"Os espelhos estão cheios de gente.
Os invisíveis nos vêem.
Os esquecidos se lembram de nós.
Quando nos vemos, os vemos.
Quando nos vamos, se vão?"
Eduardo Galeano: Espelhos
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quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

Morte de um europeu do século VIII

Batalha de Roncenvaux: morte de Rolando, Jean Fouquet

A célebre canção de gesta, uma epopéia, A Canção de Rolando, narra a morte de Rolando, sobrinho de Carlos Magno, morto nos Pirineus, em Roncenvaux, em 778, quando voltava de uma campanha de Carlos Magno contra os muçulmanos no norte da Espanha. Entre os mortos dessa batalha, há também um importante personagem da corte, Egginhard. A inscrição gravada em seu túmulo diz: "O italiano chora por ele, o franco tem o coração torturado, a Aquitânia e a Germânia estão de luto". [...]

LE GOFF, Jacques. Uma breve história da Europa. Petrópolis: Vozes, 2008. p. 65.

sexta-feira, 9 de dezembro de 2016

Povos das estepes: os hunos

Átila e suas hordas sobre a Itália, Eugène Delacroix

Os hunos. Sul da Rússia, Europa central, Bálcãs, sécs. IV e V d.C.

Mencionados pela primeira vez em 370 d.C., os hunos, que se tornaram os mais temidos e odiados inimigos bárbaros de Roma, eram provavelmente um grupo misto, composto pelos vários povos que eles derrotavam.

Em 434 d.C., o rei huno Rua morreu, e seu filho, Átila, iniciou uma política agressiva, devastando grande parte dos Bálcãs e saqueando uma sequência de cidades em 441-442 d.C., e novamente em 447 d.C. Em 451 d.C., os hunos se voltaram para o oeste, em direção às terras férteis da Gália, mas foram derrotados por uma aliança de última hora entre os romanos do general Aécio e aliados bárbaros. Destemido, Átila entrou na Itália no ano seguinte, mas desistiu de um ataque a Roma, provavelmente devido a uma peste que tinha se propagado naquela cidade. Após a morte do pai, no ano seguinte, os filhos de Átila tentaram em vão manter a integridade do império, mas em um período de 10 anos os hunos praticamente deixaram de existir como um grupo organizado.

PARKER, Philip. Guia ilustrado Zahar: história mundial. Rio de Janeiro: Zahar, 2011. p. 145.

terça-feira, 5 de janeiro de 2016

Povos do mundo: Europa

[As vestimentas dos Lapões, Pehr Hilleström]

[Costumes dos habitantes da Lapônia, Demoraine]

[Lapões, Carl Ludvig Henning Thulstrup]

[Sami em esqui na aurora boreal, Frants Bøe]

[Povo Sami em Härjedalen, Johan Fredrik Martin]

[Esquiadores Birkebeiner (rebeldes), Knud Bergslien]

[Piratas normandos do século IX, Évariste Vital Luminais]

[Um sacrifício para Thor, J. L. Lund]

[Tesouro dos Vikings, Bror Anders Wikstrom]

[Funeral Viking, Frank Dicksee]

[Cigana com um cigarro, Édouard Manet]

[Ciganos espanhóis, Yevgraf Sorokin]

[Taraf (grupo de músicos tradicionais romenos) de Ochi-Albi, Bucareste, Carol Szathmari]

[Uma dança cigana nos jardins de Alcázar, Alfred Dehodencq]

[Mulher e crianças ciganas, Otto Mueller]

[Ciganos, Károly Patkó]

[Ocupações rurais, Ilha da Madeira, Artista desconhecido]

[Tipos do Leste e do Norte da Europa, Gustav Mützel]

[Roupas de sérvios em Bačka, Jovan Pačić]

segunda-feira, 17 de novembro de 2014

Os significados do vestuário, da moradia, da alimentação e do lazer na sociedade medieval

O vestuário designa todas as categorias sociais, é um verdadeiro uniforme. Levar vestuário de uma condição diferente da sua é cometer o pecado capital da ambição ou da degradação. O pannous (o indigente vestido de farrapos), é desprezado. [...] As regras monásticas fixam cuidadosamente o hábito dos seus membros – mais por respeito pela ordem que pela preocupação de evitar o luxo.

[...] As ordens mendicantes iriam mais longe e vestiriam burel, tecido cru. Seriam os monges pardos. Cada nova categoria social se apressa a criar o seu vestuário. Assim fazem as corporações e, em primeiro lugar, a corporação universitária. Dá-se atenção especial aos acessórios que mais particularmente determinam o grau: os chapéus e as luvas. Os doutores usam compridas luvas de camurça e boina. Os cavaleiros reservam para si as esporas. Fato curioso para nós: o armamento medieval é demasiado funcional para constituir um verdadeiro uniforme. Mas os cavaleiros, ao criar a nobreza, juntam ao elmo, ao escudo e às espadas as armarias. Nasceu o brasão.

Os ricos exibem o luxo do vestuário, que se mostra na qualidade e quantidade do tecido: panos pesados, amplos, finos, sedas  bordadas a ouro; mostra-se também nos enfeites: as cores, que mudam com a moda – o escarlate, dependente dos corantes vermelhos...

A casa é a última manifestação da diferenciação social. A casa do camponês é de adobe ou de madeira [...]. Geralmente, reduz-se a um só compartimento e tem por chaminé uma abertura no telhado. Pobremente mobiliada e apetrechada, não cativa o camponês. A sua pobreza contribui para a mobilidade dos camponeses medievais.

As cidades são ainda construídas, principalmente, de madeira. São fáceis presas para os incêndios. O fogo é um grande flagelo medieval. [...] A Igreja não tinha grande dificuldade em persuadir os homens da época de que eram peregrinos neste mundo. Mesmo sedentários, raramente tinham tempo de apegar-se às suas casas.

Já o mesmo não sucede com os ricos. O castelo é sinal de segurança, de poderio e de prestígio. No século XI erguem-se as torres e vence a preocupação da defesa. Em seguida, precisam-se os encantos da habitação. Continuando bem defendidos, castelos passam a dar mais lugar aos alojamentos e criam edifícios de habitação dentro das muralhas. Mas a vida ainda se concentra na sala grande. O mobiliário é diminuto. As mesas, em geral, são desmontáveis e, uma vez concluídas as refeições, são retiradas. O móvel normal é a araçá ou baú, onde são arrumadas as roupas ou a baixela. Esta é de um supremo luxo, resplandece e é também uma reserva econômica. [...] Outro luxo está em tapeçarias, que são, também, utilitárias: postas ao alto, fazem de biombo e separam as câmaras. São transportadas de castelo em castelo e recordam a este povo de guerreiros a sua habitação por excelência, a tenda.

Cena de casa de banhos. Miniatura anônima do século XV

Mas talvez as grandes damas – é o mecenato das mulheres – levem mais longe o rebuscamento da ornamentação de interiores. Segundo Baudri de Bourgueil, a câmara de dormir de Adèle de Blois, filha de Guilherme, o Conquistador, tinha nas paredes tapeçarias que representavam o Antigo Testamento e as Metamorfoses, de Ovídio, e panejamentos bordados com a história de Inglaterra. As pinturas do teto representavam o céu com a Via Láctea, as constelações, o zodíaco, o Sol, a Lua e os planetas. O chão era um mosaico que representava um mapa-múndi com monstros e animais. Um leito com baldaquino era sustentado por oito estátuas [...].

