"Os espelhos estão cheios de gente.
Os invisíveis nos vêem.
Os esquecidos se lembram de nós.
Quando nos vemos, os vemos.
Quando nos vamos, se vão?"
Eduardo Galeano: Espelhos
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segunda-feira, 28 de novembro de 2016

Os libertinos. A Antiguidade em lugar do Cristianismo (Parte 4)

A lição de amor, Jean-Antoine Watteau

Mais grave talvez do que todos esses ataques é o fato de a Antiguidade fornecer o meio de dispensar o cristianismo. Deseja alguém dirigir uma casa, educar filhos? Eis Xenofonte. Governar? Há Aristóteles, Platão, Tácito. Conhecer as leis do Universo? Que leia Plínio, Lucrécio. Instruir-se acerca dos limites entre a natureza e o milagre? Cícero escreveu o De divinatione. Refletir sobre a imortalidade da alma? Aí estão o Fédon e o Sonho de Cipião. Sobretudo os Antigos proporcionavam doutrinas que permitiam ao homem bastar-se a si próprio para enfrentar as dificuldades, as penas, as angústias da vida, doutrinas onde a razão soberana dita os atos que uma vontade livre executa. Para Epicuro, a felicidade constitui-se de dois estados: "Corpo sem dor, alma sem inquietação". Estes dois estados são a voluptuosidade, objetivo essencial de nossa natureza, primeiro bem do homem. A razão sã dita os objetos e as opiniões que é preciso evitar ou procurar a fim de atingir tais estados. A razão levar-nos-á a rejeitar grandes prazeres, se maiores penas devem segui-los, ou a aceitar grandes e prolongadas penas, se prazeres hão de acompanhá-las. A razão mostrar-nos-á que a frugalidade, a honestidade, a justiça nos conduzem aos estados de onde surge a voluptuosidade, que a felicidade e a virtude formam duas irmãs inseparáveis. A moral do prazer convertia-se, assim, num prudente cálculo utilitário. [...]

Outros preferiam os estóicos, Epicteto, Sêneca, cujo estoicismo se matiza de epicurismo. Existem coisas que dependem de nós, a opinião, o querer, o desejo, a aversão e, em geral, os nossos julgamentos e as nossas representações. Somos os seus amos. Nossa imaginação nos dá o poder de representar as coisas no espírito, de vê-las como boas ou más, de desejá-las ou rejeitá-las, de suportá-las ou repeli-las. A faculdade de julgar e querer é absolutamente livre.

Existem coisas, entretanto, que não dependem de nós, o corpo, os bens, a reputação, a dignidade. Elas nos são estranhas. Dependem dos outros.

Se desejamos aquilo que só depende de nós, isto é, bem julgar e conformar nossa vontade ao nosso julgamento, seremos felizes, pois a felicidade consiste em obter o que desejamos.

Os estóicos não eram raros entre os magistrados e os fidalgos. Até um religioso pediu que o amortalhassem com um volume de Sêneca do qual jamais se separara. Mais numerosos, contudo, eram os epicuristas. O epicurismo transformou-se facilmente num utilitarismo que comprazia ao espírito burguês. [...]

MOUSNIER, Roland. Os séculos XVI e XVII. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1995. p. 340-341. (História geral das civilizações, 9).

sábado, 26 de novembro de 2016

Os libertinos. Os povos exóticos e a religião natural (Parte 3)

O banquete do amor, Jean-Antoine Watteau

As descobertas geográficas forneciam novas armas. Os selvagens da América haviam permitido que Montaigne escarnecesse da razão, dos costumes da religião, dos povos cristãos. A China proporcionou os meios de uma operação idêntica aos libertinos do século XVII. La Mothe Le Vayer, em 1642, no seu tratado Da Virtude dos Pagãos, afirmava que se, de acordo com a Igreja, os filósofos pagãos que de fato viveram confortavelmente à lei natural, antes da lei de Moisés, puderam salvar-se, era mister admitir o mesmo em relação aos sábios das nações em cujo meio os apóstolos não pregaram o cristianismo. Ora, a pregação de Cristo não chegara à China. Entretanto, a religião chinesa é mais pura que a dos gregos, dos romanos ou dos egípcios, pois não recorre aos prodígios e, desde tempos imemoriais, os chineses adoraram um só Deus. Confúcio, o Sócrates da China, acreditava na existência de um Deus único e adotara como princípio o próprio princípio da lei natural: jamais fazer a outrem o que não gostaríamos que nos fizessem. Portanto, é possível a salvação de Confúcio e dos chineses. A ideia central era a da bondade da natureza que tende a destruir a crença no pecado original, na necessidade da Redenção através de Cristo, na necessidade da Graça, fundamentos do cristianismo.

Propagou-se também a ideia de que todos os povos da América, da Ásia, das terras austrais, não descendiam de Adão, que a Bíblia continha, pois, apenas a história de um povo, o povo judeu. A Bíblia não tinha o valor eminente que a Igreja lhe atribuía.

[...]

MOUSNIER, Roland. Os séculos XVI e XVII. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1995. p. 339-340. (História geral das civilizações, 9).

quinta-feira, 24 de novembro de 2016

Os libertinos. A libertinagem de espírito. O ceticismo dos libertinos (Parte 2)

A surpresa, Jean-Antoine Watteau

O movimento cético contribuía para distanciar do cristianismo baseado em razões. O cristianismo dos libertinos pretende de um lado que, remontando aos objetos criados ao Criador, é possível provar a existência de Deus, de outro, que uma crítica histórica racional estabelece os fatos históricos de onde podemos inferir a divindade de Cristo. Ora, os libertinos eram todos pirrônicos, céticos absolutos: La Mothe Le Vayer dizia, em 1630, no diálogo de Orasius Tubero:

Toda a nossa vida, pensando bem, não passa de uma fábula; nosso conhecimento, de uma asneira, nossas certezas, de contos; em suma, todo este mundo não passa de uma farsa e de uma comédia perpétua.

Movidos pela sensibilidade barroca, ampliaram e desenvolveram a lição dos grandes italianos da Renascença e de Montaigne. [...]

Desse materialismo resultavam inúmeras consequências. Primeiro, a impossibilidade de saber algo a respeito da essência das coisas. Nossos sentidos só nos permitem alcançar uma verdade relativa, o que nos basta para a prática. A natureza real das coisas escapa-nos. O que valem as especulações acerca da natureza do Ser e da natureza de Deus? O que valem mesmo as provas da existência de Deus? O que vale esta prova da existência de Deus pelo consentimento universal dos povos que possuiriam. todos, a ideia inata de Deus? Não possuímos ideia inata, tudo vem dos sentidos e a imaginação combina os dados dos sentidos de formas tão diversas que muita gente talvez não tenha ideia alguma de Deus. Para Gassendi, tal ideia de Deus, com suas noções de infinito, eternidade, perfeição, onipotência e bondade suprema, não é - porquanto todas as ideias gerais procedem dos sentidos - senão a extensão e o engrandecimento das perfeições constatadas na espécie humana. Deus é o Homem desenvolvido ao extremo.

Provinha daí a desconfiança no tocante ao testemunho histórico. Como fiar-se em testemunhas cujas ideias se formam de modo a permitir tais possibilidades de erro? [...] Em geral, os fundadores e os chefes de Império apresentam-se como órgãos de uma divindade a fim de formar sua autoridade. Os monges da Tebaida inventava, falsas histórias de combates com o Diabo para conquistar renome e subtrair dinheiro dos ingênuos. A conversão de Clóvis, a vocação de Joana d'Arc, a inspiração de Maomé por Gabriel e a de Moisés por Deus constituem subterfúgios políticos. Mas no que se transformam então os testemunhos evangélicos e o cristianismo?

MOUSNIER, Roland. Os séculos XVI e XVII. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1995. p. 337-339. (História geral das civilizações, 9).

terça-feira, 22 de novembro de 2016

Os libertinos. Condições políticas da libertinagem (Parte 1)

Prazeres do amor, Jean-Antoine Watteau

Grupos de homens, unidos sob a mesma denominação de libertinos, apresentavam como característica comum a rejeição do cristianismo, na teoria e na prática, e a adoção de uma vida pagã ou de uma concepção pagã da vida. Continuavam os críticos racionalistas do Renascimento, Pomponazzi, Maquiavel e o príncipe dos céticos, Montaigne. Como eles, utilizavam os Antigos. A Antiguidade integral passara ao ensino. Um jovem encontrava nos autores latinos e gregos tudo o que era necessário à vida: moldava uma alma antiga e anticristã.

