"Os espelhos estão cheios de gente.
Os invisíveis nos vêem.
Os esquecidos se lembram de nós.
Quando nos vemos, os vemos.
Quando nos vamos, se vão?"
Eduardo Galeano: Espelhos
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sábado, 19 de setembro de 2015

O que aprendemos com os povos indígenas

Guerreiro cheyenne com cocar, escudo e lança, ca. 1915-1937. Monroe Tsatoke

Tomate, batata, feijão, milho, mandioca e cacau são algumas das dezenas de plantas descobertas e cultivadas pelos povos nativos da América, há milhares de anos. Hoje, a dieta básica de milhões de pessoas de todo o mundo contém espécies vegetais originadas do continente americano. Mesmo o chiclete, a goma de mascar popularizada pelos norte-americanos, foi tomado dos maias, inclusive seu nome; ainda hoje sua matéria-prima é extraída das florestas tropicais da Meso-América, onde estão os sapotis, a árvore de onde se extrai o "chicle". É igualmente grande o número de plantas empregadas na indústria que os antigos povos da América já utilizavam: borracha, palmeira, carnaúba, amendoim, castanha-do-pará, girassol, tabaco, algodão, juta e sisal são alguns exemplos. O conhecimento acumulado pelos ameríndios ao longo de muitas gerações está merecendo, atualmente, a atenção dos cientistas.


O presente, 1922. Ernest L. Blumenschein

Os grupos indígenas desenvolveram uma ciência própria. Alguns, por exemplo, classificam o solo de acordo com as plantas e a matéria inorgânica (areia e argila, por exemplo) que a compõem. Dão nomes específicos a cada tipo de solo e discriminam as plantas ideais para cultivar em cada um. Na mata virgem, identificam centenas de espécies vegetais, muitas das quais desconhecidas pelos botânicos. Além das alimentícias, os indígenas reconhecem plantas medicinais (curativas, anestésicas, antissépticas etc.), inseticidas, tóxicas, corantes, fertilizantes, lubrificantes, além daquelas usadas para cobrir casa, trançar cestos e esteiras, fabricar ferramentas e armas, conter encostas e barrancos.


Mestre de cerimônias, 1925. Gerald Cassidy

Alguns medicamentos da medicina ocidental foram feitos a partir de plantas há tempos utilizadas pelos indígenas, como o ipecacuanha (tratamento de infecções gastrintestinais), a capaíba (contra afecções das vias urinárias), a quinina (contra a malária), a coca (como anestésico local), o curare (em cirurgias cardíacas) e o peiote (em tratamentos psiquiátricos) - plantas perigosas que, entre os ameríndios, só eram manipuladas pelos curandeiros ou sacerdotes, pois o erro na dosagem podia matar o doente.

A indústria têxtil usa espécies de algodão há milênios cultivadas pelos indígenas da América e consideradas as melhores do mundo.

[...] astecas e incas, para aproveitar os espaços e ampliar as áreas de cultivo [criaram] as chinampas, os canais de irrigação e o uso de fertilizantes naturais. Muitos pesquisadores já demonstraram que essas técnicas são mais simples, baratas e tão produtivas quanto aquelas que utilizam as modernas e caras máquinas e fertilizantes químicos de hoje.


O cacique do pueblo, 1916. Walter Ufer

Outras culturas nativas americanas também desenvolveram eficientes técnicas agrícolas. Ao contrário do que muitos pensam, os indígenas interferiram na natureza, criando artificialmente terrenos propícios à lavoura. No Brasil, por exemplo, há grupos indígenas que espalham sobre a área de cultivo uma mistura de palha com terra de cupinzeiros e formigueiros esmagados. Colocam cupins e formigas vivas na terra recém-cultivada para que os insetos lutem entre si e não ataquem os brotos. Transplantam espécies vegetais para locais onde elas não são comuns.

Na Amazônia, onde o solo se esgota rapidamente e a camada de húmus é muito fina, os indígenas desenvolveram a agricultura itinerante. Uma família derruba apenas a área correspondente à sua capacidade de trabalho (em geral um hectare). A mata derrubada é deixada  para secar por dois ou três meses. Procede-se, então, à primeira queima, que é, depois, seguida de nova queimada com os galhos e folhagens que restaram.


Nas Colinas de Pé, 1896. John Hauser

Os indígenas que utilizam a técnica da coivara sabem quando é chegada a hora da queima. Observam a direção do vento e se orientam por alguns sinais da natureza. Os kuikuro, por exemplo, que vivem no Alto Xingu, só procedem à queimada quando a constelação do Pato aparece do lado leste do céu, antes do raiar do sol, e quando as tracajás desovam nas praias do rio Culuene. Não se sabe qual é a relação entre esses fenômenos e o sucesso da queima, mas sabe-se que os kuikuro nunca provocaram um incêndio na floresta.

A cinza obtida fertiliza imediatamente o solo e o carvão é enterrado para servir de adubo extra que a planta absorverá durante seu crescimento. Inicia-se, então, o cultivo de diversas espécies com alturas diferentes - o que reduz o impacto dos ventos e das fortes chuvas e evita a propagação de pragas. Pela mesma razão, o mato que cresce entre as plantas cultivadas não é arrancado. depois que a terra se esgota, ela descansa por dois ou três anos. Ali crescerão brotos e folhagens que alimentarão pacas, queixadas e caititus, transformando-se em uma área de caça para a tribo.


Dança do búfalo, 1860. Karl Ferdinand Wimar

As técnicas agrícolas indígenas, do tipo extensivo e policultor, têm a vantagem de manter a fertilidade do solo e permitir a rápida recuperação da floresta. Já as fazendas de gado da Amazônia mostram um resultado inverso. Uma única fazenda desmata cerca de 10 mil hectares num ano para formação de pastagens. O desmatamento é total, e a superfície do solo fica exposta ao calor do sol e às pancadas de chuva, provocando sérias alterações no meio ambiente. Além disso, cada hectare produz somente 30 kg de carne bovina ao ano. Isso significa que um boi come o equivalente ao que alimenta uma família indígena no mesmo período, com a agravante de destruir o solo.

RODRIGUE, Joelza Ester. História em documento: imagem e texto. São Paulo: FTD, 2002. p. 128-130.

quinta-feira, 17 de setembro de 2015

A difusão cultural

O Senado de Tlaxcala, Rodrigo Gutiérrez

O eminente etnólogo norte-americano Paul Radin defende, entusiasticamente, a seguinte tese: as civilizações Maia, Pré-Incaica e Incaica seriam as grandes criadoras e irradiadoras culturais do continente. Os Maias teriam exercido influencia nos atuais territórios do México e dos Estados Unidos e mediante sucessivas migrações rumo ao sul, teriam também influenciado a América Central e América do Sul. O início destas migrações - a data não é precisa - remonta a uns cem anos antes de Cristo. Essas migrações massivas - cujos motivos desconhecemos - levavam consigo os admiráveis elementos da civilização Maia que, no contato com outros povos de níveis de desenvolvimento inferiores aos deles, perderam parte de sua entidade original exercendo porém uma intensa e benéfica influência. Ainda de acordo com a tese de Radin, os vestígios da cultura Maia são encontrados em uma área gigantesca, habitada por inúmeros povos de diferentes níveis culturais, possuidores de diferentes manifestações daquela cultura.

Atualmente, não há dúvida alguma de que os povos pré-incaicos possuíam uma civilização de altíssimo nível, e que a tribo Inca que os dominou e construiu o império [...] não acrescentou grande coisa àquelas civilizações. Também estaria fora de discussão o caráter de pólo irradiador de civilização que haviam tido e cujas projeções chegam até os Araucanos no sul do Chile, os Kauka no Equador, os Chibcha na Colômbia, os Calchaques na Argentina e numerosíssimas comunidades indígenas do Brasil. Povos que viviam nas margens do Rio Amazonas e seus tributários assim como os Tupi-Guarani, teriam sido alcançados de formas diversas pela civilização que, a partir do terceiro século de nossa era, irradiou-se das regiões que hoje formam o Peru e a Bolívia. Também nesse caso cada povo assimilou a influência à sua maneira e aproveitou dela aqueles elementos que pudessem facilitar sua sobrevivência e talvez aquilo que seu nível cultural permitisse assimilar.

