"Os espelhos estão cheios de gente.
Os invisíveis nos vêem.
Os esquecidos se lembram de nós.
Quando nos vemos, os vemos.
Quando nos vamos, se vão?"
Eduardo Galeano: Espelhos
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sexta-feira, 4 de julho de 2014

Influência da Europa sobre a América

No fim do século XVII, a transformação da América pela Europa já era sensível. Os europeus haviam introduzido no Novo Mundo animais e plantas até então desconhecidos: pombos, galinhas, patos, vacas, cavalos, asnos, mulos, cabras, ovelhas, trigo, centeio, arroz, laranjeira, limoeiro, oliveira, vinha. Tinham transmitido o conhecimento de suas técnicas, especialmente a roda e os derivados, todos os instrumentos e mecanismos baseados no movimento circular, uma das bases da civilização do Velho Mundo, e a abóbada, condição das principais construções européias. O aspecto geográfico de muitas regiões americanas já se transformara. Não obstante, as lavouras, os rebanhos, os edifícios e as estradas dos europeus estavam ainda mal disseminados em faixas costeiras, em zonas restritas ou linhas dispersas. O homem branco limitara-se a encetar este gigantesco continente.

O homem branco levara para a América as instituições de seu torrão europeu. Mas, num meio e em circunstâncias novas, tais instituições transformaram-se, dando origem a sociedades diferentes da mãe-pátria, a verdadeiras nações que possuíam todas, em diversas gradações, seus costumes, maneiras próprias de acionar instituições aparentemente análogas às de suas regiões de origem, seus interesses, suas preocupações, um desejo de levar vida própria e de regular por si mesmas seus negócios, um espírito de particularismo e autonomia. Mas tais nações, segundo suas origens e circunstâncias de evolução, diferiam profundamente umas das outras. Desde as colônias espanholas, levadas pela recessão das correntes comerciais a voltar para um regime dominial, senhorial e vassálico, mais próximo da Idade Média europeia do que da metrópole no século XVII, até as colônias inglesas, onde as diversidades religiosas, a livre iniciativa e o grande comércio criaram todas as formas de burguesia, cadinho de experiências políticas que rapidamente ultrapassam as da metrópole, representativos e parlamentares do futuro, passando pelas colônias francesas e portuguesas, em estágios intermediários, estende-se um magnífico campo de pesquisa e reflexões experimentais para o historiador empenhado em compreender as condições de existência dos diferentes regimes políticos.

Incomparável é também o campo de pesquisa aberto pelo contato destas sociedades brancas com os índios e os negros. De fato, nenhuma sociedade branca teve êxito na assimilação e talvez nenhuma tenha verdadeiramente tentado. Negros e índios encontravam-se em níveis de civilização que os europeus haviam sucessivamente atingido na Europa. O problema consistia em levá-los, em algumas décadas, através de todos os estágios percorridos pelos europeus em mais de trinta séculos: e não houve solução para isto. Um resultado do contato das sociedades brancas mais evoluídas com as sociedades índias que o eram muito menos foi a desorganização e a desagregação destas, a redução do número ou o desaparecimento de seus membros. Outro foi a transferência de considerável número de negros da África, a constituição de uma raça inferior, escrava ou desprezada. Os negros puros passaram por incapazes de assimilar a civilização européia, por mansos e sem iniciativa. Aos mestiços, numerosíssimos, concedeu-se uma verdadeira inteligência, mas uma espécie de instabilidade mental. Um resultado considerável foi a transformação das sociedades europeias da América espanhola, portuguesa, francesa, inglesa nas Antilhas e na parte tropical da América do Norte, quer pelos cruzamentos e pelo afluxo de sangue novo, quer pela sua situação de senhores no meio de escravos, ou de senhores chefiando servos. Os hábitos novos daí resultantes e a influência dos povos de cor sobre seus senhores brancos constituem assunto ainda pouco estudado.


