"Os espelhos estão cheios de gente.
Os invisíveis nos vêem.
Os esquecidos se lembram de nós.
Quando nos vemos, os vemos.
Quando nos vamos, se vão?"
Eduardo Galeano: Espelhos
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segunda-feira, 11 de julho de 2016

"O viver em colônias" [Parte 8 - O fisco e os monopólios / A cultura da evasão fiscal]

* O fisco e os monopólios. A manutenção da burocracia - civil, militar e eclesiástica - provou ser o mais pesado dos fardos carregados pelos colonos ao longo de séculos. Além de pagar o dízimo, os habitantes da colônia arcavam com o oneroso sistema de contrato-monopólio que incidia sobre certos artigos - sal, aguardente de cana, vinho, azeite, óleo de baleia, tabaco, escravos, entre outros. O fornecimento desses gêneros e a arrecadação dos impostos devidos eram arrematados pela Coroa a particulares.

Esses agentes exploravam a comercialização de tais produtos em troca de uma quantia fixa paga antecipadamente à Coroa. O mesmo acontecia com vários impostos: em vez de cobrá-los diretamente, a Coroa arrendava a cobrança, em troca de uma cifra predeterminada em contrato. os contratadores "financiavam", de certa forma, a Coroa. A população colonial foi, muitas vezes, vítima dos abusos cometidos por contratadores de monopólios. Disso resultava o encarecimento dos produtos e o empobrecimento dos habitantes da colônia.

Além disso, a Coroa ainda lançava mão das alfândegas, estabelecidas nos principais portos do Brasil, onde todos os produtos importados pela colônia pagavam impostos; e, também, todos os produtos embarcados nos portos coloniais. Além das alfândegas, havia as "entradas", os pedágios sobre estradas e pontes.

Esse sistema de cobrança de impostos foi um dos maiores flagelos da população colonial. As alfândegas tornavam os produtos mais caros. O dízimo, cobrado em dinheiro, reduzia a já escassa quantidade de moeda circulante. Além disso, o sistema de monopólio proibia a produção independente daqueles gêneros que apenas a Coroa poderia prover. O sal não podia ser produzido localmente - isso provocou, em 1711, uma rebelião em Salvador, a revolta do Maneta. Era obrigatório comprar o sal dos contratadores da Coroa. A aguardente de cana não podia ser vendida no mercado interno, para não prejudicar o vinho importado pelos contratadores da Coroa. A produção de manufaturas estava expressamente proibida. A Coroa reservava-se o monopólio do fornecimento de manufaturas de ferro e de tecidos.


Um funcionário do governo a passeio com sua família, Jean-Baptiste Debret

* A cultura da evasão fiscal. A contrapartida foi o contrabando, que contava com a solicita venalidade dos funcionários encarregados de supervisionar as atividades comerciais. Raro foi o burocrata que não participou de algum ilícito comercial para compensar os baixos salários pagos pela Coroa.

Fraudava-se o fisco sempre que possível. Ao longo do século, o comércio de contrabando foi assumindo proporções incontroláveis e, no fim do século XVIII. um complexo sistema de evasão fiscal desviava recursos, em volumes significativos, regularmente, dos cofres da monarquia.

Em Ajudá, no litoral africano, o intenso comércio de contrabando realizado pelos negreiros baianos chegou a provocar reações por parte da Coroa, que, para evitar a perda de recursos devidos ao tesouro, ameaçou proibir o comércio legal.

MOTA, Carlos Guilherme; LOPEZ, Adriana. História do Brasil: uma interpretação. São Paulo: Editora 34, 2015. p. 240-1.

domingo, 10 de julho de 2016

"O viver em colônias" [Parte 7 - A justiça do Antigo Regime / Os Regimentos de Linha]

* A justiça do Antigo Regime. Na colônia, a justiça era exercida por toda uma gama de funcionários a serviço do rei. A violência, a coerção e a arbitrariedade foram suas principais características. Entre esses servidores, tinha destaque o capitão-mor das ordenanças, que desempenhava o papel de delegado de polícia e era o braço da lei na colônia, encarregado de punir criminosos e prevenir infrações. Além disso, detinha o poder de julgar e punir os infratores.

A violência da justiça manifestava-se nas prisões arbitrárias, nos castigos exemplares que eram ministrados aos criminosos e na aplicação da pena de morte. Os rigores da lei afetavam especialmente a população mais pobre da colônia e aqueles que não eram proprietários. Os transgressores esperavam suas sentenças durante anos a fio, frequentemente porque não podiam pagar um escrivão. A população de cor - negros forros e mestiços - era castigada com maior severidade.

Nas regiões em que a presença da Coroa era mais distante, os grandes proprietários de terras exerciam considerável autoridade administrativa e judicial. No sertão, os potentados impunham seus interesses à população livrem do alto de seus postos de coronel e capitão-mor da milícia.


Soldado do Segundo Regimento do Rio de Janeiro, 1786,  Joaquim Lopes de Barros

* Os Regimentos de Linha. As unidades militares regulares só foram introduzidas no Brasil no século XVII. O primeiro regimento de infantaria regular chegou à Bahia, em 1625, para lutar contra os holandeses. Os soldados desses regimentos, os "terços regulares", eram profissionais recrutados na metrópole. No século XVIII, para policiar a região das minas, a Coroa criou o Regimento de Dragões, que formavam um corpo profissional e eram recrutados basicamente em Portugal.

Além das tropas regulares, havia também os regimentos locais. O recrutamento desses efetivos era feito entre a população disponível. O alistamento, efetuado para suprir necessidades do momento, era um dos temores da população, pois não havia critérios para escolher quem deveria prestar o serviço militar. Os habitantes da colônia fugiam do serviço militar e do recrutamento como fugiam do pagamento do dízimo.

O anglo-lusitano Henry Koster deixou um valioso relato sobre como se processava a recruta militar em Pernambuco no início do século XIX. As prisões estavam em péssimo estado, as execuções eram poucas, e o degredo era a pena mais comum. Os quartéis encontravam-se negligenciados, os soldados de linha eram mal pagos e "recrutados entre os piores indivíduos na província". O recrutamento consistia em prender "pessoas de mau caráter", de 16 a 60 anos, e mandá-las para o Recife. "É nessa ocasião que a tirania tem o seu esplendor, que o capricho e o arbítrio se aliam e que a mais injusta parcialidade prevalece, e se executa a mais intolerável opressão." Koster ressalta os efeitos perniciosos do recrutamento, momento em que a vingança, a fraude, a "quebra de confiança" eram estimuladas. Os recrutadores, homens pobres e sem soldo, fariam melhor se tivessem "permanecido muito calmamente nos seus trabalhos, em casa, sem cometer violências ou barbaridades que realizavam se as perversas instituições do seu país não os estimulassem e ensinassem a ser turbulentos com os direitos legais das pessoas".

MOTA, Carlos Guilherme; LOPEZ, Adriana. História do Brasil: uma interpretação. São Paulo: Editora 34, 2015. p. 238-240.

domingo, 31 de maio de 2015

A vida cotidiana dos astecas: O ciclo da vida

Uma mãe asteca ensina sua filha de 13 anos a fazer tortillas. Artistas desconhecidos, Codez Mendoza

O destino de cada um era considerado como rigorosamente predeterminado na data de seu nascimento, esta mesma decidida pelas duas divindades supremas: Ometecuhtli e Omeciuatl, "o senhor e a senhora da dualidade". Assim, um homem nascido sob o signo 2-tochtli se entregaria à embriaguez; uma mulher nascida em 7-xochtli seria pródiga em seus favores; o signo 4-itzcuintli prometia honrarias e prosperidade.

Era possível, contudo, corrigir uma predestinação nefasta, escolhendo um dia mais favorável para dar nome a um recém-nascido. Em princípio, não seria necessário esperar mais do que quatro dias após o nascimento de uma criança para batizá-la. O sacerdote-adivinho consultava os livros e fixava a data. Se, por exemplo, a criança tivesse nascido sob um signo designado pelo número 9 (nefasto), o nome lhe seria dado três ou quatro dias mais tarde, visto serem benéficos os números 12 e 13. A parteira que houvesse feito o parto procedia à lavagem ritual do bebê, pondo-lhe água sobre os lábios, cabeça e peito e, finalmente, sobre todo o corpo. Invocava a deusa da água e depois apresentava a criança ao Sol e à Terra. Essa cerimônia tinha lugar em presença de parentes e amigos da família. Quando se tratava de um menino, preparavam-se um escudo, um arco e quatro flechas, que eram presenteados aos deuses para invocar sua proteção ao futuro guerreiro. Para uma filha, preparavam-se fusos, uma lançadeira, um cofre, e se dirigiam preces à personificação da primeira infância, Yoalticitl, "a curandeira noturna". A festa terminava com um banquete, ao fim do qual velhos e velhas bebiam inúmeras taças de octli.

Durante os primeiros anos, a educação da criança estava a cargo da família. O menino aprendia a trazer água e lenha, ajudava nos trabalhos agrícolas ou no comércio, pescava e remava sob a direção do pai. A menina varria, iniciava-se na cozinha, fiação e tecelagem. Assim que a criança atingia a idade de seis a nove anos, porém, seus pais a confiavam a um dos dois sistemas de educação pública então existentes no México: o colégio do bairro, onde os "mestres de rapazes" e "mestras de moças" preparavam seus alunos para a vida prática; ou então o calmecac, colégio-monastério, onde a educação era ministrada pelos sacerdotes. Em princípio. somente os filhos de dignitários (pilli) tinham acesso ao calmeca. Os filhos de negociantes, porém, também podiam ser admitidos, bem como crianças das camadas populares, caso se destinassem ao sacerdócio.