Tais homens afastavam-se do cristianismo em primeiro lugar devido aos maus costumes do clero, que os Estados recrutavam por motivos políticos: padres ignorantes que haviam esquecido até a fórmula da absolvição, freiras devassas, abadessas mundanas, prelados de vida pouco edificante, abades que eram crianças de peito, cônegos escolares, padres bêbados [...]. Um reformador dizia: "O que se faz de pior... passa-se entre os eclesiásticos". As controvérsias religiosas, as discussões de teólogos, ortodoxos e jansenistas, gomaristas e arminianos, trazidas a público e desprovidas amiúde de elementar caridade, enfastiavam. As guerras de religião desconsideravam e aviltavam a religião. Em nome de Cristo e do Evangelho, os homens injuriavam-se, caluniavam-se, semeavam a imundície em panfletos rancorosos, descomedidos, escandalosos, traíam, assassinavam. Acabava-se duvidando de que houvesse uma verdade religiosa e aos poucos insinuava-se a ideia de que a religião talvez fosse nefasta. As guerras civis e estrangeiras desbridavam a violência dos instintos e destruíam o respeito à religião. No curso das campanhas, as igrejas eram invadidas, os ornamentos roubados, os tabernáculos quebrados, os cibórios arrebatados, as hóstias profanadas. A vida dos acampamentos favorecia a vida dos sentidos, o abandono aos impulsos da carne, as pilhagens, as rapinas, os estupros. a galanteria, a bebida; afastava os homens de uma religião da pureza, que procurava derivar todos os poderes do indivíduo para o puro amor a Deus, para a santidade perfeita e imaculada.

MOUSNIER, Roland. Os séculos XVI e XVII. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1995. p. 336-337. (História geral das civilizações, 9).

segunda-feira, 19 de setembro de 2016

Família e sexualidade na Europa Medieval: a família romana

Neste afresco romano, uma sacerdotisa do deus Baco dança tocando pratos. Para os romanos, o amor era fonte de prazer e símbolo da vida, incorporado na religião. A moral cristã tentou reverter essa característica. Vila dos Mistérios, Pompeia.

Na Roma pagã as pessoas casavam mais por dever cívico e interesse político do que por amor. O desejo, o amor e a afetividade ocorriam mais fora do casamento do que dentro dele. A procura do prazer pelo homem fora do casamento, desde que não afetasse a ordem social, era considerada normal.

De maneira geral, a mulher estava submetida à autoridade do homem, primeiro como filha e depois como esposa. Mas, como sempre acontece, essa submissão não era absoluta. Na política e no espaço público, o homem romano, aparentemente, decidia tudo, mas no espaço doméstico predominava a mulher, a administradora do lar. Esta possuía uma posição honrosa, mas tanto a lei como os costumes procuravam limitar o seu espaço às fronteiras domésticas.

O poder do marido era contrabalançado de várias maneiras. A figura do pai, por exemplo, ficava acima da do esposo, pois o matrimônio romano era sine manu, ou seja, a autoridade paterna não se transferia ao marido.

Mesmo na casa do pai, a mulher possuía alguma liberdade. Aquelas em idade de casar podiam administrar os seus bens e escolher seu marido. Mas sua ação era restringida pelo padrão duplo que regia o comportamento sexual: o homem tinha liberdade de procurar o prazer fora do casamento, mas a mulher não.

Convém ressaltar que as informações que temos sobre a mulher na sociedade romana antiga se referem quase exclusivamente às mulheres das famílias aristocráticas. Mas é possível saber que as das classes mais baixas, especialmente as escravas, tinham poucas opções de decidirem sobre as suas vidas. Se os seus senhores as achassem atraentes, tornavam-se suas concubinas.

Essa família romana tradicional, na fase de decadência do Império Romano do Ocidente e de ascensão da Igreja (séculos IV e VI), já estava bastante transformada pelo cristianismo. Este deu oportunidade à mulher de se tornar uma pessoa independente, e não somente filha, mulher e mãe de alguém.

Na visão cristã primitiva, as mulheres são seres espirituais com a mesma potencialidade dos homens para a perfeição moral. No entanto, a evolução do cristianismo primitivo para a institucionalização da religião e a formação da Igreja Católica [...] n]ao favoreceu a mulher.

A vitória do cristianismo na sociedade romana dependeu de uma acomodação entre o comportamento dos cristãos e os interesses do Estado. O radicalismo primitivo, que fazia com que as autoridades romanas vissem o cristão como um mau cidadão, teve de ser atenuado. O casamento e a sexualidade, que antes eram tidos como obstáculos à salvação, passaram a ser compatíveis com a religião.

A acomodação entre a moral romana e a cristã no que se refere à sexualidade foi bastante problemática. O amor era visto pelos romanos como sagrado, misterioso, fonte de vida e de prazer. Os primitivos cultos aos deuses romanos da fertilidade e do amor incluíam o uso de símbolos fálicos e relações sexuais entre os que cultuavam esses deuses.

Bem ao contrário, a sexualidade na moral cristã está ligada ao pecado e, como tal, é uma fraqueza a ser vencida no caminho da salvação. Esse cristianismo primitivo considerava de modo negativo o próprio matrimônio e a procriação. O casamento era visto como uma concessão às exigências do corpo. Os prazeres da vida desviaram o crente do verdadeiro caminho.

A vitória do cristianismo, que acabou se tornando a religião oficial do Império Romano, fez com que a visão romana tradicional sobre a sexualidade fosse suplantada pela moral cristã, mas esta teve de alterar o seu radicalismo original para se tornar aceita pela maioria da população.

PEDRO, Antonio; LIMA, Lizânias de Souza. História por eixos temáticos. São Paulo: FTD, 2002. p. 219-221.

terça-feira, 9 de agosto de 2016

Hipátia

Hipátia, Alfred Seifert


- Vai com qualquer um - diziam, querendo sujar sua liberdade.

- Nem parece mulher - diziam, querendo elogiar sua inteligência.

Mas numerosos professores, magistrados, filósofos e políticos acudiam de longe até a Escola de Alexandria, para escutar sua palavra.

Hipátia estudava os enigmas que tinham desafiado Euclides e Arquimedes e falava contra a fé cega, indigna do amor divino e do amor humano. Ela ensinava a duvidar e a perguntar. E aconselhava:

- Defende o teu direito de pensar. Pensar errado é melhor que não pensar.

O que fazia essa mulher herege ditando cátedra numa cidade de machos cristãos?

Era chamada de bruxa e feiticeira e a ameaçavam de morte.

E num meio-dia de março do ano de 415, a multidão se atirou em cima dela. E foi arrancada de sua carruagem e despida e arrastada pelas ruas e golpeada e apunhalada. E na praça pública a fogueira levou tudo o que restava dela.

- Haverá uma investigação rigorosa - prometeu o prefeito de Alexandria.

GALEANO, Eduardo. Espelhos: uma história quase universal. Porto Alegre: L&PM, 2015. p. 69.

segunda-feira, 30 de novembro de 2015

Os primeiros tempos do Cristianismo

Ecce homo!, Antonio Ciseri. 
[Pôncio Pilatos apresentando Jesus ao público]

Na Judéia um simples procurador de Roma mantinha a ordem e controlava os impostos, enquanto a administração era exercida pelos próprios judeus através do Grande Conselho, chefiado pela autoridade máxima civil e religiosa do povo hebreu, o sumo sacerdote do Templo de Jerusalém.

Em todos os portos do Mediterrâneo os judeus dispersados pelos romanos continuavam a pregar a religião hebraica, a reunir seus adeptos em sinagogas, a esperar a vinda de um messias que, segundo os profetas, libertaria o povo judeu do jugo estrangeiro, vingaria as humilhações sofridas e imporia ao universo o verdadeiro deus. Muitos falsos messias, no entanto, já haviam surgido, levando assim o Grande Conselho a desconfiar de quantos aparecessem.

Por outro lado, os romanos consideravam estranho e mesmo perigoso esse povo que teimava em não reconhecer os deuses oficiais de Roma.

Jesus Cristo. De acordo com as narrativas dos Evangelhos, no Novo Testamento, nasceu em Belém durante o reino de Augusto, na Galiléia (região da Palestina), o homem que, por seus ensinamentos e por seu exemplo, exerceria uma das mais significativas influências sobre a história e a religião: Jesus.

Com a idade de 30 anos, acompanhado de doze apóstolos (= enviados), começou a percorrer as terras da Galiléia e da Judéia, aí difundindo sua mensagem pelo espaço de três anos. A pregação de Jesus prometia aos homens vida eterna, liberação moral e espiritual. Muitos viram nele o verdadeiro messias (em grego, Cristo); outros, porém, o combateram como inimigo, embora Cristo houvesse declarado que não viera para abolir a lei e sim para mantê-la, além de pregar a não-violência, a caridade, o amor ao próximo, o perdão, a justiça, a misericórdia divina.

