"Os espelhos estão cheios de gente.
Os invisíveis nos vêem.
Os esquecidos se lembram de nós.
Quando nos vemos, os vemos.
Quando nos vamos, se vão?"
Eduardo Galeano: Espelhos
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sábado, 27 de maio de 2017

Diagnóstico da Civilização

As idades do homem e a morte, Hans Baldung

Em algum lugar de alguma selva, alguém comentou:

Como os civilizados são esquisitos. Todos têm relógio e ninguém tem tempo.

GALEANO, Eduardo. O caçador de histórias. Porto Alegre: L&PM, 2016. p. 115.

sábado, 27 de junho de 2015

A palavra "século", uma conquista em matéria de temporalidade histórica

Horário de verão, Rupert Bunny

"A palavra latina saeculum era aplicada pelos Romanos a períodos de duração variável, ligada muitas vezes à ideia de uma geração humana. Os cristãos, embora conservassem a palavra na sua antiga acepção, conferiram-lhe também o sentido derivado de vida humana, vida terrena, em oposição ao além. Mas, no século XVI, certos historiadores e eruditos tiveram a ideia de dividir os tempos em porções de cem anos. A unidade era bastante longa, a cifra 100 simples, a palavra conservava o prestígio do termo latino, e no entanto levou algum tempo a impor-se. O primeiro século em que verdadeiramente se aplicaram o conceito e a palavra foi o século XVIII: a partir daí, esta cômoda noção abstrata ia impor a sua tirania à história."

LE GOFF, Jacques. "Calendário". In: Enciclopédia Einaudi. Lisboa: Imprensa Nacional/Casa da Moeda, 1984, v. 1: Memória/História, p. 286.

terça-feira, 9 de junho de 2015

Lugar da história na sociedade africana

Homem mucubai, Angola

O ser humano é um animal histórico. Os africanos não fogem a essa definição. A consciência histórica que os africanos possuem de sua própria história e da história em geral está marcada por seu singular desenvolvimento. O tempo africano é, às vezes, mítico e social, mas os africanos também têm consciência de serem os agentes de sua própria história. O tempo africano é um tempo realmente histórico. Por um lado, o mito, em geral, domina o pensamento dos africanos na sua concepção do desenrolar da vida dos povos. Sob a forma de “costumes” vindos de tempos imemoriais, o mito governava a História, encarregando-se, também, de justificá-la. Nesse contexto, aparecem duas características do pensamento histórico: sua intemporalidade e sua dimensão essencialmente social. O tempo é o ritmo respiratório da coletividade que engloba e integra a eternidade em todos os sentidos. As gerações passadas não estão perdidas para o tempo presente. À sua maneira, elas permanecem sempre contemporâneas e tão influentes quanto o eram durante a época em que viviam. Assim sendo, a causalidade atua em todas as direções: o passado sobre o presente e o presente sobre o futuro, não apenas pela interpretação dos fatos e o peso dos acontecimentos passados, mas por uma irrupção direta que pode se exercer em todos os sentidos. Nesse tempo “suspenso”, a ação do presente é possível mesmo sobre o que é considerado passado, mas que permanece, de fato, contemporâneo.

Esse enfoque mítico está na origem da história de todos os povos. Toda história é originalmente uma história sagrada. Do mesmo modo, esse enfoque acompanha o desenvolvimento histórico, reaparecendo de tempos em tempos sob formas maravilhosas ou monstruosas.

Pode-se pensar que essa visão do processo histórico seria estática e estéril, já que, ao colocar a perfeição do arquétipo na origem dos tempos, parece indicar como ideal para o conjunto das gerações a repetição estereotipada dos gestos do ancestral. Porém, não podemos nos ater unicamente a esse enfoque do pensamento histórico entre os africanos.

No período pré-colonial, numerosas sociedades africanas elementares, quase fechadas, dão a impressão de que seus membros só tinham consciência de estar fazendo história numa escala e numa medida bastante limitadas. Em compensação, nas sociedades fortemente estruturadas, a concepção africana de chefe dá a este último um espaço exorbitante na história dos povos dos quais ele literalmente encarna o projeto coletivo. Assim, não é de se admirar que a tradição relembre toda a história original dos Malinke no “Elogio a Sundiata”. O mesmo acontece com Sonni Ali entre os Songhai da curva do Níger. Isso não significa um condicionamento “ideológico” que destrói o espírito crítico. Por outro lado, a história mais recente da África pré-colonial demonstra que a posição dedicada aos líderes africanos nas representações mentais das pessoas provavelmente não é superestimada. A ideia de um líder que atua como motor da história quase nunca se reduz a um esquema simplista, creditando a um só homem todo o desenvolvimento humano. Geralmente trata-se de um grupo dinâmico, celebrado como tal, onde os companheiros dos chefes frequentemente entram para a história como heróis.

A mesma observação vale para as mulheres, que ocupam na consciência histórica africana uma posição sem dúvida mais importante que em qualquer outro lugar. Nas sociedades de regime matrilinear isto é facilmente compreensível. As mulheres são vistas como protagonistas na evolução histórica dos povos. Filhas, irmãs, esposas e mães de reis ocupavam posições que lhes permitiam influir nos acontecimentos. Essa ideia permanece viva até hoje na África. Pela sua participação no trabalho da terra, no artesanato e no comércio, pela sua ascendência sobre os filhos, por sua vitalidade cultural, as mulheres africanas sempre foram consideradas personagens eminentes da história dos povos. A mulher é a vida e a promessa de expansão da vida. É através dela que os diferentes clãs consagram suas alianças.

Por outro lado, tudo se passa como se na África a frágil envergadura das sociedades tivesse tornado a história uma questão que diz respeito a todos. Este sentimento de fazer a história mesmo na escala microcósmica da aldeia, assim como a sensação de ser somente uma molécula na corrente histórica criada pelo rei, visto como demiurgo, são muito importantes porque constituem em si mesmos fatos históricos e contribuem para criar a história.

O próprio caráter social da concepção africana da história lhe dá uma dimensão histórica incontestável, porque a história é a vida crescente do grupo. Desse ponto de vista, para o africano o tempo é dinâmico. Nem na concepção tradicional, nem na visão islâmica que influenciará a África, o homem é prisioneiro de um processo estático ou de um retorno cíclico. O tempo permanece um elemento vívido e social, porém, não se trata de um elemento neutro e indiferente, já que é o lugar onde o homem pode lutar pelo desenvolvimento de sua energia vital. Tal é a dimensão principal do “animismo” africano em que o tempo é o campo fechado no qual se confrontam ou negociam as forças que habitam o mundo. Existe assim no africano uma vontade constante de invocar o passado que não significa o imobilismo e não contradiz a lei geral da cumulação das forças e do progresso.

O poder na África negra se expressa em geral por uma palavra que significa “a força”. Essa sinonímia assinala a importância que os povos africanos outorgam à força e mesmo à violência no desenrolar da história. Trata-se da energia vital que reúne uma polivalência de forças, que vão da integridade física à sorte e à integridade moral. O valor ético é considerado como uma condição sine qua non do exercício benéfico do poder. Esta visão do mundo em que os valores e exigências éticas são parte integrante da própria organização do mundo pode parecer mítica, mas ela exercia uma influência objetiva sobre o comportamento dos homens. Nesse sentido, se a história é justificação do passado, ela é também exortação do futuro.

A consciência do tempo passado era muito viva entre os africanos. No entanto, esse tempo, que tem um grande peso sobre o presente, não anula o seu dinamismo. A concepção do tempo tal como a detectamos nas sociedades africanas é a marca de um estágio no desenvolvimento econômico e social. O essencial é que a ideia de desenvolvimento a partir das origens esteja presente. Mesmo sob a forma de contos e de lendas, trata-se de um esforço para racionalizar o desenvolvimento social. Às vezes, têm-se verificado esforços ainda mais positivos no sentido de iniciar o cálculo do tempo histórico relacionado com o espaço ou a vida biológica e, mais frequentemente, relacionado aos fenômenos cósmicos, climáticos e sociais. Mas o passo decisivo nesse campo só será dado pela utilização da escrita, que ao menos permitiu estabelecer pontos de referência que organizam o curso do fluxo histórico. A introdução das religiões monoteístas baseadas num determinado processo histórico contribuiu para fornecer uma outra representação do passado coletivo.

