"Os espelhos estão cheios de gente.
Os invisíveis nos vêem.
Os esquecidos se lembram de nós.
Quando nos vemos, os vemos.
Quando nos vamos, se vão?"
Eduardo Galeano: Espelhos
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terça-feira, 17 de dezembro de 2013

A cultura jovem dos anos 50: do rock' n' roll à geração beatnik

O consumo musical, nas décadas anteriores ao surgimento do rock' n' roll, dividia-se de maneira compartimentalizada no mercado: música para brancos [...] e música para negros [...]. Grande parte da população urbana branca consumia música erudita e/ou música popular romântica [...], ou, então, músicas mais rápidas no balanço diluído das grandes orquestras brancas de swing [...]. Até então, os filhos dessa classe média branca não diferiam grandemente dos pais quanto ao gosto musical e ao estilo de vida. Só a partir do surgimento do rock' n' roll é que, efetivamente, se nota a caracterização de uma cultura jovem.

Por volta de 1950, as pequenas gravadoras exploravam dois importantes mercados específicos: o rhythm and blues negro e a música dos brancos rurais - country-and-western -, também tão marginalizada quanto a música negra, pois era a música dos brancos pobres. Da união desses dois tipos de música surgiria o estilo chamado rock' n' roll, transformando todos os esquemas das grandes gravadoras [...] e, num sentido mais amplo, a própria cultura norte-americana e mundial.

Por ser um estilo composto de elementos de origem diversa - "música negra" e "música branca" -, o rock' n' roll também seria encarado, na racista sociedade norte-americana de então, como race music (música de negro). E, exatamente por essa qualidade, ele foi incorporado por outro grupo que começava a se manifestar no cenário dessa sociedade: a juventude.

[...] o rock' n' roll funcionou como uma inversão psicológica na relação entre dominador (branco) e dominado (negro) que prevalecia na sociedade norte-americana. A cultura promovida pela juventude, a partir do rock' n' roll, seria uma forma de os jovens de classe média branca se colocarem em relação à sociedade estabelecida por seus pais, assumindo, mesmo que inconscientemente, certos valores da cultura negra como bandeira.

Apesar do estilo contestatório do rock' n' roll, essa criação de base negra (blues e rhythm and blues) foi uma mercadoria estilizada pelas grandes gravadoras e vendida ao público branco a partir de meados da década de 1950. Na grande maioria dos casos, trata-se de cópias (covers) que cantores brancos fazem, "cobrindo" material originalmente de músicos negros [...]. São óbvias, portanto, as razões por que o primeiro rock de sucesso, "Rock around the clock" (1954), era de um simpático branco de cabelos louros chamado Bill Halley, o mesmo acontecendo com a superestrela do rock' n' roll, Elvis Presley. [...] Cantando com a voz rouca e sensual de um negro, abriu caminho para a aparição, em âmbito nacional, de rock' n' rollers negros como Chuck Berry, Little Richard e Fats Domino. O rock' n' roll branco, além de Elvis, apresentou também algumas figuras brilhantes como Carl Perkins, Jerry Lee Lewis e Buddy Holly, entre outros.


Elvis Presley

A partir de então, a indústria cultural norte-americana desenvolveu-se a mil por hora. Gravadoras, rádios, cinema e televisão, percebendo o mercado que se abria com o rock' n roll e seu estilo de vida, voltaram-se para essa emergente cultura jovem, estimulando cada vez mais o seu consumo.

[...]

Apesar de chocar os padrões morais da época, o rock' n' roll dos anos 50 não era uma música politicamente engajada. Muito pelo contrário, entre seus temas principais figurava a exaltação à dança e ao ritmo da música, às histórias de colégio, além da descrição de carros e relacionamentos amorosos com as garotas. [...]