O Grande Conselho o acusou de blasfêmia contra Jeová e exigiu do procurador romano Pôncio Pilatos que Jesus fosse condenado à morte. Pilatos não quis indispor-se com o Conselho e tolerou a crucificação de Jesus, pena infligida pelos romanos a bandidos, ladrões e traidores.

Nesse mesmo tempo, na época do procurador romano Pilatos, apareceu Jesus, que era um homem sábio, se todavia devemos considerá-lo simplesmente como um homem, tanto suas obras eram admiráveis. Ele ensinava os que tinham prazer em ser instruídos na verdade e foi seguido não somente por muitos judeus, mas mesmo por muitos gentios. Era o Cristo. Os mais ilustres da nossa nação acusaram-no perante Pilatos e ele fê-lo crucificar. Os que o haviam amado durante a vida não o abandonaram depois da morte. Ele lhes apareceu ressuscitado e vivo no terceiro dia, como os santos profetas o tinham predito e que ele faria muitos outros milagres. É dele que os cristãos, que vemos ainda hoje, tiraram seu nome. (Flávio Josefo, História dos hebreus, v. 5)

Após a morte de Jesus, a despeito da oposição das autoridades judaicas, alguns dos apóstolos continuaram a difundir os ensinamentos de Cristo, congregaram seus seguidores, chamados cristãos, em núcleos organizados na Palestina, sobretudo em Jerusalém. Outros apóstolos, ajudados por novos adeptos, pregaram o cristianismo nas sinagogas das principais cidades do Mediterrâneo. Dois livros do Novo Testamento - Atos dos Apóstolos e Epístolas de São Paulo - nos revelam qual foi a atividade que se desenvolveu para difundir a nova religião.

Os esforços dos apóstolos alcançaram resultados surpreendentes, tanto assim que, no fim do século I, além dos núcleos ao longo do Mediterrâneo, já existiam também em Roma importantes comunidades cristãs, constituídas principalmente de gente das classes pobres, de artesãos e de escravos. E no século II o cristianismo já estava instalado na península ibérica, na Gália, na África, e penetrara em todas as classes sociais, inclusive nos círculos ligados ao imperador e sua família.

Surgiu a assembléia cristã (eclésia, daí Igreja). As várias assembléias reuniam-se ora em residências particulares, ora em seus cemitérios subterrâneos, chamados catacumbas, onde os fiéis, em lembrança da última ceia de Jesus em companhia dos apóstolos, participavam da cerimônia da comunhão. dividindo, entre todos, o pão e o vinho.

Como a religião cristã se contrapunha à religião do Estado romano, provocou um período de perseguições que se estendeu, ora mais, ora menos violento, do século I (desde Nero) até o século III. Essas perseguições, suportadas pelos cristãos com extraordinária coragem, ao invés de enfraquecer o cristianismo, só contribuíram para fortalecê-lo e difundi-lo ainda mais, provocando grande crise religiosa no Império Romano e contribuindo para abalar-lhe os alicerces.

HOLLANDA, Sérgio Buarque de (org.). História da Civilização. São Paulo: Nacional, 1974. p. 105-7.

domingo, 2 de agosto de 2015

O baptismo do eunuco etíope

O baptismo do eunuco, Rembrandt

[...] o termo que se costuma traduzir por "eunuco" pode ter vários significados nos escritos arcaicos. Em português e noutras línguas modernas significa "homem castrado que se destinava à guarda das mulheres nos haréns", correspondendo à sua raiz grega que significa "guardião dos leitos". Na Antiguidade também se chamava assim ao secretário ou favorito de um rei, talvez porque também lhe podia vigiar o leito. Podemos então supor que nas versões actuais de textos milenares, como é o caso da Bíblia, o termo "eunuco" refere em geral o homem que copula com outros homens, quer seja hermafrodita, castrado ou tenha características sexuais normais. O próprio Jesus Cristo dá aos seus discípulos uma explicação um tanto ou quanto enigmática sobre este assunto:

"Disseram-lhe os discípulos: se tal é a condição do homem com a mulher, é preferível não se casar. Ele respondeu-lhes: nem todos podem entender assim, a não ser aqueles a quem é concedido. Porque existem eunucos que nasceram assim, eunucos que foram feitos pelos homens e eunucos que se fizeram a si próprios por amor ao reino dos céus. Quem puder entender, que entenda."

A explicação anterior é perfeita para entender uma história dos Actos dos Apóstolos, que ocorreu quando o fundamentalista judaico Paulo de Tarso devastava a comunidade cristã de Jerusalém. Um anjo do Senhor apareceu ao apóstolo Filipe dizendo-lhe para se dirigir para sul, pelo caminho que levava a Gaza. "Pôs-se logo a caminho", diz o texto bíblico, "e encontrou-se com um homem etíope, eunuco, ministro de Candace, rainha dos Etíopes, intendente de todos os seus tesouros.". O forasteiro regressava de uma peregrinação a Jerusalém no seu carro e lia um texto de Isaías em voz alta. Filipe aproximou-se e perguntou se o compreendia. "Ele respondeu-lhe: como vou compreendê-lo se ninguém me conduzir? E pediu a Filipe para subir e se sentar a seu lado" (Actos, 8: 27-31). Enquanto lhe explicava uma passagem bíblica, Filipe aproveitou para levar a água ao seu moinho e anunciou-lhe a boa nova trazida por Jesus.

Pouco depois, chegam a um lugar onde havia água e o eunuco perguntou-lhe se podia ser baptizado como cristão. E continua o texto do Novo Testamento: "Filipe disse: se acreditas de todo o coração, claro que podes. E (o outro), respondendo, disse: acredito que Jesus Cristo é o Filho de Deus. Mandou parar o carro e desceram ambos até à água, Filipe e o eunuco, e baptizou-o. Quando ambos regressavam, o Espírito do Senhor arrebatou Filipe e o eunuco nunca mais o viu, continuando alegre o seu caminho" (ibid, 37-39).

A inclusão nas Escrituras desse episódio do eunuco "alegre" é utilizada pelos movimentos gay cristãos como prova de a Igreja primitiva ter aceitado sem quaisquer problemas o baptismo dos homossexuais. Na nossa opinião e na de vários estudiosos mais autorizados, a questão é muito mais simples. A reviravolta doutrinal que o gesto de Filipe produziu em Jerusalém não se deveu tanto ao facto de o convertido se tratar de um eunuco, mas ao facto de ser um gentio, ou seja, um estrangeiro. O evangelista Lucas, autor dos Actos dos Apóstolos, não parece interessar-se especialmente pela tendência sexual do viajante, que menciona apenas para apresentar a personagem, nem na sua nacionalidade ou no seu cargo de intendente. Por outro lado, o apóstolo de Betsaida, ao dar o baptismo a um etíope, toma uma posição activa numa das principais controvérsias que ocupava na época os pais do cristianismo: seria a mensagem de Jesus Cristo apenas uma variante renovadora da tradição mosaica ou uma nova religião independente e ecuménica, que transcendia o âmbito do judaísmo? A resposta estava nas mãos do santo que, nessa altura, se dedicava a prejudicar os cristãos.

TOURNIER, Paul. Os Gays na História. Lisboa: Editorial Estampa, 2006. p. 86-89.

quinta-feira, 25 de dezembro de 2014

Esconder os cabelos das mulheres: a longa história do véu

Mulher em pé segurando seu véu. Beócia (?). Figurino de terracota, ca. 400-375 a.C. 
Foto: Jastrow

O véu era de uso corrente no mundo mediterrâneo antigo. Mas sem obrigação religiosa. É certo que em vários ritos sacrificais greco-romanos deve-se cobrir a cabeça; mas isso vale para os dois sexos. Nem o Antigo Testamento nem os Evangelhos fazem exigências quanto a isso.

O apóstolo Paulo inova. Na primeira Epístola aos Coríntios (11, 5-10), ele escreve que, nas assembleias, os homens devem se descobrir e as mulheres se cobrir.

Toda mulher que ora ou profetiza, não tendo a cabeça coberta, falta ao respeito ao seu senhor, porque é como se estivesse rapada. Se uma mulher não se cobre com um véu, então corte o cabelo. Ora, se é vergonhoso para a mulher ter os cabelos ou a cabeça rapada, então que se cubra com um véu.

Porque a mulher foi criada para o homem, “a mulher deve trazer o sinal da submissão sobre sua cabeça, por causa dos anjos”. As mulheres devem calar-se nas assembleias. Usar o véu ao profetizarem. Usar o véu como sinal de dependência: “a mulher deve trazer sobre sua cabeça o sinal da autoridade”.

