"Os espelhos estão cheios de gente.
Os invisíveis nos vêem.
Os esquecidos se lembram de nós.
Quando nos vemos, os vemos.
Quando nos vamos, se vão?"
Eduardo Galeano: Espelhos
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quinta-feira, 26 de junho de 2014

Quantos eram os índios do Brasil pré-colombiano

Ilustração de Theodor de Bry para a obra Brevíssima destruição das Índias de Bartolomeu de las Casas

Dificuldades metodológicas e a precariedade de dados históricos impossibilitam uma uniformidade de opiniões quanto ao montante da população aborígene na época da conquista da América. A avaliação mais baixa dos chamados estudos "clássicos" é de 8 milhões e 400 mil índios e, a mais alta, de 40 a 50 milhões, para toda a América. Se aceitarmos essa última estimativa, verificaremos que, em quatro séculos, a população nativa americana foi reduzida a um oitavo do montante original. Estudos recentes, porém, mostram que o descenso foi muito mais drástico, devido principalmente à incidência de doenças antes desconhecidos (varíola, gripe, sarampo, tuberculose, sífilis etc) e ao rigor da escravidão.

A maior crítica dos estudiosos de demografia histórica americana às avaliações antigas é a de que elas não levaram em conta testemunhos, como o do padres Bartolomeu de las Casas, que responsabilizou os espanhóis pelo genocídio de 40 milhões de índios em apenas sessenta anos.

Outra restrição feita pelos antropólogos modernos é não terem os chamados "clássicos" levado em consideração os efeitos das epidemias sobre povos sem defesas orgânicas contra nossos vírus e bacilos. A propósito, vale citar o depoimento do padre Manuel da Nóbrega:

"Uma coisa nos acontecia que muito nos maravilha a princípio e foi que quase todos os que batizamos, caíram doentes, quais do ventre, quais dos olhos, quais de apostema; e tiveram ocasião os seus feiticeiros de dizer que lhes dávamos a doença com a água do batismo e, com a doutrina, a morte."

É preciso lembrar que o aperfeiçoamento da vacina contra a varíola só deu por volta de 1800.

No caso do Brasil, existem dados de observação direta, por parte então de etnólogos, que encontraram tribos virgens de contato com o branco. Inúmeros exemplos de depopulação proveniente de epidemias que atacavam grupos indígenas são relatados por Darcy Ribeiro em Os índios e a civilização. O efeito sobre a população indígena das doenças levadas pelos civilizados, que ainda ocorre, pode, portanto, ser adotado como outro critério de avaliação da população original. Esse fenômeno é agravado pelo fato de, simultaneamente, decair a taxa de natalidade. Isto é, o circuito de contágio que se produz, quando dos primeiros contatos entre populações indígenas e não indígenas, traz vários problemas. Além de causar enorme mortandade, não só por efeito das doenças como por desorganizar a vida tribal (todos os seus membros sendo atingidos, não há ninguém para buscar água, lenha e os produtos da roça), afeta também o índice de natalidade que, em casos extremos, cai a zero, durante anos seguintes.


Índios brasileiros escravizados no século XIX. Fotógrafo desconhecido

Calculando o declínio da população segundo esse critério, Dobyns chega à conclusão de que, por efeito de moléstias e outros agentes deletérios, a depopulação do México Central deve ter sido à razão de 20 a 1. Isto é, onde havia vinte indivíduos na época da conquista, restou um só, 130 anos depois. Em algumas regiões do antigo império Inca, a queda da população em uma geração chegou à taxa de 25 a 1 e até mesmo de 100 a 1. De 2 milhões de índios, em 1492, sobraram 20 mil, em 1685, na região costeira entre Lima e Paita, no Peru.

Dados etnográficos sobre a depopulação de índios na Terra do Fogo mostram que, no caso dos Ona, por exemplo, a taxa de mortalidade foi de 50 a 1 entre 1870 e 1950, isto é, em apenas oitenta anos. A dizimação do subgrupo Nambiwára, Sabané, foi ainda mais drástica, porque ocorrida em muito menos tempo: de 20 a 1, em 22 anos.


Aldeia de caboclos em Canta Galo, Jean-Baptiste Debret

Outro exemplo do Brasil é dado por Dobyns no caso dos índios Kayapó das margens do rio Araguaia. Os padres dominicanos se estabeleceram na região em 1903 para dirimir os conflitos entre esses índios e seringueiros que penetraram em seu território. Anos mais tarde, os dominicanos estimaram a população Kaiapó em 6 a 8 mil indivíduos. Em 1918 estavam reduzidos a quinhentos índios e, em 1929, a apenas 27, num declínio de 222 a 1, que os levou à extinção. Em 1958, havia uma única sobrevivente.

[...]

Num trabalho publicado em 1972, Pierre Clastres calcula a população guarani do Brasil, do Paraguai, do Uruguai e da Argentina, de antes da conquista, tomando por base dados dos cronistas do século XVI sobre a extensão do território tribal (350 mil km²), a distância entre as aldeias (9 a 12 km) e o número médio de habitantes por aldeia (seiscentos, tomando por baixo). Clastres chega à conclusão de que, antes da chegada dos europeus, havia cerca de 1.404.000 Guarani no retângulo compreendido entre o alto rio Paraguai e a costa atlântica, com uma média de 4 habitantes por km².

Os estudos de Clastres refutam totalmente os chamados "clássicos". Assim, comparada com a estimativa de Julian H. Steward (200 mil Guarani no Brasil e no Paraguai, ou cerca de 28 habitantes por 100 km²), a retificação de Clastres sextuplica a população Guarani.

Pierre Chaunu estima a população do México, de 1519, equivalente à da França em 1789, isto é, 50 habitantes por km². Nesse raciocínio, calcula a população do continente em 80 a 100 milhões de americanos, que representam a quarta parte da humanidade do período. A título de comparação, basta dizer que Tenochititlán, a capital dos astecas, contava com 300 mil habitantes, segundo o testemunho dos cronistas da época, ao passo que Sevilha, a principal cidade espanhola do século XVI, contava com 120 mil e Lisboa, com 100 mil, dos quais 10 mil escravos e 7 mil artesãos estrangeiros.

É relevantes recordar que o mapa etno-histórico do Brasil e regiões adjacentes, de Curt Nimuendaju, elaborado em 1944 e publicado em 1982, enumera 1.400 tribos pertencentes a quarenta famílias linguísticas. A publicação do ingente esforço de Nimuendaju, baseado em sua experiência de quarenta anos de trabalho de campo e na consulta a 973 fontes bibliográficas, permitirá uma reavaliação do montante da população nativa brasileira em melhores bases.

De qualquer forma, o vulto do genocídio praticado pela conquista e colonização europeia na América, pelo contágio, muitas vezes proposital, de doenças, da brutalidade da escravidão e das condições de vida impostas aos índios, não tem paralelo em toda a história. Para justificar sua ferocidade, os europeus chegaram a negar a condição de criaturas humanas aos habitantes da América. Foi preciso que uma bula do papa Paulo III, de 9 de junho de 1537, proclamasse os índios "verdadeiros homens e livres".

O testemunho abaixo transcrito, um dos poucos que a etnologia registra, revela a iniquidade da escravidão, tal como a sentiu um asteca de Tlatelolco, México, em 1528:

"Nos puseram preço: preço de jovem, preço de sacerdote,
de criança e de donzela.
Basta: o preço de um pobre
era um punhado de milho.
Dez tortas podres era o nosso preço."

RIBEIRO, Berta. O índio na história do Brasil. São Paulo: Global, 2011. p. 30-33.

NOTA: O texto "Quantos eram os índios do Brasil pré-colombiano" não representa, necessariamente, o pensamento deste blog. Foi publicado com o objetivo de refletirmos sobre a construção do conhecimento histórico.

sexta-feira, 15 de novembro de 2013

Moralidade, direitos humanos, genocídio e justiça

As duas guerras mundiais deram atenção aos extremos do comportamento humano e seus valores e às diferentes interpretações dos "direitos humanos" que as culturas e os governos construíram para promover interesses domésticos ou internacionais. Após a Segunda Guerra Mundial, as organizações dedicadas à paz e à ordem internacional começaram a discutir direitos humanos universais - as necessidades humanas básicas, a dignidade, os direitos de participação e as liberdades. Poderiam as pessoas de perspectivas culturais e políticas vastamente diferentes concordar em uma convenção básica de direitos humanos?

