"Os espelhos estão cheios de gente.
Os invisíveis nos vêem.
Os esquecidos se lembram de nós.
Quando nos vemos, os vemos.
Quando nos vamos, se vão?"
Eduardo Galeano: Espelhos
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sábado, 23 de janeiro de 2016

Lições do Mundo Antigo

Colheita, Pedro Weingärtner

Para alcançar o estágio de desenvolvimento que atingiu no século V da era cristã, a humanidade passou por períodos sucessivos de evolução marcados por eventos significativos. Na sequência cronológica, o primeiro evento foi o surgimento do bípede, há cinco milhões de anos. Há dois milhões de anos, a caixa craniana do Homo erectus alcançou o mesmo volume que a do homem moderno. A primeira ferramenta, uma pedra amarrada em um pau, foi uma conquista que pode ter ocorrido entre um milhão de anos e 500 mil anos. Esse evento marcou uma mudança radical naquele animal, pois foi seu primeiro ato de consciência. Ele associou ideias para criar um instrumento eficaz com objetivo preciso. A partir daí sua relação com a natureza mudou radicalmente. Não se sabe quando ele passou a usar o fogo ou começou a produzir a chama, com o choque de duas pedras ou a fricção de madeira. Há cerca de duzentos mil anos as ferramentas de corte já eram aperfeiçoadas com a manufatura de facas e de pontas triangulares para lanças e estiletes mantendo certo padrão.

O Homo sapiens aparece em Java pela primeira vez há cerca de 120 mil anos. As primeiras pinturas rupestres e entalhes em rocha representando animais aparecem há cerca de 30 mil anos. De 20 mil anos para cá há um aperfeiçoamento marcante na produção de artefatos, utensílios e armas de vários materiais, chifre de rena, osso, madeira e pedra, e o uso de madeira dura ou osso como broca, a primeira ferramenta para fabricação de instrumentos de pedra polida. A agricultura e a pecuária começaram há cerca de dez mil anos. Há nove mil anos o homem já trabalha o cobre, há cinco mil anos produz a roda e forja o bronze, constrói cidades e domina a escrita, e há quatro mil usa o arado na agricultura e fabrica instrumentos em ferro.

Observa-se que há uma aceleração crescente de um evento significativo para o seguinte. Foram três milhões de anos para a caixa craniana dos ancestrais do homem crescer, a partir do momento em que eles começaram a andar sobre dois pés. Mais um milhão de anos para construir o primeiro instrumento, Oitocentos mil anos para diversificar sua fabricação e estabelecer padrão de qualidade. Mais quase duzentos mil anos para gravar figuras nas rochas e polir a pedra. Há dez mil anos ele tornou-se agricultor e criador, constituindo grandes tribos nômades e aldeias diversificadas. Em seguida tornou-se minerador e metalúrgico. Há sete mil anos criou as primeiras aldeias fortificadas com muros de pedras e com casas construídas em tijolo cru. Há cinco mil anos construiu cidades e inventou a escrita, dando início às civilizações. Essas se fizeram impérios, alguns deles efêmeros, produzindo uma dança de poder e o caldeamento das populações e das culturas. Na primeira metade do primeiro milênio a.C. os gregos utilizaram a escrita para contar histórias, fazer poesia e textos de teatro, difundindo a cultura e dando forma definitiva a lendas e mitos. Isso possibilitou a crítica dos textos, o que deu origem à filosofia. No mesmo milênio, em vários locais do mundo, surgiram místicos e filósofos que são objeto de estudo e reverência de bilhões de pessoas na atualidade. Vejamos algumas lições que essa evolução nos deixou.

Os grupos familiares formaram-se naturalmente e se uniram para se defenderem das agressões externas, de animais ou de outros grupos. A ampliação dessa união deu origem às tribos. Estas cresceram, formaram-se castas, e a chefia tornou-se tirânica. Tolheu-se a liberdade dos excluídos das castas. O sedentarismo das cidades ampliou e consolidou as diferenças sociais. Surgiram a escravidão e o poderio militar. As necessidades e a complexidade das relações sociais, cada vez maiores, fizeram crescer ainda mais as diferenças sociais. Os ricos já não se contentam em satisfazer suas necessidades. Eles querem luxo, regalias e mais riquezas do que a cidade lhes pode dar. Isso gerou conflitos e insegurança. As castas já não podiam prescindir do trabalho escravo, então escravizam os inimigos presos. O passo seguinte foi a conquista de outros povos. Inicia-se o período dos impérios, nas suas diversas manifestações. Os teocráticos, como Acádia, Egito, Babilônia, nos grandes vales de agricultura irrigada. Os mercantis escravistas, como Assíria, Grécia, Cartago, Roma. E as chefias pastoris nômades, como hicsos, hititas, cassitas, ários, citas, hunos.

As cidades-Estado helênicas foram um avanço extraordinário na organização social, com a criação da república. Mas com seu desenvolvimento, dirigentes e grandes proprietários formam oligarquias, para exercer o poder e satisfazer suas ambições. Negligenciam os princípios republicanos que sustentaram o progresso da comunidade. Optam pela pilhagem na busca da riqueza. Invadem o território da cidade vizinha para ampliar o seu, gerando a guerra e a insegurança. [...]

[...]

Esse fenômeno da expansão da cidade sobre os domínios de outros, que já preocupava os filósofos gregos, aconteceu também com os reinos que englobavam mais de uma cidade, o que os fez tornarem-se impérios. A propriedade e a concentração de riqueza foram instrumentos de progresso material, mas foram também causas das guerras que abalaram o mundo antigo e nos atingem até hoje. As grandes extensões dos reinos e de impérios resultaram na sua instabilidade e, em muitos casos, na sua destruição. Assim, os reinos, impérios e as civilizações foram se sucedendo no processo histórico, cumprindo seu ciclo de nascimento, florescimento, decadência e morte.

Algumas civilizações não foram vencidas por outras em competição ou guerra. Apenas se tornaram inviáveis, esgotaram-se por seu crescimento ou por seus vícios. Elas deixaram espaço para a formação de reinos menores que se ajustaram às novas circunstâncias. Observando cada período de evolução da humanidade, verificamos que os de maior prosperidade e crescimento ocorreram quando os impérios, por uma ou outra razão, estiveram contidos, como aconteceu depois da grande revolta dos povos dos mares por volta de 1200 a.C. Ausentes os impérios, o Mediterrâneo foi liberado para o comércio sob a hegemonia da Fenícia, um Estado pequeno com pequeno poder militar. Nesse período as cidades-Estado se organizaram, floresceram e se difundiram. O mundo passou por um grande progresso material e cultural.

