"Os espelhos estão cheios de gente.
Os invisíveis nos vêem.
Os esquecidos se lembram de nós.
Quando nos vemos, os vemos.
Quando nos vamos, se vão?"
Eduardo Galeano: Espelhos
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terça-feira, 31 de janeiro de 2017

Aborígenes

Figuras sobrepostas sobre um canguru e uma cobra. Área do príncipe regente de Kimberley. Desenho de Joseph Bradshaw

O povo que povoou a Austrália, 40 mil anos atrás permaneceu isolado do resto do mundo até a chegada dis europeus no século XVIII. Praticavam um estilo de vida caçador e coletor praticamente inalterado, adaptado aos diversos climas e condições ambientais de cada região da Austrália. Cada tribo aborígene recebeu o seu território dos "ancestrais", criadores míticos do povo, e a terra não podia ser vendida, trocada nem doada. As tribos aborígenes eram formadas por clãs encabeçadas por anciãos. O Tempo dos Sonhos, a sua mitologia sobre os ancestrais, era transmitida boca a boca. Cada tribo tinha histórias próprias do Tempo dos Sonhos.

WOOLF, Alex. Uma Nova História do Mundo. São Paulo: M.Books do Brasil, 2014. p. 91.

domingo, 7 de agosto de 2016

Rochas de livres prazeres: práticas sexuais nas pinturas rupestres da Serra da Capivara

Cena de beijo. Pintura localizada na Toca do Boqueirão 
da Pedra Furada. 
Foto:Augusto Pessoa

Mais de 1.300 sítios arqueológicos já foram encontrados no Parque Nacional Serra da Capivara, em São Raimundo Nonato, Piauí. Desses, 900 contêm cenas rupestres, com representações dos afazeres cotidianos dos grupos que ali viveram no mínimo 12 mil anos atrás. Gravadas nas rochas, há cenas de caçadas, lutas sociais, rituais e relações humanas diversas. Inclusive as sexuais.

Entre as representações rupestres aparecem figuras humanas exibindo-se individualmente, com destaque para seus falos. Os caçadores e coletores praticavam suas relações sexuais, parece-nos, de forma um tanto livre de certos padrões ditos morais, de acordo com as representações vistas nas cenas rupestres. As cenas mostram diversas posições de sexo, envolvendo duplas, trios ou grupos maiores numa mesma ação. Há também ocasiões mais "românticas", como a representação de um beijo. Tais sentimentos e desejos não são privilégios exclusivos dos corpos e mentes de hoje. Nossos ancestrais também os vivenciaram, como sugerem os vestígios que deixaram.

Infelizmente ainda existem manuais didáticos escolares que consideram a História do Brasil apenas a partir de 1500, com a chegada dos portugueses. Em alguns casos, para se remeter ao período anterior, fala-se de "pré-história brasileira", numa abordagem claramente eurocêntrica, que dá pouco ou nenhum relevo à longa experiência dos povos presentes no continente. Os homens e as mulheres da suposta "pré-história" viveriam em cavernas, vestidos com peles de animais, em alguns casos cobrindo aquelas que consideramos suas "partes íntimas". É como se estivessem fora da história, num período que seria o prelúdio do desenvolvimento humano, no qual não existiria nada a não ser uma luta instintiva pela sobrevivência.

Estudos desenvolvidos por arqueólogos brasileiros como Niède Guidon subvertem a concepção de "pré-história". Ao focalizar a presença humana no continente e trazer ao debate a produção material e cultural dos povos ancestrais - com base em análise de suas artes rupestres, cerâmicas, instrumentos musicais, ossadas e códigos de DNA, entre outros vestígios - eles apontam para a compreensão de outra História. Quem sabe a História Antiga do Brasil, ou a História Ancestral do Brasil.

Há 200 mil anos, os nossos ancestrais tinham as mesmas condições físicas e mentais que compartilhamos hoje, e empregavam os meios à sua disposição para realizar diferentes ações sociais, culturais, políticas e interpessoais, assim como fazemos atualmente. Sua vida social era mais elaborada do que se imaginava. Demonstram grande desenvolvimento para o fazer, o prazer e para práticas hoje consideradas saudáveis, como caminhar, dançar e brincar.

As muitas cenas com representações do sexo nas pinturas rupestres do Parque Nacional da Serra da Capivara revelam que a sexualidade não era algo reprimido ou escondido, pois todos os membros dos grupos de caçadores e coletores da época tinham acesso àquelas cenas, feitas por eles mesmos ou por seus ancestrais. É possível identificar representações dos órgãos genitais femininos (vulva) e masculinos (falos eretos). Quando há representações de mãos coltadas para trás, são sinalizações de cenas femininas ou com mulheres.

O sexo, para aqueles grupos, devia ser considerado uma prática natural e prazerosa. Dificilmente estava submetido a excessivas restrições ou tabus religiosos. O mesmo se observa entre outros grupos de caçadores e coletores, inclusive os atuais. A sexualidade é compreendida de modo diferente por essas sociedades. Pintores antigos, tanto brasileiros quanto africanos, mostravam as cópulas humanas em posições variadas e com certo realismo. Nas pinturas rupestres africanas, especialmente na região abaixo do deserto do Saara, há uma série de representações de homens mascarados com seus falos eretos prestes a penetrarem as mulheres já em posição ginecológica.

A sexualidade é uma temática bastante recorrente nas cenas rupestres da Tradição Nordeste, uma das tradições estilísticas de pinturas da região piauiense não somente na Serra da Capivara, mas também em outros locais do país, como no interior da Bahia e no Rio Grande do Norte. Na região de sua abrangência, inclusive em São Raimundo Nonato, além das representações do sexo entre humanos, há cenas de sexo com animais, o que chamamos atualmente de "zoofilia". Cenas que aparecem também nos vestígios de outros povos do mundo.

É válido considerar que nas cenas de "excitação" coletiva os falos representavam "espadas", ou seja, simbolizavam poderio e força. Já a cena do beijo sugere que a boca se desenvolveu como importante zona erótica ao longo de toda a vida humana.

Filósofos como Thomas Hobbes e Jean-Jacques Rousseau consideravam "selvagens" os homens das terras distantes da África, América e Ásia. Assim, segundo Hobbes, eles seriam incapazes de construir laços de amor, além de levarem uma vida sem ofício ou arte. Essa ideia se perpetuou através dos escritos de muitos ocidentais, mas já se comprovou que havia sim trabalho, amor e vida social entre esses grupos ancestrais, como evidenciam as pinturas e outros vestígios deixados pelos primeiros ocupantes das terras brasilis.

Nas pinturas rupestres da Serra da Capivara há cenas de danças feitas com tamanha desenvoltura plástica que demonstram certa sensualidade. Algumas cenas de sexo grupal, com animais ou ainda, supostamente, com humanos "menores", nos remetem a um período sem as restrições morais e éticas da tradição religiosa judaico-cristã. Um período em que os ritmos e as energias da vida humana se harmonizavam com os da natureza.

