"Os espelhos estão cheios de gente.
Os invisíveis nos vêem.
Os esquecidos se lembram de nós.
Quando nos vemos, os vemos.
Quando nos vamos, se vão?"
Eduardo Galeano: Espelhos
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quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

A cultura jovem dos anos 60: da canção de protesto ao psicodelismo

Depois de seu apogeu - entre os anos de 1956 e 1958 -, o rock' n' roll começou a se esvaziar, nos Estados Unidos, como meio de expressão e revolta de uma geração. [...]

Esse esfriamento criativo do rock' n' roll começou a repercutir entre os próprios artistas negros, que, a partir de uma fusão de raízes dos gospels e dos spirituals [...] com elementos da canção romântica branca, criaram um tipo mais suave de música vocal, retomando a linha adotada por grupos vocais como The Platters, com seu sucesso "Only you" (1955). Tratava-se de uma música sob medida para ser aceita por um grande público branco. A partir de 1959, Berry Gordy capitaliza esse novo som, construindo em torno de si uma poderosa empresa, que iria dominar o setor da chamada black music (música negra) durante a década de 1960; [...]

Apesar do comercialismo inicial dos seus conjuntos vocais (The Supremes, The Temptation, [...] etc.), o som da Motown, de Detroit, abre o mercado para a consagração de futuros valores da música negra (funk e soul) durante a década de 1960 (Diana Ross, Smokey Robinson, James Brown, Aretha Franklyn, [...], Marvin Gaye, Stevie Wonder etc.), tornando-se uma das influências importantes para a segunda explosão da música jovem, a partir de 1964.

Podemos dizer que o surgimento e a expansão de uma música negra para um mercado nacional, de maioria branca, reflete a luta pela afirmação dos direitos civis dos negros durante a década de 1960.

[...]

Diante desse agitado quadro político-social do início da década de 1960, o rock' n' roll parecia um modismo adolescente e ultrapassado, mesmo porque outro tipo de música, baseada na canção folclórica (folk song) norte-americana, serviria como canal de expressão para a juventude universitária do país refletir sobre os problemas internos e externos dos Estados Unidos. Ao contrário dos despreocupados sons da dança, como o twist, que era a sensação do início da década, o folk song apelava para a consciência política de um público engajado nas lutas estudantis.

Esse renascimento da música folk deve-se a grupos como Kingston Trio (1958), Pete Seeger and the Weavers (1958) e Peter, Paul and Mary (1961). Mas as estrelas maiores do novo movimento foram Joan Baez e Bob Dylan.


Joan Baez e Bob Dylan

Joan Baez tinha 18 anos quando se tornou a sensação do Festival Folk de Newport, em 1959. No ano seguinte, gravou seu primeiro álbum, com temas folclóricos tradicionais. Em novembro de 1962, ela já tinha três álbuns nas paradas e era capa da revista Time. Uma de suas canções, retirada do repertório tradicional da música folk - "We shall overcome" -, tornou-se um dos hinos da juventude universitária que apoiava o movimento pelos direitos civis dos negros, no qual encontramos Joan Baez ao lado do líder negro Martin Luther King.

Nessa atmosfera surgiu a canção de protesto (protest song), como desdobramento da onda folk. Antes, mesmo politicamente engajados, os intérpretes se limitavam a recolher temas do repertório tradicional e aplicá-los à situação da sua época. Mas com o aparecimento de Bob Dylan, em 1962, que usava a canção folk como base para letras incrivelmente atuais, houve uma verdadeira revolução na música popular norte-americana. Suas letras continham denúncias contra o racismo, o militarismo e a corrida armamentista, coisas que ainda não haviam sido ouvidas na música popular da época; o gosto pelo ambíguo, pelo místico, pelo religioso também se fazia presente, mostrando toda a influência dos poetas beats sobre o compositor. [...]

Como muitos outros jovens norte-americanos do seu tempo, Bob Dylan mostrava-se desencantado com o mundo que os homens construíam [...]. Dylan tinha no cotidiano das manchetes e reportagens dos jornais e revistas a fonte de matéria-prima para as suas canções, nas quais o compositor denunciava "os senhores de escravos e os senhores da guerra" da América. Com isso, transformou-se numa espécie de porta-voz da juventude norte-americana, principalmente a partir do sucesso de "Blowin' in the wind" (1963), canção que se tornou mais um dos hinos dos movimentos pacifistas dos anos 60.

[...]

Enquanto se verificava o processo de politização da juventude universitária norte-americana e a ascensão da música de protesto, o rock' n' roll ressurgiu com um ímpeto inesperado na Inglaterra, que, a partir de então, tornou-se um dos principais pólos divulgadores da cultura jovem mundial.

[...]

Na década de 1950, por problemas de distribuição e pela censura da programação radiofônica (controlada pela estatal BBC), o rock' n' roll levou alguns anos para chegar ao Reino Unido. Sem uma infra-estrutura que o divulgasse (rádios, disc-jockeysshows etc.), os jovens ingleses só tinham os discos importados. Esse vazio foi preenchido pela onda skiffe, imitação do blues norte-americano. Esse movimento deu ao rock britânico sua sólida base de blues, com pioneiros como Alex Korner e John Mayall.

Quando o rock' n' roll norte-americano atingiu com maior intensidade o mercado britânico, no início da década de 1960, estava misturado com o rhythm and blues, o country, o rockabilly, o calipso, a música negra da Motown, recebendo uma nova roupagem por parte dos músicos ingleses.

Entre as centenas de grupos musicais de Liverpool e Londres surgidos no início dessa década, dois alcançaram em pouco tempo um sucesso internacional sem precedentes, modificando de modo profundo não somente a música popular, mas todo o estilo de vida da juventude. Os Beatles [...] e os Rolling Stones [...] encarnaram as duas forças básicas que engendraram toda a convulsão cultural dos anos 60.

Ao longo da sua carreira, os Beatles foram um verdadeiro laboratório de influências e pesquisas que iam da música eletrônica à canção folclórica, da música oriental às mensagens existenciais de suas letras, as quais transmitiam uma visão filosófica do desconcertante cotidiano existencial. Na segunda metade da década - com LPs que se transformaram em marcos históricos como Rubber soul (1965), Revolver (1966) e, principalmente, Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band (1967) -, os Beatles inauguraram a era do experimentalismo eletrônico na música pop. Já os Rolling Stones, menos sutis e mais intensos, se caracterizaram pelo balanço de sua batida musical, bem próxima das tonalidades negras firmemente enraizadas no blues e na violência, quer nos temas de suas músicas, quer em suas apresentações ao vivo. [...]

[...]

Após as dificuldades de reconstrução do país, as novas gerações inglesas, graças à forte influência do american way of life, despertavam para o prazer individual e o consumo. Divertiam-se entre os conflitos de mods (origem do grupo The Who) e rockers, que opunham basicamente dois estilos de vida. Os mods (derivado de modern, "moderno") eram jovens de classe média que vestiam terninhos de lapela, camisas de colarinho redondo e primavam por um visual bem comportado, andavam em suas lambretas cheias de acessórios cromados e ouviam basicamente música negra dos anos 60 (funk, soul ska); já os rockers viviam ligados à cultura do rock' n' roll dos anos 50, formando bandos de motoqueiros com seus blusões de couro. [...]