Não podemos julgar a história, mas devemos analisá-la friamente para que possamos aprender com seus feitos e desfeitos. O processo histórico é uma sucessão de períodos de presença imperial forte, quando prevaleceu a tirania, e de relativa ausência desses impérios, quando floresceu a república e uma democracia incipiente, condicionadas pelas oligarquias nas cidades-Estado, mas com muito mais liberdade que sob o domínio imperial ou na presença dele. Esse processo cíclico de dominação e liberdade facilitou a integração das populações e o caldeamento cultural, ora em benefício dos impérios, ora dos povos.

Nos períodos imperiais desenvolveram-se as tecnologias militares e as forças produtivas, pois era necessário produzir armas e alimentos para as guerras e a sustentação do império. Nos períodos de autonomia das cidades-Estado, desenvolveram-se a cultura, nas suas diversas manifestações, a cidadania, a literatura e a poesia, as artes cênicas, a escultura e a pintura, o artesanato, a filosofia, a religião, a música e os conhecimentos em geral. As relações humanas e as ciências progrediram e o homem tornou-se melhor, mais sociável e mais amoroso.

Na Mesopotâmia, encontramos um período de autonomia das cidades-Estado e dos pequenos reinos, do ano 3000 a.C., no início das civilizações, até o Império Acádio, por volta de 2400 a.C. Depois da queda desse império, em 2150 a.C., houve autonomia e progresso em vários pequenos períodos, nas alternâncias entre os instáveis primeiros impérios, até que o império babilônico de Hamurábi se impõe em 1790 a.C. Muito mais tarde ocorreria no Oriente Médio um período muito importante para a evolução de todos os povos, de 1200 a.C. até cerca de 800 a.C., resultante do retraimento dos impérios que disputavam a região, em face da revolta dos povos dos mares. Já na Ásia Menor e no mar Egeu esse período de autonomia permaneceu até a invasão de Ciro II à costa jônica e às ilhas gregas próximas a ela, em 550 a.C.

As invasões persas ao mundo helênico não foram apenas uma questão geopolítica. Elas traumatizaram as populações invadidas, assim como as ameaçadas. O resultado foi um ódio de tal proporção, que esses povos apoiaram Alexandre nas suas ações de conquistas que destruíram seu inimigo. Esse fato deveria estar presente no pensamento dos líderes mundiais que não encontram limites morais nas suas ações dominadoras, que incluem o genocídio, a destruição de valores morais e de bens materiais.

O processo histórico há pouco referido, que alterna submissão e autonomia, ainda vigora até nossos dias. Hoje, entretanto, enfrentamos uma situação muito mais complexa e perigosa, pelo enorme poder de destruição acumulado e pelo esgotamento da capacidade da natureza em recuperar-se da ação predatória do homem. [...]

Quando Atenas foi invadida e destruída pelos persas, em 480 a.C., já havia sido constituída uma aliança, um ano antes, que criou o mais poderoso exército da Antiguidade. A Liga do Peloponeso, sob a liderança de Esparta, teve papel preponderante nesse acontecimento. Mas, disputas internas, e a visão imperial de Atenas, impediram que ela se consolidasse. Esparta continuou com seus aliados e Atenas formou a Liga de Delos, criando um foco de tensão que só cresceu, e teve seu ápice na Guerra do Peloponeso em 431 a.C. Esta durou 27 anos, destruiu a unidade helênica e permitiu a Filipe da Macedônia assumir o poder na Grécia.

Se houvesse um esforço no sentido da unidade, que suplantasse as disputas entre as aristocracias de Atenas e de Esparta, o mundo helênico poderia oferecer à humanidade um formidável exemplo de cooperação entre Estados independentes formando uma confederação forte, cultural, econômica e militarmente. Poderia tornar-se uma potência formidável, não imperial, a condição mais conveniente para ela estabelecer boas relações com os outros povos da região. Entretanto, o projeto imperial de Atenas era ambicioso demais, enquanto seus governantes eram frágeis discípulos dos sofistas, sem ética e sem compromissos maiores com a população grega. Quando usou o tesouro da Liga de Delos, destinados à defesa comum, Atenas manifestou sua prepotência, enquanto construía seu projeto imperial. Os recursos foram usados para fortificar e reconstruir a cidade e o Parthenon, gerando emprego e prosperidade apenas para ela.

Esse exemplo é notável para a compreensão de como as classes dominantes colocam seus interesses acima dos do país e de seu povo. A desunião dos gregos e a fugaz existência do Império Greco-Macedônio abriram o caminho para Roma tornar-se o grande império que foi. Há muitas outras lições a aprender com a história do mundo antigo, na qual encontramos situações semelhantes àquelas vividas mais tarde pela humanidade, inclusive nos nossos dias. Compreender os fenômenos atuais por seu estudo direto é difícil, porque eles envolvem nosso interesse pessoal e nossas emoções. Nós somos parte deles, como autores, vítimas ou cúmplices. Mesmo descontentes, a mudança pode nos ser incômoda e a luta por ela perigosa. Teremos que enfrentar a opinião pública, formada pelos meios de comunicação para defender o status quo. Precisamos do nosso emprego que, mesmo precário, garante nossa subsistência e de nossa família. Nossos conhecimentos limitados bloqueiam nossa visão de conjunto da sociedade, necessária à compreensão do todo. A rotina e a inércia estão a favor do status quo, mesmo se injusto e doloroso.

A única dificuldade na análise dos fatos históricos são os dogmas de fé, Eles bloqueiam nossa mente. Estamos vivendo um momento em que todos falam em mudança, desfazendo-se de muitos dos dogmas do passado. Mas esses são substituídos por novos dogmas, como aqueles contidos no que os intelectuais apelidaram o pensamento único. Sem dogmas e mitos, e sem cumplicidade, podemos nos centrar nas questões essenciais para termos uma visão mais realista delas. Inclusive compreender que mesmo sem nos empenharmos na solução dos problemas a crise se encarregará de fazê-lo. Mas o preço da omissão poderá ser muito caro para todos.


Uma das consequências da nossa assimilação das lições da história é compreendermos a origem comum dos povos e nos certificar de que nenhum deles é mais importante, ou melhor, que qualquer outro. Todos tiveram seus momentos de dificuldades e souberam superá-las. Conheceram a glória, como senhores de impérios, e a humildade dos derrotados e dos escravizados. Não porque fossem mais fortes ou mais fracos, mais ou menos capazes, mas por circunstâncias favoráveis ou desfavoráveis. Foram poderosos por ocuparem terras férteis e dominarem tecnologias mais desenvolvidas e adequadas. Por serem, naquele momento, mais numerosos e disporem de tecnologia inovadora ou superioridade militar. Foram fracos quando vítimas de mudanças climáticas catastróficas, ou de lideranças corrompidas ou irresponsáveis, ou quando eram pouco numerosos e detinham pequeno efetivo militar.