Michel Justamand. Rochas de livres prazeres. In: Revista de História da Biblioteca Nacional. Ano 10 / Nº 109 / Outubro 2014. p. 62-3 e 66-7.

terça-feira, 1 de setembro de 2015

Os ancestrais dos índios norte-americanos

Povos indígenas do Norte do Novo México, 1861. Artista desconhecido

"Os historiadores da pré-história nos dão notícia de quantos milênios foram necessários para que os homens do paleolítico substituíssem as grosseiras facas ou os rudes machados de dois gumes pelas admiráveis lâminas do solutreano [período cultural da pré-história europeia]. Segundo outro ponto de vista, observa-se que a descoberta da agricultura e a domesticação das plantas são quase contemporâneas na América e no Velho Mundo. E impõe-se constatar que os ameríndios em nada se mostraram inferiores, muito pelo contrário, no que se refere à arte de selecionar e diferenciar múltiplas variedades de plantas." (CLASTRES, Pierre. A sociedade contra o Estado. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1978. p. 134.)

[...]


Do Alasca e das regiões árticas, as tribos provenientes da Ásia difundiram-se no Novo Mundo seguindo três rotas principais: a costa setentrional do Alasca e do Canadá, as pradarias situadas a leste das montanhas Rochosas, e a costa do Oceano Pacífico.

A reconstrução mais aproximada que se pode obter da história dessas populações pioneiras depende basicamente dos fósseis e vestígios que deixaram através dos tempos. [...]

Numerosos vestígios foram encontrados na parte sul-ocidental dos Estados Unidos: o clima quente e seco favoreceu sua conservação. Nessa região, desenvolveram-se as mais antigas culturas pré-colombianas, às quais se deu o nome da localidade onde os principais vestígios foram encontrados. Assim, em um período compreendido entre 15 000 e 7 000 a.C., floresceram as culturas de Sandia, de Clóvis e de Folson (todas situadas no Novo México), a cultura de Yuma (Arizona) e a cultura de Cochise (Texas central e Arizona meridional).


Mulher e menina zuni transportando água, 1890. Henry F. Farny

As mais antigas formas culturais da região ártica devem-se às populações esquimós. Elas se desenvolveram no Alasca, Groenlândia, Labrador e Canadá, tendo sido unificadas, por volta de 900 a.C., pela cultura de Thule, uma cultura de navegadores e caçadores de baleias.

Nesse mesmo período. desenvolveu-se na Groenlândia a cultura de Dorset. Ao que parece, esse povo entrou em contato com os Vikings, que desembarcaram na ilha por volta do final do século X, chefiados por Erik, o Vermelho. Nas costas meridionais da Groenlândia, os Vikings fundaram duas colônias que, após uma notável prosperidade, entraram em declínio no século XV devido ao isolamento da terra de origem, e acabaram sendo abandonados.

A partir do início da Era Cristã, desenvolveu-se a cultura dos Basket-Makers ("Cesteiros"), na região sudoeste da América do Norte, que corresponde aos atuais Estados norte-americanos de Utah, Colorado, Arizona e Novo México. Os basket-makers receberam este nome por terem sido hábeis fabricantes de cestos de vime, cujos vestígios podem ser datados do século I ao VIII. Esse povo dedicava-se basicamente à caça e ao cultivo de milho e abóbora e, provavelmente, seus hábitos seminômades dos primeiros tempos evoluíram aos poucos para uma vida sedentária. A partir do século VIII, a cultura dos Cesteiros deu lugar à dos Pueblos.


Mulher zuni transportando água, 1900. Henry F. Farny

A designação pueblo (em espanhol, "povo", e por extensão, "aldeia") exprime a característica mais significativa dessa nova cultura, isto é, sua organização espacial. As aldeias eram formadas por casas altas de dois ou três andares, que se aglomeravam umas ao lado das outras em grupos compactos, situadas no interior de um alto muro de adobe. No centro desses aglomerados, havia uma espécie de praça, dentro da qual era cavada uma grande sala - a kiva - que desempenhava um importante papel na vida social e religiosa, funcionando também como local de reunião e cerimônias. As populações da cultura dos Pueblos dedicavam-se à agricultura, cultivando seus campos por meio de um sistema de irrigação bastante racional. Fabricavam peças de cerâmica decoradas com motivos geométricos e possuíam uma refinada arte têxtil.

Essa cultura entrou em declínio entre o final do século XIII e o início do XIV, devido a uma prolongada seca. Também para isso muito contribuiu a invasão dos navajos e apaches, que obrigou os pueblos a se concentrarem num território bem menos extenso. A partir de 1598, os espanhóis fundaram colônias em suas terras, mas enfrentaram uma tenaz resistência desse povo que, em 1680, expulsou os conquistadores. Finalmente, em 1690, os espanhóis conseguiram submetê-los. Ainda hoje, a cultura dos Pueblos subsiste com seus traços tradicionais, especialmente representada pelos hopi do Arizona e pelos zunñi do Novo México.


Mulher zuni transportando água, 1877. Artista desconhecido

Na região da bacia do rio Mississípi, talvez em meados do século IV, floresceu a cultura dos Moundbuilders ("Construtores de Túmulos"). Como no caso da cultura dos Pueblos, esse nome deriva de sua principal característica: numerosos túmulos de terra batida, de várias formas e tamanhos, que provavelmente eram utilizados como infra-estrutura para templos ou moradias dos chefes. Os mais interessantes desses monumentos possuem forma de animais, como tartarugas e serpentes; outros constituem pirâmides truncadas. No interior desses túmulos encontram-se objetos de cobre e cerâmica, estatuetas, máscaras de madeira, ornamentos de osso e mica, fragmentos de couro, conchas decoradas - enfim, um material minuciosamente trabalhado, que revela uma arte muito rica. Diante dessa produção tão variada, supõe-se que as comunidades moundbuilders levavam uma vida relativamente próspera. As populações que desenvolveram esta cultura constituem os longínquos antepassados de conhecidos grupos de "índios" modernos, como os sioux e os iroqueses.

CLASTRES, Pierre. A sociedade contra o Estado. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1978. p. 134.
HISTÓRIA DAS CIVILIZAÇÕES. São Paulo: Abril Cultural, 1975. p. 2, 3 e 5. [Volume 3].

sexta-feira, 1 de maio de 2015

Ferreiros e agricultores dispersos nas savanas e florestas da África Central Ocidental

Lunda, 1854, Artista desconhecido

O primeiro problema nos estudos sobre África Central Ocidental é a questão da difusão da metalurgia e a grande expansão das línguas bantu. Sobre essas duas questões, têm-se construído grandes equívocos. Primeiro, as explicações são dadas como se a expansão dos povos de língua bantu fosse responsável pela propagação do uso de instrumentos de ferro e, somente a partir daí, esses povos tiveram condições de enfrentar a Floresta Tropical. Segundo, há uma tendência de se identificar o termo bantu como característica etimológica no estudo dos povos. Como se fosse uma etnia.