Mas a grande reviravolta na concepção africana do tempo se opera sobretudo pela entrada desse continente no universo do lucro e da acumulação monetária. Só agora o sentido do tempo individual e coletivo se transforma pela assimilação dos esquemas mentais em vigor nos países que influenciam os africanos econômica e culturalmente. Descobrem então que, em geral, é o dinheiro que faz a história. O homem africano, tão próximo de sua história que tinha a impressão de forjá-la ele próprio em suas microssociedades, enfrenta agora, ao mesmo tempo, o risco de uma gigantesca alienação e a oportunidade de ser coautor do progresso global.


SILVÉRIO, Valter Roberto. Síntese da coleção História Geral da África: Pré-história ao século XVI. Brasília: UNESCO, MEC, UFSCar, 2013. p. 29-32.

quarta-feira, 8 de agosto de 2012

Características da estrutura mental antiga

"Roma legou ao Ocidente sua estrutura política, administrativa e jurídica. Ela define as fronteiras, a articulação geográfica, a rede de comunicações, mas não trouxe nada de novo para a ordem intelectual e espiritual. A cultura grega, nascida da cidade, elevou-se com o Estoicismo e o Epicurismo, até o grau do Império. Os romanos não aumentaram esse tesouro, que assimilaram pelo direito de conquista. Na realidade eles foram bárbaros que galgaram uma posição. Mais dotados do que os que vieram depois, trouxeram a autoridade que dá a paz, a técnica que assegura a posteridade. Mas a grande organização romana conserva, quanto ao essencial, uma alma helênica." (GUSDORF, G. Introduction aux Sciences Humaines. Paris: Belles Lettres, 1960. p. 43.)


A Escola de Atenas (detalhe), Rafael. Ao centro, os filósofos Platão e Aristóteles

[...]

Na Antiguidade Clássica, a concepção que se tinha da relação entre o ser que compreende e os seres compreendidos se caracterizava por certa ausência de consciência que o sujeito possui nesta relação.

Vejamos o que isto quer dizer: de certa forma o Homem se sentia subordinado à Natureza. Para ele, a Natureza era uma presença e o sábio era, na verdade, apenas o guardião do que fosse revelado a ele pela Natureza. O sábio era, segundo os gregos, o guardião da alethéia, isto é, guardião da revelação da verdade.

Ora, devido a esses dois traços da relação sujeito-objeto da Antiguidade, qual seria a forma de fixar os conceitos?

Se a Natureza se revelava ao sujeito, o trabalho deste era apenas o de constatar o real e, portanto, os conceitos eram fixados de forma categorial, inquestionáveis. Eram como verdades absolutas, frutos de uma revelação, e, por isso, não competia ao sábio nem a ninguém questioná-las, mas apenas aprendê-las e transmiti-las.

[...] Esta forma de abordar a realidade fez com que durante muito tempo os estudiosos da cultura clássica teimassem em afirmar que na Antiguidade não houve experimentação - ou seja, segundo alguns, os gregos não se teriam preocupado em experimentar a exatidão das suas ideias, dos seus conceitos.

[...]

[...] A experimentação também existiu na Antiguidade, apenas de forma diferente, ou melhor, uma experimentação que estava de acordo com a forma de conceber a realidade e a relação sujeito-objeto e com a forma de fixar os conceitos. Entre os gregos, a experimentação tinha caráter probatório, ou seja, eles se voltavam para a Natureza apenas para ver mais uma vez o que já havia sido revelado, para comprovar o que já sabiam, para constatar uma presença, ou seja, para constatar o real, aquilo que se apresentava.

[...]

Hoje não nos é difícil compreender... Se tantos estudiosos cometeram esse erro é sinal de que estudaram a Antiguidade imbuídos da concepção moderna de Ciência. Ou seja, para esses estudiosos, experimentação era sinônimo de verificação e, por isso, não a encontraram na Antiguidade. Para eles a experimentação só podia ter o caráter de verificação.

Ora, certamente, você está raciocinando: para que esse tipo de experimentação existisse era necessário que a relação sujeito-objeto fosse outra, e, ainda, que a concepção que se tinha do real também fosse outra. Exatamente!


Na modernidade, a experimentação verificadora era  a consequência lógica de uma nova relação sujeito-objeto: o Homem afirmou-se como o sujeito por excelência, como o elemento que avança em direção a alguma coisa e que se assegura dela - o Homem é o elemento que elabora o real, intervém no real e se assegura do real como um objeto. Em outras palavras, na modernidade, o Homem toma o lugar do sujeito, e isto é reconhecido conscientemente. Logo, o real passou a ser aquilo que se apresenta, aquilo que o sujeito procura conhecer e representar, e a todo instante deve verificar se os conceitos que emite sobre o real estão corretos, ou seja, se são a representação correta da realidade. Assim, a experimentação verificadora corresponde a uma fixação hipotética dos conceitos por um sujeito que se assumiu como tal.

[...] quando falamos em modernidade estamos nos referindo à Idade Moderna, período em que a estrutura mental do Mundo Ocidental passou por uma viragem importantíssima - o antropocentrismo pregado pelos humanistas (como reação ao teocentrismo medieval) foi integralmente assumido, e para isso muito contribuiu o Renascimento. Esse movimento intelectual, que buscou inspiração nas obras da Antiguidade Clássica, favoreceu o desenvolvimento da Ciência moderna, a qual, retomando os caminhos seguidos por Sócrates, Platão e Aristóteles, passou a supervalorizar a Razão.


[...]


No período medieval, durante o qual o Escravismo deu lugar ao Feudalismo, a Igreja Católica Apostólica Romana assumiu enorme poder econômico e político, o que lhe garantiu a predominância ideológica: a Igreja, para se estruturar ideologicamente, fundamentou-se no classicismo greco-romano e realizou a síntese teológica medieval, conciliando a fé cristã com a Lógica aristotélica. Os humanistas, no início da Época Moderna, como reação ao teocentrismo medieval - Deus como centro de todas as coisas - retomaram o estudo das obras greco-romanas, situando-as, porém, em uma perspectiva antropocêntrica - o Homem como centro de todas as coisas. [...]


A perspectiva antropocêntrica significaria retomar a forma de abordagem da realidade apresentada pelos Sofistas? O Homem é a medida de todas as coisas..., disse Protágoras. Essa perspectiva foi assumida, porém, enquadrada na linha do pensamento de Sócrates: valorizar o lado espiritual do Homem, valorizar o mundo das Ideias, valorizar no Homem, não a sua capacidade sensível de perceber a realidade mutável, mas a sua capacidade intelectual, capacidade de raciocinar sobre a realidade.


O processo se deu da seguinte forma: se o Homem é o centro de todas as coisas, e não mais Deus, precisa-se valorizar aquilo que faz o Homem, ou seja, aquilo que o distingue dos outros animais e que o assemelha a Deus. O que deve, então, ser valorizado? Isso mesmo, a Inteligência, a Razão.


O século XVII foi, então, a época do Racionalismo, escola filosófica fundada por Descartes que ainda hoje influencia, de maneira decisiva, nossa apreensão da realidade. Segundo Descartes, o Homem deve depurar-se de todas as sensações, atributos que são resquícios animalescos, para chegar à perfeição: só a Razão pura assegura o conhecimento da realidade.

[...]


A própria ideia de "milagre grego", ainda que falsa, contribuiu para o desprezo de toda a produção intelectual daqueles gregos que viveram em épocas remotas e a expressaram na Mitologia. Os mitos agrários constituem exemplos da produção intelectual de homens cuja vinculação com a terra e com o duro trabalho diário era intensa: descrevem, através de alegorias, todo o processo de fecundação e nascimento das sementes.


Assim, se queremos realmente crescer em termos humanos, tanto individual quanto socialmente, não podemos desprezar a experiência sensorial do Homem, a pretexto de ela ter sido a base da apreensão mítica da realidade. Em nossa cultura, as sensações são relegadas a segundo plano e somente o racional tem absoluta prioridade cultural: "O conhecer reduziu-se a um saber, e o saber, a um teorizar. A compreensão sensível das coisas integrando experiência e inteligência, parece ter sido abolida [...] Não seria por acaso que, hoje em dia, as palavras poético, lírico, possam surgir até como conotações pejorativas, como visões desligadas da realidade do viver." (F. Ostrower)


[...]


Ora, é natural que nos interessemos mais por compreender a nossa cultura, pois temos problemas sem soluções há séculos, mas é inadmissível que a coloquemos como superior a todas as outras. Ou, ainda, que desprezemos o conhecimento dos mitos por serem frutos de uma apreensão sensorial-afetiva do mundo, como forma de expressão humana que, longe de ter sido superada, ainda convive conosco e até norteia nossos atos... Na verdade, a apreensão mítica não foi superada, mas sufocada e, por isso, coexiste em nós, representando, é claro, uma de nossas inúmeras contradições.