Excelentes estudos confirmam a existência de comunicações marítimas entre México e Peru. Entre outras, são muitas as provas arqueológicas e filológicas. O momento do apogeu destes contatos situa-se antes da criação da Confederação Asteca e do Império Inca e, de acordo com Paul Rivet e Arsendaux, entre os séculos X e XI de nossa era. [...]

POMER, León. História da América hispano-indígena. São Paulo: Global, 1983. p. 36-7.

terça-feira, 15 de setembro de 2015

Os Incas

"O maior império das Américas foi o dos índios quíchuas, conhecido também como Império Inca, por ser esse o título de seus chefes supremos, tidos como filhos do sol.

A civilização quíchua ou incaica desenvolveu-se em regiões dos atuais Peru, Equador, Bolívia, Chile, atingindo seu auge no século XIV. [...]" HOLLANDA, Sérgio Buarque de (Org.). História da Civilização. São Paulo: FTD, 1974. p. 192.

Manco Capac, primeiro Inca, Artista desconhecido

Os métodos de conquista dos incas forma algumas vezes brutais: deportaram os povos insubmissos, aos milhares, mandando-os para pontos distantes do Império; levaram os filhos dos chefes vencidos como reféns para Cuzco, a capital inca. Impuseram a todos os povos submetidos a sua religião, que cultuava Viracocha, deus supremo e criador de todas as coisas, e Inti, o deus Sol, do qual o imperador inca dizia ser descendente direto. Tornaram ainda a sua língua, o quíchua, idioma oficial de todo o Império.

Para controlar e unificar seu território, os incas construíram cerca de 40 mil km de estradas, ligando montanhas, vales e o litoral. Pontes suspensas feitas de cordas trançadas e pontes de madeira e de pedra passavam sobre precipícios, pântanos e rios. Por elas circulavam os mensageiros do imperador (os chasquis), o exército e o próprio Inca (o imperador) com sua comitiva.

As terras conquistadas eram divididas em três partes: um terço para o Inca, outro para o deus Sol (administrado pelos sacerdotes, mas que, na prática, eram do imperador) e o terço restante para os agricultores e suas famílias. Os adultos deviam prestar  um certo tempo de trabalho gratuito para o Inca e os deuses, cultivando as terras deles, produzindo objetos artesanais ou construindo e conservando pontes, estradas, edifícios públicos. Esse trabalho gratuito chamava-se "mita".

"A arquitetura constitui a expressão máxima da cultura inca. Nas construções mais importantes, usavam-se blocos de pedra ou granito modelados com extraordinária precisão. Por não possuírem ornamentos esculpidos, as construções incas aparentam uma certa austeridade, sobretudo se comparadas às dos maias e astecas. Na realidade, muitas dessas construções foram despojadas de seus ornamentos pelos espanhóis, os quais retiraram todos os trabalhos em ouro que, muitas vezes, revestiam as paredes de aposentos inteiros. Os conjuntos arquitetônicos mais impressionantes e mais bem conservados da civilização Inca são as cidades-fortalezas de Sacasahuamán e Machu Picchu." História das Civilizações. São Paulo: Abril Cultural, 1975. p. 26


O excedente de alimentos era armazenado e distribuído à população em caso de carestia. Graças ao trabalho coletivo, foram construídos enormes terraços em degraus nas íngremes encostas das montanhas dos Andes. Irrigados e adubados com excrementos de aves e restos de peixes, os terraços garantiam uma farta colheita de cerca de quarenta espécies de plantas, como milho, batata, vagem, amendoim, abóbora e algodão.

"Cada homem se alistava com seu instrumento de trabalho, formando-se assim uma larga frente de agricultores. Atrás deles as mulheres e os meninos iam avançando pausadamente, desfazendo os montículos com uma vara e depositando em cada cova aberta pelo homem algumas sementes, e cobrindo logo de terra o buraco, com as mãos e os pés, para evitar que as aves comessem os grãos". MIRANDA, Fernando M. A cultura dos incas. In: LEVENE, R. História das Américas. Rio de Janeiro: Jackson Editores, 1964. v. 2. p. 121

A numerosa mão-de-obra disponível era o mais importante recurso que o Estado possuía para conservar e estender seus domínios. A população era regularmente recenseada e registrada por idade. Assim, o imperador podia saber, por exemplo, o número de homens aptos a prestar a mita ou a lutar na guerra. Os registros eram feitos nos quipos, um feixe de cordões coloridos com nós.

Referências:
HISTÓRIA DAS CIVILIZAÇÕES. São Paulo: Abril Cultural, 1975.
HOLLANDA, Sérgio Buarque de (Org.). História da Civilização. São Paulo: Nacional, 1974,
LEVENE, R. História das Américas. Rio de Janeiro: Jackson Editores, 1964. v. 2. 
RODRIGUE, Joelza Ester. História em documento: imagem e texto. São Paulo: FTD, 2002. 

domingo, 13 de setembro de 2015

Nazcas. Mochicas. Tiahuanaco e Chimu

Poncho Nazca, ca. 400-500. Artesão desconhecido

Cerca de 500 a.C., várias culturas regionais começaram a suplantar a cultura Chavín, do Peru. O povo Paracas, que floresceu na costa sul do Peru entre 500 a.C. e 200 d.C., adotou muitos elementos da iconografia Chavín, inclusive as representações de felinos que aparecem em sua cerâmica. O clima seco, que possibilitava a mumificação dos cadáveres, preservou também belos tecidos de decoração exuberante, com criaturas míticas e animais fantásticos. O maior depósito de múmias, cerca de 430 delas, foi encontrado em Wari Kayan, na península de Paracas, todas revoltas em tecidos e acompanhadas de oferendas fúnebres, como ornamentos em ouro.

* Os Nazcas. A cultura Nazca floresceu no sul do Peru de cerca de 200 a.C. a 500 d.C. Embora fossem em sua maioria habitantes de aldeias, os nazcas chegaram a construir complexos arquitetônicos impressionantes, como o monumental centro religioso em Cahuachti, por volta de 100 d.C. Embora seus tecidos, trabalhos em metal e cerâmica fossem de alta qualidade, eles são mais conhecidos pelos desenhos que fizeram no deserto. Os nazcas criaram uma gama de imagens de animais e representações abstratas retirando pedras da superfície do deserto e expondo o subsolo para criar as linhas. Os desenhos, alguns dos quais têm muitos quilômetros de extensão, só podem ser vistos completamente do alto. Entre eles estão a figura de um beija-flor sugando néctar de uma planta e a de um macaco com a cauda enrolada. Seu propósito permanece desconhecido.

* Os Mochicas. Os vales do norte do Peru passaram a ser dominados pelos mochicas em cerca de 100 d.C. Artesãos talentosos, eles construíram também grandes pirâmides, conhecidas como huacas, e são notáveis por seus delicados tecidos, trabalhos em metal e cerâmica. A partir de Huaca del Sol, possivelmente o centro de irradiação dessa cultura, os mochicas desenvolveram uma sociedade predominantemente agrícola. Mais tarde, por volta de 300 d.C., surgiram centros urbanos maiores. Esse povo se expandiu para regiões do sul, e há indicações de atividades guerreiras, frequentemente representadas na decoração de cerâmica. No final do séc. VI d.C., desastres ambientais como secas e inundações parecem ter minado a estabilidade desse povo, e sua civilização entrou em colapso. PARKER, Philip. Guia ilustrado Zahar. história mundial. Rio de Janeiro: Zahar, 2011. p. 157.


Cocar mochica com ornamentos de Condor. Artista desconhecido

* Tihuanaco e Chimu. No território da atual Bolívia, perto do lago Titicaca, encontram-se as ruínas de templos, muralhas, estátuas e outras construções de pedra. Pertenceram à cidade de Tiahuanaco, um centro religioso que, entre os anos 600 e 1000, atraiu milhares de pessoas, habitantes da região dos Andes.