Na verdade, os trabalhos da arqueologia e da linguística têm informado que bantu significa um tronco linguístico, e não uma etnia propriamente. Porém, tem-se feito identificação de bantu como grupo cultural e etnológico, e não como povos que falavam línguas de origem comum. No Brasil, a confusão por conta disso tem sido grande. Quando os africanos chegaram ao Brasil, aqueles que vieram da região abaixo da Floresta Tropical passaram a ser designados de bantu. Pela dimensão dos diversificados agrupamentos humanos existentes na região abaixo da floresta, o termo não identifica esse africano. Ele pode ser luba, lunda, kongo, mbundo, ovumbundo, etc. Bantu designa povos falantes de uma língua, e não uma etnia. [...]

Para que não se mantenha a ideia de uma África como um grande caldeirão, em que todos que de lá saíam tinham uma única identidade, de um lugar difuso e distante, será necessário saber o que é ser um bantu. A maioria da população abaixo da região dos Camarões pertence aos povos de língua bantu, mas, apesar de hoje serem majoritários, os bantu, quando chegaram à região, encontraram outros povos, os koisans-sans ou bosquímanos. São caçadores, muitos dos quais, no encontro com agricultores e metalúrgicos, passaram pelo processo de integração ou tiveram que migrar para regiões inóspitas, como o deserto do Kalaari e onde vivem até hoje.

No início do segundo milênio, surgiram as chefias políticas de caráter mais centralizado nas regiões das savanas, onde hoje seria o sudoeste de Angola e Congo. Provavelmente oriundos de comunidades de caçadores e coletores, obtiveram instrumentos de ferro por meio de seus vizinhos. Os agricultores se fixaram nas terras férteis junto aos vales dos rios.

A descoberta, o uso e a expansão do ferro marcaram uma importante fase na história de todas as populações da África Central. O metal era mais versátil e eficiente para a agricultura e foi se expandindo, substituindo os instrumentos de pedra e madeira.

As migrações bantu integravam na sua civilização traços culturais provenientes dos autóctones. O fenômeno característico da primeira metade de nosso milênio foi a diferenciação étnica. Dois fatores contribuíram para isso: os povos autóctones assimilados linguisticamente e a fraca intensidade de comunicação entre as populações. Para o historiador Jean-Luc Vellut, o maior exemplo disso foi a trajetória dos imbangala, população com elementos da cultura lunda, luba, ovimbundo e mbundo, que  formou um conjunto étnico por volta do ano de 1600.

É possível que os diversos grupos cultivassem as diferenças linguísticas para traduzir uma maneira visível de sua vontade e individualização. Em zonas onde a vegetação e o relevo montanhoso tornavam a comunicação difícil, encontramos um só grupo regional com marcadas diferenças étnicas. Entretanto, onde o mapa linguístico obedeceu seguidos padrões, os traçados dos rios e da costa favoreciam as ligações laterais, constituindo grupos mais homogêneos. Na zona de savana, por conta da densidade populacional, foi preciso maior esforço para o isolamento.

Após transformações, como o crescimento da população e a eclosão das técnicas artesanais e do comércio, a sociedade tornou-se mais complexa. Os agricultores de língua bantu, em geral, organizavam-se em grupos matrilineares. O vínculo de parentesco de uma pessoa conta-se a partir da família da mãe. Naquela região da África, muitas vezes o parentesco era dessa maneira. Em outras sociedades, contava-se pelo pai e havia comunidades que contavam o parentesco por ambos os lados. Em matéria de descendência, predominava, portanto, o regime matrilinear. Assim, há uma influência grande desse regime nas questões de sucessão, herança, casamento e residência. Matrilinearidade e matriarcado são coisas distintas.

A matrilinearidade bantu era acompanhada, em geral, do princípio de que os homens tinham maior autoridade sobre as mulheres. A linhagem matrilinear ficou débil, enquanto a estrutura da aldeia achava-se reforçada. Essa autoridade da aldeia se fundamentava nos princípios territoriais e políticos.

PANTOJA, Selma. Uma antiga civilização africana: história da África Central Ocidental. Brasília: Editora da Universidade de Brasília, 2011. p. 23-27.

segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

O sagrado e o profano nas origens de Roma

[...]

Os tabus e práticas de inspiração mágica surgem repetidamente na vida romana, conferindo muita importância ao campo do sagrado. Em toda a parte a religião pressupõe uma oposição entre a vida natural, ordinária e um campo dominado pelo temor e pela esperança. O sagrado é a ideia-mãe da religião, os mitos, e os dogmas analisam-lhe o conteúdo de vários modos. Os ritos utilizam-lhe as propriedades e a moralidade religiosa deriva dela. Os sacerdócios incorporam-na e os santuários, os lugares sagrados e os monumentos religiosos. fixam-na ao solo, enraízam-na. Neste sentido, a religião seria a administração do sagrado e o direito, a administração do profano. [...]

O sagrado pertence, como uma propriedade estável ou efêmera, a certas coisas como aos instrumentos de culto; pertence também a certos seres como o rei e os sacerdotes; pertence a certos espaços como templos, igrejas, bosques, lugares régios e a certos tempos como o das festas religiosas, a certos dias etc. Porém, tudo aquilo que pode ser consagrado pode também ser dessacralizado.

O objeto consagrado suscita sentimentos de pavor e veneração; apresenta-se como interdito, ou seja, aquilo de que não nos aproximamos sem morrer. O sagrado também impõe a noção de contágio, daí o cuidado de afastar de um lugar consagrado tudo o que pertence ao mundo profano. A presença de um ser profano é suficiente, nestes casos, para afastar toda uma possível bênção divina. Inúmeros exemplos poderiam ser citados neste sentido tanto entre os gregos quanto entre os romanos. Por ora basta-nos pensar no lugar dos criminosos, nas vinganças de sangue e no poder do contágio que a luta pela construção de direito dos homens tenta minimizar.

Sagrado e profano não podem se aproximar e ao mesmo tempo preservar a sua natureza própria. Por outro lado, ambos são necessários ao desenvolvimento da vida: o profano como o meio em que ela se desdobra e o sagrado, como a fonte inesgotável que a cria, que a mantém e que a renova. Estes dois mundos se definem rigorosamente um pelo outro e, ao mesmo tempo, excluem-se, supõem-se e complementam-se.

O sagrado é fonte de socorro, de todo êxito, mas também inspira terror e confiança. As calamidades e as vitórias e prosperidade são relacionadas com determinado princípio que pode ser vergado ou coagido. Desta maneira, podemos entender a história de Roma não com nosso individualismo calculista e utilitarista, mas inserida em profundas crenças que não podem ser separadas da concepção do sagrado e do profano.

