"Os espelhos estão cheios de gente.
Os invisíveis nos vêem.
Os esquecidos se lembram de nós.
Quando nos vemos, os vemos.
Quando nos vamos, se vão?"
Eduardo Galeano: Espelhos
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segunda-feira, 7 de novembro de 2016

Robin Hood: a rainha dos bosques de Sherwood

João Pequeno e Robin Hood, Frank Godwin

É Primavera nos bosques de Sherwood. As aves cantam e esquilos correm pelos ramos das velhas árvores. Pelo caminho aberto na floresta avança o anafado frei Tuck desfrutando o ar puro e o sol quente que espreita pela alta ramagem. De repente, ouvem-se alegres risadas e gemidos que vêm duma moita próxima. O frade levanta um pouco o seu hábito, avança em bicos dos pés e, com um gesto rápido, afasta os arbustos, que descobrem um par de robustos arqueiros regozijando-se com as calças pelos tornozelos. Robin dos Bosques e João Pequeno, literalmente surpreendidos, interrompem o seu jogo e olham frei Tuck com cara de caso.

"Então rapazes! - o clérigo repreende-os carinhosamente. - Deixem de travessuras, que daqui a bocado não têm força para puxar o arco..."

A cena anterior é imaginária, mas o cenário e as personagens pertencem à conhecida lenda inglesa de Robin dos Bosques. E até pode ser credível a circunstância narrada, de acordo com os últimos documentos encontrados sobre a figura e as façanhas do pitoresco herói. Como todos lemos em criança ou vimos nos inúmeros filmes dedicados às suas aventuras, Robin dos Bosques era um jovem nobre da Inglaterra do século XII, corajoso protector dos desprotegidos, leal súbdito do nosso conhecido Ricardo Coração de Leão e ardente amante de uma jovem chamada maid (donzela) Mariana. Sabemos já que, quando o rei teve de partir para a Terceira Cruzada, ficou como regente o seu irmão João Sem Terra que, por necessidade da lenda, é pintado como um tirano cruel sem escrúpulos, opressor do povo e presumível usurpador do trono. Robin refugia-se no bosque de Sherwood com um punhado de arqueiros determinados a dedicar-se a atacar os odiados cobradores de impostos, a roubar os ricos para dar aos pobres, a expor ao ridículo João e a seduzir a bela Mariana com as suas proezas. Em suma, um puro protótipo de líder viril, modelo de galã fantasiado por muitas gerações de jovens românticas.

Já se disse que os historiadores britânicos gostam de demolir mitos da sua própria história, sobretudo quando a derrocada é consequência de assuntos menos santos, que escandalizam o seu rígido establishment. Robin dos Bosques teve o azar de cair nas mãos de Stephen Knight, professor de história da literatura na Universidade de Cardiff. Este senhor realizou um profundo estudo das antigas canções e narrativas sobre o popular arqueiro emplumado e chegou à conclusão que a este interessavam muito mais os músculos atraentes dos seus companheiros João Pequeno ou Will Scarlet, que os encantos femininos da donzela Mariana. ão inquietante afirmação, expressada recentemente numa douta e controversa conferência do autor na Universidade de Glamergan é apoiada por várias baladas do século XIV, primeiros registros escritos da história de Robin dos Bosques. Encontrou versos tão sugestivos como estes:

"Tinha Robin dos Bosques cerca de vinte anos
Quando conheceu João Pequeno;
Um agradável companheiro de viagem
Porque era um jovem alegre e robusto."

A balada não diz expressamente que ambos os jovens eram homossexuais, mas Knight vê nesses documentos claros indícios e ressonâncias homossexuais. "Robin dos Bosques e os seus companheiros viviam isolados numa comunidade exclusivamente masculina, sem participação feminina", explica o estudioso. "A balada contém abundante simbologia erótica e, se não chega a dizer abertamente que o herói era gay, deve-se ao clima moral da época." Segundo Knight, as árvores do bosque são um evidente símbolo fálico, assim como as flechas e as espadas. A isto poderíamos juntar a famosa cena em que João Pequeno e frei Tuck lutam empunhando compridas varas rígidas, em equilíbrio sobre... um grosso tronco que atravessa o rio!

Há também outros aspectos da lenda de Robin dos Bosques que Knight contradiz, baseando-se nas mesmas baladas. Descobriu, por exemplo, que a personagem não tinha origem na nobreza, mas em estratos sociais bastante mais baixos. Filho de um simples alabardeiro de origem campesina, o jovem Robin vagueava pelos bosques de Nottingham e do condado de Yorkshire, comandando uma pandilha de bandoleiros que assaltavam quem se arriscasse a passar por ali. Nunca lhe passou pela cabeça repartir os seus despojos de guerrilha com os pobres, embora tenha ficado famoso pela astúcia e truques para enganar a autoridade.

Tão-pouco parece ser certo que Robin utilizasse a sua astúcia para visitar às escondidas a donzela Mariana, porque nem essa nem qualquer outra donzela são mencionadas nessas fontes como eventuais noivas do herói. Knight sugere que esta personagem feminina foi adicionada no século XVI para dotar a lenda de romantismo heterossexual. O investigador também questiona a relação histórica entre o arqueiro e os reis Ricardo e João, já que se situa a existência de Robin dos Bosques entre um e dois séculos mais tarde. O seu colega Barry Dobson, professor de história medieval em Cambridge, concorda com Knight acerca de as baladas revelarem um Robin dos Bosques pelo menos ambíguo e acrescenta que entre os séculos XII e XIII se fez sentir em Inglaterra maior opressão sobre os homossexuais, muitos dos quais passaram a viver fora da lei em bandos clandestinos.

Apesar de tudo, os investigadores revisionistas não questionaram a existência do ladrão dos bosques, embora assinalem que as baladas sobre as suas aventuras foram enriquecidas por histórias aproveitadas de outras personagens semelhantes ou da própria imaginação dos trovadores, como no caso da inexistente donzela Mariana.

