"Os espelhos estão cheios de gente.
Os invisíveis nos vêem.
Os esquecidos se lembram de nós.
Quando nos vemos, os vemos.
Quando nos vamos, se vão?"
Eduardo Galeano: Espelhos
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quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

O "problema negro" nos Estados Unidos após a Guerra Civil

Marcha pelos Direitos Civis, Washington

O problema negro - a escravidão - não foi o cerne da Guerra de Secessão. Lincoln, apesar de ter horror à escravidão, era reticente quanto à igualdade de direitos entre brancos e negros, chegando a dizer que: "Se pudesse salvar a União, sem libertar nenhum escravo, o faria."

Os negros, libertados durante a guerra civil, ficaram sem propriedade porque não houve reforma agrária nos EUA, e nem a União cumpriu o que havia prometido: 40 acres de terra e uma mula para cada família.

Quando o exército nortista abandonou o Sul, os negros que haviam obtido o direito de voto, sem nenhuma propriedade, ficaram sem respaldo e se espalharam pelos Estados Unidos à procura de trabalho, migrando para Norte e Oeste, onde havia escassez de mão-de-obra.

O sucessor de Lincoln, Andrew Johnson, procurou restabelecer no Sul governos estaduais semelhantes aos que ali existiam antes da guerra. Os líderes confederados foram anistiados e quase nada mudou politicamente nos estados do Sul. É necessário dizer que, logo após a vitória, a ocupação militar do Sul implicou a alforria de todos os escravos e a proibição do direito de votar a todos os ex-líderes confederados. Os governos sulistas passaram a ser dependentes dos votos negros e dominados por brancos favoráveis à União. A partir de 1877, o governo federal foi retirando a sua força militar do Sul, e as comunidades brancas foram recuperando seu poder. Nesse mesmo ano, os sistemas político, social e econômico do Sul eram semelhantes aos de antes da guerra, com uma única diferença: o negro era agora um trabalhador sem terra e não mais um escravo. No dizer de McKitrick "no esforço geral para reconstruir a estrutura desmantelada pela guerra civil e pela restauração, até as pequenas conquistas do negro - para não falarmos nos direitos sociais mínimos que ele adquirira  [...]. - lhe foram sistematicamente retiradas". Os estados sulistas começaram a impor sistemas de segregação social e de abolição dos direitos civis dos negros. Mais ou menos no início do século XX, o processo de segregação do negro estava completado.

Os negros, quando queriam lutar por seus direitos civis, eram ameaçados pelas organizações terroristas que agiam implacavelmente no Sul, como a Ku-Klux-Klan.

Nos princípios do século XX, a mecanização da agricultura expulsou grandes massas de trabalhadores rurais negros para as cidades do Norte. Nessas cidades, ficavam segregados nos chamados guetos negros e ocupavam os serviços rejeitados pelos brancos. Os negros eram discriminados nos seus locais de trabalho, nos jardins públicos etc. Mas assim mesmo a vida nas cidades do Norte era melhor do que do Sul, onde eram surrados e ate linchados.

A situação dos negros nos guetos do Norte foi magistralmente descrita por Hughes, um poeta negro, nos seguintes versos:

"Que fazer?
Aqui ao lado do inferno
Está o Harlem
Que recorda as eternas mentiras
As eternas patadas no traseiro
O eterno sed pacientes
Que nos disseram tão amiúde
Por certo que o recordamos
Porém quando o garoto do bazar da esquina
Nos diz que o açúcar voltou a subir dois centavos
E o pão um centavo
E que há novas taxas para o cigarro...
Então recordamos o emprego que jamais tivemos
Que jamais podemos ter
E que agora não temos
Porque somos gente de cor
Então ficamos aí
Ao lado do inferno
No Harlem
E olhamos de costas o mundo
E nos perguntamos o que vamos fazer
Com todas estas recordações aí
Diante de nós."

Com a Primeira Guerra Mundial, que mobilizou toda a economia e força de trabalho americanas, o negro teve a sua primeira oportunidade de ascensão "à condição de operário e de cidadão". Não como eleitor, mas como soldado.