Rômulo e Remo, Peter Paul Rubens

Somente Rômulo foi celebrado como o pai que trouxe os romanos à luz do dia, foi pater et genitor. Sua primazia fundou-se unicamente no auspício favorável e, por isso, de acordo com Meslin, ela pôde servir de protótipo justificativo da autoridade dos chefes políticos. Bem mais tarde, quando Otávio veria 12 abutres passarem no céu do Palatino, onde se apressaria em estabelecer-se quando enfim a paz na terra retornasse, poderia reconciliar-se o "Quirite com seu irmão Remo". O resultado mais curioso, ainda segundo Meslin, seria a piedosa iniciativa, na época agostiniana, destinada a desculpar Rômulo pela morte do irmão. Essa verdade era tão forte que o herói fundador de Roma jamais deixaria de funcionar como um arquétipo que a lenda das origens de Roma legou à meditação dos candidatos ao poder pessoal. Para além do exemplo romano, a guerra dos gêmeos como protótipo da violência está presente desde Caim e Abel, como apontou James Frazer.

Rômulo e Remo abrigados por Fáustulo, Pietro de Cortona

É também importante o que os latinos chamavam de Genius ao deus a que todo homem é confiado sob tutela na hora do nascimento. Segundo Agamben o dia do nascimento era sagrado. Os presentes e os banquetes com que festejamos o aniversário são uma lembrança da festa e dos sacrifícios que as famílias romanas ofereciam ao Genius. Originalmente só havia incenso, vinho e cucas de mel, porque Genius, o deus que preside ao nascimento, não gostava de sacrifícios sangrentos. Hoje ainda há o termo ingenium, que designa a soma de qualidades físicas e morais inatas de quem está para nascer. Genius era, de algum modo, a divinização da pessoa, o princípio que rege e exprime a sua existência inteira. Por esse motivo, nos momentos de desânimo, quando parece que quase nos esquecemos de nós mesmos, levamos a mão à cabeça. Dado que esse deus é o mais íntimo e próprio de cada um de nós, é necessário aplacá-lo e tê-lo bem favorável sob todos os aspectos e em todos os momentos da vida, Fraudar o próprio gênio é tornar triste a própria vida, ludibriar a si mesmo. Para compreendermos a diferença daquilo que nós apontamos como "eu", é significativo pensar que a concepção de homem implícita em Genius equivale a compreender que o homem não é apenas o EU com sua consciência individual, mas que, desde o nascimento, ainda segundo Agamben, até à morte, ele convive com um elemento impessoal e pré-individual. O homem é, assim, um único ser com duas faces. A vida viria da dialética entre uma parte (ainda) não identificada ou vivida e uma parte já marcada pela sorte e pela experiência individual.

Seria neste caso aquilo que os gregos e posteriormente Santo Agostinho marcariam como nossa consciência temporal, ou seja, vivemos sempre entre aquilo que já foi e aquilo que ainda não é. Há neste intervalo aquilo que podemos chamar de angústia, alegria, segurança ou temor. Enfim, é a condição humana que os antigos jamais deixaram de lado, ou seja, o ser e também o não ser sempre possível. [...]

Os romanos atribuíram a seus ancestrais a criação de sua cidade, bem, como de suas instituições sociais, jurídicas e religiosas. Quando debruçamos sobre seu passado, vemos que Roma inventou uma epopeia "nacional", criou-a incorporando nela valores cujo papel eram precisamente o de justificar ritos, costume e leis. São relatos muito humanos, pois, assim que interrogou seu próprio passado, o homem romano interessou-se mais por sua cidade, pelo êxito dos empreendimentos coletivos e por sua organização do que por uma cosmologia atemporal.

EYLER, Flávia Maria Schlee. História antiga: Grécia e Roma: a formação do Ocidente. Petrópolis: Vozes; Rio de Janeiro: PUC-Rio, 2014. p. 163-7. (Série História Geral)

quarta-feira, 1 de outubro de 2014

Povos da Oceania: os tasmanianos

Dança da guerra, Thomas John Grant 

Os europeus, convencidos há muito tempo da unidade espiritual do gênero humano e da superioridade do estado da natureza pura, interessaram-se vivamente pelos indígenas da Oceania. Bougainville e Cook observaram-nos com um interesse apaixonado. Os dois Forster, que acompanharam Cook na sua terceira viagem, criaram assim, com Buffon, a ciência da formação e da classificação das raças, a etnologia.

Os europeus julgaram encontrar-se em presença de raças primitivas, das próprias origens da humanidade. É certo que as tribos se achavam em toda parte na idade da pedra e que os seus utensílios lembravam os dos tempos pré-históricos. Tratava-se, na realidade, não de primitivos, mas de povos que haviam sofrido uma longa evolução, e que, na sua maioria, já haviam conhecido uma civilização superior, encontrando-se em plena regressão à chegada dos europeus.

Com efeito, parece que todos estes povos constituem raças originárias da Ásia Meridional, as quais, vencidas por outras, teriam fugido na direção indicada pelas migrações de certas aves. Ao chegarem aos territórios onde se iam estabelecer, de recursos limitados por se encontrarem isolados há muito tempo dos outros continentes, dispunham de poucas espécies vegetais, de poucos mamíferos. Além disso, por causa da exigüidade das ilhas, teriam rapidamente deparado com obstáculos provenientes da superpopulação, da dificuldade de alimentação, e, portanto, achavam-se expostos a guerras contínuas, à prática do aborto, do infanticídio e do canibalismo, assim como às preocupações imediatas e absorventes com a comida. Foi neste estado que os europeus os encontraram, com tal receio da superpopulação que, em toda parte, o número de habitantes diminuía devido à restrição voluntária dos nascimentos. Não é de espantar, portanto, que as civilizações não se tenham desenvolvido ou hajam mesmo regredido. Levando em conta este declínio, assim como os cruzamentos e as influências recíprocas, pode admitir-se que a Oceania tenha sido, de certa maneira, um “conservatório de raças”.

Os únicos povos a que poderia atribuir-se, segundo parece, o nome de primitivos eram os tasmanianos e os australianos, que se encontravam nos escalões mais inferiores da espécie humana.

Grupo de nativos da Tasmânia, Robert Dowling

Os tasmanianos estavam no ponto mais baixo. Fixados na ilha numa época em que o Estreito de Bass era transponível mesmo pelos navegadores mais medíocres, no pleistoceno médio, antes do degelo dos glaciares que elevou o nível dos mares e quintuplicou pelo menos a largura dos estreitos, haviam vivido num estado de isolamento que é, para as civilizações, a causa mais eficaz de estagnação e de regressão. A sua população, de cerca de 5.000 negróides de cabelos crespos, maxilares muito desenvolvidos, crânios deprimidos, fortes arcadas supraciliares, constituía o conjunto de seres humanos mais próximos dos símios; o seu crânio apresentava a elevação mediana em forma de quilha que é uma das principais características simiescas. Os seus utensílios colocavam-nos no estágio dos paleolíticos inferiores da Europa Ocidental, chelense e acheulense. Ignoravam o vestuário, as casas, abrigavam-se atrás de anteparos de ramagens, viviam da coleta e da caça sem cão. A sua organização social era rudimentar: tinham apenas chefes temporários, eleitos. Acreditavam na sobrevivência da alma e temiam os mortos. Possuíam mesmo certos traços de uma religião superior, um monoteísmo: adoravam um espírito supremo, em relações mal definidas com o céu e os fenômenos naturais. Desapareceram no século seguinte.