Depois de Paulo, os Pais da Igreja acrescentam exigências. Tertuliano, de sua parte, dedica dois tratados ao que se tornou uma preocupação maior da cristandade nascente: Le Voile dês Virges e La Toilette dês femmes.

Assim, o véu reveste-se de significações múltiplas, religiosas e civis, para com Deus, e para com o homem, seu representante. Ele é sinal de dependência, de pudor, de honra.

O véu é sinal de autoridade: já em Roma, uma mulher casada que sai sem seu lenço, a rica, pode ser constrangida ao divórcio. As moças não usam véu: reivindicam não usá-lo. A mulher casada é propriedade de alguém, logo deve ser velada. O véu é instrumento de pudor. Tertuliano considera as toucas e os lenços insuficientes. É preciso velar o corpo das mulheres, e sua cabeleira, objetos de tentações.

Sinal de virgindade, o véu figura o hímen. O véu da noiva é um véu nupcial que apenas o marido deve retirar, assim como é ele que deflora o hímen. Significa oblação, oferenda, sacrifício da esposa.

Ou ainda, véu de oblação da religiosa, que, no dia em que professa, oferece sua cabeleira a Deus e põe o véu para ele. A Igreja faz do véu das religiosas uma obrigação, o selo de sua castidade e de seu pertencimento a Deus, sobretudo a partir do século IV. A Igreja impõe o véu às religiosas e aconselha-o às demais mulheres; devem, pelo menos, ter a cabeça coberta.

Essa prescrição, por vezes, é difícil de aceitar. Marguerite Audox, em seu romance autobiográfico, Marie-Claire, põe em cena uma religiosa que sofre com essa exigência: “Quando me visto, parece que entro numa casa que está sempre às escuras”, diz a irmã Desiree dês Anges; à noite, ela tira, com prazer, hábito e véu e deixa livres os seus cabelos, para grande escândalo de suas “irmãs”, que suspeitam de que ela tenha traído seus votos de castidade. Véronique “julgou que era vergonhoso para uma religiosa deixar ver seus cabelos”.

A questão do véu foi um ponto central nas discussões do Concílio Vaticano II, entre os clérigos e as religiosas, que pediam para tornar mais leves suas roupas, tão pouco compatíveis com as exigências da vida moderna. Fiéis aos Pais da Igreja, os clérigos, eles próprios dispostos a se laicizar, resistiram e mantiveram a obrigação do véu, simplificando-o, no entanto.

As mulheres de Argel em seu apartamento, Eugène Delacroix

As relações entre o islã e o véu são controversas [...]. Segundo Malek Chebel, o Corão não estabelece nenhuma obrigação a esse respeito. Mas o islã cresceu no seio de culturas mediterrâneas que ocultam as mulheres, as mantêm confinadas (gineceu, harém, mulher escondida da cultura árabe-andaluza). O uso do véu pelas próprias mulheres é complexo, como o mostram, para as argelinas, os romances de Assia Djebar. Num mundo de homens, o véu é, para elas, a única possibilidade de circular no espaço público. Na época da Guerra da Argélia, a “mulher sem sepultura” de Cesareia (Cherchell) dissimula suas ligações com o maquis sob o véu. Hoje, as mulheres iranianas, mesmo sendo muito liberadas, usam o véu para se proteger, abrigar-se do olhar, do poder e dos homens. Sob o véu, elas se vestem como querem.

Mas, e talvez seja um sinal de resistência à arabização, as mulheres berberes não usam véu. As feministas do Magreb, embora minoritárias, fazem da recusa ao uso do véu uma afirmação de sua liberdade: é o que acontece no Marrocos.

Ainda mais quando o fundamentalismo pretende submetê-las a isso. O véu é um símbolo de dominação das mulheres e de seu corpo. Eu te ponho um véu porque tu me pertences, Compreende-se que seja um objeto de discórdia, que, na França, está presente tanto no movimento de reivindicações Ni putes ni soumises [Nem putas nem submissas] quanto aos debates em torno da lei sobre a proibição do véu na escola pública, os quais dividiram as próprias feministas.

PERROT, Michelle. Minha história das mulheres. São Paulo: Contexto, 2013. p. 56-58.

quarta-feira, 4 de junho de 2014

Civilização e vida espiritual nos Reinos Bárbaros do Ocidente III: A Igreja e a evangelização

Hermann e Thusnelda, 
Johann Heinrich Wilhelm Tischbein

As migrações bárbaras, sem dúvida alguma, favoreceram a reaparição de antigas heresias, muitas vezes latentes nas populações rurais. Isso ocorre na África e, sobretudo, na Espanha [...].

Os godos, antes de seu estabelecimento no Ocidente, haviam sido convertidos ao cristianismo. Porém conduzidos por Ulfila, um dos seus que estivera em Constantinopla quando do triunfo do arianismo, tornaram-se arianos. Ulfila foi consagrado bispo em 341 e, por volta do fim do século, as conversões maciças multiplicaram-se entre os godos. A fé ariana propagou-se a seguir entre os vândalos, borgúndios, suevos e, mais tarde, entre os lombardos. O antagonismo religioso foi, constantemente, um obstáculo à fusão entre germanos e romanos: igrejas separadas, proibição de casamentos, conversões difíceis. Na África, sérias perseguições provocadas certamente também pelo desejo de exterminar a aristocracia romana e a autoridade dos bispos, expulsam os cristãos de suas igrejas, forçam comunidades inteiras ao exílio na Espanha. Outros povos, é verdade, foram mais tolerantes, porém o problema ariano retardou em todo lugar a unidade e ameaçou a paz interior.

[...]

Muito mais difícil e longa foi a evangelização dos pagãos. Na Gália e no norte da Espanha, presencia-se, no século V, um vivo reflorescimento de antigas superstições e idolatrias. A chegada dos germanos, dos francos principalmente, reforça efetivamente esse paganismo, que havia, outrora, resistido às tentativas dos romanos e dos bispos. Sem dúvida, a conversão de reis e chefes foi rápida e espetacular. [...] De fato, no século VI ainda, se as cidades contam com sólidas comunidades cristãs reunidas em torno de seus bispos, a massa da população rural, na Gália, e mais ainda na Germânia além do Reno, permanece ligada às suas antigas crenças. A mesma palavra, paganus, designa, então o camponês e o pagão.


Germano com pele de urso polar, Hermann Katsch 

Dessa ligação às superstições e ao paganismo dão testemunhos a literatura da época [...], as práticas e o mobiliário funerário estudado por E. Salin. Os homens carregam inúmeros amuletos, presas de javalis, dentes de ursos, medalhões de resina ou de âmbar. Alimentam fogos purificadores sobre os túmulos, onde são celebradas refeições rituais. Levam oferendas aos deuses das fontes, dos lagos e das florestas; outros adoram o Sol e o fogo, cujos símbolos (rodas estilizadas, monstros contorcidos) enfeitam as pedras e os objetos familiares; outros, na Germânia, erguem ainda templos às divindades do antigo panteão romano, a Diana, por exemplo.

Nos primeiros tempos bárbaros, o bispo permanece como o único senhor da cidade, encarna a única força espiritual do momento e, muitas vezes, se identifica mesmo com a “nação” romana. Nessa época conturbada, a escolha dos cristãos recai freqüentemente sobre um leigo, pio e poderoso, já acostumado ao andamento dos assuntos públicos, Membro da aristocracia, rico proprietário, administrador experiente, o bispo protege a cidade contra pilhagens e desordens; assegura o abastecimento e controla o mercado, constrói e mantém hospitais e escolas. Perto da catedral faz trabalhar um grupo de pequenos artesãos e lojistas.

Os campos, porém, permanecem ainda, no século VI, pouco influenciados pela vida cristã. As paróquias são pouco numerosas e isoladas [...].

As conquistas longínquas do cristianismo, entretanto, na Gália do Norte e na Germânia, foram principalmente obra de monges missionários ligados, em sua maioria, a duas grandes famílias espirituais, por muito tempo opostas.

Psiquê, Évariste Vital Luminais

A Irlanda, situada à margem do mundo romano e, posteriormente da Bretanha anglo-saxônica, conserva seus antigos costumes, suas estruturas políticas e sociais bem particularizadas: grandes famílias tribais dominadas por chefes, reis, submissos eles próprios a reis mais poderosos. A evangelização da região foi obra de missionários: sacerdotes enviados pelo papa (em 431 por Celestino I) e, sobretudo, Patrício [...]. A nova Igreja, rapidamente toda-poderosa, organiza-se principalmente em volta de mosteiros que, na ausência de cidades e bispos, exercem toda a autoridade espiritual sobre as zonas rurais, convertendo-se nos únicos centros de vida religiosa e intelectual.