Não se pode deixar de observar as profundas diferenças [...] que separavam esses dois sistemas educacionais. [...] os colégios de bairro visavam antes de tudo formar cidadãos dedicados ao cumprimento de seus deveres, principalmente de seus deveres militares. Os mestres eram escolhidos entre guerreiros reconhecidos. Os rapazes aprendiam o ofício das armas, participavam de trabalhos de interesse público e o cultivo das terras coletivas, sendo durante o dia submetidos a uma severa disciplina. À noite, porém, iam cantar e dançar, e os mais velhos mantinham ligações com as auianime. Ao contrário, os jovens admitidos no calmecac, sob a direção dos sacerdotes e a proteção de Quetzalcoatl, antigo rival de Tezcatlipoca, levavam uma vida austera, feita de trabalhos manuais e intelectuais, de jejuns e penitências. Ensinavam-lhe "boas maneiras", os rituais e a leitura de manuscritos hieroglíficos. Deviam aprender de cor os poemas mitológicos e históricos e iniciar-se nas funções para as quais estavam destinados: o sacerdócio ou altos cargos do Estado.

As "boas maneiras" revestiam-se de importância primordial perante a classe dirigente. Eram objeto de toda uma literatura didática, os ueuetlatolli ("preceitos dos antigos"). Neles se evidencia o ideal de autodomínio, de resistência às paixões, de moderação e de abnegação. A conduta a ser mantida em presença dos superiores ou dos inferiores à mesa, na rua, enfim, as atitudes a serem observadas em todas as circunstâncias da vida estão aí minuciosamente determinadas. Também os alunos dos colégios de bairro eram considerados vulgares e grosseiros porque "falavam com soberba e audácia".

O antagonismo entre esses colégios e os calmecac manifestava-se abertamente durante o sexto mês do ano, Atemoztli. Os alunos de bairros e monastérios entregavam-se então a combates sem complacência, invadiam os lugares uns dos outros, carregavam e destruíam móveis e utensílios e se infligiam trotes recíprocos.

Ao chegar à idade adulta, ou seja, 21 anos, o rapaz deixava o colégio ou o monastério, a menos que decidisse dedicar-se ao celibato e aos deuses. Da mesma forma, as moças podiam consagrar-se ao sacerdócio. A maioria dos jovens se casava. As famílias arranjavam as uniões por intermédio das "casamenteiras", mulheres idosas que conduziam as negociações. Quando se concluía o acordo, começavam os preparativos. Convidavam-se os parentes e amigos, e acumulavam-se as provisões. O sacerdote-adivinho indicava um dia favorável. A cerimônia do casamento tinha lugar na casa do noivo. A jovem, vestida e paramentada, se apresentava à noite na casa de seu futuro marido, acompanhada de um cortejo alegre conduzindo chamas. Sentados juntos diante do fogo, os jovens recebiam os presentes; em seguida, as "casamenteiras" enlaçavam o traje da noiva e o manto do jovem, após o que eles compartilhavam um prato de tamalli. Os dois jovens estavam casados a partir desse momento. Deviam, porém, permanecer orando durante quatro dias, não se consumando o casamento senão ao fim desse período. Daí a instituição da festa do quinto dia, que tendia a igualar ou superar em importância e luxo a cerimônia de casamento descrita acima, particularmente entre nobres e comerciantes. Essas festividades incluíam, segundo os recursos das famílias, repastos faustosos, acarretando grandes despesas. Também se viam jovens coabitarem, adiando a cerimônia oficial. Esses ritos celebravam o casamento de um homem com sua esposa principal. Mas a poligamia era frequente, sobretudo nas classes abastadas [...].

Quando uma mulher percebia estar grávida, todas as pessoas da casa, e frequentemente todo o bairro, manifestavam sua alegria por meio de repastos cerimoniais e "seções" de discursos pomposos e imaginosos. Uma parteira tomava firmemente aos seus cuidados a futura mãe, velava por sua higiene e também pelo respeito a certos "tabus" - por exemplo: não olhar para o céu durante um eclipse nem olhar para objetos vermelhos - e preparava tudo em relação ao parto. A mulher grávida era colocada sob a proteção das divindades femininas, da "Mãe dos Deuses", da "avó do banho a vapor" [...].

Os casamentos eram geralmente duráveis, embora homens e mulheres pudessem divorciar-se. Os tribunais proferiam decisões quanto à guarda das crianças e à partilha dos bens do casal. A mulher divorciada casava-se livremente. [...]

Ao chegar a certa idade, velhos e velhas tomavam seu lugar no grupo dos "anciãos", cujas advertências eram ouvidas com atenção; consagravam-se às devoções, frequentavam os banquetes e bebiam livremente o octli, sem temer sanções. [...]

A maioria dos mortos era incinerada. Envolvia-se o corpo, sentado, de joelhos flexionados em direção ao queixo, com muitas camadas de tecido, de maneira a formar uma "múmia" ou fardo funerário. As mulheres mortas no parto, entretanto, eram enterradas, assim como os que morriam afogados, atingidos por um raio ou em consequência de uma doença como a gota ou a hidropsia, afecções que se atribuíam a Tlaloc, deus da água e da chuva.

O destino de cada um no outro mundo dependia, acreditava-se, de sua morte. Os guerreiros mortos em combate ou sobre a pedra dos sacrifícios iam para o céu oriental, fazer companhia ao Sol desde a aurora até o zênite; ao fim de quatro anos retornavam à Terra sob a forma de colibris. Os que Tlaloc havia chamado conheciam eternamente a tranquila felicidade do paraíso chamado Tlalocan, maravilhoso jardim tropical. A maioria dos defuntos, porém, ficava "debaixo da terra divina", na obscura morada de Mictlan. Durante quatro anos, sofriam as provações de uma tenebrosa viagem ao mundo subterrâneo; depois, atravessando os Nove Rios, entravam na Nona Morada dos Mortos, e lá, totalmente aniquilados, desapareciam de modo definitivo. [...]

Para ajudar o morto durante a sua peregrinação, queimavam-se alimentos junto com ele; matava-se e incinerava-se um cão, pois não havia Xolotl, o deus com a cabeça de cão, irmão gêmeo de Quetzalcoatl, triunfado em um passado fabuloso das armadilhas de um mundo infernal? A família ainda queimava oferendas 80 dias (quatro meses) após os funerais, e depois, ao fim de um ano, dois, três e quatro anos. [...] Quando um personagem importante morria afogado [...] era enterrado em uma câmara sepulcral, sentado sobre um icpalli, cercado de suas armas e coberto de joias. Os homens - mesmo os mais humildes - que se afogavam no lago, eram tidos como tendo perecido entre as garras do monstro aquático Auitzotl. Seus cadáveres eram cercados de intensa veneração e enterrados solenemente em um santuário dos deuses da água.

SOUSTELLE, Jacques. A civilização asteca. Rio de Janeiro: Zahar, 2002. p. 57-62. (As civilizações pré-colombianas)

quinta-feira, 13 de novembro de 2014

Nos submundos da Antiguidade: as ruas de Roma e Pompeia

Na época de Plauto ou de Cícero, é no Foro Romano que se concentram todas as atividades da cidade, das mais honrosas às mais equívocas. Na Roma imperial, o Foro parece bem pequeno, ao lado dos magníficos foros imperiais que foram sendo edificados no decurso dos sucessivos reinados. É toda a cidade que se torna um lugar de passeio, de encontros, de tráficos para essa massa ociosa: otários em busca de espetáculos, escroques à caça, parasitas em busca de um jantar, de um patrão acolhedor e generoso. Se acreditarmos nos quadros que os escritores da época imperial nos legaram, a vida cotidiana – para a maioria dos romanos – apresenta-se como uma perpétua busca.


O Fórum de Pompeia, Christen Købke

Roma é, antes de mais nada, o barulho: murmúrio, gritos, nada parece poder conter esse rumor confuso que, durante todo o dia, eleva-se das ruas:

“Em Roma, não é possível ao pobre pensar ou repousar. Impossível viver em paz pela manhã por causa  dos professores; à noite, por causa dos padeiros; durante o dia, por causa do martelo dos ferreiros” (Marcial, Epigramas XII, 57).

Assim, é uma barafunda que, da aurora ao pôr do sol, invade calçadas, ruas, pórticos. Uma passagem de uma célebre sátira de Juvenal evoca múltiplos perigos que esperam o pedestre que anda pelas ruas de Roma: as vastas liteiras dos ricos, as carruagens, operários que transportam odres, potes ou grandes vasos contendo vinho e azeite. É bem difícil abrir caminho por entre tais ruelas, que ficam ainda mais estreitas por causa da exposição das mercadorias. A calçada, com efeito, durante o dia, é coberta pelos cavaletes e barracas móveis onde os comerciantes expõem suas mercadorias. Nas estacas que sustentam essas barracas provisórias, são penduradas tanto as garrafas do botequineiro quanto os rolos de papiro dos livreiros. . Domiciano será obrigado a promulgar um édito impedindo os comerciantes de monopolizarem a calçada, instalando nela essas barracas que trazem perigo à segurança dos pedestres. E, por vezes, acima da massa compacta que transita pelas ruas, surge a navalha brandida às cegas pelo barbeiro que está escanhoando seu cliente em meio à algazarra. As ruas de Roma são tão obstruídas, tão invadidas pela população, que um passeio pode ser pago com a própria vida: uma inscrição recorda uma mulher e uma criança de treze anos, esmagadas pela massa que se comprimia perto do Capitólio [...].