MOUSNIER, Roland; LABROUSSE, Ernest. O século XVIII: o último século do antigo regime. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1995. p. 373-375. (História geral das civilizações, v. 11)

NOTA: O texto "Povos da Oceania: os tasmanianos" não representa, necessariamente, o pensamento deste blog. Foi publicado com o objetivo de refletirmos sobre a construção do conhecimento histórico.

quarta-feira, 30 de abril de 2014

Art rock made in África

"Arte rupestre da África é a herança comum de todos os africanos, mas é mais do que isso. É patrimônio comum da humanidade. "

Nelson Mandela


A pintura rupestre do continente africano constitui um valioso testemunho da mentalidade mágica dos povos pré-históricos. Suas representações transcendiam objetivos artísticos, cumprindo, primordialmente, um conjunto de funções mágicas de finalidade pragmática: a perpetuação da existência de caça abundante, o alcance do êxito nas guerras e a preservação da capacidade de reprodução da espécie humana. Seu estudo permitiu a reconstituição histórica da vida de povos caçadores, pastores e de civilizações que já haviam adotado a utilização da roda.

As sociedades africanas tradicionais assentavam-se sobre categorias de sexo, idade, relações de parentesco. As divisões baseadas no sexo abrangiam as tarefas e funções de grupo social, manifestando-se já no ritual de iniciação dos jovens e na participação em sociedades distintas e exclusivas. Em geral, cabia às mulheres a tarefa de cultivar a terra, o que as tornava responsáveis pela sobrevivência do grupo, tanto ao nível de subsistência imediata - assegurando a alimentação - como a longo prazo, pela reprodução da espécie. Aos homens pertencia o monopólio das relações com o sagrado e, portanto, a exclusividade das decisões que diziam respeito à coletividade.

Outro elemento regulador da sociedade africana tradicional foi a idade. As gerações apresentavam relações de dominação/subordinação, com preeminência dos mais velhos. Os anciãos possuíam grande prestígio. Existiam também classes de idade: a dos meninos, formada a cada sete anos na época da iniciação sexual; outra reunia os guerreiros solteiros, que só poderiam se casar quando atingissem a terceira classe de idade, por volta dos trinta anos. Todos esses grupos rigidamente estruturados, asseguravam o cumprimento das funções sociais mais significativas segundo as categorias de idade. A passagem de uma classe para outra exigia uma formação complementar, coroada pela realização de um cerimonial específico.

Quando o exercício do poder político é regulado por cerimônias e ritos, o fato geralmente provoca uma ativa criação artística. Tal pressuposto encontra confirmação na África, onde os mais importantes centros de manifestação artística desenvolveram-se junto aos grandes grupos tribais e reinos mais importantes: África ocidental e África central. O domínio do sagrado constitui também ambiente propício às manifestações artísticas. As representações dos ancestrais, os objetos e as máscaras utilizadas pelos membros de associações o atestam. A vida religiosa, assim como as práticas mágicas, é particularmente rica em símbolos materiais e rituais que estabelecem a relação com o sagrado.

Entre os povos primitivos é praticamente inexistente a distância entre o mundo da objetividade e o da subjetividade. Inserido em um ambiente do qual depende de maneira absoluta, o homem primitivo atribui à natureza uma força muito maior do que a sua. As doenças, a morte, os insucessos na caça ou na agricultura, a fome, a seca são acontecimentos que, a um tempo, o desafiam e o submetem. Ser pensante, o homem busca explicar, em termos religiosos, essa força que o domina. Nesse processo de adaptação entre o homem e a natureza, a realidade e a fantasia são fundidas, resultando no aparecimento dos elementos mais conhecidos das religiões primitivas: o culto aos antepassados, as práticas mágicas, o mundo dos espíritos, o animismo e o totemismo.

HISTÓRIA DAS CIVILIZAÇÕES. São Paulo: Abril Cultural, 1975. p. 31-35. Volume III.

Galeria de imagens:

Homem com arco e flecha e cão. Argélia

Gatos em combate. Líbia

Girafa e homens. Namíbia

Figura com atributos masculinos e femininos. África do Sul

Homens e girafas. Zimbábue

Cavalo e homem armado. Mauritânia

Guerreiro e girafas. Argélia

Tchitundu Hulu. Angola

Detalhe de duas pessoas copulando. Argélia

Mulher e cão. Malawi

Inscrição geométrica. Uganda

Homem lançando lança. Argélia

Figuras brancas com as mãos nos quadris. Tanzânia

Antílope. Marrocos

Homens e animais. Zimbábue

Rinocerontes. Botswana

Homem com arco. Argélia

Quatro homens correndo com equipamentos sobre os ombros. África do Sul

Vaca e animal simbólico. Somália

Camelo. Sudão

Crocodilo. Líbia

Dois homens nus com o pênis ereto. África do Sul

Guerreiro montado em cavalo. Chade

Leão, dois guerreiros com lanças e montados em cavalos. Abaixo, cães, uma mulher e um guerreiro. Nigéria

Arte rupestre. Mali

Homem sentado com as pernas cruzadas. Argélia

Camelo branco montado por guerreiro. Chade

Homem e vaca. Egito

Inscrição rupestre. Gabão

Vacas e bezerros. Etiópia

Elefante, homens e girafas. Quênia

Guerreiro. Nigéria

NOTA: O texto "Art rock made in África" não representa, necessariamente, o pensamento deste blog. Foi publicado com o objetivo de refletirmos sobre a construção do conhecimento histórico/antropológico.

quinta-feira, 25 de julho de 2013

Cultura e religião na África pré-colonial

A história do continente africano, geralmente, é construída de fora para dentro, com base nos interesses que buscaram (e buscam ainda) dominar a África e os africanos, mas também por culpa de africanos que se espelham e vivem à imagem dos povos que os dominaram, sem referência ao seu passado histórico. Segundo Ki-Zerbo (2010), é imperativo que a história e a cultura da África sejam também vistas de dentro, sem serem analisadas por parâmetros de valores exclusivamente europeus. Portanto, apesar dos mitos e preconceitos de todo tipo, que durante um longo período de tempo ocultaram a real história deste continente, existiu e existe até os dias de hoje culturas, religiões e grupos linguísticos diversos, bem como uma organização social própria dos povos africanos.



O continente africano é conhecido pela diversidade e pela riqueza de suas culturas e religiões, mas sobre o período pré-colonial a maioria dos filmes e documentários mostra uma imagem essencialmente primitiva e "bárbara". No entanto, essa visão não passa de um olhar racista e ideológico que busca descaracterizar o continente para poder controlá-lo com facilidade. Apesar disso, nenhuma dessas classificações pode apagar a história da mais antiga região do mundo, que é, culturalmente, um conjunto plural, um mosaico de nações étnicas correspondentes a identidades distintas.