O sinal do prestígio e da riqueza era a pedra, ao torres que rodeavam o castelo. O mesmo faziam na cidade, por imitação, os burgueses ricos: “casa forte e bela”, como se dizia. Mas o burguês iria ligar-se à casa e mobiliá-la. Também neste aspecto daria à evolução do gosto a sua marca característica inventando o conforto.

Cena de banquete. Miniatura do século XV. Artista desconhecido

A alimentação [...] foi uma obsessão da sociedade medieval. A massa campesina tinha de contentar-se com pouco. A base da sua alimentação eram as papas. O principal acompanhamento reduzia-se frequentemente aos produtos de apanha. Mas o [...] acompanhamento de pão espalhou-se em todas as categorias sociais nos séculos XII e XIII – e foi então que o pão tomou verdadeiramente no Ocidente a significação quase mítica que a religião lhe dá. A classe campesina tem, porém, uma festa alimentar: a matança do porco, em dezembro, cujos produtos alimentam os festins do fim do ano e as refeições do longo inverno...

A alimentação é a principal oportunidade que têm as classes dominantes da sociedade para manifestar a sua superioridade nesse essencial domínio das aparências. O luxo alimentar é o primeiro de todos. Exibe os produtos reservados: a caça das florestas senhoriais, os ingredientes preciosos, especiarias compradas por alto preço, e os pratos raros, preparados pelos cozinheiros. [...] A mesa senhorial é também uma oportunidade para exibir e fixar as regras de etiqueta. [...]

Cena de caça. Dezembro (detalhe). Livro de Horas do Duque de Berry, Irmãos Limbourg. Século XV

Uma vez satisfeitas as necessidades essenciais da subsistência e, quanto aos ricos, as exigências – não menos essenciais – do prestígio, pouco ficava aos homens da Idade Média. Sem as preocupações com o bem-estar, sacrificavam tudo às aparências quando isso estava nas suas possibilidades. As suas únicas alegrias profundas e desinteressadas eram a festa e os jogos, mas, nos grandes, a festa era também ostentação e autopropaganda.

Cena de torneio, Barthélémy d'Eyck. Século XV

O castelo, a igreja, a cidade eram cenários teatrais. É sintomático que a Idade Média não tenha tido um local especial para as representações teatrais. Os palcos e as representações eram improvisados onde houvesse um centro de vida social. Na igreja, as cerimônias religiosas eram festas, e é do drama litúrgico que sai o teatro. No castelo, os banquetes, os torneios, os espetáculos dos trovadores, dos jograis, dos bailarinos e dos domadores de ursos sucedem-se. Na cidade, os teatros de saltimbancos erguem-se nas praças [...]. Todas as classes da sociedade fazem das suas festas familiares cerimônias ruinosas: os casamentos deixam os camponeses na pobreza durante anos, e os senhores durante meses. O jogo exerce uma singular sedução sobre esta sociedade alienada. Escrava da natureza, entrega-se ao acaso: os dados rolam em todas as mesas. Prisioneira de rígidas estruturas sociais, faz da própria estrutura social um jogo: é o caso do xadrez [...]. Projeta e sublima as suas preocupações profissionais em jogos simbólicos e mágicos: os torneios e os desportos militares exprimem a essência da vida cavalheiresca e as festas folclóricas, o ser das comunidades campesinas. [...] E, em especial, a música, o canto, a dança arrastam todas as classes sociais...


LE GOFF, Jacques. A civilização do Ocidente Medieval. Lisboa: Estampa, 1984. v. 2. p. 88-9, 91, 121-7.

quarta-feira, 18 de junho de 2014

O Carnaval na Época Moderna: a festa de todos

Pouca coisa é mais característica da cultura popular europeia do que a festa, estando aí incluídas as festas familiares, como os casamentos, e as festas públicas, como as dos santos padroeiros das comunidades e paróquias. Além disso, havia as peregrinações a lugares considerados santos e as festas comuns à maioria dos europeus, independentemente do país ou região, como os eventos religiosos (a Páscoa, o Natal, o Ano-Novo ou o Dia de Reis).


O enterro da sardinha, Francisco Goya

Esses momentos de diversão - assim como hoje - eram, também, situações de desperdício, onde se gastava em poucos dias o que poderia ser o sustento da família por muitos meses. Mas nada disso parecia importar, inclusive aos pobres, que pareciam viver espremidos entre a lembrança da festa passada e a expectativa da próxima [...].

Apesar de todo esse extenso e variado elenco de festas e rituais, especialmente na Europa meridional, o Carnaval deve ser destacado como a festa popular por excelência. Assim como hoje, era no Carnaval que as pessoas pareciam livres para praticar o que desejavam em pensamento. Começando em janeiro, ou mesmo em dezembro, a euforia crescia quando se aproximava a Quaresma, enquanto toda a cidade virava uma espécie de imenso teatro a céu aberto em que atores e espectadores trocavam seus papéis e eram representados pelas mesmas personagens.


Carnaval em Roma, Johannes Lingelbach

Uma das marcas do Carnaval era o exagerado consumo de alimentos e bebidas. Bebia-se como se o fim do mundo parecesse próximo e como se nunca mais fosse possível embebedar-se. Aqui, excepcionalmente, homens e mulheres estavam juntos, muitas vezes trocando de roupa entre si, ostentando máscaras e fantasias de papas, cardeais, padres, demônios, arlequins, magistrados, bobos e até animais selvagens. E o próprio Carnaval, assim como o rei Momo da atualidade, era representado por um homem gordo, adornado por salsichas, aves, coelhos e acompanhado, como na Itália, por um grande caldeirão de macarrão. Quanto à Quaresma, sua forma mais popular de representação era a de uma velhinha magricela, vestindo roupas pretas enfeitadas de peixe.

O Carnaval era mais popular na área mediterrânica, envolvendo a Itália, a Espanha e a França, tinha menos força na Europa central e era menos expressivo na Grã-Bretanha e Escandinávia, talvez por causa do frio, que desestimulava eventos em locais abertos.


Corredores sem cavaleiro em Roma, Jean Louis Théodore Géricault

Os temas predominantes no Carnaval eram a comida, o sexo e a violência. A comida pode ser exemplificada com o desfile de uma salsicha imensa, cujos duzentos quilos eram suportados por quase cem açougueiros alemães. O sexo, cuja ocorrência aumentava significativamente no Carnaval, pode ser exemplificado por um imenso falo de madeira carregado pelas ruas de Nápoles. Quanto à violência, ela exprimia-se na permissão de xingamentos e profanações ou na agressão direta de animais e pessoas, sobre quem eram descarregados velhos e persistentes rancores. Por conta disso, os assassinatos cresciam de Moscou a Veneza, de Paris a Londres, onde hordas armadas de paus, pedras, marretas e outras ferramentas saqueavam lojas e teatros e atacavam os bordéis.

[...]

MICELI, Paulo. História moderna. São Paulo: Contexto, 2013. p. 130-132.


NOTA: O texto "O Carnaval na Época Moderna: a festa de todos" não representa, necessariamente, o pensamento deste blog. Foi publicado com o objetivo de refletirmos sobre a construção do conhecimento histórico.

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

Os perigos do clima e das doenças no medievo

Um período de temperaturas elevadas interveio durante a Idade Média, e os dois séculos entre os anos 1000 e 1200 foram talvez tão quentes quanto a década de 1990 veio a ser no norte da Europa. Colheitas foram feitas em terras que, por serem tão frios nos verões, um dia tinham sido vistas como inúteis para aragem. As vinhas deram frutos além do atual limite de cultivo de uvas; até o extremo norte da Inglaterra chegou a produzir vinho para beber.