Apesar de sua aparente ingenuidade, a juventude inglesa, ao contrário da inconsequente rebeldia da juventude transviada norte-americana, começava a desenvolver uma consciência crítica de sua geração. É o que ocorre, por exemplo, na canção "My generation" (1965) do grupo The Who. Com ironia, humor negro e uma grande dose de "inocência", os roqueiros ingleses começaram a desmascarar a hipocrisia dos valores estabelecidos pela sociedade. Era uma geração que podia não saber ainda o que queria, mas já começava a ter uma noção muito clara do que não queria. [...]

Dessa forma, o antigo rock' n' roll passava a ser simplesmente rock, diversificando-se em várias tendências. Começava a se fundamentar um mundo alternativo, paralelo à sociedade, cheio de blues eletrificado, que acabou se tornando um dos fundamentos básicos dos movimentos jovens da segunda metade da década. [...]

Essa explosão do rock inglês acabou despertando e influenciando a música norte-americana, que [...] estava em refluxo criativo desde os fins dos anos 50 e início dos anos 60. Essa influência tornou-se acentuada a partir de 1964, quando os Beatles fizeram sua primeira excursão aos Estados Unidos, abrindo o mercado para outros grupos britânicos e influenciando a formação de novos músicos norte-americanos: The Jefferson Airplane, The Mamas and The Papas [...], The Doors, The Velvet Underground e outros. [...]

Em meados da década de 1960, enquanto a violência racial e o conflito do Vietnã agitavam os Estados Unidos, surgia uma concentração de fenômenos a que os analistas sociais deram o nome de contracultura. A juventude de classe média começava a postular ideias e a conduzir-se de modo totalmente oposto aos valores apregoados por uma sociedade moralista, racista, consumista e tecnocrata.

[...] não é estranho que a contracultura tenha surgido no seio da sociedade norte-americana, pois foi justamente nos Estados Unidos que a tecnocracia [...] atingiu o auge de seu desenvolvimento, obrigando o jovem a adaptar-se rapidamente a uma realidade mecânica, árida e desprovida de qualquer impulso criativo. Com isso, a contracultura se tornou a forma de expressão mais importante dessa parcela de jovens que procuravam "cair fora" (filosofia do drop out) dos padrões estabelecidos por essa sociedade [...].

[...]

[...] os movimentos de contracultura nasceram a partir de um ponto de vista hedonista, ou seja, do desejo simples e elementar da felicidade individual, porém fora dos padrões de regras e normas repressoras estabelecidas pelo sistema, composto de instituições político-sociais que objetivavam a sustentação da ordem vigente. É dentro desse contexto que se insere a grande utopia dos hippies - a construção de um "paraíso aqui e agora", de "paz e amor". Para tanto, era fundamental criar seu próprio estilo de vida e "cair fora" do mundo materialista e racional da sociedade moderna, o que significava ganhar outro espaço físico e mental. Daí a criação das comunidades hippies e a descoberta do misticismo e do psicodelismo das drogas, principalmente o LSD (ácido lisérgico).

Sediado na costa leste dos Estados Unidos, mais exatamente em São Francisco, a partir de 1966 o movimento hippie começou a constituir suas comunidades em meio a um clima astrológico que previa, com a chegada da Era de Aquário, da peça Hair (musical que melhor retratou os ideias e o estilo de vida dos hippies), o advento de um novo mundo, pacífico e harmonioso.

Esse profetismo acabou revelando todo o misticismo religioso que envolvia a contracultura hippie, misturando parapsicologia, zen-budismo, ufologia, astrologia, magia, iluminações psicodélicas e espiritualismo. Nesse contexto, destacavam-se figuras como Thimothy Lery, o papa do LSD ("ligue-se, sintonize-se e caia fora"), e Alan Watts, o grande "sacerdote" do zen-budismo nos Estados Unidos. Essas experiências místicas eram uma tentativa dos jovens de romper com os esquemas repressores da cultura ocidental, que agiam de forma alienante sobre as consciências individuais, limitando-as na sua sensibilidade por meio de uma racionalidade e uma tecnocracia exacerbadas.

A partir da contracultura, a segunda metade da década de 1960 trouxe em seu bojo um verdadeiro terremoto, difícil de ser enfrentado por quem tinha ideias e objetivos preestabelecidos. A cultura ocidental foi amplamente questionada em seus valores políticos e morais, já que a contracultura estabelecera uma espécie de guerrilha cultural dentro do próprio sistema; um movimento espontâneo e insinuante que, apossando-se dos meios de comunicação de massa ou criando uma imprensa alternativa, conquistou adeptos por toda a parte e ameaçou colocar a utopia no poder, estabelecendo o poder das flores (flower power).

[...] A crônica musical desses anos de contracultura começou em junho de 1967, no Monterrey Pop Festival, que abriu a época dos grandes festivais (Woodstock, Altamont e Ilha de Wight). Foi lá que se apresentou Jimi Hendrix, após ter sido consagrado na Inglaterra. Se as principais expressões do rock britânico eram famosas por procurarem desenvolver o blues a partir do rock, foi Hendrix que concretizou a fusão entre o blues e o rock' n' roll, entre o instinto vital da origem africana da música negra e a sofisticação eletrônica criada pela tecnologia branca, desbravando novos caminhos para o futuro do rock.

O nome Jimi Hendrix só pode ser comparado ao da grande cantora Janis Joplin, que também conseguiu trazer em sua voz essa fusão da música negra coma branca. Janis nasceu no Texas, mas esteve ligada ao rock de São Francisco, cidade que, como Liverpool na Inglaterra, assistiu a uma proliferação de grupos e tendências musicais - desde o conjunto com que Janis trabalhou, o Big Brother and the Holding Company, até o rock latino de Carlos Santana, com seus ritmos dançantes e sua variada percussão.

Mas a tendência mais típica do rock de São Francisco foi o chamado acid rock (rock ácido), que procurava, com a criação de espaços musicais amplos e abstratos, e com o emprego de estranhas sonoridades, reproduzir os sons e ruídos, os climas e sugestões emocionais da experiência psicodélica com as drogas. Os grupos mais famosos dessa audaciosa aventura são o Jefferson Airplane, The Doors, de Jim Morrison, e o Grateful Dead, de Jerry Garcia (guru psicodélico da cena musical norte-americana). [...]

[...]

Mas o acid rock inglês, ou head music (música de cabeça), tinha no grupo Pink Floyd, sob o comando de Syd Barret (1967-1968), o seu principal expoente. O primeiro LP do Floyd - The piper at the gates of dawn, de 1967 - era tão revolucionário quanto o próprio Sgt Pepper's ou Are you experienced (primeiro LP de Jimi Hendrix). Com grupos como o Pink Floyd e o Soft Machine, o rock psicodélico britânico se mostrou mais experimental e instigante que o norte-americano, influenciando toda uma geração de músicos que acabou por desembocar no rock progressivo (fusão entre o rock e música erudita) dos anos 70.

BRANDÃO, Antonio Carlos; DUARTE, Milton Fernandes. Movimentos culturais de juventude. São Paulo: Moderna, 2008. p. 45-46 e 52-63.