Mercado de escravos, Gustave E. Boulanger

A rua não é mais do que um espetáculo: saltimbancos, exibidores de animais amestrados ou charlatães invadem as calçadas; [...]

Se acreditarmos nos escritores romanos que nos deixaram negras descrições dos engarrafamentos da capital, é bem perigoso passear pelas ruas de Roma durante o dia. Todavia, algazarra, tumultos, barulho e poeira nada são, ao lado do que espera o transeunte noturno. Poucos romanos, de resto, se aventuram a atravessar Roma depois do pôr do sol, a não ser acompanhados por uma guarda de escravos armados e munidos de chicotes. Com efeito, reina a escuridão nas ruas da cidade, pois não há iluminação pública.

Além do mais, as ruas estão longe de ser desertas: todos os que não têm o direito de circular durante o dia, as carroças de transporte, os comboios que obstaculizam o tráfego, atravessam ruidosamente a cidade e acordam os habitantes das insulae [...].

Se as ruas do centro da cidade são mais seguras, imagine-se o que ocorre nos terrenos baldios situados na periferia da cidade, ao longo das grandes estradas que saem de Roma para os quatro cantos da Itália. Desde o cair da tarde, sombras suspeitas e furtivas vagueiam, absorvidas em atividades misteriosas. É a zona dos túmulos, dos cemitérios, dos crematórios, zona temida pelos cidadãos romanos e, justamente por isso, transformada em asilo de numerosos marginais.

Quer se destinem ao descanso do passante, a alimentar ou a hospedar o viajante, ou os habitantes da cidade, são muitos os estabelecimentos hospitaleiros no mundo romano. Numerosos testemunhos nos permitem saber que eles se concentram essencialmente nos bairros populares. Em Roma, muitas tavernas se situavam perto do Grande Circo, dos teatros ou anfiteatros, bem como das casas de banho: em suma, em todos os lugares freqüentados pela multidão. Outros também servem como pontos de descanso situados nas portas das cidades: em Pompeia, a “estação” – freqüentada pelos que se encarregam dos transportes pelas estradas – situa-se fora da cidade, perto da porta de Estábias. Lá se reúnem também os arrieiros, os proprietários dos veículos de aluguel e dos mulos alugados aos viajantes.

São geralmente construções modestas: podemos bem conhecê-las por causa dos numerosos albergues que ainda animam as ruas de Pompeia. No interior, uma ou duas salas recebem os clientes; há alguns quartos no andar superior, assim como um jardim, onde os consumidores podem se sentar sob um caramanchão. Muitas dessas tavernas – as termopolia – prolongam-se na rua através de um balcão, no qual são postas as ânforas contendo o vinho fresco ou quente; o passante, que não tem tempo de entrar no estabelecimento para servir-se de uma bebida, pode tomar rapidamente uma taça de vinho e, de pé, comer uma salsicha ou um doce quente.


Cena erótica. Lupanar em Pompeia, Artista desconhecido. Século I d.C.

Tabuletas pintadas ou mosaicos indicam ao interessados os nomes dos estabelecimentos. Alguns proprietários não demonstram grande imaginação, contentando-se em batizar suas tavernas com uma indicação topográfica: “Nos rochedos vermelhos”, “Na pereira”, “No templo de Diana”. Outros, talvez mais esnobes, buscam a originalidade: o albergue “O Elefante”, em Pompeia, é ornado por um desenho que representa um elefante vermelho. O estabelecimento de Heleno, sempre em Pompeia, “A Fênix”, conserva ainda a magnífica tabuleta que lhe deu o nome: uma fênix passeia num cenário floral de grande finura. Abaixo dela, dois pavões enquadram uma frase de saudação: “Também tu deves ser feliz, como a fênix”.


Casal nu na cama. Artista desconhecido. Afresco na Casa della Farnesina, Roma, ca. 19 a,C.

E, como a maioria dos albergues ou tavernas funcionam [...] como locais de prostituição, algumas inscrições indicam que a casa pode oferecer outros prazeres além de beber e comer: um estabelecimento de Roma, certamente muito acolhedor, chama-se “As Quatro Irmãs”. Em “As Filhas de Aselina”, em Pompeia, Aglaé, Maria e Esmirina garantem o serviço, sob as ordens de “madame” Aselina.


SALLES, Catherine. Nos submundos da Antiguidade. São Paulo: Brasiliense, 1983. p. 222-4, 231-2 e 240-2.

quinta-feira, 24 de julho de 2014

A vida cotidiana egípcia em pequenas obras de arte

Modelo de barco do túmulo de Herishefhotep, IXª dinastia. Foto: Einsamer Schütze

A arte do Egito Antigo tem sua expressão máxima em obras monumentais e de caráter religioso, como as pirâmides e as pinturas que recobrem as paredes dos túmulos e templos. Mas, a estes magníficos exemplos do alto nível artístico alcançado pelos antigos egípcios, somam-se pequenos trabalhos artesanais que, por traduzirem hábitos, costumes e aspectos da vida cotidiana, foram de grande importância para a reconstituição histórica da civilização egípcia. Elaborados fora do contexto religioso do Estado, estes trabalhos eram de concepção bastante livre, não obedecendo aos rígidos padrões a que estava submetida a arte monumental dos faraós.


Modelo de cozinha: trabalhadores moendo, cozendo e fazendo cerveja, XII dinastia. 
Foto: Andreas Praefcke

Durante o Antigo Império, a argila e os metais foram as matérias-primas básicas utilizadas na feitura das peças de artesanato, que compreendiam desde utensílios domésticos até estatuetas e delicados trabalhos de ourivesaria. No Médio Império, porém, a madeira passou a ser empregada em larga escala na confecção de todo tipo de manufaturas. E foi neste período que se desenvolveu um gênero de estatuária de cunho nitidamente artesanal. Esculpidas em madeira e pintadas com cores vivas, estas figuras aparecem reunidas em grupos onde são retratadas cenas da vida di[ária dos antigos egípcios.


Modelo de celeiro. Os homens estão derramando grãos em silos compartimentados. No canto oposto, um escriba, sentado no chão, registra as quantidades em uma placa coberta de gesso. 1ª Período Intermediário. 
Foto: Typezero

Pela profusão de personagens e detalhes, tais conjuntos – descobertos em sua maior parte nas tumbas dos faraós e nobres tebanos – são testemunhos fiéis de um modo de vida mais desaparecido há milhares de anos. Na realidade, têm um valor muito mais documentário do que propriamente artístico, já que muitos deles são trabalhos nem sempre perfeitamente realizados do ponto de vista estético. Estas miniaturas eram colocadas nas câmaras mortuárias como símbolos de uma vida que se prolongaria pela eternidade e dos serviços que nela deveriam ser prestados àquele que morrera. Ao reproduzirem o dia-a-dia de toda uma sociedade, os artesãos do Egito Antigo conseguiram realizar algo de tão importante quanto os grandes artistas da época: fazer com que, das profundezas do mundo dos mortos, pudesse ser trazido à luz o mundo dos vivos, singelamente perpetuado em argila e madeira.


HISTÓRIA DAS CIVILIZAÇÕES. São Paulo: Abril, 1975. p. 10. Volume 1.

NOTA: O texto "A vida cotidiana egípcia em pequenas obras de arte" não representa, necessariamente, o pensamento deste blog. Foi publicado com o objetivo de refletirmos sobre a construção do conhecimento histórico.

terça-feira, 13 de maio de 2014

O homem do século XVI: o homem face à natureza

- O homem face ao clima. A geografia física do globo não mudou em suas grandes linhas. 

Se as modificações das margens e dos cursos de água resultam, desde o século XVI, mais da ação dos homens ou de sua deserção que dos fenômenos naturais, as variações do clima quase não podem ser negadas. Uma certa concordância entre diversos índices (crônicas dos contemporâneos, flutuações das geleiras, exame dos anéis de crescimento das árvores) autoriza a reconhecer que, depois de longuíssimo período de temperaturas médias relativamente brandas, a Europa conhece, na segunda metade do século XVI, uma tendência ao resfriamento que se prolonga até o meio do século XIX (“pequena idade glacial”).

O homem é, certamente, mais afetado do que nós pela alternância das estações que ritma o jogo dos elementos naturais, sobre os quais ele tem muito menos poder de ação do que hoje.


Primavera, Pieter Brueghel, o Jovem

Na maior parte dos países temperados, no inverno, a atividade se restringe às horas que escapam às trevas exteriores perigosas, e mesmo interiores paralisantes. No verão, ao contrário, as longas jornadas são consagradas aos trabalhos dos campos, cujo resultado condiciona a subsistência do ano todo, e aos da oficina. Mas igualmente importantes são as meias-estações, a primavera que prepara a colheita e o outono durante o qual se põe em ordem o quadro de frutos silvestres, produtos de caça, lenha para aquecimento, vimes...


A colheita do feno, Pieter Brueghel, o Jovem

Sob outros céus, a alternância das estações toma outras formas: estação seca e estação chuvosa nos países de monções ou mesmo nos países mediterrâneos.

