"Os espelhos estão cheios de gente.
Os invisíveis nos vêem.
Os esquecidos se lembram de nós.
Quando nos vemos, os vemos.
Quando nos vamos, se vão?"
Eduardo Galeano: Espelhos
Mostrando postagens com marcador Libertinagem. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Libertinagem. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 30 de novembro de 2016

Os libertinos. A libertinagem dos costumes (Parte 5)

O acordo perfeito, Jean-Antoine Watteau

Mas o fato de seguir a natureza, de buscar a voluptuosidade, era facilmente interpretado, em muitos, pela sensibilidade barroca como desencadeamento dos instintos, como paixão de uma liberdade infrene, como rejeição de quaisquer limites. As menoridades, as regências, o tempo de Maria de Médicis, o de Ana d'Áustria, são épocas de galanterias escabrosas, de loucas aventuras, em que gentis-homens como o Conde Bellegarde junto de Henrique IV, os Duques de Guise, o Marechal de Roquelaure, dados às emboscadas, aos saques, às violações, aos incêndios, movidos por ásperas paixões, vivem em orgias furiosas, rixas, duelos, bebedeiras e blasfêmias. Jogam, renegam a Deus [...]. É da moda, entre certa juventude, considerar a religião uma trapaça. No sítio de La Rochelle, alguns oficiais zombaram tanto de um de seus companheiros que falara de Deus, que o obrigaram a solicitar licenciamento. O mesmo acontecia durante a Fronda. A irreligião tornava-se notória entre a nobreza que cercava Gastão de Orléans e Condé. Qual o seu número? Mersenne arquejava: "Só em Paris campeiam 50.000 ateus, no mínimo." Boucher, por volta de 1630, deplorava: "um milhão de espíritos perdidos". Gritos de dor, sem valor estatístico. De 1623 a 1625, houve uma verdadeira crise. Em dois anos apareceram o Romance de Francion, a Musa Amalucada, o Gabinete Satírico, o Parnaso dos Poetas Satíricos, a Quintessência Satírica. Os seus temas giravam em torno da equivalência da devoção e da hipocrisia, do direito do prazer triunfar sobre a regra. Estabeleceu-se o pânico. Os devotos acreditaram numa conjuração. "O ateísmo" tornava-se um fato reconhecido, catalogado, uma força a combater.

MOUSNIER, Roland. Os séculos XVI e XVII. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1995. p. 342. (História geral das civilizações, 9).

segunda-feira, 28 de novembro de 2016

Os libertinos. A Antiguidade em lugar do Cristianismo (Parte 4)

A lição de amor, Jean-Antoine Watteau

Mais grave talvez do que todos esses ataques é o fato de a Antiguidade fornecer o meio de dispensar o cristianismo. Deseja alguém dirigir uma casa, educar filhos? Eis Xenofonte. Governar? Há Aristóteles, Platão, Tácito. Conhecer as leis do Universo? Que leia Plínio, Lucrécio. Instruir-se acerca dos limites entre a natureza e o milagre? Cícero escreveu o De divinatione. Refletir sobre a imortalidade da alma? Aí estão o Fédon e o Sonho de Cipião. Sobretudo os Antigos proporcionavam doutrinas que permitiam ao homem bastar-se a si próprio para enfrentar as dificuldades, as penas, as angústias da vida, doutrinas onde a razão soberana dita os atos que uma vontade livre executa. Para Epicuro, a felicidade constitui-se de dois estados: "Corpo sem dor, alma sem inquietação". Estes dois estados são a voluptuosidade, objetivo essencial de nossa natureza, primeiro bem do homem. A razão sã dita os objetos e as opiniões que é preciso evitar ou procurar a fim de atingir tais estados. A razão levar-nos-á a rejeitar grandes prazeres, se maiores penas devem segui-los, ou a aceitar grandes e prolongadas penas, se prazeres hão de acompanhá-las. A razão mostrar-nos-á que a frugalidade, a honestidade, a justiça nos conduzem aos estados de onde surge a voluptuosidade, que a felicidade e a virtude formam duas irmãs inseparáveis. A moral do prazer convertia-se, assim, num prudente cálculo utilitário. [...]

Outros preferiam os estóicos, Epicteto, Sêneca, cujo estoicismo se matiza de epicurismo. Existem coisas que dependem de nós, a opinião, o querer, o desejo, a aversão e, em geral, os nossos julgamentos e as nossas representações. Somos os seus amos. Nossa imaginação nos dá o poder de representar as coisas no espírito, de vê-las como boas ou más, de desejá-las ou rejeitá-las, de suportá-las ou repeli-las. A faculdade de julgar e querer é absolutamente livre.

Existem coisas, entretanto, que não dependem de nós, o corpo, os bens, a reputação, a dignidade. Elas nos são estranhas. Dependem dos outros.

Se desejamos aquilo que só depende de nós, isto é, bem julgar e conformar nossa vontade ao nosso julgamento, seremos felizes, pois a felicidade consiste em obter o que desejamos.

Os estóicos não eram raros entre os magistrados e os fidalgos. Até um religioso pediu que o amortalhassem com um volume de Sêneca do qual jamais se separara. Mais numerosos, contudo, eram os epicuristas. O epicurismo transformou-se facilmente num utilitarismo que comprazia ao espírito burguês. [...]