Se você procurar conhecer o mito da origem dos deuses e dos homens na cultura grega, poderá perceber que eles eram concebidos como semelhantes na sua essência. Pense um pouco... Não teria o humanismo do pensamento grego - "O Homem como medida de todas as coisas" - também uma origem mítica?


[...]


AQUINO, Rubim Santos Leão de et alli. História das sociedades: das comunidades primitivas às sociedades medievais. Rio de Janeiro: Imperial Novo Milênio, 2008. p. 384-390.

quinta-feira, 1 de março de 2012

A História e o tempo

[...] o grande avanço alcançado hoje pela Humanidade resultou das descobertas e criações que o Homem acumulou no decorrer da sua existência, transmitindo às gerações seguintes conhecimentos e experiências e permitindo que a Humanidade chegasse ao grau de desenvolvimento que tem hoje.

Outra questão importante [...] é a forma como as sociedades estão hoje organizadas, seja no campo social e econômico, seja no campo político. Por que existem pessoas ricas e outras pobres? Por que algumas residem em mansões ou palácios e outras, em casebres ou barracos? Por que alguns só se divertem, enquanto a maioria só trabalha? Se lembrarmos que todos os homens - no início da História da Humanidade - eram iguais, o que explicaria essas enormes diferenças hoje? Em que momento e por que isso aconteceu?

A História é a Ciência que responde a essas questões. Ao reconstituir o passado da Humanidade - como surgiu o Homem, quais as suas descobertas e invenções, como conseguiu dominar a Natureza, como se relacionou e continua a relacionar-se com os outros homens -, a História nos permite analisar o desenvolvimento das sociedades humanas, através dos tempos, e sua projeção para o futuro.

A História não deve ser vista como uma simples sequência de fatos ou de atos de governantes, como Reis, Imperadores, Presidentes da República ou Generais; ela é feita por todos nós, homens comuns, vivendo em sociedade, cujos objetivos fundamentais são a produção e a satisfação pessoal.

Como a História consegue reconstituir o passado da Humanidade?

Como podemos saber da existência de sociedades que já desapareceram há tanto tempo?

Vamos supor que você queira conhecer o passado da sua família até a geração de seus avós ou bisavós. O que você faria para conseguir este conhecimento? Provavelmente, em primeiro lugar, entrevistaria as pessoas mais velhas para estabelecer uma sequência, no tempo, de todos os parentes até você; chamamos a isto árvore genealógica. Depois, seria necessário recorrer a velhos álbuns de fotografias, papéis de família, como certidões de nascimento, de casamento e de óbito, testamentos, contratos de venda... Como você pôde observar, seriam usados documentos escritos e orais.

O historiador procede de forma semelhante. Para reconstituir a História de uma sociedade, recorre a todo tipo de documentação, sinais, vestígios que consegue encontrar: documentos públicos, cartas particulares, monumentos, inscrições, pinturas, esculturas, templos, casas, utensílios domésticos, armas, túmulos, enfim, tudo aquilo que o Homem, em qualquer tempo e em qualquer lugar, usou, produziu ou, até mesmo, destruiu.

Para a História recente, o trabalho é aparentemente mais fácil, pois existem fotos, discos, filmes, livros, fitas de vídeo e uma infinidade de vestígios. Entretanto, se considerarmos a quantidade de habitantes do mundo, o número de países, a diversidade de culturas, as diferentes formas de organização das sociedades, veremos que o trabalho do historiador é imenso e bastante complexo.

Para facilitar o estudo da História das Sociedades, costumamos estabelecer uma sequência de acontecimentos no tempo - a Cronologia ou Datação.

Nas sociedades ocidentais cristãs, a data de nascimento de Jesus Cristo foi estabelecida como marco. Uma vez estabelecido o momento zero, os fatos históricos são datados em relação a ele, distinguindo-se o que se passou antes e o que ocorreu depois. Nos fatos anteriores, contamos no sentido inverso, indicando sempre a.C., ou seja, antes de Cristo. Os fatos posteriores são contados em ordem crescente, sem qualquer indicação [...].

Há sociedades que adotam uma cronologia diferente. Os muçulmanos usam como marco de seu calendário a Hégira, ou seja, a fuga de Maomé, seu maior profeta, da cidade santa de Meca, ocorrida, segundo o calendário cristão, em 16 de julho de 622. A sociedade judaica tem como marco inicial a criação do mundo [...].

Em História, usamos mais frequentemente três unidades de tempo: o ano, o século (cem anos) e o milênio (mil anos). Os anos são assinalados em algarismos arábicos e os séculos em algarismos romanos. Por exemplo: ano de 1995, século XX. Para identificar a que século pertence certo ano, basta aplicar uma regra prática: somar o número 1 à centena do ano. Vejamos a seguir:

Ano de 1995

19 + 1 = 20 [século XX]

Nos anos terminados em 00, o século corresponde à centena:

Ano de 1900

[século XIX]

A explicação para a regra é simples: do ano 1 ao 100, tivemos o século I, do ano 101 a 200, o século II, e assim por diante.

Para facilitar o estudo das sociedades, é comum dividir a História em grandes períodos, estabelecendo-se a escrita como marco. Assim, seriam consideradas pré-históricas todas as sociedades sem escrita. A História, por sua vez, seria dividida em quatro grandes etapas: a Antiguidade, que iria do aparecimento da escrita ao fim do Império Romano do ocidente (século V); a Idade Média, até o fim do Império Bizantino (1453); a Idade Moderna, até a Revolução Francesa (século XVIII), e a Idade Contemporânea, até os dias atuais.

Esta divisão, muito tradicional, merece críticas, já que considera pré-históricas sociedades de desenvolvimento e organização bastante diferentes, como as comunidades primitivas, que viveram no início da existência do Homem na Terra, e a sociedade inca, muito desenvolvida e de organização bastante complexa, mas que não usava a escrita.

Outra crítica é o fato de cada período ter como marco acontecimentos de importância apenas para as sociedades europeias e não para o conjunto da Humanidade, além de não levar em conta aspectos fundamentais, como a organização dessas sociedades para a produção.

[...]

[...] afirma a professora Vavy Pacheco Borges, em seu estudo O que é História:

"A função da História, desde o seu início, foi a de fornecer à sociedade uma explicação de suas origens. [...] A História se coloca, hoje em dia, cada vez mais próxima às outras áreas do conhecimento que estudam o Homem [...], procurando explicar a dimensão que o Homem teve e tem em sociedade. [...] A História procura, especificamente, ver as transformações pelas quais passaram as sociedades humanas. A transformação é a essência da História [...]. 

Musa lendo pergaminho (provavelmente Clio, a musa da História). Artista desconhecido. Beócia, c. 435-425 a.C.

[...] O tempo histórico, através do qual se analisam os acontecimentos, não corresponde ao tempo cronológico que vivemos e que é definido pelos relógios e calendários. No tempo histórico, podemos perceber mudanças que parecem rápidas, como, por exemplo, os acontecimentos cotidianos: um golpe de Estado que toma o poder e que seguimos nos jornais. Vemos também transformações lentas, como no campo dos valores morais: o machismo, por exemplo, é um valor que impera na maior parte das sociedades que a História estuda, a ponto de se dizer que a História que está escrita mostra um processo praticamente só conduzido pelos homens. No Ocidente [...] surge um questionamento mais constante deste valor milenar. Isto se dá, em grande parte, devido a uma participação maior da mulher no processo de produção: à medida que as mulheres saem da esfera exclusiva do lar e começam a refletir na realidade."

AQUINO, Rubim Santos Leão de et all. Fazendo a História: da Pré-história ao Mundo Feudal. Rio de Janeiro: Ao Livro Técnico, 1989. p. 10-13.

terça-feira, 1 de novembro de 2011

Tempo histórico, tradição e mentalidade

"A persistência da memória", Salvador Dali

"O que é, então o tempo? Enquanto não me perguntam, eu sei; se me perguntam e quero explicar, não sei".
(Santo Agostinho, século V)

Os primeiros povos marcavam o tempo seguindo os ciclos naturais como a alternância entre o dia e a noite, as diferentes fases da lua, o movimento das águas (rios e mares), a posição dos astros e das estrelas no céu e a posição do sol. A observação contínua fez com que eles começassem a marcar as horas, os dias e as melhores épocas para a semeadura, a colheita e para as orações etc. Apesar das diferenças entre os diversos calendários do ocidente e do oriente, a maior parte dos povos considerou os ciclos dos astros para determinar e medir o tempo.