- O quadro de vida. A habitação mudou muito menos do que parece pois, hoje, apenas subsistem da época as casas mais sólidas, sobretudo as construídas de pedra ou de tijolos. Mas estes materiais são, de maneira geral, empregados tardiamente e, no século XVI. Paris continua a ser ainda uma cidade de madeira. Ou melhor, somente o rés-do-chão é de pedra. O incêndio de Londres em 1666 recorda que o emprego da madeira era aí ainda bastante difundido no século XVII. Apenas as igrejas, os conventos, as municipalidades são construídas de materiais duros. Mesmo nas cidades, a cobertura é feita amiúde de sarrafos ou de colmo.

Nas regiões em que é abundante, a madeira constitui a totalidade do edifício (Escandinávia, Rússia). Alhures, o modo de construção mais propagado associa a madeira e o adobe, ou seja, com tabique ou armação de madeira na Europa Ocidental e com adobe e bambu no Extremo Oriente. Uma estrita regulamentação da construção existe em cidade. Subsiste, todavia, certa fluidez no agrupamento da casa. A aldeia Lorena fechada não datará senão do século XVII. No interior dos quarteirões urbanos conservam-se jardins.

Nas cidades, a casa pobre, baixa, compõe-se, em geral, de duas peças, o “cômodo da frente” e o “cômodo traseiro”. A casa burguesa, que permanecera estreita, aumentou verticalmente e aloja inúmeras famílias. A divisão dos níveis sociais se propaga em altura: loja ou oficina no rés-do-chão, residência do mestre no andar de cima e, no alto, quartos dos operários, sótão habitados. No campo, o habitat associa estreitamente homens e animais.


Hora da refeição no campo, Pieter Brueghel, o Jovem

A terra batida que, salvo exceção, constitui o piso das habitações rurais, recua, nas cidades, diante do ladrilhamento. O parquete só timidamente aparece nas casas dos mais ricos e não se difundirá senão no século XVII. Em Paris continua-se ainda a juncar de palha o piso dos aposentos, no inverno, e de ervas recém-cortadas, no verão. A Europa conhece uma inovação com o vidro branco que se propaga nas janelas no século XVI. O taipal maciço é encontrado ainda, especialmente nos campos.

O aquecimento só existe, na verdade, nos países onde o inverno é rigoroso. Na China do Norte, na Rússia, o camponês deita com a família sobre o fogão de tijolo. A Europa do Noroeste conhece a chaminé de certa dimensão, que se torna um elemento decorativo entre os ricos. Em Paris, os pobres se aquecem com o “braseiro” de tijolo utilizado na cozinha. Os países mediterrâneos conhecem apenas a braseira. Na Europa Central e na Oriental, o fogareiro de tijolo, depois de faiança, é posto no cômodo comum. O aquecimento é o privilégio de um único aposento, o que implica, no inverno, uma vida concentrada num pequeno espaço.

O mobiliário, em geral, não é menos rudimentar. O uso da mesa alta distingue a Europa da maioria das demais partes do mundo onde as pessoas se acomodam em redor da mesa baixa, sentadas ou deitadas no chão. Na Europa Ocidental, o luxo do mobiliário consiste em cortinados, cobertas de cama, tapeçarias, almofadas, e, a um nível mais elevado, em móveis como leites com dossel, cofres esculpidos, mais tarde incrustados e, “gabinetes”, ancestrais das secretárias. Mas, a não ser nos castelos de alguma importância, este mobiliário se concentra no cômodo comum e, amiúde, único. A intimidade e a comodidade são quase ignoradas. As privadas são desconhecidas. A iluminação, durante muito tempo, é uma necessidade de Estado ou um luxo. Não obstante, o lustre ou o modesto castiçal se difundem. Esta “vitória sobre a noite” se colocaria na Europa no século XVI (F. Braudel).

O vestuário da grande maioria da humanidade permanece invariável no que concerne ao tecido e à forma empregados, como seja o quimono no Japão ou o poncho no Peru. Também quase não varia entre os países da Europa, homens ou mulheres, antes do século XVIII. A escolha do tecido é fixada segundo os recursos do país, o hábito da vestimenta e a categoria social.

A uniformidade constitui a regra, não apenas nas roupas de trabalho, mas também nos trajes de função. Destarte, na Europa Ocidental e na Central, o traje continua a ser o signo que distingue os letrados: eclesiásticos, agentes da Universidade (nisto compreendidos os médicos) e os juízes. O uso da vestimenta longa impõe um comportamento grave e comedido a homens ainda próximos da natureza.

Entretanto, o traje de corte, que imita bem o traje da cidade, torna-se a presa da moda. Isto a tal ponto, que tudo que se pretende permanente – Igreja – monarquia – se aferra ao uso de vestes anacrônicas cuja forma no conjunto, está fixada, no século XVI. Esta vitória da moda, não é ela o sinal de uma vitória sobre os imperativos do modo de vestir?

- Meios de ação do homem sobre a natureza. Localmente, o homem já possui forte domínio sobre a natureza. Mas o estado de seus conhecimentos biológicos e de sua técnica, a energia motriz de que pode dispor não lhe permitem tentar outra coisa senão uma ordenação prudente e limitada das condições naturais.

O universo fitológico difere sensivelmente do nosso. Salvo em algumas regiões da Ásia, da África e da América, o homem cultiva, no início do século XVI, um espaço bem menor do que o fará no século XIX. Na Europa, um lugar apreciável é deixado ou incult. Pelo menos a metade está ocupada pelas florestas, matas de corte, charnecas, baldios, terras ingratas que o homem, à falta de meios, não pode arrotear nem manter cultivadas, que ele utiliza como terrenos de percurso (inclusive as florestas) ou das quais retira recursos indispensáveis: lenha, forragem, turfa, frutos silvestres, caça etc. Ocorre o mesmo no Extremo Oriente onde os homens mais evoluídos se concentram nas únicas terras que permitem uma cultura permanente e abandonam o restante, colinas e montanhas, a populações primitivas.

O homem entrega-se à clemência do céu. Entretanto, às vezes, ele assume encargos. Na cristandade, cultiva-se a vinha até na Inglaterra e na Noruega para se ter vinho de missa, apesar de não haver colheita todos os anos. Este desafio à natureza, é ele assim tão excepcional?

O homem pouco atua sobre a fertilidade do solo. As terras, em todos os países de cultivo manual, são estrumadas, o mais frequentemente, como na China, pelo adubo humano. Além disso, as lavras são pouco profundas. Os próprios animais as estrumam quando permanecem sobre os restolhos. Para reconstituir a fertilidade do solo, o homem deixa a terra em repouso. Ao incult permanente acrescenta-se um incult temporário, não sempre periódico. Quando aumentam as necessidades alimentares, arroteia-se.

A permuta das espécies já foi considerável entre as diversas partes do Antigo Mundo, mas não se realizou nada comparável em rapidez às transformações produzidas pela descoberta do Novo Mundo. Imaginemos uma Europa onde faltem batatas, milho...

O universo animal é, provavelmente, mais rico do que hoje em espécies domesticadas. Até aí o homem interveio no equilíbrio destas. Entretanto, o urso frequenta, ainda, as montanhas e o lobo, os campos da Europa Ocidental; estão, contudo, em recuo. É menos assombroso ver o homem transportar seus animais domésticos de um a outro continente. Isso levará à América o cavalo, e à Europa o peru e a galinha-d’angola... Alguns animais domésticos seriam irreconhecíveis ao home do século XX. O porco permanece, em geral, pequeno (40 a 60 kg), veloso e armado de defesas. Somente as vacas, encontradas na Índia atualmente, podem dar uma ideia do que eram na Europa.

As civilizações não conservam as paisagens naturais senão nos lugares que negligenciaram. O agricultor do Extremo Oriente, do mesmo modo que o da Europa, faz impiedosa caça à arvore em seu território. Desajuizadamente, ele destrói algumas vezes certas espécies animais e vegetais. Tudo isso exige uma organização coletiva minuciosa e constrangedora para a conservação do terreno, mas raramente empreende uma modificação deliberada da paisagem. Todavia, nas margens do mar do Norte e nos deltas perigosos, a luta defensiva contra o mar tende a tornar-se uma reconquista. É necessário grande arrojo para mobilizar nesse objetivo as magras fontes de energia e as técnicas da época.

As fontes de energia motriz são fontes imediatas, emprestadas ao que se movimenta ou é movido de maneira natural.

O homem, de início, emprega a própria força. A tal respeito, não o faz melhor presentemente. Todas as máquinas elementares estão inventadas. As grandes civilizações do Antigo Mundo conhecem a alavanca, a roda, a polia, o cabrestante, o bolinete, o guindaste, os pedais, que multiplicam as forças humanas, naturalmente débeis.

A força animal é, ainda, mais frequentemente utilizada para transportar do que para puxar ou movimentar as máquinas. Ainda quanto a isso, pelo menos no Antigo Mundo, o homem não o fará muito melhor. O cavalo continua a ser um animal de preço, apanágio dos nobres, dos guerreiros ou dos agricultores de maiores posses das regiões mais fáceis de cultivar.

É graças ao cavalo e ao dromedário que o homem pode vencer a distância, multiplicando por cinco a extensão da etapa cotidiana. Ele, contudo, não venceu o peso. À falta de estradas praticáveis, o transporte permanece aleatório e limitado. Uma carroça atrelada não transporta muito mais que meia tonelada, e as despesas são enormes. Trata-se, portanto, de transportar a uma distância razoável apenas mercadorias leves, caras.