[...]

Os monges irlandeses certamente devem às tradições aventureiras dos escotos (pirataria, expedições nas costas da Bretanha e da Escócia) seu gosto por viagens longínquas e a vida errante; toda uma literatura épica e popular dá testemunho disso. A peregrinatio, o desejo de isolamento, virtudes fundamentais, explicam os sítios escarpados dos mosteiros, erguidos sobre ilhotas rochosas ou montanhas abruptas e as longas migrações solitárias [...].

Na Gália do Sul, entretanto, os primeiros mosteiros foram, de início, fundados nas costas da Provença, onde se exerciam mais intensamente as influências do Oriente [...].

[...]

A atividade missionária foi um dos aspectos essenciais dessa obra de restauração. Permitiu dessa forma reduzir os particularismos, a autonomia e o poder da Igreja da Irlanda. Em 597, Gregório enviou à Inglaterra, para evangelizar os saxões, Agostinho, abade do mosteiro que fundara em Roma no monte Coelio. Agostinho consegue rapidamente converter o rei Etelfrido e organiza prontamente a Igreja da Inglaterra: primado de Cantuária, províncias de Londres e York. Esta cristianização, entretanto, é superficial e os sucessores de Agostinho tiveram que lutar por muito tempo contra os reaparecimentos do paganismo. Somente por volta do fim do século VII, a maior parte da Inglaterra parece cristã. No mais, o estabelecimento da Igreja romana provoca um sensível descontentamento entre os monges irlandeses, que já haviam instalado mosteiros e centros de evangelização na ilha. A rivalidade entre as duas igrejas agrava-se ainda devido ao apego dos irlandeses a seus usos particulares: maneira da tonsura dos clérigos e fixação da festa da Páscoa. [...]

[...]


HEERS, Jacques. História medieval. São Paulo: Difel, 1974. p. 30-35.


NOTA: O texto "Civilização e vida espiritual nos Reinos Bárbaros do Ocidente III: A Igreja e a evangelização" não representa, necessariamente, o pensamento deste blog. Foi publicado com o objetivo de refletirmos sobre a construção do conhecimento histórico.

quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

A memória pagã das romarias

Coleta para a manutenção da Igreja do Rosário, 
Jean Baptiste Debret

Os deslocamentos de devotos para a prática de culto a divindades em locais sagrados distantes - peregrinações chamadas em sua versão ibérica de romarias, em lembrança das excursões dos primeiros cristãos a Roma - constituem uma prática vinda da Antiguidade.

A motivação das caminhadas coletivas de fé baseou-se sempre na crença de que, em determinados locais, existiriam poderes sobrenaturais, quer por estarem concentradas neles as forças da natureza, quer pela descoberta de algo julgado milagroso junto a rios, fontes, cavernas, pedras, árvores ou bosques.

Em idade histórica, aliás, o fato de, próximo a Olímpia, a memória do deus grego Zeus ser lembrada em um altis ou bosque sagrado indica bem que esse deus dos deuses, muito antes de ganhar face humana em poemas de Homero, nove séculos antes de Cristo, já andava representado, em lugar ermo, em um carvalho ou em pedras de corte retangular ou em forma de obelisco ou de pirâmide.

Com o advento do cristianismo, essa tendência milenar à reverência mística de objetos, simbolicamente revestidos de poder sobrenatural, que no Ocidente já enfrentara a concorrência da requintada teogonia do politeísmo greco-romano, precisou adaptar-se a uma nova teofania que, a partir da imposição da ideia de um Deus feito homem, reduzia os mitos fundadores vindos da Antiguidade à necessidade de aceitação de uma hierofania representada figurativamente pelas imagens dos santos e pela busca por relíquias.

Essa fidelidade das camadas populares ao arquétipo da representação de poderes sobrenaturais em objetos materiais estava destinada, de qualquer forma, a facilitar o sucesso do cristianismo na adesão ao novo conceito de relíquia, que propunha enxergar também o sagrado em ossos, dentes, mechas de cabelos ou amostras de qualquer coisa ligada à presença de Cristo, sua família ou apóstolos, nos chamados lugares santos da Palestina.

Em verdade, foi a onda mística das peregrinações a Jerusalém em busca de relíquias, partidas da Europa desde o quinto século depois de Cristo, que permitiu a revivescência disfarçada de antigas práticas de cultos pagãos, já agora identificando em objetos não a representação de poderes mágicos ou sobrenaturais, mas a herança visível de algo materialmente ligado ao mistério da fé.

Essa busca por relíquias, aliás, ao acrescentar à intenção devota das peregrinações ao Oriente próximo o caráter de nova corrente de comércio com os árabes (há muito ativos na troca de bens do Oriente com os europeus através do Egito e de Constantinopla), acabou por gerar uma consequência política de grande repercussão histórica. É que, como a ocupação de Jerusalém em 1076 pelos turcos seldjúcidas (inimigos inconciliáveis dos cristãos) vinha coincidir com o início da luta contra a ocupação árabe da Península Ibérica, a partir da tomada de Toledo, em 1086, o papa Urbano II aproveitou para lançar, em 1095, a novidade das peregrinações armadas, sob o nome de cruzadas.

E foi assim que, nesse mesmo ano, os pobres da Europa, convocados por dois líderes religiosos - Pedro Eremita e Gauthier Sans Avoir -, partiram para a aventura da tomada do Santo Sepulcro pela força, em uma caminhada de fé que, registrada pela história com o nome de Cruzada dos Mendigos, redundaria no massacre da multidão de peregrinos pelos turcos, tão logo atingida a Ásia Menor.

Essa tão antiga disposição natural de acorrer em grupo aos locais de culto ou oráculos - e, entre os gregos, até o envio de embaixadas sagradas aos jogos de Olímpia, Delfos ou Delos, as chamadas teorias -, quando revestida de caráter, por assim dizer oficial, ou seja, quando destinada a cortejos locais de iniciativa do Estado ou de igrejas constituídas, ganhava estrutura sujeita a regras determinadas, para receber então o nome particular de procissão.

O esquema das procissões, logo adotado pelo cristianismo quando de sua institucionalização como igreja, sob o conceito do katholikós, universal, ia ganhar com a organização de suas regras litúrgicas diversas variantes: procissões de bênção, para dias determinados, como Domingo de Ramos; procissões votivas, como a celebração da Assunção (recebimento da Virgem maria no céu); procissões de trasladação, para acompanhar a mudança pública de imagens ou relíquias; procissões de peregrinação, à volta de grutas milagrosas como a de Lourdes, na frança, ou do Santuário de Fátima, em Portugal; e, por fim, procissões comemorativas de milagres ou acontecimentos da vida religiosa ou civil.

Pois essas procissões, que afinal reproduziam, em âmbito limitado, as livres caminhadas dos antigos a seus locais de culto, estavam destinadas a evoluir para certa teatralização religiosa que, em menos de um milênio, ia permitir a volta das velhas peregrinações de fé coletiva à sua origem popular, acrescida de um nítido sentido de festa, no que viria a se chamar, em Portugal, de círios e romarias.

TINHORÃO, José Ramos. Festa de negro em devoção de branco: do carnaval na procissão ao teatro no círio. São Paulo: UNESP, 2012. p. 3-6.

NOTA: O texto "A memória pagã das romarias" não representa, necessariamente, o pensamento deste blog. Foi publicado com o objetivo de refletirmos sobre a construção do conhecimento histórico.

segunda-feira, 4 de novembro de 2013

O Cristianismo

O cristianismo antigo tem duas etapas históricas claramente distintas. Houve uma primeira fase em que se difundiu pelas comunidades judaicas da Ásia Menor e do Egito e que “incluía uma grande variedade de vozes, um extraordinário leque de pontos de vista”. Na Síria e no Egito, convivia com seitas judias diversas, antes da fase de predomínio do gnosticismo, em que a doutrina se impregnou de traços do pensamento oriental e do paganismo greco-romano. Era lógico que as diferenças doutrinais não fossem vistas como decisivas a grupos que compartiam a crença de que o fim do mundo estava próximo. Este componente escatológico, herdado da tradição apocalíptica que florescia na Palestina nos tempos de Cristo, foi um elemento fundamental do cristianismo ao redor do ano 200 quando, não tendo chegado o fim do mundo, os cristãos voltaram à vida normal. Desde este momento, as posturas extremas sobre o ascetismo conservaram-se apenas entre os grupos mais extremados do cristianismo oriental. Na cristandade ortodoxa, a norma da castidade absoluta ficou para os “pais do deserto” – os ascetas egípcios ou os eremitas da Síria ou Capadócia -, de quem os monges a tomaram e, só gradualmente e muito mais tarde, generalizou-se no clero secular.