Nesse sentido, Cheikh Anta Diop (1999) observa que não se deve construir a humanidade apagando a cultura de uns em benefício de outros e, tampouco, renunciando prematuramente e de forma unilateral sua cultura nacional no intuito de se adaptar à do outro em nome da simplificação da "globalização", pois isso seria um suicídio. Ou seja, importa resgatar as culturas africanas do período anterior ao colonialismo europeu, bem como suas relações com o resto do mundo, principalmente, devido às diferenças físicas, linguísticas e de organizações sociopolíticas que caracterizam a realidade africana.

Desse modo, podemos definir a cultura como sendo o conjunto da maneira de pensar, agir e se comportar de um povo que vive em coletividade, compartilhando símbolos e valores. Segundo Giddens (2004), o conceito de cultura se refere aos aspectos da sociedade humana que são apreendidos e não herdados, porém compartilhados pelos membros das sociedades e tornam possível a cooperação e a comunicação. Desse modo, a cultura é composta tanto por elementos materiais como por obras de arte, técnicas ou instrumentos de trabalho do grupo, bem como suas vestimentas, elementos espirituais ou religiosos que incluem ideias, crenças, normas, valores e costumes do grupo. Portanto, a compreensão de qualquer cultura deve evitar privilegiar, como foi feito no caso da África, o fator psicológico da identidade cultural em vez de considerar também as dimensões históricas e linguísticas (DIOP, 1987). No caso da África pré-colonial, a consideração desses elementos nos leva a falar, além da origem egípcia da civilização africana e mundial, da história dos Estados africanos conhecidos como impérios ou reinos, que foram grandes centros de divulgação da cultura africana.

Durante esse período, apesar do Deserto do Saara dividir o continente africano em dois, gerando o desenvolvimento de estilos de vida diferentes entre o norte e o sul, sempre houve trocas comerciais, culturais e sociopolíticas entre os povos das duas partes do continente. Assim o desenvolvimento de relações intercomunitárias e a organização no âmbito da formação de Estados foram facilitados. Um exemplo disso foi o Império de Gana, o mais antigo da parte ocidental do continente [...], que teve como respectivos sucessores os impérios Mali e Songhai. Essa sucessão mostra, em parte, a continuidade histórica dos povos africanos cuja base da civilização é a cultura egípcia, contrariando as afirmações das teorias que tentam distinguir a civilização e a cultura egípcia da dos demais povos do continente.

Segundo Diop (1999), a civilização do Egito Antigo é a base do patrimônio cultural, filosófico e científico de todos os africanos do continente, influenciando também a diáspora. Importa dizer que apesar de a África ser definida, primariamente, como um continente pobre e que pouco inovou, antes da colonização europeia o continente era uma das partes do mundo mais dinâmicas do ponto de vista da pesquisa e do florescimento cultural graças à organização política e socioeconômica de seus impérios. Assim, segundo Cissé (2010), na África Ocidental, por exemplo, mais especificamente na zona sudanesa-saariana, os contatos entre a população local e a cultura árabe-muçulmana, entre os séculos VIII e IX, propiciou uma grande produção de manuscritos em árabe nos principais centros urbanos como Gao, Djene e Timbuktu.

Considerando um intervalo de tempo um pouco maior, do século VII ao XVI, e sob vários aspectos, o continente africano passou por momento importante, pois este foi um período privilegiado para o desenvolvimento de culturas originais. Sem perder sua identidade, os africanos assimilaram influência externa. Foi nesta época que o grande Império do Sudão, situado ao sul do Saara, entrou em contato com a cultura e a religião islâmicas, as quais a partir de então passaram a fazer parte da cultura africana, convivendo quase que em harmonia com as religiões e crenças locais. Portanto, de forma oposta ao cristianismo, que chegou ao continente negro juntamente com os exploradores e futuros colonizadores europeus, o islamismo chegou à África pregado por africanos que tiveram contato com os fundamentos islâmicos a partir de viagens ao Oriente Médio. Conforme Diop (1999), a penetração do islã na África foi feita de forma pacífica, exceto o caso da islamização do movimento almoravida, durante a primeira metade do século XI, quando os berberes tentaram impor o islã pela força das armas.

Vale ressaltar que o contato dos africanos com o mundo árabe marcou o início de novos relacionamentos do continente negro com o exterior. Essas relações se intensificaram, resultando em formações sociais, políticas e culturais complexas, baseadas na diversidade que caracteriza o continente. Essa diversidade, por sua vez, dificulta a compreensão da formação, em termos de crença, de um sincretismo ou hibridismo religioso que se observa no continente até na atualidade. Desse modo, o entendimento das religiões africanas tradicionais se torna mais complicado devido à incorporação pelas mesmas de outros elementos provindos dos contatos com o exterior, notadamente do islamismo, e mais tarde do cristianismo.

Assim, segundo Tedanga (2005), para caracterizar as práticas religiosas na África tradicional os estudiosos das religiões e antropólogos do mundo moderno fabricaram todo tipo de denominação reducionista e ideológica das crenças africanas. Nesse sentido, encontramos na literatura conceitos como animismo, fetichismo, ancestralismo, magismo e totemismo, entre outros. Independentemente do termo ou conceito que se use, percebe-se a carga reducionista. No entanto, se considerarmos que fetichismo, animismo ou totemismo são três fenômenos da vida humana, é normal que a religião africana tenha interesse por eles, embora seja abusivo reduzir o conjunto de suas crenças focando somente esses elementos.



Importa dizer que as religiões da África são tão diversas quanto as línguas e etnias do continente, já que cada uma delas tem seus deuses, gênios ou ancestrais cuja adoração, ritos, oração ou sacrifício segue uma lógica única. Por isso, segundo Dieng (2007), à primeira vista tudo parece ser diferente entre as religiões dos dogons, dos malis e dos zulus da África do Sul, ou entre os pangos e os iorubás da Nigéria. Porém, um olhar mais aproximado pode diagnosticar algumas características fundamentais, que são idênticas entre esses cultos essencialmente destinados a ligar os homens ao mundo invisível, seja na forma natural ou sobrenatural. Na África, os povos têm mais ou menos a mesma concepção sobre seus ancestrais, sobre os gênios, seus modos de encarnação ou de reencarnação, bem como o entendimento sobre os vivos. Portanto, pode-se encontrar no totemismo e no fetichismo uma relação sutil entre o homem, o animal e a natureza.

Fica evidente que, do ponto de vista religioso, o continente africano apresenta uma rica variedade que reflete o importante papel das crenças nas organizações políticas e socioeconômicas. Isso mostra a importância da religião, da divindade ou do sagrado na vida dos africanos, bem mesmo antes da chegada das chamadas religiões reveladas (cristianismo e islamismo). [...]