MOUSNIER, Roland. Os séculos XVI e XVII. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1995. p. 340-341. (História geral das civilizações, 9).

sábado, 26 de novembro de 2016

Os libertinos. Os povos exóticos e a religião natural (Parte 3)

O banquete do amor, Jean-Antoine Watteau

As descobertas geográficas forneciam novas armas. Os selvagens da América haviam permitido que Montaigne escarnecesse da razão, dos costumes da religião, dos povos cristãos. A China proporcionou os meios de uma operação idêntica aos libertinos do século XVII. La Mothe Le Vayer, em 1642, no seu tratado Da Virtude dos Pagãos, afirmava que se, de acordo com a Igreja, os filósofos pagãos que de fato viveram confortavelmente à lei natural, antes da lei de Moisés, puderam salvar-se, era mister admitir o mesmo em relação aos sábios das nações em cujo meio os apóstolos não pregaram o cristianismo. Ora, a pregação de Cristo não chegara à China. Entretanto, a religião chinesa é mais pura que a dos gregos, dos romanos ou dos egípcios, pois não recorre aos prodígios e, desde tempos imemoriais, os chineses adoraram um só Deus. Confúcio, o Sócrates da China, acreditava na existência de um Deus único e adotara como princípio o próprio princípio da lei natural: jamais fazer a outrem o que não gostaríamos que nos fizessem. Portanto, é possível a salvação de Confúcio e dos chineses. A ideia central era a da bondade da natureza que tende a destruir a crença no pecado original, na necessidade da Redenção através de Cristo, na necessidade da Graça, fundamentos do cristianismo.

Propagou-se também a ideia de que todos os povos da América, da Ásia, das terras austrais, não descendiam de Adão, que a Bíblia continha, pois, apenas a história de um povo, o povo judeu. A Bíblia não tinha o valor eminente que a Igreja lhe atribuía.

[...]

MOUSNIER, Roland. Os séculos XVI e XVII. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1995. p. 339-340. (História geral das civilizações, 9).

quinta-feira, 24 de novembro de 2016

Os libertinos. A libertinagem de espírito. O ceticismo dos libertinos (Parte 2)

A surpresa, Jean-Antoine Watteau

O movimento cético contribuía para distanciar do cristianismo baseado em razões. O cristianismo dos libertinos pretende de um lado que, remontando aos objetos criados ao Criador, é possível provar a existência de Deus, de outro, que uma crítica histórica racional estabelece os fatos históricos de onde podemos inferir a divindade de Cristo. Ora, os libertinos eram todos pirrônicos, céticos absolutos: La Mothe Le Vayer dizia, em 1630, no diálogo de Orasius Tubero:

Toda a nossa vida, pensando bem, não passa de uma fábula; nosso conhecimento, de uma asneira, nossas certezas, de contos; em suma, todo este mundo não passa de uma farsa e de uma comédia perpétua.

Movidos pela sensibilidade barroca, ampliaram e desenvolveram a lição dos grandes italianos da Renascença e de Montaigne. [...]

Desse materialismo resultavam inúmeras consequências. Primeiro, a impossibilidade de saber algo a respeito da essência das coisas. Nossos sentidos só nos permitem alcançar uma verdade relativa, o que nos basta para a prática. A natureza real das coisas escapa-nos. O que valem as especulações acerca da natureza do Ser e da natureza de Deus? O que valem mesmo as provas da existência de Deus? O que vale esta prova da existência de Deus pelo consentimento universal dos povos que possuiriam. todos, a ideia inata de Deus? Não possuímos ideia inata, tudo vem dos sentidos e a imaginação combina os dados dos sentidos de formas tão diversas que muita gente talvez não tenha ideia alguma de Deus. Para Gassendi, tal ideia de Deus, com suas noções de infinito, eternidade, perfeição, onipotência e bondade suprema, não é - porquanto todas as ideias gerais procedem dos sentidos - senão a extensão e o engrandecimento das perfeições constatadas na espécie humana. Deus é o Homem desenvolvido ao extremo.

Provinha daí a desconfiança no tocante ao testemunho histórico. Como fiar-se em testemunhas cujas ideias se formam de modo a permitir tais possibilidades de erro? [...] Em geral, os fundadores e os chefes de Império apresentam-se como órgãos de uma divindade a fim de formar sua autoridade. Os monges da Tebaida inventava, falsas histórias de combates com o Diabo para conquistar renome e subtrair dinheiro dos ingênuos. A conversão de Clóvis, a vocação de Joana d'Arc, a inspiração de Maomé por Gabriel e a de Moisés por Deus constituem subterfúgios políticos. Mas no que se transformam então os testemunhos evangélicos e o cristianismo?

MOUSNIER, Roland. Os séculos XVI e XVII. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1995. p. 337-339. (História geral das civilizações, 9).

terça-feira, 22 de novembro de 2016

Os libertinos. Condições políticas da libertinagem (Parte 1)

Prazeres do amor, Jean-Antoine Watteau

Grupos de homens, unidos sob a mesma denominação de libertinos, apresentavam como característica comum a rejeição do cristianismo, na teoria e na prática, e a adoção de uma vida pagã ou de uma concepção pagã da vida. Continuavam os críticos racionalistas do Renascimento, Pomponazzi, Maquiavel e o príncipe dos céticos, Montaigne. Como eles, utilizavam os Antigos. A Antiguidade integral passara ao ensino. Um jovem encontrava nos autores latinos e gregos tudo o que era necessário à vida: moldava uma alma antiga e anticristã.

Tais homens afastavam-se do cristianismo em primeiro lugar devido aos maus costumes do clero, que os Estados recrutavam por motivos políticos: padres ignorantes que haviam esquecido até a fórmula da absolvição, freiras devassas, abadessas mundanas, prelados de vida pouco edificante, abades que eram crianças de peito, cônegos escolares, padres bêbados [...]. Um reformador dizia: "O que se faz de pior... passa-se entre os eclesiásticos". As controvérsias religiosas, as discussões de teólogos, ortodoxos e jansenistas, gomaristas e arminianos, trazidas a público e desprovidas amiúde de elementar caridade, enfastiavam. As guerras de religião desconsideravam e aviltavam a religião. Em nome de Cristo e do Evangelho, os homens injuriavam-se, caluniavam-se, semeavam a imundície em panfletos rancorosos, descomedidos, escandalosos, traíam, assassinavam. Acabava-se duvidando de que houvesse uma verdade religiosa e aos poucos insinuava-se a ideia de que a religião talvez fosse nefasta. As guerras civis e estrangeiras desbridavam a violência dos instintos e destruíam o respeito à religião. No curso das campanhas, as igrejas eram invadidas, os ornamentos roubados, os tabernáculos quebrados, os cibórios arrebatados, as hóstias profanadas. A vida dos acampamentos favorecia a vida dos sentidos, o abandono aos impulsos da carne, as pilhagens, as rapinas, os estupros. a galanteria, a bebida; afastava os homens de uma religião da pureza, que procurava derivar todos os poderes do indivíduo para o puro amor a Deus, para a santidade perfeita e imaculada.