As afirmações de Knight e Dobson não foram muito bem recebidas por quem está actualmente relacionado com a personagem. A secretária da Robin Hood Society, Mary Chamberlain, acusou os investigadores de prejudicarem uma figura admirada em todo o mundo. "As crianças adoram brincar ao Robin dos Bosques", manifestou, "e essas declarações podem provocar muito dano".

Por sua partem o dirigente gay Peter Tatchell afirmou que Robin dos Bosques já estava há demasiado tempo "no armário". "Já é altura", disse, "de as lições escolares reconhecerem a contribuição dos homossexuais na história."

Ainda que o senhor Tatchell tenha muita razão, a contribuição de Robin dos Bosques para a história, independentemente de ser gay ou não, parece discutível. Se João Sem Terra não chegou a usurpar o trono, não foi por causa dos bandos de ladrões dos bosques, mas do ineficaz apoio de Filipe Augusto, da negação do imperador alemão em exigir a abdicação de Ricardo e de outras circunstâncias, entre elas a atitude decidida da rainha-mãe.

O certo é que, se a virilidade de Robin dos Bosques tivesse sido colocada em causa desde o início, esta personagem não teria protagonizado a lenda folclórica inglesa mais emblemática depois da saga de Artur nem reforçado a mítica aura de Ricardo Coração de Leão. Ambos são duas faces, uma guerreira e outra galante, da tradição nacionalista britânica. Esse sentimento de superioridade foi fundamental para justificar a impunidade que se outorgou a si mesma a "pérfida Albion" nas suas correrias e rapinas por todo o mundo.

TOURNIER, Paul. Os Gays na História. Lisboa: Editorial Estampa, 2006. p. 110-114.

terça-feira, 27 de setembro de 2016

Família e sexualidade na Europa Medieval: o confronto entre a moral católica e a moral germânica

Cena de abuso, Ambrogio Lorenzetti

Nos séculos que se seguiram à queda do Império Romano [...], a Igreja esteve empenhada em converter os povos bárbaros ao cristianismo e em estabelecer alianças com os novos donos do poder: os chefes guerreiros, a nobreza bárbara, os reinos que se formavam.

Entre os germânicos, assim como entre os romanos, o casamento situava-se praticamente fora da esfera religiosa, era muito mais civil. Significava um pacto conjugal e obedecia a uma série de formalidades. Seu principal sentido para a nobreza germânica era o de estabelecer alianças entre parentelas. O pacto conjugal mais ligava famílias do que indivíduos.

O auge da aliança Estado bárbaro-Igreja se deu na época carolíngia (séculos VIII e IX), marcada pela estreita cooperação entre o poder temporal e o poder espiritual. Essa aliança [...] fortaleceu a Igreja e a monarquia.

[...]

Os monarcas francos, sagrados pela Igreja, se sentiam na obrigação de implantar na sociedade os ensinamentos cristãos enunciados pelos bispos [...]. O senso de realidade das autoridades eclesiásticas e temporais levava a uma visão do casamento mais próxima da de Santo Agostinho do que da de Santo Ambrósio. Nada se ganharia condenando o casamento e o sexo de maneira radical. Para a ordem pública, o melhor seria moralizar o casamento.

No pensamento medieval, o mal vem do sexo, mas é possível atenuá-lo pela penitência. Os cônjuges deviam ficar afastados um do outro durante o dia, nas noites que precedem os domingos, nos dias de festas e solenidades e nas quartas e sextas-feiras. A abstinência sexual devia ocorrer também em determinados períodos do ano, como, por exemplo, na quaresma.

Acrescentam-se ainda as três noites após o casamento, o período menstrual, os três meses antes do parto e os quarenta dias após o nascimento dos filhos.

[...]

[...] Por isso não se deve casar por luxúria, mas para procriar. Se a procriação é a finalidade das relações sexuais, a virgindade deve ser guardada até as núpcias, e os que têm esposas não devem ter concubinas. O marido deve respeitar sua mulher e honrá-las como a um ser fraco. Deve também se abster dela quando estiver grávida. A mulher não deve ser expulsa de casa, nem se deve tomar outra. O incesto é pecado grave,

Monogamia, exogamia e repressão ao prazer são os pontos centrais dos ensinamentos.

Apesar desses ensinamentos, nessa fase a Igreja não havia ainda firmado o seu direito de ditar regras para a sociedade no que se refere ao casamento. De acordo com os costumes germânicos e mesmo com a tradição cristã, ele sempre havia sido considerado uma instituição social derivada da lei natural, não das leis sagradas. Os rituais do casamento eram civis e profanos, não religiosos. Era isso que a Igreja queria mudar.

[...]

A desagregação do edifício político que se seguiu ao período carolíngio criou um clima de insegurança. O poder se descentralizou, tornando mais difícil a aliança entre Igreja e nobreza.  Essa desagregação estimulou a reflexão dos homens da Igreja [...].

Esses pensadores procuraram recolher na tradição cristã os elementos para uma nova ação da Igreja, que pretendia combater as violências e atenuar o espírito turbulento da nobreza. [...]

Nessa nova ação, o casamento deveria ser, sobretudo, uma forma de repartir pacificamente as mulheres. Daí a preocupação com dois fatores de violência: o rapto e o divórcio.

Mas, mesmo com essa preocupação do clero, o casamento permanecia sob a jurisdição civil. Não havia uma liturgia matrimonial cristã. [...]

Essa moral cristã em muitos pontos estava de acordo com a moral da elite guerreira germânica sobre o casamento. Ambas concordavam, por exemplo, com a submissão da mulher ao homem, os perigos representados pela sexualidade feminina, a condenação do rapto... A honra de uma família nobre dependia em larga medida da conduta das mulheres, e nisso a Igreja podia prestar importante auxílio.

Em outros pontos, porém, como a condenação cristã do adultério e do incesto, essas duas morais não se harmonizavam.  [...]

A condenação do que a Igreja chamava de adultério contrariava a prática comum da concubinagem entre a nobreza.