Folio Papiro 46 contendo 2 Corintians, 11:33-12:9 (uma das primeiras coleções do século III das epístolas paulinas)

ενσαργανηεχαλασθηνδιατουτειχουσ
καιεξεφυγοντασχειρασαυτουκαυχασ
θαιδειουσυμφερονμ[ε]νελευσομαιδε
εισοπτασιασκαιαποκαλυψεισκυοιδα
ανθρωπονενχωπροετωνδεκατεσσαρων
θιτεενσωματιουκοιδαειτεεκτοστουσω
ματοσουκοιδαοθσοιδεναρπαγεντατον
τοιουτονεωστριτουουρανουκαιοιδατον
τοιουτονανθρωπονειτεενσωματιειτε
χωριστουσωματοσουκοιδαοθσοιδενοτι
ηρπαγηεισυονπαραδεισονκαιηκουσεν
αρρηταρηματααουκεξονανθρωπωλα
λησαιυπερτουτοιουτουκαυχησομαιυπερ
δεεμαυτουουδενκαυχησομαιειμηενταις
ασθενειαισεανγαρθελωκαυχησομαι
ουκεσομαιαφρωναληθειανγαρερω
φειδομαιδεμητισεμελογισηταιυπερ
οβλεπειμεηακουειτιεξεμουκαιτη
υπερβολητωναποκαλυψεωνιναμη
υπεραιρωμαιεδοθημοισκολοψτησαρκι
αγγελοσσαταναιναμεκολαφιζηινα[μη]
υπεραιρωμαιυπερτουτουτρις[τονκυριον]
παρεκαλεσαινααποστηα[πεμουκαιει]
ρηκενμοιαρκεισοιηχα[ρισμουηγαρ]
δυναμισ[ενασθενειατελειταιηδισταουν]

A segunda etapa da história do cristianismo antigo é a de sua associação com o poder político do Império Romano, que o transformou em um “governo eclesiástico paralelo ao secular”, que com ele colaborava no cumprimento dos decretos imperiais. Seu caráter plural e comunitário desapareceu. O cristianismo transformou-se na Cristandade, que via a si mesmo como uma comunidade unitária e hierarquizada aspirava incluir todos os homens, estendendo seu controle a todas suas atividades.

Desde o primeiro momento, o imperador Constantino deu um sentido político a sua aliança com o cristianismo. A Igreja seria um dos apoios essenciais do império cristão que sobreviveria no Oriente até o século XV. No Ocidente, onde a estrutura imperial ruiu muito antes, a Igreja tentou restabelecê-la com a coroação de Carlos Magno em Roma ou com o papado imperial, que levaria os pontífices romanos a reunir o poder político e a função sacerdotal na sua pessoa, como herdeiros do império.

Nesta nova situação, criada pelo reconhecimento político do cristianismo, não podia permanecer a convivência pacífica das diversas correntes; era necessário eliminar os dissidentes: hereges e cismáticos. Os primeiros dissidentes perseguidos, os donatistas do norte da África, não discordavam na doutrina, mas se opunham à aliança do cristianismo com o poder político; consideravam-se os autênticos herdeiros da Igreja dos mártires e condenavam os que se aliavam ao império, valendo-se da força deste para impor-se nas divergências entre os cristãos. Alguns fiéis optaram por soluções pessoais que não ameaçavam a Igreja hierárquica e eram aceitos por esta, como os amacoretas, que se retiraram para o deserto, ou os monges, que se encerravam em mosteiros para levar vida em comum.

A “oficialização” do cristianismo não deve ser confundida com a cristianização do império, que se produziu a longo prazo e em uma série de etapas. O século IV foi um período de convivência pacífica em que a velha religião continuou a abrir templos, receber subsídios e regular a passagem do tempo com suas festas. Após a fugaz restauração do paganismo por Juliano, a situação começou a ser modificar com Teodósio I, que apoiou o estabelecimento da unidade religiosa através da força: fechou os templos pagãos e condenou os sacrifícios de animais como atos de alta traição.

Apesar das mediadas repressivas, entretanto, os sacrifícios continuariam a ser feitos de forma clandestina. Seriam necessárias perseguições e campanhas militares para acabar com as últimas comunidades pagãs, o que parece não ter acontecido até o século IX (os pagãos tinham, agora, mártires como Hypatia, uma professora de filosofia que foi apedrejada em Alexandria pelos seguidores do bispo). Frente a esta situação, os últimos filósofos pagãos começaram a fugir para a Mesopotâmia, onde estabeleceram uma comunidade que conservou a cultura grega e a transmitiu ao mundo islâmico.

A igreja cristã de Roma não era única. Havia, para começar, a do Oriente, quer dizer, a que seguiu associada ao império (que chamamos de bizantino) e que, depois, esteve associada aos novos poderes que os substituíram: o sultão turco ou os soberanos de cada país nas diversas igrejas nacionais. Houve também uma cristandade asiática muito importante que, no século XIII, se estendia desde o Egito até o mar da China, com núcleos relevantes na Mesopotâmia, Armênia, Cáucaso e Síria, e com conventos na Ásia Central, entre os turcos e mongóis.

A maior das igrejas cristãs asiáticas foi a nestoriana. Sua origem remonta à Igreja persa, que se tornou independente do Ocidente em 424, rompendo seus laços com Bizâncio. Seu chefe, o catholicos, residia em Ctesifonte, porém a atividade missioneira pela rota das caravanas criou comunidades cristãs desde Java até Azerbaijão. Em 1009, os kerait, o maior e mais culto dos povos mongóis da Ásia central, converteram-se ao cristianismo nestoriano. Mais tarde, seriam dominados por Genghis Khan, que respeitava as religiões dos povos que integravam seu império, não faltando, entre seus sucessores, quem mostrasse simpatia pelos cristãos.

Os mongóis foram, durante muito tempo, a grande esperança do cristianismo do Ocidente. Em 1258, organizaram uma cruzada que reconquistou Alepo e Damasco, onde as tropas vencedoras entraram em 1260 com um general nestoriano mongol na liderança, acompanhado de um príncipe armênio e de um cruzado ocidental. Porém, não encontraram apoio nem nos cruzados de Jerusalém nem no papa de Roma, que preferia a aniquilação dos hereges ao triunfo de um cristianismo plural (de forma semelhante, os cristãos do Ocidente permaneceram, mais tarde, indiferentes à tomada de Constantinopla pelos turcos).

Enquanto que se produzia o grande movimento de fechamento e de intolerância que, de 950 a 1250, converteu a Europa numa sociedade repressora (a perseguição aos judeus, a segregação dos grupos minoritários, o estabelecimento da Inquisição e o uso da tortura judicial), iniciava-se uma grande etapa de florescimento das heresias, que culminou nos séculos XII e XIII, durando até o XV. Era uma conseqüência da crise da igreja e da vontade de reforma que haviam surgido entre o clero e entre os fiéis.

Um dos pontos centrais de oposição à hierarquia da Igreja era a pretensão de impor, ao conjunto da sociedade, o monopólio da interpretação religiosa por parte dos clérigos ordenados, reduzindo o fiel à posição de receptor passivo de uma religião que lhe era transmitida exclusivamente pela via oral. Em seu afã por recuperar a pureza do cristianismo primitivo, os críticos da Igreja retomariam diretamente os textos, especialmente o das escrituras. Por mais limitada que fosse a alfabetização, parece claro que a heresia a havia estimulado com as traduções de textos bíblicos às línguas “vulgares”, como as que sabemos que foram feitas em Languedoc, na França ou na Catalunha, no século XIII.

A história destes movimentos chegou-nos na versão dos seus repressores, que ressaltaram os aspectos doutrinais e os ritos que divergiam dos “ortodoxos”, acrescentando-lhes uma carga de maldade diabólica, ao mesmo tempo que omitiam as queixas dos dissidentes contra a Igreja oficial.

Este é, por exemplo, o caso dos cátaros, que têm sua origem no movimento dos bogomilos da Bulgária, onde se podem encontrar elementos do dualismo oriental – a crença de que o mundo está dominado, ao mesmo tempo, por um princípio do bem e um princípio do mal -, mas que foram perseguidos, principalmente, porque propugnavam um retorno da Igreja à pureza e à pobreza evangélicas e porque davam apoio à resistência dos camponeses contra o feudalismo. O catarismo do Languedoc, que influiu fortemente na Catalunha, defendia uma vida simples de trabalho e abrigava crenças mais próximas do patrimônio da cultura popular do que da teologia romana. Oferecia, aos fiéis, sermões e orações na língua vulgar e, o que era mais importante, o exemplo de uma Igreja que não exigia dízimos, nem excomungava, nem matava como fazia a de Roma e que não estava comprometida com os senhores feudais que oprimiam os camponeses. Representava, por tudo isso, uma ameaça à ordem estabelecida, justificando uma cruzada e repressão feroz.