MOUSNIER, Roland. Os séculos XVI e XVII. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1995. p. 336-337. (História geral das civilizações, 9).

segunda-feira, 31 de outubro de 2016

O sexo das mulheres: desejo e homossexualidade (Parte 4)

O sono, Gustave Courbet

A descoberta do prazer feminino é antiga. Os cavaleiros da Idade Média temem o leito e a mulher insaciável que não estão certos de poder satisfazer, segundo Georges Duby. O Renascimento favorece esse reconhecimento do desejo. Os médicos detectam um líquido feminino, que seria sinal de gozo e que ajuda a reprodução. A corte dos Valois era propícia às experiências de todos os tipos e mesmo às palavras para dizê-los.

O desejo das mulheres se expressa em certos textos da Idade Média e mais ainda do Renascimento, como as poesias eróticas de Pernette du Guillet. As mulheres galantes, cuja vida é evocada por Brantôme, sabem gozar do sexo. Segundo Pierre Camporesi, Catherine Sforza vangloriava-se de tomar posições favoráveis ao orgasmo, palavra não utilizada, embora não se ignorasse a coisa, que é preciso buscar no eufemismo e nas expressões da linguagem poética.

O século XVII da Contrarreforma e do jansenismo é cheio de pudores. A libertinagem do século XVIII é sobretudo masculina, como o erotismo do século XIX. [...]

Fala-se ainda menos da homossexualidade feminina, em razão dos tabus que a dissimulam. A tal ponto que Marie-Jo Bonnet, uma de suas primeiras historiadoras, quase renunciou à tarefa de estudá-la, tendo encontrado tão somente raros testemunhos literários (como Lélia de George Sand, que causou escândalo ao ser publicado), recorrendo mais tarde à imagem para decifrá-la. As meninas, entretanto, não ignoram a excitação do coração e do corpo, sobretudo nos pensionatos ingleses, mais livres, que foram estudados por Caroll Smith-Rosenberg.

O beijo, Henri de Toulose-Lautrec

Tudo muda por volta de 1900. "Naquele tempo, Safo ressucitou em Paris", escreve Arsêne Houssaye. As "Amazonas de Paris" - Natalie Clifford Barney, Renée Vivien, Colette e muitas outras - reencontram os caminhos de Lesbos e animam, na rive gauche, círculos literários livres e refinados. É o tempo das "raparigas em flor", que atormentam o narrador proustiano.

A guerra separa e fere os casais. Ela autoriza inúmeras descobertas sexuais, não raro dramáticas. Radclyfe Hall evoca esses sofrimentos identitários em The Well of Loneliness (1928). Os "Anos Loucos" marcam, nas grandes capitais europeias, a explosão de uma homossexualidade muito mais alegre e liberada, na qual as lésbicas estão muito presentes. Virgínia Woolf, Violette Trefusis e seus amigos do grupo de Bloomsburry, Gertrude Stein, Romaine Brooks, Adrienne Monnier e Sylvia Beach são as personalidades mais conhecidas. Sabemos que elas se amavam, que tinham prazer em estar juntas, que aliavam gozo e criação. Não muito mais que isso.

Na cama, Henri de Toulose-Lautrec

A expressão de um erotismo feminino, ou mesmo de uma pornografia, é, em suma, um fenômeno recente, que atingiu o romance (Virginie Despentes, Catherine Millet) e principalmente o cinema (Catherine Breillat).

Rosa ou negro, rosa e negro, o continente da sexualidade feminina continua uma terra desconhecida, um universo por explorar.

PERROT, Michelle. Minha história das mulheres. São Paulo: Contexto, 2013. p. 67-8.

domingo, 9 de outubro de 2016

Francisco de Bourbon: noivo com rendas (Parte 2)

Parte 2: A rainha dissoluta e o seu marido gay


Retrato do rei Francisco de Bourbon, rei consorte de Espanha por seu matrimônio com a rainha Isabel II de Espanha. Artista desconhecido 

A cerimônia nupcial celebrou-se com grande pompa e circunstância no dia 10 de Outubro de 1846, com Francisco de Assis adornado e enfeitado com as suas melhores vestes e a rainha resplandecendo, vaidosa, nos seus corpulentos dezasseis anos acabados de completar, ambos com um ar de resignação no olhar húmido. O povo de Madrid celebrou como convinha o primeiro casamento de uma rainha desde o de Isabel com Fernando, em 1496, que, para cúmulo, se tinha celebrado em segredo. Nessa noite, depois de terminados os festejos, ouvia-se pelas ruas uma cantoria desafinada e jocosa que descrevia assim o casal real: "Isabelona, tão frescalhona e dom Paquito, tão 'mariquito'".

Dentro do palácio, os protagonistas confirmavam a cançoneta. Francisco de Assis apresentou-se na alcova real com uma camisa tão carregada de bordados e rendas, que provocou o sarcástico comentário que abre a Parte 1. A noite não deu para muito mais e, na manhã seguinte, saíram ambos com forçados sorrisos de circunstância. O passar das semanas, que se transformou em meses, não trouxe qualquer novidade ao ventre da rainha e pela corte começou a correr o rumor que Francisco, para além das suas particulares tendências, também era impotente. Uma criada de quarto ventilou a confidência de o real esposo não ter força no seu... e que o tinha visto a urinar sentado na sanita. O engenho popular não tardou a inventar uma nova rima a esse respeito:

"Paquito adocicado,
De creme parece ser;
Até urina sentado
Tal como uma mulher..."