A alternância de dominação que ocorreu em todo mundo ocidental conhecido na época, Oriente Médio, Ásia Menor, Egito e Mediterrâneo, demonstra que todos os povos são aptos para o exercício de qualquer atividade econômica, artística ou guerreira. A alternância no poder de comunidades nos países e destes como impérios, provam que o poder provém da produção material, terra, matéria-prima, tecnologia e massa crítica de população, e não das qualidades humanas que são, na média, iguais para todos os povos. O que realmente importa para a realização dos povos são seu nível de conhecimento e suas relações sociais equilibradas e harmoniosas. O reconhecimento do direito dos cidadãos é o principal quesito para a valorização de uma civilização.

A força e a bravura dos guerreiros são virtudes que podem ser determinantes na decisão de um conflito, mas os registros mais importantes da história não são os feitos bélicos, mesmo quando gravados em pedra pelos vencedores. São as obras de arte, a filosofia, a literatura, a poesia, as construções, sejam elas magníficas ou simplesmente úteis, e as ações e atitudes humanitárias, como o amor latente na pregação dos grandes líderes religiosos.

As diferenças genéticas ou culturais devem ser vistas como vantagem universal. A primeira favorece a sobrevivência de parte da humanidade em situações climáticas rigorosas. A segunda aumenta a probabilidade de um grupo possuir as qualidades adquiridas de adaptação às diferenças do meio, através dos seus hábitos, métodos de trabalho, estilo de vida, conhecimentos e crenças. E também de terem uma cultura mais adequada à adaptação a novas condições sociais e institucionais, em momentos de crise civilizacional. Assim, a humanidade pode seguir sua senda de experiências, dificuldades, sofrimentos, êxitos e realizações. A questão racial por conta da cor da pele é ridícula sob todos os aspectos, e já foi desmascarada pela ciência, sobretudo depois da descoberta do DNA. A migração para o norte no período glacial, por exemplo, favoreceu os albinos proliferarem e se mesclarem com os outros reduzindo a melanina do grupo. Como não existe uma raça albina, seus descendentes não podem alegar serem de raça distinta apenas pela menor quantidade de melanina na pele.

O conhecimento da história do mundo antigo é suficiente para ensinar à humanidade como proceder para uma vida melhor e uma maior realização humana. Ela nos mostra que o respeito ao próximo evita conflito e cria a cooperação, e a sinergia colabora para um maior desenvolvimento de todos. Já o conhecimento científico nos dá condições de saber mais sobre a natureza e o cosmos, e nos ajuda a comportarmos em consonância com as leis naturais que não podemos mudar. Mas a história sempre foi mal conhecida ou deturpada, no interesse daqueles que ocupam o poder. Estes criaram as castas e as tiranias, e construíram barreiras contra a difusão do conhecimento, que eles monopolizaram. O domínio da informação por uns poucos, obrigou aos que não se submeteram a criar o ocultismo e as seitas. A dominação também aprofundou a desigualdade, imobilizou um grande potencial de desenvolvimento humano, perpetuou a ignorância, o maior dos males.

As castas produziram as ideologias, corpos de ideias que buscam justificar seus interesses e as ações para defendê-los. Elas geraram a discriminação e toda sorte de desumanidade, a violência, a injustiça. Estigmatizaram adversários e concorrentes para que fossem desprezados. Incentivaram os conflitos para evitar a unidade das populações. Estabeleceram instituições manipuláveis e apropriadas à defesa de seus privilégios. Assim, o poder, seja qual for sua forma ou expressão, representa sempre esse corpo de ideias, a ideologia da classe dominante, que coloca os povos em camisa de força.

Esses ensinamentos estão todos lá no mundo antigo. Quando Jesus de Nazaré disse, conhecereis a verdade e a verdade vos libertará, ele talvez quisesse nos dizer que o maior inimigo do homem é a ignorância. O mesmo disse Buda. É da ignorância e da avidez que surge o mundo do erro, e suas causas e condições existem apenas dentro da mente, em nenhum lugar mais. Mas essas mensagens foram deturpadas e a verdade negligenciada. [...]

[...]

Há uma questão renitente na atualidade, que parece não ter solução, o propalado "ódio" entre árabes e judeus, Uma forma viciada de apresentar um conflito como se houvesse uma razão histórica consistente para isso. Não há nada que possa justificar esse conflito. Os dois são povos semitas, da mesma raiz linguística e que viveram lado a lado durante séculos. Muito menos no que concerne às relações entre judeus e libaneses. Estes são descendentes dos fenícios que conviveram com os hebreus e deram apoio ao seu Estado por séculos. Somente a partir da presença inglesa na região, depois da descoberta do petróleo, esse conflito foi alimentado e manipulado. Nem na história antiga, nem na religião, podemos encontrar explicações para esse impasse. O fundamento alegado é a diáspora dos judeus, no tempo de Roma, mas, hoje, sua causa é o interesse das potências modernas no petróleo.

MOURTHÉ, Arnaldo. História e colapso da civilização: é melhor o incômodo da advertência que a tragédia da ignorância. Rio de Janeiro: Editora Mourthé, 2012. p. 219-227.

sábado, 23 de março de 2013

A trajetória dos índios no continente americano

Não se sabe quando o continente americano foi povoado, qual a antiguidade do ser humano na América. Alguns estudiosos consideram que a presença humana é antiquíssima. A arqueóloga Maria Conceição Beltrão investigou sítios na Bahia e propôs que ali houvesse vestígios de um antepassado humano, o Homo erectus, entre 500 mil e 1 milhão de anos. Teriam chegado à América do Sul por uma ponte de gelo, que possivelmente ligava a África Meridional à Patagônia. Outros estudiosos pensam que apenas a nossa espécie, o Homo sapiens, tenha chegado à América. A pesquisadora Niède Guidon, ao estudar sítios arqueológicos no Piauí, sustenta que ali havia ocupação humana há mais de 50 mil anos. Teriam chegado àquele local por duas vias possíveis: ou pelas ilhas do Pacífico ou pelo Oceano Atlântico. Ainda com relação à Alta Antiguidade, outros estudiosos, como o biólogo Walter Neves, propõem que havia mesmo uma migração humana anterior à última glaciação - provavelmente há mais de 20 mil anos - de grupos humanos diferentes dos índios que conhecemos hoje. Eles teriam vindo da Ásia pelo estreito de Bering, colonizado o continente, mas não teriam sobrevivido à chegada mais recente, na última glaciação, dos antepassados dos índios atuais, chamados de mongoloides em virtude de suas características físicas, como o olho puxado.