No campo, Felix Nussbaum 

Na onda de extermínio nazista dos judeus, homossexuais, dos ciganos e de outros, uma campanha foi lançada em prol da aceitação universal das leis internacionais que definiam e proibiam o genocídio. Isso foi alcançado em 1948, com a promulgação da Convenção sobre a prevenção e punição do crime de genocídio. Infelizmente, isso não evitou genocídios posteriores, definidos como uma variedade de crimes contra a humanidade, cometidos contra certo grupo alvo nacional, étnico, racial ou religioso. O antigo Estado da Iugoslávia, a Bósnia (local de limpeza étnica, estupros e massacres durante os tempos de guerra); o Camboja (onde o Khmer Vermelho assassinou mais de 1 milhão de compatriotas entre 1975 e 1979); Ruanda (onde pelo menos 1 milhão de tursis foram massacrados, de abril a julho de 1994), e Dafur (um conflito que se iniciou em 2003 e que matou ou ameaçou a sobrevivência de mais de 5 milhões de africanos), são vários dos locais mais recentes de genocídios modernos, desde 1948. Os historiadores também descobriram exemplos históricos dos campos de concentração e de massacres, como os ocorridos na colônia britânica do Quênia, no Congo Belga.


Trailer de corpos em Buchenwald

Guerras globais no século XX resultaram na morte de mais de 100 milhões de pessoas. Enquanto muitas dessas eram baixas de guerra, tanto militares como civis, algumas foram resultado das políticas deliberadas do genocídio. Do massacre de 2 milhões de armênios pelos turcos, em 1915, e dos 15 milhões de judeus, ciganos, eslavos e homossexuais assassinados pelos nazistas durante a Segunda Guerra Mundial, o genocídio foi praticado por governos e por pessoas que carregavam a responsabilidade de executar esses atos de assassinato institucionalizado. Embora o genocídio não tenha sido particular do século XX, a tecnologia o tornou mais eficiente, como podem testemunhar as câmaras de gás nos campos de concentração alemães. Em Auschwitz, até 12 mil vítimas eram mortas diariamente com os gases.

Os julgamentos dos crimes de guerra de Nuremberg e de Tóquio, no final da Segunda Guerra Mundial, tentaram culpar e punir aqueles que transgrediram os limites do comportamento humano civilizado na condução da guerra, como definido pela comunidade internacional em foros como o da Liga das Nações. A convenção de Genebra, por exemplo, estabeleceu regras para o tratamento humano de prisioneiros de guerra, embora ela tenha, mesmo assim, sido violada pelos beligerantes da Segunda Guerra Mundial.

O uso de duas bombas atômicas em Hiroshima e Nagasaki, para causar ostensivamente uma rápida rendição do Japão, levantou questões morais pontuais. Ainda que os números de mortos no holocausto atômico ou no holocausto nazista tenham-se transformado rapidamente em estatísticas estéreis, da mesma forma que os registros fotográficos, por causa de sua própria clareza e objetividade, eles nos tornam familiarizados e confortáveis com as duras realidades da guerra e da crueldade humana. A americana, nascida na Alemanha, filósofa política, Hannah Arendt (1906-1975), escreveu sobre a "banalidade do mal", a ideia de que o mal é um lugar-comum e que tentar defini-lo como algo atípico do comportamento humano não é útil. Mesmo assim, no pós-Segunda Guerra Mundial, embora nem o genocídio nem a guerra tenham acabado em 1945, as pessoas continuaram a questionar a moralidade da guerra, a se opor a ela e a lutar para preveni-la.

[...]

No final do século XIX, o filósofo Friedrich Nietzsche (1844-1900) foi um dos muitos europeus que fizeram previsões sobre a era que se aproximava. Escrevendo em 1888, ele alertou que as vidas no novo século seriam caracterizadas pelo conjunto de guerras catastróficas além da imaginação; pela morte de Deus; e por sentimentos de autorrepugnância, ceticismo, cobiça, ganância e cinismo. Certamente alguns sobreviventes do século XX, veriam a realização das profecias de Nietzsche nas guerras mundiais; o período negro do fascismo; e nas contradições, desigualdades e injustiças exibidas no mundo do século XX. [...]

GOUCHER, Candice; WALTON, Linda. História mundial: jornadas do passado ao presente. Porto Alegre: Penso, 2011. p. 365-366.

sábado, 31 de agosto de 2013

América 3: "Como uns porcos famintos, anseiam pelo ouro"

Códice Durán

Com tiros de arcabuz, golpes de espada e hálitos de peste, acometiam os escassos e implacáveis conquistadores da América. Assim conta a voz dos vencidos. Depois da matança de Cholula, Montezuma enviou novos emissários ao encontro de Hernán Cortez, que avançava rumo ao vale do México. Os enviados presentearam os espanhóis com colares de ouro e bandeiras de penas de quetzal. Os espanhóis "se deleitaram. Como se fossem macacos, sentavam-se com gestos de prazer e levantavam o ouro, como se aquilo lhes renovasse a iluminasse o coração. É certo que desejam aquilo com grande sede. Os corpos deles se incham de uma fome furiosa por aquilo. Como uns porcos famintos, anseiam pelo ouro", diz o texto náhuatl, preservado no Códice Florentino. Adiante, quando Cortez chegou a Tenochtitlán, a esplêndida capital asteca, os espanhóis entraram na casa do tesouro e "logo fizeram uma grande bola de ouro e puseram fogo, incendiando tudo o que restava, por valioso que pudesse ser: e então tudo ardeu. Quanto ao ouro, os espanhóis o reduziram a barras (...)".

Houve guerra, e finalmente Cortez, que perdera Tecnochtitlán, reconquistou-a em 1521, "Já não tínhamos escudos, já não tínhamos bordunas, e nada tínhamos para comer, e nada comíamos." Devastada, incendiada, coberta de cadáveres, a cidade caiu. "E toda a noite choveu sobre nós." A força e o tormento não foram suficientes: os tesouros arrebatados nunca satisfaziam as exigências da imaginação, e durante longos anos os espanhóis escavaram o fundo do lago do México, em busca do ouro e dos objetos preciosos supostamente escondidos pelos índios.

Pedro de Alvarado e seus homens arremeteram contra a Guatemala e "foram tantos os índios mortos que se fez um rio de sangue, que vem a ser o Olimtepeque", e também "o dia se tornou vermelho pela quantidade de sangue que correu naquele dia". Antes da batalha decisiva, "os índios atormentados disseram aos espanhóis que, se não os atormentassem mais, teriam ali muito ouro, prata, diamantes e esmeraldas pertencentes aos capitães Nehaib Isquin e Nehaib feito águia e leão. E logo entregaram tudo aos espanhóis, que com tudo ficaram (...)".

Antes de degolar o inca Atahualpa, Francisco Pizarro arrancou um resgate de "arcas de ouro e prata que pesavam mais de 20 mil marcos de prata fina e um milhão e 326 mil escudos de ouro finíssimo (...)". Depois arremeteu contra Cuzco. Seus soldados acreditavam estar entrando na Cidade dos Césares, tão deslumbrante era a capital do império incaico, mas não demoraram a sair do estupor e começaram a saquear o Templo dp Sol: "Forcejando, lutando uns contra os outros, cada qual querendo levar do tesouro a parte do leão, os soldados, com suas cotas de malha, pisoteavam joias e imagens, golpeavam os utensílios de ouro ou lhes davam marteladas para reduzi-los a um formato menor e portável (...). Atiraram ao forno todo o tesouro do templo para converter o metal em barras: as placas que cobriam os muros, as assombrosas árvores forjadas, pássaros e outros objetos do jardim".

Hoje em dia, no Zócalo - a imensa praça desnuda no centro da capital do México -, a catedral católica se levanta sobre as ruínas do templo mais importante de Tenochtitlán, e o palácio do governo está localizado em cima da residência de Cuauhtémoc, o chefe asteca enforcado por Cortez. No Peru, Cuzco teve sorte parecida, mas os conquistadores não puderam derrubar completamente seus muros gigantescos e hoje ainda se pode ver, ao pé dos edifícios coloniais, o testemunho de pedra da colossal arquitetura incaica.

GALEANO, Eduardo. As veias abertas da América Latina. Porto Alegre: L&PM, 2011. p. 38-39.

sexta-feira, 30 de agosto de 2013

América 2: "Retornavam os deuses com as armas secretas"

Códice Durán

Em sua passagem por Tenerife, durante sua primeira viagem, Colombo presenciara uma erupção vulcânica. Foi como um presságio de tudo o que viria depois nas imensas terras novas que iam interromper a rota ocidental para a Ásia. A América estava ali, adivinhada desde suas suas costas infinitas: a conquista se estendeu em vagalhões, qual maré furiosa. Os chefes militares substituíam os almirantes, e as tripulações se transformavam em hostes invasoras. As bulas do Papa tinham feito apostólica concessão da África para a coroa de Portugal, outorgando à coroa de Castela as terras "desconhecidas como aquelas até aqui descobertas por vossos enviados e aqueloutras que se descobrirão no futuro (...)": a América tinha sido doada à rainha Isabel. Em 1508, uma nova bula concedeu à coroa espanhola, perpetuamente, todos os dízimos arrecadados na América: o cobiçado patronato universal sobre a Igreja do Novo Mundo incluía o direito real de auferir todos os benefícios eclesiásticos.