Apesar de continuar a enfeitar-se, Francisco de Assis tentou manter uma atitude prudente e formal no desempenho do papel de marido real. Também é provável que, de vez em quando, tentasse uma cópula, cujo fruto teria contentado a corte, o povo e talvez a própria interessada. Mas Isabel não tinha nascido para piloto de ensaios e as suas hormonas, em pleno desenvolvimento, pediam-lhe outro tipo de guerra. Lançou-se numa vida cada vez mais libertina, oferecendo o seu corpo adolescente e robusto às alegrias que não encontrava com Francisco. Talvez ele tivesse suportado com alívio esta situação se a rainha tivesse mantido a compostura em público. Contudo, Isabel não só não dissimulava a sua conduta adúltera, como também se permitia censurar o marido, gozando com os seus cornos, a sua impotência e os seus gostos afectados.

Alguns meses depois do casamento, Isabel II tomou por amante o general Francisco Serrano, duque da Torre, ministro da Guerra e herói da guerra carlista. Numa recepção do palácio, Serrano soltou um comentário ofensivo sobre a situação conjugal de Francisco, que não perdoou a Isabel tê-lo aplaudido ruidosamente. A partir deste incidente, quebrou-se a trégua entre ambos, que passaram a ocupar quartos separados. A rainha aproveitou a ocasião para aumentar escandalosamente a lista de amantes, incluindo o seu professor de canto, o compositor de zarzuelas Emilio Arrieta; o sedutor profissional Emilio Marfiori, a quem nomeou conselheiro do reino e ministro do Ultramar; o aristocrático duque de Bedmar e, entre muitos outros, o oficial de engenharia catalão Puig i Moltó, presumível pai de Afonso XII.

A conduta libertina de Isabel trouxe-lhe inevitavelmente problemas com o Vaticano, que chegou a ameaçá-la veladamente com a excomunhão. O assunto sanou-se graças aos bons ofícios do padre Antonio María Claret, confessor da rainha e futuro santo, que utilizou toda a sua influência junto de Pio IX. Isabel  prometeu emendar-se e devolveu à Igreja uma série de propriedades e prerrogativas perdidas com os governos liberais. A Santa Sé estabeleceu uma concordata com Espanha, em 1851, e diz-se que, quando um cardeal recordou ao pontífice a fama da rainha, este concordou sorridente e suspirou enquanto assinava. "Si, puttana; má pia".

TOURNIER, Paul. Os Gays na História. Lisboa: Estampa, 2006. p. 208-9.

sábado, 15 de fevereiro de 2014

"Teúdas e manteúdas" no Brasil imperial

[...] até o período em que se deu a Independência, vivia-se na América portuguesa num cenário com algumas características invariáveis: a família patriarcal era o padrão dominante entre as elites agrárias, enquanto, nas camadas populares rurais e urbanas, os concubinatos, uniões informais e não legalizadas e os filhos ilegítimos eram a marca registrada. A importância das cidades variava de acordo com sua função econômica, política, administrativa e cultural. Alguns números ilustram os contingentes demográficos: São Paulo contava com cerca de 20 mil habitantes, Recife, com 30 mil, Salvador, com 100 mil, e o Rio de Janeiro, graças à vinda de portugueses seguindo d. João VI em seu exílio tropical, era a única a contar com mais de 100 mil residentes. A população urbana, contudo, crescia, alimentando uma forte migração interna (campo-cidade) e externa (tráfico negreiro). Apesar dos problemas de abastecimento, higiene e habitação, as cidades atraíam pela enorme oportunidade que ofereciam de mobilidade social e econômica.


Quando a América ainda era portuguesa, cochichos, piscadelas e sinais com os dedos: sedução pela janela. Huma história, 1822. Henry Chamberlain

Com todas essas transformações, é bom não perder de vista que, de acordo com vários viajantes estrangeiros que aqui estiveram na primeira metade do século XIX (Saint-Hilaire, Tollenare, Debret, Rugendas, Koster, Luccock, Maria Graham), a paisagem urbana brasileira ainda era bem modesta. Com exceção da capital, Rio de Janeiro, e de alguns centros onde a agricultura exportadora e o ouro tinham deixado marcas – caso de Salvador, São Luís e Ouro Preto -, a maior parte das vilas e cidades não passava de pequenos burgos isolados com casario baixo e discreto, como São Paulo, Curitiba e Porto Alegre.

Mesmo na chamada corte, o Rio de Janeiro, as mudanças eram mais de forma do que de fundo. A requintada presença da Missão Francesa pode ter deixado marcas na pintura, ornamentação e arquitetura. Mas as notícias dos jornais Gazeta do Rio de Janeiro (1808-1822) e Idade de ouro do Brasil (1811-1823), órgãos da imprensa oficial, ou mesmo a inauguração do Real Teatro de São João, onde se exibiam companhias estrangeiras e onde soltavam seus trinados artistas como a graciosa Baratinha ou as madames Sabini e Toussaint, não eram suficientes para quebrar a monotonia intelectual. Além do popular entrudo e dos saraus familiares, o evento social mais importante continuava a ser a missa dominical.


O importuno, Almeida Junior

Os viajantes que por aqui passaram na primeira metade do século XIX concordavam num ponto: "a moralidade reinante no Rio de Janeiro se apresenta bem precária", como dizia o mineralogista inglês Alexander Caldcleugh. Já o francês Freycinet queixava-se dos vícios de libertinagem. Afinal, tratava-se de um país onde "não e difícil encontrar-se todo tipo de excessos". E seu conterrâneo Arago cravava: "o Rio era uma cidade onde os vícios da Europa abundavam". Eles tomavam como vícios os concubinatos e adultérios, correntes sobretudo nas camadas mais pobres da população, em que se multiplicavam as "teúdas e manteúdas". Para a chamada "poligamia tropical" não faltaram explicações associadas ao clima quente, como a dada por J. K. Tuckey:

"Entre as mulheres do Brasil, bem como as de outros países de zona tórrida, não há intervalo entre os períodos de perfeição e decadência; como os delicados frutos do solo, o poderoso calor do sol amadurece-as prematuramente e, após um florescimento rápido, deixam-nas apodrecer; aos quatorze anos tornam-se mães, aos dezesseis desabrochou toda a sua beleza, e, aos vinte, estão murchas como as rosas desfolhadas no outono. Assim a vida das três destas filhas do sol difere muito da de uma europeia; naquela, o período de perfeição precede muito o de perfeição mental, e nesta, uma perfeição acompanha a outra. Sem dúvida, esses princípios influenciam os legisladores do Oriente em sua permissão da poligamia; pois na zona tórrida, se o homem ficar circunscrito a uma mulher precisará passar quase dois terços de seus dias unido a uma múmia repugnante e inútil para a sociedade, a não ser que a depravação da natureza humana, ligada à irritação das paixões insatisfeitas os conduzisse a livrar-se do empecilho por meios clandestinos. Essa limitação a uma única mulher, nas povoações europeias da Ásia e das Américas, é uma das principais causas de licenciosidade ilimitada dos homens e do espírito intrigante das mulheres. No Brasil, as relações sexuais licenciosas talvez igualem o que sabemos que predominou no período mais degenerado do Império Romano."