Ao longo da história, o ser humano encontrou diferentes maneiras de registrar e medir o tempo, dando origem aos calendários. Os calendários são convenções, ou seja, as sociedades em diferentes épocas utilizaram critérios próprios para marcar o tempo, o dia, o mês e o ano.

[...]

Os cristãos datam a história da humanidade de acordo com o nascimento de Cristo, ou seja, o ano de 2011 representa o número de anos que se passaram desde o nascimento de Jesus. No mundo ocidental, quando se estuda algum fato histórico, é comum utilizar as siglas a.C. e d.C., que significam respectivamente antes de Cristo e depois de Cristo.

Os árabes datam a história do seu povo a partir da Hégira, o marco da fuga do profeta Maomé, criador do islamismo, da cidade árabe de Meca para Medina [...], no ano de 622 d.C.

Já os judeus datam a história a partir da Criação descrita na Bíblia, que teria ocorrido numa data equivalente a 7 de outubro de 3760 a.C., ao pôr-do-sol. É por isso que, no calendário judaico, os dias começam ao anoitecer. [...]

[...]

A datação dos fatos da história humana permite ao historiador organizá-los em ordem cronológica. Muitos desses acontecimentos recebem uma atenção especial dos historiadores por entenderem que são marcos na história de um povo, ou seja, assinalam importantes mudanças na vida daquela sociedade. O tempo que transcorre entre um marco e outro, que sinalizam o fim ou o ciclo de um novo modo de vida, é chamado de período. Chamamos de era o tempo que é contado depois de algum marco considerado memorável. Por exemplo, no Ocidente vivemos na era cristã, que tem como marco fundamental o nascimento de Jesus Cristo.

[...]

[...] Porém, o tempo é muito mais do que as horas marcadas por um relógio, ou os dias de um calendário, ou os anos de um século; é também tradição, mentalidade e ritmo.

Na sociedade ocidental, por exemplo, há vários rituais como o Carnaval e a Páscoa (judaica e cristã), entre inúmeros outros, que são celebrados hoje em dia e têm centenas de anos de existência. A esses rituais damos o nome de tradição, ou seja, uma reminiscência do passado que chegou até nós pela transmissão cultural dos mais velhos, pelas crenças religiosas, pelos ideais de um grupo, entre outros. A tradição é a memória viva de um evento passado que, por sua importância na vida das pessoas, é perpetuado de geração em geração. É um costume, uma recordação que não pode ser esquecida.

Não só a tradição marca o tempo passado, as gerações também o marcam. Em qualquer sociedade, há uma gradação populacional que vai dos recém-nascidos aos mais velhos, formando as gerações. Cada geração possui a sua própria mentalidade, ou seja, o seu modo de ver e dar significado à vida. Por isso, numa sociedade, assim como em uma família, podemos ter um confronto entre mentalidades ou conflito de gerações. Da mesma forma, podemos ter sobrevivências, na nossa época, de hábitos e ritmos que pertencem a uma outra época e modo de vida, ou seja, em uma mesma época podem coexistir diferentes tempos históricos. Por exemplo, muitos dos pescadores jangadeiros do Nordeste do Brasil usam técnicas de pesca da época colonial e mantêm praticamente o mesmo ritmo e horários de trabalho daquele período, embora incorporados ao mercado capitalista.

MOTA, Myriam Becho; BRAICK, Patrícia Ramos. História: das cavernas ao terceiro milênio. São Paulo: Moderna, 2007. p.11-13.

quinta-feira, 13 de outubro de 2011

Carnaval, uma festa profana

Carnaval medieval: a festa funcionava como válvula de escape para os camponeses oprimidos pela nobreza e pelo clero. Detalhe da obra "O combate entre o carnaval e a quaresma", Bruegel

O Carnaval de Ivrea é o único na Itália, que manteve um vínculo com a Idade Média, época em que a festa nasceu; nem o de Veneza, que despertou há mais ou menos trinta anos, nem o de Viareggio, com seus carros alegóricos de papel machê, instituído em 1873, podem se vangloriar de uma tradição ininterrupta. Aliás, pode-se dizer que, em nossos dias, o Carnaval está morto, porque a Quaresma, sua grande antagonista, está morta.

Em nossa sociedade do bem-estar, desapareceu a diferença entre tempo cotidiano e tempo festivo - com seus rituais de roupas e alimentos melhores, de celebração coral de um evento que envolve e dá coesão. A diferença que existe para nós é entre tempo ocupado e tempo livre - livre do trabalho. Mas podemos comer e nos vestir bem todos os dias e podemos igualmente nos divertir: geralmente sozinhos, não em grupo ou como um grupo. Além disso, em relação à Idade Média, atenuou-se muito o sentido religioso: o tempo da Igreja reside hoje mais nas aparições televisivas do papa e dos purpurados do que no encontro das pessoas no edifício sacro, vivendo com emoção e encarnação e a espera do sacrifício de Cristo.

Foi no concílio de Nicéia, em 325, que se fixou pela primeira vez um período de jejum de quarenta dias como preparação para a Páscoa, prescrição que, nos tempos de Carlos Magno, tornou-se um hábito comum e respeitado: comportava apenas uma refeição à noite e a proibição absoluta de comer carne. Durante toda a Idade Média, as restrições da Quaresma se fizeram acompanhar por outros rigores, além dos alimentares: penitências, abstenção das relações sexuais entre cônjuges e de tudo aquilo que contrastasse com a ideia de purificação, como espetáculos, teatro, bailes e o uso de armas.


O combate entre o carnaval e a quaresma (detalhe), Bruegel 

A proibição da carne foi sempre, porém, o preceito mais fortemente ligado à ideia da Quaresma. A carne era, na Idade Média, um símbolo de força, de caráter sanguíneo e audaz; o cervo e o javali não podiam faltar na mesa de um rico, de um poderoso, habituado à caça de grande porte: era uma guerra simulada, na qual eles colocavam à prova sua resistência ao esforço e sua coragem. O camponês, ao contrário, tinha que se contentar durante o ano com os animais de pequeno porte: uma ave, lebre ou galinha. Mas, de novembro a janeiro, obrigados pelo frio e pelo repouso da natureza, tanto o camponês na cozinha, muitas vezes diante do fogo, quanto o senhor na sala, quase sempre à mesa, comiam a mesma comida, embora em quantidades diferentes: tinham à disposição apenas a carne de porco, consumida fresca ou salgada ou preparada em linguiças e salames.

Também os romanos comiam carne de porco, mas bastante raramente, sem predileção especial. Foram as grandes migrações dos povos germânicos que impuseram o consumo da carne suína. Os germanos eram grandes criadores de porcos (nas florestas, onde as varas podiam se alimentar abundantemente com as bolotas dos carvalhos) e grandes consumidores de leite e manteiga, produzidos pelo gado que pastava em vastos terrenos comuns. Não é por acaso que todo o norte da Itália, onde a penetração dos germanos foi mais intensa, tem uma cozinha baseada na manteiga, na banha (gordura de porco derretida) e num amplo consumo de embutidos de porco e de carne em geral. A Itália do centro e do sul, uma região bem menos atingida pelas imigrações, manteve a cozinha de tipo mediterrâneo da Antiguidade romana, baseada no óleo de oliva e no vasto uso de cereais e legumes.

Na Idade Média, os monges também se dedicavam totalmente a este último tipo de dieta: sua mesa era rica em hortaliças e legumes - nada de carne, à exceção do peixe. De fato, pensava-se, naquela época, que os peixes, por não acasalarem, fossem imunes ao pecado da luxúria, responsável pela queda de Adão e Eva. Por isso, os peixes não eram considerados carne contaminada, como qualquer outra, pela intervenção do sexo. Além disso, a alimentação vegetariana sugeria a recusa ao mundo, a escolha de um modelo de vida pacífica, guiada antes pelos valores da alma do que por aqueles do corpo, e, mais ainda, sugeria continência em oposição à luxúria, vida simples em oposição à exibição e festa. O poderoso come carne; o subalterno, verdura. Não é por acaso que na Batalha de Quaresma e Carnaval, um texto do século XIII original da Picardia, os primeiros a chegar para ajudar Carnaval são carne grelhada, carne de porco com molho verde, linguiças e salsichas, "carnes no espeto, pombo assado e em empadões, filé de cervo com pimenta-preta e carne de boi, como convém". Por outro lado, entre os defensores de Quaresma, ameaçam truculentos os peixes do mar, de lago e de rio. Em seguida, avançam os laticínios. "A manteiga vem à frente de todos, e o leite coalhado a segue logo atrás; doces quentes e quentes tortas chegam em grandes pratos redondos. O creme avança abraçando a lança, no fundo do grande vale". O confronto conclui-se com a vitória do Carnaval: não somente poderá comer carne todos os dias do ano, mas poderá se apropriar também da "carne de Quaresma": os peixes não farão má figura na mesa do vencedor, pois muitos deles são realmente excelentes.