O Tratado de Tordesilhas, firmado em 1494, permitiu a Portugal a ocupação de territórios americanos além da linha divisória traçada pelo Papa, e em 1530 Martim Afonso de Souza fundou as primeiras povoações portuguesas no Brasil, expulsando os franceses. Já então os espanhóis, cruzando selvas infernais e desertos infinitos, tinham avançado bastante no processo da exploração e da conquista. Em 1513, o Pacífico resplandecia aos olhos de Vasco Nunes de Balboa; no outono de 1522, retornavam à Espanha os sobreviventes da expedição de Fernão de Magalhães, que uniram pela primeira vez os dois oceanos e, ao dar uma volta completa no mundo, constataram que ele era redondo; três anos antes tinham partido de Cuba, na direção do México, as dez naus de Hernán Cortez, e em 1523 Pedro de Alvarado lançou-se à conquista da América Central; Francisco Pizarro entrou triunfalmente em Cuzco em 1533, apoderando-se do coração do império dos incas; em 1540, Pedro de Valdívia atravessava o deserto de Atacama e fundava Santiago do Chile. Os conquistadores penetravam no Chaco e revelavam o Novo Mundo desde o Peru até a foz do rio mais caudaloso do planeta.

Havia de tudo entre os indígenas da América: astrônomos e canibais, engenheiros e selvagens da Idade da Pedra. Mas nenhuma das culturas nativas conhecia o ferro e o arado, o vidro e a pólvora, e tampouco empregava a roda. A civilização que se abateu sobre estas terras, vindas do outro lado do mar, vivia a explosão criadora do Renascimento: a América surgia como uma invenção a mais, incorporada junto com a pólvora, a imprensa, o papel e a bússola ao agitado nascimento da Idade Moderna. O desnível de desenvolvimento dos dois mundos explica em grande parte a relativa facilidade com que sucumbiram as civilizações nativas. Hernán Cortez desembarcou em Veracruz acompanhado de não mais de 100 marinheiros e 508 soldados; trazia 16 cavalos, 32 bestas, dez canhões de bronze e alguns arcabuzes, mosquetes e pistolas. No entanto, a capital dos astecas, Tenochtitlán, era então cinco vezes maior do que Madri e dobrava a população de Sevilha, a maior das cidades espanholas. Francisco Pizarro entrou em Cajamarca com 180 soldados e 37 cavalos.

Os indígenas, no começo, foram derrotados pelo assombro. O imperador Montezuma, em seu palácio, recebeu as primeiras notícias: uma montanha andava a movimentar-se no mar. Depois chegaram outros mensageiros: "(...) muito espanto lhe causou ouvir o tiro de canhão, como retumba seu estrépito e leva as pessoas a desmaiarem, com os ouvidos atordoados. Quando acontece o tiro, uma bola de pedra salta de suas entranhas: sai chovendo fogo (...)". Os estrangeiros traziam "veados" para montar e, montados, ficavam "tão no alto como os tetos". Traziam o corpo coberto, "aparecem só as caras. São brancas, como se fossem de cal. Têm o cabelo amarelo, embora alguns o tenham preto. A barba deles é grande (...)". Montezuma acreditou que era o deus Quetzalcoátl que voltava. Pouco antes, oito presságios tinham anunciado esse retorno. os caçadores lhes haviam trazido uma ave que possuía na cabeça um diadema redondo, com a forma de um espelho, que refletia o céu com o sol já no poente. Nesse espelho Montezuma viu marchar sobre o México os esquadrões de guerreiros. O deus Quetzalcoátl viera pelo leste, e pelo leste tinha ido embora: era branco e barbudo. Também branco e barbudo era Viracocha, o deus bissexual dos incas. E o leste era o berço dos antepassados heroicos dos maias.

Os deuses vingativos que agora regressavam para acertar contas com seus povos traziam armaduras e cotas de malha, reluzentes escudos que devolviam os dardos e as pedras; suas armas expediam raios mortíferos e obscureciam a atmosfera com fumaças irrespiráveis. Os conquistadores praticavam também, com habilidade política, a técnica da traição e da intriga. Souberam explorar, por exemplo, o rancor dos povos submetidos ao domínio imperial dos astecas e as divisões que fragmentavam o poder dos incas. Os tlaxcaltecas foram aliados de Cortez, e Pizarro usou em seu proveito a guerra entre os herdeiros do império incaico, os irmãos inimigos Huáscar e Atahualpa. Os conquistadores granjearam cúmplices entre as classes dominantes intermediárias, sacerdotes, funcionários, militares, uma vez abatidas, criminosamente, as chefias indígenas mais altas. Mas também usaram outras armas ou, se preferirmos, outros fatores trabalharam objetivamente para a vitória dos invasores. Os cavalos e as bactérias, por exemplo.

Os cavalos, como os camelos, eram originários da América, mas se extinguiram nestas terras. Introduzidos na Europa pelos cavaleiros árabes, tiveram no Velho Mundo imensa serventia militar e econômica. Ao reaparecerem na América, através da conquista, colaboraram para a atribuição de forças mágicas aos invasores ante os olhos atônitos dos indígenas. Segundo uma versão, o inca Atahualpa caiu de costas quando viu chegar os primeiros soldados espanhóis, montados em briosos cavalos ornados de guizos e penachos que corriam desencadeando tropéis e polvadeira. O cacique Tecum, à frente dos herdeiros dos maias, decapitou o cavalo de Pedro de Alvarado, convencido de que fazia parte do conquistador: Alvarado se ergueu e o matou. Escassos cavalos, cobertos de arreios de guerra, dispersaram as massas indígenas e semearam o terror e a morte. "Os padres e os missionários espalharam na fantasia vernácula", durante o processo colonizador, "que os cavalos eram de origem sagrada, já que Santiago, o padroeiro da Espanha, montando um potro branco, vencera importantes batalhas contra mouros e judeus, com a ajuda da Divina Providência".

Bactérias e vírus foram os aliados mais eficazes. Os europeus traziam, como pragas bíblicas, a varíola e o tétano, várias enfermidades pulmonares, intestinais e venéreas, o tracoma, o tifo, a lepra, a febre amarela, as cáries que apodreciam as bocas. A varíola foi a primeira a aparecer. Não seria um castigo sobrenatural aquela epidemia desconhecida e repugnante que provocava a febre e descompunha a carne? "Lá foram se meter em Tlaxcala", narra um testemunho indígena, "então se espalhou a epidemia: tosse, grãos ardentes, que queimam". E outro: "A muitos deu morte a pegajosa, pesada, dura doença dos grãos". Os índios morriam como moscas; seus organismos não opunham resistência às novas enfermidades, e os que sobreviviam ficavam debilitados e inúteis. O antropólogo brasileiro Darcy Ribeiro estima que mais da metade da população aborígene da América, Austrália e ilhas oceânicas morreu contaminada logo ao primeiro contato com os homens brancos.

GALEANO, Eduardo. As veias abertas da América Latina. Porto Alegre: L&PM, 2011. p.34-38.

quinta-feira, 29 de agosto de 2013

América 1: "Os signos da cruz nas empunhaduras das espadas"

Códice Durán

Quando Cristóvão Colombo se abalançou a atravessar os grandes espaços vazios a oeste do Ecúmeno, ele aceitaria o desafio das lendas. Tempestades terríveis sacudiram suas ruas como se fossem cascas de nozes e as lançariam na boca dos monstros, e a grande serpente dos mares tenebrosos, faminta de carne humana, estaria à espreita. Faltavam só mil anos para que as chamas purificadoras do Juízo Final arrasassem o mundo, segundo acreditavam os homens do século XV, e o mundo era então o mar Mediterrâneo com seu litoral de ambígua projeção para a África e o Oriente. Os navegadores portugueses asseguravam que o vento do oeste trazia cadáveres estranhos e às vezes arrastava toras curiosamente talhadas, mas ninguém suspeitava de que sem demora o mundo seria assombrosamente multiplicado.

