavam-se em aprimorar um país cuja população era pobre e racialmente muito heterogênea. O tema mobilizava as elites intelectuais. Nina Rodrigues, desde finais do século XIX, já se mostrava cético ante a possibilidade de alcançar uma unidade nacional via mestiçagem. Apesar de seus méritos como médico e primeiro pesquisador da influência africana no Brasil, para ele a inferioridade do africano estava estabelecida fora de qualquer dúvida científica. Menos pessimista, o antropólogo João Batista de Lacerda, em 1911, vaticinou que em um período de três gerações (100 anos) o país conseguiria produzir uma população de fenótipo branco se continuasse a importar europeus, miscigenando-os com os nativos de um modo “bem dosado”. Para o historiador Oliveira Vianna, o “tipo antropológico e racial brasileiro” era o resultado de uma desordem étnica causada principalmente pelos “typos” africanos. Na obra Casa Grande & Senzala (1933), Gilberto Freyre contesta o argumento que Oliveira Vianna construiu em Evolução do Povo Brasileiro (1923). Para o sociólogo pernambucano, a história social brasileira era o produto da heterogeneidade e dos encontros inter-raciais que “harmonicamente” ocorreram entre membros das diferentes raças.

Como os seus críticos apontam, em sua apologia à mestiçagem, Freyre criou uma imagem da história escravista na qual brancos e negros, escravos e amos e seus filhos mulatos viviam em uma relação de fraternidade e intimidade. O segredo para essa convivência fraternal seria a interação sexual, que minguou o despotismo e a opressão característicos do contexto escravista. Esse mito da “escravidão cordial ou branda”, como é chamado pelos críticos de Freyre, faz-se mais evidente com a figura do mulato como elemento mediador. Sua pele mais clara lhe permitiria entrar em um processo de mobilidade social, transitando entre as raças e conciliando os extremos. A teoria de Gilberto Freyre é criticada por não considerar que, num contexto escravista, existe um exercício do poder que recai sobre a sexualidade, em uma sociedade de relações de gênero e de classe assimétricas.

Os programas eugenistas advogavam o controle da sexualidade. Em defesa de uma sociedade sadia, em princípios do século XX, empregaram-se políticas de controle dos hábitos: repressão do ócio e da vadiagem, do comportamento sexual de mulheres (reprodução, higiene, cuidado com crianças) e dos homens mediante a religião, a medicina e a política. O cuidado com a sexualidade masculina estava diretamente relacionado com o aperfeiçoamento da população: relacionar-se com prostitutas, adquirir doenças venéreas ou ter sexo homoerótico eram vistos como causas de degeneração. Ganharam importância visões e práticas relacionadas ao nacionalismo, a modelos moralistas de família, heterossexualidade, masculinidade, feminilidade e também normalidade sexual. A função reprodutora do sexo era a pedra institucional de uma ordem nacional excludente e repressora.

Paralelamente a essas políticas de depuração racial e sexual, os intelectuais criaram ideais de nação com base no encontro sexual inter-racial. Se os mulatos eram figuras emblemáticas, o que dizer especificamente das mulatas?

A figura da mulata encarna o corpo e a alma do desejo. E foi assim que se converteu em símbolo nacional, construído pela literatura, a medicina, o carnaval e, mais recentemente, pelas agências de turismo e os canais televisivos. A categoria da mulata, como disse a antropóloga Mariza Corrêa, “pode contribuir para questionarmos nossa forma habitual de tratar seja das relações de raça, seja das relações de gênero”, mas também as relações de classe, pois essa mulata faz apologia do mundo dos pobres – os quais, segundo o imaginário social, vivem mais próximos da natureza e dos instintos. A mulata é, desde o começo do século XX e até hoje, o fio condutor de um ideário nacional que racializa os desejos sexuais. Mais recentemente, o mercado do sexo (pornografia, prostituição e turismo) inventou outra figura racial e de gênero que encarna em seu corpo símbolos de classe e de nação: a travesti.