A ilha da Islândia foi ocupada ao primeiro sinal de um período mais quente. Situada no contorno do Círculo Ártico, mas lucrando bastante do aquecimento vindo da Corrente do Golfo, a ilha foi ocupada por alguns religiosos da Irlanda e, depois, em 874, pelos vikings vindos da Noruega. Os vikings sacudiram o norte da Europa exatamente na mesma época em que os árabes islâmicos agitavam o Mediterrâneo, e os maoris ocupavam a Nova Zelândia. Embora os ataques belicosos dos vikings sejam famosos, seus povoamentos foram eficientes e, com o tempo, as cidades e distritos vikings se estenderam desde as cidades de comércio de Kiev e Novgorod, na Rússia, até à costa da França, Escócia, Irlanda, Ilhas Órcadas (ou Orkney), Ilha de Man e Islândia.

Até mesmo a gelada Groenlândia, a maior ilha do mundo, parecia ser um prêmio onde, nesses anos mais quentes, os vikings poderiam pastar suar ovelhas e defumar os peixes que pegavam no mar. No ano 985, pequenos navios zarpavam da Islândia para a Groenlândia com aproximadamente 400 colonizadores, bem como ovelhas, cabras, vacas, cavalos e, provavelmente, pilhas de feno. A maioria eram noruegueses, mas havia um contingente de irlandeses também. Ancorando na costa mais ao sul da Groenlândia, os colonizadores prosperaram no clima cada vez mais quente. No verão, cortavam a grama alta, deixavam-na secar em montes dispostos em fileiras e empilhavam em celeiros de feno, possibilitando alimento suficiente para o rebanho durante o inverno escuro.

A população da Groenlândia cresceu chegando a 4000 ou 5000, em menos de um século e meio. A pequena república viking chegou a ter um convento, um mosteiro, mais 16 igrejas e uma catedral presidida pelo bispo da Groenlândia. Era o tipo de povoamento movimentado do qual suas famílias fundadoras tinham orgulho: parecia provável que duraria por 10.000 anos.

A Groenlândia e a Islândia eram uma ponte de passagem pelo gelado Atlântico Norte; a América estava do outro lado da ponte. Os primeiros desembarques europeus no continente americano foram feitos por expedições vikings exatamente quando a Gronelândia estava sendo ocupada. As mulheres partiram com os colonizadores para a Terra Nova e, segundo dizem, uma das expedições composta de dois navios foi conduzida por Freydis, uma mulher que tinha no machado sua arma pessoal contra os inimigos.


Leiv Eiriksson descobre a América do Norte, Christian Krohg

Nada veio desses povoamentos; os índios americanos não tinham motivos para receber bem os vikings. A terra, com exceção das peles dos animais, não tinha nenhuma mercadoria que empolgasse os comerciantes. Se Cristóvão Colombo, cinco séculos depois, tivesse descoberto essa mesma costa em vez de pisar nos solos das perfumadas Antilhas, ele não seria mais lembrado que os vikings, que construíram cabanas e pastaram seus rebanhos nas margens da Terra Nova.

As estações quentes, após somente alguns poucos séculos, começaram a alterar-se. Até a ilha mediterrânea de Creta entrou numa fase mais fria, por volta do ano 1150. Na Alemanha e Inglaterra, o frio chegou talvez um século depois, e os anos entre 1312 e 1320 foram não só frios como também chuvosos, ao contrário do normal. Como uma boa parte dos grãos tinha de ser reservada para a semeadura do ano seguinte, uma colheita insuficiente impunha fome a muitas pessoas. Em 1316, talvez uma em cada 10 pessoas de Ypres morreu de fome ou subnutrição; em alguns lugares, a carne humana servia de alimento.

Procissões religiosas que aconteciam no oeste da França refletiam as estações ruins. Algumas traziam inúmeras pessoas esqueléticas e descalças, algumas das quais praticamente nuas. Colheitas insuficientes afetavam o abastecimento de roupas baratas, bem como de comida barata, pois os pobres faziam suas roupas da planta do linho, que também sofria com as estações ruins. Na verdade, a terra que normalmente era usada para cultivar o linho poderia ser extremamente necessária para o cultivo de grãos.


Miniatura em um livro de orações do início do século XV. Papa Gregório I (590-604) leva uma procissão em torno da proximidade de Roma, a fim de rezar pelo fim da praga. Em primeiro plano duas vítimas caíram, uma criança e um monge.

Com o passar das décadas, o clima da Groenlândia e do Atlântico Norte ficou mais frio. Os celeiros que antes estavam cheios de feno, agora tinham aberturas de ar. Só três pilhas de feno eram recolhidas, onde antes havia quatro ou cinco. Os navios que se aproximavam, vindos da Europa ou da Islândia, encontravam blocos de gelo flutuando em lugares onde o mar se apresentava aberto, ao contrário de outras épocas. Os colonizadores da Groenlândia esperavam em vão pelos antigos verões de que seus antepassados tanto falavam. As fazendas e as igrejas foram abandonadas. Os jovens eram poucos e casamentos tornaram-se uma raridade. Em 1410, os colonizadores sobreviventes embarcaram em navios que ficavam à espera e rumaram para a Islândia e Noruega. A base europeia nessa terra gelada havia durado menos de 400 anos. [...]

A fase do clima mais quente havia aumentado a taxa de crescimento da população na Europa; entre 1000 e 1250, ela cresceu rapidamente. Em seguida, vieram anos gelados, colheitas mais enxutas e um crescimento mais lento da população. Houve mais anos de fome e mais chance de epidemias. A Europa provavelmente via-se pronta para a Peste Negra.

A Peste Negra de 1348 não foi a única. É provável que tenha atingido a Ásia e a África alguns séculos antes, mas não deixou nenhum registro detalhado de sua casuística. Uma epidemia semelhante atingiu o Império Romano entre 165 e 180 d.C. e indiretamente promoveu o cristianismo, pois muitos romanos ficaram impressionados com a visão dos cristãos dando pão e água às vítimas que se achavam enfermas demais para se moverem. Aproximadamente três séculos depois, outra epidemia, a peste bubônica, veio da Índia. Atingiu Constantinopla em 542 e abriu seu caminho a golpes de foice até a Europa. A maior parte dos que morreram dessa primeira fase da "peste negra" foi condenada dentro de seis dias a partir do momento em que mostravam os primeiros sintomas - dor de cabeça, alta temperatura e o aparecimento na pele de um caroço, aproximadamente do tamanho de um ovo ou de uma laranja pequena. Curiosamente, as vítimas que apresentavam caroços maiores em sua pele tinham pais probabilidade de sobreviver. A China e o Japão também sofreram muitos casos com epidemias que talvez se parecessem com a Peste Negra. Dizem que a cidade chinesa de Kaifeng chegou a perder várias centenas de habitantes durante uma epidemia em 1232. Se a cidade ficou tão arrasada, as áreas rurais a seu redor devem ter sido devastadas de forma semelhante pela doença.


A praga, Arnold Böcklin

Uma peste é como um turista compulsivo: ela cria ânimo quando um novo caminho é aberto. A invasão dos mongóis e sua presença unificadora sobre uma imensa área da Ásia ressuscitou o comércio ao longo das antigas rotas de caravanas e também serviu de entrada para a peste bubônica mover-se para o noroeste, em direção à Europa. Nos portos europeus, os ratos e as pulgas foram os portadores da peste. Após chegar à Europa em 1348, ela se espalhou rapidamente. Algumas cidades - Paris, Hamburgo, Florença, Veneza - perderam metade de sua população ou mais. Os vilarejos tinham mais chance de escapar da infecção. Ela se espalhava lentamente no inverno e, rapidamente, no verão. No total, talvez 20 milhões de europeus tenham morrido, ou uma em cada três pessoas. O monstro das pestes, a Peste Negra foi seguida em intervalos por pestes de menor vulto.