Desse modo, pode-se afirmar que o monoteísmo africano é anterior ao islamismo, pois as religiões e o comportamento da maioria dos povos do continente se baseiam na moral e no respeito à vida em conjunto harmonioso, tanto entre os homens quanto entre eles e a natureza. Apesar da grande presença do islamismo na África Subsaariana nos séculos que antecederam à chegada do cristianismo e da colonização, importa sublinhar que a religião que dominava nos principais Estados ou impérios como Songhai, Mali e Benin, por exemplo, é aquela ligada às crenças ancestrais, as quais acreditavam em um ser supremo, do qual procedem todas as pessoas. Consequentemente, todos os indivíduos são valiosos e dignos de respeito. Ou seja, a cultura tradicional africana põe especial ênfase nas virtudes como a tolerância, a hospitalidade, a paciência e todos os valores que asseguram a harmonia social. Daí o rápido crescimento do cristianismo e do islã no continente, pois, segundo Dieng (2007), a rápida expansão dessas religiões na África se deve, em grande parte, ao sentido religioso, ao respeito e a tolerância inerente à cultura tradicional.

Nesse sentido, conclui-se que, do ponto de vista cultural, principalmente no que diz respeito à religião, a África tem sido uma grande precursora dos valores humanos incorporados pelas religiões reveladas (cristianismo e islamismo), apesar do discurso que anunciava a tarefa de "civilizar" os povos africanos a partir de seus valores. [...]

De qualquer modo, a religião dominante na África pré-colonial foi o animismo ou religião tradicional, apesar da islamização do continente a partir do século IX. O animismo consiste na crença em um único criador do universo que colocou um espírito em todas as coisas, sejam elas animadas ou não. Igualmente são cultuados os ancestrais, e se dá um valor particular à magia, notadamente a que cercam os ferreiros. Desse modo, percebe-se que a entrada e a expansão do islamismo se deram, principalmente, devido a essa coincidência de culto ao ser superior único, mas também por não ser uma religião de elite e aceitar sua expansão sem a erradicação do animismo (SYLLA, 1994). Nessa lógica, os seres são hierarquizados. Até o ser supremo, que pode ser confundido com o ancestral, nunca é uma abstração, mas sim energia viva, forças submetidas aos princípios de interação e que, como as forças físicas não mecânicas, podem se somar, se destruir ou se neutralizar (WADE, 2005).

Portanto, mesmo com a entrada das religiões monoteístas (islamismo e cristianismo), vale ressaltar que a religião tradicional continuou sendo a principal crença, pois nesse campo, na maioria das vezes, a aceitação e a adoção das religiões estrangeiras eram vistas pelos africanos como uma forma de receptividade e de acesso ao outro para fins comerciais. [...]

Grosso modo, a cultura e a religião são dois elementos fundamentais para o entendimento da sociedade tradicional africana [...]. Porém, continuam pouco conhecidas e, principalmente, encaradas a partir do etnocentrismo ocidental, pois sempre foi importante justificar a presença estrangeira no continente africano. Mas independentemente dos aspectos negativos dessa presença, importa dizer que as crenças tiveram uma influência profunda sobre a organização social africana, centrada no núcleo tradicional, baseada no clã dirigido pelos anciãos.

VISENTINI, Paulo Fagundes et al. História da África e dos africanos. Petrópolis: Vozes, 2013. p. 21-26.

sexta-feira, 1 de junho de 2012

Interpretação das tradições mitológicas

Ao redor do mundo, à medida que as pessoas buscavam se localizar no tempo e no espaço, elas desenvolveram explicações de como o mundo começou - mitos criacionistas - e histórias sobre como os seres humanos se tornaram parte do mundo - mitos de origem. O relato bíblico do judaísmo e do cristianismo sobre a criação está no Livro do Gênesis: "e Deus criou os céus e a terra". A Popol Vuh maia, oralmente transmitida até o século XVI, descreve a origem do povo Quiché maia inserido em uma história da criação:

Dobrada quatro vezes, curvada quatro vezes, medida, quatro vezes fortificada, dividindo em dois pela linha, esticando a linha no céu, na terra, os quatro lados, os quatro cantos... pelo Criador. Modelador, pai-mãe da vida, da humanidade, doador do sopro, doador do coração, provedor, portador da luz que permanece daqueles que nasceram na luz, foram gerados na luz; preocupado, conhecedor de tudo, tudo que há céu-mar, lago-mar. 

Criação Popol Vuh, Diego Rivera

Versões de suas origens, únicas para aborígenes australianos, refletem migrações arqueologicamente comprovadas que ocorreram talvez há 50 mil anos. As lendas referem-se à era da criação como "Era dos Sonhos", e elas explicam a migração de seus ancestrais para a Austrália em termos de crenças em espíritos ancestrais sobre-humanos que viveram durante a "Era dos Sonhos". O povo kakadu, da Austrália, acredita que a chegada de Imberombera, a Grande Ancestral Mãe Terra, foi por canoa, uma versão mítica de um evento que os arqueólogos e pré-historiadores aceitam, mesmo que canoa alguma - sendo elas artefatos perecíveis - tenha sobrevivido. A lenda kakadu explica um pouco mais o povoamento da Austrália com o fato de que quando Imberombera veio para a Austrália ela estava grávida, com seu útero cheio de crianças. Uma vez no continente, ela criou a paisagem natural - colinas, riachos, plantas e animais - e a povoou com suas crianças.

Assim como Imberombera, os atores nos dramas da criação são frequentemente divindades antropomórficas - deuses e deusas - que criaram a terra, geraram o universo e até mesmo deram à luz governantes humanos. De acordo com a mitologia japonesa, um casal de deuses, Izanami e Izanagi, deram à luz as ilhas japonesas e ao grande número de divindades:

Quando a matéria primordial cristalizou-se, mas ainda não haviam surgido o sopro da vida e as formas, não havia nomes nem ação. Quem pode saber sua forma? Contudo, quando o céu e a terra foram primeiramente divididos, as três divindades tornaram-se as primeiras de toda a criação. O Masculino e o Feminino aqui começam, e os dois espíritos (Izanagi e Izanami) eram os ancestrais de toda a criação.

A prole desses dois deuses inclui Amaterasu, a Deusa do Sol, que se tornou a divindade central do xintoísmo, ancestral da família imperial, e uma das muitas divindades solares, masculinas ou femininas, encontradas ao redor do planeta. Quando o irmão da Deusa do Sol a incomodou, ela se retirou para uma caverna e colocou uma pedra na entrada, trazendo escuridão ao mundo até que ela foi atraída para fora pelas danças e risadas de outras divindades. Essa era uma explicação japonesa antiga para o eclipse solar, e retrata o papel da performance de rituais e danças xintoístas para agradar a Deusa do Sol, garantindo a luz e o calor solar necessário para colheitas abundantes.