Objetos de Tihuanaco, ca. 800-1200. Artistas desconhecidos

O local é inóspito com frio intenso, ventos fortes, geadas, mudanças bruscas de tempo, ciclos de seca alternados com grandes chuvas e inundações avassaladoras. Além disso, está a 3,8 mil metros de altitude. Para enfrentar essas dificuldades naturais, o povo de Tihuanaco cultivou espécies resistentes de batata, quinoa (um cereal semelhante ao arroz) e milho, construiu canais de irrigação e desenvolveu formas de conservação dos alimentos. Criou lhamas e alpacas, que, além de fornecerem leite, lã e carne, adubavam a terra com seu estrume.

"Com base em pesquisas arqueológicas concluiu-se que as populações costeiras do norte e do sul reagiram de forma diferente à influência de Tiahuanaco. Os mochicas, guerreiros e agressivos, não estavam dispostos a abrir mão do controle que exerciam sobre todo o litoral norte e resistiram energicamente. Acredita-se que, depois de derrotados, teriam migrado para os vales mais setentrionais, como os de Lambayeque e Piúra, onde conservaram as principais características de sua civilização, as quais reapareceriam modificadas nas culturas de Chimu. Já as populações de Nazca, em um processo inverso, parecem ter sido facilmente assimiladas, e sua cultura desapareceu para sempre." (História das Civilizações. São Paulo: Abril Cultural, 1975. p. 24.)

Desconhecem-se as causas do fim de Tihuanaco. A cidade já havia desparecido quando os chimus, no norte do Peru atual, consolidaram a conquista de seu Império. Por mais de trezentos anos (entre 1100 e 1470), os chimus dominaram diversos povos que viviam em uma faixa de mil quilômetros ao longo do litoral do Peru.


Manto chimu (detalhe). Artesão desconhecido

Em seu apogeu, a capital chimu, Chan-Chan, tinha cerca de 50 mil habitantes. Era formada por dez cidadelas (centros fortificados), cada uma contendo espaços cerimoniais, cemitérios, campos de cultivo murados, pirâmides etc. Muitos muros e paredes foram decorados com frisos em relevo feitos de barro, que reproduziam desenhos geométricos e figuras marinhas estilizadas.

Os chimus alcançaram um grande desenvolvimento metalúrgico, criando diversas técnicas para trabalhar o bronze, o cobre, a prata e o ouro. Foram também notáveis engenheiros hidráulicos. Abriram canais de irrigação, construíram cisternas para captação de água da chuva e ergueram diques para conter inundações.


Figura chimu, têxtil, ca. 1100-1550. Artesão desconhecido

Por volta de 1470, o Império Chimu caiu sob o domínio dos incas, Como eles estavam mais interessados em expandir seus domínios do que em acumular tesouros ou capturar escravos, as obras dos chimus não foram destruídas. No entanto, chuvas fortes e inundações devastadoras danificaram seriamente as construções de barro dos chimus. Os ladrões de tumbas completaram a destruição.

Referências:
HISTÓRIA DAS CIVILIZAÇÕES. São Paulo: Abril Cultural, 1975.
PARKER, Philip. Guia ilustrado Zahar. história mundial. Rio de Janeiro: Zahar, 2011.
RODRIGUE, Joelza Ester. História em documento: imagem e texto. São Paulo: FTD, 2002.

sexta-feira, 11 de setembro de 2015

Os Astecas


Os astecas eram caçadores e coletores nômades que, por volta do século XIII, penetraram no vale do México e serviram como guerreiros mercenários para alguns povos que ali viviam. Depois, aplicaram a experiência militar que adquiriram para derrubar seus antigos senhores. 


Fundação da cidade do México, José María Jara

Em 1325, os astecas fundaram a cidade de Tenochtitlán (localizada onde hoje se situa a Cidade do México). Com duas outras cidades-estados, Texcoco e Tlacopán, formaram uma poderosa aliança que logo conquistou todo o vale. Calcula-se que a aliança controlava cerca de 10 milhões de pessoas de diferentes culturas, que falavam uma língua comum, o "nahuatl". Essa população pagava tributos em mercadorias e fornecia prisioneiros para serem sacrificados ao deus asteca Huitzilopochtli.

Tenochtitlán era a capital política e religiosa do Império Asteca. Construída sobre uma ilha no lago Texcoco, estava unida às margens por três estradas flutuantes. Possuía ruas largas, palácios, mercados, escolas, jardins e templos em forma de pirâmide. Ao redor da cidade, foram construídas ilhotas artificiais, chamadas "chinampas", onde se cultivavam verduras e flores e se criavam perus. No movimentado mercado da cidade, usavam-se sementes de cacau como moeda para adquirir todo tipo de mercadoria: mantas de algodão, cerâmica, víveres, flores, esteiras de junco, milho. penas coloridas etc. Fiscais do governo controlavam o comércio, verificando pesos, medidas, preços e qualidade dos produtos.


Cultivo do milho, Códex Florentino. Bernardino de Sahagún

"A economia asteca baseava-se na agricultura, no comércio e nos tributos pagos com produtos locais pelos povos vencidos. Plantavam milho. feijão, tomate, melões, baunilha. cacau, algodão. agave, tabaco. Com o cacau preparavam uma bebida quente chamada chocolatl e com o agave uma bebida fermentada, semelhante à bebida mexicana de hoje, o pulque. Comerciavam as mais variadas mercadorias; os mercados astecas e os comerciantes vendiam tecidos, cordas e sandálias de agave, plumas, animais selvagens, peles, produtos da terra, cerâmicas, fumo, sal, grande quantidade de ouro, prata, pedras preciosas e até escravos (prisioneiros de guerra). [...]" HOLLANDA, Sérgio Buarque de (Org.). História da Civilização. São Paulo: Nacional, 1974. p. 191.


Astecas fumando e bebendo pulque. Codex Mendoza. Artista desconhecido

Os domínios astecas eram controlados por fiscais e cobradores de impostos. Esses altos funcionários pertenciam à nobreza e tinham privilégios, como isenção de impostos, uso de jóias e recebimento de terras. Mas, se agissem de forma desonesta, eram punidos com mais severidade do que os cidadãos comuns. O imperador era escolhido pelas suas qualidades guerreiras (seu título não era hereditário).

Os sacerdotes eram tão importantes quando o imperador e os nobres. Além das cerimônias religiosas, eles cuidavam da contagem do tempo, dos livros sagrados e da educação dos jovens. As escolas sacerdotais eram abertas aos meninos de todas as camadas sociais. Outros grupos sociais eram os artesãos, os agricultores, os comerciantes e os escravos.

"Os astecas eram exímios artesãos e desenvolveram técnicas de grande habilidade. Na indústria de tecidos, conseguiram excelentes resultados trabalhando o algodão, que fiavam manualmente com o auxílio de rocas de cerâmica. Seus ourives eram também muito hábeis, e as jóias que produziam em ouro e prata deixaram os espanhóis admirados". REZENDE, Antonio Paulo; DIDIER, Maria Thereza. Rumos da história: história geral e do Brasil. São Paulo: Atual, 2005. p. 175.

Os exércitos astecas eram numerosos e bem-organizados. Todos os jovens deviam estudar na escola militar, e os melhores lutadores passavam a integrar as principais ordens militares.

"Os astecas cultivavam a poesia, sobretudo a lírica e a religiosa. Ao que parece, sua produção literária também compreendia peças dramáticas, próprias para a representação teatral. Graças a transcrições que os espanhóis fizeram de partes de alguns textos poéticos, conservam-se cerca de sessenta cantos e vinte hinos litúrgicos dos astecas, que eram acompanhados de instrumentos de sopro e percussão." História das Civilizações. São Paulo: Abril Cultural, 1975. p. 22.