Outra explicação, dessa vez dada pelo conde de Suzanet, em 1825, afirmava que as mulheres brasileiras gozavam de menos privilégio do que as do Oriente. Casavam-se cedo, logo se transformando pelos primeiros partos, perdendo assim os poucos atrativos que podiam ter tido. Os maridos apressavam-se em substituí-las por escravas negras ou mulatas. "O casamento é apenas um jogo de interesses. Causa espanto ver uma moça, ainda jovem, rodeada de oito ou dez crianças; uma ou duas, apenas, são dela, outras são do marido; os filhos naturais são em grande número e recebem a mesma educação dos legítimos. A imoralidade dos brasileiros é favorecida pela escravidão e o casamento é repelido pela maioria, como um laço incômodo e um encargo inútil. Disseram-me que há distritos inteiros em que só se encontram dois ou três lares constituídos. O resto dos habitantes vive em concubinato com mulheres brancas ou mulatas."

"Nascer do outro lado dos lençóis" era o eufemismo empregado para designar bastardia. E não foram poucas as famílias assim constituídas. João Simões Lopes, o visconde da Graça, estancieiro, comerciante e chefe do partido conservador em Rio Grande, tinha uma vida nada convencional na segunda metade do século XIX. Casado, mantinha na mesma rua em que morava, três casas abaixo, sua amante. Quando sua esposa deu à luz um filho, quase na mesma semana nascia-lhe outra da "teúda e manteúda" Vicência Ferreira Lira. Teve, com cada uma delas, dez filhos, sendo pai de doze de um primeiro casamento do qual ficou viúvo. O arranjo não causava discórdia. Nas missas de domingo, a legítima esposa ficava de um lado da igreja e a concubina, do outro. Todos muito devotos!

DEL PRIORE, Mary. Histórias íntimas: sexualidade e erotismo na história do Brasil. São Paulo: Planeta do Brasil, 2011. p. 62-65.

NOTA: O texto "Teúdas e manteúdas no Brasil imperial" não representa, necessariamente, o pensamento deste blog. Foi publicado com o objetivo de refletirmos sobre a construção do conhecimento histórico.

terça-feira, 28 de janeiro de 2014

"Bacanais" à brasileira

Há autores que sublinham a esquizofrenia do brasileiro, um povo que adora e, ao mesmo tempo, repudia a sua vocação mais escancarada e libertina. Povo irreverente que tanto adora sexo quanto falar dele, mas que também não consegue se desvencilhar de um ranço moralista e extremamente conservador que ainda insiste em afirmar que tudo o que se refere a sexo é sujo e pecaminoso, e valoriza o sofrimento em detrimento do prazer. Mas, com uma história de tanta repressão, não é difícil entender as razões para o moralismo. E o outro lado?

Vamos observá-lo, sobretudo em determinados momentos: festas populares, danças e músicas. Estrangeiros sempre olharam tais manifestações com desprezo. Em especial quando as mulheres se mostravam fora do comportamento pudico exigido na época: braços para o alto, pernas e bocas abertas. "Dança obscena", feita de "volúpias asquerosas" ou "febres libertinas", era como se identificavam tais momentos em que a sensualidade levava a melhor. Não escapava o gingado de mulatas e negras capazes de atrair os homens, brancos ou negros, "com suas formas sedutoras e o cheiro de suas axilas". Tais cenas afastavam o "povo" do caminho de moralidade exigido pelo comportamento burguês, já sacramentado na primeira década do século XX. É óbvio que nem todos os segmentos achavam que dançar, suar e brincar eram manifestações de atraso. E passavam longe do projeto de tornar o Brasil uma outra Europa.


Jogos durante o carnaval no Rio de Janeiro (Entrudo familiar), Augustus Earle

Tanto o carnaval quanto as festas religiosas convidavam a excessos em que a sexualidade não se escondia. Por exemplo, a festa de Nossa Senhora da Penha, no Rio de Janeiro, segundo o capelão da irmandade, "transformavam-se todos os anos em bacanal vergonhoso aviltado por crimes hediondos e desordens abomináveis". Era nas faldas do morro escarpado, sobre o qual repousa o templo, que as pessoas iam, "não levadas pela fé", queixava-se o padre, "mas para dar livre e impudica expansão ao libertinismo repugnante". Sexo e fé não rimavam. A imprensa criticava o que se considerava "verdadeira bacanal da Grécia ou Roma antiga".

O carnaval também colocava em cena a sexualidade posta de lado no restante do ano. A praça Onze, no Rio de Janeiro, ponto alto do encontro de camadas populares, promovia uma festa de "gritos e urros", segundo observadores, ao som de cuícas e pandeiros, onde morenas requebravam "como gatas, felinas e maliciosas, tentando branco e preto, louro ou moreno, dançando e rodopiando", descrevia o jornal O Radical em 1933. Não escapou a Graça Aranha, escritor e diplomata, idealizador da Semana de 22 em São Paulo, as diferenças entre o carnaval de rua e aquele dos clubes fechados. No primeiro, triunfavam a negra e a mulata. "Fura a imobilidade um grupo de baianas, dançando, cantando, saracoteando a grossa luxúria negra, seguidas por gorilas assanhados de beiços compridos, tocando pandeiros, pulando lascivos".