Entre os francos, além do casamento legítimo, longamente acertado entre as famílias, o qual garantia a sucessão do patrimônio e dos títulos, havia outros tipos de união. Existia um casamento de segunda categoria, que servia para disciplinar a sexualidade dos rapazes nobres. Era uma união temporária, que podia ser desfeita diante da possibilidade de um casamento mais vantajoso. Neste casamento de segunda categoria, a mulher era mais emprestada do que dada, embora isso fosse feito solenemente, através de um contrato.

Além desse tipo de casamento, era comum a concubinagem, que resultava em um grande número de herdeiros de segunda classe e de filhos bastardos. [...]

A esposa legítima tinha como principal papel garantir a "perpetuação do sangue" e do patrimônio de uma família nobre. Se ela não concebesse herdeiros masculinos, isso já seria motivo mais que suficiente, aos olhos da nobreza, para um novo casamento.

[...] Os casos de incesto listados pela Igreja eram numerosos. As proibições iam até o sétimo grau de parentesco. O parentesco por afinidade também criava impedimento ao casamento, como o de padrinho com afilhada, entre cunhados etc.

Considerava-se que a valentia dos antepassados era transmitida pelo sangue. Daí o cuidado em escolher a esposa, pois dois sangues seriam misturados. Era preferível, então, que a esposa fosse aparentada ao marido. As rigorosas leis da Igreja proibindo o incesto impediam esse tipo de casamento.

Por outro lado, as leis extremamente severas de incesto acabavam neutralizando a proibição do divórcio. [...]

[...]

A tentativa de cristianização do casamento teve uma forte resistência da nobreza porque feria valores e interesses fundamentais dessa classe. Ao que parece foi mais fácil cristianizar o casamento nas camadas inferiores da sociedade, ou seja, entre pessoas que pouco possuíam. O casamento e o comportamento sexual recomendados pela Igreja substituíram as formas mais profanas de acasalamento e a concubinagem.

[...]


PEDRO, Antonio; LIMA, Lizânias de Souza. História por eixos temáticos. São Paulo: FTD, 2002. p. 225-228.

domingo, 25 de setembro de 2016

Família e sexualidade na Europa Medieval: duas visões cristãs sobre o casamento

Um homem colocando um anel no dedo de uma mulher. Detalhe de miniatura do século XIV. James le Palmer

No início da Idade Média, a tradição cristã fornecia um pequeno número de ensinamentos acerca do casamento. Devido às contradições entre os dois papéis assumidos pela Igreja, havia vozes eclesiásticas dissonantes, todas se baseando na palavra de Deus. Uma doutrina católica sobre o casamento, coerente e uniforme, só se formou lentamente.

Duas concepções do casamento se opuseram com violência na cristandade até cerca de 1100. Como resultado desse conflito, foram instituídos usos e costumes que prevaleceram na sociedade ocidental até pouco tempo atrás.

É possível identificar em Santo Ambrósio (século IV) e Santo Agostinho (séculos IV-V), portanto já no início da Idade Média, os argumentos contra e a favor do casamento.

A primeira dessas concepções, que aparece nos escritos de Santo Ambrósio, foi herdada do cristianismo primitivo. Nela o casamento não é recomendado. Quando muito é tolerado. A vida ascética e o horror à mulher marcavam a vida do cristão ideal. Esse cristianismo foi influenciado pela filosofia greco-romana, que opunha a matéria ao espírito.

Dessa forma o casamento seria um mal em si, pois o marido é forçosamente um pecador. Ao amar com ardor sua mulher, comete pecado. O casamento estaria inevitavelmente manchado pelo prazer sexual, sendo um obstáculo à espiritualidade. Essa concepção opunha a vida terrena à salvação e o clero aos leigos.

A outra concepção do casamento conciliava as necessidades terrenas e as aspirações espirituais. Reconhecendo a importância do casamento no ordenamento social, procurou resgatar os seus possíveis pontos positivos. Os padres procuram salvar o casamento de sua maldição de origem. Para isso se centraram em Santo Agostinho, menos severo de que Santo Ambrósio em relação ao sexo e ao casamento. Em vez de condená-los, era necessário submetê-los ao sagrado.

Nessa concepção, o casamento é positivo por atenuar os defeitos de cada um dos sexos. Nele a mulher perde as suas manhas e o homem a sua brutalidade. E dessa harmonia nascem os filhos. A procriação é colocada como a principal finalidade do casamento.

Nesse conjunto de ideias, não é bom que o homem viva só. A mulher foi feita do homem e eles devem voltar a ser um só no casamento. Todavia, permanece a desigualdade original. A mulher deve estar submetida ao homem, assim como deve sofrer as dores do parto, por uma designação divina.

Santo Agostinho diz que o homem é a parte espiritual e a mulher a parte sensual da condição humana. Por isso o casamento permite a submissão da carne ao espírito. Mas para que isso se efetive, o homem deve superar a fraqueza que levou Adão à perdição e reinar sobre sua esposa.

Depois de um longo processo de elaboração, a Igreja conseguiu firmar uma doutrina e um ritual do casamento.


PEDRO, Antonio; LIMA, Lizânias de Souza. História por eixos temáticos. São Paulo: FTD, 2002. p. 224-225.

sexta-feira, 9 de setembro de 2016

O dia do juízo (Parte 3)

O julgamento final (detalhe), Fra Angelico

Todos levantaram-se.

E durante dois dias prepararam-se para a festa. Fariam um ataque-surpresa. Filipe queria que a abadia fosse totalmente destruída pelo mais cruel e violento saque de que a Europa tivera notícias.

Se o castelo de Albey permanecera exatamente igual, o mosteiro de Louvenne, ao contrário, estava muito diferente. Havia sido ampliado em quase dois terços da construção original. Já do lado de fora, podiam ser percebidos ornamentos luxuosos, e, pelos rumores que se escutava, era possível concluir que a festa que se realizava em seu interior devia ser memorável.

Seus homens armados de espadas, pedras e archotes se aproximaram. A ferocidade deles aumentava na medida em que o mosteiro se tornava mais palpável. Fanatizados pela ideia de que sua missão era divina, adquiriam uma nova e poderosa força. Essa era a maior arma que possuíam, embora não tivessem consciência disso.