A América não só carecia de nome. Os noruegueses não sabiam que a tinham descoberto já fazia tempo, e o próprio Colombo morreu ainda convencido de que havia alcançado a Ásia pelas costas. Em 1492, quando a bota espanhola enterrou-a pela primeira vez nas areias das Bahamas, o almirante acreditou que essas ilhas eram as sentinelas avançadas do Japão. Colombo levava consigo um exemplar do livro de Marco Polo, coberto de anotações nas margens das páginas. Os habitantes de Cipango, dizia Marco Polo, "possuem ouro em enorme abundância, e as minas onde o encontram jamais se esgotam (...). Também há nesta ilha pérolas do mais puro brilho em grande quantidade. São rosadas, redondas, de tamanho grande, e superam em valor as pérolas brancas". A riqueza de Cipango chegara aos ouvidos do Grande Khan Kubilai, tinha despertado em seu peito o desejo de conquistá-la: ele fracassara. Das fulgurantes páginas de Marco Polo alçavam voo todos os bens da criação; havia quase treze mil ilhas no mar da Índia, com montanhas de ouro e pérolas, e doze tipos de especiarias em imensas quantidades, além das pimentas branca e preta. A pimenta, o gengibre, o cravo-da-índia, a noz-moscada e a canela eram tão cobiçadas quanto o sal para conservar a carne no inverno sem que se deteriorasse ou perdesse o sabor. Os reis católicos da Espanha decidiram financiar a aventura do acesso direto às fontes, para livrar-se da onerosa cadeia de intermediários e revendedores que monopolizavam o comércio das especiarias e das plantas tropicais, das musselinas e das armas brancas que provinham de misteriosas regiões do Oriente. O anseio de metais preciosos, a moeda de pagamento no tráfico comercial, também impulsionou a travessia dos mares malditos. A Europa inteira precisava de prata; estavam já quase exauridos os filões da Boêmia, da Saxônia e do Tirol.

A Espanha vivia o tempo da reconquista. O ano de 1492 não foi apenas o ano do descobrimento da América, o novo mundo nascido daquele equívoco de grandiosas consequências. Foi também o ano da recuperação de Granada. Fernando de Aragão e Isabel de Castela, que com o casamento tinham evitado o desmonte de seus domínios, no princípio de 1492 eliminaram o último reduto da religião muçulmana em solo espanhol. Custara quase oito séculos a retomada daquilo que fora perdido em sete anos, e as despesas da campanha tinham esgotado o tesouro real. Mas esta era uma guerra santa, a guerra cristã contra o Islã, e não é casual, de resto, que no mesmo ano de 1492, 150 mil judeus declarados tenham sido expulsos do país. A Espanha adquiria realidade como nação, erguendo espadas cujas empunhaduras traziam o signo da cruz. A rainha Isabel fez-se madrinha da Santa Inquisição. A façanha do descobrimento da América não poderia se explicar sem a tradição militar da guerra das cruzadas que imperava na Castela medieval, e a Igreja não se fez de rogada para atribuir caráter sagrado à conquista de terras incógnitas do outro lado do mar. O papa Alexandre VI, que era valenciano, converteu a rainha Isabel em dona e senhora do Novo Mundo. A expansão do reino de Castela ampliava o reino de Deus sobre a terra.

Três anos depois do descobrimento, Cristóvão Colombo, pessoalmente, comandou uma campanha militar contra os indígenas da Dominicana. Um punhado de cavaleiros, 200 infantes e uns quantos cães especialmente adestrados para o ataque dizimaram os índios. Mais de 500, enviados para a Espanha, foram vendidos como escravos em Sevilha e morreram miseravelmente. No entanto, alguns teólogos protestaram, e a escravização dos índios foi formalmente proibida no século XVI. Na verdade, não foi proibida, foi abençoada: antes de cada ação militar, os capitães da conquista deviam ler para os índios, na presença de um tabelião, um extenso e retórico Requerimento que os exortava à conversão à santa fé católica: "Se não o fizerdes, ou se o fizerdes maliciosamente, como dilação, certifico-vos que, com a ajuda de Deus, agirei poderosamente contra vós e vos farei guerra da maneira que puder em todos os lugares, submetendo-vos ao jugo e à obediência da Igreja e de Sua Majestade, e tomarei vossas mulheres e vossos filhos e vos farei escravos e como tais sereis vendidos, dispondo de vós como Sua Majestade ordenar, e tomarei vossos bens e farei contra vós todos os males e danos que puder (...)".

A América era um vasto império do Diabo, de redenção impossível ou duvidosa, mas a fanática missão contra a heresia dos nativos se confundia com a febre que, nas hostes da conquista, era causada pelo brilho dos tesouros do Novo Mundo. Bernal Díaz del Castillo, soldado de Hernán Cortez, escreve que eles chegaram à América "para servir a Deus e a Sua Majestade, e também por haver riquezas".

Ao alcançar o atol de San Salvador, Colombo deslumbrou-se com a colorida transparência do Caribe, a verdejante paisagem, a doçura e a limpeza do ar, os pássaros esplêndidos e os jovens "de boa estatura, gente mui formosa" e "muito mansa" que ali habitava. Presenteou os indígenas com "alguns gorros vermelhos e umas contas de vidro que eles colocavam no pescoço, e muitas outras coisas de pouco valor com as quais ficaram contentes e tão nossos que era uma maravilha". Mostrou-lhes as espadas. Não as conheciam, seguravam-nas pelo fio e se cortavam. Entrementes, conta o almirante em seu diário de bordo, "eu estava atento e trabalhava para saber se havia ouro, e vendo que alguns deles traziam um pedacinho enfiado no buraco que tinham no nariz, por gestos pude me informar que, indo para o sul ou contornando a ilha pelo sul, encontraria um rei que possuía grandes vasos daquilo, e em grande quantidade". Porque "do ouro se faz tesouro, e quem o tem faz o que quiser do mundo e até leva as almas para o Paraíso". Em sua terceira viagem, ao abordar a costa da Venezuela, Colombo ainda supunha que andava no mar da China; isto não o impediu de informar que dali se estendia uma terra infinita que subia até o Paraíso Terrestre. Também Américo Vespúcio, explorador do litoral do Brasil na alvorada do século XVI, relataria a Lorenzo de Médicis: "As árvores são de tanta beleza e tanta brandura que nos sentíamos como se estivéssemos no Paraíso Terrestre (...)". Com pesar, Colombo escrevia aos reis em 1503, da Jamaica: "Quando descobri as Índias, disse que eram o maior domínio rico que há no mundo. Disse do ouro, pérolas, pedras preciosas, especiarias (...)".

Na Idade Média, uma bolsa de pimenta valia mais do que a vida de um homem, mas o ouro e a prata eram as chaves que o Renascimento usava para abrir as portas do Paraíso no céu e as portas do mercantilismo capitalista na Terra. A epopeia de espanhóis e portugueses na América combinou a propagação da fé cristã com a usurpação e o saque das riquezas indígenas. O poder europeu se irradiava para abraçar o mundo. As terras virgens, densas de selvas e perigos, instigavam a cobiça de capitães, cavaleiros fidalgos e soldados em farrapos, que se lançavam à conquista de espetaculares butins de guerra: acreditavam na glória, "o sol dos mortos", e na audácia. "Os ousados a fortuna ajuda", dizia Cortez. O próprio Cortez havia hipotecado todos os seus bens pessoais para equipar a expedição do México. Salvo raras exceções, como foi o caso de Colombo e Magalhães, as aventuras não eram custeadas pelo Estado, mas pelos próprios conquistadores ou por mercadores e banqueiros que os financiavam.

Nasceu o mito do Eldorado, o rei banhado em ouro que os indígenas inventaram para afastar os intrusos: de Gonzalo Pizarro a Walter Raleight, muitos o perseguiram em vão nas florestas e nas águas do Amazonas e do Orinoco. A quimera do "monte que manava prata" se tornou realidade em 1545, com o descobrimento de Potosí, mas antes já haviam morrido, vencido pela fome, pelas doenças ou atravessados por flechas indígenas, muitos dos expedicionários que, subindo o rio Paraná, tentaram infrutiferamente alcançar o manancial de prata.

Havia, sim, ouro e prata em grande quantidade, acumulados na meseta do México e no altiplano andino. Hernán Cortez revelou para a Espanha, em 1519, a fabulosa magnitude do tesouro asteca de Montezuma, e depois chegou a Sevilha o gigantesco resgate, um aposento cheio de ouro e prata, que Francisco Pizarro fez o inca Atahualpa pagar antes de degolá-lo. Anos antes, com o ouro arrebatado às Antilhas, a Coroa já havia pago os serviços dos marinheiros que acompanharam Colombo em sua primeira viagem. Finalmente, a população das ilhas do Caribe deixou de pagar tributos, pois desapareceu: os indígenas foram completamente exterminados nas lavagens do ouro, na terrível tarefa de revolver as areias auríferas com a metade do corpo debaixo d'água, ou lavrando os campos até a exaustão, com as costas dobradas sobre pesados instrumentos de arar trazidos da Espanha. Muitos indígenas da Dominicana se antecipavam ao destino imposto por seus novos opressores brancos: matavam seus filhos e se suicidavam em massa. O cronista oficial Fernandez de Oviedo assim interpretava, em meados do século XVI, o holocausto dos antilhanos: "Muitos deles se matavam com veneno para não trabalhar, e outros se enforcavam com as próprias mãos".