Todos estes movimentos religiosos, que se relacionaram e se entrelaçaram sutilmente até chegar a guerra dos camponeses alemães do começo do século XVI, estão estreitamente associados a levantes sociais que torna-se difícil separá-los. O movimento inglês dos lolardos de Wycliffe coincide no tempo, e em alguns de seus protagonistas, com a grande rebelião de Wat Tyler (a revolta de 1381 que propunha liquidar com o feudalismo). Apesar das perseguições que sofreram, grupos de clérigos lolardos continuaram mantendo sua fé em segredo, sobrevivendo por mais de um século até acabar fundindo-se com o protestantismo. Eram, na sua maioria, manifestações de uma religião de artesãos, pregada diretamente nos círculos que liam a Bíblia traduzida em língua vulgar, como ocorria na Itália e na França com a dos valdenses, um movimento que pode ser qualificado de religião dos laicos.

Os escritos de Wycliffe tiveram relação com o aparecimento, na Boêmia, do movimento dos hussitas, de cujas ramificações, uma, a dos taboritas, fazia propostas radicais de transformação social. Enquanto organizavam-se seis cruzadas contra os hussitas, começavam, na Alemanha, movimentos que tinham um duplo componente religioso e social e que culminaram, em 1524, com o início da guerra dos camponeses e o movimento, duplo e paralelo, da Reforma e da Contrarreforma, que não apenas tendiam à renovação do cristianismo, mas à consolidação da ordem social.


FONTANA, Josep. Introdução ao estudo da história geral. Bauru: Edusp, 2000. p. 302-306.

domingo, 3 de novembro de 2013

As religiões de salvação

A religião de Zoroastro, que nasceu no Irã talvez antes de 1000 a.C. (da qual restam, hoje somente 130.000 praticantes, dentre os quais os mais conhecidos são os pársis da Índia) introduziu ideias novas no mundo das religiões: a da existência de um princípio do bem e um princípio do mal que se enfrentam (o que denomina-se, comumente, de dualismo que, através do maniqueísmo, chegará a muitas heresias cristãs) e a crença de que, no fim da vida, há um juízo em que são pesadas todas as ações humanas e que, como conseqüência deste juízo, todos os que merecem têm um céu e os que não, um inferno; ao final do mundo haverá, além do mais, um juízo geral e uma ressurreição. Essas ideias sobre a sobrevivência fantasmagórica dos mortos, passaram ao judaísmo e, através deste, ao cristianismo.



A história do judaísmo é difícil de ser seguida pois os textos em que nos baseamos, denominados pelos cristãos de Antigo Testamento, foram compilados e corrigidos muito mais tarde, entre 600 e 100 a.C. Sua religião tinha, inicialmente, um deus supremo, El, até que os seguidores de Moisés conquistaram a terra de Canaã em nome de um novo deus chamado Jeová, uma divindade da tempestade. O reino de Israel foi unificado por Davi, ao redor de 1000 a.C. e seu filho Salomão construiu, na capital Jerusalém, um templo em honra ao deus supremo Iahvé, o que impedia que também fossem venerados outros deuses até que, em 600 a.C., surgiu o movimento que faria de Iahvé o deus único. A religião dos judeus incorporou as ideias de salvação e de um apocalipse, que seria sucedido por um mundo em paz, somente depois do exílio da Babilônia: as ideias de raiz zoroástrica que se desenvolveram nos grupos de Qumran e entre os cristãos, passando a fazer parte de nosso caudal de crenças. Um aspecto importante da evolução religiosa dos judeus foi a confrontação entre o conservadorismo do clero do Templo e a atuação crítica e renovadora dos profetas.

A derrota da resistência judaica à dominação romana iniciou a longa etapa do judaísmo rabínico em que a religião centrada no estudo do Tora (Bíblia hebraica e, especialmente, seus cinco primeiros livros, o Pentateuco, atribuídos a Moisés) e na oração iria converter-se no signo de identidade e o traço de união das comunidades judias, que reforçaram, por este motivo, a observação dos ritos e das normas jurídicas compiladas no Talmud.

A diáspora, que dispersou os judeus e espalhou sua cultura, dividiu a cultura rabínica em dois grandes ramos, a dos askenazies, no centro e leste do continente e a dos sefarditas, na Península Ibérica, que contribuíram em grande medida para o florescimento místico da cabala que, após a expulsão dos sefarditas da Espanha em 1492, alimentou as correntes de esperança messiânica que culminaram, no século XVII, com o aparecimento, na Turquia, de um homem nascido em Esmirna em 1626, Sabatai Zeti, que se proclamava o Messias esperado, abalando as comunidades judaicas europeias.

Após o fracasso do “sabatismo” – o pretenso Messias foi obrigado, pelos turcos, a converter-se ao Islamismo – as esperanças apocalípticas que ele alimentara conservaram-se em um substrato cabalístico – sabatista que influiu nas duas correntes divergentes do haisidismo piedoso e puritano (nascido na Europa do leste e que tem hoje, seus grupos mais representativos em Nova York) e do “frankismo”, que combinava o gosto por aspectos esotéricos do cabalismo com uma preocupação ilustrada (com personagens como Moses Dobruska, um sabatista que militou com os jacobinos na Revolução Francesa e foi guilhotinado com Danton, em 1794).

No transcurso dos séculos XIX e XX, as correntes modernizadoras conduziram, em grande parte, o judaísmo europeu a uma direção secularizadora que culminara com o sionismo, em que a velha esperança messiânica transformou-se na vontade política da refundação de um Estado de Israel.


FONTANA, Josep. Introdução ao estudo da história geral. Bauru: Edusp, 2000. p. 300-301.

quinta-feira, 25 de julho de 2013

Cultura e religião na África pré-colonial

A história do continente africano, geralmente, é construída de fora para dentro, com base nos interesses que buscaram (e buscam ainda) dominar a África e os africanos, mas também por culpa de africanos que se espelham e vivem à imagem dos povos que os dominaram, sem referência ao seu passado histórico. Segundo Ki-Zerbo (2010), é imperativo que a história e a cultura da África sejam também vistas de dentro, sem serem analisadas por parâmetros de valores exclusivamente europeus. Portanto, apesar dos mitos e preconceitos de todo tipo, que durante um longo período de tempo ocultaram a real história deste continente, existiu e existe até os dias de hoje culturas, religiões e grupos linguísticos diversos, bem como uma organização social própria dos povos africanos.



O continente africano é conhecido pela diversidade e pela riqueza de suas culturas e religiões, mas sobre o período pré-colonial a maioria dos filmes e documentários mostra uma imagem essencialmente primitiva e "bárbara". No entanto, essa visão não passa de um olhar racista e ideológico que busca descaracterizar o continente para poder controlá-lo com facilidade. Apesar disso, nenhuma dessas classificações pode apagar a história da mais antiga região do mundo, que é, culturalmente, um conjunto plural, um mosaico de nações étnicas correspondentes a identidades distintas.

Nesse sentido, Cheikh Anta Diop (1999) observa que não se deve construir a humanidade apagando a cultura de uns em benefício de outros e, tampouco, renunciando prematuramente e de forma unilateral sua cultura nacional no intuito de se adaptar à do outro em nome da simplificação da "globalização", pois isso seria um suicídio. Ou seja, importa resgatar as culturas africanas do período anterior ao colonialismo europeu, bem como suas relações com o resto do mundo, principalmente, devido às diferenças físicas, linguísticas e de organizações sociopolíticas que caracterizam a realidade africana.

Desse modo, podemos definir a cultura como sendo o conjunto da maneira de pensar, agir e se comportar de um povo que vive em coletividade, compartilhando símbolos e valores. Segundo Giddens (2004), o conceito de cultura se refere aos aspectos da sociedade humana que são apreendidos e não herdados, porém compartilhados pelos membros das sociedades e tornam possível a cooperação e a comunicação. Desse modo, a cultura é composta tanto por elementos materiais como por obras de arte, técnicas ou instrumentos de trabalho do grupo, bem como suas vestimentas, elementos espirituais ou religiosos que incluem ideias, crenças, normas, valores e costumes do grupo. Portanto, a compreensão de qualquer cultura deve evitar privilegiar, como foi feito no caso da África, o fator psicológico da identidade cultural em vez de considerar também as dimensões históricas e linguísticas (DIOP, 1987). No caso da África pré-colonial, a consideração desses elementos nos leva a falar, além da origem egípcia da civilização africana e mundial, da história dos Estados africanos conhecidos como impérios ou reinos, que foram grandes centros de divulgação da cultura africana.