Em diversas legendas de filmes pornográficos, a pobreza, a nacionalidade e o gênero das travestis são vendidos como algo prodigioso, exótico e simultaneamente esdrúxulo. O contrário também acontece: o glamour de algumas travestis ou transexuais destacadas – como a pioneira Roberta Close – é ofertado como sinônimo da abertura sexual dos brasileiros e de uma sociedade moderna e bonita, porém, branca.

Terra do fogo, Wilhelm von Gloeden

No Ocidente, historicamente tem se privilegiado o branco e o heterossexual como paradigmas legítimos e modelos morais que colocam o outro como subalterno. Daí que exista um vínculo entre heterossexismo e racismo. Ambos são dispositivos de opressão que se relacionam e que permitem, por exemplo, pensar que um homem negro é obrigatoriamente macho e que nos circuitos homossexuais a branquidade é o padrão de beleza hegemônico. O dispositivo permite também que movimentos de esquerda, como o negro e o proletário, mesmo sendo revolucionários, conservem em seus valores concepções homofóbicas, machistas e misóginas, e que as políticas LGBT nem sempre ofereçam atenção aos fatores de classe e raça, colocando pessoas socialmente diversas em um mesmo patamar.

Estas são as contradições de um país onde a sexualidade, vista de fora como libertária, na verdade se entrecruza com diversas formas de desigualdade.

* Maria Elvira Diaz-Benitz é professora de Antropologia Social do Museu Nacional-UFRJ.

Maria Elvira Diaz-Benitz. Posições políticas. In: Revista de História da Biblioteca Nacional. Ano 8 / Nº 93 / Junho 2013. p. 35-37. 

sexta-feira, 7 de junho de 2013

A passagem para a era de alta tecnologia


As pessoas de todas as épocas tendem a afirmar que a era em que vivem é a mais dramática, instigante e difícil de toda a longa história da humanidade. A ida do homem à Lua em julho de 1969 parecia marcar um novo estágio e um novo triunfo do engenho humano. A década de 1960 foi, no todo, um período de grande otimismo; a de 1970, não. Na década de 1970 e no começo da de 1980, até mesmo nossas maiores conquistas científicas mostraram seu lado negativo. E alguns dos problemas que desde sempre afligem a humanidade recusam-se obstinadamente a desaparecer. A prevenção da guerra nuclear e a proteção do meio ambiente talvez sejam os maiores desafios já enfrentados pelo homem.

Os espantosos progressos que a ciência deu aos países tecnologicamente avançados e às pessoas que têm dinheiro suficiente parecem não ter limites. Os caríssimos programas de exploração espacial dos Estados Unidos e da União Soviética continuaram. Ambas as potências enviaram naves espaciais para os confins do universo. Em 1970, uma dramática operação de resgate ocorreu no espaço depois que a explosão de um tanque de oxigênio a bordo da nave "Apolo 13" colocou em risco a vida dos astronautas. Alguns anos depois, uma nave não-tripulada transmitiu fotos tiradas nas proximidades do planeta Saturno, revelando alguns dos segredos de seus anéis. Essas naves viajam a uma velocidade de até oitenta mil quilômetros por hora. A "Viking I" pousou em Marte em 1976 e enviou fotos que foram mostradas nos noticiários de televisão. Tantos satélites circulam em volta da Terra que as pessoas que aqui ficaram talvez logo tenham de se preocupar com a queda de "lixo espacial". Os progressos dos programas espaciais russo e norte-americano talvez tenham sido empreendidos com um outro objetivo: a guerra, que transformaria numa aterrorizante realidade a popular série cinematográfica Guerra nas Estrelas e os videogames computadorizados das casas de diversões eletrônicas.