Na verdade, não há muitas evidências concretas da presença de grupos humanos anteriores e diversos da população indígena. Os estudos mais recentes sobre a pré-história mundial não apresentam motivos, até o momento, para aceitar essa presença de grupos humanos anteriores aos asiáticos ou mongoloides. Os arqueólogos Chris Gosden e Clive Gamble são dois estudiosos que ponderam pela dificuldade das hipóteses da presença do Homo sapiens na América há muitos milênios. Nossa espécie teria saído do continente africano há apenas cem mil anos e sua chegada à América tardaria muito tempo. A navegação e colonização das ilhas do oceano Pacífico são muito tardias, apenas nos últimos milhares de anos, o que dificulta a teoria da chegada mais antiga por essa via. Por fim, não há vestígios humanos numerosos e bem datados que possam fundamentar essas hipóteses.

Sobram, entretanto, evidências da presença indígena a partir dos últimos 12 mil anos. As análises genéticas, linguísticas e arqueológicas parecem indicar que a colonização do continente pelos índios se deu de Norte a Sul a partir do estreito de Bering, tendo ocupado toda a imensa área do Alaska à Patagônia em poucos milhares de anos.

Como podemos narrar e interpretar a história indígena nos últimos milhares de anos? Isso depende do ponto de vista que adotarmos e do nosso objetivo.

O modelo interpretativo mais difundido visa a entender, a partir de um número limitado de variantes, os grandes momentos dessa trajetória. Essas variantes são o domínio técnico do mundo material (tecnologia) e a consequente configuração das relações de poder na sociedade, referente ao grau de estratificação social existente. Essa abordagem deriva do evolucionismo, surgido na Biologia, aplicado às sociedades humanas. A partir dela, estuda-se o passado indígena observando o processo que leva ao conhecimento crescente das técnicas, com a passagem de um estágio menos elaborado a outro tecnologicamente mais evoluído.

Segundo a narrativa construída a partir desse enfoque, o uso da pedra permitiu a confecção de artefatos líticos necessários à caça, à pesca e à coleta. As sociedades primitivas, de caçadores e coletores, eram nômades e viviam em assentamentos temporários, pois mudavam de lugar com frequência. Elas tinham também uma estrutura social pouco diferenciada, com chefes e xamãs que exerciam um poder brando sobre o grupo. Esses foram os primeiros habitantes do continente americano, que viveram assim por milhares de anos.

Após esse período, em alguns lugares apenas, certos grupos humanos passaram a dominar novas técnicas, passado a produzir vasos de cerâmica e a domesticar plantas e animais. Com isso, tais grupos tornaram-se mais sedentários e constituíram aldeias maiores e mais estáveis. Como resultado desse processo, as diferenças sociais aumentaram. Os caciques adquiriram um poder mais efetivo e os conflitos entre as tribos indígenas intensificaram-se, com um grande aumento das guerras e, até mesmo, com a formação de confederações de tribos, que lutavam umas contra as outras.

Por fim, da evolução dessas sociedades, em algumas partes do continente americano, surgiram Estados. Na América do Sul, isto ocorreu apenas nos Andes. Ali, alguns grupos atingiram um domínio tecnológico excepcional, por meio de uma produção agrícola intensiva e elaborada, com a produção de grande excedente que podia ser acumulado por uma elite dominante. Isso permitiu o desenvolvimento de um Estado que abrangia uma sociedade muito bem estratificada, como a inca, com um sistema monárquico elaborado, com uma corte real e, com o tempo, a formação de um verdadeiro império, que se estendia por uma imensa área nos Andes. O domínio tecnológico dos metais permitiu a formação de um grande exército. O uso da escrita possibilitou a administração do império. Processos semelhantes ocorreram na América Central, com os maias, e na América do Norte, com os astecas.

Podemos apresentar, de forma esquemática, essa perspectiva no seguinte quadro:

Perspectiva tecnológica evolucionista da História indígena

Tecnologia

Estrutura social
Formação política
pedra
caçadores e coletores
xamanismo

cerâmica
agricultores
cacicado tribal

metais e escrita
populações urbana e rural
monarquia e império


classes sociais



Essa perspectiva é muito útil para compreender, em grandes traços, processos tecnológicos, sociais e políticos.

Posteriormente, os estudiosos de língua inglesa procuraram aprimorá-la, com a definição de cinco etapas esquemáticas:

* Hunters and gatheres (caçadores e coletores)
* Agriculture (agricultura)
* Rank (classe social, graduação)
* Chiefdoms (chefias)
* State (Estado)

Segundo esta gradação, temos uma imagem piramidal explicativa de que, no passado mais remoto, havia apenas caçadores e coletores, sendo que alguns evoluíram para, numa etapa mais recente (em 1500 d.C.), chegar a formar um Estado imperial, como o inca:

Estado imperial
Chefias ou cacicados
Tribos com estratificação social
Agricultores sedentários e ceramistas
Sociedades de caçadores e coletores itinerários

A perspectiva evolucionista chegou a ser criticada por diversos estudiosos por dar a entender que haveria uma progressão valorativa: da "simplicidade e barbárie" dos caçadores e coletores para a "sofisticação e complexidade" das sociedades com classes sociais, estratificação, cidades, províncias e até um império, como o inca. Como se fosse melhor viver em um império do que em uma tribo. Além disso, a progressão evolucionista, adotada sem as devidas ressalvas, pode dar a falsa impressão de que cada etapa põe fim à anterior, quando, na verdade, mesmo à época dos incas, coexistiam caçadores, coletores, agricultores, tribos confederadas e cacicados. E, mais do que isso, tinham lugar ao mesmo tempo, numa mesma cultura, tecnologias de diferentes "etapas tecnológicas". Por exemplo, o uso dos metais não significou o abandono total do uso da pedra. (Mesmo nos dias atuais, é possível observar sua aplicação na separação dos grãos do milho nos campos europeus, em particular no espanhol.) Igualmente, comunidades que adotaram a agricultura nem por isso deixaram de caçar ou coletar quando tinham oportunidade. (Hoje, como obtemos alguns tipos de cogumelo? E certos tipos de trufa? Por meio da coleta, claro, e neste aspecto somos coletores.)

Entretanto, essa classificação não foi abandonada pelos estudiosos, pois, sem a carga valorativa, tem sido muito útil para compreender alguns aspectos da trajetória indígena e, nesse sentido, continua sendo empregada. Com ela, podemos visualizar a importância das transformações tecnológicas e seus impactos na estrutura social e política das sociedades indígenas. Contudo, esta não é a única maneira de se observar a experiência histórica dos índios e outras abordagens, que, por exemplo, se baseiam na valorização da diversidade cultural, nos ajudam a ter uma visão mais acurada, pois complementam aquela baseada na evolução tecnológica.