NOTA: O texto "A cultura jovem dos anos 60: da canção de protesto ao psicodelismo" não representa, necessariamente, o pensamento deste blog. Foi publicado com o objetivo de refletirmos sobre a construção do conhecimento histórico.

terça-feira, 15 de janeiro de 2013

Bossas Novas

Helô Pinheiro, a musa inspiradora de Garota de Ipanema, de Tom Jobim

A euforia desenvolvimentista do governo Kubitschek provocou, além de suas consequências econômicas, novas condições para a criação cultural brasileira. Foi um período fértil para o surgimento das chamadas "vanguardas" artísticas: poesia concreta, neoconcretismo, poesia práxis... E, na música, surgiu um movimento que, já a partir do seu próprio nome, funcionou como uma síntese e um lema dessa época - a bossa nova:

Se você insiste em classificar
Meu comportamento de antimusical.
Eu, mesmo mentindo, devo argumentar
Que isto é bossa nova
Que isto é muito natural.
O que você não sabe, nem sequer pressente,
É que os desafinados também têm um coração
[...]"
(Desafinado, de Tom Jobim e Newton Mendonça)

Todo esse desenvolvimento, evidentemente, não se processou sem traumas. [...] a inflação e as tensões sociais iriam produzir grandes mudanças no cenário político. Os artistas brasileiros tomaram parte ativíssima em todas essas transformações; e não só como indivíduos, mas também através de sua produção intelectual.

O movimento da bossa nova evoluiu rapidamente na direção da chamada "canção de protesto", que correspondia à poesia engajada ou participante:

Podem me prender
Podem me bater
Podem até deixar-me sem comer
Que eu não mudo de opinião
Daqui do morro
Eu não saio, não.
Se não tem água
Eu furo um poço
Se não tem carne
Eu compro um osso
E ponho na sopa
E deixa andar
Fale de mim quem quiser falar
Aqui eu não pago aluguel
Se eu morrer amanhã, seu doutor,
Estou pertinho do céu.
(Opinião, de Zé Kéti)

Surgiram também autores que colocavam em suas peças a problemática social urbana (como o caso de um Nelson Rodrigues, que já estreara na década de 40) ou rural (como Jorge Andrade e Dias Gomes). O cinema começava a se firmar: em fins da década de 50 e início da de 60, começaram a aparecer os filmes de diretores como Glauber Rocha, Nelson Pereira dos Santos, Rui Guerra e outros - o "cinema novo".

Todas essas novidades refletiam, no plano da arte, a crise da sociedade e do regime populista. Os artistas assumiam posições muitas vezes meramente doutrinadoras ou paternalistas em relação ao povo que queriam retratar na sua arte. Um jovem dramaturgo - Oduvaldo Viana Filho - dava, por exemplo, a uma de suas peças o título de "A mais-valia vai acabar, Seu Edgar"... Chocavam-se as tendências nacionalistas com as "entreguistas" na política e, na arte, a polêmica refletia, acirrada. A televisão começava a se tornar o grande veículo de massas que é hoje em dia.

Em tudo isso é importante assinalar o papel desempenhado por um grupo que foi dissolvido por força do movimento político-militar de 64: o Centro Popular de Cultura da União Nacional dos Estudantes (CPC da UNE). Esse grupo representou uma síntese da ideologia populista na área cultural e sua influência estendeu-se até depois da mudança do regime, tanto na música popular (a canção de protesto) como no cinema e na literatura. Na impossibilidade de modificar a realidade através da ação política, essa ideologia acabaria por tomar como um de seus caminhos aquele que foi, depois, chamado ironicamente de "esquerda festiva"...

Com suas diferentes tendências esses intelectuais permanecem participando, de uma maneira ou de outra, na tentativa de dar novos rumos à cultura brasileira. Seja com flores, barquinhos ou violões da bossa nova; seja com amanhãs e liberdades da música de protesto; seja com cangaceiros e marginais do cinema novo:

Dia de luz
Festa de sol
E um barquinho a deslizar
No macio azul do mar
[...]
Sem intenção
Nossa canção
Vai saindo desse mar
[...]
(O Barquinho, de Roberto Menescal e Ronaldo Bôscoli)

Sei
Ninguém deve chorar
Ninguém deve sonhar
Tanta coisa perdida
Sei que esta vida se faz
Só a gente é capaz
De mudar nossa vida
Não sei quanto tempo é preciso esperar
Paz, igualdade, amor, liberdade
Vida que vai nascer
[...]
(Manhã de Liberdade, de Nélson Lins de Barros e Marco Antônio)

- Se entrega, Corisco!
- Eu não me entrego não.
Eu não sou passarinho
Pra viver lá na prisão
[...]
(Perseguição, de Sérgio Ricardo e Glauber Rocha, do filme Deus e o Diabo na Terra do Sol)

Além do mais, a fusão da arte erudita com a popular é cada vez maior. Poetas "literários" fazem parceria com compositores do povo. E, na prosa de ficção, surgiu nessa época um autor que viria recuperar para a literatura os personagens da marginalidade: João Antônio, com seu livro de contos intitulado Malagueta, Perus e Bacanaço (1962).

ALENCAR, Chico et alli. História da sociedade brasileira. Rio de Janeiro: Ao Livro Técnico, 1996. p. 372-374.

segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

"Levanta, sacode a poeira e dá a volta por cima..."

Os Mutantes na década de 70: Rita Lee, Arnaldo Baptista e Sérgio Dias

[...] a arte e a cultura brasileira, a partir de 1964, foram marcadas por uma série de movimentos e contramovimentos, de marchas e contramarchas, de vanguardas que eram logo sucedidas por outras vanguardas. Isso foi uma consequência natural das mudanças que se operavam na sociedade.

A trilha que fora aberta pelo Centro Popular de Cultura da UNE teve muitos seguidores e, nos festivais de música, a canção de protesto extravasava a insatisfação da juventude; o cinema novo trazia à tela a miséria, coisa que inexistia nas "chanchadas" carnavalescas do período anterior, e, no teatro, se destacavam grupos como o Oficina e o Arena, preocupados em encenar os novos autores nacionais.

1968 foi, sob todos os aspectos, marcante. Culturalmente, foi nesse ano que explodiu um movimento partindo da música popular, mas que tinha suas origens no cinema, no teatro e nas artes plásticas: o tropicalismo. As figuras de Caetano Veloso, Gilberto Gil, Torquato Neto, José Carlos Capinam e outros, inspirados em todo esse clima neo-antropofágico (retomada das lições do modernista Oswald de Andrade), assumiram logo a liderança da corrente tropicalista, promovendo uma fusão dos elementos renovadores da bossa nova e da canção de protesto com os conteúdos tidos como de "mau gosto" da cultura brasileira tradicional e incorporando os elementos universais da cultura de massa:

"Caminhando contra o vento
Sem lenço, sem documento
No sol de quase dezembro
Eu vou
O sol se reparte em crises
Espaçonaves, guerrilhas
Em Cardinales bonitas
Eu vou
[...]"
(Alegria, Alegria, de Caetano Veloso)

Por outro lado, as vanguardas "literárias" propriamente ditas chegavam ao extremo de pregar a abolição da palavra, com o poema-processo. Parecia estar-se chegando a um impasse. Enquanto os intelectuais se pretendiam "populares", os meios de difusão de massa, especialmente a televisão, manipulavam o gosto do público e promoviam um tipo de cultura baseado em filmes seriados importados dos Estados Unidos e em programas musicais que decalcavam um tipo de comportamento próprio de uma juventude de países desenvolvidos - o iê-iê-iê, a chamada pop music.