De volta à terra firme, a revolução eletrônica, estágio mais recente da Revolução Industrial, modificou tremendamente a nossa vida, desde o modo como usamos os serviços bancários até o modo como cozinhamos nossos alimentos. Um computador que há vinte anos ocuparia praticamente todo o espaço de uma sala cabe hoje no seu bolso. Chegou a era do "computador pessoal". O conhecimento dos computadores ("alfabetização em informática") pode se tornar obrigatório para estudantes [...]. Os videogames computadorizados entraram na moda no final da década de 1970. Os aviões já são praticamente capazes de voar sozinhos. A telecomunicação instantânea e os "editores de texto" modernizaram os negócios e a educação, gerando amargas guerras econômicas entre a gigantesca IBM e suas concorrentes e entre o Japão e os Estados Unidos. Quando as pessoas pela primeira vez ouviram falar de computadores, na década de 1950, temia-se que a "era do botão" provocasse a deterioração do corpo humano por falta de atividade. Só nossos dedos se exercitariam, apertando botões. Agora, mais do que nunca, os computadores substituíram o trabalho manual em alguns campos. Robôs computadorizados quase dão realidade às antigas histórias de ficção científica, à medida que são instalados nas linhas de montagem de fábricas de automóveis em Detroit e no Japão. Poucos discordam de que os computadores contribuíram muito para tornar mais fáceis certos aspectos de nossa vida, mas os seres humanos também tiveram de pagar um preço por isso. A revolução da informática criou uma nova casta de trabalhadores de escritório formados em computação. Porém, o número de empregos na indústria diminuiu por causa do computador, o que contribuiu, em certa medida, para aumentar o desemprego em alguns setores. O computador "desumanizou" os negócios, pois reduziu o contato pessoal. Ao mesmo tempo em que aumentou muito a produtividade em certos setores, colaborou para que o poder econômico se concentrasse nas mãos de umas poucas empresas gigantes, uma vez que só as maiores têm condições de acompanhar os rápidos e dispendiosos avanços na tecnologia da computação. As que não conseguem competir acabam ficando para trás. Os progressos na eletrônica também tendem a aumentar a distância entre os países ricos e os países pobres. E certas pessoas se preocupam, não sem motivo, com o uso que o governo pode dar aos computadores - reunindo informações sobre os cidadãos com o apertar de um botão. Pode ser difícil proteger as informações computadorizadas armazenadas pelos governos, empresas, universidades e hospitais. O que acontece quando uma empresa rival ou uma potência estrangeira consegue entrar no computador de alguém? Será que as leis poderão ser reformuladas de modo que prevejam um castigo para o roubo de informações digitais, como prevê agora para o roubo de uma loja ou residência? Até hoje, o computador tem sido amigo do ser humano, mas pode também se tornar um seu inimigo se os cidadãos forem arbitrariamente sujeitos ao que um especialista chamou de "violência silenciosa" do computador.

A ciência genética progrediu de modo espantoso e permitiu que os cientistas compreendessem como nunca antes a constituição do corpo humano. Certas possibilidades são ao mesmo tempo reconfortantes e incômodas. À medida que compreendemos os genes humanos, torna-se mais possível prever quem pode herdar certas doenças dos pais ou quem vai correr mais risco de contraí-las no decorrer da vida. Ao mesmo tempo, os médicos podem determinar a constituição genética de um bebê antes de ele nascer; a descoberta do sexo do bebê e de certas deficiências mentais são só os primeiros passos. Pode ser que logo seja possível saber se um bebê será suscetível a doenças como a distrofia muscular e a hepatite. A detecção pré-natal dos defeitos genéticos fica a cada dia mais sofisticada.

Não obstante, à medida que os cientistas avançam na compreensão das origens e das características genéticas das doenças que afligem a humanidade, certas questões éticas se impõem naturalmente. Por acaso os médicos devem ter permissão para alterar certos aspectos da natureza humana? As famílias não se sentiriam tentadas a provocar o aborto de um feto que, segundo o parecer dos médicos, teria alguma probabilidade de desenvolver uma doença daqui a quarenta anos, por exemplo? Um indivíduo não poderia ter a sua proposta de emprego recusada porque um cientista determinou que a sua constituição genética acusa a possibilidade da ocorrência de uma doença no futuro? A manipulação genética já produziu um rato maior do que o normal; quais alterações não poderiam ser provocadas no próprio ser humano no futuro distante?