Em terra, o vento não é utilizado senão para mover moinhos. O mesmo ocorre com o motor hidráulico. Nascido das necessidades da moagem, é sempre chamado de moinho. Mas não aciona unicamente mós. Pode-se, pois, considerar que, no século XVI, ele se tornou a principal fonte de energia motriz aplicada na indústria.

A navegação se serve das únicas fontes de energia motora natural (remos, velas). Mas continua a ser um meio de comunicação quase terrestre: fluvial ou costeiro, de resto imbatível, lá onde for possível. A travessia direta dos oceanos e dos mares de alguma amplidão é sempre uma aventura. Ela só começa a ser encarada pelos europeus durante o século XV.

O homem do século XVI não pode considerar os combustíveis como uma fonte de energia. Não obstante, faz uso da madeira e, acessoriamente, na China do Norte e num ponto ou outro da Europa (região de Newcastle, de Liège), do carvão de pedra, não apenas com o fito de aquecer-se, mas para fins industriais: metalurgia, evaporação do sal... É no respeitante às fontes de energia que, provavelmente, a inferioridade das civilizações com relação às nossas é mais nítida.

Assaz paradoxalmente, a técnica é menos atrasada. O domínio da água conhece canais, irrigação, drenagem, bombas de elevação, eclusas. Sem dúvida, muitas ferramentas são feitas de madeira. Entretanto, a ferrumentária do aço, que permite furar, polir (arco de puz, serra, broca) já está sendo mais ou menos empregada. Falta-lhes somente a força. A necessidade de metais preciosos, ou mesmo simplesmente úteis, levou o homem, desde longa data, a ousar a exploração dos recursos do subsolo. Certamente, não é possível comparar a mina de carvão do século XVI com a do século XX. Todavia, tudo aí está: poços, guindastes, galerias, vagonetes, bomba d’água, ventiladores.

A técnica permitiria, pois, ao homem exercer considerável domínio sobre a natureza, se ele dispusesse da energia necessária. Para remediar esta insuficiência, ele se mostra engenhoso em multiplicar as próprias forças. A espera de poder pôr a serviço de sua técnica consideráveis fontes de energia, o homem revela, em suas relações com a natureza, uma paciência infinita. A do europeu do século XVI é, provavelmente, da mesma ordem da do chinês do século XIX. Na verdade, sua técnica e suas fontes de energia motriz não dão ainda ao europeu uma superioridade esmagadora sobre o chinês. Se ele se considera o piloto da humanidade, o é por motivos outros, especialmente espirituais.


CORVISIER, André. História moderna. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1995. p. 11-15.

NOTA: O texto "O homem do século XVI: o homem face à natureza" não representa, necessariamente, o pensamento deste blog. Foi publicado com o objetivo de refletirmos sobre a construção do conhecimento histórico.

domingo, 9 de fevereiro de 2014

O outro lado de 1808

“O imaginário popular ilustra o período joanino com palácios, carruagens, banquetes, vestidos volumosos e leques. Mas a realidade, relegada até pela própria história, era bem diferente.

Em contraste à riqueza que aportou no Rio de Janeiro em 1808, as condições urbanas da cidade e de vida da sua população eram extremamente precárias, e com o aumento repentino das demandas, as carências ficaram mais evidentes: faltava água, comida e moradia. [...]

Rua Direita, Félix-Émile Taunay

Não havia sistema de esgotos. Os restos da casa, do banheiro à cozinha, eram jogados na praia para que as marés lavassem, e tudo era transportado em tonéis em ombros escravos. As ruas eram escuras e perigosas. A água potável era escassa e o abastecimento de alimentos era deficitário, principalmente o de carnes, cujo consumo era um luxo só presente em poucas ocasiões festivas no ano [...].

A vinda da corte e o crescimento da cidade da cidade levaram a um aumento rápido da população de escravos. Em apenas três anos, o número de cativos passou de 9.602 para 18.677, o que fez com que as ruas cariocas ficassem repletas de negros, escravos ou livres. Os negros eram cerca de três quartos da população.”


COSTA, Guilherme Martins; LEMLE, Marina. O outro lado de 1808. Revista de História da Biblioteca Nacional, 14 fev. 2008.

NOTA: O texto "O outro lado de 1808" não representa, necessariamente, o pensamento deste blog. Foi publicado com o objetivo de refletirmos sobre a construção do conhecimento histórico.

segunda-feira, 17 de junho de 2013

Aurora do século XX: Trabalho e cotidiano

A necessidade de cultivar alimentos e cuidar dos animais de criação ocupava todo o tempo de nove entre dez pessoas em todo o mundo. O dia a dia era dominado por plantações de coco e banana, campos de arroz e trigo, rebanhos de ovelhas e gado bovino, extração da borracha, pomares, vinhedos e bosques de oliveiras. Na Europa, o cotidiano ainda era mais parecido com o da África. A cada manhã, da Noruega a Moçambique, os primeiros a se levantar observavam o céu à procura de sinais de chuva, de ventos indicativos de tempo seco ou de quaisquer outros elementos climáticos que pudessem auxiliar ou prejudicar as plantações.

O semeador, Jean-François Millet


A colheita era o evento mais importante. Se fosse fracasso, dezenas de milhões de pessoas estariam expostas à fome, à subnutrição ou doenças graves. A maior parte dessa atividade era feita manualmente, por um pequeno exército de mulheres e homens que trabalhavam do nascer ao pôr do sol. [...]

A colheita de batata, Jean-François Millet


[...]

Em quase todas as partes do mundo, pesados carregamentos eram transportados pela força bruta. Carregadores, curvados sob o peso  que levavam, cruzavam montanhas íngremes, por onde não passavam estradas nem ferrovias. Quase todo o sal que chegava ao interior da parte sul da China era transportado em grandes blocos acomodados em uma armação de madeira colocada sobre os ombros dos carregadores. [...] Em portos movimentados, que se estendiam desde o Mar Vermelho até o Mar Amarelo, formava-se uma fileira de trabalhadores para carregar o carvão em sacos e cestas até os navios a vapor, uma vez que esteiras transportadoras eram raras. O carvão que abastecia os navios representava um risco para os passageiros bem vestidos, e as mulheres que usavam chapéus de tons claros e luvas brancas aborreciam-se quando percebiam a rapidez com que suas roupas ficavam salpicadas de pó de carvão.

Em países mais prósperos, muitas tarefas ficavam a cargo de cavalos, e não de suados homens e mulheres. [...]

As pessoas, em sua maioria, possuíam animais, grandes ou pequenos, mais por sua utilidade do que para servir de companhia. Gatos eram caçadores de ratos em armazéns e cozinhas. Cães ajudavam na caça e no pastoreio de ovelhas, e as raças de grande porte podiam ser aproveitadas para puxar pequenas carretas. [...]

Uma típica família rural europeia que se mudava para a cidade precisava menos de animais e dispunha de pouco espaço para eles. No entanto, à medida que as cidades cresciam e as pessoas, além de se tornarem mais prósperas, viviam mais, os animais de estimação se tornavam desejáveis. As cidades inglesas provavelmente foram as primeiras a abrigar animais de estimação em grande número - a Inglaterra organizou a primeira feira de cães, em Newcastle, em 1859 - e então o costume se espalhou pela Europa continental [...]. 

Nas propriedades rurais de boa parte do mundo, as tarefas cotidianas se pareciam. Com um balde, buscava-se água no poço ou córrego; a madeira vinha de longe até o fogão a lenha, onde se preparavam todas as refeições; as velas eram acesas no cômodo principal da casa ao anoitecer. [...] Crianças descalças, que não frequentavam a escola, seguiam o vagaroso carro de bois até as matas vizinhas, para enchê-lo de lenha e feixes de gravetos.

Certas regiões rurais da África e da Ásia desfrutavam de um padrão de vida talvez mais alto do que o de várias zonas rurais da Europa. [...] o típico tibetano [...] gostava muito de cantar e contar histórias. Em contraste com esses lugares alegres, em algumas partes do mundo ainda havia escravidão.

O escravo vivia em situação pior do que os indivíduos pertencentes a qualquer minoria étnica da Europa. Embora, por volta de 1880, o regime tivesse sido abolido no Brasil e em Cuba, uma ilha produtora de açúcar, ele persistia na África e na Península Arábica. Nos portos do norte africano, os navios que transportavam esses trabalhadores eram vistos movendo-se furtivamente à noite. Os turcos empregavam escravos domésticos em grande número e continuaram a mantê-los, embora em quantidades mais modestas, mesmo após o Império Otomano ter abolido tal prática, em 1889.

[...] Na década de 1920, a escravidão continuava nas montanhas da Etiópia, e mesmo na década de 1950, aproximadamente meio milhão de escravos trabalhavam na Arábia Saudita, a maioria em tarefas domésticas.

Poucos eventos contribuíram tanto para o fortalecimento do otimismo em 1900 quanto o fato de diversos males do passado estarem, aos poucos, sendo erradicadas. A escravidão era a principal delas.

[...]

Fora das terras dominadas pelos povos europeus, as condições de vida eram precárias. A taxa de mortalidade de crianças e de pessoas de meia-idade era alta. As calamidades naturais eram frequentes. Na África e na Ásia, a fome severa continuava. Pragas batiam às portas das cidades asiáticas. A malária atacou maciçamente nos trópicos e até mesmo o sul da Itália estava infestado de mosquitos transmissores da doença [...].