Já nos bailes fechados, atos abomináveis se multiplicavam. Éter e cocaína rolavam livremente. Mulheres passando dos cinquenta atracavam-se com "rapazelhos de dezoito". Noivas esqueciam o compromisso e pulavam nos braços de outros. Não faltava o choro envergonhado da mocinha de boa família, apalpada ou espalmada. Problema dela, afinal estava vestida de gigolette, prostituta parisiense das mais reles. A poetisa Cecília Meirelles explicava a opção da fantasia que revelava mais do que escondia: "senhoras tranquilas sofrem silenciosamente o ano inteiro só com a esperança de aparecerem no carnaval, vestidas de gigolettes". Cronistas acusavam a promiscuidade reinante nos melhores ambientes, levando senhoras casadas a se comportarem como prostitutas: "muitas são as damas finas que se nivelam às hetairas nos clubes, nos bailes, nos três dias de orgia carnavalesca. Terminada a festa, porém, as prostitutas continuam no seu triste mister; as elegantes, decaídas eventuais, tornam aos seus lares, tomam parte em ligas contra o álcool, deitam o verbo fulminando  contra o vício", denunciava a Revista Policial, em 1927.

Ou a Fon-Fon: "meninas pudicas que não fumam, não bebem, não vão sequer sozinhas ao cinema, nos dias carnaval, entram em café barato como qualquer homem, bebem com um simples desconhecido, praticam toda a espécie de loucura, satisfazem a todos os desejos de liberdade".

Já as esposas "que vivem para os filhos", essas podiam ser encontradas no High-Life, no Bola-Preta...

Nos anos 50, a cobertura de revistas como O Cruzeiro sublinhava as transgressões femininas. "O movimentado carnaval de três garotas, os bailes, as festas, as brincadeiras e o que aconteceu quando elas resolveram galgar no Trono de Sua Majestade Momo" era título de matéria fartamente documentada com fotos em que, fantasiadas de dançarinas de can-can, com saias curtíssimas, moças posavam em todas as posições.

Outra reportagem tinha como tema a farta difusão de beijos durante as festas do Momo. O título era "Beijos no carnaval" e o autor explicava: "O caso é que no carnaval o beijo impera livremente. Todos, ou quase todos se beijam. Não há malícia, creiam. A hipnose musical e os efeitos do álcool agem profundamente na personalidade de cada um. Parece que todos ficam mais simples, mais espontâneos. E beijam. Principalmente nos bailes. Beijos roubados, beijos apaixonados, beijinhos, beijos espetaculares. É o amor. É o retorno à simplicidade. Não procurem o lado escandaloso, nestas fotografias. O que há aqui é vida. Vida em uma das suas mais ricas manifestações".

E seguiam-se fotos e mais fotos de beijos...

O carnaval era visto como uma festa perigosa, depravada, na qual "as ligações mais secretas transparecem, em que a virgindade é dúbia e inútil, a honra, uma caceteação, o bom senso, uma fadiga". O desejo, sobretudo o feminino, engessado pelos bons costumes durante o ano, explodia nas fantasias e comportamentos espontâneos. Era "sem-vergonhismo" puro, no entender de alguns. Caminhada para a liberdade, no de outros.

A música também assinalava transformações nos comportamentos femininos, registrando o estarrecimento masculino diante das condutas que rompiam com valores tradicionais. O papel "superior" do macho estava sendo questionado. Eis por que se multiplicavam as composições sobre a mulher que renunciava ao lar para emancipar-se: "Good-bye, meu bem", gravada por Raquel de Freitas, ou "Dona Balbina", por Carmem Miranda, são bons exemplos. E os homens não ficaram de braços cruzados. A crítica feroz à liberação do tamanho dos vestidos e o uso da maquiagem, veio na forma de composições como as que fez Francisco Alves com "Tua saia é curta" ou "Futurista". Em "Se a moda pega" ou "Cangote raspado", a queixa é contra moças que expunham a nuca aos rapazes, graças ao corte à la garçonne. Recusa ao namoro ou ao casamento? Frieza e maldade da nova mulher que emergia entre os anos 30 e 40. O resultado de tanta "leviandade", segundo os compositores, era o abandono e a solidão.

Mas as mulheres já tinham suas defensoras. A escritora Ercília Nogueira Cobra foi uma delas. Escrevendo contra a submissão na qual foram sempre colocadas, reagia: "Os homens, no afã de conseguirem um meio prático de dominar as mulheres, colocaram-lhe a honra entre as pernas, perto do ânus, num lugar que, bel lavado, não digo que não seja limpo e até delicioso para certos misteres, mas que nunca poderá ser sede de uma consciência. Nunca!! Seria absurdo! Seria ridículo, se não fosse perverso. A mulher não pensa com a vagina, nem com o útero".

Presa e interrogada, várias vezes, durante o Estado Novo, a paulista de Mococa escandalizou ao lançar suas contribuições para as letras brasileiras: Virgindade anti-higiênica: preconceitos e convenções hipócritas e o romance Virgindade inútil: novela de uma revoltada. Considerada uma anarquista "ameaçadora" aos bons costumes, Ercília discordava da visão conservadora de então. Defendia a educação feminina como forma de evitar a prostituição de meninas pobres e acusava os "grandes hotéis, grandes chás, grandes transatlânticos", lugares do dinheiro e da burguesia, como os espaços por excelência do meretrício chic. A falta de igualdade da mulher em relação aos homens levava-a a acusar: "a única pornografia que existe é o mistério que se lança sobre o mais natural e inocente instinto da natureza humana". E mergulhava fundo na questão, revelando, por exemplo, que a falta de expressão sexual livre, entre as casadas, terminava por dobrá-las aos desejos dos maridos. Para os solteiros, restava a masturbação, exclusiva forma de preservar esse "bem inestimável": a virgindade, único passaporte válido para o casamento. Por agir assim, explicava, a mulher se considerava um objeto, pois criada exclusivamente para aceitar como padrão de comportamento a instituição do matrimônio. Fora disso e da vida religiosa, só existiria "degeneração". Para Ercília, o desgastado dilema "mãe ou prostituta" contribuía para a submissão sem freios da brasileira. Seus ensaios e romance defendiam a destruição dos valores da época, substituídos pelo direito e responsabilidade no exercício da liberdade, emocional e sexual. Incentivo aos bacanais? Não. Mas à liberdade sexual consciente.