A cativa, Eanger Irving Couse

Já esteve em moda opor as colonizações espanhola e francesa, humanas, preocupadas com o indígena, e o seu progresso, o seu porvir, à colonização inglesa, brutal, orgulhosa destruidora do índio. É certo que o governo inglês não demonstrou o mesmo cuidado de assimilação que os governos espanhol e francês. É certo que os colonos ingleses mostraram ser menos aptos a abandonar seus hábitos de espírito e seu gênero de vida, a compreender os indígenas e possuir menos vontade de tentar algo neste sentido, menos facilidade de se unir pelo casamento às mulheres indígenas, uma repugnância em viver a vida dos índios, mais altivez e maior cupidez no lucro. O espírito puritano só complicava as coisas. Thomas Morton, fundador de Mont-Joyeux, foi expulso do Massachusetts porque seus colonos e ele se entregavam, juntamente com os índios, a bebedeiras e a danças endiabradas, à moda índia. O puritanismo viu facilmente nos índios representantes dos Madianitas e Amalecitas dignos de extermínio e no feliz usurpador das terras índias um eleito de Deus. Os franceses, portugueses, espanhóis conviviam de melhor boa vontade com os indígenas. A maleabilidade dos franceses, sua capacidade de adotar os costumes dos índios e para se tornarem bem-vindos em seu meio ficaram proverbiais.

Contudo, mais talvez do que do caráter e da religião, a atitude dos diferentes colonizadores dependeu das circunstâncias e do modo de produção. Nas Antilhas, frente aos negros, os franceses mostraram-se tão racistas quanto os ingleses, embora os negros, via de regra, gozassem de melhor sorte nas colônias francesas. Nas estepes mexicanas, os espanhóis trataram os Chichimecas de maneira semelhante à que os pioneiros ingleses adotaram com os Abenakis ou os Creeks e, mais tarde, os Sioux. No Canadá, os franceses entendiam-se com os índios e, em certa medida, uniam-se às suas filhas, mas os brancos constituíam um punhado apenas e necessitavam dos indígenas. Como teriam procedido, se se vissem, como no Massachusetts, por volta de 1670, em número de 80.000 contra 12.000 índios, com grande necessidade de terras e com os territórios de percurso dos indígenas encravados no meio das lavouras dos brancos? Os ingleses, relativamente numerosos, pouco a pouco repeliram e destruíram os indígenas, tanto mediante o desbastamento do território de percurso onde fugiam os animais de caça, como pela guerra. Os defensores da civilização agrícola multiplicaram-se e privaram de meios de existência, de espaço vital, os praticantes da civilização seminômade dos caçadores, destinados a desaparecerem paulatinamente. Mas os espanhóis, e mesmo os franceses, em geral, subordinaram mestiços e índios a uma sociedade branca dominante e, por outro lado, justapuseram no espaço estas sociedades estratificadas de predominância branca, com tribos indígenas assujeitadas ou protegidas, que permaneceram mais ou menos à parte. Os mestiços subsistiram como indivíduos de segunda categoria, batedores de floresta ou guardas de haciendas ou estâncias. A verdadeira assimilação, a que consistira, para os índios de puro sangue, na adoção de costumes, línguas, trajes, práticas, religião e espírito europeu, reduziu-se a exceções individuais. O problema mantêm-se de pé, para o historiador: a assimilação, desejada a distância pelos homens de gabinete por razões de princípio, crença cristã na igualdade fundamental dos homens, interesse nacional e monárquico, não foi levada avante seriamente, de fato, pelos coloniais. Seria possível?


MOUSNIER, Roland. Os séculos XVI e XVII: a Europa e o mundo. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1995. p. 138-141. (História geral das civilizações, v. 10)

NOTA: O texto "Influência da Europa sobre a América" não representa, necessariamente, o pensamento deste blog. Foi publicado com o objetivo de refletirmos sobre a construção do conhecimento histórico.

sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

A exploração sexual das índias no início da colonização da América portuguesa

O reverso da visão triunfalista de Gandavo, Soares de Souza e Brandão está na violência da escravidão, na promoção dos massacres indígenas e na exploração sexual das mulheres. Esses três fenômenos eram frequentemente denunciados pelos jesuítas que encontraram grandes dificuldades em suas tentativas de mudar tal padrão de relações baseado na ganância dos colonos que apenas viam os índios como mão-de-obra a ser explorada e suas mulheres como objeto de uso sexual.