Diante de tais incompreensões, alguns grupos de jovens optavam pela delinquência juvenil, fazendo disparar as estatísticas de crime e violência. Nascidos antes do ataque, pelos japoneses, à base americana de Pearl Harbor, no Havaí, [...] que provocou a entrada dos Estados Unidos na II Guerra Mundial, eles cresceram em meio ao conflito e, de certa forma, no seu prolongamento, evidenciado no fantasma da Guerra Fria. Mesmo gozando de todos os privilégios da classe média branca norte-americana, esses jovens não podiam escapar a um sentimento de vazio existencial, produto de uma sociedade consumista e materialista; ou a um sentimento de culpa, mesmo que inconsciente, pelas desigualdades sociais e raciais dessa sociedade. Outros, oriundos de lares desajustados, reflexo da própria guerra e da vida moderna norte-americana, eram incapazes de se enquadrar no estilo de vida americano. [...]


A situação de revolta da juventude forneceu farta matéria para o cinema da época, que criou uma galeria de tipos, desde o delinquente juvenil homicida (ou suicida) até o rapaz bem-intencionado, de boa família, que por forças alheias à sua vontade, era desviado do "bom caminho". Três filmes-chave refletiram com extrema atualidade esse problema. O selvagem, de 1953, com Marlon Brando, descreve os momentos vividos por uma pequena cidade subitamente invadida por um bando de motoqueiros. É, de certa forma, uma parábola do choque entre a sociedade organizada e o potencial "selvagem" de uma juventude sem rumo. Juventude transviada, de 1955, com James Dean, revela os problemas individuais dos "rebeldes sem causa" dos anos 50. Mas é Sementes da violência, também de 1955, que expõe de modo mais didático (o tema do filme é a educação) toda a carga de hostilidade no relacionamento entre a juventude marginalizada e a sociedade. A música que anuncia o filme é "Rock around the clock", o primeiro grande hit do rock' n' roll e um verdadeiro hino de guerra dos adolescentes de então. Essa música também é utilizada como uma referência ao conflito entre professores (que representam as regras estabelecidas pela sociedade) e alunos, numa cena altamente simbólica em que os jovens rebeldes quebram toda a coleção de discos com que o bem-intencionado mestre tenta iniciá-los no jazz tradicional.

[...]

A partir dos personagens desses filmes, o cinema conseguiu retratar os dilemas de uma geração, ao mesmo tempo que ofereceu um modelo visual e ideológico para a juventude dos anos 50.

O ídolo da época foi James Dean, que fez os jovens do mundo todo imitarem suas caretas, trejeitos, roupas e corte de cabelo. [...]

O mito cinematográfico James Dean simbolizava tudo o que era jovem, moderno, norte-americano e diferente. Ele inspirava o traje (uniforme) dos jovens, que, com seu jeans apertado e sua jaqueta de couro preta, adotavam uma atitude de rebeldia contra a sociedade consumista, de resistência contra as rígidas convenções sociais do universo adulto, e se entregavam à violência, às bolinhas, ao rock' n' roll e às experiências sexuais.

Não é coincidência o fato de James Dean e o rock' n' roll terem invadido a imaginação do jovem dos anos 50. Esses dois elementos expressavam uma mudança no universo de valores da juventude, algo que esse público não entendia completamente, mas a que intuitivamente aderia, e que a indústria cultural da época começava a explorar na forma de mercadoria. [...]

Mas nem só de jovens transviados e rock' n' roll viveram os anos 50. A Guerra Fria e a cultura de consumo não contribuíram apenas para um sentimento de inquietação em relação aos adolescentes; elas também favoreceram o surgimento de um pequeno grupo de jovens universitários que, através de um movimento literário, tentavam oferecer um estilo de vida alternativo ao mundo materialista da sociedade norte-americana.

Em 1957, com a publicação de On the road (Pé na estrada), de Jack Kerouac, eclodiu no mundo burguês da América de Eisenhower um perturbador fenômeno que Kerouac chamou de beat. Esse termo podia sugerir a busca de uma "purificação do espírito" (beatitude), com influência das religiões orientais (budismo, zen-budismo etc.). Também se referia a um estilo de vida aventureiro adotado pelos que, sem eira nem beira, andavam à deriva pelas estradas da América, em busca de aventura, aproveitando-se da opulência material do estilo de vida americano. Por último, tinha ainda conotações musicais referentes ao be-bop e ao cool jazz.