GALEANO, Eduardo. As veias abertas da América Latina. Porto Alegre: L&PM, 2011. p. 29-34.

domingo, 26 de agosto de 2012

Reflexão sobre o choque de épocas no século XX


No vagão, Joel Kass

Desde os tempos mais recuados, os homens mostraram-se capazes de criações admiráveis. Mas cometeram os crimes mais odiosos. Os mais fortes dominaram os mais fracos. Homens reduziram à escravatura e massacravam outros homens, mulheres e crianças. E para mais, há só dois séculos que se impôs pouco a pouco a ideia de que todos os seres humanos, não importa a sua origem, a cor do rosto ou as suas crenças, têm o mesmo direito à vida, à justiça e ao respeito.

No entanto, no século XX, as guerras tornaram-se mundiais, milhões de pessoas foram e continuam a ser assassinadas através de terríveis genocídios. A tentativa de Hitler de exterminar de um modo organizado e industrial todos os judeus da Europa é como que um auge do Mal na História.

Pode-se tentar compreender como forças más, vindas de todas as épocas, se reuniram na Shoah, e como estas continuam a circular entre nós.

Massacre, Joel Kass

[O que é um ser humano?] Durante milhares de anos, para o membro de uma tribo, de uma aldeia, o "homem", o ser humano, era aquele que vivia como ele próprio, a seu lado, e que tinha a mesma língua e os mesmos hábitos. Em muitas tribos a palavra "homem" designava os membros do grupo. Aos das outras tribos, ou das aldeias longínquas, não chamavam "homens", mas "malvados", "maus", ou ainda "macacos de terra", "ovos de piolhos"...! O estrangeiro era também um "fantasma", uma "aparição".

Para os gregos, os "bárbaros" (barbaroi) eram os estrangeiros. Aqueles cuja língua se não percebia. E o filósofo Aristóteles escrevia que os bárbaros tinham nascido para ser escravos.

A entrada para o forno, Joel Kass 

[A divisão dos homens] Durante a Antiguidade, os que eram ricos, os que tinham o poder, os que conheciam a escrita e eram instruídos foram, por todo o lado, apenas um pequeno número de homens (quase não houve mulheres) entre a multidão de pessoas. Na Europa, a cristandade tinha-se organizado em torno das "ordens": os homens da Igreja, os senhores e os trabalhadores.

Os "instruídos" ignoravam ou desprezavam aqueles que designavam como "vilões", ou seja, os que trabalhavam com as mãos. No entanto, era esse mesmo trabalho que alimentava os instruídos, que os vestia, e esses trabalhos manuais também exigiam saber. Mas, na cabeça dos poderosos, havia, contudo, o alto e o baixo, os homens que acreditavam ser superiores e os inferiores.

Na Índia, a sociedade também estava dividida em castas. Nas cidades do mundo muçulmano havia pobres e ricos, letrados e mendigos. Mas não havia "ordens" como na cristandade.

Em frente do forno, Joel Kass

[A rejeição dos homens "selvagens"] Na Idade Moderna, depois da "descoberta" da América e dos "índios" a que os europeus chamaram "selvagens", os espanhóis enviaram comissões de inquérito às Antilhas para se certificarem se os habitantes possuíam, ou não, uma alma. Quanto aos antilhanos, estes observavam os cadáveres dos brancos para verem se estes apodreciam como os seus. O cristianismo tinha afirmado que todos os homens descendiam de Adão, logo de Noé, após o Dilúvio. Os cristãos podiam pensar, assim, que os homens formavam uma única grande "família". Mas eles justificaram a escravatura dos negros dizendo que estes descendiam de Cham, o filho maldito de Noé.

Carregando o morto, Joel Kass

[Diferentes, logo inferiores] Durante a grande rearrumação de ideias nos princípios da Idade Moderna, pôs-se o problema de saber se os índios da América também descendiam de Adão e a que filho de Noé ligar a sua ascendência. Alguns de entre os homens das Luzes punham em questão a autoridade da Bíblia. Mas todos estavam preocupados com o problema dos negros. Muitos pensavam que os "negros" (palavra inventada no século XVI) eram inferiores aos brancos. Na sua discussão, utilizavam também uma palavra nova, raça. Eles deram-lhe então, mais ou menos o mesmo sentido que nação, tal como esta era compreendida na Antiguidade, dado que aplicavam a noção de raça a todos aqueles que descendiam de uma mesma família, de um mesmo povo. A ideia dos direitos do homem foi contrariada pelo racismo e pelo anti-semitismo, quando estes apareceram na Europa do século XIX, entre certos escritores franceses, alemães e austríacos.

O Iluminismo conduziu às afirmações dos revolucionários americanos, depois às dos revolucionários franceses sobre a igualdade entre os homens. No entanto, foi na Época das Luzes que começou a espalhar-se a ideia de desigualdade entre as raças, totalmente contrária aos direitos do homem, e os europeus afirmaram a sua pretendida superioridade sobre os outros.

Crucificado, Joel Kass

[Ciência, raça e racismo] Durante todo o século XIX, utilizou-se muito a palavra "raça" dando-lhe um sentido novo, um sentido "biológico". A ciência tinha-se desenvolvido. Alguns sábios tinham-se lançado em cálculos, mediam os crânios dos humanos para daí deduzirem a inteligência de cada um e comparavam as cores da pele. Outros estudavam as línguas. O francês Ernest Renan, que tinha muita influência, afirmava que, entre os brancos, havia dois grandes grupos de línguas, logo, de "raças": os arianos (os germanos e os celtas) e os semitas (os árabes e, sobretudo, os judeus). A "raça ariana" dizia ele, seria o futuro da humanidade, enquanto a "raça semita" - ele também falava de "raça judaica" - tinha o cérebro atrofiado.

Na Antiguidade, os cristãos tinham perseguido os judeus porque estes eram "infiéis". Na Idade Moderna, o anti-semitismo entroncou no antijudaísmo cristão. O anti-semitismo tornou-se algo de diferente porque se misturou com o racismo e com certas formas de nacionalismo.

Velhas memórias, Joel Kass

[Como o racismo e o anti-semitismo se misturaram com o nacionalismo] Depois da Revolução Francesa, os judeus tornaram-se cidadãos como os outros. Participavam nas eleições e no grande desenvolvimento da indústria. O anti-semitismo apoiava-se nos sábios que pretendiam que as raças não eram iguais. Os anti-semitas diziam que os judeus eram uma "raça" diferente das outras, má e prejudicial.

O nacionalismo era uma espécie de nova religião. Era acreditar não somente que a nação era superior a tudo, mas que esta deveria ser pura, e que estava "manchada" pela presença dos judeus e dos estrangeiros. Na França, os manuais de história, que asseguravam que todos os franceses descendiam dos gauleses, desenvolveram assim o nacionalismo através da ideia falsa de que os verdadeiros franceses, os franceses de cepa, descendiam apenas dos "gauleses".

[...]

[...] Desde o século XIX até a Segunda Guerra Mundial, muitos estrangeiros tinham imigrado para França. Alguns tinham vindo para trabalhar, outros, nomeadamente os judeus da Europa central, tinham fugido a perseguições nos seus países. Entre as duas guerras, alguns jornais franceses estavam cheios de insultos anti-semitas e xenófobos (contra os estrangeiros). Foram esses jornais e essas pessoas que, mais tarde, "colaboraram" com Hitler durante a Ocupação e aprovaram as suas acções contra os judeus.

O anti-semitismo conduzira Hitler e os nazis a essa loucura criminosa de que Auschwitz é bem o símbolo.

[...]

Desde o Paleolítico que os homens foram migrantes. As migrações continuarão e acelerar-se-ão no século XXI porque o mundo, na Idade Electrónica, é uma aldeia planetária onde toda a gente comunica, mesmo que as fronteiras existam e mesmo que continuem absurdas guerras para a defesa de algumas delas.

[...]

CITRON, Suzanne. A História dos Homens. Lisboa: Terramar, 1999. p. 321-325, 328, 331.

quinta-feira, 31 de maio de 2012

Morte e Guerra Fria

A bela cidade de Dresden (Alemanha), referência universal da cultura, foi destruída em poucas horas por um intenso e cruel bombardeio aéreo decretado pelos aliados anglo-saxões.