A carne, portanto, tinha também um valor simbólico, o que tornava ainda mais difícil privar-se dela: a origem etimológica da palavra "Carnaval" - carnelevare foi registrado pela primeira vez por volta do ano 1000 - é ligada, de fato, a carnem levare, privar-se de carne no último dia que precede o início da Quaresma.

Ao contrário, a etimologia da palavra Quaresma, quadragesima dies, quadragésimo dia, remete a um contexto totalmente religioso. É um período de recolhimento de quarenta dias antes da Páscoa, estabelecido, como dito anteriormente, pelo concílio de Nicéia, quando se falou pela primeira vez em quaresima ou quarentena, em analogia com o período de retiro passado por Cristo no deserto.

O calendário litúrgico sempre conseguiu, no decorrer do tempo, sobrepor-se a todo tipo de festa: o Natalis solis, a festa do sol, transformou-se no Natal de Cristo; a páscoa hebraica, na Páscoa cristã; a busca de Prosérpina por sua filha Ceres (raptada por Plutão), na Candelora, ou seja, a Candelária, candelora, do inverno estamos fora, expressando a esperança de que os rigores da estação fria tenham chegado ao fim, liga-se exatamente ao significado da festa pagã, pois, segundo o mito, Ceres desaparece durante todo o inverno e retorna com o início da boa estação.

O Carnaval, ao contrário, é uma referência desprovida de conteúdo religioso, embora sirva para preparar um período de penitência imposto pela Igreja. Mesmo sendo uma festa medieval, e não uma continuação de festas pagãs da Antiguidade, tem em comum com elas muitas características: o uso de fantasias e máscaras, o relaxamento de procedimentos usualmente reprimidos no campo da alimentação, do sexo e do comportamento, chegando ao insulto e ao confronto violento das "batalhinhas". Algumas iluminuras que ilustram, no Roman de Fauvel (obra satírica em versos, composta entre 1310 e 1314, por Gervais du Bus), o tumulto que, até bem pouco tempo, tomava os campos por ocasião das núpcias de velhos ou de viúvos com noivas bem mais jovens, mostram um pouco como seriam esses grupos tumultuosos.

Na Idade Média, o ano podia começar até em 25 de março, ou seja, no dia da encarnação de Cristo. Em todo caso, a chegada do Carnaval, que varia porque está associada à Páscoa, mas que cai sempre entre o fim do inverno e o começo da primavera, sublinha decididamente a passagem do ano velho para o ano novo, da morte para a vida: em muitas cidades, no último dia de Carnaval, ainda se costuma queimar a Velha, um fantoche de farrapos, símbolo do inverno que chegou ao fim (em latim, hiems, inverno, é de gênero feminino). É um modo de exorcizar também, no momento em que a natureza retoma seu ciclo, os medos ligados ao mundo dos mortos, ao seu poder e ao seu possível retorno.

Concluído o tempo da "licença", a Igreja retoma o controle e, pelo menos no século VIII, chama imediatamente os fiéis para a penitência, para o rito da quarta-feira de cinzas - o Carnaval acaba obrigatoriamente na terça-feira -, recordando a cada um sua descendência do pecador Adão, que veio do pó e ao pó retornou.

FRUGONI, Chiara. Invenções da Idade Média: óculos, livros, bancos, botões e outras inovações geniais. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2007. p. 74-78.

terça-feira, 20 de setembro de 2011

Idade Média: conceitos e preconceitos

A colheita, Pieter Bruegel

"... não existe uma Idade Média: existem idades médias."
Henri Berr

"O quadripartismo tem como resultado privilegiar o papel do Ocidente na história do mundo e reduzir quantitativa e qualitativamente o lugar dos povos não europeus na evolução universal. [...] Os marcos escolhidos não têm significado algum para a imensa maioria da humanidade [...]". (CHESNEAUX, Jean. Devemos fazer tábula rasa do passado? Sobre a História e os historiadores. São Paulo: Ática, 1995. p. 26.)

De acordo com a historiografia tradicional, a Idade Média foi delimitada por dois grandes marcos, ou fatos históricos, definidos por alguns estudiosos: a "queda" do Império Romano do ocidente em 476 e a "tomada" de Constantinopla, ou Bizâncio [...] pelos turcos otomanos em 1453.

Assim, o período medieval se insere no modelo tradicional de periodização  [...] que se fundamenta numa perspectiva eurocêntrica ocidental. Esse modelo foi elaborado, inicialmente, na modernidade europeia [...], no contexto do Renascimento e do Iluminismo.

Inicialmente, essa divisão [...] apresentava apenas três períodos: Antiga, Medieval e Moderna. A origem dos termos utilizados é filológica [...] e não histórica. O humanismo renascentista do século XV dividiu o latim em três categorias: o latim clássico, o latim bárbaro e o latim dos humanistas. Isso significa dizer que, entre o latim clássico e a sua redescoberta no século XV, houve um período de existência de um latim que fugia dos padrões da Antiguidade Clássica (foi "distorcido" pelos dialetos "bárbaros". Ele foi denominado de latinitas media).

Em pouco tempo, a expressão medievo passou a designar todo o período compreendido entre os séculos V e XV, tornando-se comum a sua utilização entre os humanistas, que não menosprezavam apenas o latim do "período intermediário". Criticavam e contestavam também a arte, a vida religiosa, a filosofia e a organização política e social. [...] toda a Idade Média, a partir de então, foi, de uma maneira geral, percebida de forma preconceituosa, como um período marcado pela superstição e pela ignorância, uma verdadeira "idade das trevas" ou uma "noite de mil anos".

A consagração da expressão Idade Média ocorreu em 1688, quando o humanista alemão Cellarius (C. Kepler) publicou um livro dedicado ao período [...].

As visões que foram construídas sobre a Idade Média variaram ao longo do tempo e modificaram-se de acordo com as premissas de cada época. Assim, para os homens do Renascimento, o medium aevum representou uma longa interrupção no progresso da humanidade.

Esse conceito, predominante nos séculos XVII e XVIII, na verdade um preconceito, resultou da percepção de múltiplos sujeitos históricos da época (religiosos protestantes, soberanos absolutistas, burgueses e intelectuais).

Ainda na segunda metade do século XVIII, à luz do racionalismo iluminista, criticou-se a influência da Igreja Católica no campo político e o forte apelo religioso da época medieval. Voltaire [...] afirmou que "as religiões são como pirilampos, só brilham onde há escuridão". O forte anticlericalismo de vários pensadores iluministas [...] explica, em boa parte, o reforço ao preconceito contra a Idade Média.

Foi apenas no século XIX, no contexto do Romantismo, que se iniciou a "reabilitação" do período medieval, pois as identidades nacionais, tão caras aos românticos, encontravam aí suas raízes.

No entanto, é importante destacar que essa "reabilitação" também foi marcada pelo preconceito, uma vez que se idealizou a Idade Média como a época dos "grandes cavaleiros" e da "nobreza", de seus valores, princípios e sentimentos; do "amor cortês"; da ação "descomprometida" da Igreja Católica, que impunha a ordem através da "trégua de Deus" e amparava os "fracos e oprimidos"; dos "heróis nacionais", etc. Construía-se, dessa forma, um "preconceito às avessas", já que a Idade Média era concebida de forma idealizada [...].

Conforme observou o filósofo alemão Walter Benjamin, "o passado estudado está carregado do presente em que vivem os historiadores".

No século XX, particularmente nas últimas décadas, muitos historiadores se preocuparam [...] com os estudos referentes à Idade Média. Os medievalistas [...] têm sido responsáveis pela revisão de conceitos e pela abordagem de temas até então inexplorados pela historiografia tradicional, tais como a sexualidade, a relação dos homens com a morte, a condição feminina, a infância, os cultos agrários, a religiosidade popular, a feitiçaria, a loucura, etc.

Nessa perspectiva, tem-se construído uma nova visão da Idade Média, sem os preconceitos característicos que até então permeavam [...]. (BERUTTI, Flávio. Caminhos do Homem. Curitiba: Base, 2010. p. 102-104, 107-108.)


Menestréis da Cantiga de Santa Maria. Anônimo espanhol.