Essas outras abordagens, chamadas por alguns de "culturalistas", por enfatizar as especificidades culturais, apresentam uma visão mais difusa do passado indígena e não fazem uma classificação que possa ser comparada àquela proposta pelo evolucionismo.

Nessa perspectiva, o nomadismo da floresta tropical, modo de vida praticado por diversos grupos humanos como os nucaques, é explicado não como o resultado de uma tecnologia primitiva, mas é tido como fruto de escolhas culturais desses grupos que os levaram a não quererem adotar outras tecnologias. Poderiam ter domesticado animais e plantas ou desenvolvido a cerâmica para armazenamento de alimentos, já que tiveram contato com povos que dominavam tais técnicas, mas escolheram, por suas disposições simbólicas e culturais, não fazer nada disso.

No extremo oposto, os incas criaram um grande império, com escrita, corte real e as melhores estradas do mundo no século XV. Porém, muitos povos sob seu jugo mantiveram-se como tribos de agricultores, sem grande diferenciação interna e pouco contentes com o fato de terem de pagar tributos para o Estado imperial inca. Só aceitavam o domínio inca por imposição militar, mas sua visão de mundo nada tinha a ver com a inca.

Ainda no mesmo século XV, outros povos da América viviam em tribos confederadas e em guerra entre si, como os tupis.

As classificações e esquemas podem ser didaticamente úteis, mas sempre podem ser reavaliados. Por exemplo, estudos das sociedades indígenas americanas têm mostrado que muitos conceitos explicativos como os fundados no colonialismo e na dominação social (que reconhecem "inferioridades" e "superioridades" entre culturas e povos distintos) devem ser revistos. Os índios nunca utilizaram a roda e nem por isso as estradas incas deixaram de ser as melhores do mundo à sua época, no século XV. A ideia da "domesticação" de animais não se aplica a muitas sociedades indígenas que como os nucaques não usam os animais em cativeiro para produzir alimentos ou outros bens, mas os incorporam em seu convívio de maneira simbólica e espiritual. A oposição radical entre sociedades letradas e ágrafas tampouco parece muito esclarecedora. Em primeiro lugar, sistemas de escrita foram utilizados por indígenas, como no caso da grafia por ideogramas dos maias. Os incas usaram um método original, composto por cordas e nós para registrar sua língua quíchua. Em seguida, como argumenta o estudioso britânico Gordon Brotherston, os desenhos corporais, os penachos, os vasos de cerâmica, as pinturas em couro e nas paredes das cavernas, tudo isso e muito mais consistem em sistemas de escrita, de transmissão de informação de maneira sofisticada e complexa (tão longe, portanto, da simplicidade atribuída aos índios ainda por alguns).

Outras visões antes consagradas também têm sido criticadas, como a que afirma que nas sociedades caçadoras e coletoras há necessariamente uma divisão de tarefas por sexo, ou seja, o homem é o caçador e a mulher é quem faz a coleta e que, por isso, o homem é hierarquicamente superior à mulher. Essa imagem contradiz os resultados de estudos, tanto de comunidades indígenas vivas, como do passado, que mostram que, em muitas delas, às mulheres cabem múltiplas funções e não só as chamadas "domésticas". Eles revelam a existência de grupos indígenas em que a posição da mulher é proeminente, algo muito distante da imagem da mulher passiva que os europeus que os contataram traziam consigo. Basta lembrar que, quando chegaram ao Amazonas, os colonizadores encontraram mulheres guerreiras que chefiavam suas tribos e, por isso, deram a elas o nome das míticas lutadoras gregas antigas: "amazonas". Esse nome deriva da posição hierárquica excepcional dessas índias, também no campo da guerra, considerado pelos colonizadores como apanágio masculino. A arqueóloga norte-americana Anna Roosevelt estudou os assentamentos pré-históricos amazônicos, assim como a cerâmica marajoara, com sua onipresente representação dos atributos femininos da fertilidade e concluiu, de forma enfática, que as mulheres ocupavam uma posição hierárquica relevante. Para além do caso bastante conhecido das amazonas, estudiosas têm mostrado que, em outras tribos indígenas, as mulheres também exerciam papéis sociais muito importantes e valorizados. A arqueóloga cubana Lourdes Dominguez estudou diversas tribos indígenas, dentre as quais as de língua aruaque, presentes tanto no Caribe, como na América do Sul - povos que viviam no Brasil, na Venezuela e nas ilhas caribenhas. Entre eles, encontrou tribos em que as principais divindades eram femininas e a linhagem era materna, tanto no que se refere à descendência como à herança, de modo que a criança era considerada pertencente à família da mãe, assim como os bens eram passados por linha materna. Documentos do início da colonização também se referem a "cacicas", no feminino.

É bom notar que, apenas nas últimas décadas, com a crescente participação das mulheres como estudiosas das sociedades indígenas, foi possível perceber que nem todas as sociedades indígenas eram (ou são) patriarcais. [...] 

Nessa mesma linha, também cabe comentar [...] sobre a diversidade de sexualidades registrada em tribos indígenas. Pesquisas têm mostrado a existência de sociedades indígenas que reconhecem mais do que dois sexos. A arqueóloga norte-americana Barbara L. Voos é uma das estudiosas desses personagens sociais que não são considerados nem "homem" nem "mulher", mas estão em uma terceira categoria designada "muxes" pelos zapotecas, "berdaches" pelos illinois, "winktes" pelos lacotas, "ikoneta" pelos ilinos, "egwakwe" pelos chipewas, "axi" pelos xumaxes, "miati" entre os hidatsas, entre muitos outros nomes que variam de tribo a tribo. O que importa é o reconhecimento da existência de pessoas que não são tratadas como homens ou mulheres, são vistas como de um outro tipo.


Dança para o berdache, George Catlin


Isso se reflete nas relações sociais estabelecidas dentro do grupo. Um grupo indígena, por exemplo, que admite homens, mulheres, e homens que vivem como mulheres e vice-versa, organiza as relações humanas de uma maneira particular. Esta conclusão é um alerta contra as óticas interpretativas que ignoram a diversidade de sexualidades e de relações de gênero entre os indígenas, mas também na nossa sociedade. E é por isso também que esse tema é muito importante hoje [...], no Brasil, pois embora nossa sociedade reconheça a existência de gays, lésbicas e transgêneros, entre outros, com vários direitos garantidos por lei, ainda há muito preconceito e discriminação por conta de suas diferenças.