Mãe asteca ensinando sua filha a fazer tortillas. Códex Mendoza. Artista desconhecido


Referências:
HISTÓRIA DAS CIVILIZAÇÕES. São Paulo: Abril Cultural, 1975. 
HOLLANDA, Sérgio Buarque de (Org.). História da Civilização. São Paulo: Nacional, 1974.
REZENDE, Antonio Paulo; DIDIER, Maria Thereza. Rumos da história: história geral e do Brasil. São Paulo: Atual, 2005. 
RODRIGUE, Joelza Ester. História em documento: imagem e texto. São Paulo: FTD, 2002.

quarta-feira, 9 de setembro de 2015

Os Toltecas. Os Maias



* Os Toltecas. Por volta do séc. IX, surgiram no México novas culturas, mais militarizadas e bem situadas para se aproveitarem da persistente situação de guerra da região. Entre eles estavam os chichimecas, nômades invasores vindos do norte, e uma outra cultura, mais avançada, conhecida como tolteca, da qual os astecas se diziam descendentes.

Os toltecas entraram no México no início do séc. X e, liderados por Topiltzin Quetzalcoatl, construíram  sua capital em Tollan (atual Tula). De lá, entre 950 e 1150, eles controlaram uma parte do vale do México, Puebla e Morelos. Os locais de imolação adornados com os crânios dos inimigos e os temas de sacrifício humano predominantes em seus baixos-relevos indicam uma cultura de povo guerreiro. Por volta de 1180, tribos inimigas invadiram Tollan, incendiando a cidade e pondo fim ao domínio tolteca no México central. PARKER, Philip. Guia ilustrado Zahar. história mundial. Rio de Janeiro: Zahar, 2011. p. 204.


Ruínas de Tollan. Arquitetura tolteca. 

* Os Maias. O conhecimento que se tem da cultura maia baseia-se em pesquisar arqueológicas e no estudo das estelas e dos códigos manuscritos elaborados por esse povo. Os documentos mais antigos são as estelas, monólitos que apresentam um grande número de inscrições e sinais de calendário. Um outro documento de suma importância pela sua antiguidade é a chamada "tabuinha de Leyda", que remonta aos primórdios do período clássico, por volta de 320 d.C. Com relação aos códigos, apenas três salvaram-se da destruição por parte dos conquistadores espanhóis: o de Dresden, o Trocortesiano e o Peresiano. Esses documentos são feitos de cortiça revestida com uma camada fina de cal, onde estão gravadas inscrições e figuras coloridas alusivas ao calendário, a práticas de adivinhação e a rituais religiosos dos maias.

Apenas a terça parte dos textos inscritos nos monólitos já foi decifrada; e no que diz respeito aos códigos, estes carecem de dados especificamente históricos, deficiência em parte compensada pelos relatos que funcionários e sacerdotes europeus redigiram, com base em informações prestadas pelos nativos. Além disso, existem documentos manuscritos em idioma nativo mas com caracteres latinos que datam do período imediatamente posterior à conquista espanhola. Segundo especialistas, tais registros poderiam ser a transcrição de antigos documentos maias que teriam sido destruídos. HISTÓRIA DAS CIVILIZAÇÕES. São Paulo: Abril Cultural, 1975. p. 10-11. Volume 3.

* Os centros cerimoniais. A civilização maia formou-se por volta do século IV, numa região próxima ao oceano Pacífico, na atual fronteira entre o México e a Guatemala. Espalhou-se depois por toda a Guatemala, sul do México, península do Iucatán, Belize e parte ocidental de Honduras. Era constituída por centenas de centros cerimoniais autônomos, que se ligavam por rotas terrestres e fluviais, permitindo uma intensa troca de produtos: obsidiana, jade, plumas de quetzal, cacau, tecidos de algodão, punhais de sílex, peles de jaguar, cerâmica, centre outros. 

Os centros cerimoniais maias não eram exatamente cidades. Eles reuniam os templos, as residências dos governantes, os monumentos políticos e as praças destinadas às celebrações. Neles moravam somente os sacerdotes, os governantes e os servidores dos templos.  Não tinham muralhas nem fortificações. A população vivia em pequenos casebres dispersos pelos arredores e ia ao centro apenas para as cerimônias religiosas e para o mercado.

As construções maias traziam numerosas inscrições com nomes de governantes e datas.  Marcar o tempo era uma grande preocupação de seus sacerdotes, que usavam dois calendários: um religioso, com 260 dias, e um de uso civil, com 360 dias mais 5 dias considerados nefastos. A cada 52 anos, quando os dois calendários coincidiam, começava uma nova era, comemorada com a construção de novos templos sobre os antigos.  RODRIGUE, Joelza Ester. História em documento: imagem e texto. São Paulo: FTD, 2002. p. 118.

Dignitário maia, Campeche, Ilha de Jaina, ca. 600-800. Artista desconhecido

* Economia. Os maias, cuja economia baseava-se na agricultura, dedicavam-se ao plantio do milho. O cultivo desse cereal absorvia apenas 48 dias de trabalho nos campos, permitindo que o tempo restante fosse empregado na construção de centros religiosos, templos monumentais, observatórios astronômicos, plataformas destinadas a danças e jogos e a rituais religiosos sob a direção de uma poderosa classe sacerdotal.  HOLLANDA, Sérgio Buarque de (Org.). História da Civilização. São Paulo: Nacional, 1974. p. 190.

O trabalho na terra era feito coletivamente. As vastas plantações eram irrigadas com o auxílio de sistemas que aproveitavam as águas do rio San Juan e das chuvas. Os maias também praticavam a caça e a pesca com frequência.

No comércio usavam às vezes sementes de cacau ou contas coloridas como moedas. Não só comercializavam produtos agrícolas, mas também mantas de algodão, camisas, jóias e tintas para pintar o corpo.  REZENDE, Antonio Paulo; DIDIER, Maria Thereza. Rumos da história: história geral e do Brasil. São Paulo: Atual, 2005. p. 175.

Um senhor maia proíbe uma pessoa de tocar em um recipiente de chocolate. Artista desconhecido


* As mulheres. As mulheres encarregavam-se dos serviços culinários. Aproveitavam o milho de muitas maneiras, depois de colocá-lo de molho em água e sal e moê-lo. Com esse produto faziam pão, uma pasta muito utilizada na dieta alimentar, uma espécie de leite e até mesmo uma bebida, à qual também misturavam cacau e pimenta.


Cerâmica maia: mulher com criança, Campeche, Ilha de Jaina, ca. 600-900. Artista desconhecido

As mulheres participavam ativamente da vida social. Como assinala F. de Aparício, delas dependiam "o sustento da casa, o pagamento de tributos, a educação dos filhos, a fiação e a tecelagem, bem como o amanho da terra." REZENDE, Antonio Paulo; DIDIER, Maria Thereza. Rumos da história: história geral e do Brasil. São Paulo: Atual, 2005. p. 175-6.

Vaso: mulher maia, ca. 600-900. Artista desconhecido


* Indumentária. Os homens usavam uma faixa de algodão enrolada ao redor do tronco, passando entre as pernas, caindo uma das extremidades para a frente e outra para trás, e um quadrado de fazenda abotoa nos ombros à guisa de capa. Os cabelos eram tonsurados na frente, deixando uma longa cauda cair pelas costas. Até o casamento, o corpo e o rosto eram pintados de negro, depois de vermelho. Os guerreiros pintavam-se de negro e vermelho, os sacerdotes de azul, os prisioneiros de riscas horizontais brancas e pretas. Tatuavam-se e usavam perfumes. Os nobres e sacerdotes apresentavam um aspecto resplandecente: plumas, ornamentos de jade, pingentes de conchas, peles de jaguar, dentes de crocodilo, colares, braceletes e penachos e, para os chefes, as suntuosas plumas da cauda de quetzal, de cor verde-azul irisada.