Ser beat, por extensão, significava fluência, improviso, ausência de normas preestabelecidas na vida e na arte. Significava também a busca de um envolvimento profundo que traz música, balanço, liberdade e prazer, na procura da realidade marginal das minorias raciais e culturais no interior da sociedade norte-americana.

Dessa forma, o termo "geração beat" (beat generation), assim como a cultura produzida por ela, não designa um movimento estético-literário organizado em torno de um programa de objetivos preestabelecidos, mas refere-se a poetas e escritores (Jack Kerouac, William S. Burroughs, Allen Ginsberg, Lawrence Ferlinghetti, Gregory Corso, Gary Snyder etc.) que, em constante deslocamento, viviam a América dos anos 50.

[...]

Aparentemente afastados do rock (os beats nunca esconderam sua aversão pelo rock' n' roll adolescente dos anos 50), os autores beats seriam de grande importância para o rock dos anos 60, influenciando músicos como Bob Dylan, John Lennon e Jim Morrison, dados aos temas críticos do estilo de vida americano: drogas, bebedeiras, sexo livre, visões cósmicas, utopias e o cotidiano. Pode-se dizer que os poetas e escritores beats tentaram fazer a ligação direta entre a arte e a vida no mundo moderno, antecipando um dos princípios básicos dos movimentos jovens dos anos 60, que era obedecer aos instintos de uma cultura alternativa ligada ao cotidiano, independentemente do reconhecimento da cultura oficializada pela sociedade.


BRANDÃO, Antonio Carlos; DUARTE, Milton Fernandes. Movimentos culturais de juventude. São Paulo: Moderna, 2008. p. 26-34.

NOTA: O texto "A cultura jovem dos anos 50: do rock' n' roll à geração beatnik" não representa, necessariamente, o pensamento deste blog. Foi publicado com o objetivo de refletirmos sobre a construção do conhecimento histórico.


quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

Cultura e política no Brasil contemporâneo

O fenômeno da globalização tem aproximado povos das mais diferentes culturas, numa sociedade internacionalizada por uma sofisticada rede de comunicações. Não é só a economia que caminha para uma integração cada vez maior do mercado: também no campo da cultura essa integração tem acontecido. No entanto, entramos nesse processo como um país dependente, cujo poder de decisão está subordinado à vontade dos grandes organismos internacionais. Nossa dívida externa e nossa dependência de capitais externos são fortes indicadores das dificuldades de nos libertarmos dessa sujeição. Se os sinais de que o Brasil está integrado ao sistema internacional são evidentes, são também muito claros os percalços e dificuldades que isso acarreta.

O crescimento do setor de serviços, responsável por mais da metade da riqueza gerada no país, revela que o capitalismo brasileiro passa por importantes transformações. A cultura se transformou definitivamente em uma mercadoria: a famosa indústria do lazer prospera, o turismo aparece como uma das alternativas para promover o desenvolvimento do país. Embora o crescimento industrial continue sendo muito importante, a economia tornou-se um complexo campo de atividades no qual o setor financeiro desempenha papel central.

Além do mais, multiplicaram-se os shoppings centers, verdadeiras ilhas de prosperidade. São o templo da convivência social - substituindo as praças -, lugar privilegiado do consumo de mercadorias. Lá se encontram as tradicionais casas de comércio, os cinemas, as praças de alimentação. Seu sucesso entre as elites econômicas acabou estimulando investimentos em centros destinados a outros grupos sociais com menor poder aquisitivo, mas servidos por um sistema de crédito pessoal atraente.

Shopping center em Curitiba.