FUNARI, Pedro Paulo; PIÑON, Ana. A temática indígena na escola: subsídios para professores. São Paulo: Contexto, 2011. p. 38-49.

terça-feira, 5 de março de 2013

O Homo erectus e o grande jogo da caça

Apesar das enormes brechas no nosso conhecimento, não pode haver dúvida de que o Homo erectus foi uma espécie muito bem-sucedida. De onde provinha o seu cérebro maior? Aqui há mais mistérios, porém parece ser mais provável que uma mudança na dieta explique o surgimento de um novo tipo físico. Comer mais carne pode ter ajudado a sobrevivência e a reprodução de criaturas de estatura maior que a média. Isto bem pode estar ligado ao aparecimento da primeira habilidade especializada: a caça.


Idade da Pedra, Viktor Vasnetsov

 Os primeiros carnívoros parecem ter dependido de pequenas presas, como répteis ou roedores, ou ter comido a carniça encontrada onde haviam morrido animais maiores. Bem no começo dos registros arqueológicos, elefantes e talvez girafas e búfalos tenham ajudado a fornecer carne consumida em Olduvai, mas muito antes disto os detritos registram a enorme preponderância de ossos de pequenos animais. Não era garantido ir em busca de alimentos, e isto se transformou na verdadeira caça - e também no grande jogo da caça -, só que muito lentamente. Porém a mudança e as consequências que causou foram muito grandes. Junto com o crescimento de tamanho dos animais, restos encontrados entre os vestígios da dieta primitiva podem demonstrar um crescimento paralelo no tamanho do crânio dos carnívoros. Por volta de 300000 a.C., elefantes eram mortos e imediatamente retalhados; foram encontrados restos de grande número deles (em um só local, cerca de cinquenta). No mesmo período (e também em tempos posteriores), a forma dos dentes e das mandíbulas de criaturas semelhantes ao homem evoluiu lentamente a partir das espécies predominantemente vegetarianas. Nesta questão é difícil determinar a causa e o efeito. A melhor dieta conseguida da caça organizada só estava à disposição de criaturas já pelo menos avançadas o suficiente para realizar esta operação complicada. Mais uma vez isto mostra a velocidade da mudança evolutiva. Uma enorme e nova amplitude de capacidades e habilidades passa a existir em algum ponto entre 1000000 e 100000 a.C. e possibilitou o surgimento das primeiras sociedades humanas.


Idade da Pedra, Viktor Vasnetsov

 Antes que o grande jogo da caça se tornasse possível, alguém precisou conhecer muito a respeito dos hábitos dos animais e ser capaz de passar aos outros este conhecimento, tanto aos engajados na empreitada cooperativa da caça como de geração em geração. Portanto, algum tipo de fala deve ter existido. Tem-se discutido se a seleção genética´que levou a mudanças na forma do cérebro favoreceu o desenvolvimento da linguagem. Talvez nunca se saiba como o Australopithecus se comunicava, mas até mesmo primatas inferiores têm meios de fazer isto. Talvez o primeiro passo na organização da linguagem tenha sido a fragmentação de gritos, como os de outros animais, em sons particulares, capazes de uma nova ordenação. Isto possibilitaria diferentes mensagens. Mas outras mudanças também podem ter ajudado. Melhor visão, um senso crescente do mundo como porções de objetos separados e a feitura de novas coisas (ferramentas), tudo aconteceu simultaneamente durante centenas de milhares de anos durante as quais a linguagem evoluiu. Tudo isto possibilitou aos poucos o advento do pensamento abstrato (pensar em coisas não de fato presentes). E esta tendência deve ter sido reforçada quando a caça tornou ainda mais importantes o registro e a memória.


Idade da Pedra, Viktor Vasnetsov

 A caça também exigiu grande variedade de técnicas e habilidades. Era extremamente difícil preparar armadilhas e matar monstros, como o mamute ou o rinoceronte peludo, com a ajuda exclusiva de armas de pedra ou madeira. Era preciso muito cálculo e disciplina para levar aquelas pesadas criaturas a um local onde o abate seria favorecido por causa de um pântano, ou porque oferecia aos caçadores bons pontos de vantagem ou plataformas seguras. Uma vez mortas, as vítimas apresentavam outros problemas. Era preciso retalhá-las, apenas com ferramentas de madeira e pedra. E, depois, a carne deveria ser levada para casa.

Maiores suprimentos de carne representavam um passo minúsculo para um pequeno lazer: os consumidores eram temporariamente liberados da enfadonha tarefa da busca incessante de pequenos porém continuamente disponíveis quinhões de alimentos, e tinham tempo para fazer outras coisas. Podiam aprimorar a tecnologia existente. Além de fabricar machados manuais mais elaborados e bifaciais, o Homo erectus também deixou a primeira evidência comprovada de habitações construídas, das primeiras madeiras trabalhadas, da primeira lança de madeira, do primitivo recipiente, uma tijela de madeira. Inventar coisas nesta escala demonstra um ritmo de desenvolvimento e uma capacidade bastante diferentes do que acontecera antes. As mentes imaginavam os objetos antes de começar a manufaturá-los. Alguns têm argumentado que as formas simples (triângulos, elipses e ovais) usadas em grande número de ferramentas de pedra podem ser vistas como a origem da arte - a produção de objetos que davam prazer, tanto por sua forma quanto por sua utilidade.

[...]

É mais fácil formar um quadro das circunstâncias materiais da vida antiga do que daquilo que se passava dentro dos cérebros maiores que agora enfrentavam estas circunstâncias. Mas examinar esses restos materiais é na verdade tudo o que podemos esperar fazer, e que eles nos digam algo. Vale a pena pensar mais uma vez no grande jogo da caça. Ao se tornar dependente da carne, o Homo erectus se transformou num parasita das manadas desse jogo -, e portanto, precisava segui-las ou explorar novos territórios onde procurá-las - e era mais provável se estabelecer e se multiplicar em alguns locais do que em outros. Assim, foram estabelecidas as bases de moradia. Algumas parecem ter sido ocupadas por milhares e milhares de anos.

[...]

[...] O Homo erectus fabricou ferramentas de diferentes estilos e em diferentes locais, construiu abrigos, tomou posse de refúgios naturais explorando o fogo e dali saiu para caçar e coletar comida. Fez isto em grupos, mostrando alguma disciplina, e foi capaz de transmitir ideias por meio da fala, fundou uma base de moradia e uma distinção entre as atividades de machos e fêmeas. Pode ter havido outras especializações: portadores de fogo ou criaturas mais velhas cujas memórias os transformavam em "bancos de dados" das suas "sociedades", e que talvez tenham sido, até certo ponto, sustentados pelos outros.