Uma das questões mais candentes entre jesuítas e primeiros povoadores foi a da união destes com as índias, feitas sob forma de mancebia sem casamento legal. A poligamia possibilitava ao colono o acesso aos serviços e ao produto do trabalho de diversas mulheres. A mancebia facilitava também o abandono, a troca ou a multiplicidade de mulheres, havendo colonos que formavam verdadeiros haréns de índias. Esses costumes, apesar de constituírem pecado mortal para a Igreja Católica, eram encorajados por padres seculares que defendiam doutrinas heréticas como a de que não havia pecado nas regiões tropicais.

Os jesuítas começaram a pressionar os colonos para que se casassem ou se separassem, tendo sucesso em alguns casos com o auxílio das índias que cooptavam pela catequese, ou por meio de penalidades, como a negação da confissão ou freqüência à missa.

Conforme comentava o padre Manoel da Nóbrega em carta de 1550, apenas os homens pobres se casavam com as índias, enquanto os ricos, que pretendiam voltar a Portugal, não o faziam, muitas vezes por serem casados. No entanto, a razão mais provável para a relutância dos ricos em se casar deveu-se à legislação portuguesa que dava privilégios especiais aos chamados homens-bons – ricos proprietários que ocupavam os cargos municipais, militares e honoríficos e que gozavam de privilégios jurídicos semelhantes aos da nobreza. Para que pudessem ser homens-bons era preciso que suas esposas fossem cristãs velhas (descendentes de mais de seis gerações de cristãos), brancas e sem mancha de trabalho manual ou comércio de loja aberta. Se fossem cristãs novas (convertidas ou descendentes de judeus convertidos por menos de seis gerações), negras, mulatas, índias ou filhas de artesãos ou pequenos comerciantes seus maridos e filhos não poderiam ocupar posições de mando ou honra.

É por isso que toda vez que a História registra casamentos com índias fala-se em princesas ou filhas de principais (os “chefes”) que traziam alianças vantajosas para os brancos. É o caso de Diogo Álvares Correia, o Caramuru, com Catarina Paraguaçu e o de Jerônimo de Albuquerque com a filha de Arcoverde.

Havia também grande número de filhos de brancos com índias. Uns viviam nas tribos fazendo guerra e praticando a antropofagia, enquanto muitas moças estavam amancebadas com colonos.

Os jesuítas se empenhavam muito particularmente em contatar e integrar esses mestiços na sociedade colonial, visando o aumento do número de cristãos e de portugueses.

Para moralizar o clero e a sociedade, os jesuítas lutaram muito pela vinda de um bispo, mas sofreram um grande desapontamento quando chegou D. Pedro Fernandes Sardinha. Apesar de culto e com fama de santidade, no Brasil revelou grande incompreensão para com as condições peculiares da colônia. Os clérigos que trouxe para as igrejas e a catedral logo se amancebaram com suas escravas que compravam entre as mais belas e caras. Além do mais, eles levantaram a interdição dos sacramentos negados pelos jesuítas por motivo de mancebia e escravidão do gentio, deitando a perder toda a luta de vários anos. Dessa maneira, os vícios antigos foram perdoados e justificados. Da mesma forma, cresceu a tendência das uniões ilegítimas com as índias e depois com as negras, dando origem a uma massa crescente de mestiços desprezados e miseráveis que formaram a base da sociedade brasileira.

Ao contrário do que faz crer certa historiografia, que propaga a ideia primária de que o povo brasileiro se fez pela união das três raças – branca, negra e índia – de forma voluntária e igualitária, ele foi em grande parte resultado da exploração sexual das escravas pelo seu senhor.

Os filhos que resultaram dessas uniões, raras vezes, foram reconhecidos, não recebendo educação, herança e, muitas vezes, nem mesmo a liberdade.

No século XVIII, o número desses destituídos já era tão considerável que consistia grave problema social em alguns pontos da colônia, chegando a ser objeto de legislação penal severa quando ocorriam crimes.

Os clérigos seculares, que Nóbrega dizia fazerem “ofício de demônios”, apoiavam e até imitavam as ações dos colonos, dizendo que não era pecado amasiarem-se com as índias, porque eram suas escravas e que a escravização era lícita porque os índios eram como cães.