A escassez de alimentos das primeiras décadas foi substituída pela escassez de mão-de-obra. As terras aráveis já não faltavam. Em algumas regiões da Alemanha, havia mais vilarejos abandonados do que habitados, e os campos que um dia soavam alto com trabalhadores na colheita estavam agora cobertos de mato e de silêncio.

A Idade Média na Europa é geralmente considerada como tendo ido de 500 a 1500 d.C. Diferindo-se dos mil anos anteriores e dos 500 anos seguintes, a Idade Média foi mais introspectiva e menos fascinada com as conquistas individuais. O fato de essa era ter alcançado menos que o Império Romano, em termos materiais, não foi motivo de decepção. A maioria dos cristãos provavelmente acreditava que os cidadãos romanos, em seus anos de triunfo, eram essencialmente pagãos e que, por isso, muitas de suas conquistas eram de pouquíssimo valor.

Muitos dos líderes intelectuais e políticos da Europa durante a Idade Média não se sentiam inferiores ao Império Romano; acreditavam que estavam construindo seu próprio império, unidos por uma religião em comum. Chamaram-no de Sacro Império Romano e era uma prova inicial da federação europeia das últimas décadas do século XX.

BLAINEY, Geoffrey. Uma breve história do mundo. São Paulo: Fundamento Educacional, 2004. p. 116-119.

NOTA: O texto "Os perigos do clima e das doenças no medievo" não representa, necessariamente, o pensamento deste blog. Foi publicado com o objetivo de refletirmos sobre a construção do conhecimento histórico.

sábado, 1 de fevereiro de 2014

O universo mental e a cultura popular na Idade Média

A Igreja medieval tentou tornar o mundo o mais simbólico possível, somente decifrável pelos homens de fé. Somente os clérigos sabiam interpretar o mundo dos homens porque ele, segundo a pregação religiosa, havia sido criado como reflexo do mundo celestial. Uma vez que nosso mundo foi criado à semelhança da Cidade de Deus, somente aqueles que conheciam o mundo celestial podiam entender este em que vivemos. Dessa forma os clérigos definiam como deveria ser o comportamento humano, criavam regras de comportamento moral e social e valores culturais.

Assolados por um Demônio sempre à espreita do erro, obrigados a viver entre as muitas tentações condenadas pela Igreja - por exemplo, não pagar suas obrigações -, os pobres não podiam partir para a vida contemplativa, voltada apenas para as orações, para se livrarem dos pecados. Também não dispunham de recursos para fazer grandes doações à Igreja e assim livrarem-se do castigo do inferno. Era um cenário de terror.

Devemos nos perguntar, porém, em que medida as pessoas realmente se envolviam nessa pregação religiosa, ou apenas toleravam essa doutrinação, uma vez que ela era feita pela classe dominante; em que medida ainda preservavam suas tradições pagãs ou passaram de fato a acreditar somente nos valores católicos. Alguns aspectos da cultura popular nos indicam que havia reação a essa imposição cultural.

Uma das características da cultura oficial era o seu tom de seriedade. A crença numa providência divina sinistra; o papel dominante ocupado pela ideia de pecado; a necessidade do sofrimento para a redenção humana eram fatores que criavam um ambiente de preocupação constante. A opressão e a intimidação sofridas pelos pobres consagravam a seriedade. O tom sério afirmou-se como a única forma de expressar a verdade e tudo o que era importante e bom.

O riso, por sua vez, acabou sendo visto como o oposto: a expressão do que era mau. O riso foi declarado como uma emanação do diabo. O cristão deveria conservar a seriedade sempre, para demonstrar seu arrependimento e a dor que sentia na expiação dos seus pecados. É interessante notar que nas histórias infantis medievais essa articulação entre bem e seriedade, mal e riso é fortemente representada. A mocinha que é boa sofre sempre e é tristonha; a bruxa ou feiticeira que é má está sempre dando gargalhadas. Certamente que, seguindo o raciocínio moral da Idade Média, no final da história o sofrimento será recompensado e o riso castigado.

Por ter sido proibido, condenado como um pecado, o riso tornou-se uma forma de reação contra a opressão. Fora da ideologia oficial, o culto ao riso, à alegria, aos prazeres acontecia em, pelo menos, duas festas populares: a festa dos loucos e a festa do asno. Eram festividades realizadas nas ruas nas quais as pessoas se permitiam todas as transgressões possíveis: excessos na comida, embriaguez, gestos obscenos, nudez e, logicamente, muito riso.


A luta entre o carnaval e a quaresma (detalhe), Pieter Bruegel

A Igreja tentava combater esses rituais fazendo coincidir as festas religiosas com as festas pagãs, com o objetivo de cristianizar os cultos cômicos. A princípio a festa dos loucos era realizada dentro das igrejas. Quando foi proibida, passou a se realizar nas tavernas e nas ruas.

A tradição mais antiga permitia o riso e as brincadeiras no interior das igrejas durante a celebração da Páscoa. O padre, do púlpito, fazia brincadeiras e contava histórias divertidas para provocar o riso nos fiéis, depois do período de abstinência que precedia a Páscoa. Esse riso era entendido como uma forma de renascimento feliz após o longo tempo de jejum. As brincadeiras e as histórias usadas pelo padre para fazer os paroquianos rir fazem referência essencialmente à vida material e corporal. Assim como o riso, estavam autorizadas a ingestão de carne e a vida sexual, também proibidas durante o jejum.

Ao que parece, facções do clero organizavam festas exclusivas, sem a participação de leigos, onde os excessos de alimentos e de bebidas não eram condenados. Realizavam-se festas por ocasião da consagração de uma igreja, quando era rezada a primeira missa. Organizavam-se banquetes em honra dos protetores ou doadores enterrados na igreja, quando se bebia à saúde do morto. "Os dominicanos espanhóis bebiam à saúde de seus santos protetores sepultados nas igrejas, pronunciando o voto ambivalente típico: viva el muerto." (BAKHTIN, Mikhail. A cultura popular na Idade Média e no Renascimento.São Paulo: Hucitec/EUB, 1987. p. 69.)

Muitas festas católicas acabaram ganhando feições pagãs. Por exemplo, São Martim e São Miguel eram vestidos com roupas inspiradas no deus grego Baco, pois eram considerados protetores dos produtores de vinho. Na festa de São Lázaro vários costumes pagãos eram retomados: procissão de animais, o uso de fantasias, danças em praça pública. Todos esses são exemplos que comprovam que a cultura católica não sufocou traços de outras culturas, tendo havido contaminação da cultura pagã até mesmo nas festividades da própria Igreja.

Durante a festa dos loucos vigorava uma inversão social. As pessoas invertiam seus hábitos comuns: abusavam da bebida e da comida, perdiam o pudor, travestiam-se, riam abandonando a atitude geralmente série. Usavam as roupas do avesso e colocavam as calças na cabeça.