As grandes redes de televisão tornaram-se as principais incentivadoras da sociedade de consumo: criam novos hábitos de consumo, lançam modas fugazes, divulgam novidades estrangeiras. Suas imagens sedutoras informam sobre um mundo que não cessa de inovar. A TV Globo consolidou sua condição de líder de audiência: suas novelas e noticiários são responsáveis diretos pela formação da opinião pública. O gosto musical sobre a interferência da mídia, que divulga à exaustão as trilhas sonoras das novelas, as duplas sertanejas de plantão, os conjuntos de música baiana ou outro ritmo qualquer, supostamente representativo da preferência popular.

O aprimoramento do sistema de comunicações facilita o processo de globalização, ao mesmo tempo que este estimula novos avanços tecnológicos naquele sistema. Os telefones celulares, cuja posse era, no início, sinal de status social, popularizaram-se rapidamente, tornando-se instrumentos de uso cotidiano. Instalaram-se as redes de televisão por assinatura, que atendem aos mais diversos gostos: filmes dos mais variados gêneros, shows, documentários, noticiários. Consumir cultura é uma regra básica dos tempos atuais, e dominar uma língua estrangeira é uma necessidade para profissionais de todos os setores.

REZENDE, Antonio Paulo; DIDIER, Maria Thereza. Rumos da história: história geral e do Brasil. São Paulo: Atual, 2005. p. 636-637.

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

Mídia, cultura pop e guerras da cultura nos EUA

Cena do filme Philadelphia (1993)

As novas tecnologias e as tendências conservadoras na política e na sociedade fortemente influenciaram a produção cultural do fim do século XX. O computador pessoal, a internet (originalmente para uso militar), o e-mail, o VHS, o DVD e a televisão paga, usados regularmente, em 2000, pela vasta maioria dos americanos, revolucionariam muitos aspectos da vida cotidiana, mas não transformaram as estruturas da sociedade. A promessa democrática das novas mídias foi eclipsada por objetivos mais amplos: a busca de mercados e audiências lucrativas resultou na padronização e banalização da cultura, que foi altamente susceptível aos ventos políticos da época.

A mídia, seja nas formas convencionais da imprensa, rádio e televisão, seja na internet, se consolidou em enormes conglomerados, frequentemente em combinação com corporações de outros setores. A corporação General Electric, por exemplo, que produz de eletrodomésticos a armas nucleares, é dona da grande rede de TV NBC. Temendo a retirada dos seus patrocinadores e refletindo os valores dominantes dos governos conservadores, as gigantes da mídia americana limitaram a diversidade do discurso político, desviando atenção do seu próprio poder e criando o que intelectuais de esquerda como Noam Chomsky e Edward Herman chamaram de "manufatura do consentimento". De fato, a mídia fez um papel central no avanço da ideologia neoliberal, argumentando que o "mercado livre" é a melhor maneira de resolver problemas sociais e políticos. Poucas vozes alternativas ou críticas a esse respeito encontram espaço na mídia americana convencional.

A rede de televisão Fox ilustra bem a influência conservadora da mídia na era de Reagan, Bush e Clinton, combinando programação convencional de dramas, comédias e esportes com noticiário francamente conservador. As redes tradicionais de televisão, NBC, CBS, ABC e CNN, mudaram seu conteúdo em resposta aos lucros do seu competidor, evitando a reportagem investigativa e crítica. Durante a Guerra do Golfo, os grandes jornais e redes de televisão se autocensuraram ou seguiram sem contestação as diretrizes governamentais, que bloquearam muita informação sobre a intervenção militar norte-americana. Vários repórteres acabaram demitidos por expressar opiniões críticas. A liberdade de expressão é garantida nos Estados Unidos, mas os principais meios de comunicação tornaram-se fortemente ligados ao governo e às elites políticas na época.