Durante esse período, apesar do Deserto do Saara dividir o continente africano em dois, gerando o desenvolvimento de estilos de vida diferentes entre o norte e o sul, sempre houve trocas comerciais, culturais e sociopolíticas entre os povos das duas partes do continente. Assim o desenvolvimento de relações intercomunitárias e a organização no âmbito da formação de Estados foram facilitados. Um exemplo disso foi o Império de Gana, o mais antigo da parte ocidental do continente [...], que teve como respectivos sucessores os impérios Mali e Songhai. Essa sucessão mostra, em parte, a continuidade histórica dos povos africanos cuja base da civilização é a cultura egípcia, contrariando as afirmações das teorias que tentam distinguir a civilização e a cultura egípcia da dos demais povos do continente.

Segundo Diop (1999), a civilização do Egito Antigo é a base do patrimônio cultural, filosófico e científico de todos os africanos do continente, influenciando também a diáspora. Importa dizer que apesar de a África ser definida, primariamente, como um continente pobre e que pouco inovou, antes da colonização europeia o continente era uma das partes do mundo mais dinâmicas do ponto de vista da pesquisa e do florescimento cultural graças à organização política e socioeconômica de seus impérios. Assim, segundo Cissé (2010), na África Ocidental, por exemplo, mais especificamente na zona sudanesa-saariana, os contatos entre a população local e a cultura árabe-muçulmana, entre os séculos VIII e IX, propiciou uma grande produção de manuscritos em árabe nos principais centros urbanos como Gao, Djene e Timbuktu.

Considerando um intervalo de tempo um pouco maior, do século VII ao XVI, e sob vários aspectos, o continente africano passou por momento importante, pois este foi um período privilegiado para o desenvolvimento de culturas originais. Sem perder sua identidade, os africanos assimilaram influência externa. Foi nesta época que o grande Império do Sudão, situado ao sul do Saara, entrou em contato com a cultura e a religião islâmicas, as quais a partir de então passaram a fazer parte da cultura africana, convivendo quase que em harmonia com as religiões e crenças locais. Portanto, de forma oposta ao cristianismo, que chegou ao continente negro juntamente com os exploradores e futuros colonizadores europeus, o islamismo chegou à África pregado por africanos que tiveram contato com os fundamentos islâmicos a partir de viagens ao Oriente Médio. Conforme Diop (1999), a penetração do islã na África foi feita de forma pacífica, exceto o caso da islamização do movimento almoravida, durante a primeira metade do século XI, quando os berberes tentaram impor o islã pela força das armas.

Vale ressaltar que o contato dos africanos com o mundo árabe marcou o início de novos relacionamentos do continente negro com o exterior. Essas relações se intensificaram, resultando em formações sociais, políticas e culturais complexas, baseadas na diversidade que caracteriza o continente. Essa diversidade, por sua vez, dificulta a compreensão da formação, em termos de crença, de um sincretismo ou hibridismo religioso que se observa no continente até na atualidade. Desse modo, o entendimento das religiões africanas tradicionais se torna mais complicado devido à incorporação pelas mesmas de outros elementos provindos dos contatos com o exterior, notadamente do islamismo, e mais tarde do cristianismo.

Assim, segundo Tedanga (2005), para caracterizar as práticas religiosas na África tradicional os estudiosos das religiões e antropólogos do mundo moderno fabricaram todo tipo de denominação reducionista e ideológica das crenças africanas. Nesse sentido, encontramos na literatura conceitos como animismo, fetichismo, ancestralismo, magismo e totemismo, entre outros. Independentemente do termo ou conceito que se use, percebe-se a carga reducionista. No entanto, se considerarmos que fetichismo, animismo ou totemismo são três fenômenos da vida humana, é normal que a religião africana tenha interesse por eles, embora seja abusivo reduzir o conjunto de suas crenças focando somente esses elementos.



Importa dizer que as religiões da África são tão diversas quanto as línguas e etnias do continente, já que cada uma delas tem seus deuses, gênios ou ancestrais cuja adoração, ritos, oração ou sacrifício segue uma lógica única. Por isso, segundo Dieng (2007), à primeira vista tudo parece ser diferente entre as religiões dos dogons, dos malis e dos zulus da África do Sul, ou entre os pangos e os iorubás da Nigéria. Porém, um olhar mais aproximado pode diagnosticar algumas características fundamentais, que são idênticas entre esses cultos essencialmente destinados a ligar os homens ao mundo invisível, seja na forma natural ou sobrenatural. Na África, os povos têm mais ou menos a mesma concepção sobre seus ancestrais, sobre os gênios, seus modos de encarnação ou de reencarnação, bem como o entendimento sobre os vivos. Portanto, pode-se encontrar no totemismo e no fetichismo uma relação sutil entre o homem, o animal e a natureza.

Fica evidente que, do ponto de vista religioso, o continente africano apresenta uma rica variedade que reflete o importante papel das crenças nas organizações políticas e socioeconômicas. Isso mostra a importância da religião, da divindade ou do sagrado na vida dos africanos, bem mesmo antes da chegada das chamadas religiões reveladas (cristianismo e islamismo). [...]

Desse modo, pode-se afirmar que o monoteísmo africano é anterior ao islamismo, pois as religiões e o comportamento da maioria dos povos do continente se baseiam na moral e no respeito à vida em conjunto harmonioso, tanto entre os homens quanto entre eles e a natureza. Apesar da grande presença do islamismo na África Subsaariana nos séculos que antecederam à chegada do cristianismo e da colonização, importa sublinhar que a religião que dominava nos principais Estados ou impérios como Songhai, Mali e Benin, por exemplo, é aquela ligada às crenças ancestrais, as quais acreditavam em um ser supremo, do qual procedem todas as pessoas. Consequentemente, todos os indivíduos são valiosos e dignos de respeito. Ou seja, a cultura tradicional africana põe especial ênfase nas virtudes como a tolerância, a hospitalidade, a paciência e todos os valores que asseguram a harmonia social. Daí o rápido crescimento do cristianismo e do islã no continente, pois, segundo Dieng (2007), a rápida expansão dessas religiões na África se deve, em grande parte, ao sentido religioso, ao respeito e a tolerância inerente à cultura tradicional.

Nesse sentido, conclui-se que, do ponto de vista cultural, principalmente no que diz respeito à religião, a África tem sido uma grande precursora dos valores humanos incorporados pelas religiões reveladas (cristianismo e islamismo), apesar do discurso que anunciava a tarefa de "civilizar" os povos africanos a partir de seus valores. [...]

De qualquer modo, a religião dominante na África pré-colonial foi o animismo ou religião tradicional, apesar da islamização do continente a partir do século IX. O animismo consiste na crença em um único criador do universo que colocou um espírito em todas as coisas, sejam elas animadas ou não. Igualmente são cultuados os ancestrais, e se dá um valor particular à magia, notadamente a que cercam os ferreiros. Desse modo, percebe-se que a entrada e a expansão do islamismo se deram, principalmente, devido a essa coincidência de culto ao ser superior único, mas também por não ser uma religião de elite e aceitar sua expansão sem a erradicação do animismo (SYLLA, 1994). Nessa lógica, os seres são hierarquizados. Até o ser supremo, que pode ser confundido com o ancestral, nunca é uma abstração, mas sim energia viva, forças submetidas aos princípios de interação e que, como as forças físicas não mecânicas, podem se somar, se destruir ou se neutralizar (WADE, 2005).

Portanto, mesmo com a entrada das religiões monoteístas (islamismo e cristianismo), vale ressaltar que a religião tradicional continuou sendo a principal crença, pois nesse campo, na maioria das vezes, a aceitação e a adoção das religiões estrangeiras eram vistas pelos africanos como uma forma de receptividade e de acesso ao outro para fins comerciais. [...]

Grosso modo, a cultura e a religião são dois elementos fundamentais para o entendimento da sociedade tradicional africana [...]. Porém, continuam pouco conhecidas e, principalmente, encaradas a partir do etnocentrismo ocidental, pois sempre foi importante justificar a presença estrangeira no continente africano. Mas independentemente dos aspectos negativos dessa presença, importa dizer que as crenças tiveram uma influência profunda sobre a organização social africana, centrada no núcleo tradicional, baseada no clã dirigido pelos anciãos.

VISENTINI, Paulo Fagundes et al. História da África e dos africanos. Petrópolis: Vozes, 2013. p. 21-26.