No entanto, nada se tem a ganhar procurando uma linha divisória na Pré-história. Não existe evidência alguma. Tudo o que podemos afirmar com confiança é que as coisas aconteceram de certa maneira. Quando o Homo sapiens evoluiu a partir de uma ou mais subespécies do Homo erectus, já estavam à sua disposição um novo tipo físico, grandes realizações e uma herança. Os indivíduos chegaram nus ao mundo, mas a humanidade não. Ela trouxe consigo do passado tudo o que a constitui.

ROBERTS, J. M. O livro de ouro da história do mundo. Rio de Janeiro: Ediouro, 2001. p. 30-32, 34, 37.

domingo, 3 de março de 2013

Origens africanas


Podemos habitar qualquer parte do mundo, mas somos todos africanos. A África é o lar de nossos parentes mais próximos, os chimpanzés e os gorilas, que por sua vez guardam uma semelhança mais direta conosco do que com os orangotangos e outros primatas. E foi lá, há cerca de 6 milhões de anos, que ocorreu a divisão entre a linha que deu origem aos chimpanzés e a que levou aos humanos modernos. Desde então, diversas espécies humanóides (semelhantes aos humanos) evoluíram, desenvolveram-se por algum tempo e depois desapareceram. Quais dessas são nossas ancestrais diretas, e quais são apenas parentes distantes, ainda não foi definido. O que se sabe, com certeza, é que por volta de 150 mil anos atrás, nas amplas planícies relvadas da África Oriental que chamamos de savana, houve seres humanos que se pareciam muito conosco.

Povo dinka, África


Uma prova de que a África constitui o lar original da espécie humana é fornecida pela análise genética. Existe mais variação genética entre os habitantes da África do que em qualquer outra parte do planeta. É exatamente o que se espera caso os seres humanos houvessem se originado, e vivido ali por um longo tempo, antes de partirem para qualquer outro lugar. Se ignorarmos os imigrantes de primeira e segunda geração, a diferença entre a composição genética dos habitantes de algumas aldeias africanas separadas por trinta quilômetros é maior do que a existente entre certas nações europeias.

Durante os séculos XIX e XX, quando os biólogos tendiam a ser ocidentais de classes abastadas, confiantes na superioridade de seus próprios grupos sociais, havia uma crença disseminada na origem distinta das assim chamadas raças "branca", "negra" e "amarela" da humanidade. Conhecemos atualmente muito mais sobre a genética e as origens humanas, e podemos considerar o termo "raças" produto da ignorância ou da ilusão.

Ainda falta muito para que sejamos capazes de construir uma árvore genealógica que mostre a linha de descendência dos seres humanos desde sua ramificação de 6 milhões de anos atrás. Sabemos, a partir de vestígios fósseis, que em alguns momentos ao longo dos últimos 3 ou 4 milhões de anos coexistiram diversas espécies de humanos. Mas esses vestígios - fragmentos de crânios e ossadas incompletas - não são numerosos, e precisaremos de mais vestígios antes de podermos estabelecer uma linha ancestral da humanidade. Tendo-se em mente que apenas uma minúscula proporção dos seres humanos que existiram em uma data tão recente quanto 100 mil anos atrás pode ter deixado descendentes, as chances de que alguma antiga criatura ainda pode ser descoberta seja literalmente um ancestral direto nosso são praticamente nulas. Pode ser que algumas delas representem espécies que, coletivamente, foram nossas ancestrais, mas essa suposição está longe de ser confirmada.

Vestígios de espécies pré-humanas primitivas foram encontrados em diversas regiões no leste e no sudoeste da África. Essas espécies extintas receberam nomes latinos conforme o sistema divisado no século XVIII pelo naturalista sueco Carl von Linné, que é geralmente mais conhecido por seu nome latinizado, Lineu. No sistema lineano, pode-se descrever qualquer planta ou animal em duas partes. A primeira designa o gênero, ou tipo, e a segunda, a espécie, ou a característica biológica precisa. Dingos, galgos e são-bernardos pertencem ao gênero Canis, que significa cão. Mas os dingos são classificados como uma espécie separada - Canis dingo -, ao passo que galgos e são-bernardos são classificados como Canis familiaris ("cão doméstico") e constituem duas variedades da mesma espécie.

Quando chegou o momento de Lineu classificar os primatas (lêmures, macacos, humanos etc.), ele colocou os seres humanos no gênero Homo (que significa "humano") e gorilas e chimpanzés no gênero Gorilla e Pan, respectivamente. Mas classificou os gorilas, chimpanzés e humanos na mesma subordem, Anthropoidae (do grego, antropomorfo, de forma humana). Ao fazê-lo, ele atentou contra as crenças religiosas de seu tempo, que diziam que os seres humanos eram únicos na criação. De acordo com a fé cristã, baseada nos textos bíblicos, os humanos foram criados "à imagem de Deus", "para exercer seu domínio sobre todos os animais da Terra". Na opinião de Lineu, os humanos não diferiam suficientemente dos grandes macacos para justificar qualquer separação maior em sua descrição biológica.

Caso a genética já existisse nos dias de Lineu, ele jamais teria colocado gorilas, macacos e humanos tão distantes. O chimpanzé comum e o chimpanzé pigmeu (ou bonobo) compartilham 99,3 por cento de seus genes. Ambos compartilham 98,4 por cento de seus genes com os humanos. Essa diferença de 1,6 por cento entre chimpanzés e humanos é apenas aproximadamente a metade da diferença entre chimpanzés e humanos por um lado e gorilas por outro. Não resta muita dúvida de que, se Lineu classificasse os primatas nos anos 1990, e não na década de 1750, chimpanzés comuns, bonobos e humanos estariam incluídos no mesmo gênero, Homo.

Os biólogos continuam a reservar a descrição Homo para os humanos modernos e seus parentes extintos mais próximos. Algumas espécies mais antigas são inseridas no gênero Australopithecus ("macaco do sul"). Esses australopitecinos tinham cérebros um pouco maiores que os dos chimpanzés. Eram dotados de braços compridos, o que presumivelmente significava serem capazes de se locomover com facilidade entre as árvores, e, como a maioria dos macacos, os machos eram muito maiores do que as fêmeas. Mas eles, definitivamente, compartilhavam algumas características com o grupo posterior do Homo, incluindo o andar ereto e os dentes frontais menores. Essas espécies de algum modo desenvolveram o hábito de caminhar eretas e proporcionaram as mudanças físicas que se fizeram acompanhar. [...]

Cerca de 4 milhões de anos atrás, havia uma espécie que andava ereta, e era semelhante a um macaco. Conhecida como Australopithecus afarensis, "macaco meridional de Afar" (uma região da Etiópia), vivia na África Oriental. Essa é a espécie à qual "Lucy", o hominídeo fóssil mais famoso do mundo, pertence. [...] Essa espécie, em média com cerca de 1,20 metro, ou uma espécie semelhante, deixou-nos uma evidência de seu hábito de caminhar ereta. Perto da garganta de Olduvai, na Tanzânia, em 1978, a antropóloga Mary Leakey descobriu três pares de pegadas com 3,7 milhões de anos, que a princípio pertenceram a dois adultos e uma criança. Elas se estendiam por 54 metros ao longo de uma extensão de cinza vulcânica que uma chuva transformara em cimento de secagem rápida.