Por outro lado, é preciso lembrar que uma porcentagem considerável da população era formada por degredados que, sentenciados e transportados à força para a colônia, pouco se interessavam pela solução dos problemas locais. Se muitos se regeneraram e assumiram seu lugar na sociedade, outros preferiram multiplicar seus crimes, principalmente contra os índios, iniciando, muitas vezes, as lutas com os brancos que levaram a massacres mútuos.

MESGRAVIS, Laima; PINSKY, Carla Bassanezi. O Brasil que os europeus encontraram: a natureza, os índios, os homens brancos. São Paulo: Contexto, 2000. p. 100-102.

NOTA: O texto "A exploração sexual das índias no início da colonização da América portuguesa" não representa, necessariamente, o pensamento deste blog. Foi publicado com o objetivo de refletirmos sobre a construção do conhecimento histórico.

sábado, 14 de setembro de 2013

Posições politicas: desigualdades de raça, classe e gênero no Brasil

A exuberante fama de país sensual esconde em seus bastidores desigualdades de raça, classe e gênero

Por Maria Elvira Diaz-Benítez*

Uma das principais imagens que surgem quando se pensa no Brasil é uma suposta sexualidade desenfreada. Aqui o sexo e as sexualidades teriam características próprias, excepcionais, territórios de proezas e exotismo.

Este é um lado da moeda. Mas existe outro. A grande da liberação sexual oblitera uma realidade sensível: as desigualdades na participação democrática efetiva. Hoje, o país presencia um embate sociopolítico em que as bancadas mais conservadoras, afiliadas a grupos religiosos, ganham espaço considerável no Congresso, elevando seus gritos de protesto contra direitos sexuais já conquistados e ameaçando a laicidade do Estado. Se, por um lado, para o mundo, o Brasil é um lugar de eterno verão, produtor de um carnaval lascivo, de corpos e prazeres tropicais e com grande oferta de turismo sexual, por outro, assistimos à eleição de um pastor para a presidência da Comissão de Direitos Humanos e Minorias na Câmara, apesar de suas posições polêmicas sobre homossexuais, negros e os direitos das mulheres.


Protesto a favor dos direitos LGBT em frente ao Congresso Nacional, Brasília, 2009. 
Foto: Antonio Cruz / ABr

Se todo sexo é político, como afirmou a antropóloga norte-americana Gayle Rubin, a sexualidade brasileira também não é neutra. Ela está envolvida em relações de poder. Evoca aqueles discursos do começo do século XX sobre raça, mestiçagem e o futuro da nação, os métodos eugênicos, a criação das patologias e dos pervertidos sexuais. Em poucas palavras, sexualidade e raça se encontram intimamente ligadas nos imaginários coletivos de brasilidade – que foram construídos pela história, a medicina, a literatura, a criminologia, a religião, a mídia, a pornografia – envolvendo questões de classe e de gênero.

O Brasil é uma chave para se pensar na sexualização da raça e na racialização do sexo. Foi o primeiro país na América latina a ter um movimento eugênico organizado. O termo Eugênia foi criado por Francis Galton, antropólogo, matemático, geógrafo e médico inglês. Seria o estudo dos agentes que podem melhorar ou degenerar as qualidades raciais de uma população em gerações futuras. Inspirado na obra maior de seu primo, o biólogo evolucionista Charles Darwin, A origem das espécies (1859), Galton acreditava que a espécie humana poderia ser melhorada evitando-se cruzamentos indesejáveis, isto é, através de uma seleção artificial. Para os cientistas e seguidores do movimento eugenista europeu, o Brasil era considerado um país disgênico (degenerado geneticamente) por excelência e seu futuro estava ameaçado devido ao clima tropical e à população altamente miscigenada.