Dois tolos do carnaval, Pieter Bruegel

Mas, o que é mais sério, havia uma inversão do papel que os estamentos sociais representavam. Era feita a eleição de um abade, de um bispo, de um arcebispo e de um papa para provocar o riso nas pessoas. Esses clérigos cômicos realizavam missas solenes. Escolhiam-se reis e rainhas, que também deveriam rir. A ordem social, defendida como natural pelos poderosos, era subvertida nos dias de festa. Se na maior parte do ano os camponeses aceitavam com submissão o reinado de terror imposto pelos senhores, durante as festas eles revelavam seu descontentamento, sua indignação com a exploração a que eram submetidos. É como se, durante esses pandemônios públicos, os servos revelassem a consciência que tinham da injustiça social em que viviam.

As festas populares se opunham ao imobilismo social que definia o lugar de cada um na sociedade de acordo com o seu nascimento, sem oferecer a possibilidade de mudança. Também se opunham à rígidez conservadora do regime e das concepções estabelecidas, que não podiam ser contestadas.


A literatura oficial era sacra, de louvor a Deus. Contava a vida dos santos, escrevia e reescrevia os textos bíblicos, traduzia as regras de comportamento a ser seguidas pelos católicos. Os textos filosóficos tentavam entender e explicar os mistérios divinos. A literatura greco-romana ficava devidamente enclausurada nos mosteiros, acessível a membros do alto clero.

Bem diferente era a literatura difundida entre os populares. Acompanhando o sentido das festas populares, a literatura paródica subvertia o caráter dos textos sagrados, criava paródias para serem usadas na festa dos loucos, ou simplesmente para criar oportunidades de riso. [...]

A literatura paródica tinha um objetivo de recreação, era para ser lida em momentos de festa, nos quais predominava um clima de liberdade e de possibilidade de mudança da ordem estabelecida. Para os parodistas, em tudo havia comédia: na religião, na sociedade, no universo, na história. A exaltação do lado cômico funcionava, mais uma vez, como a negação e a repulsa à seriedade imposta pela cultura oficial. Nada mais lógico do que o fato de que a grande maioria das paródias se fazia sobre textos sagrados.

[...]

As versões cômicas das orações católicas mais conhecidas, como o Pai-Nosso, a Ave-Maria e o Credo, são numerosas. A partir do século XI todas as características da doutrina e dos cultos oficiais são parodiados. São conhecidas a Liturgia dos bêbados, a Liturgia dos jogadores, a Liturgia do dinheiro, o Evangelho do marco de prata, o Evangelho dos beberrões. Enfim, nada escapava dos parodistas.

[...]

Como reagia o poder diante de tanta irreverência? Ao que parece havia a necessidade de fazer concessões a esses deboches. Permitir essas transgressões periódicas, devidamente circunscritas nos dias de festa, era um pequeno preço a ser pago pelos longos dias da maior parte do ano, em que os populares se submetiam ao controle e, o mais importante, aos interesses da classe dominante.

No final do Império Romano o clero católico havia condenado as apresentações teatrais por considerá-las imorais e violentas. Dessa forma o teatro romano deixou de ser encenado. Todavia, foram os próprios clérigos que trouxeram o teatro de volta, aproveitando-se das festas religiosas para encenar peças que retratavam cenas bíblicas.

Na Alta Idade Média as encenações eram feitas dentro das igrejas. O aumento de público levou as apresentações para a praça pública [...]. De um lado do palco ficava o Paraíso e do outro a boca de um dragão representava o Inferno. Reproduzia-se, assim, o destino do ser humano segundo a visão cristã [...].

As encenações em praça pública eram feitas nos dias de festa, sobretudo no Natal e na Páscoa, e a mesma história era repetida várias vezes. Eram apresentadas cenas bíblicas misturadas a referências da vida cotidiana, para que os espectadores pudessem entender o simbolismo das ideias religiosas.

Mas, ao ser levado para as ruas, o teatro sofreu mudanças. Na praça, ao ar livre, foram aparecendo outros temas, além dos religiosos. Na Baixa Idade Média, representações que falavam do cotidiano, que faziam críticas às autoridades, que satirizavam os valores sociais foram se tornando cada vez mais populares, enquanto o clero perdia o controle sob a produção teatral. Os padres afastaram-se e as apresentações teatrais acabaram proibidas novamente.

PETTA, Nicolina Luiza de; OJEDA, Eduardo Aparício Baez. História: uma abordagem integrada. São Paulo: Moderna, 2001. p. 41-43.

NOTA: O texto "O universo mental e a cultura popular na Idade Média" não representa, necessariamente, o pensamento deste blog. Foi publicado com o objetivo de refletirmos sobre a construção do conhecimento histórico.

sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

O Diabo, uma criação do cristianismo

O diabo foi “a principal criação do cristianismo durante a longa Idade Média”, segundo Jacques Le Goff. No entanto, originalmente Satã tinha um lugar limitado no Velho Testamento, apesar de no livro do Gênese sua ação ser decisiva na queda da humanidade. No Novo Testamento, ele aparece sob diversos nomes: Satã (o adversário), o diabo (aquele que se põe de través), Belzebu (o rei das moscas). A Idade Média construiu uma demonologia complexa. Raros são os autores que não discutiram esse tema, sobretudo sua existência. Mas a maioria concordava em dizer que o diabo era bom quando foi criado, e o orgulho é que tinha provocado sua queda e a dos anjos maus. Lúcifer caiu no inferno, seu território, enquanto os anjos decaídos assustavam o mundo e atormentavam os seres humanos – estavam na origem de todas as perdições.


Ressurreição da carne, (1499-1502). Capela de San Brizio, Duomo, Orvieto. Luca Signorelli.

O fascínio exercido pelo diabo e pelos demônios sobre os teólogos e clérigos que especulavam sobre sua identidade estava ligado ao poder conferido a ele. O diabo tinha a capacidade de se deslocar pelos ares, o dom da ubiqüidade, a faculdade de prever o futuro e sondar o passado. Por fim, era capaz de penetrar no corpo humano por meio da possessão. As descrições são surpreendentes: o diabo transformava o corpo e a voz do possuído, o jogava no chão e lhe infligia tormentos atrozes. Além disso, os demônios íncubos (masculinos) e súcubos (femininos) podiam se apoderar da matéria humana e fazer as mulheres gerarem monstros. Todos esses prodígios eram, na verdade, ações de criaturas divinas destinadas a testar a fé humana. Lado sombrio do cristianismo, muitos eram os culpados. Primeiro, os pagãos, depois os judeus e os muçulmanos, os heréticos e, na fase final da Idade Média, as feiticeiras. O próprio pecador, mergulhado na luxúria, na gula ou no roubo, era classificado de possuído.


BETING, Graziella. Coleção história de A a Z: [volume] 2: Idade Média. Rio de Janeiro: Duetto, 2009. p. 26-27.

NOTA: O texto "O Diabo, uma criação do cristianismo" não representa, necessariamente, o pensamento deste blog. Foi publicado com o objetivo de refletirmos sobre a construção do conhecimento histórico.

sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

As boas maneiras à mesa: o uso do garfo

Banquete de William, o Conquistador. Tapeçaria de Bayeux, ca. 1080. Artista desconhecido.

Um outro objeto de metal cuja data exata de surgimento ignoramos é o garfo, pois a Última ceia – onde esperaríamos encontrá-lo – tem uma tradição iconográfica tão densa de significados simbólicos que não apenas admite variantes mínimas (e, portanto, usualmente carregados de uma mensagem precisa), como também condiciona pesadamente a iconografia dos banquetes profanos. Embora os textos assinalem o conhecimento do garfo, raramente ele aparece representado. É bem verdade que o costume geral continuou a ser aquele de comer em comum, com alguns pratos para a comida, alguns copos e algumas facas para cortar a carne. Trata-se de um dado importante para compreender a sociedade medieval, não-individualista, durante muito tempo propensa, ao contrário, a se ver como um grupo (temos o Juízo final, mas muito raramente representa-se o julgamento de uma pessoa sozinha), e indiferente às peculiaridades de cada um (até o final do século XIV, o retrato na acepção própria do termo não existe, ele é apenas verossímil e não realista).