DEL PRIORE, Mary. Histórias íntimas: sexualidade e erotismo na história do Brasil. São Paulo: Planeta do Brasil, 2011. p. 147-151.

NOTA: O texto "Bacanais à brasileira" não representa, necessariamente, o pensamento deste blog. Foi publicado com o objetivo de refletirmos sobre a construção do conhecimento histórico.

domingo, 12 de janeiro de 2014

D. Pedro I, o imperador libertino

O período abriu-se com a chegada da Corte portuguesa ao Rio de Janeiro em 1808. Entre os membros da família real, Carlota Joaquina Teresa Caetana de Bourbon y Bourbon já vinha mal falada por viver na Quinta do Ramalhão, palácio distante do marido, d. João. À boca pequena murmurava-se sobre a rainha com o comandante das tropas navais britânicas, Sydney Snith. A ele, ela ofereceu de presente uma espada e um anel de brilhantes. Temperamental e senhora de um projeto político pessoal – queria ser regente de Espanha -, a rainha teve, sim, seus amores. Todos encobertos pela capa da etiqueta e por cartas trocadas com o marido, nas quais, apesar de não viverem juntos, ele era chamado de “meu amor”.

A nora, recém-chegada de uma das mais sofisticadas cortes européias, a Áustria, não deixou de escrever aos familiares, chocada com o comportamento de Carlota Joaquina: “Sua conduta é vergonhosa, e desgraçadamente já se percebem as conseqüências tristes nas suas filhas mais novas, que têm uma educação péssima e sabem aos dez anos tanto como as outras que são casadas”.

Os casos amorosos da rainha eram conhecidos e o mais rumoroso deles resultou no assassinato a facadas – a mando da própria Carlota – da mulher de um funcionário do Banco do Brasil, sua rival. Enquanto isso, comentava-se a solidão de d. João V, atenuada – dizem biógrafos – graças aos cuidados de seu valete de quarto.


D. Pedro I, imperador do Brasil, Henrique José da Silva

Já o filho d. Pedro não escondia de ninguém seus casos. Tampouco se importava em ser discreto com a própria esposa, a princesa Leopoldina Carolina, com que casou em 1817. Segundo biógrafos, “seu apetite sexual” era insaciável. Ele não conhecia limites nem diante da família nem diante do marido da mulher desejada. Não importava a condição social: mucamas, estrangeiras, criadas ou damas da corte. Delavat, o cônsul espanhol no Rio, em 1826, acusava-o de ser “variável em suas conexões com o belo sexo”. E não hesitava em manter relações com várias mulheres de uma mesma família, como fez com a dançarina Noemi Thierry e sua irmã. Com poucos meses de casado, já estava enamorado de Noemi. Costumava visitar a moça na companhia da própria esposa, na casa de seu camareiro, d. Pedro Cauper. Enquanto as filhas de Cauper entretinham d. Leopoldina, d. Pedro escapava para algum canto com Noemi. Quando a esposa compreendeu a situação e queixou-se ao sogro, esse despachou Cauper e a família para Portugal. Noemi, grávida de seis meses, foi removida junto com o marido, um oficial, para Pernambuco.


Dona Leopoldina, então Princesa Real-Regente do Reino do Brasil, preside a reunião do Conselho de Ministros em 2 de setembro de 1822, Georgina de Albuquerque

O mesmo Delavat dizia sobre d. Pedro que tinha ele “um objeto distinto para cada semana, nenhuma conseguia fixar sua inclinação”. Nenhuma até ir a São Paulo, em setembro de 1822, quando proclamou a Independência. Lá encontrou Domitila de Castro Canto e Mello. Tinha d. Pedro 24 anos e Domitila, 25. Belíssima? Não exatamente. Certo pendor para a gordura, três partos, cicatrizes, um rosto fino e comprido, aceso pelo olhar moreno. Domitila, mãe de três filhos e acusada de adultério, tomara uma facada do marido, certa manhã em que voltava, às escondidas, para casa. O fato era conhecido na cidade de São Paulo e manchava o nome da família.

Entre os dias 29 e 30 de agosto de 1822, tinha início uma aventura romanesca que marcaria a vida de d. Pedro. Esse affair extravasou a alcova e refletiu-se, mais tarde, na vida política e familiar do príncipe, bem como na imagem que dele se fazia dentro e fora do país.

Passado um ano, a data do primeiro encontro foi registrada pelo punho do próprio d. Pedro: “o dia 29 deste mês em que começaram nossas desgraças e desgostos em consequência de nos ajuntarmos pela primeira vez, então tão contentes, hoje, tão saudosos”. E em outra missiva fala do dia 30 como aquele em que “comecei a ter amizade com você”. Logo após tornar-se imperador, d. Pedro deixa de lado a discrição, transformando “Titília” numa “teúda e manteúda” que é apresentada à corte e instalada em casa [...].

Em novembro de 1822, d. Pedro felicitava Domitila por “estar pejada” e anuncia-se “disposto a sacrifícios” para honrar os compromissos de pai. Mas a criança nasceu morta. Em 1824, vem ao mundo Isabel Maria de Alcântara Brasileira. Em 1826, no dia do imperial aniversário, ela tornou-se a marquesa de Santos. Aconteceu então um fato documentado: tendo os diretores do Teatro da Constituição recusado a entrada da marquesa numa das representações, sob pretexto de que sua conduta não era digna da boa sociedade, baixou-se ordem para que fossem fechadas as portas do teatro e presos aqueles diretores. O imperador era um amante zeloso!