O mundo desenhado nas conferências de Yalta e Potsdam manteve-se por mais de quarenta anos. Somente com a queda do muro de Berlim, em novembro de 1989, as fronteiras delimitadas por Churchill, Roosevelt (depois Truman) e Stalin foram rompidas. À guerra quente sucedeu-se por quatro décadas a Guerra Fria, o choque entre duas concepções de mundo e duas fontes de poder, Washington e Moscou.

O comunismo triunfava no leste da Europa e na Ásia (com a vitória de Mao Tsé-tung na China em 1949, sobre os nacionalistas de Chiang Kai-chek). A Europa ocidental, as Américas e o Japão eram mantidos sob o controle político e econômico norte-americano, fortalecido pelo uso - e pela posse exclusiva até 1949 - da arma final, a bomba atômica. O Exército Vermelho de um lado e os B-29 do outro marcavam a geografia do mundo.

Cabe perguntar: o que, passados cinquenta anos, nos ficou da guerra? Ficaram a divisão em dois mundos, que afetaria a vida de todo o planeta nesse período, o quase conflito total entre as duas novas superpotências, Estados Unidos e União Soviética, e criação da ideia de conflitos localizados (como as guerras da Coréia e do Vietnã). O mundo do pós-guerra também assistiu ao fim do colonialismo, ao surgimento de dezenas de novos países na África e à eclosão de revoluções e golpes de Estado em quase todos os países da periferia do sistema econômico.

O ano de 1945 deixou também a triste memória do genocídio: depois da descoberta dos campos de extermínio e do julgamento de seus responsáveis, a inocência ética que fizera convenções e mais convenções para criar uma guerra mais "humana" era coisa do passado. O Holocausto não foi a única marca da vergonha absoluta de nosso século, porém. Os cogumelos atômicos de Hiroshima e Nagasaki deixaram à sombra também a consciência dos cientistas. O conhecimento absoluto trouxe a arma absoluta.

Hiroshima, 6 de agosto de 1945, 8h 15, bomba atômica.

Finalmente, o pós-guerra gerou nova divisão do mundo em dois blocos: aquele dos países ricos e o resto. Os países comunistas tentaram durante algum tempo romper esse dualismo, mas finalmente cederam. O desenvolvimento das forças industriais, da comunicação de massa e da sociedade de consumo tornou-se a linha geral da condução do mundo. O Estado de bem-estar social e o American way of life - a ideia de que é possível uma vida de conforto material ilimitado, baseada na competição entre os agentes do mercado - acabaram triunfando. Os soldados norte-americanos levavam a Coca-Cola em suas mochilas. O dólar passou a ser moeda universal, e o inglês, língua de uso corrente.

Com a entrada de milhões e milhões de mulheres no sistema produtivo, substituindo os homens que estavam nos campos de batalha, a face da sociedade mudou. A liberação sexual, a mudança nos hábitos de consumo, as mudanças na família e, principalmente, a velocidade no ritmo das mudanças, tanto sociais quanto técnicas, são fruto da guerra.

O conflito deixou também alguns instrumentos de controle mundial que adquiriram mais força recentemente. O principal instrumento político foi a Organização das Nações Unidas, criada em 1945, que serviu durante décadas de local para o confronto - e a diplomacia - entre União Soviética e Estados Unidos - e agora passou a ser palco das decisões geopolíticas globais. O Fundo Monetário Internacional (FMI), outro produto da guerra, moldou e molda a vida de milhões de pessoas, principalmente nos países economicamente mais atrasados e endividados. A Europa, berço das duas guerras mundiais do século XX, resolveu se unir num grande mercado comum, e agora, numa comunidade das nações (a União Europeia), apesar da manutenção dos ódios raciais e nacionalismos.

No que diz respeito às consequências militares, o conceito de guerra mudou. Até 1939 pensava-se mais no poder de fogo das armas, do que na capacidade de enviar suprimentos para as forças em conflito. Os generais mais prestigiados eram os comandantes de tropa; em 1945, o mais importante general em ação, Eisenhower, era um homem de gabinete, especializado em coordenar esforços para ganhar uma guerra. A guerra moderna implicava no triunfo logístico de um país sobre o outro. Os deuses da guerra não sorriam mais somente para os guerreiros corajosos; preferiam agora a quantidade de tanques.

A característica central da guerra, além dos aspectos puramente militares, foi justamente seu caráter mundial. Depois dela, todas as relações políticas e econômicas do planeta passaram a ser vistas, com clareza, como relações globais, que envolviam a todos.

Manifestação neonazista do Partido Jobbik (Hungria) que defende campos de concentração para os ciganos

Antes da Segunda Guerra Mundial, os homens podiam se considerar seguros se vivessem longe dos locais do conflito. Depois dela, como disse um escritor judeu, onde é possível esconder-se? Muitos acharam que os horrores de Treblinka e Dachau [campos de concentração dos nazistas alemães] eliminariam o preconceito e o racismo do mundo. O ressurgimento da xenofobia na Europa e na Alemanha reunificada mostra que a previsão foi no mínimo ingênua, que muitas das razões profundas desse ódio permanecem. A guerra nos deixou esse legado. Não há como fugir dela, num mundo cada vez mais único e globalizado. Depois de 1945, em certo sentido, todas as guerras são mundiais.

CHIARETTI, Marco. A Segunda Guerra Mundial. São Paulo: Ática, 1997. p. 67-68.

domingo, 27 de maio de 2012

Passado Presente: 2ª Guerra Mundial, revisionismo e neonazismo

"Cada homem, cada criança é hoje um sujeito social que, para se posicionar no universo, tem necessidade de se entender como resultado insubstituível de sequências e de misturas, de continuidades, de recuos e de avanços, de dominâncias e de fraternidades, de vida e de morte."
(Suzanne Citron, historiadora)

Pichação neonazista no muro do hospital Emílio Ribas (São Paulo)

Texto 1.  


"Quando certa manhã Gregor Samsa 
acordou de sonhos intranquilos, 
encontrou-se em sua cama
metamorfoseado em
um inseto monstruoso." 
(Franz Kafka, A metamorfose)

O escritor judeu-tcheco Franz Kafka morreu em 1924. Bem antes da eclosão da Segunda Guerra Mundial. Mas seu livro A metamorfose parece uma impressionante intuição do que estava por ocorrer. O mundo, como o personagem Gregor Samsa, despertou na Segunda Guerra Mundial (1939-1945) transformado numa gigantesca e horrível barata, depois de duas décadas de sonhos intranquilos. Em seis anos, o fogo da guerra exterminou 45 milhões de pessoas e destruiu a falsa imagem de paz criada após a Primeira Guerra Mundial (1914-1918).

Os traumas não resolvidos da Primeira Guerra Mundial permitiram que o nazismo, um movimento que parecia ridículo em seu nascimento, chegasse ao poder com mão de ferro na Alemanha, o país mais desenvolvido da Europa. E daí, valendo-se da falta de audácia das potências democráticas, incendiasse o mundo. No final de doze anos de regime nazista e seis anos de guerra, povos e grupos inteiros - judeus, ciganos, homossexuais, deficientes físicos e mentais - haviam sido quase dizimados, pelo simples crime de terem nascido. Milhões de prisioneiros de guerra soviéticos morreram de fome em campos de concentração alemães. A Alemanha estava destroçada. O Japão via seus sonhos de tornar-se o senhor da Ásia sumirem na fumaça de duas bombas atômicas lançadas por aviões americanos. E o mundo redesenhado pelas duas superpotências vencedoras - a União Soviética e os Estados Unidos - duraria até a queda do Muro de Berlim, em 1989, e o "suicídio" da União Soviética, dois anos depois.

[...]

Quando a geração de nossos pais e avós acabou de comemorar o fim do mais terrível conflito da História, restavam duas perguntas no ar: Quem pagaria pelos crimes de uma guerra em que morreram 45 milhões de pessoas - vinte milhões de soviéticos, seis milhões de judeus, seis milhões de poloneses e 4,5 milhões de alemães? E o que seria feito para impedir uma nova guerra, ainda mais mortífera?

Os nazi-fascistas, é claro, foram considerados os grandes responsáveis pela guerra. Em 1946, os Aliados organizaram um grande julgamento em Nuremberg. Hitler e Goebbels e o comandante das SS, Heinrich Himmler, haviam se suicidado. Mas o tribunal julgou líderes de importância, como Hermann Goering. Condenado à morte, ele se suicidou pouco antes de ser enforcado. Outras 25 personalidades do regime, igualmente condenados, foram executadas. Julgamentos realizados em Varsóvia e Praga também condenaram antigas autoridades de ocupação.