As mulheres vestiam uma túnica de algodão, bordada com flores, pássaros, insetos; usavam um longo manto; cobriam a cabeça com um pedaço de fazenda. Seus cabelos eram longos. Tatuavam-se e perfumavam-se. MOUSNIER, Roland. Os séculos XVI e XVII. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1995. p. 43-4. [História geral das civilizações, v. 10]

Pintura mural, Bonampak. Artistas desconhecidos
Foto: Inakiherrasti


* Produção artística. O alto nível de organização social atingido pelos maias revela-se na extraordinária qualidade de sua produção artística; sobretudo nas artes plásticas, em que se verifica uma acentuada preferência pelos baixos-relevos, presentes nas inúmeras estelas produzidas por esse povo. O grau de perfeição alcançado na pintura pode ser observado nos afrescos descobertos em Bonampak, que cobrem as paredes de três recintos de um edifício, dispostos em largas faixas horizontais superpostas. Estas faixas representam cenas de cerimônias religiosas, danças e batalhas, revelando particularidades a respeito das roupas, ornamentos, armas e instrumentos musicais dos maias. História das Civilizações. São Paulo: Abril Cultural, 1975. p. 16. Volume 3.

Vaso maia: cena de batalha, ca. 600-900, Guatemala. Artista desconhecido

* Festas e guerras. Os maias gostavam de se divertir. Promoviam então bailes que chegavam a durar o dia inteiro, nos quais dançavam e bebiam bastante. O saldo dessas festanças nem sempre era agradável, pois elas resultavam às vezes em brigas violentas e até em mortes. As mulheres apenas serviam bebidas aos homens, não chegando a dançar. Tinham, no entanto, suas festas particulares, quando também se embriagavam.

Festas à parte, os maias eram hábeis guerreiros. Usavam arco e flecha, assim como lanças e machados de metal com cabo de madeira. Protegiam-se com escudos. Quando vencedores, cortavam a mandíbula inferior do inimigo morto para usar como bracelete nas festas e cerimônias. REZENDE, Antonio Paulo; DIDIER, Maria Thereza. Rumos da história: história geral e do Brasil. São Paulo: Atual, 2005. p. 176.

Figura masculina com máscara removível, Campeche, Ilha de Jaina ca. 700-900. Artista desconhecido.


* Legado. Legaram-nos [...] belos exemplos de pintura mural, de cerâmica e de objetos de adorno executados em jade, quartzo e turquesas, os materiais mais preciosos para os maias; desenvolveram um calendário aperfeiçoadíssimo [...] e uma escrita hieroglífica com a qual documentaram acontecimentos históricos, dados de astronomia, rituais, métodos de adivinhação, conhecimentos científicos. HOLLANDA, Sérgio Buarque de (Org.). História da Civilização. São Paulo: Nacional, 1974. p. 190-1.

Referências:
HISTÓRIA DAS CIVILIZAÇÕES. São Paulo: Abril Cultural, 1975. Volume 3.
HOLLANDA, Sérgio Buarque de (Org.). História da Civilização. São Paulo: Nacional, 1974.
MOUSNIER, Roland. Os séculos XVI e XVII. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1995. [História geral das civilizações, v. 10]
PARKER, Philip. Guia ilustrado Zahar. história mundial. Rio de Janeiro: Zahar, 2011.
REZENDE, Antonio Paulo; DIDIER, Maria Thereza. Rumos da história: história geral e do Brasil. São Paulo: Atual, 2005.
RODRIGUE, Joelza Ester. História em documento: imagem e texto. São Paulo: FTD, 2002. 

sábado, 5 de setembro de 2015

As comunidades primitivas no Brasil

[...]

Muitos autores denominam essas comunidades de pré-históricas. Preferimos chamá-las de comunidades primitivas porque, se a história é história do Homem, a História existe desde o momento que o Homem existe. Além do mais, ainda hoje existem muitas dessas sociedades, apesar dos verdadeiros massacres feitos pelos europeus desde que chegaram à América.

[...] Comunidade primitiva é uma forma de organização social onde a não-existência da propriedade privada dos meios de produção resulta em uma economia comunitária, na qual não há desigualdades sociais.

[...]

No caso das comunidades primitivas, os meios de produção eram constituídos pelos campos, águas, terras, florestas.

Cada comunidade buscava sua auto-suficiência econômica, produzindo suas armas, seus utensílios e objetos diversos, assegurando os alimentos necessários a todos - através da caça, da pesca e da coleta de frutos e de raízes silvestres. O trabalho era estabelecido em função da idade e do sexo dos componentes da comunidade, sendo obrigatório para todos. Aos homens atribuíam-se a caça e a pesca, a construção das habitações cobertas com folhas de palmeiras ou sapés, a confecção de arcos, flechas, tacapes e canoas, e nas comunidades que praticavam uma agricultura rudimentar, a limpeza do terreno através da coivara, que era a queimada de área desmatada.

"É claro que a proteção das mulheres, crianças e velhos era atividade masculina, bem como a realização de expedições guerreiras e o sacrifício de inimigos [...] As mulheres ocupavam-se com os trabalhos agrícolas [...] e com as atividades de coleta (de frutos silvestres, mariscos etc.), colaboravam nas pescarias [...], transportavam produtos das caçadas, aprisionavam as formigas voadoras, produziam as farinhas, preparavam as raízes e o milho para a produção do cauim [...], fiavam o algodão e teciam as redes, trançavam os cestos, cuidavam da cerâmica [...] e dos animais domésticos, realizavam todos os serviços domésticos relacionados com a manutenção da casa ou com a alimentação, e dedicavam-se a outras tarefas como a depilação e a tatuagem dos homens [...], o catamento dos piolhos [...]."


Grupo de Camacãs na floresta, Maximilian zu Wied-Neuwied

A educação das crianças, ou curumins, era tarefa dos próprios pais: os meninos aprendiam com o pai, as meninas, com a mãe. A menina aprendia a tecer, a cozinhar, a amassar o milho, a carregar água. O menino aprendia a caçar, a pescar, a manejar o arco e a flecha, a caminhar na floresta, a conduzir o barco no rio ou na lagoa... Essencialmente prática, a educação também incluía conselhos e ensinamentos sobre as crenças e as práticas religiosas do grupo.

Cada comunidade tinha seu chefe, escolhido segundo critérios diversos. O mais valente, o mais sábio ou o descendente mais próximo do fundador lendário do grupo podia ser eleito ou se sucediam hereditariamente. Mas o chefe - chamado de curaca ou cacique - também trabalhava com os demais componentes da comunidade.

Uma característica importante das comunidades primitivas é que os laços de parentesco se baseavam no clã.

[...] Clã é o grupo social cujos integrantes se julgam parentes por acreditarem descender de um mesmo ancestral. Este ancestral era o totem, que podia ser uma planta, um animal, um objeto, um ser real ou imaginário. O clã podia ser entendido como uma família ampla, embora os laços de parentesco não sejam basicamente consanguíneos.

"Como era proibido o casamento entre membros de um mesmo clã (a não ser nos agrupamentos muito primitivos), os casamentos entre indivíduos de clãs diferentes terminavam por reuni-los em tribos."


Aldeia de índios, ca. 1834-1839. Jean-Baptiste Debret

A reunião de tribos resultava nas federações ou nações, ligadas por vínculos linguísticos, sem constituírem o que se entende politicamente por Estado, poder organizador e repressor. As numerosas comunidades primitivas espalhadas pelo Brasil pertenciam a quatro grandes nações linguísticas:

* os Tupis ou Tupis-Guaranis, localizados ao longo da faixa litorânea (do Rio Grande do Sul ao Pará), além de regiões do Baixo Amazonas, Paraguai, Uruguai, Argentina e Bolívia. Alguns autores acham que tupi significa filho de Tupã, o deus do Trovão. Entre outros, os Tupi-Guaranis incluíam os Tupinambás, Potiguaras, Tupiniquins, Tamoios, Tabajaras, Caetés, Carijós, Maués, Jurunas etc.;


* os Nuaruaques, também chamados Aruaques ou Maipurés, que se espalhavam da Flórida (nos EUA) até as Guianas e Antilhas, Bacia Amazônica, Planalto de Mato Grosso, além do Chaco, Peru, Bolívia e Norte da Argentina. Para alguns estudiosos, Nuaruaque significa comedor de farinha. A este grupo linguístico pertenciam os Parecis, os Manaus e Ticunas.