Os homens de igreja vêem o garfo como um instrumento de debilidade e perversão diabólica. São Pedro Damião (1007-72) não teve nenhuma piedade da pobre princesa bizantina Teodora, casada com o doge Domenico Selvo, que usava garfo e cercava-se de refinamento, tentando tornar mais gentis as maneiras do Ocidente: “Não tocava os acepipes com as mãos, mas fazia com que os eunucos lhes cortassem os alimentos em pequenos pedaços. Depois mal os saboreava, levando-os à boca com garfos de ouro de dois dentes.” A morte terrível da jovem mulher, cujas carnes gangrenaram lentamente (“corpus eius computruit”), foi vista como uma justa punição divina para tão grande pecado.

Inocêncio III (1160-1216), quando ainda era Lotário, conde de Segni, em seu De miséria humanae condiciones, fez a sombra da culpa pairar sobre um longo catálogo de delícias:

O que há de mais vão do que ornamentar a mesa com toalhas decoradas, facas de cabo de marfim, vasos de ouro, terrinas de prata, copas e copos, crateras e bacias, tigelas e colheres, com garfos e saleiros, bastões e jarros e caixas e leques? ... De fato, está escrito: “Quando o homem morrer não levará consigo nada disso, e sua glória não ascenderá com ele.”

Os primeiros testemunhos iconográficos do garfo remontam mais ou menos ao tempo da invectiva de são Pedro Damião: em uma iluminura do Códice das leis lombardas, do início do século XI, o rei Rotaris empunha um garfo à mesa; usavam-no igualmente os educados comensais de duas outras iluminuras mais ou menos contemporâneas, tiradas de um manuscrito de De universo, de Rábano Mauro, para abrir a longa exemplificação dos vários tipos de refeições, alimentos e bebidas e para ilustrar o capítulo sobre os cidadãos. “Cives vocati, quod in unum coentus vivant, ut vita communis ornator Fiat et tutior” (“Os cidadãos – explica o autor – são chamados assim a fim de que vivam reunidos em conjunto e para que sua vida em comum seja mais agradável e segura com todos juntos”); o iluminador quis ressaltar que o rito social da refeição é um fator de civilidade e que os utensílios, entre os quais os garfos, exemplificam o que há de agradável na vida urbana.


Banquete medieval. Miniatura do Livro das horas do Duque de Berry. Mês de janeiro, 1412-1416, Irmãos Limbourg.

Já no século XII, conheço apenas uma representação da Última ceia na qual um garfo solitário encontra-se excepcionalmente pousado sobre a brancura da toalha: está em uma das iluminuras do Jardim das delícias, da abadessa Herrad de Landsberg, do convento de Hohenburg. Não sabemos se o acréscimo foi uma orientação pessoal da comitente, originada pelo hábito das boas maneiras; em todo caso, assemelha-se muito aos verdadeiros garfos medievais que chegaram, sabe-se lá por meio de que peripécias, ao Museu Horne em Florença.

O uso do garfo generalizou-se par e passo com a difusão de um alimento tipicamente medieval que é até hoje um pilar da cozinha italiana – a massa -, pois era o instrumento adequado para enrolar os fios quentes e escorregadios.


FRUGONI, Chiara. Invenções da Idade Média: óculos, livros, bancos, botões e outras inovações geniais. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2007. p. 107-110.

NOTA: O texto "As boas maneiras à mesa: o uso do garfo" não representa, necessariamente, o pensamento deste blog. Foi publicado com o objetivo de refletirmos sobre a construção do conhecimento histórico.

segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

Thomas Müntzer e a revolta camponesa

Texto 1. Thomas Müntzer foi, a princípio, um discípulo de Lutero e por este nomeado pastor. Müntzer, exaltado e violento, logo ultrapassou as ideias do mestre. Com um grupo de seguidores, deixou de se apoiar nas Escrituras e passou a se orientar pela voz do Espírito que dizia falar dentro dele. Retomando tradições antigas, a firmava que o fim do mundo se aproximava, que era preciso formar comunidades de eleitos para aguardar esse momento. Pregava também a revolução social, a luta contra os senhores e os príncipes, em favor dos camponeses. "Todos os bens devem ser divididos entre todos", afirmava Müntzer ao reivindicar uma reforma agrária, a abolição do trabalho servil, dos privilégios e dos impostos.


Thomas Müntzer, Escola alemã.

Os partidários de Müntzer foram expulsos sucessivamente de várias localidades até se estabelecerem, em 1525, na cidade de Mühlhausen e tornarem-se os líderes do movimento camponês na região. Depois de alguns meses de luta, o pequeno exército rebelde foi destruído. Müntzer, capturado, foi torturado e executado em público. (VEIGA, Luiz Maria. A Reforma Protestante. São Paulo: Ática, 1990. p. 28-29.)

Texto 2. Enquanto no campo católico conservador se agruparam todos os elementos interessados na conservação do que existia, quer dizer, do poder imperial, dos príncipes eclesiásticos e parte dos seculares, dos nobres ricos, dos prelados e do patriciado das cidades, a reforma luterana burguesa e moderada agrupa os elementos opositores bem instalados na vida: a massa da pequena nobreza, a burguesia e até parte dos príncipes seculares que queriam enriquecer arrebatando os bens do clero e que aproveitaram esta oportunidade para conseguir independência maior do poder imperial. Os camponeses e plebeus por fim formaram o partido revolucionário, cujo porta-voz mais ardente foi Thomas Müntzer.

[...] Ao estourar a guerra camponesa em regiões onde os príncipes e a nobreza eram na maioria católica, Lutero logo assumiu uma atitude conciliadora. Arremeteu contra os governos atribuindo-lhes a culpa da insurreição que, segundo ele, era devida à opressão que exerciam. Para ele, não eram os camponeses que opunham resistência: era o próprio Deus. Por outro lado, a sublevação era também ímpia e contrária ao Evangelho. Finalmente aconselhou ambas as facções a fazerem concessões e se reconciliarem [...].

A Lutero, reformador burguês, oponhamos Müntzer, revolucionário plebeu [...].

[...] Em 1522 fez-se pregador em Alstadt. Ali começou a reformar o culto. Suprimiu completamente o uso do latim, antes de Lutero se atrever a fazê-lo, deixando que se lesse a Bíblia inteira e não somente as epístolas e os evangelhos de rigor no culto dominical. Ao mesmo tempo organizava a propaganda na região. O povo acudia de toda parte e Alstadt veio a ser o centro do movimento anticlerical popular em toda a Turíngia.

Müntzer continuava sendo o teólogo, seus ataques dirigiam-se quase exclusivamente contra o clero. Porém, não propugnava a discussão pacífica e o progresso legal como já o fazia Lutero. Saiu, pelo contrário, pregando a violência, conclamando à intervenção armada contra os padres romanos. (ENGELS, Friedrich. As guerras camponesas na Alemanha. São Paulo: Grijalbo, 1977. p. 37-49.)