Em 1900, talvez metade dos habitantes do mundo jamais tenha conversado com um médico nem entrado em um hospital. Caso se sentissem muito doentes, procuravam a cura no folclore ou em antigos tratamentos à base de ervas. Na África, adivinhos, astrólogos ou necromantes muitas vezes eram chamados como última esperança. Em muitos países, as primeiras escolas de Medicina foram fundadas somente no século XX.

BLAINEY, Geoffrey. Breve história do século XX. São Paulo: Fundamento Educacional, 2011. p. 27-33.

domingo, 16 de junho de 2013

Aurora do século XX: Magia e miséria na cidade grande

Place St. Michel, Notre-Dame, Paris. Edouard Cortes

As grandes cidades eram o símbolo da nova época. Na Europa, havia meia dúzia com mais de 1 milhão de habitantes cada uma, enquanto um século antes somente Londres havia atingido tal marca. Esta continuava a ser a maior cidade que o mundo conhecia, abrigando então 6 milhões de pessoas. A segunda maior, em 1900, era Paris, que se aproximava dos 3 milhões. Berlim vinha em terceiro lugar, com o crescimento mais rápido entre as três e aproximadamente 2 milhões de habitantes. Eram seguidas por Viena (Áustria) e por duas cidades russas: São Petersburgo e Moscou.

Rue de Berne, Paris. Édouard Manet


As cidades cresciam rapidamente, pois absorviam a população excedente das povoações menores e das áreas rurais que ficavam perto delas. Em 1900, apenas metade dos habitantes de Viena era natural dali. Embora fosse a cidade com o custo de vida mais elevado de toda a Europa, estava cheia de habitações, todas extremamente pequenas; assim, a maior parte dos moradores usava as cafeterias da vizinhança para compensar a falta de espaço em casa. Viena era o lar do creme chantili, das tortas geladas e do café - o chá era apreciado na Grã-Bretanha e na Rússia. Era também o lar da música clássica [...] e ali surgiu uma nova psicologia, formulada por Sigmund Freud. Também foi ali que nasceu o nazismo, uma vez que, em 1907, o jovem Adolf Hitler, vindo do interior, começou a aderir ao antissemitismo, tendência política cuja importância aumentava naquela cidade, onde os judeus formavam um décimo da população.

A boa música e o teatro se concentravam nas metrópoles. A música ao vivo era praticamente a única que se podia ouvir, visto que havia gramofones somente em algumas poucas casas e os aparelhos de rádio ainda não existiam. Um dos prazeres dos amantes da música que se mudavam de pequenas localidades para Leipzig ou Praga consistia em ouvir pela primeira vez na vida uma orquestra sinfônica ou uma banda de metais. Interessantíssimas também eram as estações de trem - como a St. Lazare, em Paris, a mais movimentada do mundo - e as ruas apinhadas de veículos de tração animal e bondes, com seus sinos barulhentos. A tudo isso se somavam os músicos a tocar nas calçadas em troca de moedas de bronze e prata recebidas dos passantes.

Un Bar aux Folies-Bergère, Édouard Manet



Os rostos que enchiam as ruas das grandes cidades eram um reflexo do trabalho diário. A maior parte dos habitantes voltava para casa com sinais da labuta espalhados pelas roupas e mãos - tinta de impressão, farinha do moinho, o mau cheiro do esterco dos estábulos, o odor de couro das fábricas de botas e a fuligem do carvão das fábricas e ferrovias. Nem sempre havia água para beber e para limpeza. [...] Os perfumes quase sempre compensavam a escassez da água [...[.

O número de escriturários e funcionários administrativos aumentava - um indício da época em que trabalhar com roupas limpas seria a regra. Grandes escritórios dependiam de invenções que aceleravam o fluxo das informações: o selo de preço irrisório; as coletas postais, que aconteciam três vezes ao dia nas grandes cidades; e as canetas de ponta de aço, que substituíram as penas de ganso. [...]

Os escritórios das cidades passaram a usar a máquina de escrever Remington, o telefone e a calculadora. [...] As máquinas de escrever tinham a vantagem de, com a ajuda de uma folha de papel-carbono colocada atrás do papel branco, produzir uma cópia nítida do que havia sido datilografado. Por volta de 1910, alguns trens expressos ofereciam uma sala com máquinas de escrever na qual estenógrafos podiam receber mensagens de homens de negócios e datilografá-las enquanto o trem avançava velozmente [...]. A datilografia era cada vez mais uma profissão para jovens mulheres, que tornaram os escritórios não apenas um local de trabalho, mas também de namoro.

BLAINEY, Geoffrey. Uma breve história do século XX. São Paulo: Fundamento Educacional, 2011. p. 25-27.

sábado, 15 de junho de 2013

Aurora do século XX: Os sinos das igrejas serão silenciados?

Ruínas da Mesquita do Califa Haken no Cairo, 
Prosper Marihat

Igrejas, mesquitas, templos, pagodes e sinagogas tinham importância vital para a vida cotidiana, ainda que ocasionalmente estivessem sob ataque. Praticamente a cada segundo, em algum lugar, queimavam-se incensos, acendiam-se velas ou tocavam-se sinos. Ao meio-dia ou antes do culto divino, o toque dos sinos era uma das melodias mais difundidas pela Europa - mais do que é hoje. Os ocidentais que chegavam ao Oriente achavam que os sinos dos templos, com seu toque lento e suave, criavam uma atmosfera diferente daquela que existia em suas terras. Um dos mais conhecidos poemas da época, Mandalay, em que Rudyard Kipling fala da cidade de mesmo nome, descreve o som do velho pagode birmanês: "Pois o vento sopra nas palmeiras, e os sinos do templo anunciam." Mesmo os mais austeros protestantes, que evitavam decididamente os sinos e as velas, seguiam rituais, inclusive o de agradecer a Deus antes de cada refeição.

Em praticamente todos os países ocidentais, os adultos se casavam e as crianças eram batizadas - recebendo quase sempre um nome cristão - em igrejas. Na época não se imaginava que as novelas viriam a competir com a Bíblia como fonte de inspiração para a escolha dos nomes dos bebês. Os enterros - a cremação era rara na Europa - quase sempre eram acompanhados pela leitura da Bíblia ou de um livro de orações. Os cemitérios possuíam áreas separadas para que as pessoas fossem enterradas conforme a religião. Na morte, os que comungavam da mesma crença ficavam lado a lado.

O budismo e o cristianismo, religiões mundiais com maior número de adeptos, continuavam a pregar que a vida na Terra era imperfeita. A maior parte das pessoas acreditava, profunda ou superficialmente, que a morte não era o fim da vida e que a vida após a morte poderia ser, para muitos, infinitamente mais gratificante. "A crença em alguma forma de imortalidade humana é quase universal", escreveu Alfred Garvie, estudioso britânico de religiões, encarregado de escrever o verbete imortalidade para uma importante enciclopédia. Naquela época, a crença no inferno e no paraíso - embora a primeira estivesse em declínio - era vista como um dos pilares da civilização ocidental.

No início do século, o cristianismo parecia mais ávido do que o Islã por espalhar a sua mensagem - este se encontrava politicamente enfraquecido e os cristãos ocupavam a maioria das regiões islâmicas. Os Países Baixos controlavam Java e Sumatra; a Grã-Bretanha dominava as áreas muçulmanas da Índia e o estados malaios; e os cristãos russos detinham o poder nas regiões islâmicas das planícies e montanhas da Ásia Central, com exceção do Afeganistão. No norte da África, as regiões islâmicas eram, em sua maioria, colônias da França, da Grã-Bretanha ou da Espanha. Os muçulmanos mais ardorosos sentiam-se um tanto humilhados por verem sua pátria dominada pelos cristãos, o domingo ser estabelecido como dia oficial de veneração e bebidas alcoólicas serem vendidas livremente. O Império Otomano, com base em Constantinopla, permanecia como o único defensor poderoso do Islã, dominando boa parte da Ásia Menor, a Península Arábica, um pedaço modesto do norte da África e os Balcãs. A Primeira Guerra Mundial despedaçaria esse império.

Milhares de congregações cristãs da América do Norte, da Europa, da Nova Zelândia e de outros lugares financiavam pelotões de missionários - mulheres e homens - que partiam para outras terras com o objetivo de instalar, sob um governo colonial, igrejas e, talvez, um hospital e uma escola. A conversão podia atingir uma ilha inteira ou toda uma região, mas nas populosas China e Índia os convertidos, ainda que numerosos, não passavam de uma pequena parcela. [...]

As religiões mais importantes tiveram de enfrentar inimigos poderosos. Um deles foi a ciência, quase uma religião rival, capaz de empreender os próprios milagres. Alguns teólogos, usando as então mais recentes habilidades linguísticas, arqueológicas e científicas, questionavam a correção literal da Bíblia, inclusive a criação do mundo no prazo de uma semana. Muitos cristãos mais instruídos sentiam a fé vacilar. Queriam continuar crendo, mas seu intelecto dizia não. [...]

Os papas deram pouca atenção às novas bandeiras que proclamavam as virtudes da ciência, do socialismo e do livre debate teológico, e a opinião desses líderes religiosos continuou a ter bastante peso em questões internacionais. Em tempos de paz, o papa Leão XIII era provavelmente a pessoa mais influente do mundo. Quando, porém, uma guerra envolvia grandes potências, qualquer peça poderosa de artilharia influía mais do que ele, pois os países católicos tinham deixado de ser dominantes. Três grandes potências econômicas - os Estados Unidos, a Grã-Bretanha e a Alemanha - abrigavam um número maior de protestantes do que de católicos.