Os eugenistas brasileiros preocupavam-se em aprimorar um país cuja população era pobre e racialmente muito heterogênea. O tema mobilizava as elites intelectuais. Nina Rodrigues, desde finais do século XIX, já se mostrava cético ante a possibilidade de alcançar uma unidade nacional via mestiçagem. Apesar de seus méritos como médico e primeiro pesquisador da influência africana no Brasil, para ele a inferioridade do africano estava estabelecida fora de qualquer dúvida científica. Menos pessimista, o antropólogo João Batista de Lacerda, em 1911, vaticinou que em um período de três gerações (100 anos) o país conseguiria produzir uma população de fenótipo branco se continuasse a importar europeus, miscigenando-os com os nativos de um modo “bem dosado”. Para o historiador Oliveira Vianna, o “tipo antropológico e racial brasileiro” era o resultado de uma desordem étnica causada principalmente pelos “typos” africanos. Na obra Casa Grande & Senzala (1933), Gilberto Freyre contesta o argumento que Oliveira Vianna construiu em Evolução do Povo Brasileiro (1923). Para o sociólogo pernambucano, a história social brasileira era o produto da heterogeneidade e dos encontros inter-raciais que “harmonicamente” ocorreram entre membros das diferentes raças.

Como os seus críticos apontam, em sua apologia à mestiçagem, Freyre criou uma imagem da história escravista na qual brancos e negros, escravos e amos e seus filhos mulatos viviam em uma relação de fraternidade e intimidade. O segredo para essa convivência fraternal seria a interação sexual, que minguou o despotismo e a opressão característicos do contexto escravista. Esse mito da “escravidão cordial ou branda”, como é chamado pelos críticos de Freyre, faz-se mais evidente com a figura do mulato como elemento mediador. Sua pele mais clara lhe permitiria entrar em um processo de mobilidade social, transitando entre as raças e conciliando os extremos. A teoria de Gilberto Freyre é criticada por não considerar que, num contexto escravista, existe um exercício do poder que recai sobre a sexualidade, em uma sociedade de relações de gênero e de classe assimétricas.

Os programas eugenistas advogavam o controle da sexualidade. Em defesa de uma sociedade sadia, em princípios do século XX, empregaram-se políticas de controle dos hábitos: repressão do ócio e da vadiagem, do comportamento sexual de mulheres (reprodução, higiene, cuidado com crianças) e dos homens mediante a religião, a medicina e a política. O cuidado com a sexualidade masculina estava diretamente relacionado com o aperfeiçoamento da população: relacionar-se com prostitutas, adquirir doenças venéreas ou ter sexo homoerótico eram vistos como causas de degeneração. Ganharam importância visões e práticas relacionadas ao nacionalismo, a modelos moralistas de família, heterossexualidade, masculinidade, feminilidade e também normalidade sexual. A função reprodutora do sexo era a pedra institucional de uma ordem nacional excludente e repressora.

Paralelamente a essas políticas de depuração racial e sexual, os intelectuais criaram ideais de nação com base no encontro sexual inter-racial. Se os mulatos eram figuras emblemáticas, o que dizer especificamente das mulatas?

A figura da mulata encarna o corpo e a alma do desejo. E foi assim que se converteu em símbolo nacional, construído pela literatura, a medicina, o carnaval e, mais recentemente, pelas agências de turismo e os canais televisivos. A categoria da mulata, como disse a antropóloga Mariza Corrêa, “pode contribuir para questionarmos nossa forma habitual de tratar seja das relações de raça, seja das relações de gênero”, mas também as relações de classe, pois essa mulata faz apologia do mundo dos pobres – os quais, segundo o imaginário social, vivem mais próximos da natureza e dos instintos. A mulata é, desde o começo do século XX e até hoje, o fio condutor de um ideário nacional que racializa os desejos sexuais. Mais recentemente, o mercado do sexo (pornografia, prostituição e turismo) inventou outra figura racial e de gênero que encarna em seu corpo símbolos de classe e de nação: a travesti.

Em diversas legendas de filmes pornográficos, a pobreza, a nacionalidade e o gênero das travestis são vendidos como algo prodigioso, exótico e simultaneamente esdrúxulo. O contrário também acontece: o glamour de algumas travestis ou transexuais destacadas – como a pioneira Roberta Close – é ofertado como sinônimo da abertura sexual dos brasileiros e de uma sociedade moderna e bonita, porém, branca.