Foi em meio a esse clima cultural - que o teórico canadense Mac Luhan chamou de "aldeia global" - que sobreveio o fato político do Ato Institucional nº 5. As suas consequências marcaram profundamente a fisionomia cultural do Brasil. Primeiramente, houve uma "diáspora" dos nossos artistas e intelectuais (não só muitos deles exilados mas também dispersos em suas próprias propostas criadoras), que passaram por um período de hibernação que só há poucos anos começou a ser rompida. Nossa produção artística entrou numa fase (novamente) escapista: peças de teatro faziam alegorias tão rebuscadas que nem seus próprios autores as entendiam; letras de musicais enveredavam pela pura metáfora ("a calma dos lagos azuis zangou-se e a rosa-dos-ventos danou-se", cantou Chico Buarque de Hollanda); o cinema novo, estrangulado pela censura vigente, morria à míngua, enquanto passava a imperar a pornochanchada.

Os anos do governo do general Médici corresponderam, no campo da criação artística, a uma fase de pouca ou nenhuma renovação. As restrições às manifestações de arte e até mesmo à informação jornalística dificultavam enormemente a expressão. Por outro lado, predominavam músicas ufanísticas (que procuravam divulgar uma imagem de felicidade e euforia) e filmes históricos patrocinados pelo governo.

A gradativa liberação da censura, nos últimos anos do regime militar, permitiu ao menos o levantamento de uma parte do véu que cobria nossas manifestações culturais mais autênticas. Assistimos, então, a um novo surto de criação artística na literatura (compromissada com a problemática social) em que as discussões sobre "vanguardas" ou "não-vanguardas" já não tinham muita razão de ser. A imprensa-alternativa (ou "nanica") começava a ganhar força, com publicações que, através do humor e/ou da denúncia, mostram a cara do Brasil de hoje, além de abrirem campo aos escritores e artistas novos. O cinema, já esgotada a fase da pornochanchada, reencontrava seus caminhos com filmes que conseguem ao mesmo tempo mostrar a nossa realidade e atingir o grande público como: O Rei da Noite; Xica da Silva; Lúcio Flávio, o Passageiro da Agonia; A Queda; Chuvas de Verão; Raoni; Gaijin; Barra Pesada; Pixote, a Lei do Mais Fraco; Bye Bye Brasil; O Homem que Virou Suco; Eles não usam black-tie, entre outros. A música popular abria-se a todas as tendências, incorporando e revalorizando os compositores tradicionais como Nélson Cavaquinho, Adoniram Barbosa e Cartola (falecido em 1980):

"Bate outra vez
Com a esperança o meu coração
Pois já vai terminando o verão, enfim...
[...]"
(As Rosas não Falam, de Cartola)

Também neste período, sobretudo na década de 1970, a juventude passou a buscar novas maneiras de veicular sua produção. Surgiu a chamada "geração mimeógrafo", jovens poetas e contistas produzindo e vendendo suas próprias obras, furando o bloqueio das grandes editoras. Na música, revalorizou-se um gênero tradicional como o chorinho e multiplicaram-se os grupos jovens, superando-se a fase em que imperava o iê-iê-iê. Criou-se uma nova forma de fazer cinema, com as máquinas Super-8.

Tudo isso - essa forma "marginal" que as camadas médias intelectuais passaram a utilizar para fazer arte - tinha sua contrapartida em fenômenos também recentes, no que se refere à cultura popular: o do futebol e o das escolas de samba. Estas duas formas de manifestação cultural tinham, cada vez mais, perdido suas raízes autenticamente populares e sido incorporadas a esquemas "industriais" de produção, através do controle financeiro dos grandes clubes e federações esportivas, no caso do futebol, e do controle por contraventores, no caso das escolas de samba. Apesar disso, tanto uma como as outras não deixam de ser elementos importantes de manifestação cultural das camadas populares brasileiras.

A cultura nacional, enfim, procurava se afirmar, no meio de todas essas influências e contra-influências. Podia, às vezes, cair um pouco, diante de golpes mais fortes. Mas, como diz aquele samba, "levanta, sacode a poeira e dá a volta por cima..."

ALENCAR, Chico et alli. História da sociedade brasileira. Rio de Janeiro: Ao Livro Técnico, 1996. p. 412-414.

sexta-feira, 3 de junho de 2011

Os militares no poder (1964-1985)

Cotidiano:resistência

"Hoje eu quero
um poema transparente,
semelhante à lágrima
que iludiu meus olhos desatentos,
[...] Um poema capaz de liberdade.
Capaz de falar nesta hora noturna
quando todos dormem, e o silêncio oficial
amordaçou as cantigas do meu povo."

"Tive a terra,
não tenho,
tive a casa,
não tenho,
tive uma pátria,
venderam,
tive caminhos,
foram fechados,
tive mãos,
deceparam [...]"
("Poemas da noite", Pedro Tierra)

Tanques do exército nas ruas após o golpe de 31 de março de 1964.


"Em 1964, a nação recebeu um tiro no peito. Um tiro que matou a alma nacional. Os personagens que pareciam fazer parte da história natural brasileira, ou da História do Brasil como nós imaginávamos, esses personagens sumiram. Ou fora do poder, ou presos e mortos. E em seu lugar surgiram outros, que eu nunca sequer percebera existir. Aí me veio a percepção clara de que o Brasil tinha mudado de regime." (Betinho apud BARROS, Edgard Luiz de. Os governos militares. São Paulo: Contexto, 1991. p. 13.)


Cotidiano: repressão

"Não era mole aqueles dias
De percorrer de capuz
A distância da cela
À câmara de tortura
E nela ser capaz de dar urros
Tão feios como nunca ouvi.
Havia dias que as piruetas do pau-de-arara
Pareciam ridículas e humilhantes;
E, nus, ainda éramos capazes de corar
Ante as piadas sádicas dos carrascos.
Havia dias em que todas as perspectivas
Eram pra lá de negras
E todas as expectativas
Se resumiam à esperança algo cética
De não tomar pancadas nem choques elétricos.
Havia outros momentos
Em que as horas se consumiam
À espera do ferrolho da porta que conduzia
Às mãos dos especialistas
Em nossa agonia
Houve ainda períodos
Em que a única preocupação possível
Era ter papel higiênico
Comer alguma coisa com algum talher
Saber o nome do carcereiro do dia
Ficar na expectativa da primeira visita
O que valia como um aval da vida
Um carimbo de sobrevivente
E um status de prisioneiro político.
Depois a situação foi melhorando
E foi possível até sofrer
Ter angústia, ler
Amar, ter ciúmes
E todas essas outras bobagens amenas
Que aí fora reputamos
Como experiências cruciais."
(Alex Polari,  "Os Primeiros Tempos")

Castelo Branco e militares: arrogância e prepotência

Hoje você é quem manda
Falou, tá falado
Não tem discussão, não.
A minha gente hoje anda
Falando de lado e olhando pro chão
Viu?
Você que inventou esse Estado
Inventou de inventar
Toda escuridão
Você que inventou o pecado
Esqueceu-se de inventar o perdão

Apesar de você
amanhã há de ser outro dia
Eu pergunto a você onde vai se esconder
Da enorme euforia?
Como vai proibir
Quando o galo insistir em cantar?
Água nova brotando
E a gente se amando sem parar

Quando chegar o momento
Esse meu sofrimento
Vou cobrar com juros. Juro!
Todo esse amor reprimido,
Esse grito contido,
Esse samba no escuro

Você que inventou a tristeza
Ora tenha a fineza
de "desinventar"
Você vai pagar, e é dobrado,
Cada lágrima rolada
Nesse meu penar

Apesar de você
Amanhã há de ser outro dia.
Ainda pago pra ver
O jardim florescer
Qual você não queria

Você vai se amargar
Vendo o dia raiar
Sem lhe pedir licença

E eu vou morrer de rir
E esse dia há de vir
antes do que você pensa
Apesar de você