* os Jês, por muitos chamados de Tapuias, embora diversos autores afirmem que a palavra tapuia era usada pelos Tupis para denominar qualquer um dos deus inimigos ou adversários. Habitavam o Planalto Central do Brasil e incluíram os Botocudos, Aimorés, Xavantes, Caiapós, Apinajés, Coroados, Maracás, Timbiras, Bororós...;

* Os Caribas, palavra que é uma corruptela de calinas e significa companheiros. Conhecidos ainda pelos nomes de Caraíbas ou Caribes, habitavam as Antilhas e o Alto Xingu. Entre outros, os Caraíbas compreendiam os Apiacás, Bacairis, Palmelas, Vanás...

"Os índios andavam geralmente nus e costumavam raspar todos os pêlos do corpo. Gostavam de usar enfeites e de se tatuar. Praticavam a poligamia, e alguns chefes de tribos chegavam a ter até dez esposas. As relações sociais norteavam-se por normas de convivência rígidas, e a educação baseava-se no exemplo que os mais velhos davam aos mais moços. Algumas tribos tinham ritos para definir a passagem de uma idade para outra. Por exemplo, adolescentes do sexo masculino ficavam confinados na "casa dos homens", durante meses, para se prepararem para a vida adulta". REZENDE, Antonio Paulo; DIDIER, Maria Thereza. Rumos da história: história geral e do Brasil. São Paulo: Atual, 2005. p. 181-2.


Adereços tribais, 1818. 

A religião desses grupos indígenas era politeísta, sendo cultuados os astros e as forças da Natureza, como o raio, a chuva, o trovão. O Sol e a Lua constituíam divindades superiores. A prática da antropofagia ritual era realizada em meio a grandes festas e danças, sendo devorados os adversários valentes e apaixonados em combate. Acreditavam em uma vida extraterrena - daí enterrarem os mortos. Em geral, os Tupis sepultavam seus mortos em redes ou em urnas em covas abertas. Os Coroados, do grupo Jê, antes do sepultamento, quebravam os ossos das pernas e dos braços dos mortos. [...]

AQUINO, Rubim Santos Leão de [et alli]. Fazendo a História: as Sociedades Americanas e a Europa na Época Moderna. Rio de Janeiro: Ao Livro Técnico, 1990.
DIDIER, Maria Thereza. Rumos da história: história geral e do Brasil. São Paulo: Atual, 2005.

quinta-feira, 3 de setembro de 2015

Os índios da América do Norte

Os Natchez, Eugène Delacroix

[...] Os índios estavam divididos. Havia 56 grupos linguísticos por vezes com numerosos dialetos [...]. Sioux, Algonquinos são nomes que recobrem uma multidão de tribos, falando línguas aparentadas, mas de gêneros de vida às vezes muito diferentes e que, amiúde, moviam guerras atrozes e prolongadas umas contra as outras.

Havia confederações, como a de Powhatan, na atual Virgínia, ou a dos Creeks, que se estendiam desde o baixo Mississípi até a Flórida oriental. [...] A mais poderosa era a liga dos Iroqueses. Um conselho de 50 sachens, eleitos pelas tribos, tomava as decisões. Exigia-se a unanimidade e cada tribo dispunha de um voto. Dois chefes de guerra de igual categoria comandavam os guerreiros. O Conselho não tinha possibilidade alguma de impor-se às tribos. [...]


Índios Tchaktas matachez, 1732. Alexandre de Batz

A unidade é a tribo. Esta possui um Conselho composto de chefes de clãs ou de chefes de bandos, mas não de poder executivo de suas decisões. A tribo é, efetivamente, uma espécie de federação, federação de clãs a leste, de bandos a oeste, em que os indivíduos gozam de muita independência. Cada clã pode partir sozinho para a guerra, cada guerreiro pode recrutar companheiros e lançar-se à uma expedição, mesmo se a tribo concluiu um tratado de paz. O estado de guerra, assim, é perpétuo [...].

[...] Na Califórnia e nos planaltos vizinhos viviam índios caçadores e coletores de frutos e raízes, munidos de arcos e flechas [...] e que conheciam a arte de fazer fogo pela rotação rápida de um pedaço de madeira dura num pedaço de madeira mole. Ao norte, nos planaltos e nas montanhas do que é atualmente o Oregon, as tribos, embora não negligenciassem a caça e a coleta, viviam principalmente da pesca do salmão.


Caça ao búfalo, Lavene Nelson Black

Nas planícies a oeste do Mississípi, viviam os caçadores, entre os quais predominavam os Sioux. Era particularmente visado o bisonte, A carne do bisonte, cortada em nacos, seca ao sol e misturada à gordura, fornecia o pemicã. Os ossos e os chifres eram a matéria-prima para as armas e instrumentos. Do couro, os índios retiravam seus utensílios domésticos, suas vestes, suas tendas cônicas, muito pontudas, montadas sobre uma armação de longas varas. As tribos deslocavam-se continuamente, segundo os rebanhos, mas cada uma permanecia sempre num determinado território de percurso.


Vista de Chimney Rock com vila Sioux em primeiro plano, Albert Bierstad

Na orla das planícies, na direção do Mississípi e dos grandes lagos, nos confins da floresta, os habitantes combinavam a caça ao bisonte com a cultura do milho. Viviam nas tendas e deslocavam-se nas estações de caça, na primavera e no outono. No inverno para se abrigarem, no verão para a colheita do milho, regressavam às suas aldeias permanentes.

[...]

No mar das florestas que cobria a parte oriental da América do Norte, a cultura do milho, proveniente da América Central, desempenhava um papel essencial. As aldeias eram estabelecimentos permanentes, cercados de paliçadas, constituídas de casas de madeira. Cada aldeia tinha seus campos cultivados. Os frutos, nozes, ameixas [...], eram apreciáveis complementos alimentares. [...] O cobre do Lago Superior começa a ser empregado, mas modelado tal como sai da mina, com o auxílio de martelo de pedra. [...] Regularmente, em épocas determinadas, os homens partiam para as grandes caçadas. As mulheres acompanhavam-nos, levando nas costas os utensílios de cozinha e o material das tendas. O gamo e o cabrito montês forneciam a carne e o couro para o vestuário e as mocassinas. Os animais de pele proporcionavam os trajes de inverno. Cada tribo tinha o território de caça indispensável à sua vida e que constituía o prêmio de guerras ferozes. [...]


Índio com pote de cerâmica, ca. 1915. Gerald Cassidy

Todos estes índios encontravam-se ainda no primeiro estágio do pensamento humano. Para eles o mundo era uma imensa magia, onde tudo, em princípio, podia agir sobre tudo, mediante semelhanças e contatos misteriosos. Havia comunhão, participação de todos os objetos em forças misteriosas, esparsas no universo, imperceptíveis aos sentidos e, não obstante, reais. [...] Antes de caçar, os Sioux entregavam-se à "dança do urso". Os dançarinos imitavam exatamente o urso, dirigiam-se através de cânticos ao espírito do urso, para torná-lo favorável ao seu empreendimento. Os caçadores jejuavam antes de partir, abstinham-se de relações sexuais, purificavam-se, ornavam-se de pinturas especiais, invocavam os manes dos animais mortos nas caçadas precedentes. Assim, pensavam criar entre eles e os espíritos dos ursos um laço mítico, devendo os animais, por conseguinte, apresentar-se e oferecer-se aos golpes. Os índios consideravam sua alimentação como um presente voluntário dos espíritos dos animais e vegetais. Noutros casos os dançarinos representavam a morte do animal acuado. Revestindo a pele e a máscara do animal, o dançarino fatigado era ferido com uma flecha sem ponta e tombava, imitando a presa. Então, era retirado do círculo. Sobre seu corpo, um caçador representava o corte e o trinchamento. [...] Tais práticas eram consideradas mais importantes do que a perseguição efetiva. Após a caçada, atos rituais deviam impedir a vingança do animal e do espírito de sua espécie. [...]