Enquanto isso, no interior da abadia, com todos ignorantes do que se passava la´fora, a festa prosseguia.

À cabeceira da comprida mesa de carvalho, encontrava-se Samuel Garbois. A sua frente desfilavam faisões, porcos e carneiros, frutas e vinho com fartura. O abade rejubilava-se. Sua abadia ostentava um raro luxo para a época. Com seus 66 anos, era um homem bastante velho, mas vivera o suficiente para ver seu sonho realizado.

O excesso de alimentos e vinho ingeridos criava uma certa sensação de irrealidade. Era um homem obcecado por uma ideia que vira pouco a pouco, ao longo de trinta anos, ser transformada em realidade. Agora que estava tudo concluído, olhava sua obra com certa incredulidade. Era um sonho que se materializava; e agora, o que fazer? Contemplar a obra, apenas isso. Não restava mais nada. Tentava, mas não conseguia esconder uma certa sensação de vazio, apesar de todo júbilo. Eram sentimentos contraditórios que brigavam dentro dele e turvavam sua plena realização naquele dia.

Se pudéssemos penetrar em seus pensamentos, veríamos desfilar em sua cabeça todas as relíquias e tesouros acumulados nesses anos, veríamos pedra por pedra assentada que tornara a Abadia de Louvenne a maior de toda a região.

Veríamos, também, a incômoda certeza de que tudo estava concluído e que não restava mais nada a fazer além de esperar a morte.

Algo de anormal estava acontecendo. Mergulhado em seus pensamentos, não notara que havia uma certa agitação no ar, que trouxe Samuel Garbois de volta ao local onde se encontrava. Estava entorpecido pelo vinho, a visão turvava-se a sua frente, mas percebeu que algo ocorria. Havia uma tensão que fazia com que as pessoas falassem mais baixo, como se estivessem à espera de um grande acontecimento; o ar tornara-se quente e pesado. Começaram os ruídos, no princípio quase inaudíveis, depois fortes demais para se poder ter a ilusão de que era só impressão. O cheiro de fumaça começou a se espalhar e em pouco tempo podia-se ouvir as pessoas tossirem sufocadas, e a fumaça tornou-se tão espessa que a embriaguez do vinho já não era capaz de turvar nada, pois já não se via nada, ou quase nada. Começaram a cair as pedras. Eram tão grandes que cada uma que caía provocava um estrago considerável. As pessoas, apavoradas, começaram a correr sem saber para onde ir, e a maioria acabou seu caminho na ponta de uma espada. Samuel Garbois não se movia. Em algum lugar nesse processo, a razão o abandonara, e através de seus olhos dementes o que se poderia enxergar era a própria visão do apocalipse. Quando viu Filipe parado a sua frente, acreditou realmente que o Dia do Juízo chegara e que os mortos finalmente haviam se levantado.

Filipe olhou para o abade por uns instantes. Aquele homem que sempre causara asco, agora, encurralado naquela cadeira, com os olhos ensandecidos vendo apenas destruição a sua frente, só conseguia lhe despertar pena. Não teve coragem de matá-lo.

Ordenou bruscamente a seus homens que levassem tudo o que pudessem carregar, e o que não pudessem, destruir. Partiram para o Castelo de Albey, onde Filipe pretendia assumir o lugar que era seu de direito, de Senhor do Castelo.

Samuel Garbois olhou ao seu redor. O fogo ainda ardia em alguns pontos. Viu homens estendidos pelo chão. Um rio quente de sangue corria sob seus pés. De seu sonho só restavam escombros. Sentou-se em um banco semidestruído e teve ainda um momento de lucidez, o suficiente apenas para perceber que de medo havia se sujado todo.

Cristina Leminski. O dia do juízo. In: YASBEK, Mustafá. Ecos do tempo: histórias da história. São Paulo; Clube do Livro, 1988. p. 25-28.

quarta-feira, 7 de setembro de 2016

O dia do juízo (Parte 2)

O juízo final (detalhe), Michelangelo

No fim de uma acentuada curva na estrada, o Castelo de Albey surgiu à sua frente, imenso e sombrio. Estava tudo exatamente como ele se lembrava. Mais umas duas horas de caminhada e chegariam lá.

Para chegar ao castelo teriam que passar próximo à Abadia de Louvenne. Quanto mais se aproximavam, mais Filipe notava que havia ali uma movimentação anormal.

Seguiam seu caminho quando escutavam o barulho de cascos batendo no chão. Assim que avistaram o cavaleiro, Filipe percebeu pelas roupas e ornamentos quem era e de onde vinha.

Ao avistar aquele bando de homens andrajosos e enlameados, de aspecto ameaçador, o cavaleiro tentou recuar, mas já era tarde. Percebeu que havia sido cercado. O aspecto deles não deixava dúvidas: eram saqueadores.

- Não me matem! Eu entrego tudo o que trago comigo!

- Somos muitos e a fome é muito grande. O que traz consigo não é suficiente. Se quer viver dia o que se passa na abadia!

- É uma grande festa. A abadia foi reformada e hoje comemora-se a conclusão das obras, que duraram mais de trinta anos.

- Quem é o abade?

- Samuel Garbois é seu nome. É um homem muito velho e bondoso, que viveu para glorificar Deus com essa obra.

- Às custas de milagres ocorridos no Castelo de Albey há muitos anos, não estou certo?

O outro olhou espantado para aquele que assim lhe falava e que parecia ser o chefe do grupo.

- A história de meu querido irmão, morto há dez anos, tem-se espalhado por fronteiras que não imaginávamos. Sim, foi um verdadeiro milagre, e lamentamos muito a perda de Filie, esse era seu nome. Nasceu marcado para grandes obras, mas a vida o arrebatou muito cedo.

- A grande obra de Filie ainda nem começou, meu caro Francisco, e se lamenta tanto a morte do irmão, por que não procurou salvá-lo dos saqueadores que invadiram o castelo há dez anos, por que não pagou o resgate que exigiam para devolvê-lo, ao invés de abandoná-lo à sua própria sorte? - disse Filipe, afastando o cabelo da testa e que encobria seu sinal de nascença.