Apesar de você
Amanhã há de ser outro dia
Você vai ter que ver
A manhã renascer
E esbanjar poesia

Como vai se explicar
Vendo o céu clarear, de repente,
Impunemente?
Como vai abafar
Nosso coro a cantar,
Na sua frente.
Apesar de você

Apesar de você
Amanhã há de ser outro dia.
Você vai se dar mal, etc e tal
("Apesar de você", Chico Buarque)

Militares impedem manifestação pró-Jango (Rio de Janeiro)

[...] o Golpe de 1964 pode ser acusado de muitas coisas, menos de ter sido uma mera quartelada. Há muito tal intervenção era discutida em instituições, como a Escola Superior de Guerra (ESG), criada em 1948, ou o Instituto de Pesquisa e Estudos Sociais (IPES), fundado em 1962, por lideranças empresariais. Outro indício de que o golpe já vinha sendo tramado há tempos ficou registrado nos documentos da operação "Brother Sam", através da qual se previa, caso houvesse resistência, que o governo norte-americano "doaria" 110 toneladas de armas e munições ao exército brasileiro. Por ser fruto desse planejamento prévio, não é surpreendente que a instituição militar apresentasse um projeto próprio de desenvolvimento para o país - projeto, aliás, compartilhado pela maioria do empresariado nacional. Em larga medida, consistia em retomar o modelo implantado em fins dos anos de 1950, aquele que definimos como tripé, baseado na associação entre empresas nacionais privadas, multinacionais e estatais.

Cotidiano: repressão

No sentido de tornar esse modelo mais "eficaz", foi meticulosamente organizada a repressão ao movimento sindical e à oposição política. Contudo, a implantação da ditadura não ocorreu imediatamente após a deposição do presidente. Os conspiradores dependiam dos grupos legalistas, muitos deles defensores do retorno dos civis ao poder nas próximas eleições presidenciais. Além disso, a ausência de resistência - em 3 de abril de 1964, João Goulart rumava calmamente para o exílio no Uruguai - desarmou momentaneamente a "linha dura". Mas isso durou pouco. Em 1965, graças às "depurações" nas forças armadas, os militares identificados com o General Costa e Silva já tinham força suficiente para alterar o rumo da "revolução". A derrota que enfrentaram nas urnas alimentou ainda mais essa tendência. No referido ano, candidatos oposicionistas venciam em estados e cidades importantes, como Guanabara, Minas Gerais e a capital paulista. Boa parcela dos brasileiros demonstrava assim seu descontentamento frente ao governo instituído em 31 de março. Como resposta, foram impostos os Atos Institucionais nº 2 e nº 3, que aboliam os partidos existentes e as eleições diretas para presidente, governador e prefeitos de capitais. Agora não restavam dúvidas, os militares tinham vindo para ficar...


Cotidiano: repressão

O governo nascido do Golpe de 1964 foi definido certa vez como o "Estado Novo da UDN". Essa definição tem sua razão de ser. Durante duas décadas, políticos udenistas - representantes de parcelas importantes das elites empresariais e agrárias - dificilmente chegaram a conseguir apoio de mais de 30% do eleitorado brasileiro. Entretanto, através da ditadura militar, puderam ver implementadas várias de suas propostas em termos de política econômica, como, por exemplo, a diminuição do valor real dos salários, a abertura ampla da economia aos investimentos estrangeiros, e a recessão nos primeiros meses após o golpe.

Cotidiano: resistência

A aliança entre udenistas e militares teve ainda outras repercussões. Apesar de oportunistas e golpistas, os partidários da UDN eram admiradores de democracias liberais. Tal posicionamento obstaculizou a adoção de um modelo fascista no Brasil. Mesmo nos momentos de maior intolerância, a ditadura militar, através da rotatividade dos presidentes, evitou o caudilhismo, não deixando de reconhecer a legalidade da oposição parlamentar. A extinção dos partidos tradicionais, em 1965, foi acompanhada da criação de duas novas agremiações: Aliança Renovadora Nacional (ARENA) e Movimento Democrático Brasileiro (MDB). Esse último representava boa parte dos grupos que lutavam pelo retorno à normalidade democrática.

Cotidiano: resistência

Tem dias que a gente se sente
Como quem partiu ou morreu

A gente estancou de repente

Ou foi o mundo então que cresceu...

A gente quer ter voz ativa
No nosso destino mandar
Mas eis que chega a roda viva
E carrega o destino prá lá ...
Roda mundo, roda gigante
Roda moinho, roda pião
O tempo rodou num instante
Nas voltas do meu coração...
A gente vai contra a corrente
Até não poder resistir
Na volta do barco é que sente
O quanto deixou de cumprir
Faz tempo que a gente cultiva
A mais linda roseira que há
Mas eis que chega a roda viva
E carrega a roseira prá lá...
Roda mundo, roda gigante
Roda moinho, roda pião
O tempo rodou num instante
Nas voltas do meu coração...
A roda da saia mulata
Não quer mais rodar não senhor
Não posso fazer serenata
A roda de samba acabou...
A gente toma a iniciativa
Viola na rua a cantar
Mas eis que chega a roda viva
E carrega a viola prá lá...
Roda mundo, roda gigante
Roda moinho, roda pião
O tempo rodou num instante
Nas voltas do meu coração...
O samba, a viola, a roseira
Que um dia a fogueira queimou
Foi tudo ilusão passageira
Que a brisa primeira levou...
No peito a saudade cativa
Faz força pro tempo parar
Mas eis que chega a roda viva
E carrega a saudade prá lá ...
Roda mundo, roda gigante
Roda moinho, roda pião
O tempo rodou num instante
Nas voltas do meu coração..
("Roda viva", Chico Buarque)

Dirigentes do PC do B mortos pelo Exército na chacina da Lapa, em dezembro de 1976

Os partidários do extinto PCB, de imediato, deram início a uma autocrítica frente ao esquerdismo assumido durante o governo deposto. Porém, tal postura não foi unânime, fazendo com que dirigentes abandonassem o partido, como foram os casos de Carlos Mariguella (ALN) e Apolônio de Carvalho (PCBR). Criticava-se, então, o que se denominava "etapismo", ou seja, uma estratégia que pregava a revolução por etapas, cabendo ao PCB apoiar a burguesia nacional no processo de constituição de uma sociedade democrática, antifeudal e antiimperialista, deixando para um futuro distante a luta pela implantação do socialismo. De acordo com os dissidentes, a estratégia do PCB facilitara a implantação da ditadura, pois subordinara o movimento operário aos acordos da cúpula com as lideranças populistas. [...]

Cotidiano: resistência

A ausência de resistência ao golpe militar fez com que esse tipo de interpretação ganhasse muitos adeptos. Entre 1965 e 1967, amplia-se o número de dissidências, fragmentação que atinge até mesmo as organizações que haviam sido formadas alguns anos antes. [...] 

Cotidiano: repressão

Entre a esquerda oposicionista nascem, então, propostas de luta armada. Há, sem dúvida, inúmeros matizes entre um grupo e outro. No entanto, a perspectiva de uma revolução iminente parece ser um traço comum às diversas siglas. [...] 

O estudante Edson Luis de 16 anos é metralhado no restaurante Calabouço (Rio de Janeiro). A morte de Edson Luis virou um marco na luta estudantil contra a ditadura.