NOTA: O texto "Thomas Müntzer e a revolta camponesa" não representa, necessariamente, o pensamento deste blog. Foi publicado com o objetivo de refletirmos sobre a construção do conhecimento histórico.

domingo, 15 de dezembro de 2013

Revolução Francesa (1789-1799)

A Revolução Francesa (1789-1799) foi o grande marco na história política da Europa moderna. Ela representou grandes rupturas com o poder real e o fim da sociedade estamental. Dela surgiram vocabulários, projetos políticos, códigos legais, novas noções de justiça, o voto universal masculino, a ideia de escola pública e até mesmo um novo sistema métrico.


Sans-culotteLouis Léopold Boilly. 
Os sans-culottes (literalmente, sem culote) eram assim chamados por não usarem as roupas típicas dos nobres, caracterizados por um calção curto (culote) e meias brancas até a altura dos joelhos. Eles andavam armados e tiveram grande importância em todo o desenvolvimento da Revolução Francesa. 
 
A crise financeira e as diferentes insatisfações sociais podem ser apontadas como pontos importantes do período pré-revolucionário. A estrutura da sociedade francesa apresentava um mundo “desigual em direitos”, separada em clero, nobreza e terceiro estado. A maior parte da população pertencia ao terceiro estado, responsável pela sustentação econômica do país. No entanto, o primeiro e o segundo estado detinham antigos privilégios, tais como direito a pensões e isenções de impostos, além de poderem ocupar cargos políticos.


Charge representando o terceiro estado carregando o clero e a nobreza nas costas.

Desse modo, a população custeava a França, seu aparelho burocrático, bancava o luxo da corte e patrocinara duas guerras em que o país se envolveu: a Guerra dos Sete Anos [...] e a Independência dos Estados Unidos [...]. Ao mesmo tempo, os membros do terceiro estado não tinham direitos políticos nem eram considerados cidadãos.

Luís XVI, rei desde 1774, consultou seus ministros. A solução era fazer o primeiro e o segundo estados pagarem impostos. Com o intuito de discutir esse problema, foi marcada a Assembleia dos Notáveis, em fevereiro de 1788. Sem que houvesse resolução, Luís XVI convocou os Estados-gerais, reunidos em maio do ano seguinte no Palácio de Versalhes.

Em junho de 1789, o terceiro estado se reuniu em Assembleia Nacional, e Luís XVI propôs uma reforma. A revolução já estava em curso. A proposta foi recusada, e uma Assembleia Constituinte foi formada. O historiador Georges Lefebvre batizou esse momento de “o grande medo”. No dia 4 de julho de 1789, houve a queda da Bastilha, em que a população invadiu uma antiga prisão, símbolo do poder real. No mês seguinte, no dia 26, foi publicada a Declaração de Direitos do Homem e do Cidadão, documento-chave que propunha a igualdade de direitos.


A tomada da BastilhaHenri Paul Perrault.
"[...] Em tempos de revolução nada é mais poderoso do que a queda de símbolos. A queda da Bastilha, que fez do 14 de julho a festa nacional francesa, ratificou a queda do despotismo e foi saudada em todo o mundo como o princípio da libertação. [...] a queda da Bastilha levou a revolução para as cidades provincianas e para o campo. [...]" HOBSBAWN, Eric J. A era das revoluções: Europa 1789-1848. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2001. p. 79-80.

Em 1791, ficou pronta a primeira Constituição revolucionária, marcada pelo fim dos privilégios feudais. Sem rumo e poder, Luís XVI tentou fugir, a fim de organizar exércitos e armar a contrarrevolução. No entanto, foi preso em agosto de 1792, em Varenne. Em setembro, foi organizada a República Jacobina, marcada pela figura de Robespierre e pela formação do Comitê de Salvação Pública. O regime do “Terror” usaria todos os meios para manter os jacobinos no poder. O uso da guilhotina e a morte de milhares de franceses marcaram a radicalização da revolução. O próprio rei foi julgado e executado em janeiro de 1793. A rainha Maria Antonieta, em outubro do mesmo ano. Danton e Marat, líderes revolucionários, também foram executados.

No ano de 1794, os girondinos retomaram o poder, e o próprio Robespierre foi executado. O governo do Diretório, entre os anos de 1795 e 1799, marcou a fase final do movimento, antes da ascensão de Napoleão Bonaparte, no célebre golpe de 18 Brumário.

A Revolução Francesa marcou o início da Idade Contemporânea, o fim do absolutismo e dos privilégios feudais e ajudou, certamente, a formar os alicerces do Estado liberal e democrático a partir de um novo conceito de revolução: a ruptura com a ordem e a proposta de algo novo.

Marcus Vinícius de Morais. Revolução Francesa. In: BETING, Graziella. Coleção história de A a Z: [volume] 3: Idade Moderna. Rio de Janeiro: Duetto, 2009. p. 59-60.

NOTA: O texto "Revolução Francesa (1789-1799)" não representa, necessariamente, o pensamento deste blog. Foi publicado com o objetivo de refletirmos sobre a construção do conhecimento histórico.

quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

A juventude medieval

Amantes. Codex Manesse

Determinar a idade que caracterizava a juventude não é fácil. Entrava-se na juventude depois da infância, em princípio após a maioridade, 12 anos para as meninas e 14 para os meninos, mas aqueles designados como jovens tinham 16 anos ou mais. O limite superior variava.

No século XII, eram considerados “jovens” os aristocratas que ainda não eram casados e nem estavam instalados em uma propriedade, ou seja, aqueles que tinham vivido a busca da identidade, por meio da vagabundagem, da violência e da conquista de mulheres. Um estudo do vocabulário mostra que nos séculos XIV e XV podia-se ser qualificado de “rapaz” e já ser casado e estar instalado. Nessa época, a aparência física era mais importante que a noção de faixa etária. A juventude também se definia pelo tipo de comentário que as outras faixas etárias faziam a respeito de alguém.

As opiniões oscilavam entre a brandura e o rigor. Idade da loucura, a juventude também podia ser desculpável e agir como uma espécie de circunstância atenuante. A juventude não era uma fase de violências específicas, mesmo que acontecesse de jovens se agruparem em bandos para praticar estupros coletivos e hesitarem menos que outros em andar armados e desafiar as ordens.

Claude Gauvard. Juventude. In: BETING, Graziella. Coleção história de A a Z: [volume] 2: Idade Média. Rio de Janeiro: Duetto, 2009. p. 14.

NOTA: O texto "A juventude medieval" não representa, necessariamente, o pensamento deste blog. Foi publicado com o objetivo de refletirmos sobre a construção do conhecimento histórico.

terça-feira, 3 de dezembro de 2013

Amsterdã, 1600

O frenético ritmo de desenvolvimento do Século de Ouro dos Países Baixos dominava a Amsterdã dos anos 1600. Comerciantes abastados, artistas e trabalhadores braçais chegavam diariamente, depois que as províncias do norte se uniram, no fim do século XVI, em busca de independência. O comércio estava mais próspero que nunca, impulsionado pela criação da Companhia das Índias Orientais em 1602. Ciência, tecnologia e arte floresciam. O clima era de liberdade religiosa e de pensamento. Nesse cenário humanista e liberal, nasceu um projeto de desenvolvimento urbano que se tornaria a marca registrada da cidade holandesa: a construção do cinturão de canais.

A população de Amsterdã aumentava em escala extraordinária e a cidade crescia desgovernada para acompanhar o boom demográfico. Em 1585, havia ali 30 mil habitantes. Um século depois, o número chegaria aos 200 mil. Subúrbios ilegais brotavam nos entornos da muralha que cercava a cidade, um perigo para a segurança local, Planejar o espaço urbano não era luxo de cidade rica: era questão de sobrevivência. O modelo de canais dispostos em semicírculo foi, na verdade, uma solução óbvia para uma cidade que se formou à beira d’água e sempre se viu às voltas com soluções para conviver e prosperar nessa condição. Como descreve [...] Fred Feddes [...]: “A água não foi nem uma escolha nem uma virtude para os moradores. Ela estava lá desde o começo”.