Outros grandes avanços da ciência e da tecnologia determinaram novas ameaças. Em 1979, um vazamento de água radioativa de uma usina nuclear situada em Three Mile Island, na Pensilvânia, ameaçou a segurança de toda a vizinhança. Por vários dias os especialistas buscaram esfriar o gerador nuclear para impedir o derretimento do núcleo do reator, cujo superaquecimento poderia espalhar materiais radioativos por centenas de quilômetros quadrados de uma região densamente povoada. Os habitantes das cidades próximas esperavam ansiosos, prontos para abandonar suas casas se o desastre ocorresse. Por sorte, os especialistas conseguiram evitar a catástrofe. Porém, esse quase-acidente suscitou novos questionamentos a respeito da segurança e da praticidade da energia atômica como alternativa ao petróleo. Alguns anos depois, os planejadores do governo começaram a tentar resolver o problema de o que fazer com as usinas nucleares depois de desativadas por obsolescência, consideração que provavelmente nem sequer foi levada em conta pelos que as construíram.

A corrida armamentista nuclear representa um perigo ainda maior para o nosso planeta, tanto mais que já não envolve apenas dois países, os Estados Unidos e a União Soviética. O Reino Unido, a França e a China certamente já são capazes de mover uma guerra nuclear, como também, provavelmente, a Índia e o Paquistão (países ferrenhamente inimigos), Israel, a África do Sul e talvez a Argentina. Todo ano, os sobreviventes das explosões atômicas de Hiroshima e Nagasaki, de 1945, se reúnem para lembrar o mundo dos inacreditáveis horrores que de novo podem acontecer. Só nos resta esperar que a humanidade tenha aprendido a lição.

Nos Estados Unidos e em outros países, o meio ambiente também sofreu na década de 1970. Descobriu-se que o lançamento de substâncias tóxicas e outros dejetos nocivos em aterros sanitários localizados em muitas cidades representava grave risco para a saúde, de tal modo que muitos bairros, até cidades inteiras, tiveram de ser evacuados. [...] A “chuva ácida” criou um atrito diplomático entre o Canadá e os Estados Unidos, pois poluentes produzidos neste país estão cruzando a fronteira e depositando-se nas terras canadenses através da chuva contaminada, matando peixes e plantas em lagos distantes. Até mesmo as viagens aéreas supersônicas suscitaram um dilema entre o avanço tecnológico e as necessidades humanas. [...]

Os franceses foram responsáveis pelo mais impressionante avanço no transporte ferroviário. Há muito tempo que o Japão tem um “trem-bala” que interliga suas maiores cidades, mas em setembro de 1981 os franceses inauguraram o TGC (“trem de grande velocidade”). O trem francês é ainda mais rápido do que o japonês e é capaz de deslocar-se com segurança a uma velocidade de até 350 quilômetros por hora. [...]

A chuva ácida, os efluentes tóxicos e a poluição sonora são problemas relativamente novos. Durante a década de 1970, a fome, que é o problema mais antigo do mundo, continuou grave como sempre foi. No final de 1974, as reservas mundiais de cereais chegaram ao nível mais baixo em vinte e seis anos. [...] Cerca de dez mil pessoas morriam a cada mês na África, na Ásia e na América Latina. [...] A chamada Revolução Verde havia aumentado a produtividade das safras agrícolas e a área de cultivo em muitas partes do mundo. Porém, nem essa boa notícia foi suficiente para atender às necessidades alimentares do planeta, em face do rápido crescimento populacional e das mudanças climáticas.

[...] Cidades como Cingapura, Cidade do México, Calcutá e Rio de Janeiro, cujos recursos já não davam conta de sua enorme população, foram tomadas de assalto por milhares de migrantes vindos da zona rural, muitos dos quais passam a viver em favelas construídas às margens da grande metrópole. [...]