A novidade do período era que os grupos revolucionários recém-formados recrutavam seus militantes na classe média. Havia mesmo, em partidos que aderiram à luta armada, o predomínio de estudantes e professores universitários. Esse segmento, segundo os processos da justiça militar, respondia por 80% do Movimento de Libertação Popular (MOLIPO), 55% do Movimento Revolucionário 8 de outubro (MR-8) e 53% do Comando de Libertação Nacional (COLINA) [...].


Missa na Candelária: repressão

Pai! Afasta de mim esse cálice

Pai! Afasta de mim esse cálice
Pai! Afasta de mim esse cálice
De vinho tinto de sangue

Pai! Afasta de mim esse cálice
Pai! Afasta de mim esse cálice
Pai! Afasta de mim esse cálice
De vinho tinto de sangue

Como beber dessa bebida amarga
Tragar a dor e engolir a labuta?
Mesmo calada a boca resta o peito
Silêncio na cidade não se escuta
De que me vale ser filho da santa?
Melhor seria ser filho da outra
Outra realidade menos morta
Tanta mentira, tanta força bruta

Pai! Afasta de mim esse cálice
Pai! Afasta de mim esse cálice
Pai! Afasta de mim esse cálice
De vinho tinto de sangue

Como é difícil acordar calado
Se na calada da noite eu me dano
Quero lançar um grito desumano
Que é uma maneira de ser escutado
Esse silêncio todo me atordoa
Atordoado eu permaneço atento
Na arquibancada, prá a qualquer momento
Ver emergir o monstro da lagoa

Pai! Afasta de mim esse cálice
Pai! Afasta de mim esse cálice
Pai! Afasta de mim esse cálice
De vinho tinto de sangue

De muito gorda a porca já não anda (Cálice!)
De muito usada a faca já não corta
Como é difícil, Pai, abrir a porta (Cálice!)
Essa palavra presa na garganta
Esse pileque homérico no mundo
De que adianta ter boa vontade?
Mesmo calado o peito resta a cuca
Dos bêbados do centro da cidade

Pai! Afasta de mim esse cálice
Pai! Afasta de mim esse cálice
Pai! Afasta de mim esse cálice
De vinho tinto de sangue

Talvez o mundo não seja pequeno (Cale-se!)
Nem seja a vida um fato consumado (Cale-se!)
Quero inventar o meu próprio pecado (Cale-se!)
Quero morrer do meu próprio veneno (Pai! Cale-se!)
Quero perder de vez tua cabeça! (Cale-se!)
Minha cabeça perder teu juízo. (Cale-se!)
Quero cheirar fumaça de óleo diesel (Cale-se!)
Me embriagar até que alguém me esqueça (Cale-se!)
("Cálice", de Chico Buarque e Gilberto Gil)



Outro dado importante que a documentação da repressão revelou foi a predominância de menores de 25 anos nos diversos agrupamentos revolucionários. O aparecimento de numerosos jovens, não necessariamente pobres ou miseráveis, dispostos a lutar contra os poderes constituídos não era um fenômeno exclusivamente brasileiro. De certo modo, isso traduzia determinadas mudanças que estavam ocorrendo na juventude em escala mundial.



Prisões de 700 líderes estudantis no Congresso da UNE em Ibiúna (São Paulo).


[...]


[...] A partir dos anos de 1940, o mundo estava sendo sacudido por revoluções nacionalistas na Ásia e na África. O impossível parecia estar sendo feito: países pobres do terceiro mundo conseguiam vencer seus antigos colonizadores europeus. Coroando essas transformações, em 1959, um pequeno grupo de guerrilheiros fazia uma revolução em Cuba, enfrentando a oposição do tradicional partido comunista local e dos Estados Unidos, que já nessa época desfrutavam o título de maior potência econômica e militar do mundo. Mais ainda: a revolução era um fenômeno da alta cultura. Entre seus partidários estavam refinados romancistas, filósofos e artistas europeus e norte-americanos. No Brasil, algumas das produções da época, extraordinariamente bem-sucedidas - o cinema de Glauber Rocha, a música de João Gilberto, o teatro de Augusto Boal - revelavam o lado positivo da "ruptura" radical com o passado. [...]


Ao longo dos anos de 1960, tal visão foi difundida por meio do cinema, do teatro e do jornalismo, assim como por palestras e debates promovidos pelos Centros Populares de Cultura da União Brasileira dos Estudantes (CPC-UNE). [...]


1968: passeata dos Cem Mil (Rio de Janeiro)

Caminhando e cantando

E seguindo a canção
Somos todos iguais
Braços dados ou não
Nas escolas, nas ruas
Campos, construções
Caminhando e cantando
E seguindo a canção

Vem, vamos embora
Que esperar não é saber
Quem sabe faz a hora
Não espera acontecer

Pelos campos há fome
Em grandes plantações
Pelas ruas marchando
Indecisos cordões
Ainda fazem da flor
Seu mais forte refrão
E acreditam nas flores
Vencendo o canhão

Vem, vamos embora
Que esperar não é saber
Quem sabe faz a hora
Não espera acontecer

Há soldados armados
Amados ou não
Quase todos perdidos
De armas na mão
Nos quartéis lhes ensinam
Uma antiga lição:
De morrer pela pátria
E viver sem razão

Vem, vamos embora
Que esperar não é saber
Quem sabe faz a hora
Não espera acontecer

Nas escolas, nas ruas
Campos, construções
Somos todos soldados
Armados ou não
Caminhando e cantando
E seguindo a canção
Somos todos iguais
Braços dados ou não

Os amores na mente
As flores no chão
A certeza na frente
A história na mão
Caminhando e cantando
E seguindo a canção
Aprendendo e ensinando
Uma nova lição

Vem, vamos embora
Que esperar não é saber
Quem sabe faz a hora
Não espera acontecer
("Pra não dizer que não falei das flores", de Geraldo Vandré)


Cotidiano: mulheres resistem

Vista a partir de hoje, a luta armada parece ser algo ingênuo ou mesmo incompreensível, mas na época, vale lembrar, ela era fortemente marcada pelo sentimento nacional, em um mundo onde revoluções que pareciam "impossíveis" estavam ocorrendo. [...]

Caminhando contra o vento
Sem lenço e sem documento
No sol de quase dezembro
Eu vou...

O sol se reparte em crimes
Espaçonaves, guerrilhas
Em cardinales bonitas
Eu vou...

Em caras de presidentes
Em grandes beijos de amor
Em dentes, pernas, bandeiras
Bomba e Brigitte Bardot...

O sol nas bancas de revista
Me enche de alegria e preguiça
Quem lê tanta notícia
Eu vou...

Por entre fotos e nomes
Os olhos cheios de cores
O peito cheio de amores vãos
Eu vou
Por que não, por que não...

Ela pensa em casamento
E eu nunca mais fui à escola
Sem lenço e sem documento,
Eu vou...

Eu tomo uma coca-cola
Ela pensa em casamento
E uma canção me consola
Eu vou...

Por entre fotos e nomes
Sem livros e sem fuzil
Sem fome, sem telefone
No coração do Brasil...

Ela nem sabe até pensei
Em cantar na televisão
O sol é tão bonito
Eu vou...

Sem lenço, sem documento
Nada no bolso ou nas mãos
Eu quero seguir vivendo, amor
Eu vou...