Terra do fogo, Wilhelm von Gloeden

No Ocidente, historicamente tem se privilegiado o branco e o heterossexual como paradigmas legítimos e modelos morais que colocam o outro como subalterno. Daí que exista um vínculo entre heterossexismo e racismo. Ambos são dispositivos de opressão que se relacionam e que permitem, por exemplo, pensar que um homem negro é obrigatoriamente macho e que nos circuitos homossexuais a branquidade é o padrão de beleza hegemônico. O dispositivo permite também que movimentos de esquerda, como o negro e o proletário, mesmo sendo revolucionários, conservem em seus valores concepções homofóbicas, machistas e misóginas, e que as políticas LGBT nem sempre ofereçam atenção aos fatores de classe e raça, colocando pessoas socialmente diversas em um mesmo patamar.

Estas são as contradições de um país onde a sexualidade, vista de fora como libertária, na verdade se entrecruza com diversas formas de desigualdade.

* Maria Elvira Diaz-Benitz é professora de Antropologia Social do Museu Nacional-UFRJ.

Maria Elvira Diaz-Benitz. Posições políticas. In: Revista de História da Biblioteca Nacional. Ano 8 / Nº 93 / Junho 2013. p. 35-37. 

quarta-feira, 3 de abril de 2013

Conquista da América III: A conquista nem sempre foi igual

Ao contrário do que se possa pensar, a Conquista não se concretizou de maneira sempre igual. Uma de suas principais características foi o fato de se ter efetuado segundo modalidades diversas, sendo a variedade explicada como resultado do confronto entre a dinâmica das empresas conquistadoras e a heterogeneidade cultural das sociedades indígenas, bem como a densidade demográfica dessas sociedades nativas.


Araucanos, Giulio Ferrario


Nas regiões onde viviam sociedades indígenas portadoras de Culturas Primitivas, as populações nativas foram expulsas ou massacradas porque seu fraco potencial de trabalho e a ausência de excedentes de produção tornavam esses grupos inadequados aos interesses dos conquistadores. Essa modalidade de conquista ocorreu nas Antilhas, Argentina e Uruguai, além de outras áreas de colonização europeia na América.

[...]

Nas regiões ocupadas por sociedades indígenas de Média e Alta Culturas, onde a concentração populacional era grande, a hierarquização social apresentava-se bem definida, a economia tinha excedentes produzidos por mão-de-obra trabalhando em relações de produção baseadas na servidão coletiva, os sistemas políticos eram, ou tendiam a ser, centralizados, a Conquista se fez pela subjugação dos ameríndios. Essa modalidade ocorreu sobretudo nas áreas dos Impérios Inca, Asteca e Maia, o que explica terem os indígenas persistido como componentes predominantes da população do Peru, Bolívia, Equador, México e outras atuais Repúblicas latino-americanas: seja segregados em verdadeiros bolsões étnicos, seja submetidos a processos de mestiçagem.

Modalidade inteiramente diferente das duas anteriores foi o ocorrido no Paraguai. Desde os primeiros contatos entre os espanhóis e os índios guaranis criou-se uma interdependência: os guaranis corriam o risco de serem submetidos pelos guaicurus e pelos paiaguás, e tiveram a ajuda dos brancos; em troca, os espanhóis obtiveram guias, alimentos, carregadores, mulheres e contingentes auxiliares de guerreiros para as suas expedições a regiões do Alto Peru. O resultado foi a fusão biológica e cultural de espanhóis e guaranis, possibilitando que a população do Paraguai seja basicamente mestiça.

Apesar das variantes ocorridas, a Conquista acarretou a destruição total ou parcial da América Indígena e conduziu à formação de uma classe proletária ou marginal indígena, até hoje vivendo em condições subumanas.

AQUINO, Rubim Santos Leão de et alli. História das Sociedades Americanas. Rio de Janeiro: Ao Livro Técnico, 1990. p. 68-69.

domingo, 22 de abril de 2012

O drama étnico: os mestiços na América colonial hispânica

Mais que uma categoria racial, o mestiço na colônia é uma categoria social. Geralmente homem livre, não goza dos privilégios e oportunidades dos brancos, e não está sujeito às violências que sofrem índios e negros. Num sentido estrito, é um mestiço o filho de espanhol com índia [...]; mulato é o filho de espanhol com negra; zambo, o descendente de negro e índia, e assim até englobar uma enorme quantidade de cruzamentos raciais, para cada uma das quais a sociedade colonial tem uma denominação específica. [...]