Julgamento de Nuremberg

Milhares de oficiais e burocratas do nazismo, que haviam sido presos pelos Aliados, foram inocentados. Os vencedores da guerra tinham pressa em reconstruir os países da Europa como democracias capitalistas, evitando o avanço do comunismo pró-soviético. Quem assumiria os novos postos de importância, senão os sobreviventes do regime destruído?

Empresas alemãs que utilizaram o trabalho escravo de mais de sete milhões de estrangeiros - na maioria vindos do Leste europeu - continuam ganhando dinheiro até hoje. Quanto ao Japão, nunca passaram pelos tribunais aqueles que ordenaram e executaram o extermínio de milhares de chineses, malaios e birmaneses durante a ocupação.

Se tantos crimes dos perdedores da guerra sumiram como fumaça no processo de reconstrução após a guerra, que dizer das barbaridades cometidas pelos Aliados? Não aconteceu como nos filmes que mostram bandidos alemães e japoneses lutando contra os mocinhos aliados. Em um conflito - ainda mais desse porte - a fronteira entre mocinhos e bandidos às vezes é difícil de definir. Os americanos utilizaram bombas incendiárias nos bombardeios às cidades japonesas, aproveitando o fato de que a maioria das casas eram construídas de madeira. Quantos civis morreram nesses ataques? E nos grandes bombardeios aliados às cidades de Dresden e Colônia (esta sem nenhum objetivo militar)? E como esquecer o lançamento das bombas atômicas contra Hiroshima e Nagasaki?


90% do centro da cidade de Dresden foi destruído

Há quem diga que guerra é guerra, vale tudo. Outros afirmarão que cometeram crimes horrorosos apenas porque seus chefes ordenaram. Afinal, homens normais, que adoravam seus filhos, cuidavam de animais e davam dinheiro a campanhas de caridade transformaram-se em verdadeiros monstros. Resta saber se as horríveis condições da guerra criaram esses monstros, ou apenas os libertaram de dentro da fachada "civilizada" do homem.

[...]

O fim dos regimes socialistas de partido único parecia consolidar de vez a democracia. Nazismo e fascismo soavam como sombra de um passado esquecido. Mas as aparências enganam. O fim do comunismo fez vir à tona grupos neonazistas, em especial nos antigos países socialistas, como a Rússia, a Romênia e a Alemanha Oriental. Esses grupos defendiam a volta à "era de ouro de Hitler", para populações desesperadas com a perda do emprego garantido e das expectativas de futuro, após o colapso do comunismo. O alvo dos porretes e coquetéis molotov dessa nova extrema direita não eram tanto os judeus e sim os imigrantes de países como o Marrocos e a Turquia. O argumento dos racistas era que esses "sub-homens" roubaram empregos dos europeus. Bobagem, porque em geral os estrangeiros aceitam submeter-se a trabalhos pesados, aos quais os "nacionais" não se sujeitam. Mas em tempo de crise, essa arenga racista convenceu muita gente.

Na Iugoslávia, onde o fim do comunismo deu origem a uma sangrenta guerra civil, generalizou-se a "limpeza étnica". Os sérvios, majoritários na Bósnia-Herzegovina, passaram a tentar eliminar os bósnios muçulmanos dessa república. Nada mais parecido com a "solução final" dos nazistas.

Na esteira da falência do comunismo e de outras propostas de esquerda, também ganharam força os escritores revisionistas, que negam os crimes de Hitler e seus comparsas. Aqui no Brasil, o gaúcho S. E. Castan, em seu livro Holocausto, judeu ou alemão?, nega o morticínio de judeus. Auschwitz e Treblinka, em suas palavras, transformaram-se quase em campos de veraneio.

Destruir a memória é o primeiro passo para a repetição de antigos crimes, e contra isso devemos estar sempre atentos. Este texto começou com uma citação de A metamorfose, de Franz Kafka. E vai terminar com outro trecho de Kafka, do livro A colônia penal. Nele, o autor fala sobre uma prisão tropical, cujo comandante acredita na tortura e no assassinato como formas de impor a disciplina, acima de tudo - até da própria inocência do condenado. O comandante morre e, em seu túmulo, é inscrita a seguinte frase:


Meu princípio é este:
a culpa é sempre
indubitável. Crede
e esperai. O antigo
comandante retornará...

BRENER, Jaime. A Segunda Guerra Mundial: o planeta em chamas. São Paulo: Ática, 2005. p. 4, 58-59, 62-63. (Col. Retrospectiva do Século XX.)

Texto 2. 

[...] A crise e a chegada dos estrangeiros despossuídos impulsionaram os perigosos sentimentos de racismo e intolerância, que se transformam em neofascismo e neonazismo. [...]

Os governos da Comunidade Europeia endureceram suas leis de imigração, assustados com o avanço eleitoral dos partidos de direita, que insistem na tecla de uma "invasão bárbara". Ciganos, turcos, africanos, asiáticos, latinos, todos "miseráveis" e "mal-educados", estariam pondo em perigo a alta civilização europeia. [...]

Os preceitos das "tribos" do mal chegam ao Brasil em segunda mão, numa versão absolutamente perversa, como só poderia ser. E inventa-se até uma "raça" onde ela não existe, ao inserir-se no cardápio de exclusões os nordestinos que migram para o Sul em busca de trabalho. Filhos da baixa classe média ou operários, os "carecas" brasileiros, como os alemães, "atacam os que têm menos ainda". [...]

Os neonazistas podem estar mais organizados e estruturados em todo o mundo do que há uma década, mas ainda assim não passam de pequenos grupos, se comparados às demais forças políticas nos respectivos países onde atuam. Mas nem por isso são menos perigosos. Sobretudo se levarmos em conta que constituem parte de uma realidade histórica e filosófica muito mais ampla. Uma realidade de intolerância, de rejeição às diferenças [...].

SALEM, Helena. As tribos do mal: o neonazismo no Brasil e no mundo. São Paulo: Atual, 1995. p. 81-3.

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

A sociedade norte-americana no século XIX: a conquista do espaço físico

Um grupo sioux, Charles Deas

[...] em menos de 50 anos, os norte-americanos duplicaram a extensão de seus territórios.

[...] a expansão para o Oeste empurrou as fronteiras dos Estados Unidos da América das margens do Rio Mississipi para o litoral do Oceano Pacífico.

Os homens que realizaram a conquista dessas terras foram chamados de pioneiros (homens das fronteiras).

E quem eram os pioneiros?

As mais diversas pessoas. Havia condutores de mulas, que levavam mantimentos, armas, quinquilharias para os acampamentos e povoados que se formavam; caçadores de peles, independentes ou trabalhando para companhias, conduzindo suas barcaças rio acima ou rio abaixo. Rancheiros e vaqueiros, guiando milhares de cabeças de gado bovino em busca de campos de pastagens; comerciantes de uísque, de rifles e artigos diversos, geralmente montados a cavalo e conduzindo dois animais de carga com suas mercadorias; guias e trilhadores à frente de extensas filas de carroças, pesadas ou leves, em cujas boléias sentavam carroceiros profissionais ou amadores. Alguns dos guias se tornaram famosos, virando personagens de histórias em quadrinhos ou películas cinematográficas. Foi o caso de Kit Carson e, sobretudo, Buffalo Bill, nome pelo qual se tornou conhecido William Frederick Cody.

J. W. Swart Saloon (Charleston, Arizona, 1885)

A descoberta do ouro, no Colorado ou na Califórnia, atraiu milhares de aventureiros: em meio a mineradores, também chegaram vigaristas baratos, jogadores, prostitutas caras, comerciantes arruinados... Lado a lado com aproveitadores do Leste, conviviam mineradores profissionais, barbudos, fedorentos pela falta de banho e por vestirem roupas de peles não curtidas.

Corrida do Ouro (Califórnia, 1850)

Até mórmons polígamos participaram da Marcha para o Oeste. Chegaram a formar o Batalhão Mórmon, integrado por 500 homens, usado para conquistar a Califórnia. Com o dinheiro apurado, puderam financiar a ida de colonos para a bacia do Grande Lago Salgado.

Mas não foram apenas aventureiros, os imigrantes e os perseguidos por suas crenças religiosas que buscaram o Oeste. Muitos dos movimentos socialistas europeus enviaram famílias para criar comunidades utópicas. Em 1834, fundou-se Nova Harmonia, com seguidores de Robert Owen; partidários de Etienne Cabet organizaram comunidades icarianas; adeptos de Charles Fourier criaram seus falanstérios.

Fortes quadrados e postos comerciais, tradicionalmente construídos de estacas, multiplicaram-se, marcando a conquista do homem branco.