Por que não, por que não...
Por que não, por que não...
Por que não, por que não...
Por que não, por que não...
("Alegria, Alegria", de  Caetano Veloso)

[...] Em 1967 era dado início a uma série de roubos a banco por parte dos grupos guerrilheiros, processo que se arrasta até o início dos anos de 1970 e resulta em cerca de trezentas instituições atacadas, com a apropriação de mais de 2 milhões de dólares. Na prática, a guerrilha - salvo no caso do Araguaia - não se estenderá ao campo. À medida que o sistema repressivo ia conseguindo realizar prisões, o emprego sistemático da tortura fazia com que mais e mais revolucionários fossem capturados. Em 1969, a própria dinâmica do movimento guerrilheiro é por isso mesmo alterada, passando a ter como objetivo resgatar companheiros das masmorras militares. Os assaltos a bancos vão dando lugar a sequestros - dentre os quais o dos embaixadores norte-americano, alemão e suíço no Brasil - cujo resgate é a libertação de prisioneiros políticos.


Repressão: guerrilha do Araguaia

Alegando a ameaça comunista e acentuando uma tendência de endurecimento, que vinha desde o ano anterior - com a eleição do general Costa e Silva em 25 de maio de 1966 -, o governo militar tende a se tornar cada vez mais ditatorial. Nesse contexto é fortalecida a doutrina de segurança nacional, que tornava prioridade entre as forças armadas a luta contra a ameaça interna e não mais a defesa contra inimigos estrangeiros. Assiste-se também a ampliações das redes de espionagem e de repressão. Paralelamente ao Serviço Nacional de Informações (SNI), criado em 1964, atuam agora outras organizações, como o Centro de Informações da Marinha (CENIMAR), a Operação Bandeirantes (OBAN) e o DOI-CODI [...].


Sucursal do Inferno: Edifício do DOI-CODI em São Paulo. 
(DOI-CODI, sigla de Departamento de Operações  de Informações do Centro de Operações de Defesa Interna: órgão repressor criado pelo regime militar para prender e torturar aqueles que fossem contrários ao regime.)

"[...] Fui levado do Presídio Tiradentes para a Operação Bandeirantes (OB, Polícia do Exército) no dia 17 de fevereiro, terça-feira, às 14:00. O capitão Maurício, que veio buscar-me em companhia de dois policiais, disse: 'Você agora vai conhecer a sucursal do Inferno.'

[...] Ao chegar à OB fui conduzido à sala de interrogatórios. A equipe do capitão Maurício passou a acarear-me com duas pessoas. O assunto se referia ao congresso da UNE, em Ibiúna, em outubro de 1968 [...]. Pouco depois levaram-me para o pau-de-arara.

Dependurado, nu, com mãos e pés amarrados, recebi choques elétricos, de pilha seca, nos tendões dos pés e na cabeça. Eram seis os torturadores, comandados pelo capitão Maurício. Davam-se telefones (tapas nos ouvidos) e berravam impropérios. Isso durou cerca de uma hora [...].

Ao sair da sala, tinha o corpo marcado de hematomas, o rosto inchado, a cabeça inchada e dolorida.

[...] Na quinta-feira, três policiais acordaram-me à mesma hora do dia anterior. De estômago vazio, fui para a sala de interrogatórios. Um capitão, cercado por uma equipe, voltou às mesmas perguntas [...] Sentaram-me na cadeira-do-dragão (com chapas metálicas e fios) e descarregaram choques nas mãos, nos pés, nos ouvidos e na cabeça.

Dois fios foram amarrados às minhas mãos e um na orelha esquerda. A cada descarga eu estremecia todo, como se o organismo fosse se decompor. Da sessão de choques passaram-me ao pau-de-arara. Mais choques, pauladas no peito e nas pernas [...]. Uma hora depois, com o corpo todo sangrando e todo ferido, desmaiei. Fui desamarrado e reanimado [...].

Voltaram às perguntas, batiam em minhas mãos com palmatórias [...]. Era impossível saber qual parte do corpo doía mais: tudo parecia massacrado. Mesmo que quisesse não poderia responder às perguntas: o raciocínio não se ordenava mais." (Testemunho de Tito de Alencar Lima, frade dominicano, preso em 1969. In: AQUINO, Rubim Santos Leão de et alli. Brasil: uma história popular. Rio de Janeiro: Record, 2003. p. 124-125)

O jornalista Vladimir Herzog foi torturado e assassinado nos porões do DOI-CODI de São Paulo em 1975.


Até mesmo a oposição legal deixa de ser aceita. A frente ampla [...] que defendia bandeiras democráticas, como eleições diretas, anistia e nova constituição, é proibida em 1968. A recessão e o declínio do poder de compra dos salários fizeram, por sua vez, com que o movimento sindical renascesse. Greves envolvendo milhares de operários ocorreram em Minas Gerais e São Paulo. No mesmo período, são registradas manifestações estudantis em todo o país, culminando com a Passeata dos Cem Mil, em 26 de agosto de 1968. A resposta dos militares: maior endurecimento do regime. Em 13 de dezembro era assinado o AI-5. O presidente da república pode agora, a bel-prazer, fechar desde câmaras de vereadores até o próprio congresso nacional, pode nomear interventores para qualquer cargo executivo, pode cassar os direitos políticos de qualquer cidadão e pode também suspender o recurso a habeas-corpus.


Cartaz de denúncia de mortos e desaparecidos. Hoje, no Brasil, ainda são 144 os desaparecidos políticos.


"Quase toda a América Latina passaria, nos anos seguintes, pela implantação de regimes ditatoriais. Eles simbolizaram uma espécie de último capítulo na luta entre os setores conservadores e as estruturas nacionalistas-populistas montadas entre as duas guerras mundiais no continente. Não por acaso, as novas ditaduras facilitariam muito a penetração do capital estrangeiro em seus países.


O golpe de 1964 e, depois, o AI-5 puseram abaixo a máquina política construída por Getúlio Vargas. Militares formados de acordo com a doutrina de segurança nacional logo fariam coisa semelhante na Argentina, Uruguai, Peru e, mais tarde, Chile, sempre com o apoio da Casa Branca, interessadíssima em 'combater o comunismo na América Latina'. O continente mergulhava na escuridão." (BRENER, Jaime. Jornal do Século XX. São Paulo: Moderna, 1998. p. 246.)


[...]


Resistência: mães lutam pela libertação de seus filhos presos.


Desde 1972, os movimentos armados urbanos já não existiam mais. A guerrilha, que sobrevivia apenas no Araguaia, havia sido destroçada em 1974. Os vários tentáculos repressivos passavam agora a perseguir grupos que não participaram desse tipo de enfrentamento, como foi o caso do PCB e de membros da Igreja. A subjugação desses organismos repressivos ganha apoio crescente da sociedade, manifestado através da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), da Associação Brasileira de Imprensa (ABI), do Conselho Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) e da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC).


Resistência: Capitão Carlos Lamarca dando instruções ao VPR.

"Três anos de revolta
no Araguaia
A luta na selva,
lavouras abandonadas,
homens, mulheres e crianças
trucidados nos castanhais.
Vilas bombardeadas
e rios envenenados
- o napalm na floresta.
Foi preciso perseguir cada posseiro,
cada castanheiro e cada agricultor
para conter a guerrilha."
(Os rios envenenados, poema de Carlos Amorim)

Cemitério clandestino em São Paulo: desaparecidos políticos da ditadura militar

* A repressão no Brasil. A violência sempre esteve presente na história da Humanidade como instrumento de imposição dos direitos e das vontades dos mais fortes. Na América Latina, esse instrumento foi cotidianamente usado desde a chegada dos europeus e, no período de colonização, como forma de conquistar os índios, escravizando-os e obrigando-os a se submeterem ao seu poder.