Um ditado popular dizia que “Deus criou o mundo, mas os holandeses criaram a Holanda”. Amsterdã começou a ser erguida por volta do ano 1000 por colonizadores que chegaram à região então conhecida como Amstelland, uma área pantanosa, com um grande lago e alguns rios. Na época, valas de 1 m de largura eram cavadas no solo ensopado para drená-lo, padrão que ainda hoje pode ser visto em pontos da cidade, como os canais do bairro de Jordaan. Por volta de 1265, diques foram reforçadas para a construção de uma barragem – a “Dam” do nome da cidade – no Amstel, rio que a corta e foi tão moldado pelo homem ao longo da história, que é considerado por alguns como seu primeiro canal. Entre 1428 e 1450, escavou-se o antigo Stedegracht, que passou a delimitar a área da cidade e funcionava como fosso de proteção.

Vias aquáticas também eram cavadas para escoar as mercadorias do porto para a cidade – a vocação de Amsterdã para o comércio se manifestou desde cedo e o motivo para isso foi bastante prático. “Os Países Baixos como um todo não têm recursos naturais importantes. A terra é muito pantanosa para se cultivarem grãos e o clima não é excepcional”, afirma Kees Zandvliet, professor de História da Universidade de Amsterdã e chefe de pesquisas, exposições e educação do Museu de Amsterdã. Some a isso o fato de a cidade estar localizada em uma estrutura de delta, que facilita a circulação de navios, num ponto privilegiado da Europa, no Mar Báltico e próximo a países como França, Inglaterra e Alemanha. Quando a cidade crescia, uma nova faixa de terra era adicionada à sua área e acrescentava-se também uma de água, em forma de canal. A tecnologia para essas obras? “Sempre a boa e velha força humana”, diz Zandvliet. “Eram pessoas com pás, jogando a lama para o lado ou recolhendo-a em um barco.”

Foi dessa forma que Amsterdã cresceu até as últimas décadas do século XVI, quando o fluxo populacional se intensificou, abarrotando a cidade e também áreas fora da muralha. A Trégua dos Doze Anos, entre 1609-1621, que interrompeu a Guerra dos Oitenta Anos contra os espanhóis, foi a oportunidade para ampliar as fortificações, expandir o centro, regularizar áreas ilegais e aumentar o porto da cidade. “A história mostra que os canais não eram populares na época”, afirma Feddes. “Eles eram uma necessidade, precisavam estar ali.”

Para a cidade, dinheiro e mão de obra não eram problemas. Em 1610, um projeto inicial foi encomendado pelo Conselho da cidade a Hendrick Jacobsz Staets. Como seus desenhos originais desapareceram, não se sabe se a ideia da estrutura em semicírculo foi dele. O que se sabe é que Maurício de Nassau (o mesmo personagem da invasão holandesa em Pernambuco) foi consultado. Hoje, os historiadores acreditam que a expansão deu-se em etapas, e os canais paralelos e concêntricos Herengracht (em português, “Canal dos Senhores”), Keizergracht (“Canal do Imperador”) e Prinsengracht (“Canal do Príncipe”), de 1613, foram seu ponto alto. Em 1620, eles foram prolongados até o Rio Amstel e deram o formato atual da cidade, metade de um círculo no qual o diâmetro maior marca o encontro com as águas do mar.


The bend in the Herengracht, Amsterdam. Gerrit Adriaensz

“Amsterdã não era uma cidade nova, e durante a expansão foi preciso trabalhar com o que já havia ali. A água foi usada no projeto”, diz Emma van Oudheusden, do museu Het Grachtenhuis, em Amsterdã, que trata da história dos canais. “Seria muito mais caro, por exemplo, construir ruas ou bulevares.”

Maior do que qualquer outro projeto urbanístico holandês da época, a construção não foi um mar de rosas. Quem morava no local foi pressionado a se mudar, levando junto sua casa de madeira. “A expansão em larga escala significou segregação social: os ricos passaram a viver ao longo dos canais e os trabalhadores, nas pequenas ruas abertas para servir de conexão e pontos de comércio”, diz Feddes. Há histórias de membros do Conselho da cidade que adquiriam os terrenos por preços baixíssimos para revender à prefeitura – e isso na era crime. “A cidade era governada pelos calvinistas”, diz Zandvliet. “De manhã, eles faziam negócios e, à tarde, se reuniam na prefeitura para decidir o que era melhor para Amsterdã.”

Curiosamente, pouco se sabe sobre a obra em si. Os canais foram cavados ao mesmo tempo, a partir do Lago IJ, em direção ao sul da cidade. A areia retirada era usada para tornar a área ao seu redor mais alta e protegida da água. Não há registros de quantos trabalhadores colocaram a mão na massa. “Analisei uma série de arquivos em busca de imagens da construção e nada encontrei, mas deveria haver milhares de pessoas trabalhando”, diz Feddes.

Próximo do centro, o Herengracht era o canal mais luxuoso. Junto com o Keizersgracht, o canal central que só não virou um bulevar nos moldes do que havia em Haia por causa do alto custo, foi concebido como área residencial. Nenhum dos dois recebia o tráfego de barcos com mercadorias do porto – só eram usados para transporte de pessoas. O Prinsengracht, o mais externo dos três, concentrava residências, mercados, comércio e armazéns e era o único com conexão direta para o IJ.

Os terrenos de frente para a água foram divididos em longas faixas e vendidos para a construção de casas – que seguiam regras específicas. “A altura e a área máxima eram predeterminadas”, diz Emma. “Nos fundos, não era permitido construir e os espaços eram ocupados por jardins.”

O Ano do Desastre (1672), quando a Holanda sofreu ataques da Inglaterra, de estados germânicos e da França, mudou os rumos do projeto. Os terrenos que faltavam para completar o semicírculo foram vendidos quase de graça ou viraram parques.

Os séculos seguintes foram de vacas magras, em especial depois da invasão francesa, que durou até 1813. Por isso, no fim dos anos 1800 teve início um movimento para se fecharem muitos canais. Tratava-se de uma questão de saúde pública. Sem sistema de esgoto, que só viria em 1900, tudo acabava na água.

A situação, que nunca foi boa (o terreno plano e a divisão dos canais tornavam a circulação da água lenta), chegou a um ponto desastroso com uma epidemia de cólera no começo do século XX. Cobrir os canais era visto como sinal de progresso. Mais ruas significava espaço para os carros, que ganhavam importância no transporte. “No século XIX, o governo fez de tudo para a cidade voltar a ser um importante centro econômico”, diz Emma. “As pessoas não viam mais beleza nos canais”. Quando pareciam destinados aos livros de história, uma mudança de mentalidade tomou conta de Amsterdã no início do século XX. Turistas eram atraídos para a cidade construída sobre a água. A Europa vivia um momento de resgate de suas heranças e a cidade dos canais era um de seus cartões-postais mais preciosos, exóticos e raros.


Julia Moióli. Caminhos da água. In: Revista Aventuras na História. Edição 121, agosto 2013. p. 50-55.

NOTA: O texto "Amsterdã, 1600" não representa, necessariamente, o pensamento deste blog. Foi publicado com o objetivo de refletirmos sobre a construção do conhecimento histórico.