Nos anos 1980 e 1990, as redes de televisão segmentaram suas audiências criando programas específicos para mulheres, negros, imigrantes, residentes urbanos e rurais. Evitaram críticas à sociedade e suas tribulações, geralmente usando formatos convencionais. Na televisão, a diversidade da sociedade começou a ser mostrada: novos seriados passaram a abordar histórias de alguns negros, lésbicas, gays e mulheres solteiras. As vidas dos trabalhadores americanos, porém, foram negligenciadas: a vasta maioria dos personagens na televisão passou a retratar somente a classe média e alta, como se trabalho, aflição econômica e conflito social fossem invisíveis. No encalço dos anos 1960, quando a questão do aborto foi tratada na comédia Maude em 1972, a rede CBS apresentou o episódio apesar de protestos; em 1991, quando a personagem principal da comédia Murphy Brown estava decidindo se queria levar adiante a gravidez, o show se tornou uma controvérsia nacional, com o vice-presidente dos Estados Unidos, Dan Quayle, "aconselhando" a personagem a não fazer o aborto e criticando a falta de moralidade na televisão. A "vida negra" nos Estados Unidos foi retratada principalmente por meio de seriados como o Cosby Show, que conta a história de uma família de classe média alta, tocando superficialmente nas questões raciais que os negros enfrentavam no país. O escapismo e a celebração pouco sutil do "jeito americano de viver" não haviam mudado muito desde os anos 1950.

Os estúdios de cinema e gravadoras de música popular conseguiram reter a criatividade e o conteúdo social da sua produção cultural no fim dos anos 1970. Para serem ouvidos, músicos tinham poucas opções a não ser a submissão a empresas poderosas como Columbia e Sony. Como as redes de televisão e a indústria de marketing, produziram LP's, fitas e, mais tarde CD's para mercados segmentados por tipo, idade, gênero e raça. Novas formas de música como o punk, o new wave e o rap foram rapidamente incorporadas e suavizadas pela indústria cultural, enquanto a música que trata de temas sociais foi relegada ao segmento de "música de protesto". Hollywood criou megaproduções para audiências em massa, às vezes tratando de assuntos delicados como a aids, como no filme do diretor Jonathan Demme, Philadelphia (1993), mas raramente tomando riscos políticos.

Houve exceções a essas tendências dos meios de comunicação de massa. A mídia alternativa sobreviveu e até se expandiu com a internet. Empresas independentes lançaram produtos cada vez mais sofisticados e frequentemente alternativos. Mesmo as gravadoras gigantescas produziram opções alternativas e inovadoras, como os trabalhos de Bruce Springsteen, Rage Against the Machine, Green Day, Annie DiFranco, Pearl Jam e Nirvana, que chamaram a atenção de muitos americanos com seus temas de rebeldia, desespero e crítica social. Música rap e a cultura hip hop desenvolveram discursos sobre pobreza, racismo e brutalidade da polícia muito contrários ao status quo. Diretores inovadores como David Lynch e John Sayles também tiveram espaço para romper com as fórmulas vulgares de Hollywood. Numa série de documentários de sucesso de público, Michael Moore criticou, a seu modo peculiar, a concentração de riqueza, a hipocrisia política e o militarismo da sociedade americana. Mas para cada filme de Moore ou John Sayles, houve uma dúzia de filmes como Pearl Harbor (2001), do diretor Michael Bay, uma descarada distorção da história americana em favor do conservadorismo.

Nos anos 1990, a nova natureza multicultural da sociedade americana passou a ser o foco de debates chamados "as guerras da cultura". Nos anos 1970, programas de estudo de questões de gênero, afro-americanos, de povos nativos e de outras minorias surgiram nas universidades e começaram ter influência nos currículos do ensino médio e na vida intelectual em geral.

Escritores e pesquisadores tentaram legitimar o pluralismo cultural e investigar a natureza e os limites da chamada cultura ocidental. Resgataram as biografias de artistas e escritores pertencentes a minorias, estudaram a história e as questões relativas às mulheres e à classe trabalhadora em vez de somente estudar "mortos, brancos, homens".