"Esta longa Idade Média é [...] o contrário do hiato visto pelos humanistas do Renascimento e [...] pelos homens das luzes. [...] Criou a cidade, a nação, o Estado, a universidade, o moinho, a máquina, a hora e o relógio, o livro, o garfo, o vestuário, a pessoa, a consciência e, finalmente, a revolução". (LE GOFF, Jacques. Para um novo conceito de Idade Média. Lisboa: Estampa, 1980. p. 12.)

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

O que é a história e para que serve?

"Clio, musa da História", Pierre Mignard

A função da história, desde seu início, foi a de fornecer à sociedade uma explicação sobre ela mesma. A história se coloca hoje em dia cada vez mais próxima às outras áreas do conhecimento que estudam o homem (a sociologia, a antropologia, a economia, a geografia, a psicologia, a demografia, etc.), procurando explicar a dimensão que o homem teve e tem em sociedade. [...]

A história procura especificamente ver as transformações pelas quais passaram as sociedades humanas. A transformação é a essência da história [...]. Nada permanece igual, e é através do tempo que se percebem as mudanças.

Estudar as mudanças significou durante muito tempo uma preocupação com momentos que são vistos como de crise e de ruptura... Hoje se sabe que mesmo mudanças que parecem súbitas, como os movimentos revolucionários, não somente foram lentamente preparados - de forma voluntária e involuntária, por diferentes circunstâncias - mas não conseguiram mudar totalmente as estruturas das sociedades onde se realizaram; são exemplos significativos tanto a Revolução Francesa como a Revolução Russa de 1917. Percebe-se, ligado a isso, uma preocupação cada vez maior dos historiadores não só com mudanças mas também com as permanências.

O tempo é a dimensão de análise da história. O tempo histórico através do qual se analisam os acontecimentos não corresponde ao tempo cronológico que vivemos e que é definido pelos relógios e calendários. No tempo histórico podemos perceber mudanças que parecem rápidas, como os acontecimentos cotidianos: por exemplo num golpe de Estado, cujo desenrolar acompanhamos pelos jornais. Vemos também transformações lentas, como no campo dos valores morais: o machismo, por exemplo, é um valor que impera na maior parte das sociedades que a história estuda, a ponto de se poder dizer que a história que está escrita mostra um processo praticamente só conduzido pelos homens. [...]

Quase sempre que a história da humanidade nos é apresentada, é a evolução da sociedade europeia ocidental que é tomada como modelo de desenvolvimento. Essa posição eurocêntrica é errada: do ponto de vista da história, a evolução da sociedade europeia ocidental, com seu alto grau atual de desenvolvimento tecnológico, não deve ser um padrão de comparação para se estudar a história de qualquer outra parte do sistema capitalista, como, por exemplo, a América Latina. Não se deve, por meio desse tipo de comparação, julgar se uma sociedade está "atrasada" ou "adiantada" em seu desenvolvimento histórico.

[...] Temos, ao mesmo tempo, hoje em dia, sociedades com formas de vida primitivas, consideradas ainda no chamado período pré-histórico (por exemplo, como certas tribos na Nova Zelândia), e sociedades com um grau de desenvolvimento que permite explorações interplanetárias (como fazem os americanos e os russos). Não se percebe, ainda como exemplo, uma linha constante e progressiva da passagem, a partir da Antiguidade, do trabalho escravo ao trabalho assalariado: a escravidão quase que desaparece na Europa Ocidental, durante a Idade Média, para reaparecer na Idade Moderna, imposta pelos europeus nas Américas, como forma de relação de trabalho dominante. [...]

[...] 

As alterações são decorrentes da ação dos próprios homens, sujeitos e agentes da história. [...] São os homens constituídos em sociedade que, embora nem sempre deliberada e conscientemente, atuaram e atuam para que as coisas se passem de uma ou de outra maneira, para que tomem um rumo ou outro.

[...]

Não se deve buscar uma razão para um desenrolar da história da humanidade. O sentido dos diferentes acontecimentos históricos e dos processos específicos de transformações sociais devem ser procurados nos próprios acontecimentos [...].

Saber o que o homem fez em sociedade desde que está na Terra mostra muito sobre o próprio homem, ajuda a entendê-lo e a entender as sociedades [...]. Explicar as transformações sociais esclarecendo seus comos e porquês leva a perceber que a situação de hoje é diferente da de ontem. [...]

[...] A humanidade não é um todo homogêneo, e a história não a analisa assim. Na realidade, dificilmente o historiador pode tratar, ao mesmo tempo, de toda a humanidade. Ao escrever a história, em geral ele se ocupa especificamente de uma determinada realidade concreta, situada no tempo e no espaço. Estudam-se uma tribo, um povo, um império, uma nação, uma civilização, como, por exemplo, o povo judeu, antes do nascimento de Cristo, a formação do Império Macedônico, a civilização greco-romana, o surgimento da França, etc.

O homem é um ser finito, temporal e histórico. Ele tem consciência de sua historicidade, isto é, de seu caráter eminentemente histórico. O homem vive em um determinado período de tempo, em um espaço físico concreto; nesse tempo e nesse lugar ele age sempre, em relação à natureza, aos outros homens, etc. É esse o seu caráter histórico. Tudo o que se relaciona com o homem tem sua história; para descobri-la, o historiador vai perguntando: o quê? quando? onde? como? por quê? para quê?...

[...] Fazer uma história do presente não é, escrever sobre ele, mas sobre indagações e problemas contemporâneos ao historiador. É preciso conhecer o presente e, em história, nós o fazemos sobretudo através do passado, remoto ou bem próximo.

[...]

Para muitos, o conhecimento do passado serve para manter as tradições, por vezes no sentido de tentar impedir as permanentes mudanças; para outros, o sentido da história é propiciar o desenvolvimento de forças transformadoras das sociedades. [...]

BORGES, Vavy Pacheco. O que é história. São Paulo: Brasiliense, 1998. p. 49-58.

quarta-feira, 6 de julho de 2011

Heranças da colonização portuguesa no Brasil

Mapa do Brasil do século XVI, Lopo Homem

No final do século XVI, pode-se dizer que boa parte da faixa costeira estava colonizada pelos europeus e que a população nativa do litoral havia sido cultural e fisicamente submetida, expulsa ou exterminada.

A catequese, as doenças e a escravidão terminaram por destruir a cultura material e espiritual dos indígenas, vencidos da história. A ordem social vencedora nas terras brasileiras baseava-se sobretudo nos valores dominantes portugueses.

A consolidação da conquista territorial portuguesa variou em cada região de acordo com a capacidade de os povoadores superarem os desafios locais, obterem escravos e exercerem uma atividade econômica lucrativa e envolvida de um modo ou de outro com a produção de riquezas para a exportação e a possibilidade de adquirir bens europeus.

Nesse sentido, o principal fator que possibilitou a viabilização da colônia foi o sucesso da economia açucareira. Nos locais de terras e clima favoráveis à produção do açúcar, como as capitanias da Bahia e Pernambuco, a ocupação portuguesa avançou rapidamente. A de São Vicente, mesmo não possuindo engenhos poderosos, pôde desenvolver-se economicamente graças ao bandeirantismo.

Em menos de cem anos após o descobrimento do Brasil, os portugueses já haviam conseguido consolidar seu domínio. Mostraram-se, com relação a isso superiores aos nativos e aos franceses, duas das primeiras ameaças aos seus projetos. A partir daí, a economia açucareira adquiriu grande impulso, a população branca, negra e mestiça cresceu rapidamente (com a imigração, o tráfico e o aumento da natalidade) nas regiões mais desenvolvidas e o controle administrativo tornou-se mais eficiente. Do final do século XVI em diante, aumentou o número de engenhos, o que fez crescer  o das vilas e cidades.

[...]

A população da colônia foi se constituindo de tipos variados: portugueses e europeus de outros países, além de vários grupos indígenas e africanos e da miscigenação, que foi grande, embora as uniões de brancos com índios e negros não fossem prestigiadas e boa parte delas tivessem sido constituídas com base na violência.

Da cultura indígena tupi-guarani do litoral só restaram traços incorporados pela população brasileira.

No que se refere ao intercâmbio cultural [...] muitos observadores do século XIX se chocavam com a pouca roupa usada pelos homens e mulheres brasileiros (mesmo ricos), quando estavam na intimidade e fora das vistas de estranhos. Era um hábito bem consequente e saudável para o clima tropical que só foi aceito e assumido na segunda metade do século XX. A redução ao mínimo das roupas íntimas, o uso de shorts, bermudas, biquínis, camisetas e blusas leves, minissaias, tão comuns em nossa época, foi inconcebível até a primeira metade do século XX em que se exigia a submissão total às modas oriundas de outras paragens mais frias e formais. O brasileiro da Colônia e do Império adotou costumes adequados dos indígenas, mas só na intimidade quando não podia ser visto ou criticado pelos donos da verdade civilizada.