BLAINEY, Geoffrey. Uma breve história do século XX. São Paulo: Fundamento Educacional, 2011. p. 18-21.


quarta-feira, 12 de junho de 2013

Cultura popular e vida cotidiana na Europa medieval

A quermesse de S. Jorge, Pieter Bruegel

O estudo da cultura popular e da vida cotidiana da Europa medieval enfrenta dois problemas. Primeiro, a imagem, criada sobretudo pela literatura e pelo cinema, de uma sociedade marcada por contrastes radicais, quase sem intermediários: heróis ou bandidos; nobres opulentos ou servos miseráveis; piedade religiosa ou heresias; homens dominantes ou mulheres submissas (ou ausentes); monges enclausurados em seus mosteiros ou cavaleiros errantes; Deus ou o diabo. Segundo, a existência de fontes, em particular escritas, quase exclusivamente produzidas pelas elites ou para elas, as quais expressam apenas um dos diversos grupos sociais.

Contudo, é possível montar quadros reveladores de alguns aspectos fundamentais da vida cotidiana e da cultura do povo.

A violência física, a flagelação do corpo, parece ter sido um dos traços marcantes e distintivos da vida na Europa medieval. Os castigos do corpo provinham basicamente de três fontes: as doenças, a fome e a guerra.

Havia, ainda, a violência contra o espírito, representada sobretudo pela vigilância e pela exigência do cumprimento dos preceitos religiosos. Mas, mesmo nesses casos, impunha-se o flagelo do corpo. Os penitentes, cheios de medo e sentimento de culpa, castigavam o corpo para aplacar ou punir os desejos da carne, a grande fonte dos pecados e, portanto, da condenação eterna. A tortura, praticada por todos os poderosos, era utilizada pelos inquisidores para forçar a confissão dos pecados e, por meio do padecimento, remir a alma dos pecadores.

A sociedade medieval tem sido definida como misógina, ou seja, que tem aversão às mulheres. A misoginia medieval foi, principalmente, decorrentes das concepções religiosas impostas pela Igreja católica, que criou dois tipos ideais de mulher: a virgem, casta e pura, segundo o modelo da mãe de Jesus; e a pecadora, segundo o modelo de Eva, que se deixou levar pela tentação do demônio, para a perdição dos homens.

Entre esses dois modelos, qual seria o lugar da mulher real, de carne e osso? Segundo o historiador Georges Duby:

“[...] O dever primeiro do chefe da casa era vigiar, corrigir, matar, se preciso, sua mulher, suas irmãs, suas filhas, as viúvas e as filhas órfãs de seus irmãos, de seus primos e de seus vassalos.

[...] O ideal [para as mulheres] era uma divisão equilibrada entre a oração e o trabalho [...] do tecido. No quarto, fiava-se, bordava-se, e quando os poetas do século XI fazem tentativas de dar a palavra às mulheres, compõem canções “de fiar”. [...] Contudo, as orações e essas obras, realizadas em equipe como o eram, [...] não livravam os homens, persuadidos da perversidade estrutural da natureza feminina, de uma inquietação obsedante, fantasmática: o que fazem as mulheres juntas, só entre elas, quando estão encerradas no quarto? Evidentemente, fazem o mal”.(Georges Duby (org.). História da vida privada. São Paulo: Companhia das Letras, 1990. p. 88 e 90. v. 2)

O casamento monogâmico, imposto pela Igreja católica por volta do ano 1000, era uma das maneiras de o homem impor sua dominação sobre a mulher. Transformando-a em dona de casa submissa, ele controlava o medo que o sexo feminino lhe inspirava.

A vida religiosa não livrava as mulheres da violência, nem contra o corpo nem contra o espírito. Nem de sofrer, nem de praticar a violência. Grande quantidade de documentos registra várias formas de violência sofrida e praticada pelas religiosas nos conventos, muitas delas ligadas a atividades sexuais.

Os prazeres, tanto quanto a morte, ocupavam o imaginário popular medieval.

A rua, onde se juntavam os corpos das vítimas da peste ou da guerra, era também o espaço das festas populares. Cantores e artistas apresentavam espetáculos nas ruas e praças. Principalmente por ocasião das feiras e das grandes celebrações, fossem elas promovidas pelos senhores poderosos ou, depois do século XII, pelos reis.

Em todo mundo católico, ocorria também a grande explosão do carnaval, que misturava antigas tradições pagãs com diferentes formas de compreender os preceitos cristãos. O carnaval, na Idade Média, tinha seu maior esplendor nas cidades italianas de Roma, Veneza, Florença e Turim.

A Igreja, mesmo tentando coibir os excessos, nunca se propôs a proibir o carnaval. Talvez por entender que uma sociedade tão reprimida precisava de uma válvula de escape...

NEVES, Joana. História Geral – A construção de um mundo globalizado. São Paulo: Saraiva, 2002. p. 201-203.

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

Crescente Fértil: as diversas civilizações da Mesopotâmia

Escribas utilizando a escrita cuneiforme

* Introdução. Aproximadamente na mesma época em que se iniciava a civilização egípcia, outras civilizações começaram a desenvolver-se em uma vasta área chamada Crescente Fértil. Estende-se em arco desde o sudeste do Mediterrâneo até o Golfo Pérsico incluindo, em parte ou totalmente, os atuais Líbano, Israel, Jordânia, Síria, Turquia e Iraque. As terras em que surgiram essas civilizações eram cercadas pelas montanhas da Armênia e do Irã e pelos desertos da Síria e da Arábia. Os gregos chamaram a essa região Mesopotâmia, isto é, terra "entre rios", pois aí correm, em um amplo vale e em percurso paralelo, o Tigre e o Eufrates.

* A importância do Tigre e do Eufrates. Como o Nilo, o Tigre e o Eufrates atravessam regiões áridas, ressequidas pelo sol abrasador do verão, onde a chuva raramente cai. No decorrer dos séculos o limo depositado pelos rios transformou essa região em uma rica planície.

O vale do Tigre e do Eufrates, ao contrário do vale do Nilo, não apresenta as mesmas condições ideais para a agricultura. As inundações dos rios não têm a regularidade das do Nilo: acontecem na primavera, com volume imprevisível de água, devidas ao degelo das neves nas montanhas da Armênia. E no inverno os ventos do sul trazem aguaceiros torrenciais que transformam a planície em imenso lodaçal. Apesar disso, no sul da região, os rios formaram com o passar do tempo diques naturais cobertos de sedimentos e de limo férteis, excelentes para a agricultura.

* As diversas civilizações da Mesopotâmia. A Mesopotâmia não era protegida e isolada pelo deserto como o Egito, mas uma passagem natural entre a Ásia e o Mediterrâneo, constantemente percorrida por caravanas de mercadores. Se no Egito as invasões foram raras e de curta duração, na Mesopotâmia foram frequentes e duradouras. Sua história é uma sucessão de guerras, invasões e dominações de povos nômades, semibárbaros; povos que, atraídos pela rica planície do Tigre e do Eufrates, aí se encontraram e se misturaram, formando um complexo cultural que denominamos civilização mesopotâmica.

Cerca de 3500 a.C. desenvolveu-se na Mesopotâmia, próximo ao Golfo Pérsico, uma brilhante civilização, a dos sumérios, povo provavelmente originário da Ásia central. Foram os sumérios que criaram as primeiras cidades-estado - como Uruk e Lagash - e transmitiram aos outros povos mesopotâmicos processos aperfeiçoados de irrigação, a arquitetura construída com tijolos, as bases da religião, da língua, da escrita, das leis, das artes e do comércio.

No decorrer do III milênio a.C., os acadianos, vindos do deserto da Síria, instalaram-se um pouco ao norte dos sumérios, na região de Acad, e fundaram Babilônia. A supremacia entre as cidades-estado pertenceu inicialmente aos sumérios, passou aos acadianos (segunda metade do III milênio a.C.) e voltou aos sumérios (fim do III milênio a.C.). No começo do II milênio a.C. os sumérios foram definitivamente conquistados pelos acadianos, também chamados babilônios.

Depois de séculos de lutas a Mesopotâmia foi unificada pelo rei da Babilônia, Hamurábi. Suas conquistas estenderam-se até a Assíria e atual Turquia, fundando um vasto império ao qual impôs a mesma administração e as mesmas leis. Para isso redigiu um Código de Leis, o primeiro da História. Babilônia, a capital do império, tornou-se a cidade mais próspera, mais rica da época. Terminou o Primeiro Império Babilônico com a morte de Hamurábi e com invasões sucessivas de povos vindos do norte e do leste.

No decorrer do II milênio a.C. esses invasores foram vencidos pelos assírios, que aos poucos foram conquistando as regiões vizinhas da Babilônia (729 a.C.). O império assírio atingiu sua maior extensão nos séculos VIII e VII a.C., quando grandes reis como Senaquerib e Assurbanípal conquistaram a Assíria, a Fenícia, a Palestina e o Egito.

Sala de um palácio assírio na corte de Nínive, Austen Henry Layard

Povo guerreiro e violento, os assírios eram detestados pela maneira cruel com que governavam. Pouco depois da morte de Assurbanípal, os caldeus e os medos lideraram a revolta dos babilônios contra os assírios. Conquistaram, saquearam e destruíram Nínive, capital do império assírio (612 a.C.).