Em contrapartida, grupos conservadores passaram a afirmar que as críticas feitas ao racismo, ao machismo, à homofobia e a alguns aspectos da cultura ocidental representavam elas próprias uma forma de "intolerância". O termo "politicamente correto" - que havia sido cunhado originalmente pela esquerda nos anos 1970, em especial os defensores da liberdade de expressão e da pluralidade cultural - foi apropriado pela direita, nos anos 1980 e 1990, que passou a usá-lo num outro sentido. Tornou-se um termo derrisório empregado para desqualificar os defensores do multiculturalismo, da ação afirmativa e dos novos rumos no pensamento. Chamar alguém de "politicamente correto" significava, agora, insinuar ser essa pessoa louca, radical demais ou, simplesmente, uma verdadeira chata. Atualmente, nos EUA, esse epíteto ainda é um jeito de estigmatizar um argumento ou uma pessoa sem entrar no mérito se as ideias defendidas fazem sentido ou não (por isso, a esquerda norte-americana não adota mais o termo). William J. Bennett, secretário de Educação do governo de Ronald Reagan, foi o primeiro a usar pejorativamente o termo "politicamente correto", que a partir de então, tornou-se a palavra de ordem da "nova direita".

Autores como Allan Bloom, Roger Kimball e E. D. Hirsch escreveram livros de sucesso criticando a "ignorância" e a "imoralidade" dos jovens e culpando os professores da geração de 1960 pelas deficiências juvenis.

O órgão do governo federal, o National Endowment for the Humanities (NEH), que fomenta pesquisas universitárias nos Estados Unidos, passou a aplicar critérios políticos na escolha de projetos a financiar. Dois eventos da época ilustram a mudança do clima político-cultural nos Estados Unidos. Em 1992, o NEH convidou um grupo de historiadores sob a direção do proeminente historiador Gary Nash para redigir o que seriam as diretrizes nacionais para o estudo de História nas escolas do país. A proposta do grupo, que incluiu alguns elementos de multiculturalismo, foi duramente atacada por conservadores culturais e posteriormente rejeitada. Em 1994, o principal museu histórico do país, o Smithsonian, em Washington, organizou uma exibição sobre o lançamento das bombas atômicas contra o Japão na Segunda Guerra Mundial. Os curadores sutilmente incluíram textos com argumentos de historiadores que questionavam os motivos do presidente Truman e evidenciavam as consequências horríveis dos ataques. Por 10 meses, as Forças Armadas, veteranos, políticos e grupos conservadores fizeram uma forte campanha contra o suposto "revisionismo histórico" da exibição, forçando o museu a cancelá-la.

Sean Purdy. O século americano. In: KARNAL, Leandro (org.). História dos Estados Unidos: das origens ao século XXI. São Paulo: Contexto, 2010. p. 271-274.

sexta-feira, 5 de agosto de 2011

Movimento contracultural

"Em maio de 68, éramos um pouco o motor da história e, em vez de sofrermos sua ação, nós a fazíamos. Isto não é tão comum assim."
Jean Pierre Dut'euil, militante francês

Flagrante do Festival de Woodstock, Nova York, agosto de 1969 - Consagração do rock como música-símbolo de um novo tempo.

Os anos 60 colocariam o mundo 'de pernas para o ar'. Sobretudo nos EUA e Europa a juventude reinterpretaria a história e viveria a utopia de transformar o mundo e tomar o poder em suas próprias mãos. Os meios de comunicação fariam emergir o homem planetário e transformariam a Terra em uma enorme 'aldeia global' preparada para o grande 'rito do consumo universal'.

No contexto das grandes mudanças da década a arte irá se libertar de antigos tabus. Violando-a, misturando gêneros e matérias, quebrando a harmonia e a sequência temporal, eliminando a distância entre a obra e o espectador e incorporando os subprodutos da civilização tecnológica às suas formas, a arte representará um dos campos mais significativos da contracultura dos anos 60, palavra inventada pela imprensa norte-americana para denominar o conjunto de manifestações culturais novas que se opunham à cultura vigente, oficializada, das sociedades ocidentais.