- Meu irmão! Então você ainda vive?

Francisco estava pálido de morte. Sentiu no olhar do irmão fúria e ódio gelados que lhe arrepiaram o corpo e lhe esfriaram o sangue.

Filipe não vacilou, e sua mão estava bem firme quando cravou sua espada bem na altura do coração do irmão, antes mesmo que este tivesse tempo de perceber o que acontecia.

Por um momento o silêncio foi total, só sendo cortado pelo barulho da chuva que transformava o vermelho vivo do sangue que corria em vermelho pálido, até se misturar na lama e ser engolido pela terra.

Filipe quebrou o silêncio.

- Se há uma festa na abadia, eu deveria ser o convidado de honra. Vamos, vou reclamar meus direitos.

Seus homens vacilaram. Saquear um castelo, mesmo que fosse a quase inexpugnável fortaleza de Albey, era uma coisa que fariam sem pensar duas vezes. Eram homens duros e desgraçados, que caminhavam dia a dia ao lado da morte, e por esta ser uma presença tão constante não os assustava. Mas saquear uma abadia? Isso eles não poderiam fazer. A abadia era um lugar sagrado, e isso significava ofender a Deus. E se a ira divina se voltasse contra eles? Fazia-os tremer a simples ideia de tormentos inimagináveis que cairiam sobre eles. Não, não iriam.

Estavam acampados próximo à abadia. Filipe pensava exaustivamente numa saída para esse impasse.

Levou instintivamente a mão à testa.

Levantou-se, caminhou com vagar para o centro do acampamento, onde seus homens estavam reunidos em volta de uma pequena fogueira que ameaçava acabar-se a todo instante, pois a chuva prosseguia.

A luz do fogo refletia-se nos olhos de Filipe, que naquele instante parecia terrível e implacável, mesmo a seus homens.

- Trago estampado na testa o sinal sagrado da cruz desde o dia em que nasci. Vocês temem saquear a abadia por ser um lugar sagrado, mas se esquecem de que um sinal divino orienta esta ação. O lugar é sagrado, os homens que o habitam não. Seus atos infames e impuros só têm feito ofender a Deus durante todos estes anos. Cabe a nós, homens escolhidos por Deus, e para provar isso existe o sinal, vingá-lo. Quem se recusa a me seguir se recusa a fazer o que o Senhor ordena. Para esses, os tormentos do inferno estão reservados. Quem quiser me seguir fique de pé, os outros permaneçam sentados.

Cristina Leminski. O dia do juízo. In: YASBEK, Mustafá. Ecos do tempo: histórias da história. São Paulo: Clube do Livro, 1988. p. 22-25.

segunda-feira, 5 de setembro de 2016

O dia do juízo (Parte 1)

[As profecias não se cumpriram. O ano mil chega e o mundo não se acaba, como todos esperavam. pelo menos para alguns, não. Mas a espada do fim dos tempos continua pairando sobre todas as cabeças, e as palavras da autora deste conto parecem querer lembrar isso a cada passagem da narrativa.

O motor principal da vida europeia nesses tempos resume-se à fé religiosa; crer ou não crer. Uma enorme legião de desesperados de um lado; do outro, reis, nobres e sacerdotes manipulando o poder e as riquezas em proveito próprio, num universo à parte, onde o futuro é limitado apenas a cada minuto vivido.]

 O último julgamento (detalhe do painel central do tríptico, com o Arcanjo Michael pesando as almas), Hans Memling

"Então abriu-se no céu o templo
de Deus, e apareceu a arca do
seu testamento no seu templo,
e sobrevieram relâmpagos, e vozes,
e um terremoto, e uma grande
chuva de pedra."
Apocalipse de São João, Capítulo 11, versículo 19.

Filipe olhou para seus homens e deixou escapar um profundo suspiro de desânimo. Caminhavam havia cinco dias em direção ao distrito de Albey. Estavam cobertos de lama de tal forma que mais pareciam bonecos de barro do que gente e nem a chuva incessante que os fustigava durante todo esse tempo conseguia limpá-los.

Famintos e esfarrapados, deixavam-se levar pela simples promessa de que no fim da jornada haveria comida para todos. A fome era um espectro ancestral que pairava sobre a Europa desde gerações incontáveis, mas que de dois anos para cá, com as chuvas ininterruptas, que não permitiam sequer abrir um único rego para semear o trigo, tornara-se mais vivo e presente do que nunca. As pessoas devoravam tudo o que podiam encontrar pela frente, e não era raro encontrar carne humana sendo vendida normalmente nos mercados. Havia até quem, em completo desespero, se atirasse ao chão para comer terra.

Filipe e seus homens não estavam em situação diferente, por isso a ideia de um saque no Castelo de Albey não chegara a assustá-los, pois sabiam que lá haveria fartura de alimentos. Era isso que os fazia mover-se, que os mantinha vivos, que os fazia caminhar, apesar da chuva, da fome, do frio e do medo.

Estávamos no ano de 1033. Há 33 anos, exatamente na entrada do ano mil, nascia em Albey um menino com um pequeno sinal de nascença na testa. Era o primeiro filho homem de Maximiliano e Catarina de Albey.

Filipe, é claro, não se lembrava dos acontecimentos daquele dia. Não se lembrava por exemplo das estrondosas gargalhadas de seu pai, já bastante bêbado, conseguia abafar os gritos de dor de sua esposa prestes a dar à luz. Também não se lembrava da opulenta festa que se realizava no castelo no preciso momento em que nascia. Apenas sabia, porque isso lhe fora contado mais tarde, que seu nascimento provocara grande alvoroço no castelo por causa do sinal de nascença. Era uma pequena cruz vermelha bem no meio da testa. A crença de uns e ambição de outros fez com que isso fosse interpretado como um sinal divino. Havia até quem afirmasse que o menino era Filho de Deus enviado à terra para o Dia do Juízo.

Samuel Garbois, Superior da Abadia de Louvenne, se encontrava no castelo de Maximiliano naquele dia. Era um homem de trinta e poucos anos, a quem a natureza dera, além do excesso de gordura, muita astúcia e um certo apreço mal disfarçado pelas coisas materiais.