A imagem do Brasil, tal como foi vista pelos colonos, burocratas, jesuítas e visitantes, influenciou as opções do povoamento. Os recursos naturais já conhecidos e utilizados pelos indígenas de uma forma cuidadosa e sábia foram em grande parte depredadas num aproveitamento desenfreado dos colonos e dos brasileiros de hoje. Tal foi o caso do pau-brasil, que praticamente desapareceu no século XVII; a mesma sorte tiveram os cajueiros do litoral e inúmeras outras frutas naturais depredadas sem qualquer preocupação de replantio. A destruição da vegetação dos mangues, indispensável para a reprodução da fauna marítima - moluscos, mariscos, ostras, caranguejos e peixes - não cessou até hoje e mesmo se agravou, com os elevados índices de poluição.

O patrimônio florestal, com exceção da Amazônia ameaçada, foi todo desperdiçado, assim como a fauna, na qual espécies inteiras desapareceram. Os rios, que durante vários séculos alimentaram a população, hoje são depósitos de esgotos e a sua poluição ameaça a vida humana. Aliás, muitos estão em vias de ressecamento pela eliminação total das matas ciliares e as que cercam as nascentes.

As maravilhosas riquezas naturais, que tanto deslumbraram os primeiros observadores, fomentaram, até certo ponto, a crença da abundância fácil, sem trabalho e infindável. A ilusão da existência permanente de novas áreas virgens para a ocupação econômica criou atitudes, visões de mundo e táticas de exploração econômica em que tudo era tirado, destruído e abandonado à própria sorte sem reposição alguma. [...]

A escravidão indígena e a negra foram em boa parte responsáveis pela desmoralização do trabalho, o qual ficou relegado às massas exploradas até a morte. Estudos modernos confirmam observações da época que constataram o espantoso desperdício de vidas humanas determinado pela escravidão no Brasil. Milhões de pessoas foram sacrificadas para riqueza e poder de uma pequena classe dominante irresponsável e indiferente à sorte da terra e também em benefício de uma elite na Europa.

MESGRAVIS, Laima; PINSKY, Carla Bassanezi. O Brasil que os europeus encontraram: a natureza, os índios, os homens brancos. São Paulo: Contexto, 2000. p. 103-106, 108.

quinta-feira, 30 de junho de 2011

Que ódio é esse?

Teu Cristo é judeu; teu carro, japonês; tua pizza, italiana; tua democracia, grega; teu café, brasileiro; tuas férias são turcas; teus números, árabes; teu alfabeto é latino. E teu vizinho é tão somente estrangeiro? 

[De um outdoor afixado no centro da cidade de Frankfurt, na Alemanha, no início dos anos 90, denunciando o racismo e a discriminação contra os estrangeiros naquele país.] Citado em: SALEM, Helena. As tribos do mal: o neonazismo no Brasil e no mundo. São Paulo: Atual, 1995. p. 83.

Manifestação neonazista em Los Angeles (EUA), em 2010

Após assistir, ainda muito recentemente em termos históricos, à avalanche de xenofobia e racismo que dominou a Europa durante a Segunda Guerra Mundial e nos anos que a precederam, sob a hegemonia nazi-fascista; após atravessar os séculos de intolerância religiosa, que resultou nos processos da Inquisição contra todos aqueles que discordavam dos cânones da Igreja Católica na Idade Média e na Moderna, o mundo depara hoje, mais uma vez com novas ondas de racismo, antissemitismo e nacionalismo xenófobo (do grego xenos, “estrangeiro”, e phobos, “fobia”, “horror”; ou seja, aquele tem ódio aos estrangeiros). Mesmo em alguns países, como o Brasil, onde essas ideologias nunca chegaram a ter presença expressiva, vê-se o seu renascimento.


Verdade que os tempos são outros. Há diferenças de tempo e espaço – entre os nazistas de ontem e os neonazistas de hoje; entre os inquisidores medievais que jogavam os dissidentes na fogueira e os fanáticos encapuzados da Ku Klux Klan que lançaram seu terror contra negros e comunistas nos Estados Unidos, nos anos 1960. Diferentes também entre os integralistas que atuavam na política brasileira dos anos 1930 e grupos como os skinheads/Carecas do Subúrbio de agora. (...)

(...) o contingente de excluídos se diversificou: aos judeus somaram-se os turcos, os árabes, os africanos e toda a mão de obra barata procedente do Terceiro Mundo que buscou a rica Europa e os Estados Unidos como mercado de trabalho nas últimas décadas.

No Brasil, os preconceitos dos neonazistas e neofascistas foram adaptados à realidade local: em vez dos turcos, o alvo são os nordestinos – a mão de obra miserável que migra em massa para o Sul do país -, incluindo também os negros e os homossexuais, além dos judeus.

Qual a dimensão efetiva desse ressurgimento do nazi-fascismo no mundo? O que ele significa? Quem são esses enlouquecidos skinheads que, como os inquisidores medievais ou a SS nazistas dos fornos crematórios, queimam hoje, imigrantes turcos na Alemanha, assassinam africanos na Itália, rejeitando o pobre, o diferente? E no Brasil, como esses movimentos se organizam? (...) SALEM, Helena. As tribos do mal: o neonazismo no Brasil e no mundo. São Paulo: Atual, 1995. p. 1-3.

“Quanto mais penso nos problemas que nos afligem, tanto mais me convenço de que devemos tomar a Ironia e a Piedade por conselheiras e juízas, como os antigos egípcios, que invocavam a proteção da deusa Ísis e da deusa Néftis sobre os seus mortos. Tanto a Ironia quanto a Piedade são boas conselheiras. A primeira, com seus sorrisos, torna a vida agradável; a segunda santifica a vida com suas lágrimas. A Ironia que invoco não é uma divindade cruel. Não zomba do amor nem da beleza. É gentil e bondosa. Seu júbilo nos desarma, e é ela quem nos ensina a rir dos malfeitores e dos tolos, pelos quais, se não fosse por ela, nossa fraqueza nos levaria a sentir desprezo e ódio”. (Hendrik Willem van Loon)

terça-feira, 28 de junho de 2011

História, memória e sociedade

Militância anarquista reivindicando mais liberdade para a humanidade

As sociedades humanas sempre se preocuparam em transmitir sua memória para as gerações futuras. A memória compõe-se dos testemunhos preservados do passado de uma sociedade, que permitem a reconstituição da sua história.

A "Plaza de las tres culturas" ou "Plaza de Tlatelolco" está situada no centro histórico da Cidade do México, México. Tem esta designação por se encontrar delimitada por edifícios de três épocas históricas do México: cultura pré-colombiana (pirâmides e ruínas do Templo de Tlatelolco), cultura espanhola (Catedral Católica de Santiago) e cultura do México moderno (Torre da Secretaria de Relações Exteriores).


Em algumas sociedades, os testemunhos estão guardados nos mitos e nas lendas, que são passados oralmente de geração para geração. Outras sociedades deixaram seus testemunhos em obras de literatura, em construções, cartas, objetos etc. Mas, em geral, os registros que chegaram até nós representam apenas uma parte da vida dessas sociedades.

Um exemplo disso é a memória deixada pela chamada Idade Média. Quase todos os registros conhecidos sobre a época medieval – cartas, gravuras, construções – informam-nos muito mais sobre a vida dos cavaleiros, reis e sacerdotes poderosos do que sobre o cotidiano da população pobre. O que sabemos, por exemplo, sobre o dia a dia dos camponeses, em geral analfabetos, baseia-se principalmente em registros produzidos pelos clérigos.


Por essa razão, os historiadores que tentam recuperar a memória dos camponeses medievais têm a difícil tarefa de investigar fontes históricas variadas, como restos de construções, ferramentas de trabalho e lendas transmitidas de geração para geração, além dos testemunhos produzidos pelas pessoas poderosas daquela época.

Investigar e elaborar uma reflexão crítica sobre os testemunhos do passado: esse é o trabalho do historiador. Portanto, a história se diferencia da memória por ser uma reflexão sobre os registros preservados do passado.

Além de valorizar apenas os registros escritos, a história, até o início do século XX, estava centrada na vida das grandes personagens do passado, como reis, generais e heróis. Os livros de história limitavam-se a fazer uma narrativa recheada de datas, fatos e nomes considerados importantes na formação de um povo e ou de um país. D. Pedro I e a proclamação da independência; Júlio César e a conquista da Gália; Duque de Caxias e as batalhas da Guerra do Paraguai: esses são alguns exemplos de nomes e fatos que predominavam nos escritos dos historiadores.