Caracterizada pela postura crítica radical a todo convencionalismo e de questionamento aos valores da sociedade de consumo, a contracultura se manifestará como 'anticultura' ou 'cultural marginal', produzindo estilos de vida alternativos.

Ridicularizando a sociedade de consumo e repudiando o mundo da violência, os artistas de vanguarda usarão cores, ruídos, formas, gestos e ritmos para agredir e escandalizar as gerações acomodadas, à medida que também vão contestando e destruindo padrões e valores burgueses.

Essa antiarte, porém, não tardaria a ser absorvida pelo próprio sistema que ela agredia. Devidamente 'domesticada' por ele, era colocada sob a forma de discos, pôsteres, roupas, espetáculos etc., à disposição dos 519 milhões de jovens entre 15 e 24 anos, dos quais uma boa parcela se mostrava suficientemente rebelde para desejar consumi-los.

[...] Herdeiros da guerra fria, de Berlim dividida, da guerra do Vietnã, corrida armamentista e espacial, os 'jovens rebeldes', chamados de hippies, repudiaram os ideais burgueses e toda forma de violência, discriminação, repressão, intelectualismo exagerado, consumismo e massificação.


Woodstock foi também um momento importante na luta dos jovens contra a Guerra do Vietnã e pela paz mundial.

Decepcionados com o presente e descrentes do futuro, negavam o sistema através da música, da droga, como LSD, e da reclusão em comunidades afastadas, onde o amor, o sexo e o corpo eram mais liberados e o contato com a natureza era maior e cuidadosamente preservado. Acreditando no "poder do amor e da flor", buscaram a paz, o prazer, a liberdade e o lúdico, voltando-se para a dança e o misticismo oriental.

Identificavam-se externamente por roupas não-convencionais, cabelos compridos e em desalinho, pés descalços, jeans, botas indianas, linguagem e símbolos específicos e um sentimento de grupo transbordante de emoção.

Essas 'ovelhas negras' das famílias de classe média alta, que em passeatas contra a violência e a discriminação distribuíam flores e sorrisos, escandalizavam mais os conservadores com sua 'aparência desordeira e vida promíscua' do que as 'rosas de Hiroshima' ou o próprio genocídio praticado no Vietnã.

Em 1966 o uso do LSD foi proibido por lei e a repressão andou solta sobretudo em San Francisco (EUA), considerada a capital dos hippies. No dia 14 de janeiro de 1967, em uma manifestação pacífica com 300 mil jovens da América e da Europa, o movimento foi considerado morto e enterrado junto com flores, livros e vários de seus símbolos. Havia lançado, porém, as sementes da contestação ao sistema, que floresceriam sob outras formas nas décadas seguintes. Foram os hippies, por exemplo, os precursores dos movimentos ecológicos, pacifistas e dos estilos de vida alternativos que conhecemos hoje.

ALVES, Júlia Falivene. A invasão cultural norte-americana. São Paulo: Moderna, 1988. p. 99-102.

segunda-feira, 27 de junho de 2011

Globalização e cultura


É possível dizer que o século XXI já se iniciou trazendo consigo um conjunto de mudanças vitais para a vida dos homens. Com isso, não quero dizer que estamos diante de uma ‘nova era’, de uma sociedade ‘pós-moderna’ (...) como se o passado fosse (...) algo para ser esquecido diante da força inovadora do presente. As tradições não desaparecem assim tão facilmente, ao contrário, elas se reatualizam, são reinterpretadas. Mas é preciso entender que as transformações atuais são importantes, e entre elas, gostaria de sublinhar a globalização das sociedades e a mundialização da cultura.

(...) O espaço já não pode mais ser pensado como equivalente ao território que nos circunda. Na verdade, até então falávamos de cultura, desde que a vinculássemos a um território determinado. Quando dizemos ‘cultura nacional’, ‘cultura ocidental’, ‘cultura árabe’, partimos de alguns pressupostos. Nação, Ocidente e árabe são qualificativos que amarram os costumes e os modos de vida a fronteiras precisas. Os objetos, as coisas, as referências culturais encontram-se assim enraizados, eles pertencem a um ‘lugar’. Vivemos hoje um momento de ‘desterritorialização’, no qual o espaço perde a sua especificidade física. Evidentemente, isso é possível devido às conquistas tecnológicas. Telefone, fax, televisão, computadores, aviões etc. são tecnologias que encurtam as distâncias, transformando a própria noção de lugar.