Sua grande ambição era poder restaurar e ampliar sua abadia de tal forma que as abadias e mosteiros das regiões vizinhas parecessem insignificantes.

Ao se dar conta do que acontecera, percebeu que chegara sua oportunidade. A ideia era reforçar e explorar ao máximo a crença de que o menino fora escolhido por Deus e que o sinal era a prova de que Ele queria nos dizer algo.

Certa noite em que o abade e Maximiliano jantavam juntos, Samuel Garbois colocou seu plano em prática;

- A fama do pequeno Filipe tem se espalhado rapidamente.

- É verdade. Desde que nasceu não pararam de chegar peregrinos por aqui.

- Eu sei, Maximiliano. Tenho hospedado na abadia homens e mulheres de elevada posição, que vêm de toda parte só para ver o menino. É uma pena que a abadia seja tão pequena e humilde e que necessite de urgentes reformas.

- E por que não as fazem, senhor abade?

- Ah, senhor! A fé é grande, mas as doações pequenas. Não temos recursos suficientes.

Maximiliano ficou em silêncio por instantes. Não lhe parecia bem, em seus domínios, uma abadia tão humilde e necessitada. Ainda mais agora que acontecera um milagre dentro de sua própria casa. E se lhe tivesse sido enviado esse sinal justamente para que ele fosse o realizados de uma grande obra para a glória de Deus? Decidiu fazer grande doação para que a Abadia de Louvenne se tornasse a mais rica da região.

Samuel Garbois sorriu feliz. Iria finalmente realizar seu sonho.

Enquanto caminhava no meio da lama e da chuva, Filipe recordava sua infância.

O Castelo de Albey situava-se na encosta de uma montanha. Era uma imensa fortaleza de pedra cujas fortificações tinham, durante muito tempo, impedido saques e pilhagens.

Desde o nascimento de Filipe uma grande transformação havia ocorrido na vida das pessoas que habitavam o castelo e suas redondezas. Uma atmosfera mística os envolvia, sempre renovada pela constante vinda de peregrinos.

Filipe tinha verdadeiro horror aquelas visitas. As pessoas lhe faziam promessas, pedidos, quase exigiam que fizesse algum milagre para provar que era santo. E ele nunca se sentira santo, apesar da cruz estampada na testa. Suas horas de alegria eram aquelas dedicadas às artes da guerra, quando se iniciou no aprendizado da cavalaria. Seu sonho era tornar-se um grande senhor guerreiro.

Cristina Leminski. O dia do juízo. In: YASBEK, Mustafá. Ecos do tempo: histórias da história. São Paulo: Clube do Livro, 1988. p. 17, 19-22.

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2016

História da moda: mundo medieval e renascentista

Cristãos romanos,  Albert Kretschmer

Anglo-saxões,  Albert Kretschmer

Bizantinos,  Albert Kretschmer

Francos,  Albert Kretschmer

Normandos,  Albert Kretschmer

Espanhóis e mouros,  Albert Kretschmer

Italianos,  Albert Kretschmer

Espanhóis,  Albert Kretschmer


Germanos,  Albert Kretschmer

Franceses,  Albert Kretschmer

Ingleses,  Albert Kretschmer

quinta-feira, 20 de agosto de 2015

Iconografia: Grupos étnicos na Idade Média


[Europa Oriental: búlgaros e bizantinos]
Guerreiros búlgaros abatem bizantinos. 
Século X, Artista desconhecido

[Europa Oriental: croatas, sérvios e bizantinos]
Delegação de croatas e sérvios para o imperador 
bizantino Basílio I. 
Séculos XI-XIII, Artista desconhecido

[Europa: judeus e alemães]
Judeus queimados vivos em Deggendorf, Bavaria,1338, e em Sternberg, Mecklenburg, 1492. 
Crônica de Nuremberg, 1493. Michel Wolgemut, Wilhelm Pleydenwurff

[Oriente muçulmano: árabes]
Cerco árabe de Messina, defendida por Katakalon
 Kekaumenos, em 1040. 
Artista desconhecido

[Europa: ciganos]
Primeira chegada dos ciganos fora da cidade de Berna
 (descritos como "pagãos batizados"). 
1485, Diebold Schilling d. Ä.

[Europa Oriental: russos e húngaros]
Czar Simeão perseguido pelos húngaros, se abriga no 
reduto de Drustra. 
Séculos XI-XIII, Artista desconhecido

[Europa Ocidental: judeus e franceses]
Expulsão dos judeus da França em 1182. 
Miniatura das Grandes Crônicas da França. Manuscrito de 1321.

[Europa Oriental: russos]
Theodoros de Mistheia usa um Scyth como um escudo 
contra os russos. 
Séculos XI-XIII, Artista desconhecido


[África: árabes e africanos]
Mercado árabe de escravos africanos no Iêmem. 
1236-1237, wâsitî.(al-)

[Europa Ocidental: judeus e ingleses]
Judeus perseguidos na Inglaterra. 
Manuscrito das Crônicas de Offa.

quinta-feira, 19 de março de 2015

A Europa depois de Roma

Guerreiros germânicos, Philipp Clüver

Na Europa, os séculos anteriores e posteriores à queda do império ocidental formaram um período tumultuado, à medida que onda após onda de invasores, eles próprios empurrados por outros ciclos de povos entrando na Europa pela Ásia, abria caminho através do continente procurando uma residência permanente.

Uma consequência da fragmentação do império ocidental, e do povoamento das regiões setentrionais pelos recém-chegados, foi o surgimento de novos idiomas. [...] o latim falado nos anos de decadência do império era reconhecivelmente a mesma língua. À medida que o império cedia terreno para uma variedade de chefetes independentes, a língua se libertava. [...] Ao longo dos oito ou nove séculos seguintes, eles se transformaram nas línguas românicas, como o italiano, o espanhol, o português, o francês e o romeno. [...] Mais ao norte, contudo, onde os invasores se viram em territórios esparsamente povoados, não houve pressão para adotar os hábitos de fala da população local e seus descendentes, separados por rios, mares e montanhas, gradualmente desenvolveram dialetos que mais tarde se tornariam o holandês, o alemão e o sueco.