Finda a guerra, o negro perdeu todas as posições conquistadas.

Durante a grande crise econômica de 1929, devido ao desemprego em massa, os brancos passaram a ocupar os postos subalternos que antes recusavam. Os negros foram maciçamente desempregados e o número de negros desocupados era proporcionalmente maior ao de brancos.

A Segunda Guerra Mundial deu ao negro uma nova chance mais igualitária na luta e no trabalho. O negro comportou-se bravamente na guerra. Era a única forma de recuperar a dignidade que lhe haviam tirado. A Divisão Búfalo do exército americano, composta somente de negros, foi uma das melhores da Segunda Guerra Mundial.

Nos anos do pós-guerra recrudesceu a violência contra o negro altivo, que havia participado da guerra e trabalhado na grande indústria. A partir daí, os negros americanos se organizaram melhor do que nunca, para a conquista da igualdade social e dos direitos civis. Os negros e muitos brancos também haviam tomado consciência da injustiça que significa a segregação racial.

O novo negro, que lutava em grandes manifestações pelos seus direitos civis em 1960, tinha como motivação a independência das ex-colônias africanas, onde os negros derrotaram os ex-colonizadores brancos. O negro americano, com isso, sentiu-se forte para lutar contra a segregação. Segundo Darcy Ribeiro, "o negro americano passou a constituir a vanguarda do movimento revolucionário mais ativo dos Estados Unidos de nossos dias. Toma, desde então, em suas mãos, a luta pelos seus próprios direitos..."

Durante a década de 70 houve uma série de insurreições negras contra a segregação racial. Mas não só de insurreições passou a ser feita a luta dos negros. Utilizaram-se também de passeatas e boicotes às empresas que promoviam a segregação racial.

Devido à luta dos negros pelos direitos civis, o governo federal americano em 1966 elaborou e colocou em prática a Lei dos Direitos Civis, proibindo a segregação racial. Mas, na verdade, os direitos civis dos negros ainda não estão assegurados. No Sul a lei praticamente não é cumprida, e no Norte a comunidade negra é marginalizada econômica e socialmente.

CÁCERES, Florival. História da América. São Paulo: Moderna, 1986. p. 113-115.

segunda-feira, 29 de outubro de 2012

Imigração, abolição e industrialização no Império

Estrada de Ferro Mauá, a primeira ferrovia do Brasil

Na segunda metade do século XIX ocorrem alguns fenômenos importantes que irão introduzir algumas modificações na estrutura econômica e social do país, contribuindo para o desenvolvimento relativo do mercado interno e estimulando o processo de urbanização. Primeiro, a transição do trabalho escravo para o trabalho livre: a cessação do tráfico em 1850 e a entrada de numerosos imigrantes no sul do país. Em segundo lugar, a instalação da rede ferroviária, iniciada em 1852 e que no final do século atingiria a mais de 9.000 km construídos e 15.000 em construção. Finalmente, as tentativas, bem-sucedidas, de industrialização e o desenvolvimento do sistema de crédito.

A partir de 1850, com a cessação do tráfico e o aumento crescente dos preços de escravos, o problema era tanto mais grave quanto a diminuição da oferta de mão de obra escrava coincidia com a expansão das lavouras cafeeiras no sul do país. As dificuldades de obtenção da mão de obra escrava estimulariam as tentativas de substituição do escravo pelo imigrante e provocariam o deslocamento de parte dos escravos das regiões decadentes do nordeste para as prósperas regiões cafeeiras. Simultaneamente se processaria a transferência da mão de obra escrava dos centros urbanos para as zonas rurais. O crescimento do setor assalariado ampliaria o mercado interno, criando uma base para o futuro desenvolvimento industrial.

O aperfeiçoamento do sistema de transportes (substituição do transporte em lombo de burro e carro de boi pelas ferrovias, a generalização do uso do navio a vapor, na segunda metade do século XIX) coincide com a demanda crescente de café pelo mercado internacional, acarretando uma especialização crescente da produção cafeeira. [...]