Dois e meio milhões de anos atrás, uma criatura de aspecto mais próximo do ser humano moderno - o Homo habilis - viveu no Quênia e na Tanzânia. O número de vestígios fósseis classificados como pertencentes a essa espécie é pequeno, e alguns paleontólogos questionam se representam uma espécie identificável. Presumindo-se que sim, eles sugerem um tamanho médio de cérebro de 655 centímetros cúbicos, cerca de 40 por cento maior que o do chimpanzé, mas menos da metade da medida de um humano moderno. Essas criaturas provavelmente apresentavam comunicação rudimentar. [...] Pelas evidências, é possível que as pessoas identificadas como Homo habilis tenham cruzado a fronteira que separa a comunicação animal da fala humana.

Homo habilis era também um fabricante de ferramentas. [...] Embora muito simples na forma, essas ferramentas representaram um avanço na prática de espécies anteriores que se valiam delas. [...]

Homo habilis foi uma espécie que viveu por cerca de um milhão de anos, e se confinou à África, assim como todas as criaturas humanoides anteriores a 1,5 milhão de anos. A primeira espécie a se aventurar fora da África parece ter sido o Homo erectus. Os vestígios mais antigos dessa espécie, datando de cerca de 1,6 milhão de anos, são encontrados na África. Mais tarde, ela se propagou amplamente, e novas descobertas foram realizadas por toda a Europa e Ásia. Além de se difundir bastante, o Homo erectus foi outras espécie que perdurou. Fósseis que datam de um período recente, 200 mil anos atrás, foram encontrados na China, em Java e no Cáucaso, o que dá a entender que houve pessoas desse tipo vivendo em alguma parte do mundo por mais ou menos 1,5 milhão de anos.

Dois dos fósseis humanoides mais famosos, o "Homem de Java" e o "Homem de Pequim", pertencem a essa espécie. [...]

Além do uso do fogo, o Homo erectus fabricava ferramentas moderadamente sofisticadas, produzindo bifaces ("machados de mão") e uma variedade de utensílios rudemente construídos a partir de pederneira, sílex e quartzito. Tanto em altura quanto em tamanho do cérebro, o Homo erectus se revelo algo a meio caminho entre o Homo habilis e os humanos modernos, e a espécie muito possivelmente tinha uma capacidade de fala razoavelmente bem desenvolvida [...].

[...]

Não se sabe se o Homo erectus foi um ancestral direto dos humanos modernos, ou se a ascendência sapiens e a erectus derivaram separadamente de uma espécie ancestral comum (Homo habilis, ou algum parente próximo) em algum ponto entre um e dois milhões de anos atrás. [...] Em termos de cronologia, a transição do Homo erectus para o Homo sapiens, se foi mesmo isso que ocorreu, provavelmente aconteceu há mais de 500 mil anos. Vestígios fósseis dessa época descobertos na África exibem uma mistura de características erectus e sapiens.

Não é senão em torno de 150 mil a 120 mil anos atrás que encontramos, na África, os vestígios de criaturas cuja estrutura corporal é tão similar à nossa que biólogos se sentem à vontade para incluí-las na espécie Homo sapiens e em rotulá-las como "humanos modernos". Quando querem ser bem precisos em suas classificações, biólogos os chamam de Homo sapiens sapiens, para distingui-los das versões anteriores de Homo sapiens, que andaram pelo mundo cerca de 300 mil ou 400 mil anos atrás. [...]

[...] A evolução humana não parou há 150 mil anos. Nossa espécie sem dúvida mudou desde então, e não apenas de maneira superficialmente óbvia, como o desenvolvimento de diferentes cores de pele e texturas de pelos. Também deve ter havido transformações significativas nas capacidades intelectuais e verbais. [...]

[...] Só é possível conjeturar quanto à extensão de suas capacidades linguísticas, sua visão de si mesmos, suas crenças e práticas religiosas, sua organização social, suas aptidões artísticas e quanto ao papel que a música e a dança desempenhavam em suas vidas. [...] os humanos, ao longo de toda a História, incluindo os povos nativos da Austrália e tribos isoladas por toda parte, têm apresentado essas características, de modo que elas devem ter feito parte das vidas de nossos ancestrais muito antes que um determinado grupo deles deixasse a África, cerca de 60 mil anos atrás.

Duas escolas de pensamento contemporâneas opostas competem entre si para interpretar a evidência demasiado limitada de que dispomos. Uma teoria está resumida na expressão chinesa "o grande salto adiante", usada nos anos 1990 pelo fisiologista e biólogo evolucionário americano Jared Diamond em seu livro The Rise and Fall the Third Chimpanze. Seus adeptos acreditam que em algum momento em torno de 50 mil anos atrás houve uma step-change (escalonamento súbito) na evolução humana, disparada por mudanças genéticas que provocaram um "rewiring" (religação elétrica) do cérebro humano. A evidência que a sustenta é um tanto quanto escassa, bem como a evidência para refutá-la. As pessoas que compartilham dessa visão atribuem grande importância à variedade muito maior de ferramentas de pedra e de osso empregadas em torno de 50.000 a.C. e às habilidades técnicas envolvidas em sua manufatura. Elas também apontam para o que parece ser um repentino florescimento do talento artístico, sobretudo o que se vê nas magníficas pinturas de cavernas em lugares como Altamira, na Espanha, e Lascaux, na França, feitas por povos da cultura europeia conhecida como cro-magnon de cerca de 30.000 a.C.

[...]


A escola de pensamento oposta é representada pelo psicólogo evolucionário Robin Dunbar da Universidade de Liverpool, que defende em seu livro The Human Story que a evidência sustentará igualmente a visão de que o desenvolvimento da linguagem, da autoconsciência e da capacidade intelectual teve lugar gradualmente durante um período muito mais longo. [...] A diferença entre nossos ancestrais de 100 mil a 150 mil anos atrás e nós passa a ser mais de grau do que de qualidade.

Tanto a genética como a neurociência são ciências recentes, ainda, e, essas questões serão provavelmente muito mais bem compreendidas em gerações futuras. É razoável esperar que até lá tenhamos coletado uma quantidade de evidência fóssil bem mais informativa. [...]

AYDON, Cyril. A história do homem: uma introdução a 150 mil anos de história humana. Rio de Janeiro: Record, 2011. p. 17-25.