Nas terras baixas da Bretanha, onde uma cultura romana floresceu por séculos, seria de se esperar que os recém-chegados adotassem p latim [...]. Mas isso não aconteceu. Eles mantiveram sua língua germânica, que acabaria se tornando o que conhecemos com inglês. [...].

Ambos os grupos linguísticos - o germânico e o latim - eram membros da família indo-europeia, que se originava de algum lugar nas regiões da estepe onde a Europa se encontra com a Ásia. A leste das terras ocupadas por povos falantes de germânico, os eslavos praticavam um terceiro grupo de dialetos indo-europeus, os predecessores do tcheco, servo-croata e russo. [...]

Uma sucessão de epidemias, que provavelmente incluía varíola, sarampo, gripe e peste, atacou as terras densamente povoadas em torno do Mediterrâneo do século II ao VII. Elas sem dúvida desempenharam um proeminente papel no enfraquecimento do império ocidental. Durante esses séculos, ondas de povoamento desembocaram nas regiões esparsamente povoadas ao norte. Como em toda parte, povoamento significava agricultura. [...] Esses povos contavam com o conhecimento acumulado das populações existentes no norte e dos povos civilizados do sul, e suas novas terras tinham solo fértil e chuva abundante. O clima frio favorecia trigo, cevada, aveia e centeio. Além disso, a chuva constante significava pasto vistoso, que significava vacas felizes. [...] À medida que derrubavam florestas e preparavam novas terras para cultivar, a produção de alimento cresceu e sua população aumentou ainda mais. [...]

[...]

A nova tecnologia mais importante foi o pesado arado de duas rodas, com uma lâmina de ferro que cortava a camada superior de grama e solo, uma relha de ferro e uma aiveca que abria a leira. Com ela era possível trabalhar o terreno mais duro. E, o mais importante, enterrava e matava as ervas daninhas. Ao criar leiras, formava canais para que a água da superfície fosse drenada. [...]

Mas as consequências da introdução do arado pesado foram muito além. Em solos pesados, ele requeria mais de oito bois, comparado com a simples parelha que até então fora suficiente. [...] esse novo arranjo significava que tarefas como semear, gradar e colher também necessitavam de uma organização cooperativa, o que só podia ser feito sob os auspícios de um conselho aldeão. [...] Ele introduziu entre as pessoas a ideia de que os costumes e as instituições não eram imutáveis; acostumou-se ao pensamento, e à prática, do autogoverno, e forneceu uma drástica ilustração da mudança tecnológica. [...]

O número de inovações importantes ocorridas na chamada Idade das Trevas europeia é grande [...]:

1. A implementação da rotação de culturas com três áreas em lugar da rotação precedente, com duas. [...]
2. A introdução do arreio em colar inventado na China, que tornou possível pela primeira vez aos cavalos da Europa puxar cargas pesadas. [...]
3. A introdução da ferradura e do balancim [...] que respectivamente protegia a pata do animal e possibilitava puxar grandes carros.

Mas não foi apenas na agricultura que esses séculos mostraram entusiasmo pela inovação. Em 1044, encontramos o primeiro moinho de marés de Veneza. O Domesday Book, levantamento feito sob as ordens de William I, rei da Inglaterra em 1086, revelou que havia 5 mil moinhos d'água só na Inglaterra. [...]

Enquanto a tecnologia transformava a vida das pessoas, mudanças ocorriam na estrutura social. Nas caóticas condições criadas com o fim da soberania romana e as ondas migratórias, as pessoas procuravam proteção para suas vidas e propriedades. Ao mesmo tempo, indivíduos ambiciosos tiravam vantagem dessas condições para aumentar sua riqueza e influência. A partir desse encontro do desejo por segurança com a avidez pelo poder, brotou gradualmente um novo quadro de composições sociais: a instituição conhecida como feudalismo. Em sua forma mais desenvolvida, consistiu em uma hierarquia de garantias e obrigações mútuas. No nível mais baixo estava o camponês, que tinha o direito de trabalhar, manter e legar sua terra em troca da obrigação de prestar serviço ao seu superior, que podia ser o senhor de uma propriedade ou o abade de um mosteiro. [...] O direito à proteção do camponês por parte de seu senhor criava uma obrigação recíproca sobre esse mesmo senhor de lhe assegurar proteção.

Enquanto o sistema do feudalismo tomava forma, uma batalha pelo poder de um tipo diferente tinha lugar: a luta pelo domínio entre a Igreja e o Estado. [...]

[...]

Os papas não estavam apenas engajados em uma luta contínua pela supremacia com os soberanos seculares do continente; viviam em conflito pela supremacia com a Igreja oriental baseada em Constantinopla [...]. O ano de 1054 testemunhou uma ruptura entre os dois, após prolongada disputa teológica. A partir daí, Roma ficou esperando por uma chance de subjugar a rival oriental.

Quarenta anos depois, a oportunidade se apresentou. Os seldjúcidas - um grupo de tribos turcas muçulmanas sunitas - haviam surgido antes vindos da Ásia e tomando controle da Pérsia (Irã), Mesopotâmia (Iraque) e Síria setentrional. Teoricamente, estavam sujeitos à soberania espiritual do califa de Bagdá, mas seu imperador, o sultão, era o efetivo soberano de toda a região. Após conquistar a Armênia, eles haviam se voltado para o império bizantino, e infligido uma sangrenta derrota sobre seus exércitos [...]. No ano seguinte, eles varreram a Palestina e a Jerusalém ocupada. Aí massacraram milhares de muçulmanos xiitas. Menos tolerantes que seus predecessores árabes, eles também fecharam a cidade para as peregrinações cristãs. Por volta de 1092, postaram-se às margens do Bósforo, em posição para atacar Constantinopla. [...]