Desde os meados do século, imigrantes europeus começaram a entrar em número crescente no Brasil, principalmente entre 1870 e 1900, sendo que o período de maior imigração situa-se nos anos que se seguem à abolição. Só o Estado de São Paulo recebeu em pouco mais de um decênio, isto é, entre 1890 e 1901, cerca de 700.000 colonos: italianos, portugueses, espanhóis e austríacos, não contando os de outras nacionalidades. [...]

No estado de São Paulo, os imigrantes, assim que puderam, abandonaram as lavouras de café onde viviam em precárias condições. Muitos, desiludidos, voltaram à sua pátria de origem ou imigraram para outras áreas. Outros localizaram-se em núcleos urbanos, onde se dedicaram ao comércio ou artesanato, às manufaturas e aos pequenos serviços. Outros, ainda que originalmente se destinavam à lavoura, preferiram, logo ao chegar, localizar-se nas cidades. Alguns já vieram com o objetivo de se fixarem nos núcleos urbanos, como os artesãos e comerciantes ingleses e franceses que se estabeleceram na cidade do Rio de Janeiro durante o século XIX. [...]

COSTA, Emília Viotti da. Da monarquia à República: momentos decisivos. São Paulo: Ciências Humanas, 1979. p. 193-195.

domingo, 13 de maio de 2012

Abolição da escravidão. Livres para quê?


Quando iô tava na minha tera
Comia minha garinha
Chega na tera dim baranco
Cane seca co farinha.

Durante séculos de escravidão, milhares de negros repetiam o lamento do Pai João. Os horrores dessa exploração do trabalho humano continuavam em plena segunda metade do século XIX. Em 1870, o Brasil era o único país americano que ainda mantinha o cativeiro!

Desde o fim do tráfico África-Brasil, em 1850, os fazendeiros do Nordeste vendiam muitos escravos para o Sudeste. Um deputado baiano descreveu, ainda em 1850, um comboio que rumava para São Paulo:

- Entre homens de gargalheira no pescoço caminhavam outras tantas mulheres, levando sobre os ombros seus filhos, entre os quais se viam crianças de todas as idades. Toda essa marcha era feita a pé, ensaguentando a areia quente dos caminhos.

Essas longas viagens ligavam o Nordeste às regiões mais antigas do café. Nessas marchas forçadas, muitas vezes nasciam crianças... que morriam sob o sol ou, por ordem dos capatazes, eram abandonadas no vazio dos grandes sertões!

As crueldades da escravidão já não passavam despercebidas. Mesmo gente de elite, começava a levantar sua voz contra a "marcha negra". Joaquim Nabuco, filho de senhor de engenho e senador do Império, era um dos que defendiam o fim da escravidão:

- A escravidão impede a imigração, desonra o trabalho manual, retarda a aparição das indústrias, afasta as máquinas, excita o ódio entre as classes e produz uma aparência ilusória de ordem, bem-estar e riqueza.

Joaquim Nabuco, assim como outros políticos de sua época, achava que os 300 anos de escravidão tinham marcado muito a mentalidade do brasileiro e a nossa sociedade. Era hora, portanto, de abolir a escravatura!

Em várias províncias começaram a surgir associações de combate à escravidão. No Rio, em 1870, foi fundada a Sociedade Emancipadora do Elemento Servil. Em São Paulo um grupo de mulheres criou a Sociedade  Redentora da Criança Escrava, para libertar os menores negros. Na década de 80, formaram-se novas organizações: o Clube Abolicionista de Pelotas, o Abolicionista Maranhense, a Sociedade Cearense Libertadora, a Sociedade Brasileira Contra a Escravidão e muitas outras.

Em 1883, essas associações uniram-se na Confederação Abolicionista, agrupando militares, médicos, jornalistas, políticos, estudantes. Maioria absoluta de brancos! E de oposicionistas ao regime monárquico. Ser contra a escravidão era ser contra a Monarquia.

Mas havia outras formas de luta. Menos organizadas, porém mais radicais. Nessas a participação dos negros era bem maior.

Ceará, 1881. Cerca de 1.500 pessoas aglomeram-se no porto de Fortaleza. No mar, avista-se ao longe um cargueiro, o "Pará". E nenhuma vela de jangada: todas estavam nas areias da praia do Mucuripe.