Com isso, os objetos perdem suas idiossincrasias. Qual a origem de carro Mazda, quando sabemos que o protótipo foi desenhado na Inglaterra, a montagem, feita nos Estados Unidos e no México, usando componentes eletrônicos inventados em Nova Jersey, mas fabricados no Japão? Ou de um filme como A casa dos espíritos, adaptação de um romance latino-americano, cujo diretor é nórdico, os atores, americanos e espanhóis, e cujas cenas, rodadas em Portugal, nos dão a ilusão de nos encontrarmos no Chile? Este processo de desterritorialização pode ser compreendido quando nos debruçamos sobre o mundo que nos cerca. McDonald’s, Coca-cola, cosméticos Revlon, calças jeans, televisores, CDs são a sua expressão. Nos pontos mais distantes, São Paulo, Paris, Tóquio, nos deparamos com nomes conhecidos: Sony, Ford, Renault, Vokswagen.

Qual o significado disso? Que pertencemos a uma megassociedade na qual os objetos são partilhados em escala planetária. Eles constituem nossa paisagem, nosso meio ambiente. Sua origem importa pouco, eles envolvem ‘todos’, estão ‘em todos os lugares’.

Por isso é possível dizer que nos encontramos diante de uma cultura internacional-popular que já não mais se enraíza no solo nacional. Os personagens, imagens, situações veiculadas pela publicidade, histórias em quadrinhos, cinema, televisão, constituem o substrato de sua memória. Nela se inscrevem as lembranças de todos. As estrelas de cinema, Greta Garbo, Marilyn Monroe, Brigitte Bardot, cultuadas nas cinematecas, nas televisões a cabo, pôsteres e anúncios, fazem parte de um imaginário coletivo mundial. Nesse sentido, pode-se falar de uma memória coletiva cibernética, banco de dados das lembranças desterritorializadas dos homens. Marcas de cigarros, carros velozes, cantores de rock, produtos de supermercados, cenas do passado ou de science-fiction são elementos heteróclitos, estocados para ser utilizados a qualquer momento. (...) Um exemplo: a juventude, T-shirt, rock-and-roll, guitarra elétrica, ídolos da música pop são elementos partilhados planetariamente por uma determinada faixa etária e, é claro, membros de determinadas classes sociais. Da totalidade dos objetos-souvenirs estocados na memória coletiva internacional-popular, os jovens escolhem apenas alguns para se comunicar. Eles podem assim demarcar sua juvenildade em relação aos outros grupos sociais.

Na sociedade global, a distância não é mais um obstáculo para a comunicação ou produção. (...) A diluição das fronteiras não significa que o mundo tenha se tornado melhor (...). No contexto de uma sociedade que se planetariza, novos tipos de comunicação são possíveis, mas também emergem novas formas de poder.

Existem agentes privilegiados que atuam na formação dessa cultura mundializada. A mídia e as transnacionais são essas forças mais visíveis. Pelo fato de serem transnacionais elas possuem uma amplitude que as ‘velhas’ instituições, como a escola, não alcançavam. O jogo do poder se transforma, mas não se reverte para a realização do indivíduo. Este, um ser solitário desde a modernidade do século XIX, a qualquer preço busca se orientar num mundo contraditório, desterritorializado. Sua liberdade é permanentemente posta em causa, não apenas pelo mercado que se globalizou. Os objetos, as mercadorias, a racionalização da sociedade o constrangem mundialmente, em todos os lugares. ORTIZ, Renato. “Fim de territórios cria novos poderes”. Jornal O Estado de S. Paulo, 30/10/1994, caderno Especial Domingo, p. D-13.