O papa Urbano II, sabia aproveitar oportunidade quando surgia. [...] Havia outros benefícios de uma campanha militar contra os turcos. A crescente prosperidade e o aumento populacional na Europa ocidental e setentrional haviam criado uma classe de jovens inquietos de boa estirpe, com tempo de sobra, que precisavam de escape para a agressividade juvenil. Sua inquietação encontrara expressão em mesquinhas guerras e rusgas que se tornaram uma grave preocupação para as autoridades eclesiásticas. Se em vez disso pudessem ser persuadidos a combater os turcos, o povo que ficava para trás podia alimentar esperanças de uma existência mais pacífica. Isso funcionara com o islã, quatrocentos anos antes. A primeira onda de guerra santa sob a liderança Maomé fora parcialmente inspirada na necessidade de encontrar alívio para os instintos belicosos dos jovens membros tribais cujos feudos haviam tornado a vida do povo árabe miserável.

Para os jovens em questão, a oportunidade de matar com consciência limpa, e conquistar butins no processo, não precisou de grande promoção. E uma agora próspera cristandade ocidental dispunha dos recursos para montar o tipo de expedição que o papa tinha em mente.

Em 18 de novembro de 1095, Urbano convocou um conselho na cidade de Clermont, no sul da França. Em uma apinhada assembleia ao ar livre, proferiu um dos discursos mais graves da história europeia, Ele conclamou seu público a decretar uma trégua em suas disputas, a voltar as energias belicosas contra os turcos, a acorrer em auxílio de seus companheiros cristãos no leste e a reabrir a cidade santa de Jerusalém para as peregrinações cristãs. A reação ao seu discurso foi entusiástica. Quatrocentos anos após Maomé, a jihad - conflito sagrado - voltava a ser apregoada. Mas dessa vez os guerreiros marchavam ao som de um hino diferente.

AYDON, Cyril. A história do homem: uma introdução a 150 mil anos de história humana. Rio de Janeiro: Record, 2011. p. 139-146.

terça-feira, 3 de fevereiro de 2015

Arte e sociedade no medievo: o românico e o gótico

Opostas em vários aspectos, tanto a arte românica dos séculos XI-XII quanto a gótica dos séculos XII-XV tentavam elaborar imagens que harmonizassem as intenções dos produtores eclesiásticos com as dos consumidores laicos. [...]

No românico, as igrejas quase sempre rurais - reflexo de uma sociedade agrária - incorporaram, especialmente na escultura e na pintura, motivos caros aos camponeses. Elas eram verdadeiros "bestiários em pedra", com inúmeros animais, reais e imaginários, retratados nas colunas e paredes. Eram comuns, por exemplo, os lobisomens sempre presentes na psicologia coletiva camponesa. As figuras monstruosas, semi-humanas - como centauros e sereias vindos da mitologia clássica - funcionavam como protesto contra a ideia do homem feito à imagem de Deus [...].


Arte românica [A Anunciação, Pietro Cavallini]

É importante lembrar que para os medievos não havia arte pela arte, imagens feitas apenas pelo seu valor estético. A finalidade didática delas era essencial. No românico essa característica era muito acentuada, daí, por exemplo, as frequentes cenas do Juízo Final colocadas logo na entrada, lembrando que somente dentro da igreja [edifício religioso] e da Igreja [instituição] era possível a salvação. A arquitetura sólida, de largas paredes, grossos pilares e poucas janelas não era apenas resultado das limitações técnicas da época, mas sobretudo da necessidade de fazer das igrejas "fortalezas de Deus". Na mesma linha, o românico não tinha preocupação de retratar a realidade visível, pouco importante, e sim de revelar a essência das coisas, daí o forte simbolismo daquela arte.

Arte gótica [O beijo de Judas, Giotto]

No gótico, arte urbana sem deixar de ser religiosa [...], o espaço da cultura vulgar era maior. O fundamental continuava a ser a arquitetura religiosa, mas as catedrais góticas contavam, para ser erguidas, com a indispensável colaboração da burguesia local e da monarquia. Atendiam, portanto, a necessidades espirituais e práticas diferentes das do românico. Expressão de uma nova sociedade em formação, o gótico estava ligado à cultura que se desenvolvia nas escolas urbanas, ao pensamento que procurava harmonizar Fé e Razão. Concebia-se Deus como luz [daí os vitrais] e valorizava-se seu lado humano [daí o culto à Virgem]. A natureza passava a ser vista como parte essencial da Criação, por isso se procurava retratá-la com realismo. Essa postura revelava tanto uma nova sensibilidade [cuja melhor expressão é São Francisco] quanto uma nova preocupação intelectual, cuja melhor expressão é a retomada de Aristóteles. O gótico estava exatamente nesse equilíbrio entre coisas tão diferentes como as representadas pelo santo e pelo filósofo.

FRANCO JR., Hilário. A Idade Média: nascimento do Ocidente. São Paulo: Brasiliense, 2006. p. 110-111.

quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

Iconografia: Mosaico da Igreja de São Vital, Ravena


A imagem é a reprodução de um mosaico da igreja de São Vital, Ravena, na Itália, cidade que fez parte do Império Bizantino. Nela vemos uma procissão, com o imperador Justiniano (ao centro) acompanhado de altas autoridades. Ao lado do imperador, à direita, um arcebispo segura uma cruz incrustada de jóias, seguido de um rico banqueiro.

A imagem apresenta uma série de objetos e cores simbólicas. Justiniano traz nas mãos uma escudela que simboliza a fartura, a segurança material e espiritual. Ele é o guardião da fé e do povo. A cor púrpura de sua roupa simboliza o poder imperial. O dourado é a cor do poder espiritual, que caracteriza a Igreja e legitima o poder imperial.

Justiniano traz na cabeça uma auréola, símbolo do caráter sagrado do seu poder.

O desenho no escudo à esquerda simboliza a forma como será estabelecido o Reino de Deus na terra: em nome do Pai, através do Filho, com a graça do Espírito Santo e a ação do imperador e da Igreja.

A imagem consegue sintetizar as bases de sustentação do Estado bizantino.

PEDRO, Antonio [et al.]. História do mundo ocidental. São Paulo: FTD, 2005. p. 133-4.