Os donos das jangadas ouvem o discurso inflamado do mais popular dos jangadeiros, o mestiço Francisco Nascimento, o "Chico da Matilde". Ele tenta convencer seus companheiros a não transportar escravos em suas jangadas até o "Pará", que faz o tráfico para províncias do Sudeste:

- Nossas jangadas devem carregar ou peixes desse mar, fruto do nosso trabalho, e não irmãos acorrentados!

- No porto do Ceará não se embarcam mais escravos! - repetiu o povo. E assim foi feito. Viva Chico Nascimento, o "Dragão do Mar"!

São Paulo, 1886. Antônio Bento é advogado, promotor e juiz. Sua figura é estranha, não tira uma capa preta das costas e um chapelão de abas largas da cabeça. Mas estranha mesmo para ele é a existência da escravidão num país que se diz cristão; Antônio Bento quer acabar com a escravidão já, por todos os meios. O que adianta só fazer belos discursos no Parlamento? Foi por isso que nasceu o grupo dos caifazes.

Os caifazes têm adeptos como o Tonho Paciência, negro livre que voltou a trabalhar como escravo só para poder organizar fugas. Ou como Nico, que entrava de madrugada nas senzalas e animava todo mundo a sair daquele inferno. Um dia Nico parou: foi assassinado em plena ação.

Os ferroviários escondiam em seus trens os que fugiam. Na cidade de São Paulo os fugitivos eram acolhidos na igreja Nossa Senhora dos Remédios ou numa pensão mantida pelos caifazes. Muitos tomavam o caminho de Santos, onde cresceu o Quilombo de Jabaquara, com suas cabanas de madeira, palha, barro e telhado de zinco, entre o mar e as montanhas.

Luís Gama, ex-escravo e incansável abolicionista, criticava as discriminações da sociedade de sua época:

Se negro sou, ou sou bode,
Pouco importa. O que isto pode?
Bodes há de toda a casta,
Pois que a espécie é muito vasta.
Há cinzentos, há rajados,
Baios, pampas e malhados,
E, sejamos todos francos,
Uns plebeus e outros nobres,
Bodes ricos, bodes pobres,
Bodes sábios, importantes,
E também alguns tratantes...
Aqui nesta boa terra,
Chifram todos, tudo berra...

Nesse mundo de ricos e pobres, de sábios e tratantes, os escravos continuavam sendo os mais oprimidos. Uma opressão tão antiga e tão forte que muitos dos próprios negros já achavam a escravidão um "mal necessário":

- É a nossa sina, ser o braço do sinhô... Nego véio tá cansado, só quer um pouco de paz...

Outros continuavam a luta de Zumbi, de Isidoro, de preto Cosme, dos malês, de Manuel do Congo e Manuel do Carmo. Tinham consciência de seu valor e de seus direitos.

João Mulungu, 25 anos, era um desses negros. Com seus irmãos construiu um quilombo nas matas de Sergipe. Mas uma dúvida confundia seu pensamento:

- Não fomos nós que construímos a fazenda? Por que fugir para tão longe? Merecemos nosso pedaço de terra...

Capturado em 1876, Mulungu preferiu ser enforcado em praça pública a voltar para o cativeiro... Os negros rebeldes não conseguiam se organizar o suficiente para liderar a luta abolicionista e conquistar terra e trabalho livre para todos.

O Governo Imperial sabia, porém, que a escravidão ia acabar. Mais cedo ou mais tarde. Afinal, desde 1850, não entravam mais escravos no país. Isso encarecia o seu preço, ficando cada vez mais difícil para os senhores sustentá-los. Os fazendeiros de café do Vale do Paraíba, que ainda tinham muitos escravos, eram dos poucos que [...] continuavam querendo a escravidão. Já os fazendeiros do Oeste Paulista, que empregavam o trabalhador livre, não se interessavam mais por ela.