Construção do palácio de Cortés (detalhe), Diego Rivera

A situação de mestiço contém uma espécie de ambiguidade psicológica: o temor de ser confundido com seu progenitor índio ou negro e a aspiração a superar os obstáculos que lhe dificultaram a ascensão social acabam criando uma competição no seu ser, vivem nele contraditoriamente, o dilaceram. Em várias ocasiões seus meio-irmãos brancos (de pai ou de mãe), e sua condição de bastardo contribuem muito para aumentar sua frustração, para sentir-se violentamente preterido, injustamente inferiorizado pela cor da pele que ele mesmo abomina. Geralmente a conduta do mestiço exterioriza o drama que a sociedade o faz viver. Tende a imitar os que estão no alto da pirâmide social, a colocar-se  em postura serviçal diante deles e a bajulá-los, sem abandonar o profundo desprezo que tem em relação aos que o empurram para baixo. Para diferenciar-se dos que estão no nível mais inferior, se aplica na sua condição de homem livre, em sua identidade humana superior. Premido entre os dois extremos, pisa nas cabeças dos que estão abaixo de si para ascender à escala social superior, estende as mãos para aferrar-se à cauda dos fraques dos que estão acima. Não é pouca sua contribuição aos sofrimentos dos índios, que legalmente não são considerados escravos.

Ainda que a legislação permita o casamento entre raças diferentes, a união de um branco com uma mulher de cor é tida como desonrosa. A lei e os valores socialmente aceitos pelos dominadores não se combinam, pelo menos nesse caso. [...]

Os espanhóis aceitam viver em concubinato com índias e negras. Essa convivência sem laços legais tem fortes antecedentes na Espanha medieval onde é conhecida como barragania [a concubina vivia na casa do amancebado]. Nos fins da Idade Média a legislação regula essa união [...]. Se bem que os Reis Católicos exigem que todos os casamentos sejam celebrados pela Igreja, os primeiros a não cumprir esse mandato são os próprios sacerdotes, obviamente impedidos de casar-se, mas não de ter concubinas quase abertamente. Na América colonial, sacerdotes e laicos exercem, ativamente, uma poligamia sucessiva ou simultânea, ou ambas ao mesmo tempo. A maioria dos mestiços nasce de relações sexuais extramatrimoniais. [...]

A mulher mestiça tende a unir-se ao branco, desprezando seus semelhantes e ainda muito mais aqueles que estão nos limites inferiores da escala social. O filho que não foi legitimado pelo pai branco tem o caminho para o matrimônio com uma mulher branca praticamente fechado. Deve unir-se a uma mulher de sua condição [...] ou de uma condição inferior, o que para ele significa degradação social.

Um espanhol não se casa com uma negra. Mas também o número de mulatos cresce consideravelmente, o que demonstra que engravidar negras, longe de ser uma desonra, é prazer e satisfação.

Nos fins do período colonial, a mestiçagem enquanto condição social se acentua. Serão mestiços os índios que aprenderam a ler e escrever, adotaram as roupas e hábitos europeus, os padrões de convivência e os costumes. Em troca será considerado índio o mestiço que assimilou os costumes e modos de vida indígenas. Na época, no México, na América Central e nas Antilhas quase 24% dos habitantes são mestiços; na América do Sul, um pouco mais de 30%. [...]

[...]

No século XVIII, o mestiço peruano - chamado cholo - forma a maior parte da população urbana. Faz as vezes de soldado, sacerdote, artesão. Impedido de trabalhar nos serviços administrativos mais importantes, é encontrado, frequentemente, nos postos mais baixos, ruminando seus rancores e sua raiva diante do rigoroso enquadramento que a sociedade lhe impõe. Na Venezuela chega a ser o grupo mais numeroso e é encontrado nos arredores das cidades, em ofícios pouco apreciados. Sem obrigação de pagar tributos, livre para deslocar-se e viver onde melhor possa, não lhe é difícil perceber o quão são ilusórios sua liberdade e seus privilégios em relação aos índios. [...]

POMER, León. História da América Hispano-indígena. São Paulo: Global, 1983. p. 129-131.