MOUSNIER, Roland. Os séculos XVI e XVII. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1995. p. 77-80. [História geral das civilizações, v. 10]

terça-feira, 1 de setembro de 2015

Os ancestrais dos índios norte-americanos

Povos indígenas do Norte do Novo México, 1861. Artista desconhecido

"Os historiadores da pré-história nos dão notícia de quantos milênios foram necessários para que os homens do paleolítico substituíssem as grosseiras facas ou os rudes machados de dois gumes pelas admiráveis lâminas do solutreano [período cultural da pré-história europeia]. Segundo outro ponto de vista, observa-se que a descoberta da agricultura e a domesticação das plantas são quase contemporâneas na América e no Velho Mundo. E impõe-se constatar que os ameríndios em nada se mostraram inferiores, muito pelo contrário, no que se refere à arte de selecionar e diferenciar múltiplas variedades de plantas." (CLASTRES, Pierre. A sociedade contra o Estado. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1978. p. 134.)

[...]


Do Alasca e das regiões árticas, as tribos provenientes da Ásia difundiram-se no Novo Mundo seguindo três rotas principais: a costa setentrional do Alasca e do Canadá, as pradarias situadas a leste das montanhas Rochosas, e a costa do Oceano Pacífico.

A reconstrução mais aproximada que se pode obter da história dessas populações pioneiras depende basicamente dos fósseis e vestígios que deixaram através dos tempos. [...]

Numerosos vestígios foram encontrados na parte sul-ocidental dos Estados Unidos: o clima quente e seco favoreceu sua conservação. Nessa região, desenvolveram-se as mais antigas culturas pré-colombianas, às quais se deu o nome da localidade onde os principais vestígios foram encontrados. Assim, em um período compreendido entre 15 000 e 7 000 a.C., floresceram as culturas de Sandia, de Clóvis e de Folson (todas situadas no Novo México), a cultura de Yuma (Arizona) e a cultura de Cochise (Texas central e Arizona meridional).


Mulher e menina zuni transportando água, 1890. Henry F. Farny

As mais antigas formas culturais da região ártica devem-se às populações esquimós. Elas se desenvolveram no Alasca, Groenlândia, Labrador e Canadá, tendo sido unificadas, por volta de 900 a.C., pela cultura de Thule, uma cultura de navegadores e caçadores de baleias.

Nesse mesmo período. desenvolveu-se na Groenlândia a cultura de Dorset. Ao que parece, esse povo entrou em contato com os Vikings, que desembarcaram na ilha por volta do final do século X, chefiados por Erik, o Vermelho. Nas costas meridionais da Groenlândia, os Vikings fundaram duas colônias que, após uma notável prosperidade, entraram em declínio no século XV devido ao isolamento da terra de origem, e acabaram sendo abandonados.

A partir do início da Era Cristã, desenvolveu-se a cultura dos Basket-Makers ("Cesteiros"), na região sudoeste da América do Norte, que corresponde aos atuais Estados norte-americanos de Utah, Colorado, Arizona e Novo México. Os basket-makers receberam este nome por terem sido hábeis fabricantes de cestos de vime, cujos vestígios podem ser datados do século I ao VIII. Esse povo dedicava-se basicamente à caça e ao cultivo de milho e abóbora e, provavelmente, seus hábitos seminômades dos primeiros tempos evoluíram aos poucos para uma vida sedentária. A partir do século VIII, a cultura dos Cesteiros deu lugar à dos Pueblos.


Mulher zuni transportando água, 1900. Henry F. Farny

A designação pueblo (em espanhol, "povo", e por extensão, "aldeia") exprime a característica mais significativa dessa nova cultura, isto é, sua organização espacial. As aldeias eram formadas por casas altas de dois ou três andares, que se aglomeravam umas ao lado das outras em grupos compactos, situadas no interior de um alto muro de adobe. No centro desses aglomerados, havia uma espécie de praça, dentro da qual era cavada uma grande sala - a kiva - que desempenhava um importante papel na vida social e religiosa, funcionando também como local de reunião e cerimônias. As populações da cultura dos Pueblos dedicavam-se à agricultura, cultivando seus campos por meio de um sistema de irrigação bastante racional. Fabricavam peças de cerâmica decoradas com motivos geométricos e possuíam uma refinada arte têxtil.

Essa cultura entrou em declínio entre o final do século XIII e o início do XIV, devido a uma prolongada seca. Também para isso muito contribuiu a invasão dos navajos e apaches, que obrigou os pueblos a se concentrarem num território bem menos extenso. A partir de 1598, os espanhóis fundaram colônias em suas terras, mas enfrentaram uma tenaz resistência desse povo que, em 1680, expulsou os conquistadores. Finalmente, em 1690, os espanhóis conseguiram submetê-los. Ainda hoje, a cultura dos Pueblos subsiste com seus traços tradicionais, especialmente representada pelos hopi do Arizona e pelos zunñi do Novo México.


Mulher zuni transportando água, 1877. Artista desconhecido

Na região da bacia do rio Mississípi, talvez em meados do século IV, floresceu a cultura dos Moundbuilders ("Construtores de Túmulos"). Como no caso da cultura dos Pueblos, esse nome deriva de sua principal característica: numerosos túmulos de terra batida, de várias formas e tamanhos, que provavelmente eram utilizados como infra-estrutura para templos ou moradias dos chefes. Os mais interessantes desses monumentos possuem forma de animais, como tartarugas e serpentes; outros constituem pirâmides truncadas. No interior desses túmulos encontram-se objetos de cobre e cerâmica, estatuetas, máscaras de madeira, ornamentos de osso e mica, fragmentos de couro, conchas decoradas - enfim, um material minuciosamente trabalhado, que revela uma arte muito rica. Diante dessa produção tão variada, supõe-se que as comunidades moundbuilders levavam uma vida relativamente próspera. As populações que desenvolveram esta cultura constituem os longínquos antepassados de conhecidos grupos de "índios" modernos, como os sioux e os iroqueses.

CLASTRES, Pierre. A sociedade contra o Estado. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1978. p. 134.
HISTÓRIA DAS CIVILIZAÇÕES. São Paulo: Abril Cultural, 1975. p. 2, 3 e 5. [Volume 3].

domingo, 31 de maio de 2015

A vida cotidiana dos astecas: O ciclo da vida

Uma mãe asteca ensina sua filha de 13 anos a fazer tortillas. Artistas desconhecidos, Codez Mendoza

O destino de cada um era considerado como rigorosamente predeterminado na data de seu nascimento, esta mesma decidida pelas duas divindades supremas: Ometecuhtli e Omeciuatl, "o senhor e a senhora da dualidade". Assim, um homem nascido sob o signo 2-tochtli se entregaria à embriaguez; uma mulher nascida em 7-xochtli seria pródiga em seus favores; o signo 4-itzcuintli prometia honrarias e prosperidade.

Era possível, contudo, corrigir uma predestinação nefasta, escolhendo um dia mais favorável para dar nome a um recém-nascido. Em princípio, não seria necessário esperar mais do que quatro dias após o nascimento de uma criança para batizá-la. O sacerdote-adivinho consultava os livros e fixava a data. Se, por exemplo, a criança tivesse nascido sob um signo designado pelo número 9 (nefasto), o nome lhe seria dado três ou quatro dias mais tarde, visto serem benéficos os números 12 e 13. A parteira que houvesse feito o parto procedia à lavagem ritual do bebê, pondo-lhe água sobre os lábios, cabeça e peito e, finalmente, sobre todo o corpo. Invocava a deusa da água e depois apresentava a criança ao Sol e à Terra. Essa cerimônia tinha lugar em presença de parentes e amigos da família. Quando se tratava de um menino, preparavam-se um escudo, um arco e quatro flechas, que eram presenteados aos deuses para invocar sua proteção ao futuro guerreiro. Para uma filha, preparavam-se fusos, uma lançadeira, um cofre, e se dirigiam preces à personificação da primeira infância, Yoalticitl, "a curandeira noturna". A festa terminava com um banquete, ao fim do qual velhos e velhas bebiam inúmeras taças de octli.