Para proteger os velhos senhores do Vale do Paraíba, o Império fazia leis que nunca acabavam de vez com a escravidão. Um exemplo foi a Lei do Ventre Livre, de 1871. Os filhos de escravos nascidos a partir dessa data estariam livres? Não era bem assim. Os meninos permaneciam com suas mães, obrigatoriamente, até oito anos (desde os quatro já colhiam ovos, tangiam os bezerros, alimentavam os porcos e engraxavam as botas dos senhores). Depois dos oito, se os patrões quisessem, eles teriam que continuar ali, trabalhando de graça até os 21. Caso os liberassem antes, os fazendeiros receberiam uma boa indenização em dinheiro!

- Ventre livre coisa nenhuma: prisão de ventre! - comentou com humor um abolicionista.

Outra lei que deixou os senhores tranquilos foi a dos sexagenários, votada em 1885. Ela fez com que certos fazendeiros, como um tal coronel Zé Lopão e um outro, conhecido como Sinhô Lalau, suspendessem a matança em suas fazendas de escravos inválidos. Os negros velhos eram queimados vivos nas fornalhas, enforcados ou mortos por afogamento! Com a lei dos sexagenários, todos os escravos de mais de 65 anos estavam livres. Os senhores não tinham mais que cuidar deles.

- Livres para quê? - perguntou um abolicionista.

- Para morrer de fome, sem ter onde cair! - respondeu outro.

Em 1888, a Lei Áurea aboliu a escravidão. Em algumas províncias, porém - Amazonas, Pará, Bahia e Rio Grande do Sul - já não havia mais negros cativos. No Oeste da província de São Paulo, onde a lavoura cafeeira modernizava-se, a mão-de-obra escrava não tinha grande importância. Ter escravos já não era um bom negócio.

Lei Áurea

A Lei Áurea foi assinada pela princesa Isabel Cristina Augusta Leopoldina Francisca Micaela Gabriela Rafaela de Orléans e Bragança. A lei era curtinha, nada dizia sobre o destino dos ex-escravos...

A Monarquia quis aproveitar ao máximo a abolição para melhorar sua imagem. Os festejos na Corte duraram três dias: a elite assistiu a corridas de cavalo no Derby Clube e o povo passeou de graça nos trens da Estrada de Ferro D. Pedro II. Os teatros também foram franqueados ao público. E em Botafogo realizou-se uma regata comemorativa. D. Pedro II, que estava em tratamento de saúde, aprovou a medida de sua filha regente:

- Grande povo! Grande povo! - exclamou emocionado.

Passada a alegria, as rugas voltaram na testa de muitos homens do governo. O pequeno grupo de fazendeiros do Vale do Paraíba estava furioso. Sentindo-se prejudicado pela abolição, exigiram uma indenização e chegaram a chamar a princesa de "vaca"...

E os 700 mil escravos agora libertos? Onde trabalhar? Onde morar? Para onde ir?

Preocupada com esses problemas, a Confederação Abolicionista não se dissolveu após o 13 de maio. Seus integrantes achavam que era preciso mudar mais coisas, inclusive fazer uma distribuição de terras. Não bastava declarar livres os escravos. Nada conseguiram, porém.

No Rio de Janeiro, para ter onde morar, muitos desses negros marginalizados subiram as encostas dos morros. Num dos morros perto do centro da cidade, eles encontraram outros brasileiros de destino semelhante, gente que vinha do sertão miserável da Bahia. No morro havia uns arbustos que davam uma vagem: era o angico-vermelho-do-campo, que os baianos também chamavam de... favela. O morro virou Morro da Favela.

Empurrados para s favelas, os negros continuaram, depois da Lei Áurea, sofrendo todo tipo de discriminação e sendo constantemente advertidos:

- Vê se te enxerga! Fique no seu lugar, nego safado!

Muitos negros tiveram que ficar no lugar inferior que lhes reservaram os que mandavam na sociedade. Outros, porém, foram enxergando sua força, que colocou pedras nos alicerces do mundo. Foram sentindo a sabedoria de seus orixás. Vendo a beleza de sua negritude.

ALENCAR, Chico et alli. Brasil Vivo 1: uma nova história da nossa gente. Petrópolis: Vozes, 1991. p. 156-158.