GOUCHER, Candice; WALTON, Linda. História mundial: jornadas do passado ao presente. Porto Alegre: Penso, 2011. p. 101-102.

quarta-feira, 9 de maio de 2012

Cultura afro-brasileira

Dança de negros, Zacharias Wagener

Texto 1: Calundu

No Brasil dos séculos XVII e XVIII, calundu representava a prática de curandeirismo e uso de ervas com a ajuda dos métodos de adivinhação e possessão. O termo calundu era associado à palavra "quibundo", de origem quimbundo (língua banto), que designa a possessão de uma pessoa por um espírito. As pessoas que praticavam o calundu eram conhecidas como curandeiras. Possuíam grande influência sobre a comunidade, pois eram consideradas importantes líderes religiosos. Por isso, eram sempre perseguidos pelas autoridades locais. Na cidade de São Paulo, por exemplo, algumas africanas curandeiras eram famosas, como Maria D'Aruanda e Mãe Conga, procuradas por serem "desinquietadoras de escravos".

Os curandeiros detinham o conhecimento de certas "técnicas medicinais". Na realidade, elas eram uma mistura de costumes africanos, portugueses e indígenas, que consistiam, basicamente, no uso de ervas, frutos e produtos naturais fáceis de encontrar. Com isso, os curandeiros atendiam a doentes de todas as camadas sociais, sobretudo os escravos, que possuíam poucos recursos. Além de produtos naturais, também sabiam manipular substâncias químicas, como venenos, sendo procuradas pelos escravos maltratados desejosos por matar os seus proprietários ou apenas por deixá-los mais tranquilos. Nesse caso, era-lhes dado algum calmante, que os tornavam inofensivos, parecendo estar sob efeito de encanto ou feitiço. Por isso, os curandeiros eram conhecidos como feiticeiros ou bruxos.

Esses indivíduos, na sua maioria africanos, eram considerados verdadeiros líderes, na medida em que conseguiam amenizar as agruras causadas pelo sistema escravista ao "amansar" ou até mesmo matar os senhores mais cruéis, curar as doenças dos cativos, prever-lhes um futuro melhor e, enfim, propiciar apoio e solidariedade aos seus companheiros. Dessa forma, eram perseguidos e controlados pelas autoridades locais.

Por conta de suas características, pode-se afirmar que a prática do calundu ou do curandeirismo recebeu influências das tradições da África Centro-Ocidental, nas quais, além dos ancestrais, outros indivíduos são dotados de caráter sagrado. É o caso dos reis, chefes, pais e os ligados à religião, como aqueles que praticam a adivinhação e o curandeirismo.

Nessas sociedades centro-ocidentais africanas, os valores positivos, como a saúde, a harmonia, a fecundidade e a riqueza eram considerados importantes. Tudo aquilo que era contrário, isto é, a doença, a inferioridade e a escravidão, resultava de feitiçarias provocadas por pessoas mal-intencionadas, por espíritos malévolos ou esquecidos pela comunidade. Para conseguir se livrar dos aspectos negativos e retomar a harmonia, era necessário, em primeiro lugar, descobrir a causa dos infortúnios. Por ser oculta, a causa só seria descoberta pelo curandeiro, que, dotado de um poder especial, se comunicava com os ancestrais, que a revelavam. Em segundo lugar, era preciso realizar cerimônias com danças, músicas e rituais de possessão, bem como utilizar símbolos, como os objetos sagrados e mágicos em homenagem aos ancestrais.

Para muitos africanos que estavam no Brasil, o calundu ou curandeirismo, além de ser uma oportunidade de expressar suas visões de mundo e crenças religiosas, era uma forma de luta e de resistência ao sistema escravista, uma tentativa de retomarem o que consideravam importante e que haviam perdido com a escravidão e a diáspora.

No conjunto de crenças africanas sobre o universo, em especial na região Centro-Ocidental, era (e ainda é até hoje) atribuída uma grande importância aos espíritos dos ancestrais, pois são considerados os seres intermediários entre o homem e o Ser Supremo, criador de todo o universo. Para tanto, os ancestrais são dotados de muita energia, chamada de energia vital, adquirida e acumulada durante a sua existência na Terra. Os ancestrais foram grandes homens, que tiveram uma existência repleta de ações dignas e realizações importantes. Deixaram, assim, uma lição, uma herança a ser seguida pelos seus descendentes.

Por isso, para se conseguir os valores positivos e levar uma vida com harmonia, não se poderia deixar de cultuar os seus ancestrais mortos, agradando-os com oferendas, sobretudo, aqueles que deram origem às comunidades. Ainda mais quando se acreditava que, com a morte, a energia vital poderia se dissipar. E, para que isso não ocorresse, era necessário realizar oferendas, preces e rituais fúnebres, objetivando a manutenção da energia vital mesmo depois da morte.

As oferendas e homenagens aos ancestrais eram oferecidas em lugares sagrados, em geral, no meio da natureza, debaixo de árvores, num bosque, em rios, ou mesmo em suas tumbas, nos cemitérios e altares construídos nas aldeias e nas encruzilhadas. Era muito comum oferecer alimentos e bebidas.

Além de serem cultuados e reverenciados, os mortos tinham que receber um enterro digno. Como verdadeiro rito de passagem, no qual acontece a separação física do mundo profano e a chegada do morto ao mundo sagrado dos ancestrais, os enterros deveriam ser realizados conforme as tradições, com velório, preparação do morto, sepultamento e luto.

MATTOS, Regiane Augusto de. História e cultura afro-brasileira. São Paulo: Contexto, 2008. p. 156-159.

Texto 2: Ilê Aiyê

Mulheres africanas, Surama Caggiano


Se me perguntares de que origem 
eu sou
Eu sou de origem africana
Com muito orgulho, eu sou [...]

Pisando firme no chão, cantando alto, valorizando suas raízes, o bloco Ilê Aiyê enche de alegria as ruas de Salvador, na Bahia. E mostra o quanto o Brasil é preto. Mesmo tendo sido abafada durante quatro séculos, a cultura negra espalha-se pelo país. E explode com força nos terreiros religiosos, nas rodas de samba, nos afoxés baianos, como o Filhos de Gandhi e o Badauê, no sonho de Buziga, compositor do Ilê Aiyê:

O que será do Ilê Aiyê
Será integração negras raízes
Pisando firme no chão
Até que um dia haverá de alguém
Compreensão, meu povo
Nós somos todos irmãos [...]

Em diversas cidades, inúmeros grupos negros buscam afirmar o valor de sua gente e denunciar as injustiças que vieram da escravidão. Eles continuam a luta de Zumbi, Isidoro, Chico Dragão do Mar, Tonho Paciência, Nico Mulungu, João Cândido e muitos outros. [...]

Dom José Maria Pires, negro, arcebispo da Igreja Católica de João Pessoa, na Paraíba, resume num sermão os novos tempos:

- Pretos, meus irmãos! Como nossos antepassados, viemos de vários lugares. Diferentes deles, trazemos na pele colorações variadas. Na alma, crenças diferentes. Mas neles e em nós estão presentes as marcas da negritude. Somos negros e não nos envergonhamos, não queremos mais nos envergonhar de sê-lo!

ALENCAR, Chico et alli. Brasil vivo 2: a República. Petrópolis: Vozes, 1991. p. 255.