Seguiu-se o Segundo Império Babilônico, e o seu rei, Nabucodonosor, restabeleceu Babilônia como capital. Mas também o segundo império babilônico foi destruído, alguns anos mais tarde, conquistado por Ciro, rei dos persas (539 a.C.).

Nabucodonosor e Sémiramis, René-Antoine Houasse 
[Nabucodonosor ordenando a construção dos jardins suspensos da Babilônia para agradar sua consorte Amyitis]

* Organização política, econômica e social dos mesopotâmios

Organização política. As cidades-estado pertenciam a um deus, representado pelo rei. Os reis mesopotâmicos não eram considerados seres divinos como os faraós, mas apenas os intermediários entre os súditos e os deuses. A autoridade do rei estendia-se a todas as cidades-estado; assistido por sacerdotes, funcionários, ministros, legislava em nome das divindades, assegurava as práticas religiosas, zelava pela defesa de seus domínios, protegia e regulamentava a economia.

Economia. As principais atividades econômicas dos mesopotâmios foram a agricultura e o comércio. Desenvolveram também a tecelagem e fabricavam maravilhosas armas, jóias, objetos artísticos em metal. Nos campos cultivavam cereais, algodão e árvores frutíferas. Instituíram leis de estímulo à agricultura, obrigando os proprietários a cultivarem suas terras e a cuidarem dos diques e canais. Para as transações comerciais, usavam como dinheiro barras de ouro e de prata com valor fixo; criaram certas técnicas como faturas, recibos, cartas de crédito, contratos escritos, empréstimos com juros e associações de comerciantes.

Agrupados em caravanas, os comerciantes levavam seus produtos e sua manufatura a todos os países vizinhos e às regiões mais distantes, como a Índia e o Egito. Dessas terras traziam as matérias-primas escassas na Mesopotâmia, como o marfim da Índia, o cobre de Chipre e a madeira do Líbano.

Sociedade.   A sociedade na Mesopotâmia era de estrutura menos rígida do que no Egito. Excetuando os sacerdotes e os altos funcionários que cercavam o rei, a população repartia-se entre homens livres e escravos, aos quais se possibilitava o resgate da liberdade. À classe de homens livres pertenciam os artesãos, os guerreiros, os agricultores e os comerciantes, com amplas possibilidades de melhorarem na vida e mesmo enriquecerem pelo empenho e pelo esforço próprios.

* Religião e cultura na Mesopotâmia

Religião. Como no Egito, também na Mesopotâmia a religião desempenhou um papel muito importante. Politeísta e inicialmente antropomórfica, era uma religião triste e pessimista, que não oferecia compensações após a morte, acreditando-se que os deuses eram capazes de promover tanto o bem quanto o mal.

Os mesopotâmios adoravam divindades que - segundo sua crença - comandavam as forças da natureza (sol, lua, chuva, vento, raio), os elementos (água, ar, terra, fogo), os astros. Emprestavam a esses deuses aparência e sentimentos humanos, só se diferenciando dos homens por serem mais fortes, todo-poderosos e imortais. Cada deus era senhor de uma cidade e, como no Egito, quando a cidade alcançava predomínio político sobre as outras, seu deus também se tornava mais influente. No tempo de Hamurábi, o deus Marduc de Babilônia foi adorado por todo o império.

A divindade feminina mais importante foi Ishtar, deusa da natureza e da fecundidade; Shamash era o deus do sol e da justiça; Enlil, do ar, da chuva e do vento; Sin, o deus da lua; Enki, da terra.

Na época em que dominaram os babilônios, ao lado dos deuses havia também demônios temidos por todos, porque torturavam continuamente os homens. Isso originou a crença na feitiçaria: para fugir à intervenção dos demônios os babilônios recorriam ao uso de amuletos, isto é, de objetos com poderes mágicos que os salvassem das influências desses seres.

Com os caldeus a religião assumiu uma forma astral, isto é, os deuses fora identificados com certos planetas; assim, Marduc com Júpiter e Ishtar com Vênus.

Ao contrário da religião egípcia, a religião mesopotâmica não oferecia nenhuma promessa de sobrevivência da alma depois da morte. Por isso não havia grande preocupação com os mortos, geralmente enterrados no chão de suas casas.

Os templos eram algo parecido com torres, quase sempre de sete andares ou plataformas, cada andar menor do que o precedente; dava-se a essa construção o nome de zigurat.

Ciência. Com a constante observação do céu, na esperança de aí descobrir a vontade dos deuses, ou poder prever o destino dos homens segundo a posição dos astros, desenvolvendo assim a astrologia, adquiriram bons conhecimentos de astronomia. Aprenderam a distinguir os planetas das estrelas e a prever eclipses.

Aprenderam também, baseados nesses estudos, a plantar de acordo com as fases da lua. Dividiram o ano em doze meses lunares, os meses em semanas, a semana em sete dias (cada um consagrado a um astro), o dia em vinte e quatro horas, a hora em sessenta minutos e o minuto em sessenta segundos.

Os complicados cálculos de astronomia só foram possíveis graças aos conhecimentos avançados de matemática. Os mesopotâmios haviam descoberto os processos da multiplicação e da divisão, a extração das raízes quadrada e cúbica, tendo sido também os inventores da álgebra. Sua numeração e o sistema de pesos e medidas baseava-se no número 60, e não no 10 por nós usado. A divisão do tempo (minutos e segundos) e a do círculo (em 360 graus) é uma herança da Mesopotâmia.

Em medicina acreditou-se inicialmente que a doença era provocada pela entrada de um demônio no corpo humano. Para expulsá-lo davam-se ao doente bebidas feitas de certas ervas. Pouco a pouco perceberam que algumas bebidas eram mais eficazes do que outras. Diferenciando, selecionando, estudando as ervas, os mesopotâmios chegaram também a distinguir as diversas doenças e a aprender a tratá-las com plantas medicinais adequadas.

Leis. Os sumérios foram os primeiros a criar um sistema de leis (por volta do III milênio a.C.), que serviu de base ao Código de Hamurábi e aos sistemas de leis dos assírios, caldeus e hebreus. Tudo que dissesse respeito às relações dos homens entre si estava nas leis mesopotâmicas, como o trabalho nos campos, o comércio, a organização da família.

Escrita, literatura e arte. Na Mesopotâmia desenvolveu-se um tipo de escrita, a cuneiforme, com sinais em forma de cunha gravados em tabuletas de argila.

Na literatura, a criação mais notável foi a Epopéia de Gilgamesh, herói lendário à procura da planta da imortalidade. Outra obra importante foi o poema Jó Babilônico, que conta os sofrimentos de um homem justo perseguido pelos deuses.

Da arquitetura mesopotâmica quase nada nos restou. A maioria das cidades agrupava-se ao sul da Mesopotâmia, região em que era rara a pedra de construção. Por isso, os monumentos eram geralmente construídos com tijolos secados ao sol, por falta de madeira para cozê-los nos fornos. A ação do tempo encarregou-se de transformar e reduzir essas construções de argila em montes de terra, chamados tells. Foi só com os assírios que se começou a usar a pedra.

Os templos e os palácios eram decorados, às vezes, com afrescos, outras com esculturas em baixo-relevo, representando cenas do cotidiano ou cenas de caça e guerra; com estátuas ornamentais que retratavam reis e altos personagens. Os extensos muros dos palácios e templos eram decorados exteriormente com tijolos esmaltados em cores vivas, representando em geral uma sucessão de animais.


Caça ao leão. Relevo assírio.

A arte mesopotâmica foi muito importante, sobretudo por certas criações que nos transmitiu: a cúpula, a abóboda, o arco, os trabalhos em cerâmica, marfim e metais preciosos. E, num sentido mais amplo, a civilização mesopotâmica exerceu influência marcante sobre outros povos posteriores, legando-lhes rudimentos de astronomia, um calendário e uma já bem avançada matemática. HOLLANDA, Sérgio Buarque de (org.) História da Civilização. São Paulo: Nacional, 1980. p. 21-27.

Músico tocando lira. Estandarte de Ur

* A vida cotidiana na Mesopotâmia. Escravos e pessoas de condições mais humildes levavam o mesmo tipo de vida. A alimentação era muito simples: pão de cevada, um punhado de tâmaras e um pouco de cerveja leve. Isso era a base do cardápio diário. Às vezes comiam legumes, lentilha, feijão e pepino ou, ainda, algum peixe pescado nos rios ou nos canais. A carne era um alimento raro.

Na habitação, a mesma simplicidade. Às vezes a casa era um simples cubo de tijolos crus, revestidos de barro. O telhado era plano e feito de troncos de palmeiras e argila comprimida. Esse tipo de telhado tinha a desvantagem de deixar passar a água nas chuvas mais torrenciais, mas em tempos normais era usado como terraço.

As casas não tinham janelas e à noite eram iluminadas por lampiões de óleo de gergelim. Os insetos eram abundantes nas moradias.

Os ricos se alimentavam melhor e moravam em casas mais confortáveis que os pobres. Mesmo assim, quando as epidemias se abatiam sobre as cidades, a mortalidade era a mesma em todos os grupos sociais. PILETTI, Nelson e PILETTI, Claudino. História e vida integrada. São Paulo: Ática, 2007. p.57.