Aumentou igualmente o número de Casacos Azuis. E isso não foi bom?

Quem eram esses Casacos Azuis?

A denominação começou a ser usada pelos indígenas para designar os cavalarianos do Exército dos Estados Unidos, montados em garbosos cavalos e usando belos uniformes azuis. Nos filmes de bangue-bangue sempre apareciam, sendo sua chegada precedida por vibrantes toques de clarim, para salvar os comboios de suprimentos ou de colonos, cercados pelos guerreiros indígenas, cujos corpos eram pintados de cores variadas e galopavam corcéis semi-domesticados.

Trail along the Backbone, Howard Terpning

O número de pioneiros cresceu com as levas de imigrantes provenientes de várias sociedades europeias. Desembarcados nos portos da costa leste, sem condições de permanecerem na área atlântica litorânea, rumavam para o Oeste, buscando terras férteis para o cultivo ou ricas pastagens de criação de gado. Milhares deles foram atraídos pelas notícias anunciando a descoberta de ouro nas montanhas do Oeste.

Tanto a chegada de alemães, irlandeses, ingleses, franceses e outros imigrantes europeus, como por seu aumento vegetativo, a população cresceu rapidamente, saltando de 3.929.000, em 1770, para 12.866.000 habitantes, em 1830, e 23.191.000, em 1850.

As terras por onde avançaram os pioneiros eram de longa data habitadas por milhares de indígenas - dos pawnees de cabeça raspada, excelentes cavaleiros, cujas mulheres cultivavam o milho e teciam cestas, aos sioux, comedores de carne de cachorros que criavam.

"Quando eu era jovem, andava por todo esse território, e nunca vi outro povo além dos apaches. Depois de muitos verões, andei novamente por ele e encontrei outra raça de pessoas, que viera para tomá-lo. Como é isso? [...] Os apaches eram outrora uma grande nação; agora são poucos e por isso querem morrer e não se importam mais com suas vidas."

Sabe de quem são essas palavras? Do destacado chefe Cochise, que dirigiu os apaches churicahuas dos anos 1850 a 1870.

O curioso é que os indígenas não acreditavam que pudesse haver uma grande quantidade de homens brancos. Mas logo constataram seu engano, diante da sucessão de caravanas, cujas carroças avançavam, serpenteando por vales e planícies, conduzindo um número cada vez maior de pioneiros. Enfrentando invernos rigorosos, rios caudalosos, densas florestas, tempestades de neve ou de chuva, doenças, fome, ataques de animais e a resistência dos índios que defendiam suas terras, os pioneiros chegaram ao litoral do Pacífico.

Expedição no Oeste, Frank B. Hoffman

Antes da chegada dos brancos, as extensas planícies tremiam com a passagem das mandas de búfalos. Milhares e milhares desses animais selvagens e bem-nutridos forneciam alimento, roupas e abrigo aos indígenas.

Segundo o depoimento de um comerciantes de Santa Fé:

"Este animal fornece o alimento quase exclusivo do índio da planície, bem como coberta para suas tendas e a maioria das suas roupas; mantas com que fazer a cama, cordas, bolsas para carregar a carne etc.; tendões para a corda do arco, para costurar mocassins, perneiras etc."

Por volta de 1870, eram raros os búfalos no Oeste!

E por quê?

Porque os caçadores profissionais brancos os abatiam aos milhares, com o objetivo de retirar-lhes apenas a pele e enviá-los para o Leste. Muitos milhares também foram mortos para servirem de alimento aos pioneiros. Mas a morte de muitos búfalos serviu unicamente de distração para caçadores amadores, saídos em férias das cidades do Leste para caçar no Oeste.

De início, os índios, em geral, mantiveram um bom relacionamento com os brancos. Assim ocorreu com os armadilheiros que, às margens dos rios, procuravam aprisionar castores, raposas e outros animais de peles raras. Nessa atividade, muitas vezes trocavam com os indígenas mantas de ursos e de búfalos ou peles valiosas por frigideiras, facas, espelhos, cobertores, pólvora, armas, álcool... O próprio nome de comancheiros, usado para identificar mexicanos que comerciavam com os comanches, demonstra a estreita ligação entre brancos e índios.

Mas os brancos começaram a expulsar os indígenas das terras que, de longa data, vinham sendo habitadas por seus ancestrais. Importantes fontes de alimentação das comunidades índias foram destruídas pelos brancos, que mais pareciam um bando de vorazes gafanhotos. Os índios perderam sua liberdade ao serem confinados em reservas, perdendo o direito de correr livremente pelos campos, de respirar o frio ar puro das montanhas, de sentir a carícia das águas em seus corpos quando mergulhavam em um regato refrescante. Os brancos roubavam, mentiam, estupravam as mulheres índias.

E quando os índios resistiam, contra eles as bocas de grandes canhões gritavam alto e os fuzis dos brancos cuspiam o fogo da morte!

Execução de índios Dakota em Mankato, Minnesota (1862), J. Thullen

Philip Sheridan, General comandante dos Casacos Azuis, costumava afirmar: "Os únicos índios bons que conheci já estavam mortos." Patrick Connor, companheiro de Sheridan, e também apresentado como valoroso representante da civilização branca, não ficava atrás quando dizia que tinha "ordens de matar todo o índio do sexo masculino acima de 12 anos de idade."

Mandan game, George Catlin

É claro que havia exceções, sendo uma delas George Catlin, que abandonou tudo para se dedicar àquilo que considerava a razão de ser da sua vida: a pintura. Durante anos, seus pincéis retrataram cenas de um mundo que desaparecia: o Mundo Indígena. Veja seu depoimento:

"Contemplei as nobres raças dos peles-vermelhas que estão desaparecendo, à medida que a civilização se aproxima; seus direitos são desrespeitados, sua moral corrompida, suas terras tomadas, seus costumes alterados e, portanto, perdidos para o mundo, e finalmente eles desaparecem na terra e o arado cobre de torrões seus túmulos; corri em socorro deles [...] para salvar suas aparências e seus hábitos [...] Como a fênix, eles ressurgirão das manchas de uma paleta de pintor e viverão de novo nas telas e permanecerão por séculos e séculos - monumentos vivos de sua nobre raça."

Guerreiro comanche e tipi, George Catlin

Entretanto, as sociedades indígenas não tiveram de enfrentar apenas a besta-fera branca, que se considerava homem civilizador!

Por volta de 1856 ou 1857, chegaram aos Estados Unidos animais fora do comum. Eram 75 camelos para uso do Exército dos EUA. Imagine só o espanto das comunidades indígenas e o ridículo a que se expunham soldados e oficiais norte-americanos.

E sabe por que essa tolice?

Porque congressistas, com a conivência do Estado-Maior do Exército, afirmavam que os territórios entre o Missúri e o Pacífico eram constituídos por desertos, semelhantes ao Saara. É bem provável que a importação desses animais envolvesse uma grande negociata.

Ao mesmo tempo em que os pioneiros e os Casacos Azuis massacravam as comunidades indígenas, a diplomacia norte-americana mostrava-se ativa:

* a Luisiana foi comprada à França Napoleônica (1803);
* a Flórida foi adquirida à Espanha (1819);
* o Território de Gadsden foi negociado com o México (1853).

A diplomacia também funcionou com sucesso na solução de uma controvérsia que se arrastava há tempos com a Inglaterra, a propósito do Território do Oregon. Como o governo norte-americano sabia da proximidade de um conflito com o México, negociou com a Inglaterra a ocupação do Oregon (1846). Não pense, porém, que os Estados Unidos resolveram suas controvérsias fronteiriças usando apenas a diplomacia. A guerra, além de ser usada no extermínio dos indígenas, também foi empregada para arrancar territórios mexicanos.

Foram os norte-americanos que proclamaram a independência da Província mexicana do Texas (1835), posteriormente incorporada aos EUA. Esta anexação provocou a guerra entre norte-americanos e mexicanos (1846-1848). Pelo Tratado de Guadalupe-Hidalgo, o México teve de entregar Nevada, Utah, Colorado, Arizona, Novo México e Califórnia.

O México perdeu metade do seu território. O mais terrível foi que, uma semana antes da assinatura do tratado, fora encontrado ouro na Califórnia, provocando uma corrida de milhares de pessoas.

À mesma época, os Estados Unidos já ensaiavam uma política imperialista: em 1854, uma esquadra sua forçou a abertura dos portos japoneses ao comércio norte-americano. Contudo, isso jé é outra História!

AQUINO, Rubim Santos Leão de; LISBOA, Ronaldo César. Fazendo a História: a Europa e as Américas do século XVIII ao início do século XX. Rio de Janeiro: Ao Livro Técnico, 1996. p. 118-122.