Aos poucos, os estudos de história passaram a valorizar a ação dos indígenas, dos negros, dos jovens, das crianças, dos homossexuais, dos pobres e de outros sujeitos sociais, que até então era desconhecida ou desprezada pelos historiadores. Ficamos conhecendo, então, outras versões da história, escritas e contadas do ponto de vista de outros grupos.


"A história humana não se desenrola apenas nos campos de batalhas e nos gabinetes presidenciais. Ela se desenrola também nos quintais, entre plantas e galinhas, nas ruas de subúrbios, nas casas de jogos, nos prostíbulos, nos colégios, nas usinas, nos namoros de esquinas. Disso eu quis fazer a minha poesia. Dessa matéria humilde e humilhada, dessa vida obscura e injustiçada, porque o canto não pode ser uma traição à vida, e só é justo cantar se o nosso canto arrasta consigo as pessoas e as coisas que não tem voz". 
(Ferreira Gullar)


Um exemplo é o da história das mulheres. Milhões de mulheres viveram no passado, mas poucas apareceram nos relatos dos historiadores. As mulheres tinham sido excluídas da história. Hoje, historiadores trabalham para recolocar a mulher no palco da história, destacando sua contribuição para as diversas culturas humanas.



BRAICK, Patrícia Ramos; MOTA, Myriam Becho. História - das cavernas ao terceiro milênio. São Paulo: Moderna, 2007. 

Estágios culturais da Pré-história

Dança de Cogul: várias mulheres dançam ao redor de um homem nu. Pintura rupestre na Província de Lérida, Espanha

Estágios culturais



Idade da Pedra
Lascada
(Paleolítico)
Idade da Pedra
Polida
(Neolítico)
 Idade dos Metais
(Cobre, bronze e ferro)
A técnica de trabalho
O homem utiliza a pedra lascando-a. Utiliza ainda, para confecção de seus objetos: ossos, chifres e presas de grandes animais. A principal ferramenta e arma básica é o “machado de mão”. A partir dele o homem começa a fabricar outros instrumentos: raspadores, cortadores, furadores. No final do período surgem a azaguaia, o arco, a flecha e o arpão.
O homem aperfeiçoou seus instrumentos de pedra mediante o polimento. Posteriormente surgem os primeiros objetos de cerâmica. Ainda nessa etapa surge a tecelagem de lã de origem animal e de fibras vegetais, como o linho. No final do período surgem os primeiros monumentos (sepulturas) de pedra (menires, dólmens).

O homem utiliza o cobre como é encontrado na natureza a partir do fim do neolítico. O que caracteriza a Idade dos Metais é o aparecimento da técnica de fundição que leva progressivamente à obtenção de metais mais resistentes. A fabricação de objetos mais variados e mais resistentes acelera de maneira notável o progresso humano.
Formas de vida
O homem vive em bandos nômades que se locomovem constantemente em busca da caça. O mais forte assume a liderança do grupo. A habitação é a natural – as copas das árvores ou as cavernas. A alimentação resulta da caça, pesca e coleta – não há vestígios de animais domésticos. O homem simplesmente apanha os víveres necessários à sua sobrevivência. Ainda nessa etapa o homem começa a confeccionar suas roupas de peles de animais. A arte manifesta-se nos desenhos realizados nas paredes das cavernas e seu tema é a fauna. Destaca-se ainda a confecção de estatuetas femininas. A emissão se sons goturais foi cedendo lugar à linguagem articulada, à medida que o homem foi associando sons a ações e objetos.
O homem vive como seminômade começando a fixar-se em aldeamentos. Surge aos poucos a vida em comunidade. A liderança passa para os mais velhos, considerados os mais experientes. Abandonando progressivamente as cavernas, o homem começa a construir habitações lacustres ou choças, quando encontrava um local de fácil defesa. Além de caçar e pescar, o homem passa a domesticar alguns animais e praticar incipiente lavoura, começando a produzir os víveres necessários à sua sobrevivência. A vida seminômade vai sendo abandonada pela vida sedentária.

O homem torna-se sedentário, fixando-se definitivamente à terra. Surge a cidade-Estado sob a autoridade do Rei-Sacerdote. As construções tornam-se mais complexas e surgem imponentes edificações com vários compartimentos e andares. A agricultura apresenta grande desenvolvimento com as obras de irrigação que garantem a fertilidade permanente da terra. Os cereais tornam-se a base da alimentação: trigo, arroz, cevada. A tecelagem aperfeiçoa-se e permite a fabricação de tecidos variados e de grande finura.
Manifestações religiosas
O homem primitivo não possui propriamente uma religião. Pratica rituais de magia destinados a obter abundância de caça, como se vê pelas características da arte das cavernas e provavelmente o culto da fertilidade, suposição derivada dos achados numerosos de estatuetas femininas. Os ritos funerários comprovam-se pelo cuidado com a sepultura e o corpo do morto.
O homem do Neolítico tem na religião uma de suas mais importantes instituições. Admite a existência de proteção superior para o grupo, muitas vezes através de um animal que se torna o símbolo do clã. O culto dos mortos se desenvolve, surgem sepulturas de pedra. A religião é ligada à crença no sobrenatural e tem fim utilitário imediato. As cerimônias do culto têm por objetivo aumentar a fertilidade da terra, fazer chover, etc.

O homem modifica progressivamente suas crenças religiosas. A religião deixa de ser apenas um meio de solicitar a ajuda para problemas materiais, adquirindo um caráter mais espiritual, e o homem procura através dela o aperfeiçoamento de si próprio. Da religião derivam normas de comportamento que influem poderosamente na sociedade. Além disso ela se torna um dos elementos mais importantes de aglutinação populacional, base para o aparecimento do Estado.
Progressos notáveis
O homem aperfeiçoa gradativamente os instrumentos que constituem as bases do progresso material humano, desenvolve a linguagem falada, instrumento de transmissão das experiências adquiridas, inicia a escrita pictográfica.
O homem produz artificialmente o fogo, domestica os animais, inicia a prática da lavoura, inventa a roda de oleiro, a pedra de moinho para moer os grãos, inicia a construção de barcos, esboça a escrita silábica e a religião torna-se um elo de ligação do grupo.

O homem aperfeiçoa a escrita, obtém o bronze através da liga do cobre e estanho, funde o ferro, inventa o moinho giratório manual para moer os grãos, a moeda metálica e os veículos de roda. As populações se aglutinam com base na religião, língua e costumes comuns, verificando-se o aperfeiçoamento da vida em comunidade.
Conclusões
As mudanças climáticas verificadas com o deslocamento das geleiras deram origem aos climas atuais da terra. Na Ásia e África forma-se uma extensa faixa desértica forçando as populações a se deslocarem à procura de melhores condições de vida. Na Europa as geleiras deslocam-se para o norte, tornando quase impossível a sobrevivência do homem do Paleolítico que vivia da rena e do mamute. A rena emigra para as regiões geladas do norte e o mamute começa a extinguir-se. Parte da população acompanha a rena, enquanto alguns tentam sobreviver no novo clima.
A cultura neolítica surgida no sudoeste da Ásia e norte da África espalha-se pelo mundo. A construção de barcos iniciada no neolítico permite as migrações para diversas partes do globo à procura de melhores condições de vida. As migrações realizadas com precários meios de transporte promovem um deslocamento muito pouco controlado pelo homem, levando-o a fixar-se nas terras favoráveis que encontra. Como exemplificação podemos citar a penetração na América, pelo norte, através do Estreito de Bering e das Ilhas Aleutas, de povoadores asiáticos do Neolítico.
A denominação Idade dos Metais é utilizada exclusivamente em decorrência da maior facilidade em acompanhar o progresso do homem através da técnica de trabalho. A utilização mais intensiva do cobre e o domínio da técnica de fundição são acompanhadas por outras modificações fundamentais na vida do homem – a vida sedentária baseada na agricultura, o desenvolvimento da religião, o surgimento da cidade-Estado e o aperfeiçoamento da escrita. É na Idade dos Metais que têm início os tempos históricos quando se torna possível através da escrita a reconstrução da vida do homem de maneira mais clara e sistemática. Em decorrência do progresso geral, material e espiritual, surgem as primeiras civilizações conhecidas.



RESENDE, Maria Efigênia Lage de e MORAES, Ana Maria de. História Fundamental da Civilização. Belo Horizonte: Bernardo Álvares, 1973. p. 22-23.