Durante os primeiros anos, a educação da criança estava a cargo da família. O menino aprendia a trazer água e lenha, ajudava nos trabalhos agrícolas ou no comércio, pescava e remava sob a direção do pai. A menina varria, iniciava-se na cozinha, fiação e tecelagem. Assim que a criança atingia a idade de seis a nove anos, porém, seus pais a confiavam a um dos dois sistemas de educação pública então existentes no México: o colégio do bairro, onde os "mestres de rapazes" e "mestras de moças" preparavam seus alunos para a vida prática; ou então o calmecac, colégio-monastério, onde a educação era ministrada pelos sacerdotes. Em princípio. somente os filhos de dignitários (pilli) tinham acesso ao calmeca. Os filhos de negociantes, porém, também podiam ser admitidos, bem como crianças das camadas populares, caso se destinassem ao sacerdócio.

Não se pode deixar de observar as profundas diferenças [...] que separavam esses dois sistemas educacionais. [...] os colégios de bairro visavam antes de tudo formar cidadãos dedicados ao cumprimento de seus deveres, principalmente de seus deveres militares. Os mestres eram escolhidos entre guerreiros reconhecidos. Os rapazes aprendiam o ofício das armas, participavam de trabalhos de interesse público e o cultivo das terras coletivas, sendo durante o dia submetidos a uma severa disciplina. À noite, porém, iam cantar e dançar, e os mais velhos mantinham ligações com as auianime. Ao contrário, os jovens admitidos no calmecac, sob a direção dos sacerdotes e a proteção de Quetzalcoatl, antigo rival de Tezcatlipoca, levavam uma vida austera, feita de trabalhos manuais e intelectuais, de jejuns e penitências. Ensinavam-lhe "boas maneiras", os rituais e a leitura de manuscritos hieroglíficos. Deviam aprender de cor os poemas mitológicos e históricos e iniciar-se nas funções para as quais estavam destinados: o sacerdócio ou altos cargos do Estado.

As "boas maneiras" revestiam-se de importância primordial perante a classe dirigente. Eram objeto de toda uma literatura didática, os ueuetlatolli ("preceitos dos antigos"). Neles se evidencia o ideal de autodomínio, de resistência às paixões, de moderação e de abnegação. A conduta a ser mantida em presença dos superiores ou dos inferiores à mesa, na rua, enfim, as atitudes a serem observadas em todas as circunstâncias da vida estão aí minuciosamente determinadas. Também os alunos dos colégios de bairro eram considerados vulgares e grosseiros porque "falavam com soberba e audácia".

O antagonismo entre esses colégios e os calmecac manifestava-se abertamente durante o sexto mês do ano, Atemoztli. Os alunos de bairros e monastérios entregavam-se então a combates sem complacência, invadiam os lugares uns dos outros, carregavam e destruíam móveis e utensílios e se infligiam trotes recíprocos.

Ao chegar à idade adulta, ou seja, 21 anos, o rapaz deixava o colégio ou o monastério, a menos que decidisse dedicar-se ao celibato e aos deuses. Da mesma forma, as moças podiam consagrar-se ao sacerdócio. A maioria dos jovens se casava. As famílias arranjavam as uniões por intermédio das "casamenteiras", mulheres idosas que conduziam as negociações. Quando se concluía o acordo, começavam os preparativos. Convidavam-se os parentes e amigos, e acumulavam-se as provisões. O sacerdote-adivinho indicava um dia favorável. A cerimônia do casamento tinha lugar na casa do noivo. A jovem, vestida e paramentada, se apresentava à noite na casa de seu futuro marido, acompanhada de um cortejo alegre conduzindo chamas. Sentados juntos diante do fogo, os jovens recebiam os presentes; em seguida, as "casamenteiras" enlaçavam o traje da noiva e o manto do jovem, após o que eles compartilhavam um prato de tamalli. Os dois jovens estavam casados a partir desse momento. Deviam, porém, permanecer orando durante quatro dias, não se consumando o casamento senão ao fim desse período. Daí a instituição da festa do quinto dia, que tendia a igualar ou superar em importância e luxo a cerimônia de casamento descrita acima, particularmente entre nobres e comerciantes. Essas festividades incluíam, segundo os recursos das famílias, repastos faustosos, acarretando grandes despesas. Também se viam jovens coabitarem, adiando a cerimônia oficial. Esses ritos celebravam o casamento de um homem com sua esposa principal. Mas a poligamia era frequente, sobretudo nas classes abastadas [...].

Quando uma mulher percebia estar grávida, todas as pessoas da casa, e frequentemente todo o bairro, manifestavam sua alegria por meio de repastos cerimoniais e "seções" de discursos pomposos e imaginosos. Uma parteira tomava firmemente aos seus cuidados a futura mãe, velava por sua higiene e também pelo respeito a certos "tabus" - por exemplo: não olhar para o céu durante um eclipse nem olhar para objetos vermelhos - e preparava tudo em relação ao parto. A mulher grávida era colocada sob a proteção das divindades femininas, da "Mãe dos Deuses", da "avó do banho a vapor" [...].

Os casamentos eram geralmente duráveis, embora homens e mulheres pudessem divorciar-se. Os tribunais proferiam decisões quanto à guarda das crianças e à partilha dos bens do casal. A mulher divorciada casava-se livremente. [...]

Ao chegar a certa idade, velhos e velhas tomavam seu lugar no grupo dos "anciãos", cujas advertências eram ouvidas com atenção; consagravam-se às devoções, frequentavam os banquetes e bebiam livremente o octli, sem temer sanções. [...]

A maioria dos mortos era incinerada. Envolvia-se o corpo, sentado, de joelhos flexionados em direção ao queixo, com muitas camadas de tecido, de maneira a formar uma "múmia" ou fardo funerário. As mulheres mortas no parto, entretanto, eram enterradas, assim como os que morriam afogados, atingidos por um raio ou em consequência de uma doença como a gota ou a hidropsia, afecções que se atribuíam a Tlaloc, deus da água e da chuva.

O destino de cada um no outro mundo dependia, acreditava-se, de sua morte. Os guerreiros mortos em combate ou sobre a pedra dos sacrifícios iam para o céu oriental, fazer companhia ao Sol desde a aurora até o zênite; ao fim de quatro anos retornavam à Terra sob a forma de colibris. Os que Tlaloc havia chamado conheciam eternamente a tranquila felicidade do paraíso chamado Tlalocan, maravilhoso jardim tropical. A maioria dos defuntos, porém, ficava "debaixo da terra divina", na obscura morada de Mictlan. Durante quatro anos, sofriam as provações de uma tenebrosa viagem ao mundo subterrâneo; depois, atravessando os Nove Rios, entravam na Nona Morada dos Mortos, e lá, totalmente aniquilados, desapareciam de modo definitivo. [...]

Para ajudar o morto durante a sua peregrinação, queimavam-se alimentos junto com ele; matava-se e incinerava-se um cão, pois não havia Xolotl, o deus com a cabeça de cão, irmão gêmeo de Quetzalcoatl, triunfado em um passado fabuloso das armadilhas de um mundo infernal? A família ainda queimava oferendas 80 dias (quatro meses) após os funerais, e depois, ao fim de um ano, dois, três e quatro anos. [...] Quando um personagem importante morria afogado [...] era enterrado em uma câmara sepulcral, sentado sobre um icpalli, cercado de suas armas e coberto de joias. Os homens - mesmo os mais humildes - que se afogavam no lago, eram tidos como tendo perecido entre as garras do monstro aquático Auitzotl. Seus cadáveres eram cercados de intensa veneração e enterrados solenemente em um santuário dos deuses da água.

SOUSTELLE, Jacques. A civilização asteca. Rio de Janeiro: Zahar, 2002. p. 57-62. (As civilizações pré-colombianas)