Retrato de Domitila de Castro Canto e Melo, Marquesa de Santos, Francisco Pedro do Amaral

Amante, sim, e quanto paixão! Suas cartas não deixam mentir. São recheadas de suspiros e voluptuosidade: “Meu amor, meu tudo”, “meu amor, minha Titília”, “meu benzinho... vou aos seus pés”, “aceite o coração deste que é seu verdadeiro, fiel, constante, desvelado e agradecido amigo e amante”, rabiscava. E mais incisivo: “Forte gosto foi o de ontem à noite que tivemos. Ainda me parece que estou na obra. Que prazer!! Que consolação!!!”. E terminava “com votos de amor do coração deste seu amante constante e verdadeiro que se derrete de gosto quando... com mecê. Ou mandava “um beijo para a minha coisa”; “abraços e beijos e fo...”. E depois, mortificado de ciúmes e suspeitas, perguntava, “será possível que estimes mais a alguém do que a mim?” E assinava-se “seu Imperador”, “seu fogo foguinho”, “o Demonão”, quando não acrescia eroticamente, como se vê em carta no Museu Imperial, o desenho do real pênis ejaculando em louvor da amante. Tudo cheirando – como disse um biógrafo – a lençóis molhados e em desalinho.

O amor adúltero desenvolvia-se na frente de todos e dividia a Corte. Os irmãos Andrada, em particular José Bonifácio, reprovavam a atitude do jovem imperador, que consideravam comprometedora da imagem do novo império no exterior. Ainda como viscondessa, Domitila foi elevada a dama camarista de dona Leopoldina e acampanhou o casal numa viagem de dois meses à Bahia. O secretário da imperatriz escreveu, em fevereiro de 1826, ao chanceler austríaco Klemens Wenzel von Metternich para reprovar a “fatal publicidade da ligação” com a marquesa de Santos, debitando-a à “resignação e introspecção” da princesa austríaca.

A possibilidade de d. Pedro I casar-se com a “Pompadour tropical” após a viuvez horrorizou a aristocracia europeia. Multiplicaram-se as murmurações contra a Castro, que reunia em São Cristóvão uma família bastante característica desses tempos: filhos legítimos e ilegítimos, seus sete irmãos, sobrinhos e cunhadas, o tio materno Manuel Alves, a tia-avó dona Flávia e as primas Santana Lopes. O barão de Maréchall anotava em seu relatório enviado à Áustria: “A família aflui de todos os cantos; uma avó, uma irmã e uns primos acabam de chegar”.

A morte de dona Leopoldina, no final de 1826, aos 29 anos, obriga d. Pedro a tomar certos cuidados, pois não faltaram manifestações acusando Domitila de ter envenenado a imperatriz. A própria Leopoldina se queixara, em carta ao pai, que o marido a maltratava “na presença daquela que é causa de todas as minhas desgraças”. Insultos, ameaças, proibições de entrar no palácio e mesmo uma tentativa de linchamento revelam a reação dos moradores do Rio à presença da concubina.

Em 1827, já gozando de todas as prerrogativas de marquesa, Domitila recebe ainda a condecoração da Real Ordem de Santa Isabel de Portugal, além de conseguir títulos de nobreza para o restante da família. Tanto agrado deixou marcas e aguçou desafetos, dando munição aos que se batiam pelo fim das honrarias. Os receios de um casamento da amante com o imperador se espalhavam. Metternich não escondia seu horror: “É inconcebível que o imperador pense em se casar com a senhora de Santos, pois seu marido é vivo”. Perigo havia, mas, quando se alastraram notícias da busca de uma noiva para o imperador viúvo, as cartas de amor que Domitila recebia mudaram de tom. Agora, d. Pedro falava em “gratidão e afeto particular” e chamava-a de “minha amiga”. Grávida pela quarta vez do imperador, percebe suas intenções quando ele pede que se distancie da corte, com a promessa de uma pensão generosa. A “concubina e sua comitiva” – relatava Maréchall aos superiores austríacos – seriam afastadas antes da chegada da nova esposa. A 13 de agosto de 1827, nascia, no Rio de Janeiro, Maria Isabel de Alcântara Brasileira, a quarta filha do casal de amantes.

Assinado em 1829, o contrato de casamento com a princesa alemã Amélia de Leuchtenberg, segunda esposa de d. Pedro, pôs um fim ao caso.


Segundas núpcias do imperador D. Pedro I com dona Amélia de Leuchtenberg, Jean-Baptiste Debret

Nessa época, ser libertino não significava apenas seduzir todas. Mas, sobretudo, não se deixar seduzir. E a lista de amantes do imperador é considerável, embora incompleta: Mariquita Cauper, filha do camareiro Pedro Cauper; Ana Rita, mulher de Plácido de Abreu; Joaquina ou Ludovina Avilez, esposa do general Jorge Avilez; Carmem Garcia, esposa do naturalista Bompland; Maria Joana, filha do capitão Ferreira Sodré; Regina de Satourville, mulher de um ourives da rua do Ouvidor; Carlota Círíaco da Cunha, filha de um rico industrial; Clémence Saisset, mulher de um comerciante francês; e outras, como Joaninha Mosqueiro, que lhe daria um filho, José, nascido em 1829; Luizinha Meneses, Andresa Santos, Gertrudes Meireles, Ana Sofia Steinhausen e Androsinha Carneiro Leão. Do serralho ainda constaram a viscondessa de Sorocaba, irmã da marquesa de Santos; Maria Benedita Delfim Pereira; Luisa Clara de Meneses, mineira de Paracatu, mulher do general José Severino de Albuquerque; Heloísa Henri, mestra de dança francesa, mulher do dr. Roque Schüh; as mães de Umbelino Alberto de Campo Limpo e de Teotônio Meireles; bem como a atriz Ludovina Soares. Nenhuma se negava a d. Pedro I. Por ser rei e por ser fogoso.


DEL PRIORE, Mary. Histórias íntimas: sexualidade e erotismo na história do Brasil. São Paulo: Planeta do brasil, 2011. p. 57-62.

NOTA: O texto "D. Pedro I, o imperador libertino" não representa, necessariamente, o pensamento deste blog. Foi publicado com o objetivo de refletirmos sobre a construção do conhecimento histórico.