Desde aqueles tempos, os direitos humanos jamais foram respeitados e a violência usada pelos detentores do poder político deu fim a muitos indivíduos que se colocaram contra o regime vigente.

Um dos artifícios mais usados para manter a "ordem política" tem sido a tortura. Ela é um meio que serve para obrigar os indivíduos a falar ou a fazer aquilo que outros querem. Além disso, ela serve para destruir psicologicamente os indivíduos, levando-os ao grau máximo da degradação humana.

A tortura foi retomada em grande escala pelas ditaduras militares latino-americanas nas décadas de 1960 e 1970. Ela foi responsável pelo "desaparecimento" de milhares de indivíduos, homens, mulheres e crianças que, em muitos casos, não tinha nenhuma relação com a "briga" política. Além disso, ela deixou a sua marca, tanto física como psicológica naqueles que direta ou indiretamente passaram pelas mãos dos torturadores.

Mesmo hoje, a violência não deixou de ser praticada e os direitos humanos ainda não são respeitados em sua íntegra nos países americanos. Com isso, o poder do mais forte ainda prevalece, calando a boca daqueles que se atrevem a se colocar contra o seu regime.


Cotidiano: repressão

O texto abaixo fala da repressão no Brasil, segundo livro de depoimentos coordenado pelo arcebispo de São Paulo, D. Paulo Evaristo Arns.

Depoimento (em 1977) de Elza Maria Pereira Lianza, 25 anos, engenheira, que esteve presa no Rio de Janeiro: [...] que a interrogada foi submetida a choques elétricos em vários lugares do corpo, inclusive nos braços, nas pernas e na vagina, que o marido da interrogada teve oportunidade de presenciar essas cenas relacionadas com choques elétricos e os torturadores amplificavam os gritos da interrogada, para que os mesmos fossem ouvidos pelo seu marido. 

Depoimento (em 1970) de Apio Costa Rosa, 28 anos, bancário, preso em Belo Horizonte: [...] que em determinada oportunidade foi-lhe introduzido no ânus pelas autoridades policiais um objeto parecido com um limpador de garrafas; que em outra oportunidade essas mesmas autoridades determinaram que o interrogado permanecesse em pé sobre latas, posição em que vez por outra recebia murros, queimaduras de cigarros; que a isso as autoridades davam o nome de Vietnã. que o interrogado mostrou a este Conselho uma marca à altura do abdômem como tendo sido lesão que fora produzida pelas autoridades policiais (gilete).

Depoimento (em 1973) de Maria José de Souza Barros, camponesa, cujo marido foi preso no Ceará: [...] e ainda levaram seu filho para o mato, judiaram com o menino, com a finalidade de dar conta de seu marido; que o menino se chama Francisco de Souza Barros e tem a idade de nove anos; que a polícia levou o menino às cinco horas da tarde e somente voltou com eles às duas da madrugada mais ou menos.

Depoimento (em 1970) de Maria Mendes Barbosa, 28 anos, professora presa em Minas Gerais: [...] nua, foi obrigada a desfilar na presença de todos, desta ou daquela forma, havendo, ao mesmo tempo, o capitão Portela, nessa oportunidade, beliscando os mamilos da interrogada até quase produzir sangue; que, além disso, [...] foi, através de um cacetete, tentada a violação de seu órgão genital; que ainda, naquela oportunidade, os seus torturadores faziam a autopromoção de suas possibilidades na satisfação de uma mulher, para a interrogada, e depois fizeram uma espécie de sorteio para que ela, interrogada, escolhesse um deles. (ARNS, P. Evaristo. Brasil: nunca mais. Petrópolis: Vozes, 1985. p. 40-48.) Citado em: PINSKY, Jaime (org.). História da América através de textos. São Paulo: Contexto: 2004. p. 166-167, 170-171.


Cotidiano: resistência ao AI-5

"Houve uma ditadura no Brasil, a partir de 1964. Em 1968, ela piorou. Seu desmonte se iniciou na segunda metade dos anos 1970, impulsionado por movimentos sociais expressivos - mobilizações populares, crescimento de setores oposicionistas, greves e lutas contra a carestia e o desemprego [...] e por eleições diretas [...]. Demissões, cassações de direitos políticos e prisões arbitrárias, torturas, censura e outras violências explícitas se iniciaram apenas em 1968? Tudo era ditadura, na sociedade brasileira, entre 1964 e 1968, ou nesgas de democracia eram reinventadas, a duras penas, no cotidiano desse período, por alguns de seus sujeitos? A ditadura foi apenas militar, ou também possuía fortes componentes civis? Existiu um prelúdio soft da ditadura, entre 1964 e 1968, e ela se iniciou para valer somente com o AI-5 [...]? O regime se encerrou por completo em 1985, ou se desdobra, através de personagens, instituições e práticas até hoje?" (SILVA, Marcos. 1964/1968: de pior a pior. In: Brasil 1964/1968: a ditadura já era ditadura. São Paulo: LCTE, 2006. p. 7.)


Monumento Tortura Nunca Mais, do arquiteto piauinse Demetrius Albuquerque, em Recife (PE)

"Não há cova funda / que sepulte / a rasa covardia / Não há túmulo que oculte / os frutos da rebeldia / Cai um dia em desgraça / a mais torpe ditadura / quando os vivos saem à praça / e os mortos da sepultura". 
("Os desaparecidos", poema de Affonso Romano de Sant'Anna)

"A tortura foi aplicada de maneira violenta! Usaram cerca de 320 tipos de tortura. Muitos presos não resistiram: morreram em meio a grandes sofrimentos. [...] Cento e trinta brasileiros foram banidos! [...] Houve centenas de exilados! [...] Milhares de prisões! Só na Operação Gaiola, foram presos 10 mil em 1970! Apenas entre 1964 e 1979, 1.565 sindicatos caíram sob intervenção, tiveram eleições anuladas ou foram fechados. A censura criou uma barreira a muitas notícias, músicas, peças de teatro, jornais, revistas, novelas, livros, filmes. [...] Governadores, prefeitos, senadores, deputados e vereadores foram cassados! [...] Por sua coragem, cerca de 358 pessoas pagaram com a própria vida seu idealismo." (AQUINO, Rubim Santos Leão de et alli. Brasil: uma história popular. Rio de Janeiro: Record, 2003. p. 124-126.)

Referências:

ALENCAR, Chico et al. História da Sociedade Brasileira. Rio de Janeiro: Ao Livro Técnico, 1996. p. 400-401.
AQUINO, Rubim Santos Leão de et alli. Brasil: uma história popular. Rio de Janeiro: Record, 2003. p. 124-126.
ARNS, P. Evaristo. Brasil: nunca mais. Petrópolis: Vozes, 1985. p. 40-48.
BARROS, Edgard Luiz de. Os governos militares. São Paulo: Contexto, 1991. p. 13.
BRENER, Jaime. Jornal do século XX. São Paulo: Moderna, 1998. p. 246.
DEL PRIORE, Mary; VENÂNCIO, Renato Pinto. O livro de ouro da História do Brasil. Rio de Janeiro: Ediouro, 2001. p. 354-358, 360, 362, 364-367.
PINSKY, Jaime et al. História da América através de textos. São Paulo: Contexto, 2004. p. 166-167, 170-171.
SILVA, Marcos. 1964/1968: de pior a pior. In: Brasil 1964/1968: a ditadura já era ditadura. São Paulo: LCTE, 2006. p. 7.