[...]

O crescimento populacional, as mudanças climáticas e as limitações da Revolução Verde contribuíram para aumentar a distância entre os países ricos e os países pobres. As pessoas deixaram de se referir somente às diferenças entre “Ocidente e Oriente” e passaram a mencionar também as diferenças entre “norte e sul”, contrapondo os países do norte, mais ricos, aos seus vizinhos menos desenvolvidos do sul.

A fome quase precipitou um conflito global. [...]

[...]

Os direitos das mulheres passaram a ser mais respeitados na década de 1970, sobretudo nos Estados Unidos. Em 1972, o senado aprovou a Emenda de Igualdade de Direitos à constituição norte-americana, para pôr fim à discriminação por sexo. [...] Em 1973, a Suprema Corte legalizou o aborto nos primeiros meses de gravidez. Um número maior de mulheres passaram a trabalhar fora, também como advogadas, médicas, empresárias, executivas e professoras universitárias, muito embora as mulheres continuassem a receber menos do que os homens em muitos setores profissionais. [...] Margareth Thatcher foi a primeira mulher a ser primeira-ministra da Inglaterra, com a vitória do partido conservador nas eleições de 1979. Em 1983, Sally Ride foi a primeira astronauta norte-americana a ir para o espaço. [...] Tudo isso representou um excelente começo. Não devemos jamais nos esquecer que a história da humanidade é também a história das mulheres.

O movimento pelos direitos civis foi um dos acontecimentos mais significativos da década de 1960. Na década de 1970, os negros começaram a ser eleitos para cargos públicos, especialmente para as prefeituras de várias grandes cidades norte-americanas, como Detroit, Los Angeles e Atlanta. [...] Mas ainda havia muito a ser feito. A segregação continua em muitos sistemas escolares. [...] O futuro econômico dos jovens de raça negra permanece indefinido, pois ainda é entre eles que se constata a maior proporção de desempregados, num momento em que o governo cortou boa parte dos programas de seguridade social que ajudavam os pobres a subsistir.

Na década de 1970, os homossexuais começaram a exigir o direito a um tratamento justo. Apesar da reação conservadora, comunidades gays floresceram em muitas cidades, particularmente em Nova York e São Francisco; os gays também passaram a ser mais aceitos do que eram antes e encontraram meios de representação política.

Parada do Orgulho Gay. Nova York, 2008.
Foto: Chefe Tweed


A vida na década de 1970 e no princípio da de 1980 refletia uma combinação de mudança e continuidade. Orquestras sinfônicas, óperas e grandes exposições artísticas trazidas da Europa e alardeadas a toque de trombeta encontraram nas maiores cidades dos Estados Unidos um público interessadíssimo. Mas a televisão, o rádio, as gravações musicais em geral e os livros campeões de vendas – tudo incrementado pelo progresso tecnológico – continuaram a ser as principais fontes de entretenimento para o povo. A televisão a cabo levou muitos canais novos a um número cada vez maior de lares norte-americanos. [...] O desenvolvimento da eletrônica possibilitou que programas de televisão fossem gravados para ser vistos depois e criou o fenômeno do aluguel de filmes populares gravados em fitas cassete [...]. As emissoras de FM continuaram populares [...].

[...]

O tema da capacidade de sobrevivência do homem não é um tema novo na história da humanidade. Castigado pela crise econômica e pela deterioração do meio ambiente, vulnerável às ditaduras e ao terrorismo [...], o povo do nosso planeta é capaz de consolar-se por saber que a humanidade sobreviveu a outros perigos no passado. [...] Quanto mais difíceis forem os desafios que a humanidade terá de enfrentar no futuro, tanto mais teremos de trabalhar juntos.


VAN LOON, Hendrk Willem. A história da humanidade. São Paulo: Martins Fontes, 2004. p. 565-599.